- A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
- A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
- A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.
Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
- Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
- Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
- Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
- A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
- A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
- Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
- Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
- Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
- Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
- Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
- Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
- Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
- Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
- Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.
- Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
- Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
- IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
- IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
- Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
- Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
- Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
- Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.








