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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Sérgio Godinho - A vida é feita de pequenos nadas


[Verso 1]
(Segunda-feira 
trabalhei de olhos fechados 
na terça-feira 
acordei impaciente 
na quarta-feira 
vi os meus braços revoltados 
na quinta-feira 
lutei com a minha gente 
na sexta-feira 
soube que ia continuar 
no sábado 
fui à feira do lugar 
mais uma corrida, mais uma viagem 
fim-de-semana é para ganhar coragem) 

[Refrão]
Muito boa noite, senhoras e senhores 
muito boa noite, meninos e meninas 
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas 
enfim, boa noite, gente de todas as cores 
e feitios e medidas 
e perdoem-me as pessoas 
que ficaram esquecidas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Somos tantos a não ter quase nada 
porque há uns poucos que têm quase tudo 
mas nada vale protestar 
o melhor ainda é ser mudo 
isto diz de um gabinete 
quem acha que o casse-tête 
é a melhor das soluções 
para resolver situações 
delicadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Repete [Verso 1] e [Refrão]

E o que é certo 
é que os que têm quase tudo 
devem tudo aos que têm muito pouco 
mas fechem bem esses ouvidos 
que o melhor ainda é ser mouco 
isto diz paternalmente 
quem acha que é ponto assente 
que isto nunca vai mudar 
e que o melhor é começar a apanhar 
umas chapadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Ouvi dizer que quase tudo vale pouco 
quem o diz não vale mesmo nada 
porque não julguem que a gente 
vai ficar aqui especada 
à espera que a solução 
seja servida em boião 
com um rótulo: Veneno! 
é para tomar desde pequeno 
às colheradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas.

A música 'A Vida É Feita de Pequenos Nadas', tema do álbum "Pano Crú" (1978) de Sérgio Godinho é uma reflexão poética sobre a rotina diária e as desigualdades sociais. A letra começa descrevendo a semana de trabalho de uma pessoa comum, com dias que se repetem em um ciclo de cansaço e luta. A repetição dos dias da semana simboliza a monotonia e a exaustão do trabalho quotidiano, onde cada dia parece uma batalha a ser vencida.

No refrão, Godinho saúda diversas pessoas, independentemente de suas origens ou condições, e reforça a ideia de que a vida é composta por pequenos momentos e detalhes. Essa saudação inclusiva sugere uma união entre todos, independentemente das diferenças, e destaca a importância de valorizar os pequenos gestos e momentos que compõem a vida.

A música também aborda a desigualdade social, criticando aqueles que possuem quase tudo às custas dos que têm muito pouco. Godinho denuncia a indiferença e a opressão dos poderosos, que preferem silenciar as vozes dos oprimidos. A letra sugere que a mudança é difícil, mas necessária, e que a passividade não é uma solução. A metáfora do 'veneno' servido desde pequeno representa as ideologias e sistemas que perpetuam a desigualdade e a injustiça.

'A Vida É Feita de Pequenos Nadas' é uma canção que mistura crítica social com uma mensagem de esperança e resistência. Sérgio Godinho, conhecido por suas letras engajadas e poéticas, utiliza sua música para provocar reflexão e incentivar a valorização dos pequenos momentos que, juntos, formam a essência da vida.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Como é que os fatores ambientais contribuem para as doenças cardiovasculares na Europa?

Uma em cada cinco mortes por doenças cardiovasculares na UE poderia ser evitada com a melhoria do ambiente, de acordo com um novo relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA).

As doenças cardiovasculares são a causa mais comum de morte na UE, segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia.

Em 2022, mais de 1,7 milhões de pessoas morreram na sequência destas doenças, representando um terço de todas as mortes no bloco nesse ano.

Contribuem também significativamente para a incapacidade, a reforma antecipada e o absentismo, o que diminui a qualidade de vida e reduz a esperança de vida.

Além do custo humano, as doenças cardiovasculares custam à UE mais de 282 mil milhões de euros anualmente devido à diminuição da produtividade e da produção económica, segundo a Comissão Europeia.

Para além das características pessoais, como a idade e o historial familiar, os fatores ambientais também desempenham um papel fundamental nas doenças cardiovasculares.

Na UE, estima-se que factores como a poluição atmosférica, as temperaturas extremas e os produtos químicos causem pelo menos 18% de todas as mortes por doenças cardiovasculares.


Em contraste, a Finlândia e a Suécia registaram as taxas mais baixas, com 9,72% e 10,01%, respetivamente.

A poluição atmosférica causa cerca de 8% das mortes por doenças cardiovasculares na UE por ano, segundo a Rede Europeia do Coração.

As partículas finas — provenientes de fontes como as emissões dos veículos, os processos industriais e a queima de combustíveis fósseis — o dióxido de azoto e o ozono são os três principais poluentes associados às doenças cardiovasculares na Europa.

Em 2022, a Polónia (82,32%) e a Irlanda (81,83%) foram os Estados-Membros com as taxas mais elevadas de mortes prematuras devido à exposição a partículas finas no bloco.

Por outro lado, a Finlândia e a Estónia registaram as percentagens mais baixas, com 5,48% e 11,21%, respetivamente.

A exposição prolongada a estes poluentes contribui significativamente para a mortalidade prematura e para as doenças cardiovasculares crónicas, incluindo ataques cardíacos, AVC e insuficiência cardíaca.

Estima-se ainda que cerca de 66.000 mortes prematuras anuais na UE sejam atribuíveis à exposição ao ruído dos transportes, sendo mais de 30% devido a causas cardiovasculares.

As políticas e regulamentos da UE, que visam combater a poluição atmosférica, estão, no entanto, a surtir efeito. A poluição atmosférica diminuiu em toda a UE, resultando num menor número de mortes prematuras atribuíveis.

Ainda assim, 95% dos residentes da UE, particularmente os que vivem em zonas urbanas, continuam expostos a níveis de poluição inseguros.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A pobreza gera dinheiro para muitas pessoas e sectores, directa e indirectamente.


A pobreza, além de ser um problema social evidente, é também uma fonte de rendimento para muitos sectores. Existem empresas que dependem diretamente da existência de trabalhadores com poucas alternativas e que, por isso, aceitam salários baixos, como acontece na agricultura intensiva, na restauração, nas limpezas, nas plataformas digitais e nas fábricas de têxteis. Sem pobreza, estes setores teriam custos muito maiores e lucros mais reduzidos. Outros negócios lucram com a fragilidade financeira das pessoas pobres, como bancos e financeiras que oferecem crédito caro ou empréstimos rápidos a juros elevadíssimos, explorando a falta de alternativas. Há ainda empresas de segurança privada, alarmes e serviços de vigilância que prosperam em contextos de maior desigualdade, porque a insegurança cresce quando há fraturas sociais profundas.

No setor social e no Estado, a pobreza cria também um grande número de empregos. Assistentes sociais, psicólogos, técnicos de apoio, gestores de instituições, funcionários de programas estatais, ONGs e IPSS dependem da existência de pessoas que necessitam de ajuda. Não significa que estas pessoas desejem que a pobreza se mantenha, mas é um facto que a existência de pobreza sustenta estas estruturas e gera carreiras inteiras. Algo semelhante acontece com organismos internacionais que lidam com desenvolvimento, desigualdade e exclusão, que movimentam grandes orçamentos devido à persistência dessas condições.

A desigualdade também alimenta setores indiretos, como o imobiliário, que beneficia quando muitas pessoas não têm capacidade para comprar casa e acabam presas a arrendamentos caros. Superfícies comerciais, cadeias de fast food e empresas de produtos baratos lucram quando a população tem poucas alternativas, porque consome aquilo que consegue pagar. Ao mesmo tempo, a pobreza é também rentável politicamente. Partidos de diferentes ideologias constroem discursos, programas e mobilizam eleitores em torno da questão da desigualdade, uns defendendo mais apoio social, outros defendendo incentivos ao trabalho, mas todos a usar a pobreza como parte da sua narrativa. A comunicação social também ganha com isto, porque a desigualdade gera histórias, reportagens, audiências e campanhas solidárias.

Em resumo, a pobreza não é apenas uma condição social; é também um elemento estrutural que alimenta mercados, empregos, discursos e modelos económicos. Há pessoas e instituições que trabalham para a combater, outras que lucram indiretamente com ela, mas o resultado final é o mesmo: a pobreza gera dinheiro para muitos, mesmo que traga sofrimento para quem a vive.

Referências:
Estudo da FFMS - A Pobreza em Portugal (2021)
Vidas em fuga da pobreza: a mobilidade social nas classes trabalhadoras em contextos de realojamento
(2007-2010)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso


Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
 
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.

Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."

Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso. 

Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000

Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!

Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente

Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.

Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.

As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?

O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.

O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).

Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.

Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.

Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.

A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.

Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.

Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.

O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.

Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?

Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?

É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.

Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.

Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.

Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A Inteligência Artificial é o maior engodo. Está à vista de todos.


Se eu tivesse sido aluna com power points, IA, tinha fugido - podiam ter tentado medicar-me com ritalina, e aí talvez eu ficasse quieta, dopada. A única coisa que vale a pena nas aulas não é aprender a usar uma tecnologia (ou aprender a mentir sobre ela). É a paixão do conhecimento, é saber que algo era óbvio e afinal é irrelevante, que comichão se dá na barriga a essa hora, ou quando estávamos plenamente convencidos de um argumento e ele se demonstra muito mais complexo, é a ousadia de pensar algo que nunca foi pensado, é pensar juntos, que invenção, senhores, uma aula é uma relação colectiva. Face a face, em diálogo, não a olhar para um quadro, ecrã, é em relação, olhar a olhar, grande parte de uma aula, recorda Dejours, está no corpo, no olhar surpreso dos alunos, entusiasmado do professor, na postura inquieta dos colegas, tudo isso são sinais de sublimação (prazer, sim prazer hoje está associado ao sexo, mas prazer deve estar associado ao trabalho, desejo, desejo de saber mais, desejo de ensinar mais, desejo de criar depois de falhar, errar). Por isso as aulas em U são maravilhosas. Parem de nos enfiar pela goela abaixo - através da imposição de governos - o lucro do Zuckerberg. 

As Plataformas foi a saída da Banca para a crise de 2008 e está a ser a saída prestes a rebentar numa bolha bancária mais apocalíptica. Entretanto, serviu para nos colocar a todos horas por dia a alimentar a IA, exaustos, como o nome de "modernização digital", impedindo-nos de ter serviços públicos. Tudo financiado com impostos nossos nos "fundos europeus" que são impostos nossos.  Nada funciona, estamos exaustos, e o grosso da IA serve para uma coisa - indústria militar. É aí a sua mais eficaz aplicação. Estamos em coma, sem ver o óbvio. Na educação atingiu-se o ponto mais baixo de sempre - a mentira, o plágio, estamos a caucionar como docentes a legitimação da mentira social. Estamos a ensinar a mentir como um acto "normal".

Serviu para nos colocar em situação patéticas online, sem conseguir ser atendido, na educação é a completa catástrofe,  na saúde os erros do algoritmo acumulam-se, recolhemos testemunhos de enfermeiras da saúde 24 que dizem "o resultado do telefonema é um algoritmo errado, nós sabemos porque estamos a falar com o doentes, mas temos x tempo e o algoritmo dá uma conclusão errada e ficamos ali, o que fazer?". Os médicos estão em sofrimento ético, cúmplices com estas práticas. Há robot maravilhosos a fazer cirurgias mas as maternidades fecham, com o financiamento a robots... Uma loucura! Há aeroportos bloqueados, serviços que colapsam. 

E milhões de pessoas todos os dias obrigadas a alimentar estas plataformas, com a cumplicidade de directores "amigos", capatazes de serviço, que obrigam a que professores, médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, jornalistas, designs, arquitetos, passem horas a alimentar com dados gratuitos a sua própria forca. Mais - as plataformas obrigam a que façamos erros, porque elas erram e porque é exaustivo, e esses erros são usados contra quem trabalha como ameaça pelos direcções.  A IA, que tem meia dúzia de donos, trilionários, visa substituir o trabalho humano com garantias de qualidade zero ou perto disso - nada pode substituir  o trabalho real, o engenho, a relação presencial, nem pelo trabalho em si, nem pelas pessoas, que se realizam no trabalho. O que se está a fazer é escravizar milhões. 

A vida tornou- se um inferno, pós-covid. Passamos uma parte esmagadora do nosso dia a fazer tarefas inúteis que consistem em alimentar de dados as plataformas. A subir aulas online já prontas, a dar dados de alunos com avaliações, sumários detalhados, a colocar os trabalhos em detectores de plágio (como se fossemos polícias, e como se não soubéssemos quando eles copiam, mentem ou não sabem).
Já houve colapsos em aeroportos, programação, o ChatGPT acabou de contratar uma equipa de criativos para vender a IA porque a IA não consegue fazer nada critativo.  Trump, cujo apoio vem dos donos da IA e Plataformas, colocou esta semana um vídeo de IA a distribuir merda sobre os mais de 13 milhões de manifestantes. É este o estado a que chegámos. 

Chamam-nos objectores de consciência. Quando eu peço a alunos para ler e escrever um ensaio, há 20 anos que o faço, sem qualquer IA, eu não estou a pedir que ele saiba, estou a fazer com que ele aprenda. Aprenda errando, falhando, juntos. Eu não estou a dar-lhe "competências" mas conhecimento.  Ao fazer o ensaio ele vai-se deparar com a estrutura, como identificar  o tema, o problema, como estruturar argumentos, como corrigir gralhas, como escolher um título, tudo isso é conhecimento que passa de mim para ele, e dele para mim porque é uma relação de ensino-aprendizagem. 

Os donos da IA têm os filhos em escolas sem IA. 

O que se está a fazer com os filhos de quem trabalha, com o dinheiro de quem trabalha, é um gigante processo de expropriação de conhecimento dos filhos de quem trabalha. Da mesma forma que não sabem pregar um prego, andar sem GPS, não saberão pensar, escrever, dialogar, criticar. E por isso não saberão relacionar-se, a violência no namoro não se resolve com uma missa de um power Point sobre respeito, resolve-se nas relações reais de cooperação. Deixo uma nota de optimismo, nas minhas aulas, há quase 20 anos, só avalio por ensaios, escritos e debate oral em seminário, e tenho quase zero de absentismo. Os alunos estão a fugir das aulas power-point. E os professores estão fartos. Só falta organizar esta gente toda para resistir a este colapso ético, e em breve, bolha sistémica. Lê-se copos dos milhões de lucros dos donos destas plataformas, que sugam recursos públicos recorrendo à pilhagem generalizada de direitos de autor. E à nossa exaustão. São ladrões, de facto.

O texto do Dejours chama-se O Teletrabalho à Luz do Corpo está no novo livro do nosso Observatório para as Condições de Vida - OCV Trabalhar e Viver no Século XXI (Humus)

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Abusadores da mama


Portugueses, a hora é grave: há bebés a mamar à conta do patronato até irem para a escola (ao menos, vá lá, não até irem para a tropa). Tudo para mães desviantes abocanharem uma redução de horário no trabalho. Ao que chegámos, compatriotas. Por isso é que isto está como está. Cuspam no chão, em repugnância. Felizmente, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social está à coca. "Infelizmente, temos conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas para dar à trabalhadora um horário reduzido, que é duas horas por dia que o empregador paga, até andarem na escola primária", disse em entrevista ao JN e TSF, no último domingo.

Agora, acabou-se a mama. O Governo propõe-se impor que o atestado médico para aceder à redução de horário, hoje só necessário a partir do primeiro ano de vida do bebé, passe a ser obrigatório desde a nascença e renovado a cada seis meses. O resultado prático, previsível, será diminuir o acesso a este direito, ou impedi-lo de todo. “Vai claramente afetar a sociedade mais vulnerável a nível económico, como é o caso das mães solteiras e vai empobrecer as famílias”, disse à SÁBADO Sara do Vale, da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. Faz hoje mesmo um ano e oito meses, o Estado português criou a Comissão para a Promoção do Aleitamento Materno, com a missão de mais do que duplicar a taxa de aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida do bebé. Agora sabota essa missão, para acabar com a fraude.

Qual fraude? A ministra não explicou, nem o Ministério responde a questões dos jornalistas sobre o assunto, desde domingo. Não há dados, nem provas, nem o mais leve indício publicado que fundamente que o problema existe, muito menos qual a sua dimensão. Há o “temos conhecimento” da ministra. Um achismo autossuficiente que justifica alterar uma política pública sem sequer validar os seus fundamentos ou estudar os seus impactos.

O Governo anda a prometer, e bem, desburocratizar e simplificar o funcionamento do Estado para facilitar a vida a investidores e empresas. Mas, quando se trata de direitos sociais, cria obrigações acrescidas de provas, papéis e carimbos de seis em seis meses para infernizar a vida de todos, a cavalo de umas vagas fraudes cuja dimensão, ou sequer existência, nem se maça a demonstrar. O Estado ágil e descomplicado é para quem possa pagá-lo.

Na verdade, não surpreende ver a ministra da Solidariedade mais empenhada na solidariedade corporativa do que na solidariedade social. Maria do Rosário Ramalho é hoje o exemplo mais gritante de uma cultura de conflitos de interesses que há muito permeia a política e se instalou no Governo. A sua família direta ilustra de forma eloquente um mercado de influências que une poderes públicos e privados e se banqueteia nos favores da lei. Ramalho, convém lembrar, é o apelido do gestor António Ramalho, marido da ministra, com profícua carreira, quer no setor público, quer no privado. Passou pela Infraestruturas de Portugal antes de aterrar no Novo Banco, de que foi CEO no período em que o “banco bom” do BES, comprado pelo fundo abutre da Lone Star, se serviu de 3,4 mil milhões de euros do Fundo de Resolução.

Sugado o filão das garantias públicas, Ramalho deu por concluído o seu serviço aos cobóis do Texas, que agora empocharam 4,8 mil milhões com a venda do Novo Banco. Ainda passou por uma consultora que o próprio havia contratado, na mesma lógica de porta giratória em que construiu o seu currículo, antes de uma passagem fulgurante pela Cruz Vermelha Portuguesa. Em maio, voltámos a vê-lo num lugar-chave: a presidência da Lusoponte, precisamente no momento em que a concessionária das pontes 25 de Abril e Vasco da Gama começa a negociar com o Governo uma eventual extensão da concessão (ou um novo concurso) para construir a terceira (e quem sabe a quarta) travessias, já anunciadas pelo Governo. Ramalho parte para essa negociação com a experiência que traz do lado público, na Infraestruturas de Portugal, e com o conforto de ter a esposa sentada à mesa do Conselho de Ministros. Como se não bastasse, a sua filha, Inês Ramalho, é vice-presidente do PSD. Entre pai, mãe e filha, a tríade Ramalho está instalada, simultaneamente, no concessionário, no Governo e no partido.

Depois dos dois anos, estranhou a ministra, “acho difícil de conceber” que uma criança continue a precisar de leite materno durante o horário de trabalho. Já um banco ou uma concessionária precisam da amamentação do contribuinte durante muito mais tempo do que isso. As prioridades públicas no combate aos abusos ficam claras. Acautelem-se, mães e bebés: a mama não é para todos.

E as Misericórdias roubam que se fartam. Roubam aos utentes, roubam aos municípios, roubam à Segurança Social. 

terça-feira, 22 de julho de 2025

Editors - No Harm


I'll boil easier than youCrush my bones into glueI'm a go-getterThe system's in redThe room is inbredI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
My children despise my wonderful liesI'm a go-getterI see through your wallsAnd your space down your hallsI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
The fever I feel, the fake and the realI'm a go-getterMy world just expandsThings just break in my handsI'm a go-getter
Don't hold no harm

A música 'No Harm' da banda britânica Editors explora a complexidade da ambição e as suas consequências. A letra é introspectiva e revela um eu-lírico que se autodenomina um 'go-getter', alguém que busca incessantemente alcançar seus objetivos, mesmo que isso signifique enfrentar adversidades e sacrifícios. A expressão 'I'll boil easier than you, crush my bones into glue' sugere uma disposição para suportar dor e sofrimento em nome de suas ambições, destacando a resiliência e a determinação do personagem.

A repetição da frase 'Don't hold no harm' pode ser interpretada como um mantra de autoafirmação, uma tentativa de minimizar ou justificar os danos causados por suas ações. O eu-lírico parece estar em conflito com as repercussões de sua busca incessante pelo sucesso, reconhecendo que suas 'maravilhosas mentiras' são desprezadas pelos seus filhos. Isso sugere uma reflexão sobre os custos pessoais e familiares de sua ambição, trazendo à tona a tensão entre o desejo de realização pessoal e as responsabilidades sociais e emocionais.

A música também aborda a percepção da realidade e a distinção entre o falso e o verdadeiro, como evidenciado na linha 'The fever I feel, the fake and the real'. O eu-lírico parece estar ciente das ilusões e das verdades que permeiam sua vida, e essa consciência contribui para a expansão de seu mundo, embora as coisas 'quebrem em suas mãos'. Essa metáfora pode simbolizar a fragilidade das conquistas materiais e a efemeridade do sucesso, reforçando a ideia de que a ambição, embora poderosa, pode ser destrutiva e insustentável a longo prazo.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Chaves para atrair os nossos jovens talentos, mantê-los no nosso País e outros a regressar Portugal

Portugal precisa acreditar mais no potencial empreendedor dos jovens. A falta de espírito empreendedor mata a inovação, a geração de empregos, a capacidade enriquecimento da população como um todo. Enfim, a solução não está no Estado, mas nas pessoas.


O empresário tem que trabalhar para tornar a sua empresa num ambiente amigável, motivador e positivo para todos os seus empregados. E tenha em mente as chaves que atraem e satisfazem especialmente a Geração Z e Millennials. Reuni o plano de ação em dez áreas muito práticas.
1. Assegurar horários de trabalho flexíveis
Os jovens de hoje não compartimentam as suas vidas, eles vivem-nas como um todo. É por isso que os horários fixos os estão a restringir e a repelir. Têm de se sentir no controlo do seu tempo e definir o seu dia de trabalho de acordo com as suas necessidades e circunstâncias pessoais. Isto permite-lhes conciliar o trabalho com a sua vida privada, satisfazer o seu desejo de outras experiências fora do trabalho e sentir-se muito mais felizes no dia-a-dia. Como resultado, a sua motivação e empenho são melhorados. Sempre que possível, não tente restringir as suas almas livres ou deixarão de ser criativos, produtivos e envolvidos.

2. Apostar no teletrabalho
O tempo é mais do que dinheiro para eles. Consideram-no o seu bem mais precioso. Eles não estão dispostos a perdê-lo ou desperdiçá-lo. Também o sabe, a deslocação pendular – especialmente em algumas grandes cidades – é um ladrão de tempo e experiência. É por isso que preferem evitá-los e trabalhar a partir de casa sempre que possível. Acolhem bem as fórmulas híbridas, mas não estão dispostos a abdicar desses momentos únicos por uma mera rotina. Portanto, o teletrabalho é um bem inquestionável para eles. Preferem ir fisicamente à empresa apenas em caso de necessidade. A sua empresa está preparada para satisfazer esta procura fundamental para atrair jovens talentos?

3. Oferecer numerosas oportunidades pessoais
Eles querem crescer, desenvolver-se e evoluir, e estão conscientes disso diariamente. Assim, a sua organização deve tornar-se uma fonte permanente de novas possibilidades de crescimento e desenvolvimento. É um fator de diferenciação fundamental quando escolhem uma empresa em detrimento de outra. O conformismo é alheio à sua natureza. Eles querem melhorar como profissionais enquanto fazem o seu trabalho.

4. Pagar uma remuneração justa e necessária
Todos nós trabalhamos para ganhar dinheiro. No entanto, a vida dos jovens de hoje não gira apenas em torno do trabalho. Trata-se de uma mudança de atitude muito clara e inegável. É por isso que não estão satisfeitos com um salário que lhes permita satisfazer as suas necessidades básicas. Eles também querem viajar, divertir-se, conhecer pessoas interessantes, socializar e ser felizes. Não é surpreendente, portanto, o facto de termos mencionado alguns parágrafos atrás: a maioria deles está a planear mudar de emprego dentro de dois anos. E a melhoria do seu salário é uma das principais razões.

5. Praticar a remuneração emocional
No entanto, a secção anterior não é apenas económica. Estes profissionais também valorizam muito outros complementos não monetários para a sua remuneração. Por exemplo, são estimulados por seguros médicos, descontos em ginásios, lojas ou infantários, viagens gratuitas…

6. Ser uma referência para a inclusão, diversidade e tolerância
Se não partilharem a essência da empresa, desistirão dela. Aspetos como a tolerância, diversidade e inclusão são pilares da sua existência e da sua forma de pensar. Não toleram a desigualdade e a injustiça, e não perdoam aos seus empregadores por isso. Exigem que todas as pessoas tenham igualdade de oportunidades na sua empresa. Independentemente da sua origem, etnia, sexo, idade e preferência sexual.

7. Proporcionar formação inovadora e personalizada
Lembre-se desta ideia: eles querem melhorar, desenvolver-se e crescer como um todo. Eles precisam de aprender coisas novas. Se eles sentirem que isto não está a acontecer, os jovens abandonarão a empresa. Por isso, implementar uma estratégia global para estimular e reforçar o talento. A formação mais recente tem de ser uma parte regular do seu trabalho. Deve ser adaptado às características específicas de cada empregado.

8. Gerar contactos e networking
De volta à órbita do desenvolvimento profissional, todos nós sabemos que a nossa rede de contactos é essencial. Os jovens também estão cientes disto. Encontrar pessoas importantes, esfregar ombros com referências sectoriais, ter líderes estimulantes e aproveitar as sinergias derivadas é muito estimulante e atrativo para estes profissionais. Não hesite em encorajar este clima de inter-relação e facilitar estes contactos.

9. Criar e consolidar um ambiente de trabalho positivo
Os jovens de hoje são sociais, solidários e de espírito aberto por natureza. E, não se esqueçam, são experienciais e hedonistas. Se não se sentirem à vontade com o ambiente e a relação com os colegas, despedir-se-ão do trabalho. Deve fomentar uma cultura de empresa baseada na colaboração, comunicação, tratamento impecável e um bom ambiente. A interfuncionalidade, a escuta empática e a preocupação sincera com as pessoas são valores essenciais para recrutar este talento e mantê-los à vontade.

10. Recrutar os melhores
O recrutamento de jovens talentos alimenta-se a si próprio. Se contratar trabalhadores brilhantes – zetas ou milenares – e os fizer sentir-se bem, eles atrairão os seus pares. Há muitas empresas com um espírito jovem, atual, renovado, empenhado e motivador para este segmento da força de trabalho. Todos eles têm uma equipa humana que é uma referência, facilitadora e admirável para os jovens de hoje.

É o primeiro passo: recrutar os melhores. Então a sua organização deve acolhê-los, acompanhá-los, motivá-los, estimulá-los e encorajá-los a atuar no seu melhor. Quando se trata de jovens talentos, a questão é ainda mais exigente. Porque este sector da população é muito mais fiel às suas expectativas, critérios e desejos do que os seus anciãos. Se quiser continuar a beneficiar deles, tem de os fazer sentir realizados, reconhecidos e altamente valorizados. Além disso, é preciso contribuir para os tornar mais felizes.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

A riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.



Um relatório divulgado esta quinta-feira pela Oxfam Internacional concluiu que a riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.

No documento "Do lucro privado ao poder público: Financiar o desenvolvimento, não a oligarquia", a organização não governamental (ONG) denunciou que a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 33,9 biliões de dólares (cerca de 29 biliões de euros) em termos reais desde 2015, quando foram acordados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O montante seria o suficiente para acabar com a pobreza anual 22 vezes, denunciou a ONG, no relatório publicado no âmbito da preparação da Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que se realiza na próxima semana em Sevilha, no sul de Espanha.

Esta nova análise revelou um "aumento astronómico" na riqueza privada entre 1995 e 2023, com um crescimento de 342 biliões de dólares (296,4 biliões de euros), oito vezes maior que o da riqueza pública.

O documento acusa os governos ricos de estarem a fazer os maiores cortes na ajuda ao desenvolvimento, "algo essencial para a sobrevivência", desde que os registos de ajuda começaram em 1960.

"A riqueza de apenas três mil multimilionários aumentou 6,5 biliões de dólares [5,63 biliões de euros] em termos reais desde 2015 e representa agora o equivalente a 14,6% do PIB mundial", afirmou a ONG.

A análise argumentou ainda que só os países do G7 (grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo), que representam cerca de três quartos de toda a ajuda oficial, estão a reduzi-la em 28% até 2026, em comparação com 2024.

Ao mesmo tempo, a crise da dívida "está a levar à falência os países pobres, que estão a pagar muito mais aos seus credores ricos do que podem gastar em salas de aula ou hospitais".

O relatório também examina o papel dos credores privados, que "representam mais de metade da dívida dos países de baixo e médio rendimento, exacerbando a crise da dívida com a sua recusa em negociar e as suas condições punitivas".

"Os países ricos colocaram Wall Street no comando do desenvolvimento global. Trata-se de uma tomada de controlo global das finanças privadas que ultrapassou as estratégias com base empírica, para combater a pobreza através do investimento público e de uma tributação justa", afirmou o diretor-geral da Oxfam, Amitabh Behar.

A Oxfam apelou aos governos para que subscrevam as propostas políticas "que propõem uma mudança radical, combatendo a desigualdade extrema e transformando o sistema de financiamento do desenvolvimento".

Estas propostas incluem:
  1. desenvolvimento de novas parcerias estratégicas contra a desigualdade;
  2. rejeição do financiamento privado como uma "solução milagrosa" para o desenvolvimento;
  3. tributação dos ultraricos;
  4. reforma da arquitetura da dívida, bem como a revitalização da ajuda.
"É tempo de rejeitar o consenso de Wall Street e, em vez disso, dar o controlo aos cidadãos. Os governos devem atender às exigências generalizadas de tributar os ricos e acompanhá-las com uma visão de construção de bens públicos, desde os cuidados de saúde à energia", acrescentou Behar.

A investigação foi elaborada pela empresa de estudos de mercado Dynata, entre maio e junho, no Brasil, Canadá, França, Alemanha, Quénia, Itália, Índia, México, Filipinas, África do Sul, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Em conjunto, estes países representam cerca de metade da população mundial, segundo a Oxfam.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Cultura agredida e análise da situação crítica em Portugal



A semana passada fui a uma aldeia perto do Fundão e perguntei à Sra de uma tasquinha junto ao rio se tinha pão caseiro, disse-me que não porque a proibiram de vender, "ainda na semana passada vieram cá os GNRs e me vasculharam os papéis todos". Numa aldeia que visito sempre perto de Alcobaça há autênticas rusgas da ASAE a exigir que o café pague a taxa de música, de TV, mesmo que seja o único de toda a aldeia e tenha 4 clientes. Esta semana um sindicato de guardas prisionais diz que quer processar o líder anti racista Mamadou Ba por delito de opinião, que consideram difamação por este ter questionado a violência e morte nas prisões. Pedem 4 milhões de euros. E o Partido Fascista Chega anunciou mesmo, no dia 11  que quer expulsar quem se opõe ao patriotismo e ao nacionalismo, quem viola, dizem, os símbolos nacionais - ou seja, querem perseguir as pessoas pela sua ideologia internacionalista e socialista ou de direitos humanos. Na noite do dia 10, na Barraca, teatro de gentes comunistas e de esquerda, em plena hora de jantar, um actor, que interpretava Camões, no centro da cidade de Lisboa, é atacado, entre outros actores, por 30 neonazis, conhecidos da zona, dizem as reportagens, 30 anos depois de ter sido morto à pancada um negro que ia a passear no Bairro Alto, Alcindo Monteiro. Era para celebrar o dia da pátria, 10 de Junho. Os agressores fazem parte do "Sangue e Honra", uma organização internacional de extrema-direira com representação em Portugal. A principal vítima deste grupo foi o ator Adérito Lopes. Foi agredido - com um soco no olho, provavelmente com uma soqueira ou com anéis. Ficou com rasgões na cara e teve de levar pontos. Os mesmos deixaram um papel na porta "Portugal aos portuguezes (com z))". Tudo se passou a menos de 1 km da Esquadra da PSP da Lapa, à hora em que os actores chegavam ao seu trabalho. E a menos de 500 metros do Parlamento. Às 8 da noite.
Ou saímos à rua em defesa dos direitos, liberdades e garantias, ou podemos dizer adeus à liberdade. Pela via eleitoral, Parlamentar, ou pelo ataque directo, a liberdade, o pensamento e até a vida de quem quer viver em democracia está tudo em risco.
Começaram nos imigrantes no Porto e em Lisboa, agora vão à cultura, seguir-se-ão os lideres sindicais e intelectuais. Ontem Trump mandou prender o Vice Presidente dos Sindicatos de Los Angeles, que representa um milhão de trabalhadores.
Só há um caminho, defender nas ruas a liberdade."

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Gabor Maté: “No Ocidente há um vazio profundo, que vem da falta de pertença, da perda de ligação”

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O corpo e a mente são inseparáveis e o modo de vida ocidental põe-nos doentes, diz este médico-pensador. Os seus livros são best-sellers. Um deles chama-se 'No Reino dos Fantasmas Famintos'.
Pedro Rios, Público, 2/05/2025

Ela tinha 27 anos. Era trabalhadora do sexo e tinha VIH. “A primeira vez que consumi heroína foi como um abraço quente e terno”, disse esta toxicodependente de Vancouver ao médico Gabor Maté, que então trabalhava com esta população.
No gueto das drogas de Vancouver, Maté ouviu muitas histórias idênticas. Como a de Nick, viciado em heroína e metanfetaminas, consumidor de drogas “para não sentir a porcaria dos sentimentos” que sentia quando não as consumia; a de Frank, “alma doce”, “solitário heroinómano”, que escreveu num poema que procurava “alívio para a dor”, mas só encontrou um “bilhete de ida num comboio para o inferno”; ou a de Serena, mulher indígena de pouco mais de 30 anos que encontrava nas drogas uma forma de esquecer os abusos sexuais que começou a sofrer aos 7 anos.
São histórias contadas por Gabor Maté em 'No Reino dos Fantasmas Famintos', finalmente publicado em Portugal. Disseram-lhe que o livro humaniza os toxicodependentes, um reconhecimento que “reflecte uma percepção errada fundamental e comum”, a de que os viciados em droga não são realmente humanos como os restantes. “O que impede tantas pessoas de verem isso?”
Com mestria de contador de histórias e apoiado por estudos e pela sua experiência como médico residente da Portland Hotel Society (uma organização sem fins lucrativos que apoia toxicodependentes, dando-lhes alojamento e cuidados médicos), Maté explica que as drogas são o fraco e sempre incompleto consolo de muitos humanos (como Nick, Frank e Serena), preenchendo vazios afectivos que remontam quase sempre à infância, tal como o trabalho, o jogo, a pornografia ou compras são respostas aos vazios de outros. “A nossa sociedade, com pessoas cada vez mais desesperadas para escapar ao isolamento e desânimo das suas vidas quotidianas, está repleta de todos os tipos de dependências, e cada vez surgem mais”, escreve o autor, que, em 2018, foi distinguido com a Ordem do Canadá.
Quando publicou este livro, em 2008, o húngaro-canadiano era já conhecido como especialista em temas como as dependências, o stress, o trauma, o desenvolvimento infantil e o défice de atenção. Os seus livros, as suas palestras e as suas entrevistas chegam a uma multidão de pessoas à procura de respostas num mundo agitado, nervoso, ansioso como elas. No livro que se seguiu, 'O Mito do Normal' (2022), interpreta várias epidemias no Ocidente (como a de obesidade ou de doenças mentais) como, em boa medida, manifestações de uma cultura “doente”, que negligencia que corpo e mente são indissociáveis, que varre para debaixo do tapete os traumas e o stress que carregamos nesse corpo-mente.
Ele que o diga. Conta com frequência que, aos 12 meses, foi temporariamente abandonado pela mãe. Na verdade, a mãe entregou o bebé Gabor a familiares para lhe salvar a vida (o episódio passou-se na Hungria sob o domínio nazi, em 1944, e os Maté são uma família judia). “Vivi aquele acontecimento da única forma como um bebé poderia viver: como abandono”, escreve no livro agora editado em Portugal. O “abandono” ficou como que inscrito nos circuitos cerebrais do médico. Encheu esse vácuo com o serviço a populações vulneráveis, mas também com uma compulsão de compras de CD de música clássica e um vício no trabalho, uma forma de mostrar o seu valor. Por isso, os toxicodependentes de Vancouver reconheciam nele outro “fantasma faminto”.
Trauma é a palavra grega para “ferida”. Escreve em 'O Mito do Normal': “As feridas psíquicas que sofremos são-nos frequentemente infligidas antes de o nosso cérebro ser capaz de formular qualquer tipo de narrativa verbal, como no meu próprio caso. Em segundo lugar, mesmo depois de nos tornarmos dotados de linguagem, algumas feridas são impressas em regiões do nosso sistema nervoso que não têm nada que ver com linguagem ou conceitos; isto inclui áreas do cérebro, claro, mas também o resto do corpo.”
“Por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe?”, diz nesta entrevista ao Ípsilon por videochamada. “Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.”

No 'Reino dos Fantasmas Famintos' foi publicado originalmente em 2008 e chega agora a Portugal. O que o levou a escrever este livro e como o vê hoje, 17 anos depois?
Pensei que seria interessante escrever sobre a experiência de trabalhar em Vancouver, numa zona de grande consumo de droga. Ao pesquisar, espantei-me: não havia um único livro que reunisse histórias de vida das pessoas, a ciência do trauma, a ciência do desenvolvimento do cérebro e da psicologia, e que olhasse para a sociedade. Toda a ciência e a experiência acumulada desde então só validam o que escrevi.
Muitas pessoas disseram-me que este livro lhes salvou a vida. Houve até pais cujos filhos morreram de overdose que vieram ter comigo para me agradecer. E isso também me surpreendeu porque digo no livro que os traumas de infância estão na base da toxicodependência. Esses pais agradecem-me porque compreendem que não os estou a culpar: [o trauma] é multigeracional.
Há vários cépticos da valorização que faz dos traumas infantis para comportamentos como as dependências. Dizem que exagera, que pode haver outras causas.
Em 'O Mito do Normal', voltei a olhar para a literatura [científica] mais recente e aconteceu a mesma coisa: mais provas, mais provas, mais provas. Os cépticos não têm em conta a forma como o cérebro é verdadeiramente programado ou influenciado no seu desenvolvimento pelas experiências emocionais das pessoas — até no útero. Não invento estas coisas. Para mim, nem sequer é controverso.

É muito interessante a forma subtil como passa das histórias de toxicodependentes de Vancouver para a sua própria história de viciado — em trabalho e em compras de CD de música clássica. Escreve que chegou a gastar dois mil dólares em apenas um mês e meio.
Outras pessoas pensam: como é que se pode comparar aos toxicodependentes? Eu respondo que as diferenças entre mim e eles são óbvias, mas as semelhanças é que são interessantes: o impulso, a impotência perante o impulso, a mentira, a batota, a desonestidade, o ignorar de outros aspectos da vida. E os circuitos cerebrais são os mesmos.
Quando contei aos meus pacientes toxicodependentes os meus hábitos, eles não disseram “Como é que te podes comparar?”, mas antes “És igual a todos nós, não és?”.
Onde quer que eu fale, digo às pessoas que as dependências podem ser de drogas, mas também de sexo, jogo, alimentação, compras, trabalho, pornografia, bulimia ou automutilação. Quando perante 8000 pessoas, como aconteceu em Sydney, em Fevereiro, peço que quem tem uma dependência que levante a mão, 7999 levantam. É muito importante que as pessoas percebam que os toxicodependentes não são assim tão diferentes. Apenas sofreram mais, só isso.

As dependências são respostas aos vazios que carregamos?
Quando perguntamos às pessoas não o que está errado com a dependência, mas o que está certo, o que é que ela faz por elas a curto prazo, dizem: “entorpece a minha dor”, “diminui o meu stress”, “faz-me sentir mais vivo”, “dá-me prazer”, “relaxa-me”. São coisas boas. A dependência não é o problema principal, o problema principal é o sofrimento e a dor emocionais, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento, a perda de vitalidade. É esse o vazio de que estou a falar. Ele vem primeiro e as dependências vêm depois. E isso remonta sempre à infância.

Nesta edição de 'No Reino dos Fantasmas Famintos', dá Portugal, onde a posse de drogas para uso pessoal foi despenalizada, como raro bom exemplo nesta matéria. A tendência vai em que sentido?
O que vejo a nível internacional são países a caminhar na direcção oposta. São duros perante o crime e as drogas — como na Hungria, o meu país natal, onde acabaram de aprovar uma série de leis duras [contra a droga], sem estratégia de redução de danos. Nos Estados Unidos e no Canadá, há uma pressão no mesmo sentido.

Do trabalho aos smartphones, porque é que parece haver tantas dependências no Ocidente?
Para sermos justos, temos de dizer que as dependências já existem há muito tempo, muito antes do surgimento da sociedade ocidental. Mas pioraram. É uma questão de necessidades das pessoas. Quando as necessidades de amor, aceitação e pertença são satisfeitas, as pessoas não precisam de se viciar. Nos Estados Unidos, morrem de overdose o dobro das pessoas que morreram nas guerras do Vietname, do Afeganistão e do Iraque juntas, todos os anos. O dobro! O que aconteceu? Nos centros industriais dos Estados Unidos, os empregos foram deslocados para o estrangeiro. Sem empregos, as pessoas perderam um sentido, especialmente os homens da classe trabalhadora, e o seu sentimento de pertença e de propósito. Esta sociedade diz-nos que o nosso significado, o nosso propósito e o nosso valor dependem da nossa contribuição económica ou das nossas posses.
Se olharmos para as culturas indígenas, percebemos que a forma como evoluímos ao longo de centenas de milhares de anos prevê um sentimento de pertença, de comunidade, de carinho, de ligação. Já a sociedade ocidental diz que os seres humanos são individualistas, egoístas, agressivos e interessados em bens materiais. Numa cultura assim, as necessidades das pessoas não são satisfeitas e há um vazio profundo e real, que vem do sentimento de falta de pertença, da perda de ligação.
Isso remonta à infância. As crianças deviam estar com os pais durante anos e anos e anos. [Em sociedades antigas] ficavam com os pais até à adolescência — não apenas com os pais, mas também com a tribo ou o clã. Hoje em dia, os pais têm de abandonar os filhos para ir trabalhar, deixando-os com estranhos. Há uma sensação geral de isolamento, solidão e desconexão, e as crianças não têm o ambiente propício para um desenvolvimento saudável.
E não é só isso. Há indústrias inteiras que se baseiam em dizer-nos que não somos suficientemente bons ou felizes a menos que compremos alguma coisa. Continuam a fomentar este vazio em nós para poderem vender os seus produtos.
Sou pai. Ouvi com frequência que devemos deixar os bebés dormir sozinhos, mesmo que chorem, porque isso dá-lhes “independência”, “maturidade”.
Diga a uma mãe macaca para ignorar o seu bebé. Nesta sociedade, os peritos dizem-lhe para ignorar os seus instintos. Qual é o seu instinto quando o seu bebé está a chorar?

Confortá-lo, abraçá-lo.
Exactamente. Não espanta que as pessoas tenham problemas.

Pais e filhos, corpo e mente e “a destruição das relações tradicionais, da família alargada, do clã, da tribo e da aldeia” (No 'Reino dos Fantasmas Famintos') devido às mudanças económicas e sociais. O seu pensamento denuncia um mundo que promove, de várias formas, a separação. Um neurocientista português, António Damásio, que o Gabor costuma citar, falou no “erro de Descartes”, a separação do corpo e da mente. Ainda estamos nesse mundo cartesiano?
Estamos. Todos os meus livros são sobre isso. Há toda uma ciência que mostra a unidade corpo-mente, ela é evidente, mas nas faculdades de Medicina ensinam-nos que o corpo e a mente são coisas separadas. O médico médio não recebe uma única palestra sobre trauma, apesar de o trauma ser uma influência tão grande na vida e no desenvolvimento das pessoas. Há um fosso entre a ciência e a prática. A prática ainda está presa a essa divisão cartesiana.
E há razões para isso. Se reconhecêssemos, como sociedade, que as emoções das pessoas e a sua fisiologia são inseparáveis, trataríamos as pessoas da mesma forma? Iríamos controlá-las, oprimi-las e manipulá-las? O capitalismo olha para o corpo como uma unidade de produção ou como uma unidade de consumo: está interessado em nós enquanto estivermos a produzir ou a consumir.

Em "O Mito do Normal" dá vários exemplos de atitudes e realidades consideradas normais nas sociedades ocidentais, mas que, segundo diz, criam doenças e disfunções. Pode dar exemplos?
Há certos limites fisiológicos que são normais. Se a sua tensão arterial estiver num intervalo normal, está saudável. “Normal” significa saudável e natural, mas tem outro significado, que é o que quer que seja que costumamos fazer. Numa determinada altura, era normal bater nas crianças — e em muitos países ainda é assim, lá é normal porque muita gente o faz. Mas será que é saudável e natural? Não. É traumatizante para a criança, em todos os casos. É normal nas sociedades ocidentais deixar os bebés chorar e não pegar neles. É normal porque toda a gente o faz. É saudável e natural? Pelo contrário. É normal nas sociedades ocidentais que se diga às pessoas que os seres humanos são egoístas e agressivos. Isso é saudável e natural? Não, não é. É normal ter de fazer um trabalho de que não se gosta? É alienante. É normal no sentido em que se espera que as pessoas o façam. É saudável e natural? Não, é mau para a saúde.

A série televisiva 'Adolescência' levou para o mainstream fenómenos como a cultura incel (“celibatários involuntários” que não conseguem ter relações amorosas com mulheres e que, muitas vezes, as culpam por isso ou as odeiam). Ficou surpreendido com o conteúdo de Adolescência?
É uma série muito poderosa, incrivelmente bem feita. Esses miúdos estão totalmente perdidos no seu próprio mundo e estão desligados dos adultos. E os resultados são desastrosos. Foi por isso que escrevemos este livro [mostra Hold On To Your Kids, co-escrito com o psicólogo Gordon Neufeld], há 20 anos. Faz parte da “normalidade” do mundo moderno o facto de as crianças estarem desligadas dos adultos. Para o desenvolvimento infantil, é um desastre.

Vivemos numa era de “homens fortes” e que desvalorizam ou desprezam a empatia: Donald Trump, Viktor Orbán, Elon Musk… A sua teoria da dependência aplica-se a eles?
Um académico [Robert Hare] que estudou personalidades psicopáticas disse [em 2002]: “Nem todos os psicopatas estão na prisão, alguns estão na sala de reuniões.” Olhemos para algo como o clima. Desde 1970 que tem havido todo o tipo de provas científicas sobre o que estamos a fazer ao clima e as suas consequências. As companhias petrolíferas sabiam-no. Ignoraram a ciência, contrataram cientistas falsos para a negar e políticos para lhes permitirem continuar a destruir a Terra. Bem, isso é sociopatia. [A crise climática] já matou dezenas de milhares de pessoas.
Trump foi uma criança muito traumatizada. Uma vez, ele disse que o mundo é um lugar horrível, onde todos estão contra nós, salve-se quem puder; os teus amigos querem a tua casa, a tua riqueza, a tua mulher. Bem, se é nisso em que acreditamos, quem é que temos de ser? Temos de ser grandiosos, agressivos, manipuladores e egoístas só para nos protegermos. Esta foi a defesa [de Trump].
Nesta sociedade louca, essas pessoas são recompensadas com sucesso. E as pessoas pensam que são fortes e que, por isso, são bons líderes. Mas não são fortes, são apenas agressivos.

Vê vias de fuga para este quadro global?
A história do mundo, incluindo a de Portugal, passa por ciclos. Portugal teve a sua história de repressão e ditadura.
Os judeus, o meu povo, sofreram terrivelmente em vários momentos da História, sobretudo na Europa dos anos 30 e 40. O que é que eles estão a fazer agora? A assassinar os palestinianos! Assassinam-nos! Crianças! É a pior coisa que já vi em toda a minha vida.
A história funciona por ciclos. Penso que estamos a passar por um desses ciclos. O sistema está em dissolução, está em apuros, é cada vez menos capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, e, por isso, elas estão desesperadas por algum tipo de solução, por alguém forte. Projectam as suas necessidades nesses líderes, que são viciados em poder.
Estamos longe dos “fantasmas famintos”, mas é a mesma coisa. O sistema está sempre com fome. Nunca tem o suficiente. Tem de continuar a crescer, a crescer e a crescer. E não importa qual seja o custo. Se precisarmos destruir a Terra, destruiremos a Terra.

Porque é que conta tantas vezes, nos seus livros e nas suas palestras e entrevistas, a história de como foi temporariamente entregue pela sua mãe a alguém que para si, então um bebé de 12 meses, era uma perfeita desconhecida? Isto no contexto da Hungria sob o jugo nazi.
Conto essa história porque é muito comum algum tipo de abandono, talvez não tão dramático como o que me aconteceu. Tantas crianças experimentam a perda de ligação, a perda de carinho, a perda de serem vistas, também de serem compreendidas, a perda de serem abraçadas emocionalmente. Conto a minha história porque quero que as pessoas se sintam normais. Quero que compreendam que somos todos iguais e que o que aconteceu há 80 anos ainda pode aparecer na minha vida. Utilizo essa história para ilustrar o poder ou o impacto da experiência precoce.
É visto como o oposto de Jordan Peterson — curiosamente, também canadiano. Ele vê as coisas de forma diferente. Advoga que castigar crianças é benéfico para elas. Sublinha a importância da ordem e da disciplina férrea. O pensamento de Peterson é hoje particularmente sedutor para homens adolescentes ou adultos.
Peterson fala da raiva que as pessoas têm — e as pessoas estão mesmo zangadas. As pessoas estão zangadas quando estão frustradas — e estão frustradas quando as suas necessidades não estão satisfeitas. Há uma escassez de empregos e de amor neste mundo. E Jordan Peterson aparece a dizer “tens todo o direito de estar zangado porque o problema são estas mulheres que não te amam” ou “o problema são estas pessoas trans que estão a tentar destruir a tua masculinidade”. Ele identifica a raiva — e, quando o ouvimos, notamos que ele está cheio de raiva, a sufocar de raiva — e dá aos seus seguidores um alvo para a raiva. Isso valida-os. Ele não é um psicólogo. É um propagandista político e a direita adora-o.

A raiva é poderosa. Dá-nos uma gratificação, mesmo que temporária. Como as dependências de que fala em No 'Reino dos Fantasmas Famintos'?
Absolutamente. Quando estamos zangados, estamos a gerar poder. É um substituto para a falta de poder que temos na nossa vida. Há uma coisa que ele diz que é verdade: as pessoas devem assumir responsabilidade por si próprias. Mas só se pode assumir responsabilidade quando se compreende realmente o que se está a passar. É isso que tento transmitir.

Foi sionista, mas hoje é um sonoro crítico da política seguida por Israel, antes e depois do 7 de Outubro de 2023, o dia do ataque do Hamas. Haverá poucos sítios mais traumatizados no mundo do que a Palestina. Onde já esteve…
Foi em 1992. Chorei todos os dias. Também estive lá em 2023, seis meses antes do 7 de Outubro, na Cisjordânia, para trabalhar com mulheres que tinham sido torturadas em prisões israelitas.

Que imagens, impressões, sentimentos trouxe de lá?
As pessoas no Ocidente não fazem ideia da crueldade, da opressão, da escuridão, da agressão e da brutalidade da ocupação israelita. Estou a falar de antes do 7 de Outubro. Já dura há décadas e piora todos os anos. É inacreditável! É a pior situação em todo o mundo — há muitas situações más no mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão, mas esta está a acontecer com o apoio e a cumplicidade do mundo “civilizado” e “democrático”. E as mentiras, a hipocrisia e a incapacidade de dizer a verdade ou de informar sobre o que se está a passar.

Vê uma saída?
Como se chama o vosso grande escritor? José Saramago?

Sim.
Li o seu livro sobre Jesus [O Evangelho segundo Jesus Cristo], um belo livro, no ano passado. Portugal pode produzir um Salazar, mas pode também produzir um Saramago, cheio de humanidade e justiça social. E o ser humano é assim. Portanto, eu acredito. Tenho uma certa confiança na verdade. Eu não fazia ideia do impacto que 'Fantasmas Famintos' ia ter, mas ando por todo o mundo e as pessoas dizem-me que o livro salvou as suas vidas. É ensinado nas universidades. Há algo de muito poderoso em dizer as coisas como elas são, em dizer a verdade tal como a entendemos.
Penso que as pessoas têm capacidade para se curar. Penso que as sociedades têm capacidade para se curar. Envolve muito trabalho, muito desânimo, muito sofrimento, mas acho que, no final, é possível. É isso que me faz continuar. Não é uma fé religiosa. É apenas uma espécie de confiança…

É uma fé não religiosa.
É uma fé não religiosa.

Dá entrevistas e palestras, escreve livros. Parece incansável. Dizer o que pensa sobre desenvolvimento infantil, dependências, saúde, a forma como vivemos é uma missão?
[Pega num conjunto de papéis] Isto é um livro de memórias dactilografado que a minha prima escreveu. Ela era psicóloga. E cuidou de mim quando me separei da minha mãe. Foi a família dela que cuidou de mim durante seis semanas. Eu estava muito doente.
Encontrei as memórias dela recentemente, vou traduzi-las do húngaro para si. Quando isto estava a acontecer, em 1944, ela tinha 11 ou 12 anos. E tomou conta de mim com a sua família. E ela diz: “A tosse do Gabor não passava, estava a ficar mais espasmódica e ele com mais cãibras. (...) Não conseguia respirar. Por isso, o meu pai teve de procurar um médico que estivesse disposto a pôr em risco a sua vida.” Porque os médicos estavam proibidos de tratar judeus na Hungria sob o jugo nazi. Isto passa-se em 1944, Janeiro. E ela encontrou um jovem médico, um pediatra. Como é possível que este médico cristão tenha ido ver um bebé judeu? No final, acariciou o meu corpo e disse-me: “Não te preocupes, meu querido. Mais tarde vais pagar-lhes.”
Não conhecia essa história até há pouco tempo. Mas é isso que tenho estado a fazer toda a minha vida: tenho estado a pagar ao mundo. Porque, apesar de toda a tragédia que está nessa história, apesar de toda a tristeza, veja todo o amor que há nela. Imagine a minha mãe a passar-me a um estranho. Quanto amor foi necessário! Imagine uma mulher cristã desconhecida a acolher este bebé judeu. Imagine os meus familiares. Imagine este médico.
A dependência não é o problema principal, é o sofrimento e a dor, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento. É esse o vazio.
Tenho de ser como toda a gente. Acontece que eu sou articulado. E consigo ver coisas e ligações, e isso é bom. Mas, por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe? Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.
Suspeito que veja a natureza humana como intrinsecamente positiva. Mais Rousseau do que Hobbes.
Se pegarmos numa semente de qualquer planta e não lhe dermos sol, nutrição ou irrigação suficientes, como é que a planta vai ficar?

Frágil, como morta.
Pode dizer que é a sua natureza ser assim, mas não é. E se a puser num chão fértil com muitos minerais, luz do sol, água? Eu prefiro não falar da natureza humana, mas de potencial humano e sobre que condições são favoráveis a esse potencial. Sabemos que quando as crianças são bem tratadas, amadas, nutridas, vão ficar bem. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: já foi invejoso ou agressivo?

Sim.
E como se sentiu?
Como se estivesse em piloto automático, sem pensar no que estava a fazer.
E depois disso, o que sentiu?
Uma espécie de ressaca. Remorsos.
E já foi generoso e gentil?
Sim.
E como se sentiu?
Bem.

É a sua natureza, de facto. A questão é que condições a podem fazer florescer.
As primeiras palavras de 'O Mito do Normal': “Na sociedade mais obcecada pela saúde de sempre, nem tudo está bem. A saúde e o bem-estar tornaram-se uma fixação moderna.” Descreve o “dilúvio diário” de notícias ou conteúdos virais a promover modos de “auto-aperfeiçoamento”. “Tomamos suplementos, inscrevemo-nos em estúdios de ioga, mudamos de dieta em série, pagamos testes genéticos, estratégias para prevenir o cancro ou a demência, e procuramos aconselhamento médico ou terapias alternativas para doenças do corpo, da psique e da alma. E, no entanto, a nossa saúde colectiva está a deteriorar-se.” A que se deve este aparente paradoxo?
Quanto mais doente for uma sociedade, quanto mais desesperadas estiverem as pessoas, mais elas querem ser saudáveis. 70% dos adultos americanos tomam um medicamento. Comem lixo! A cultura vende-lhes lixo para comer! E o stress aumenta por causa dessa comida. Claro que as pessoas estão desesperadas por serem saudáveis. Mas não estão à procura das causas, estão só a ver os efeitos.
O mesmo sistema que promove produtos prejudiciais vende produtos para contrariar os seus efeitos?
É um sistema brilhante.

Disse há instantes que o “sistema está em dissolução”, “em apuros”. Mas ele parece particularmente resistente.
É extraordinariamente resistente — mas a que custo? À custa do ambiente, pondo em perigo a existência humana. À custa do sofrimento que impõe em todo o mundo, à custa de deixar o povo doente. O sistema só quer sobreviver, como uma fera. A razão pela qual não só os meus livros, mas outros livros sobre trauma e outros temas, são tão lidos hoje em dia é precisamente porque as pessoas estão à procura de respostas."