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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Tecnofascismo e carbofascismo: as novas formas de dominação do poder contemporâneo e o fim da política tradicional


Resumo
A reconfiguração geopolítica e sociotécnica do século XXI impõe a necessidade de ultrapassar as molduras teóricas herdadas da modernidade. Este ensaio desenvolve uma análise crítica sobre como a intersecção entre o tecnofascismo e o carbofascismo constitui a arquitetura de poder dominante do nosso tempo. Argumenta-se que, enquanto o tecnofascismo rege a subjetividade humana através de ecossistemas algorítmicos e do capitalismo de vigilância, o carbofascismo assegura a reprodução material do capital fóssil e a inércia sistémica perante a catástrofe ecológica. Perante esta aliança estrutural, o espetro político convencional (Esquerda e Direita institucionais) revela-se incapaz de resposta, resultando numa anestesia política generalizada.

1. Introdução: O Diagnóstico do Poder Contemporâneo
A teoria política clássica acostumou-se a definir o poder através da coerção estatal exercida dentro de fronteiras soberanas, medida pelo monopólio da violência legítima (Weber) ou pelas instituições disciplinares (Foucault). Contudo, o cenário contemporâneo apresenta um deslocamento fundamental: o exercício do controlo transicionou para mecanismos de modulação comportamental invisível e para a preservação forçada da infraestrutura energética de combustíveis fósseis.
A tese central deste ensaio assenta na premissa de que o poder atual é estruturado por dois eixos complementares:
1. O eixo imaterial/algorítmico (Tecnofascismo), que captura a atenção, atomiza a sociedade e modula o comportamento do cidadão;
2. O eixo material/extrativista (Carbofascismo), que impõe a continuidade do modelo fóssil, sacrificando a estabilidade ecomaterial do planeta em prol da acumulação de capital.

A convergência destas forças gera um nó cego institucional, no qual as vias tradicionais de representação política e reivindicação social se tornam obsoletas e inoperantes.

2. O Tecnofascismo e a Modulação Digital do Comportamento
O conceito de tecnofascismo descreve a consolidação do poder de corporações multinacionais de tecnologia (Big Tech) que operam além da soberania dos Estados e redefinem a esfera pública. Esta forma de dominação não necessita do terror físico tradicional dos regimes autoritários do século XX; em vez disso, atua por via da submissão voluntária e do condicionamento psíquico.

2.1. O Capitalismo de Vigilância e a Ilusão de Autonomia
Como analisa Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), o capitalismo digital opera através da apropriação unilateral da experiência humana privada, convertida em "excedente comportamental" (behavioral surplus). Este excedente é alimentado a sistemas de inteligência artificial desenhados para prever e modificar ações futuras.
Nesta arquitetura:
  • A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
  • A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
  • A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
2.2. A Substituição da Esfera Pública pelo Algoritmo
O filósofo e sociólogo Evgeny Morozov alerta para o perigo do "solucionismo tecnológico" — a ideia de que todos os problemas complexos da sociedade podem ser resolvidos por algoritmos e otimização de dados. O tecnofascismo manifesta-se precisamente quando a mediação algorítmica substitui o debate deliberativo democrático. O cidadão deixa de ser um sujeito político ativo para se tornar um ponto de extração de dados e um recetador passivo de estímulos otimizados para maximizar o engagement.

2.3. A Monetização da Intolerância (Bigotry) como Mecanismo de Dispersão 
A eficácia do tecnofascismo reside na capacidade de rentabilizar e amplificar a intolerância e o preconceito (bigotry). Dado que as arquiteturas algorítmicas priorizam métricas de reação emocional imediata, o discurso de ódio e a menorização do "outro" tornam-se mercadorias de alta rentabilidade. Esta dinâmica converte fraturas sociais profundas em mero espetáculo reativo, garantindo que o ressentimento popular seja drenado contra minorias vulneráveis em vez de se dirigir à infraestrutura material do capital fóssil e corporativo.

3. O Carbofascismo e o Imperativo do Capital Fóssil
Se o tecnofascismo domina a dimensão psíquica e informativa, o carbofascismo comanda a infraestrutura material da sobrevivência humana. O termo descreve a aliança coerciva e institucional entre o setor dos combustíveis fósseis, o capital financeiro e as elites políticas governamentais para manter a hegemonia do carbono a todo o custo.

3.1. A Dinâmica do Capital Fóssil
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.

Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
  • Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
  • Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
  • Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
4. A Obsolecência da Geometria Política Tradicional: Esquerda e Direita Institucionais
Um dos pontos centrais da análise reside na constatação de que as categorias políticas tradicionais perdem utilidade concetual e prática no contexto atual.

4.1. Limitações da Esquerda e Direita Institucionais
Tanto o centro-esquerda como a direita liberal ou conservadora continuam a operar dentro do paradigma do crescimento económico infinito e da gestão do Estado-Nação do século XIX:
  • A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
  • A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
4.2. A Incompetência perante o Poder Transnacional
Tanto o complexo Big Tech como o Big Oil funcionam através de redes transnacionais imunes à legislação dos Estados singulares. A representação partidária tradicional promete soberania popular através do voto, mas defronta-se com corporações que determinam os preços da energia, controlam os fluxos de informação e contornam a fiscalidade nacional. O ato eleitoral torna-se, assim, um ritual de legitimação impotente perante lógicas que não respondem ao sufrágio universal.

5. Anestesia Política, Paralisia Social e a Ineficácia das Formas de Luta Clássicas
A convergência do bloqueio ambientalista e da alienação digital resulta num estado de exaustão psíquica e paralisia coletiva.

5.1. A Carga Cognitiva e a Ecoansiedade
O fluxo contínuo de informação catastrófica sobre as crises globais - desde o colapso climático ao avanço desregulado da inteligência artificial - sobrecarrega o sistema nervoso dos indivíduos. Estudos na área da psicologia social e relatórios ambientais indicam que o excesso de alarmismo sem canais eficazes de transformação gera:
  • Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
  • Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
  • Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
5.2. A Perda de Eficácia das Formas de Reivindicação Tradicionais
Historicamente, as grandes conquistas sociais foram obtidas por via da greve, da manifestação de rua, da organização sindical e do debate partidário. Hoje, contudo, observa-se uma desarticulação destas ferramentas:
  • Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
  • Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
  • Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
6. Conclusão: Horizontes para Além da Anestesia
O diagnóstico formulado demonstra que o tecnofascismo e o carbofascismo não são desvios temporários, mas a forma consolidada do capitalismo tardio. Eles sustentam-se mutuamente: os ecossistemas digitais dispersam e anestesiam a resistência social necessária para interromper a trajetória de devastação ecológica imposta pelo capital fóssil.

Superar este estado de paralisação exige um reconhecimento claro da falência dos métodos de reforma gradualista. A construção de alternativas políticas eficazes para o século XXI exigirá:
  1. Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
  2. Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
  3. Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Apenas ao confrontar simultaneamente a infraestrutura do carbono e a mediação algorítmica da atenção será possível resgatar a política da sua anestesia atual e devolver ao corpo social a capacidade de autodeterminação.

Shoshana Zuboff explica o Conceito de Capitalismo de Vigilância
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.

Referências Bibliográficas
  1. Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
  2. Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
  3. IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
  4. IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
  5. Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
  6. Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
  7. Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
  8. Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.



domingo, 4 de outubro de 2026

Geoffrey Hinton, o padrinho da IA: “A minha principal missão agora é avisar as pessoas sobre quão perigosa a inteligência artificial pode ser”


As máquinas podem agora aprender capacidades que há poucas décadas pareciam reservadas aos seres humanos, mas um dos homens que contribuiu decisivamente para tornar isto possível está agora convencido de que devemos perguntar-nos o que acontecerá quando essas máquinas forem melhores do que nós em muitas áreas. Geoffrey Hinton não é um observador qualquer.

É um dos investigadores que ajudaram a fixar as bases das actuais redes neuronais e, juntamente com John Hopfield, foi premiado com o Nobel da Física em 2024. Agora, a sua principal preocupação já não é apenas tornar a inteligência artificial mais inteligente, mas descobrir como convivermos com ela.

Numa longa conversa com Steven Bartlett em The Diary of a CEO, Hinton traça um futuro repleto de contradições: avanços médicos e educativos extraordinários convivem com desemprego, manipulação política, ciberataques, armas autónomas e sistemas cuja inteligência poderá vir a ultrapassar largamente a nossa. Ele não diz que o desastre seja inevitável, mas que estamos a desenvolver uma tecnologia extraordinariamente poderosa, sem sabermos como controlá-la completamente.

O conselho laboral mais inesperado de Hinton
O que deverá estudar alguém que inicie agora a sua carreira profissional? A resposta de Hinton é tão simples como desconcertante: aprender um ofício como canalização.

Não se trata de uma cruzada contra a universidade. O seu raciocínio aponta para uma diferença fundamental entre o mundo digital e o físico. Os actuais sistemas de IA conseguem ler, escrever, resumir documentos, programar, analisar informação e executar algumas tarefas intelectuais com enorme velocidade. Manipular fisicamente um ambiente imprevisível continua a ser muito mais complicado.

Daí que Hinton considere particularmente vulneráveis vários trabalhos realizados em frente a um computador. O paradoxo é notável: durante décadas, pensámos que as máquinas substituiriam primeiro o esforço físico e deixariam a salvo o intelectual; agora, a IA generativa está a obrigar-nos a reconsiderar essa ideia.

Também não significa que todos os profissionais venham a desaparecer de hoje para amanhã. Uma primeira consequência pode ser que, assistida por IA, uma pessoa consiga fazer um trabalho que antes necessitava de várias pessoas. Isto significa um aumento da produtividade, mas dá origem a outra pergunta: quem fica com essa riqueza?

Hinton teme que os benefícios económicos da revolução tecnológica possam concentrar-se de uma forma extraordinária. Uma IA capaz de multiplicar a produtividade pode criar muito mais riqueza e, simultaneamente aumentar a desigualdade se essa riqueza ficar em poucas mãos.

Dos ciberataques à manipulação
Hinton estabelece uma separação fundamental entre duas famílias de ameaças. Num lado, as que aparecem quando os seres humanos utilizam a inteligência artificial com fins danosos. No outro, o cenário é muito mais incerto: máquinas que um dia sejam consideravelmente mais inteligentes do que nós.

As primeiras já são reconhecíveis. A IA pode facilitar campanhas de desinformação, falsificações, fraudes ou ciberataques e possibilitar que uma operação que antigamente exigia determinados conhecimentos técnicos, fique ao alcance de muito mais pessoas.

A capacidade de persuasão preocupa particularmente Hinton. Uma máquina que conhece enormes quantidades de informação, que aprende os argumentos que funcionam e pode conversar individualmente com milhões de pessoas, dispõe de uma ferramenta que não se assemelha à propaganda tradicional.

A isto juntam-se as armas autónomas. Há anos que Hinton refere o perigo representado por sistemas capazes de escolher objectivos e agir com um nível crescente de autonomia. Nesse cenário, o problema é a máquina “rebelar-se”: basta que uma pessoa decida utilizá-la contra outra.

É aqui que se surge uma das contradições que pontuam toda a sua reflexão. A humanidade dificilmente renunciará à inteligência artificial porque as suas aplicações potencialmente benéficas são demasiado importantes.

Hinton espera enormes avanços na medicina, na educação e na ciência. Sistemas capazes de encontrar padrões invisíveis para nós poderão acelerar diagnósticos, descobertas farmacológicas e novas formas de ensino personalizado. A mesma tecnologia que cria riscos extraordinários pode tornar-se uma das ferramentas científicas mais poderosas criadas pela nossa espécie.

Por isso, comparar a IA com a bomba atómica também tem as suas limitações. Uma arma nuclear possui essencialmente uma função destrutiva. A inteligência artificial pode infiltrar-se em praticamente qualquer actividade baseada em informação. Travá-la por completo implica também renunciar a muitas das suas possíveis vantagens.

O problema que mais inquieta Hinton
Existe, porém, uma pergunta mais profunda. O que acontecerá se construirmos sistemas que não sejam apenas melhores na execução de determinadas tarefas, mas mais inteligentes do que os seres humanos em geral? É aqui que Hinton reconhece algo essencial: ninguém conhece a resposta.

A entrevista coloca as opiniões existentes em extremos radicalmente diferentes. Alguns investigadores consideram que manteremos o controlo porque podemos desenhar sistemas obedientes, enquanto outros defendem que uma superinteligência representaria um perigo existencial praticamente inevitável.

Hinton não adopta nenhuma dessas posições extremas. Já mencionou em diversas ocasiões que as suas estimativas pessoais sobre o risco de extinção são cerca de 10-20%, mas realça que não resultam de um cálculo científico capaz de definir essa probabilidade, mas de uma apreciação intuitiva de um fenómeno sem precedentes.

Essa nuance é fundamental. Não existe uma experiência histórica que permita calcular o que acontece quando uma espécie cria outra forma de inteligência superior a ela. Estamos a tentar atribuir probabilidades a um acontecimento inédito. A sua preocupação também parte da diferença entre cérebros e máquinas. O conhecimento humano transmite-se lentamente através da linguagem, do ensino e da cultura. Os sistemas digitais podem copiar parâmetros e informação de diferentes entidades com uma facilidade radicalmente diferente.

Uma inteligência digital pode, então, beneficiar de uma propriedade que a nossa inteligência biológica não possui na mesma medida: aquilo que uma máquina aprende pode propagar-se e replicar-se a velocidades extraordinárias. Significa isso, necessariamente, que escapará ao nosso controlo? Não. E é precisamente aí que reside a parte menos espectacular, mas provavelmente mais importante da mensagem de Hinton.

Há que investigar como construir sistemas que, mesmo sendo extremamente capazes, mantenham objectivos compatíveis com os interesses humanos. A questão decisiva do século XXI talvez não seja quanto poderemos aumentar a inteligência das máquinas, mas se aprenderemos a fazê-lo antes de o seu poder ultrapassar a nossa capacidade de governá-las.

Hinton dedicou uma boa parte da sua vida a demonstrar que as redes neuronais podem aprender. Conseguiu fazê-lo quando muitos duvidavam dessa ideia. Décadas mais tarde, contempla o resultado com uma mistura extraordinária de fascínio e preocupação. A ironia é quase literária: um dos homens que ajudou a ensinar as máquinas a aprender dedica agora os seus esforços a pedir-nos que aprendamos a conviver com elas.

sábado, 26 de setembro de 2026

Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado



Estão a meio de uma das competições mais agressivas da história do desenvolvimento tecnológico, mas mesmo assim foram capazes de concordar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, vieram a público admitir que o avanço descontrolado da Inteligência Artificial de fronteira (IA) acarreta riscos reais e exige um abrandamento concertado no ritmo de desenvolvimento. Um alinhamento quase sem precedentes entre os três maiores rivais de Silicon Valley, mas que, para os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal, esconde motivações bem mais pragmáticas e calculadas do que um súbito despertar de consciência.

"Olho para isto como uma espécie de tentativa de colocar um muro à entrada de novos players. Com esta regulação, os pequenos concorrentes não têm capacidade de capital para conseguir estar ao alcance destes grandes grupos. No fundo, é tentar fazer uma espécie de cartel", resume Vítor Hugo Silva, especialista em cibersegurança, mestre em Segurança da Informação e arquiteto de cibersegurança da Galp.

Ao contrário dos alertas dos líderes destas empresas, que apontaram para o perigo iminente de os sistemas ultrapassarem as salvaguardas humanas e exigirem travões de emergência, os especialistas descartam essa ideia quase cinematográfica de uma IA a ganhar consciência, a contornar os criadores e a ameaçar fugir ao controlo dos humanos. Longe dos cenários de ficção científica, os documentos internos e relatórios de segurança apontam para um problema bem mais antigo: uma nova ferramenta que acelera o desenvolvimento tecnológico que, ao mesmo tempo, pode ser explorada para o crime.

Quando a Anthropic publicou um relatório a avaliar se os seus modelos poderiam ajudar na criação de armas biológicas, o alarme soou de imediato. Mas, na verdade, não houve qualquer algoritmo a tentar produzir vírus de forma autónoma, nem planos terroristas explícitos, mas sim utilizadores e cientistas a explorar a capacidade computacional do modelo para recolher dados sensíveis. Tratou-se de um problema clássico das tecnologias de duplo uso, onde a mesma informação que acelera o desenvolvimento de uma vacina pode, nas mãos erradas, ser desviada para conceber ameaças biológicas.

"O que existia naquela investigação era um potencial de duplo uso: a moeda que tem duas faces, o mal e o bem. A tecnologia sempre foi assim", explica Vítor Hugo Silva, para quem a insistência no mito da "máquina rebelde" apenas desvia as atenções da verdadeira falibilidade técnica destes sistemas. "Estes modelos são modelos probabilísticos. Há sempre uma chance de fazer alguma coisa que não era suposto. Não é intencional, é mesmo probabilidade, só isso".

O perigo mais próximo, defende o especialista, não é o de um ataque autónomo de um modelo de IA, mas sim o de uma precipitação humana em transferir poder de decisão para sistemas estatísticos sem a devida validação. Ao contrário da automação tradicional, como os pilotos automáticos da aviação comercial, desenhados para responder de forma determinística e previsível a regras muito restritas, os grandes modelos de linguagem operam sob lógicas probabilísticas, gerando respostas que parecem coerentes, mas que comportam sempre uma margem inevitável de erro e alucinação.

Para os especialistas, confiar cegamente nestes sistemas para gerir infraestruturas críticas, como redes elétricas, abastecimento de água ou refinarias, pode resultar em erros demasiado graves. Mesmo quando a probabilidade é baixa. "Temos de estar preocupados, não propriamente com a tecnologia em si, mas com a forma como se tem usado a tecnologia. Tem sempre duas faces na mesma moeda, para o bem e para o mal. Não focava muito na questão do controlo, porque estamos sempre no controlo. Nós é que temos de ter os pés na terra, perceber quais são as potencialidades da ferramenta e definir grades de segurança", afirma Bernardo Forbes Costa, especialista em Inteligência Artificial e professor na Nova School of Business and Economics.

Para os especialistas, este continua mesmo a ser o principal perigo, com utilizadores com más intenções a conseguir utilizar estas ferramentas para causar danos de larga escala. É por isso que Bernardo Forbes Costa olha para a proposta de Dario Amodei, que defendeu a criação de um sistema de fiscalização e auditorias permanentes, capaz de ditar o ritmo de treino e de lançamento dos modelos mais avançados, como algo que obedece mais às regras de mercado do que a questões éticas.

"Vamos supor, num cenário catastrófico máximo, que efetivamente um grupo terrorista consegue desenvolver um vírus que gera uma crise pandémica global ao estilo da Covid, e descobre-se que foi através de um modelo da Anthropic ou da OpenAI. Isso é uma sentença de morte para uma empresa. Não é só algo perfeitamente altruísta e responsável; há sempre também uma preocupação económica em última instância", nota Bernardo Forbes Costa.

Os especialistas apontam também para um outro motivo financeiro que pode estar a levar a uma mudança na postura destas empresas tecnológicas. A fatura da corrida aos modelos de fronteira tornou-se demasiado grande face ao atual retorno comercial. De acordo com projeções financeiras públicas da OpenAI, a criadora do ChatGPT estimava prejuízos na ordem dos 5 mil milhões de dólares para 2024, apesar de receitas de cerca de 3,7 mil milhões, absorvendo faturas de computação que crescem a ritmos difíceis de sustentar. No mesmo sentido, gigantes do capital de risco como a Sequoia Capital chegaram a alertar para um "buraco de 600 mil milhões de dólares" entre aquilo que a indústria gasta em infraestrutura, com centros de dados, eletricidade e processadores gráficos da Nvidia, e as receitas reais que o ecossistema de inteligência artificial consegue gerar no mercado.

"Há aqui uma questão económica que não se consegue ignorar: até que ponto os incrementos dos modelos em termos de eficiência já não são lineares àquilo que é o investimento? Para tornar o modelo duas vezes melhor, eu tenho de gastar quatro vezes mais, por exemplo. Estamos a chegar a um plateau, a um achatamento da curva em termos de eficiência. Os limites da física começam a pregar partidas pelo tamanho dos transístores", explica Vítor Hugo Silva.

Em vez de criar legislação que trave o progresso tecnológico e que sirva apenas para salvar as contas das principais empresas do setor, a resposta para garantir uma maior segurança destes modelos pode passar por uma abordagem segmentada. Para Bernardo Forbes Costa, a regulação deve focar-se na forma como a tecnologia chega ao público, com uma arquitetura segmentada em níveis de acesso. Nesta solução, as empresas ofereceriam modelos de linguagem "mais libertos de resguardas de segurança para a investigação, para governos, para instâncias militares e outros modelos menos capazes para o uso civil". Ao mesmo tempo isso poderia permitir que "novos modelos continuem a ser desenvolvidos", mas que não sejam necessariamente lançados ao público. "Uma coisa é o desenvolvimento do modelo, outra coisa é a sua comercialização", defende.

Os especialistas alertam também para o facto de os países ocidentais correrem o risco de ficar para trás face à concorrência tecnológica de países com menos restrições éticas. Particularmente por parte do maior rival geopolítico norte-americano, a China, que tem focado os seus esforços em copiar e aperfeiçoar modelos de baixo custo.

O próprio relatório da Anthropic apontou o dedo a laboratórios chineses que tentaram replicar as capacidades dos modelos Claude através desse método, evitando gastar milhares de milhões de dólares e os anos de investigação que sustentaram o seu desenvolvimento. Vários laboratórios em Pequim e Hangzhou, como a DeepSeek ou a Alibaba com a Qwen, conseguiram colocar modelos de código aberto no topo dos benchmarks mundiais recorrendo a modelos ocidentais como "professores" para treinar arquiteturas muito mais compactas e baratas.

"O que a China tende a fazer no fundo é o que se chama destilação de modelos. Agarram num modelo de topo e tentam, de certa forma, copiá-lo. A única coisa de que preciso e o meu constrangimento passa a ser a necessidade de ter uma boa máquina", alerta Bernardo Forbes Costa.

Quase fora desta corrida está a Europa. Segundo os dados do relatório AI Index 2026, da Universidade de Stanford, em 2025, dos modelos de IA notáveis produzidos no mundo, 59 tiveram origem nos Estados Unidos e 35 na China. Em toda a Europa, somaram-se apenas dois. O fosso repete-se na capacidade instalada e na propriedade intelectual, com 5.427 centros de dados nos Estados Unidos, dez vezes o registado em qualquer outro país. O fosso de infraestrutura é ainda mais gritante: o continente europeu não tem um único grande fornecedor de computação em nuvem e depende quase a 100% de semicondutores e servidores norte-americanos.

"Estamos em maus lençóis a esse nível, porque tudo o que é inteligência artificial de ponta, na vanguarda, é tudo americano e chinês. Não temos quase nada na Europa", adverte o professor da Nova SBE

Saber mais:
1. Sequoia Capital. (2024). AI's $600B Question. Sequoia Capital Research

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Impacto Hídrico dos Data Centers em Abrantes: Do Rio Tejo à Evaporação

A discussão em torno do impacto ambiental dos novos projetos de megacentros de dados planeados para Abrantes (como o EDC One e o Hyperion) exige uma análise rigorosa e desprovida de alarmismo. Ao analisar a transição entre a desativada Central Termoelétrica do Pego e estas novas infraestruturas digitais, torna-se evidente uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos do rio Tejo: a transição de um modelo de utilização com devolução de caudal para um modelo de consumo por evaporação atmosférica.

Historicamente, a antiga central a carvão do Pego operava sob uma licença da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para a captação de cerca de 5,7 a 6,2 milhões de metros cúbicos de água por ano. Apesar do volume substancial retirado do rio para o arrefecimento das turbinas, a arquitetura do sistema mantinha um balanço mássico quase neutro no troço local. Sob regras estritas de controlo térmico impostas pela Diretiva do Quadro da Água da União Europeia — que limitava o aumento de temperatura da água devolvida a um máximo de 3 °C -, a esmagadora maioria do volume captado regressava diretamente ao caudal do Tejo a jusante da captação.

Em contrapartida, as estimativas divulgadas pelo movimento ambientalista proTEJO para os novos data centers apontam para necessidades hídricas diárias situadas entre os 3,6 e os 22,2 milhões de litros. Isto traduz-se num volume anual projetado de 1,3 a 8,1 milhões de metros cúbicos de água. Embora o cenário mais baixo se assemelhe aos valores históricos do Pego, o cenário de pico ultrapassa-os significativamente. Contudo, a diferença mais crítica não reside no volume bruto captado, mas sim na tecnologia de arrefecimento evaporativo adotada por estas infraestruturas de processamento de dados.

Ao contrário do circuito da central termoelétrica, as torres de arrefecimento evaporativo convertem entre 70% a 80% da água captada em vapor de água, retirando-a de forma irreversível do ciclo hídrico local a curto e médio prazo. Apenas os restantes 20% a 30% permanecem no estado líquido como efluentes de purga (blowdown), caracterizados por uma elevada concentração de sais minerais e que exigem encaminhamento para estações de tratamento de águas residuais. Desta forma, o troço do Tejo em Abrantes perde permanentemente a maior parte da água captada, intensificando a pressão sobre o caudal ecológico local, especialmente durante os períodos de seca estival.

Esta pressão torna-se ainda mais preocupante num cenário de incerteza quanto à infraestrutura hídrica nacional. O anunciado plano de barragens e mini-barragens - essencial para reforçar a capacidade de retenção e regularização do caudal, sobretudo nos afluentes do Tejo - continua sem conhecer execução prática. Sem estas obras de armazenamento e regularização, o Tejo fica desprovido de uma "almofada" hídrica que possa compensar captações intensivas em anos secos.

Esta transição ocorre num contexto em que os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) identificam a Península Ibérica como uma das regiões europeias mais suscetíveis à redução das precipitações e ao stresse hídrico. Perante a incerteza quanto à execução de novas infraestruturas de regularização de caudais na bacia do Tejo, torna-se urgente promover uma reflexão séria e científica. A transição digital de Portugal deve ser encorajada, mas exige o compromisso com soluções tecnológicas sustentáveis, como o arrefecimento a ar (dry cooling), circuitos fechados ou o uso de Águas para Reutilização (ApR), salvaguardando a resiliência do ecossistema do rio Tejo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Menos água nos rios, nos lagos e nos glaciares - Seca de rios globais em 2025 foi uma das piores em 35 anos


O ano de 2025 foi dos piores das últimas décadas para os caudais dos rios e o armazenamento de água na superfície terrestre também está a diminuir, tendo havido uma perda generalizada nos glaciares pelo quarto ano consecutivo.

Os dados fazem parte do último Relatório sobre o Estado dos Recursos Hídricos Globais em 2025, hoje divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), um organismo da ONU.

O documento indica que a Ásia e a África são as regiões mais afetadas por desastres relacionados com a água, responsáveis por pelo menos metade de todos os eventos extremos relacionados e por mais de 80% das mortes associadas nos últimos cinco anos.

Os autores do documento dizem que o ciclo da água no planeta se tornou mais errático e imprevisível, oscilando entre pouca água ou água a mais, que há uma continuidade no declínio de armazenamento de água doce na Terra, e que os rios no mundo tiveram no ano passado um dos anos mais secos das últimas três décadas.

O documento faz uma avaliação científica de todo o ciclo da água no planeta, desde as descargas dos rios às águas subterrâneas, o armazenamento, a evapotranspiração e a neve e o gelo, bem como de eventos com grande impacto.

Partes desse ciclo, como a chuva ou a humidade do solo, são rápidas e respondem ao clima, mas outras, como a água subterrânea ou os glaciares são lentas, tradicionalmente reservas que atuam como uma “conta poupança”, um amortecedor para os anos se seca, explica a OMM em comunicado sobre o relatório, citando a secretária-geral, Celeste Saulo.

“Estamos a esgotar essa conta poupança. O armazenamento terrestre global de água tem apresentado uma tendência de queda desde 2014–2016 - um sinal persistente que dura uma década. Pelo quarto ano consecutivo, todas as principais regiões de glaciares da Terra perderam massa de gelo”, disse, acrescentando que com a água subterrânea se passa o mesmo, com quase dois terços dos poços monitorizados a perderem água em 2025.

O relatório especifica que o ano passado foi dos mais secos dos últimos 35 anos no caudal de muitos rios, que pelo sétimo ano consecutivo o número de bacias hidrográficas consideradas normais baixou, atingindo valores entre 34 e 38%, e que o armazenamento terrestre de água (lençol freático, lagos e rios, humidade do solo, vegetação gelo e neve) está em declínio desde meados da década de 2010.

O ano passado foi também o quarto ano consecutivo com perda generalizada de glaciares em todas as regiões, “levando a riscos de curto prazo como enchentes e insegurança hídrica de longo prazo”.

Entre 2023 e 2025 houve uma perda de gelo equivalente a 1.400 gigatoneladas de água.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fascismo do Fim dos Tempos: Como Elites Tecnológicas e Religiosas se Preparam para o Apocalipse Global


Em setembro de 2026, a publicação do livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World, escrito pela jornalista e ativista Naomi Klein e pela realizadora e escritora Astra Taylor, trouxe para o centro do debate uma tese alarmante sobre a ascensão da extrema-direita global. Numa entrevista concedida ao programa Democracy Now!, Klein e Taylor explicam que o fenómeno atual não é uma simples repetição do fascismo do século XX, mas uma evolução adaptada à era de colapso climático, avanço desenfreado da inteligência artificial e intensificação de conflitos geopolíticos.

Na perspetiva das autoras, o fascismo sempre funcionou como uma espécie de "capitalismo com dentes de fora" - uma reação violenta das elites para proteger as suas posições de poder quando o sistema económico entra em crise estrutural. Contudo, na sua nova roupagem, este fascismo do fim dos tempos funde três fações aparentemente distintas: fundamentalistas religiosos com visões messiânicas, etnonacionalistas obcecados pelo fecho de fronteiras e uma elite tecnológica de Silicon Valley que desistiu completamente da ideia de um futuro partilhado.

Um dos focos principais dessa análise é a ascensão da chamada "Máfia do PayPal" no poder político dos EUA. Nomes como Peter Thiel (cofundador da Palantir) e David Sacks (nomeado para a administração norte-americana para supervisionar a política de IA e criptomoedas) influenciaram diretamente figuras políticas como JD Vance. As autoras argumentam que essa aliança acelerou o desmantelamento de salvaguardas regulatórias, enquanto os executivos do setor utilizam a rivalidade com a China como pretexto para uma expansão desregulada da inteligência artificial, ignorando os riscos existenciais que a própria tecnologia acarreta.

Ao mesmo tempo que promovem sistemas que aceleram a rutura social e ambiental, estas elites preparam o seu próprio escapismo através da construção de bunkers subterrâneos, estações espaciais e a ilusão do que Klein denomina de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture). O livro exemplifica esta lógica com propostas de requalificação imobiliária apresentadas no Fórum Económico Mundial em Davos, onde projetos como o "New Gaza" procuram transformar cenários de destruição massiva em empreendimentos imobiliários de luxo.

Os três pilares identificados por Naomi Klein e Astra Taylor constituem uma aliança frágil, mas extremamente perigosa, formada por grupos que divergem em crenças, mas convergem na aceitação da rutura do mundo para garantir o controlo ou a sobrevivência exclusiva durante o colapso.

O primeiro grupo é composto pelos Religiosos do Fim dos Tempos (Religious Endtimers), maioritariamente fundamentalistas associados a correntes do sionismo cristão e setores messiânicos. Para este pilar, os conflitos no Médio Oriente, a degradação ambiental e as crises sociais não são problemas a resolver, mas sim sinais proféticos incontornáveis do Armagedão ou da segunda vinda de Cristo. A sua função nesta aliança é conferir uma justificativa teológica e moral à destruição, encarando o caos e a violência apocalíptica como etapas necessárias de um plano divino.

Paralelamente surgem os Aceleracionistas Tecnológicos (Tech Endtimers), constituídos por bilionários, investidores e executivos de Silicon Valley ligados ao ecossistema da inteligência artificial. Embora reconheçam abertamente que a tecnologia desregulada pode causar desemprego em massa, rutura social ou até a extinção humana, adotam uma postura fatalista e aceleradora. Este grupo promove o que as autoras chamam de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture), acreditando que o capital e a inovação lhes permitirão escapar às consequências da crise através de bunkers de luxo, colonização espacial ou fusão com a IA, lucrando com o colapso enquanto constroem saídas de emergência privadas.

Por fim, o pilar dos Etnonacionalistas (Ethonationalists) reúne movimentos e partidos da extrema-direita global focados na identidade nacional, racial ou cultural. A sua visão de mundo encara o futuro como um jogo de soma zero, onde recursos essenciais como água, terra e alimentos serão drasticamente escassos. O seu papel na aliança consiste em implementar o fecho absoluto de fronteiras, a militarização do Estado e a desumanização do "outro", canalizando o medo e a insegurança das populações contra alvos específicos, como imigrantes, minorias e refugiados climáticos.

Apesar das contradições evidentes entre o fervor religioso, o materialismo tecnológico e o nacionalismo estatal, estes três grupos encontram-se no mesmo ponto cego: todos desistiram da ideia de um futuro partilhado para toda a humanidade. Em vez de tentarem travar a crise global, unem forças para construir o que Klein e Taylor classificam como "arcas" exclusivas para as elites, abandonando o resto da população à mercê do colapso.

Para combater esta espiral autodestrutiva, Taylor e Klein propõem o conceito de "triplo desarmamento": desarmar arsenais nucleares e militares, estabelecer guardas-de-corpo rigorosas para tecnologias de alto risco como a IA e desmantelar a extrema concentração de riqueza, tratando a desigualdade desmedida como uma verdadeira arma de destruição maciça. A solução não passa por fugir do planeta, mas por um compromisso renovado com a sobrevivência e a solidariedade no mundo real.

A peça central desta contraofensiva reside no que as autoras definem como um "triplo desarmamento". Esta estratégia procura desmantelar as maiores ameaças existenciais do nosso tempo através de três frentes coordenadas: o desarmamento militar e nuclear, travando a corrida aos armamentos e a perigosa integração da Inteligência Artificial em sistemas de defesa; o desarmamento tecnológico, impondo regulamentação pública severa e guardas-de-corpo à IA antes que a sua expansão desenfreada cause danos irreversíveis; e o desarmamento da própria riqueza concentrada. Nesta última vertente, o acúmulo extremo de capital por parte dos bilionários é tratado como uma verdadeira arma de destruição maciça, exigindo políticas fiscais agressivas que redistribuam recursos e travem a privatização de infraestruturas essenciais.

Freneticamente oposta às fantasias corporativas de fuga para Marte, bunkers subterrâneos de luxo ou simulações virtuais na nuvem, surge a proposta de uma ética do "aqui" (here-ness). Esta postura filosófica e política recusa categoricamente o fatalismo de que o apocalipse é inevitável. Em vez disso, apela ao investimento direto na proteção das comunidades, dos territórios e dos ecossistemas reais, promovendo uma solidariedade horizontal entre as pessoas - em direto contraste com a solidariedade vertical oferecida pelos autoritários, que une o cidadão comum às elites através do medo e do ódio ao "outro".

Na prática, esta resistência já ganha forma em várias frentes de ação direta pelo mundo. Destaca-se a crescente vaga de protestos comunitários contra a construção descontrolada de data centers destinados à IA, devido ao seu consumo devastador de água e energia; a organização sindical de trabalhadores que lutam para impedir que a automação sirva unicamente para desmantelar direitos laborais; e a defesa ativa de migrantes e refugiados contra a militarização das fronteiras. Para guiar esta ação, as autoras sugerem o "Teste Steven Miller": uma métrica simples que estabelece que, se uma tecnologia ou concentração de poder for perigosa ao ponto de se tornar devastadora nas mãos do pior governante autoritário imaginável, essa ferramenta simplesmente não deve ter permissão para existir.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica

O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses. 

À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.

A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.

Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.

Fontes e Hiperligações dos Estudos

domingo, 13 de setembro de 2026

Já há um ano, Jason Hickel advertia sobre os efeitos desastrosos da aceleração da IA e o fetiche do crescimento: uma síntese da entrevista à Novara Media

Na sua intervenção no programa downstream da Novara Media (conduzido por Aaron Bastani), o antropólogo e economista político Jason Hickel apresentou um diagnóstico profundo e estruturado sobre o colapso ecológico, a falácia do crescimento económico infinito e as dinâmicas de aceleração tecnológica sob a lógica capitalista. o debate vai muito além do simples apelo à redução do consumo, desenhando um plano de planeamento económico democrático e ecossocialista.

1. A tirania do PIB e a ilusão do "crescimento verde"
O PIB mede a troca mercantil e não o bem-estar real. Aumentar o PIB exige transformar constantemente ecossistemas em mercadorias vendáveis. tentar manter a economia global a crescer 2% ou 3% ao ano anula a eficácia das energias renováveis.

2. A aceleração tecnológica e a IA sob o capitalismo
Sob a lógica da acumulação, a automação e a inteligência artificial não reduzem o esforço humano nem poupam recursos. Em vez disso, impulsionam uma procura energética gigante (necessária para alimentar data centers e minerar recursos) e são usadas para reduzir custos laborais e precarizar empregos. numa sociedade pós-capitalista, os ganhos da IA serviriam para reduzir a jornada de trabalho e redistribuir o tempo.

3. A reorganização da produção: o que deve crescer e encolher
sectores a reduzir / desmantelarsectores a expandir
indústria de armamento e militarismotransportes públicos universais
aviação comercial de alta frequênciasistemas de saúde e educação públicos
fast fashion e obsolescência programadaenergias renováveis e eficiência de edifícios
pecuária industrial e publicidade comercialagricultura ecológica e soberania alimentar
4. Ecossocialismo democrático e transição justa
Para garantir que a redução do uso de recursos não gera desemprego ou austeridade, Hickel defende uma garantia pública de emprego (assegurando trabalho remunerado na transição ecológica para quem dele necessite) e a desmercantilização dos serviços básicos (habitação, saúde, energia e transportes universais).

5. Dados concretos e evidência empírica
Hickel sustenta as suas teses com dados quantitativos consolidados em estudos de contabilidade de fluxos materiais e pegada de carbono:
  • extrapolação dos limites planetários: fundamentado no trabalho do stockholm resilience centre, que monitoriza os limites biofísicos da terra (como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e uso de água doce).
  • desigualdade na pegada ecológica: citando dados do global footprint network e da base de dados global de fluxos materiais da onu ambiente (unep), Hickel sublinha que o norte global é responsável por mais de 70% do uso excessivo de recursos materiais do planeta em relação aos níveis sustentáveis, e por cerca de 92% das emissões históricas de carbono acima da quota segura de 350 ppm.
  • drenagem neta do sul global: apoiado nas suas próprias investigações publicadas em revistas como a The Lancet Planetary Health, o autor demonstra que os países ricos extraem anualmente do sul global biliões de toneladas de recursos e milhões de anos de trabalho equivalente a preços desvalorizados para manter o seu nível de consumo.
  • inviabilidade do desacoplamento total: recorrendo às conclusões do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (ipcc), Hickel aponta que não existem provas empíricas de que seja possível desacoplar o crescimento do PIB do consumo de recursos materiais à velocidade necessária para cumprir as metas do Acordo de Paris.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Há cada vez mais investigadores da Anthropic a alertar para os riscos da IA que se autoaperfeiçoa recursivamente. Musk fala em "armadilha"



As preocupações dentro da Anthropic sobre os riscos da inteligência artificial estão a ganhar força. Um dia depois de um antigo investigador da empresa ter abandonado o cargo com um alerta sombrio, outros investigadores e trabalhadores vieram a público para dizer que partilham das mesmas inquietações, enquanto Elon Musk e outras figuras classificam a onda de críticas como uma “operação”.

Jacob Coxon, antigo investigador da Anthropic, anunciou na quarta-feira a saída da empresa por considerar que nem a Anthropic nem a OpenAI, onde também trabalhou, estão a desenvolver modelos de inteligência artificial de forma responsável. Segundo Coxon, as duas empresas estão a “jogar com as nossas vidas”.

Os investigadores que entretanto se manifestaram receiam que a tecnologia possa tornar-se tão avançada e perigosa que provoque a extinção da humanidade na próxima década, defendendo que muitos dos seus colegas partilham estas preocupações, embora não as expressem publicamente.

Exemplo disso é Anna Wang, funcionária na área de segurança da Inteligência Artificial Geral na Anthropic e antiga trabalhadora da DeepMind, da Google, que afirmou na quinta-feira que muitas pessoas dentro da empresa querem abrandar o desenvolvimento para criar um plano capaz de reduzir os riscos associados a estes modelos.

“Ainda não existe um plano científico viável para resolver os riscos da IA que se autoaperfeiçoa recursivamente”, escreveu na rede social X.


“As coisas estão a avançar demasiado depressa, não temos de todo o nível de garantias que vamos querer para a ASI [superinteligência artificial]”, escreveu.

Mas a tese, no entanto, não é partilhada por todos. Elon Musk, por outro lado, adotou uma posição mais de confronto perante os alertas. “Parece uma armadilha”, escreveu na rede social X.

Horas depois, Jacob Coxon respondeu ao empresário com uma fotografia sua, acompanhada da mensagem: “Eu sou real e estas são as minhas crenças reais. Poderias perguntar aos teus investigadores da xAI sobre mim se não os tivesses despedido.”

Entretanto, e em declarações ao The Guardian, um porta-voz da Anthropic defendeu a estratégia da empresa. “Sempre fomos transparentes ao dizer que a IA trará benefícios enormes e riscos sem precedentes. Para responder a esses riscos, continuamos a desenvolver modelos com algumas das salvaguardas mais fortes da indústria”, afirmou.

Não é, contudo, totalmente claro de que forma Coxon e os outros investigadores esperam que os modelos de IA possam conduzir ao desaparecimento da humanidade. Alguns especialistas duvidam que a tecnologia venha a atingir um nível de inteligência capaz de provocar um apocalipse. Gary Marcus, cientista e uma das vozes mais conhecidas no debate sobre inteligência artificial, afirmou que é altura de boicotar a IA, mas por considerar que esta já está a causar danos.

Mais do que a extinção da humanidade, Marcus disse estar preocupado com o “risco de catástrofe” provocado por “agentes patogénicos gerados por IA, guerras iniciadas ou agravadas por desinformação gerada por IA, ataques informáticos que destruam infraestruturas críticas, entre outras coisas". "Nada do que vi indica que alguma destas questões esteja sob controlo”, acrescentou.

No mesmo dia, a Anthropic divulgou um relatório no qual documentou a forma como desmantelou uma operação que tentava desenvolver uma arma biológica utilizando os seus modelos de inteligência artificial.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.