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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Placebo - Bruise Pristine RE:CUT


Letra
[verso1]
The means are right for taking, fade to grey
Trying to be ruthless in the face of beauty
In this matrix it's plain to see
It's either you or me

[refrão]
Bruise
Pristine
Serene
We were born to lose

[verso2]
Cast a line with a velvet glove
Reading like an open book, in the hands of love
In this matrix it's plain to see
It's either you or me

[refrão]

Encore [echoed]

[verso1]

[refrão]

Original, 1996
Videoclipe realizado por Howard Greenhalgh

A versão RE:CUT refere-se ao relançamento da música em 1997. Originalmente lançada em 1995, ela foi regravada e editada para o álbum de estreia autointitulado Placebo. Tudo sobre a canção e melhor audição aqui

O Placebo é uma banda britânica. Formada em Londres em 1994, a banda tem uma identidade multicultural (o vocalista Brian Molko é belga, tem origens americana, escocesa e judaico-italiana, enquanto Stefan Olsdal é sueco), mas o projeto é radicado e reconhecido como parte essencial do rock alternativo do Reino Unido.

Significado da canção
"Bruise Pristine" é um mergulho visceral na estética do rock alternativo dos anos 90, servindo como um dos primeiros grandes manifestos da identidade do Placebo. O título da canção carrega um paradoxo poético fascinante: a junção de "bruise" (hematoma), que evoca dor, trauma e marcas físicas, com "pristine" (imaculado), que sugere algo puro e intocado. Esta combinação resume a filosofia de Brian Molko — a ideia de que existe uma beleza crua e honesta na dor e nas marcas que os encontros humanos deixam em nós.

Brian Molko escreveu esta canção num período em que a bissexualidade estava a tornar-se "chic" na média britânica (o chamado Britpop). Molko, que vivia essa realidade de forma autêntica e andrógina, usava a música para questionar a autenticidade das pessoas ao seu redor. A letra fala sobre ser um "livro aberto nas mãos do amor", mas também sobre a crueza de ser quem se é num mundo que muitas vezes trata a identidade como moda.

A letra explora uma luta de poder emocional e sexual, marcada pela frase repetitiva "it's either you or me", que coloca o eu-lírico num estado de confronto defensivo contra a vulnerabilidade. É uma música que fala sobre a tentativa de manter o controlo e a frieza diante do desejo, apenas para acabar na aceitação de que "nascemos para perder". No fundo, a canção celebra a perfeição que existe no ato de ser "marcado" pela vida, transformando a cicatriz ou a nódoa negra num símbolo de autenticidade e vivência.

Curiosamente, em 2026, a banda lançou o projeto RE:CREATED, onde regravaram "Bruise Pristine" com uma sonoridade mais pesada e dinâmica. Molko descreveu esta nova fase como uma forma de honrar a "inocência" daquela época, mas com a confiança e a escala da banda que eles se tornaram após 30 anos de estrada.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Smashing Pumpkins - Ava Adore


Ainda com a musa D'Arcy Wretzky

Realizado por Dom e Nic, o videoclipe de "Ava Adore" ganhou o prémio de "vídeo mais elegante" nos VH1 Fashion Awards de 1998

Ava Adore
The Smashing Pumpkins

It's you that I adore
You'll always be my whore
You'll be the mother to my child
And a child to my heart

We must never be apart
We must never be apart

Lovely girl
You're the beauty in my world
Without you, there aren't reasons left to find

And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
You'll be a lover in my bed
And a gun to my head

We must never be apart
We must never be apart

Lovely girl
You're the murder in my world
Dressing coffins for the souls I've left to die
Drinking mercury
To the mystery of all that you should ever leave behind
In time

In you, I see dirty
In you, I count stars
In you, I feel so pretty
In you, I taste God
In you, I feel so hungry
In you, I crash cars

We must never be apart

Drinking mercury
To the mystery of all that you should ever seek to find
Lovely girl
You're the murder in my world
Dressing coffins for the souls I've left behind
In time

We must never be apart

And you'll always be my whore
'Cause you're the one that I adore
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me

In you, I feel so dirty
In you, I crash cars
In you, I feel so pretty
In you, I taste God

We must never be apart

Contradições do amor obsessivo em “Ava Adore” dos Smashing Pumpkins
Em “Ava Adore”, do The Smashing Pumpkins, a letra explora a linha tênue entre devoção e possessividade. O eu lírico alterna entre declarações de adoração intensa, como “It’s you that I adore” (“É você que eu adoro”), e imagens sombrias, como “You’ll always be my whore” (“Você sempre será minha prostituta”) e “You’ll be a lover in my bed / And a gun to my head” (“Você será um amante na minha cama / E uma arma apontada para minha cabeça”). Essas frases mostram como amor e obsessão podem se misturar, criando relações apaixonadas, mas também destrutivas. Metáforas provocativas, como “pull your crooked teeth” (“arrancar seus dentes tortos”), sugerem um desejo de controlar ou moldar o outro, revelando traços de idealização e dominação.

O título “Ava Adore” traz um duplo sentido: além de ser um nome feminino, faz referência à frase francesa “il va adorer” (“ele vai adorar”), reforçando a ideia de adoração quase ritualística. A influência das vogais francesas, inspirada por Françoise Hardy, contribui para o tom etéreo e misterioso da música. A letra também destaca a dualidade da amada, vista como fonte de beleza e destruição: “You’re the beauty in my world” (“Você é a beleza no meu mundo”) e “You’re the murder in my world” (“Você é o assassinato no meu mundo”). Imagens como “drinking mercury” (“bebendo mercúrio”) e “dressing coffins for the souls I’ve left to die” (“preparando caixões para as almas que deixei morrer”) intensificam o clima sombrio, sugerindo sacrifício, culpa e a presença constante do fim. A repetição de “We must never be apart” (“Nunca devemos nos separar”) funciona como um mantra obsessivo, reforçando o medo da separação e a busca por fusão total. Assim, “Ava Adore” se destaca como um retrato intenso das contradições do amor obsessivo, marcado por ambiguidade e tensão.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Portugal descarta 17 milhões de peças de roupa infantil anualmente



Novas investigações da Epson revelam que Portugal envia 17 milhões de peças de roupa infantil para o aterro sanitário anualmente – o equivalente a 19 vezes a altura do Monte Evereste empilhadas numa única pilha.

Enquanto um em dois portugueses (56%) consideram ativamente roupas mais sustentáveis para si próprios, quase um em três [31%] admitem que se livram das roupas dos filhos da forma mais rápida e fácil possível. O estudo concluiu que os portugueses deitam fora 11 peças de roupa por criança todos os anos. Em comparação, os espanhóis descartam 14.

Para mostrar como a inovação pode ajudar a combater este crescente problema de desperdícios, a Epson colaborou com a estilista e pioneira da sustentabilidade Priya Ahluwalia para criar Fashion Play – uma coleção de moda de tamanho de boneca, impressa com a tecnologia digital de impressão têxtil Monna Lisa da Epson e feita a partir de resíduos têxteis com a pioneira Dry Fiber Technology da Epson, que transforma têxteis antigos em novas fibras sem água nem químicos agressivos.

De acordo com os resultados, as crianças em Portugal compram 63 peças de roupa todos os anos – totalizando 99 milhões em todo o país. Quase um em cada dois portugueses (41%) diz que os seus filhos têm peças não usadas com etiquetas ainda presas guardadas nos roupeiros, enquanto 52% deitaram fora ou reutilizaram roupas que NUNCA foram usadas.

Maria Eagling, Diretora de Marketing da Epson Europe, explica que “a moda oferece a todas as idades uma via criativa para a autoexpressão, mas todos temos um papel a desempenhar em fazer melhores escolhas no que toca ao que compramos e como nos livramos disso quando terminamos. Embora existam ações simples que os consumidores podem tomar – desde reduzir a quantidade que compram até dar prioridade ao usado – quisemos mostrar como inovações como a Dry Fiber Technology também podem ajudar a reduzir a quantidade de roupa que vai para o aterro”.

“A coleção Fashion Play é uma homenagem divertida ao nosso amor por nos vestirmos – que começa quando somos crianças – mas usar métodos e materiais como estes pode provocar uma mudança sísmica na indústria da moda e no planeta. Estamos muito entusiasmados por trabalhar com a Priya Ahluwalia, uma designer que admiramos imenso pelo seu esforço de upcycling e pelo seu compromisso em criar peças bonitas que não prejudicam o planeta”, acrescenta.

Fashion Play inspira-se na coleção Ahluwalia AW25. Para além da Dry Fiber Technology, outros métodos de produção usados para criar os conjuntos incluem a impressora digital têxtil de próxima geração da Epson, a Monna Lisa, que pode reduzir o consumo de água na fase de impressão a cores da produção de vestuário em até 97%.

Sobre a coleção Priya Ahluwalia sublinha que “ao viajar para a Índia e Nigéria, testemunhei a verdadeira dimensão do desperdício têxtil resultante da indústria ocidental de vestuário em segunda mão. Essa experiência ficou comigo, e desde então tenho-me esforçado por trabalhar de uma forma melhor para as pessoas e para o planeta, especialmente no sul global”.

“Esta colaboração com a Epson vai além da moda. Trata-se de iniciar conversas sobre sustentabilidade em múltiplos níveis, desde a forma como nos vestimos até ao que escolhemos para aqueles que amamos. Através desta coleção de miniaturas feita com a tecnologia Dry Fiber, esperamos mostrar que a inovação e a imaginação podem remodelar o futuro da moda”, adianta.

Para mais informação aceda ao relatório aqui

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Minha homenagem a Pam Hogg


Designer de moda, artista, DJ e música, mas mais do que isso, ícone da cultura visual britânica desde os anos 80, morreu esta quarta-feira a escocesa Pam Hogg, com um percurso marcado pela independência e por uma estética inspirada no punk e pós-punk, que atravessou a moda, a música, a boémia ou as artes visuais. No campo da música, para além de ter sido líder da banda Doll, vestiu imensa gente (de Lady GaGa a Rihanna, de Grace Jones a Beyoncé), tendo uma relação – profissional e pessoal – privilegiada com nomes tão diversos como Siouxsie Sioux, Debbie Harry, Björk, Duran Duran, Peaches, Chicks on Speed, Nick Cave ou Bobby Gillespie, inspirando várias movimentações, do pós-punk aos neo-românticos, passando pelo electroclash. Era também uma ativista. A sua última colecção, de 2024, focava-se nas questões ambientais e na Palestina. “É um mundo injusto e desigual este, por favor, usem a vossa voz, no presente, para o corrigir”, foi uma das suas derradeiras proclamações.

Saber mais

Site oficial

sábado, 1 de novembro de 2025

Principais Recursos dos Bilionários


Continuando a minha reflexão sobre os bilionários aqui elenco os principais recursos que os leva a alimentar esta gigante riqueza.

1. Capital financeiro
Uma parte grande da riqueza deles está investida em ações, participações em empresas, títulos, fundos, e outros instrumentos financeiros.
Esse capital financeiro dá-lhes poder para influenciar mercados, fazer aquisições, e multiplicar a riqueza através de investimentos.

2. Participações em empresas (empresas próprias ou holdings)
Muitos bilionários são fundadores ou detêm participações significativas em grandes empresas (tecnologia, indústria, energia, etc.).
Por exemplo, setores como finanças, bebidas e tecnologia são dominantes entre as origens da riqueza bilionária.
Esses ativos empresariais lhes dão controlo direto sobre cadeias produtivas, decisões estratégicas e inovação.

3. Propriedade imobiliária
Muitos bilionários investem em imóveis comerciais, terrenos, edifícios residenciais — uma parte importante do seu portfólio de riqueza é tangível.
A valorização das propriedades também contribui para o crescimento patrimonial.
4. Recursos naturais
Alguns controlam minas, terras agrícolas, reservas de petróleo ou outros recursos naturais, que são ativos físicos estratégicos.
Por exemplo, bilionários no setor energético ou de mineração tiram parte de sua fortuna da extração e gestão desses recursos. (No caso de Rinat Akhmetov, ele tem empresas em mineração e energia.)

5. Capital humano
Embora não seja “dono” de pessoas no sentido absoluto, muitos bilionários controlam grandes empresas que empregam dezenas de milhares de pessoas. Isso lhes dá poder sobre a direção estratégica, mas também sobre talento, inovação e produção.
Além disso, muitas das suas empresas dependem de capacidades técnicas, científicas e de gestão — ou seja, eles investem (e captam) talento.

6.Influência política e institucional
Bilionários muitas vezes têm ligações políticas, institucionais ou contato direto com decisores. Essa influência permite moldar políticas, regulamentos e leis que podem favorecer os seus negócios ou proteger o seu capital.
Também podem usar lobbies para manter vantagens competitivas ou para criar barreiras à entrada de novos concorrentes.

7. Acesso a infraestruturas críticas
Eles podem financiar ou controlar infraestruturas como data centers, redes de telecomunicação, energia, logística, etc. Esse é um recurso estratégico porque dá poder sobre recursos que sustentam a economia moderna.
No campo digital, por exemplo, gigantes tecnológicos (alguns bilionários) controlam plataformas, dados e serviços essenciais — o que lhes dá grande poder sobre a “economia da atenção” e dos dados.

8. Propriedade intelectual
Patentes, direitos de autor, marcas registradas são ativos intangíveis muito valiosos. Bilionários em tecnologia, farmacêutica ou biotecnologia frequentemente detêm patentes que lhes garantem receitas futuras e vantagem competitiva.

9. Redes de capital social
Além do capital formal (dinheiro, ativos), há recurso social: os bilionários geralmente têm redes poderosas de influenciadores, outros bilionários, políticos, investidores. Essas redes são um recurso estratégico porque permitem parcerias, financiamento, influência e acesso privilegiado a oportunidades.

10. Estruturas offshore e otimização fiscal
Muitos usam jurisdições fiscais favoráveis para armazenar parte de sua riqueza, o que lhes permite preservar capital, reduzir impostos e reinvestir de forma eficiente.
Isso também significa que parte da sua riqueza está “fora do radar” direto de muitos sistemas fiscais nacionais.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

White Supremacy. White Right: Meeting the Enemy


Deeyah Khan, uma cineasta britânica-norueguesa de origem paquistanesa, conhecida pelos seus trabalhos sobre direitos humanos e extremismo, decidiu encontrar e conversar pessoalmente com membros e líderes de grupos supremacistas brancos nos Estados Unidos.

Documentário pungente.

O documentário mostra encontros reais com:
  1. Jeff Schoep, então líder do National Socialist Movement (movimento neonazi norte-americano);
  2. Ken Parker, ex-membro da Ku Klux Klan e neonazi;
  3. Outros militantes e manifestantes de extrema-direita, incluindo participantes do violento protesto em Charlottesville (2017).
Deeyah Khan, sendo mulher muçulmana e não branca, aproxima-se deles com uma postura calma, empática e curiosa — não para os confrontar com ódio, mas para tentar entender a raiz da intolerância, do medo e da raiva racial.

💬 Mensagem central
O documentário mostra que a ideologia supremacista branca nasce de medo, frustração e alienação, não apenas de ódio puro.
Khan demonstra como a empatia e o diálogo podem levar alguns extremistas a questionar as suas crenças.
De facto, alguns dos entrevistados, como Ken Parker, acabaram por renunciar ao extremismo após o encontro com ela — algo que o filme documenta parcialmente.

⚖️ Significado e impacto
“White Right: Meeting the Enemy” é uma reflexão sobre o poder do diálogo humano em tempos de polarização extrema.
O documentário foi vencedor de um BAFTA (British Academy Film Award) em 2018.

Ler mais: 
Brands can’t choose their customers. So what happens when extremists wear their clothes?

sábado, 12 de julho de 2025

A relevância da Educação Ambiental

Margaret Raven (artista plástica nascida em 1962, na Polónia)

Sobre a relevância da educação ambiental para enfrentar estes tempos de decisões desastrosas e enfrentar os lóbis sem que pessoalmente vamos abaixo.

EIXO 3 – Educação e literacia ambientais: com este eixo pretende-se a definição de um modelo de educação ambiental liderado pela autarquia e articulado entre os vários setores da sociedade. (ODS, Agenda 2030)

Por que a educação ambiental ainda é tão desvalorizada?
Em tempos de crise climática, desastres ambientais cada vez mais frequentes e perda acelerada da biodiversidade, seria natural supor que a educação ambiental ocupasse um lugar central na formação de cidadãos conscientes e responsáveis. No entanto, a realidade é outra: ela continua à margem, tratada como algo secundário, quando deveria ser uma das bases do nosso futuro coletivo.

Por que é que isso acontece?
Em primeiro lugar, há um desinteresse estrutural por parte de muitos governos, autarquias, programas eleitorais e mesmo até nos sistemas de ensino. A educação ambiental costuma ser mencionada apenas como um “tema transversal”, o que, na prática, significa que não tem espaço nem tempo dedicados. Muitas escolas falam e fazem reciclagem ao longo do ano e acreditam ter cumprido o seu papel. Mas a educação ambiental vai muito além de plantar árvores ou recolher lixo. Trata-se de formar pensamento crítico, compreender relações ecológicas, refletir sobre consumo, justiça social e os limites do planeta.

Outro problema é a visão simplista e despolitizada com que o tema é tratado. Fala-se de meio ambiente como se fosse uma questão neutra, técnica, quando na verdade está profundamente ligada à política, à economia e às desigualdades sociais. Falar de educação ambiental é também falar de poder, de escolhas coletivas e do modelo de desenvolvimento que queremos.

Além disso, a sociedade de consumo — amplamente reforçada pela media — cria uma cultura de individualismo e imediatismo, que mina qualquer esforço educativo voltado para a coletividade e o longo prazo. É difícil competir com um mundo onde o valor está em “ter”, e não em “ser” ou “pertencer”. A educação ambiental exige tempo, reflexão e ação, tudo o que a lógica apressada do consumismo não incentiva.

Também não podemos ignorar o desconhecimento ou cepticismo de muitos diante da gravidade da crise ambiental. Há quem acredite que tudo será resolvido pela tecnologia, ou pior, que tudo é exagero. Essa visão conforta, mas é perigosa. Sem consciência ambiental, as soluções que a ciência propõe não encontram solo fértil na sociedade.

O que falta, portanto, é valorizar a educação ambiental como prática transformadora, conectada à realidade local, ao território, ao quotidiano das pessoas. Quando ela é vivida na prática — em projetos escolares, ações comunitárias, hortas urbanas, defesa de rios e matas — ela deixa de ser abstrata e torna-se urgente, palpável, viva.

Reconhecer o papel da educação ambiental é mais do que uma escolha pedagógica: é um acto político, ético e existencial. Quem não a reconhece, talvez ainda não tenha entendido que não haverá futuro viável sem ela.

Bons exemplos
1. A resiliência de Idanha-a-Nova. Idanha-a-Nova integrou o primeiro geoparque português, da rede geoparques reconhecidos pela UNESCO. Foi a primeira Reserva da Biosfera em Portugal. Sendo uma vila, foi a primeira Cidade Criativa portuguesa, igualmente com a chancela da UNESCO, para a área da Música. Em 2018, tornou-se na primeira Bio-região portuguesa. E em 2013 a UE elegeu-a como a melhor Bio-região da Europa. Eis como a periferia se tornou centro.

2. 90% dos portugueses ‘desconfia’ da sustentabilidade das marcas. 90% dos consumidores portugueses acreditam que as marcas afirmam ser sustentáveis apenas para fins promocionais, concluiu o 3º Relatório Global de Consumo MARCO 2024, promovido pela MARCO em parceria com a Cint, empresa de investigação tecnológica.

Depois de Portugal, segue-se a África do Sul com 86% e o México com 85%, indica a análise.

De acordo com o estudo, este sentimento é particularmente significativo nos países ocidentais, onde existe uma tendência para exigir maior transparência e responsabilidade por parte das marcas. A análise revelou que a grande maioria dos consumidores a nível global (81%) suspeita que as empresas estão a utilizar as suas credenciais de sustentabilidade como instrumentos de marketing, em vez de demonstrarem um compromisso genuíno com a responsabilidade ambiental e social. 

O relatório revelou também que os consumidores estão cada vez mais motivados a fazer escolhas sustentáveis no dia a dia, com mais de metade dos inquiridos portugueses (58%, valor semelhante à média global) a revelarem comprar produtos em segunda mão para promover práticas de consumo mais sustentáveis; 95% assume a importância da reciclagem para poupar recursos naturais, contra 90% a nível global; e 66% consideram positiva a utilização de automóveis elétricos para proteger o ambiente, em linha com a média global de 67%. 

Além disso, 44% dos portugueses assumiu que consideraria deixar de andar de avião por questões de consciência ambiental, um valor que contrasta com a média global de 53%.

“Estas conclusões sublinham a importância da transparência e da responsabilidade nas iniciativas de sustentabilidade das empresas. À medida que os consumidores se tornam mais exigentes e esperam provas de um compromisso genuíno, as empresas devem navegar cuidadosamente neste novo cenário. Uma comunicação eficaz e ações tangíveis são mais cruciais do que nunca para criar e manter a confiança dos consumidores”, referiu Diana Castilho, Head of Portugal da MARCO.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Fornecedoras de algodão para fabricantes de peças vendidas por Zara e H&M, fazendas no oeste da Bahia têm histórico de desmatamento e grilagem, aponta investigação da ONG Earthsight.

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado nesta quinta-feira (11/04). Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.

Crimes no Cerrado
O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, numa entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

"Grilagem verde"
Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Rota até as marcas europeias
Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnam, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

Mais controle das cadeias
À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora partilhe o resultado da sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Nesta quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de incumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Relatório Oxfam 2025: Takers Not Makers



A organização não governamental britânica Oxfam lançou este ano um relatório, intitulado Takers Not Makers: The unjust poverty and unearned wealth of colonialism, no qual se mostra que as grandes fortunas estão a aumentar com cada vez mais maior velocidade. A data da sua apresentação coincide com o início do Fórum Económico de Davos onde se reúnem governantes, grandes patrões e seus defensores de vários pontos do mundo. E também com a tomada de posse como presidente dos Estados Unidos da América de um bilionário, Donald Trump, apoiado de perto pelo homem mais rico do mundo, Elon Musk.

De acordo com o estudo, em 2024, surgiram 204 novos bilionários, cerca de quatro por semana. Isto faz com que o total de bilionários no mundo seja de 2.769. Estes enriqueceram mais dois biliões de euros num ano, 5,5 mil milhões de euros por dia, o que é o triplo do ano anterior.

A concentração de riqueza é tal que os dez mais ricos viram crescer a fortuna em média perto de 100 milhões por dia e mesmo que perdessem 99% de sua riqueza da noite para o dia, ainda permaneceriam bilionários”. Isto implica a previsão de que dentro de dez anos haja cinco “trilionários”. Anteriormente estimava-se que nível inédito de riqueza só fosse alcançado por uma pessoa.

O documento revela ainda que a maior parte da riqueza dos multimilionários, 60%, se enquadra naquilo a que a organização chama “riqueza imerecida”, sendo proveniente de heranças (36%) ou surgindo a partir de monopólios ou de conexões com poderosos (24%).

Grande parte dos bilionários, 68%, concentram-se nos países mais desenvolvidos. Já o número de pessoas a viver na pobreza mantém-se estagnado desde 1990, segundo o Banco Mundial.

A ONG defende o aumento dos impostos sobre as grandes fortunas e a necessidade de criar uma política fiscal global para que “as pessoas e as empresas mais ricas paguem a sua parte justa”. E propõe também a abolição dos paraísos fiscais e a tributação das heranças, num mundo em que metade dos multimilionários estão sediados “em países sem imposto sobre as heranças para os descendentes diretos”.

Para além disso, luta pelo cancelamento da dívida dos países mais pobres, dado que “o 1% mais rico dos países do Norte Global, como os EUA, o Reino Unido e a França, extraiu cerca de 30 milhões de euros por hora do Sul Global através do sistema financeiro em 2023”, por “acabar com os monopólios, democratizar as regras das patentes e regular as empresas para garantir que pagam salários dignos e limitar a remuneração dos CEO”.

Sugere-se ainda “reestruturar os poderes de voto no Banco Mundial, no FMI e no Conselho de Segurança da ONU para garantir uma representação justa dos países do Sul Global” e que “as antigas potências coloniais devem enfrentar os danos duradouros causados pelo seu domínio colonial, apresentar desculpas formais e fornecer reparações às comunidades afetadas”.

O ideal, afirma-se, era que os governos se comprometessem na garantia de que “o rendimento dos 10% mais ricos não é superior ao dos 40% mais pobres”. A instituição insta ainda os executivos a “acabar com o racismo, o sexismo e as divisões que sustentam a exploração económica contínua”.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Robert Pereira Hind


Robert Pereira Hind é um artista visual e fotógrafo britânico, nascido em 1965 na cidade de Bolton, Inglaterra. Com uma sólida formação acadêmica, obteve seu bacharelado e mestrado em Fotografia pelo prestigiado London College of Communication nos anos 90. Após uma carreira de mais de duas décadas consolidada no setor comercial e editorial — onde trabalhou como fotógrafo de cena para grandes produções de cinema e televisão — ele redirecionou seu foco criativo para as belas-artes, estabelecendo seu estúdio em Edimburgo, na Escócia.

Sua obra é definida por uma fusão técnica e estética entre a fotografia contemporânea e métodos ancestrais de douração. O tema central de seu trabalho é a elevação de elementos da natureza, especialmente árvores e espécimes botânicos, ao status de ícones sagrados. Inspirado pela iconografia bizantina, pelo barroco italiano e por figuras religiosas douradas do Oriente, Hind isola silhuetas naturais de seu contexto original e as sobrepõe a fundos de folha de ouro de 24 quilates ou folhas de metal tratadas.

Este processo resulta em peças que transcendem a fotografia convencional, tornando-se objetos tridimensionais que interagem dinamicamente com a luz do ambiente. Um ponto fundamental de sua filosofia artística é a aceitação da imperfeição e da passagem do tempo; ao finalizar as suas obras com vernizes orgânicos como o shellac, ele permite que o metal oxide e mude de tonalidade ao longo das décadas. Assim, a obra de Robert Pereira Hind não é estática, mas um organismo visual que envelhece e ganha pátina, celebrando a beleza da natureza sob uma perspectiva atemporal e quase mística.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

PJ Harvey: Tiny Desk Concert


Polly Harvey habitou muitos personagens ao longo de seus 30 anos de carreira e sempre se vestiu para o papel: rainha do glamour com macacão, espectro vitoriano de gola alta, libertino de minissaia, guerreiro adornado com penas. Trazendo a história contada em seu último álbum, I Inside the Old Year Dying para o Tiny Desk, ela está ao microfone com um vestido drapeado na cor invernal de um amieiro cinza, desenhado por seu figurinista de longa data, Todd Lynn. Sua elegância rasgada combina perfeitamente com o duplo papel que ela desempenha nessas canções suavemente ferozes, que se originaram em seu romance em verso, Orlam. À medida que ela solta seu contralto inimitável e afiado, ela se torna Ira-Abel, a criança que, após um ataque, se funde com a floresta ao redor de sua casa em Dorset, Inglaterra, e do bardo cujos versos mantêm aquele pastor garota viva após o seu desaparecimento.

Harvey mantém os seus gestos mínimos enquanto define as suas personagens e fala através delas. Combinando a sua voz com a de seus colaboradores de confiança John Parish e James Johnston enquanto eles invocam os fantasmas da floresta - os "filhos calcários do sempre" - ela deixa ressoar as imagens fecundas de suas letras. Às vezes a multidão parece atordoada e em silêncio; depois que seu lamento por Ira-Abel, "A Noiseless Noise", termina com as notas de sua guitarra acústica e da guitarra elétrica de Parish entrelaçadas, ela espera friamente por um intervalo antes que os aplausos e gritos de agradecimento cheguem.

É aqui que Harvey vive como uma artista plenamente realizada: no seu próprio plano artístico, convidando os ouvintes a dedicarem o seu tempo para se juntarem plenamente a ela. Terminando com a dolorosamente solitária faixa-título de White Chalk, de 2007, ela conecta a história de Ira-Abel ao seu projeto de vida de expressar a solidão, a dor e a resistência das mulheres. Explorando como as fronteiras humanas podem quebrar, reafirmar-se ou tornar-se irrelevantes, estas canções criam um espaço contido que ecoa muito além de si mesmo.

Set List
"I Inside the Old I Dying"
"A Noiseless Noise"
"A Child's Question, August"
"I Inside the Old Year Dying"
"White Chalk"

Músicos
PJ Harvey: vocals, acoustic guitar, harmonica
James Johnston: keys, acoustic guitar, violin, vocals
John Parish: electric guitar, drums, vocals

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Novo Relatório da OXFAM- Inequality Inc.


Os cinco homens mais ricos do mundo, Elon Musk, Bernard Arnault, Jeff Bezos, Larry Ellison e Mark Zuckerberg, mais do que duplicaram as suas fortunas desde 2020, segundo um relatório da Oxfam. O relatório acrescenta que, juntos, possuem agora um património de 869 mil milhões de dólares, depois de terem aumentado as suas fortunas a um ritmo de 14 milhões de dólares por hora nos últimos quatro anos.

Intitulado "Desigualdade S.A.", o relatório da Oxfam foi divulgado na segunda-feira e afirma que, apesar do crescimento das fortunas dos cinco, 5 mil milhões de pessoas ficaram mais pobres no mesmo período.

Os multimilionários são hoje 3,3 biliões de dólares mais ricos do que eram em 2020, e um multimilionário lidera 7 das 10 maiores empresas do mundo, afirmou a organização de solidariedade com sede em Londres. Se as tendências actuais se mantiverem, o mundo terá o seu primeiro trilionário numa década, mas a pobreza não será erradicada durante mais 229 anos.

A Oxfam afirmou que seriam necessários 476 anos para que os 5 mais ricos esgotassem toda a sua fortuna se decidissem gastar 1 milhão de dólares por dia. Enquanto Musk demoraria 673 anos, Bezos necessitaria de 459 para esgotar a sua riqueza.

Outro ponto interessante destacado no relatório é o facto de o 1% mais rico do mundo deter 43% de todos os ativos financeiros globais.

Não é segredo para ninguém que a riqueza dos multimilionários do mundo, especialmente Elon Musk, teve um aumento astronómico desde 2020, devido à subida das ações da Tesla. O seu património líquido é de US$ 206 biliões atualmente.

“As pessoas mais ricas do mundo continuam a ser as grandes vencedoras neste momento de crise. Em 2023, os multimilionários têm mais 3,3 triliões de dólares, ou mais 34% do que tinham em 2020, no início desta década de divisões. A projeção é de que o número de milionários aumente 44% entre agora e 2027, enquanto o número de pessoas com um património líquido de 50 milhões de dólares ou mais deverá aumentar 50%”, refere o relatório.

Enquanto os mais ricos do mundo viram as suas riquezas crescer exponencialmente, os mais pobres não tiveram a mesma sorte, uma vez que os níveis crescentes de inflação, o impacto económico das alterações climáticas e os conflitos geopolíticos tornaram as suas vidas mais difíceis.

O relatório destacou que, durante o mesmo período, quase cinco mil milhões de pessoas em todo o mundo ficaram mais pobres. “As dificuldades e a fome são uma realidade diária para muitas pessoas em todo o mundo. Ao ritmo atual, serão necessários 230 anos para acabar com a pobreza, mas poderemos ter o nosso primeiro trilionário em 10 anos”, conclui o relatório.

Tradicionalmente, a Oxfam divulga o seu relatório anual sobre a desigualdade pouco antes da abertura do Fórum Económico Mundial (WEF).

Nico - Evening of Light

Filme Original (1969)


[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 1]
A true story wants to be mine
A true story wants to be mine
The story is telling a true lie
The story is telling a true lie
Mandolins are ringing to his viol singing
Mandolins are ringing to his viol singing

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 2]
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 3]
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 4]
The children are jumping in the evening of light
The children are jumping in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

Significado da Canção

Promo video for Nico’s “Evening of Light” directed by François De Menil in 1969, but probably finished much later. There was a tantalizingly brief clip of this in the Nico: Icon documentary. Not the album version of the song appearing on The Marble Index, this alternate take was released as part of The Frozen Borderline: 1968–1970 compilation in 2007.

The story is told in Richard Witts’ (fantastic) Nico biography, Nico: The Life and Lies of an Icon, that De Menil, heir to the Schlumberger Limited oil-equipment fortune via his mother’s family, who knew Nico via Warhol associate Fred Hughes, had become besotted by the Teutonic ice queen and proposed making a film with her.

At this time Nico was having a brief affair with a 21-year-old Iggy Pop, who she had met through John Cale, then producing the first Stooges album in New York. (Iggy once revealed to a French interviewer that Nico taught him how to “eat pussy.”). Nico told De Menil that he had to follow them to Ann Arbor, Michigan if he wanted to do it. De Menil obliged, shooting the film behind the house where the band lived.

domingo, 3 de dezembro de 2023

Moda de Inverno


Credo! Nunca me vestiria desta forma. A moda realmente às vezes supera o ridículo!!!

Contra a devastação social e ambiental do pronto a vestir, associações ambientalistas agiram na véspera da Black Friday: espalharam camisetas manchadas de sangue falso no coração de Paris.

sábado, 21 de outubro de 2023

Ativistas do Climáximo partem montra da Gucci na Avenida da Liberdade, em Lisboa


As redes sociais estão incendiadas, apelidando-os de eco-terroristas. Ora terroristas são estas empresas de moda de luxo. Vamos por partes:
1. SÓ em Setembro de 2019 a Gucci prometeu fazer "alguma coisinha" pela sustentabilidade em toda a sua cadeia internacional. Até agora fez ZERO por uma moda ética e fim das emissões de gases efeito estufa. Ela é que é terrorista!!!
2. A marca pertence ao milionário francês François-Henri Pinault, CEO da empresa Kering, que se encontra entre os mais ricos do mundo.
4. LVMH, Gucci, YSL, Dior, Prada, Burberry, Hermès e outras marcas de luxo exploram o Sul Global. Façam as vossas pesquisas e vão dar razão a este grupo de jovens!
5. A própria ONU aponta que os ultra-ricos têm de cortar mais de 97% das suas emissões, no relatório de lacuna de emissões, mas o consumo de luxo nunca esteve tão alto. É preciso acabar com o consumo e as emissões de luxo. Toda esta indústria do retalho de luxo só acentua a desigualdade na raiz da crise climática. Enquanto uns lucram com o consumo e são os mais ricos da Terra, outros são despejados e deportados.
6. Investiguem as condições laborais e de emissões de GEE por parte destes SIM TERRORISTAS no Perú, Índia, China, Cambodia e Quénia.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Grandes marcas destroem roupa que tinham prometido reciclar – investigação


Um par de calças doado à C&A foi queimado num forno de cimento e uma saia doada à H&M viajou 24.800 quilómetros, de Londres até um terreno baldio no Mali.

A maior parte das roupas doadas a grandes marcas, que prometem reutilizá-las ou reciclá-las, é na verdade destruída, deixada em armazéns ou enviada para África, segundo uma investigação divulgada esta segunda-feira.

A investigação, da responsabilidade da organização “Changing Markets Foundation”, com sede nos Países Baixos, indica que várias cadeias internacionais “deitam fora roupas que prometeram salvar”. E trata-se de roupa, diz a organização, em perfeitas condições.

A organização não-governamental (ONG) explica num comunicado que usou “air tags” da Apple (dispositivos que enviam a localização) e assim conseguiu rastrear 21 peças de roupa usada, em perfeitas condições. Os artigos foram doados às lojas H&M, Zara, C&A, Primark, Nike, The North Face, Uniqlo e M&S na Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido, e outros doados a uma grande cadeia de vendas online.

Grandes marcas comprometem-se a reciclar, produzir menos resíduos, acabar com produtos químicos perigosos, e fazem ofertas para quem entregar roupa em segunda mão, que dizem será para reciclar ou reutilizar.

Segundo a organização, apesar das promessas, três quartos dos artigos (16 em 21) foram destruídos, deixados em armazéns ou exportados para África, onde cerca de metade da roupa usada é retalhada para outras utilizações ou abandonada.

A “Changing Markets Foundation” dá exemplos: um par de calças doado à M&S foi destruído numa semana, outro par doado à C&A foi queimado num forno de cimento, uma saia doada à H&M viajou 24.800 quilómetros, de Londres até um terreno baldio no Mali, onde parece ter sido despejada. Três artigos acabaram na Ucrânia, onde as regras de importação foram flexibilizadas devido à guerra. Apenas cinco artigos dos 21 foram reutilizados na Europa ou acabaram numa loja de revenda.

“A maior parte dos programas promete explicitamente não deitar fora a roupa utilizável. Mas nenhuma das marcas mencionadas mantém registos públicos sobre o destino das roupas que lhes são doadas. Em vez disso, entregam-nas a empresas especializadas em reutilização, reciclagem e eliminação final” diz a ONG no comunicado.

Urska Trunk, da ONG, diz citada no documento que as promessas das lojas são mais um truque de “lavagem ecológica” (greenwashing), porque os artigos doados em perfeitas condições são na sua maioria destruídos, deixados em armazéns ou enviados para o outro lado do mundo.

A “Changing Markets” lembra que a União Europeia está a reforçar as regras em matéria de resíduos e pede uma lei forte, que contemple objetivos obrigatórios de reutilização e de reciclagem.

O “greenwashing” é uma estratégia de publicidade através da qual uma empresa poluidora pretende fazer passar uma imagem de responsabilidade ambiental, que na verdade não tem.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Música do BioTerra: Serge Gainsbourg and Jane Birkin - Je t'aime... moi non plus


P.S. A canção "Je t'aime … moi non plus" foi proibida em Portugal na época em que foi lançada, pela sua controvérsia e por ser considerada como atentado aos costumes pelo regime salazarista.

R.I.P. Jane Birkin, 14 December 1946 – 16 July 2023 📷 by Patrick Lichfield
Para saber mais
  1. Je t'aime… moi non plus e versões
  2. Jane Birkin

segunda-feira, 3 de julho de 2023

As suas roupas estão a pô-lo doente? O mundo opaco dos químicos na moda


A primeira coisa que aconteceu quando Mary, hospedeira-de-bordo da Alaska Airlines, recebeu um novo uniforme sintético de alto desempenho na primavera de 2011 foi uma tosse seca. Então uma erupção floresceu no seu peito. Em seguida, vieram enxaquecas, nevoeiro cerebral, coração acelerado e visão embaçada.

Mary (cujo nome omiti para proteger seu emprego) foi uma das centenas de hospedeiras da Alaska Airlines relatando naquele ano que os uniformes estavam a causar erupções cutâneas com bolhas, pálpebras inchadas com crostas de pus, urticária e, no caso mais grave, problemas respiratórios e reações alérgicas tão graves que um hospedeiro-de-bordo, John, teve que ser retirado do avião e levado pelo pronto-socorro várias vezes.

Testes encomendados pela Alaska Airlines e pelo sindicato dos comissários de bordo revelaram fosfato de tributil, chumbo, arsénico, cobalto, antimónio, corantes dispersos restritos conhecidos por causar reações alérgicas, tolueno, cromo hexavalente e fumarato de dimetila, um antifúngico recentemente banido em a União Europeia. Mas o fabricante de uniformes, Twin Hill, evitou a culpa no tribunal, dizendo que nenhum desses muitos produtos químicos misturados, por conta própria, estava presente em níveis altos o suficiente para causar todas as diferentes reações. A Alaska Airlines anunciou em 2013 que compraria novos uniformes, sem admitir que os uniformes causaram problemas de saúde. Um processo de hospedeiros-de-bordo contra Twin Hill foi arquivado em 2016 por falta de provas.

Mas um estudo de Harvard de 2018 descobriu que, após a introdução dos uniformes , o número de hospedeiros-de-bordo com sensibilidade química múltipla, dor de garganta, tosse, falta de ar, coceira na pele, erupções cutâneas e urticária, coceira nos olhos, perda de voz e visão turva aumentou. tudo mais ou menos em dobro. “Este estudo encontrou uma relação entre queixas de saúde e a introdução de novos uniformes”, concluíram os autores do estudo.

Em 2021, John, que gozava de perfeita saúde antes da introdução dos uniformes, morreu aos 66 anos, após anos a procurar e a não conseguir tratamento para os seus sintomas. A causa oficial de sua morte foi paragem cardiorrespiratória, asma secundária. Mary, que continuou com alguma dificuldade a trabalhar para a Alaska Airlines, foi diagnosticada no ano passado com três doenças autoimunes: doença mista do tecido conjuntivo, lúpus e Sjögren. O parceiro sobrevivente de Mary e John dizem que os uniformes foram os culpados.

Esta história dos hospedeiros-de-bordo doentes repetiu-se várias vezes, já que a American Airlines, a Delta e a Southwest introduziram novos uniformes , que eram de poliéster de cores vivas em vez do antigo modo de espera, lã, e foram revestidos com camadas anti-rugas, resistentes a manchas e tecnologia têxtil retardante de chama.

Mary e John estão longe de estar sozinhos. O impacto da exposição a produtos químicos nocivos em trabalhadores têxteis, muitos dos quais trabalham em países em desenvolvimento, foi bem documentado e inclui problemas respiratórios, erupções cutâneas e até morte, mas eu estava menos ciente de que tantos nos EUA estavam a relatar efeitos nocivos simplesmente de vestir roupas. Em vez disso, como descobri enquanto pesquisava para o meu livro To Dye For: How Toxic Fashion is Making us Sick – and How We Can Fight Back , eles fazem parte de um grupo diverso e díspar de pessoas que acreditam ter sofrido com os efeitos de drogas tóxicas na saúde e moda.

“Os comissários de bordo são o canário na mina de carvão por causa da duração e consistência da sua exposição”, disse a Dra. Irina Mordukhovich, uma das autoras do estudo de Harvard. “Isso não significa que outras pessoas da população não estejam sendo afetadas de alguma forma. Digamos que alguém tenha roupas com os mesmos componentes – eles podem nem perceber; eles simplesmente não usam tanto.

Karly Hiser é enfermeira pediátrica em Grand Rapids, Michigan. O seu filho mais velho era um bebé quando o seu eczema piorou, disse ela. Ela trocou a sua família por sabonetes sem fragrância e produtos de limpeza não tóxicos, e o lambuzou com loção, vaselina e creme esteróide prescrito após longos banhos. “Tudo o que tentamos não ajudou”, disse ela. Feridas abertas desenvolveram-se nas suas mãos e atrás dos joelhos, e elas foram infectadas.

Como qualquer pai com orçamento limitado, Hiser comprava roupas baratas de marcas do mercado de massa, incluindo roupas desportivas de poliéster, mas recusava-se a vestir as roupas. “Ele é um garoto muito doce, bem comportado e discreto. E todas as manhãs para se vestir era um pesadelo, apenas ataques de raiva”, disse ela. O que finalmente tornou o eczema do seu filho administrável, disse ela, foi pegar a máquina de costura de sua avó, comprar tecidos não tóxicos numa loja online e costurar todas as roupas sozinha.

Apesar de seu trabalho como enfermeira, Hiser levou mais de um ano para descobrir o que ela agora acredita firmemente: que as roupas eram o problema. “Sabe, como a rotulagem nutricional para alimentos, eu preferiria que houvesse uma rotulagem melhor para roupas”, disse ela. “Nem todos os produtos químicos são ruins ou prejudiciais, mas eu gostaria de pelo menos estar ciente do que está nas roupas das crianças.”

Jaclyn é ex-gerente de produção de moda na cidade de Nova York. Ela me contou sobre a sua experiência abrindo caixas de amostras da Ásia e da América do Sul todos os dias e sendo atingida no rosto pelo cheiro pungente de produtos químicos sintéticos. Depois de anos tocando nessas roupas recém-feitas, ela desenvolveu erupções cutâneas nas mãos e nos braços. Quando o seu dermatologista a testou para alergias, ela descobriu que era alérgica a vários produtos químicos normalmente usados ​​na produção de moda, incluindo um corante disperso azul usado para tingir poliéster. Infelizmente, não havia nada que ela pudesse fazer para se proteger – todos esses alérgenos são perfeitamente legais para vestir. Mesmo que ela deixe o emprego, ela tem que usar roupas para viver. A sua saúde piorou depois disso, ela acredita,

Produtos químicos em roupas são uma área complexa, opaca e pouco pesquisada. “Não há necessariamente muitas evidências para decidir o que é um limite seguro de um produto químico”, disse Mordukhovich. “Mesmo que cada produto químico esteja abaixo dos limites que seriam considerados um problema de segurança direto, o que não sabemos é se você tem centenas de produtos químicos interagindo juntos, quais efeitos isso tem?”

Para seu doutorado no departamento de toxicologia integrada e saúde ambiental da Duke, a Dra. Kirsten Overdahl passou anos destilando e catalogando corantes dispersos num esforço para provar, em artigo submetido para revisão por pares, que eles são sensibilizadores da pele. A maioria nem mesmo é rotulada ou catalogada na literatura, muito menos testada quanto à segurança. “Eu vejo todos os dias, apenas em nossos dados brutos que os instrumentos produzem, que muitas vezes existem milhares de produtos químicos em uma amostra que não podem ser comparados a um produto químico conhecido. Isso é absolutamente aterrorizante”, disse ela. “Isso não significa que todo produto químico é ruim. Talvez seja inofensivo. Mas se não conseguirmos associar um nome a uma estrutura química, isso significa que os dados não estão disponíveis. Então você não pode dizer que não é seguro, mas também não pode dizer que é seguro.”

Recentemente, pesquisadores e defensores intensificaram a prática de comprar e testar roupas comuns e os resultados são esclarecedores. O Centro de Saúde Ambiental da Califórnia encontrou altos níveis do BPA, produto químico que desregula as hormonas, em meias de poliéster e elastano e sutiãs desportivos de dezenas de grandes marcas, incluindo Nike, Athleta, Hanes, Champion, New Balance e Fruit of the Loom, em até 19 vezes o limite de segurança da Califórnia.

Quando a Canadian Broadcasting Corporation testou 38 peças de roupas infantis das marcas de moda ultrarápidas Zaful, AliExpress e Shein, descobriu que uma em cada cinco tinha níveis elevados de produtos químicos tóxicos, como chumbo, PFAS e ftalatos. Este ano, a marca de calcinhas de época Thinx resolveu um processo decorrente de um teste feito por um professor da Notre Dame mostrando altos níveis de flúor, indicando a presença de PFAS, uma classe altamente tóxica de “produtos químicos eternos” que fornecem repelência à água e manchas.

Alguns dos produtos químicos que os cientistas descobriram nas roupas - como fosfato de tributil , fumarato de dimetila e corantes dispersos - podem ser extremamente tóxicos ou perigosos, causando reações na pele ou asma. Foi comprovado que outros, além de seu uso em roupas, têm ligações com câncer, toxicidade reprodutiva, alergias e sensibilização da pele.

Um estudo de 2022 da professora Miriam Diamond, da Universidade de Toronto, e do professor Graham Peaslee, da Notre Dame, estimou, entretanto, que, em média, as crianças que usam uniformes escolares resistentes a manchas seriam expostas a 1,03 partes por bilião de PFAS por quilograma de seu corpo. peso por dia através da pele. Os PFAS têm sido associados a vários tipos de cancro, anormalidades fetais, distúrbios reprodutivos, obesidade e redução da função do sistema imunológico. Quando se acumula no sangue, os PFAS são considerados tóxicos no nível de partes por bilhão. Mais pesquisas são necessárias sobre a rapidez com que o PFAS derramado da roupa pode ser absorvido pela pele e pela corrente sanguínea, mas os resultados são alarmantes o suficiente para estimular os bombeiros a se revoltarem contra seus equipamentos de proteção carregados com PFAS .

Alguns produtos químicos encontrados em roupas, como BPA, PFAS e ftalatos, foram encontrados em experimentos com prazo determinado e estudos longitudinais para imitar hormônios e interferir em nosso sistema endócrino, causando uma cascata pouco compreendida de efeitos à saúde que variam de flutuações extremas de peso e fadiga para infertilidade e doença crônica.

Uma vez que a exposição cessa, alguns produtos químicos, como o BPA, podem ser metabolizados e eliminados pelo corpo, acabando por se decompor e desaparecer. Outros, como os metais pesados, se acumulam no organismo e no meio ambiente, durando décadas ou, no caso do PFAS, para sempre.

Quando testadas em contextos diferentes da moda, descobriu-se que muitas dessas substâncias, como pesticidas e solventes, danificam o corpo ao longo de anos de exposição crónica, ainda que infinitamente pequena. A presença deles na moda preocupa alguns especialistas. Como Diamond, da Universidade de Toronto, me disse: “Sabemos que os produtos químicos são continuamente perdidos de qualquer material ao longo do tempo. É uma realidade física que os produtos químicos migram para a sua pele a partir de suas roupas, com e sem suor.”

“Vemos as tendências, mas não podemos identificar as tendências para este e aquele produto químico”, disse-me em 2021 o Dr. Åke Bergman, um toxicologista ambiental sueco especializado em desreguladores endócrinos, sobre o aumento de distúrbios reprodutivos e infertilidade. Ele fez parte de uma força-tarefa convocada em 2020 para aconselhar a Suécia sobre a tributação de produtos químicos tóxicos usados ​​na moda. “Há um uso enorme de um grande número de produtos químicos. Sentimos fortemente que existe uma ligação entre as exposições a esses produtos químicos e os efeitos observados”.

Apesar de todas as evidências, no entanto – os resultados dos testes tóxicos que estão se acumulando, os pesquisadores e advogados na América do Norte e na Europa tocando o alarme , os relatos de queimaduras na pele causadas por sapatos, meias e sutiãs no site da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo – este é um assunto extremamente difícil de fazer declarações conclusivas e uma área impopular de pesquisa científica. Não há estudos relacionando as experiências dos funcionários da moda e das companhias aéreas com as experiências da população em geral, nem estudos examinando os efeitos da exposição diária crônica por meio do uso de tecidos com esses contaminantes e acabamentos perigosos próximos à nossa pele. Enquanto isso, a própria complexidade da moda se presta ao ofuscamento e à confusão.

Nos Estados Unidos, não há padrões federais para o que pode ser colocado em roupas e vendido para adultos. A UE proibiu mais de 30 substâncias para uso na moda e rejeitará algumas remessas na fronteira, mas seu programa de testes é pequeno e facilmente contornado.

Além da moda, está claro que muitos americanos estão preocupados com o fato de o governo estar a falhar em seu trabalho de nos proteger de substâncias nocivas. Alimentos orgânicos que prometem ser livres de resíduos de pesticidas são o setor que mais cresce no mercado de alimentos, com vendas atingindo US$ 57,5 ​​biliões em 2021. A beleza vem logo atrás, com milhões de mulheres reformando todos os armários de banheiro na última década, deitando fora o legado marcas com ingredientes tóxicos como ftalatos e parabenos. Influenciadores, blogueiros e marcas de beleza alimentaram esse medo e desconfiança para angariar engajamento e vender produtos – enquanto muitas vezes vão longe demais ao demonizar substâncias perfeitamente seguras.

No entanto, a moda, uma indústria global de US$ 2,5 triliões, de alguma forma escapou completamente do mesmo escrutínio.

Uma razão é que nem os consumidores nem os profissionais sabem quais, ou mesmo quantas, substâncias químicas são usadas para fabricar, processar, tecer, tingir, finalizar e montar roupas e acessórios.

“Está ficando mais difícil evitar esses produtos químicos”, diz a Dra. Elizabeth Seymour, do Centro de Saúde Ambiental de Dallas, sobre aditivos como solventes e metais pesados. “Existem vários produtos químicos que são colocados em tudo. E suas roupas estão incluídas nisso.” Mas enquanto produtos de beleza, limpeza e alimentos embalados vêm com uma lista de ingredientes, a moda não, embora os testes revelem que ele possui alguns dos perfis químicos mais complicados e multicamadas de qualquer produto, chegando a 50 produtos químicos ou mais.

Depois de pesquisar isso durante dois anos, agora tenho mais cuidado com minhas próprias roupas. Evito marcas de moda baratas, falsificadas ou ultrarrápidas. Eu compro a empresas em quem confio, que se preocupam com a sua reputação e têm um programa de gestão dos produtos químicos ou rótulos como bluesign, Oeko-Tex ou GOTS. Escolho fibras naturais sempre que possível e evito promessas extravagantes como repelência a manchas, acabamentos antiodores, tecidos fáceis de cuidar e antirrugas. Eu lavo qualquer roupa nova antes de usá-la, com sabão em pó não tóxico e sem perfume. E eu confio no meu nariz – se algo cheira mal, eu devolvo.

Mas o que eu realmente quero ver é a ação dos nossos governos. Alguns estados têm requisitos de rotulagem ou proibições futuras de PFAS em roupas, mas o governo federal não regulamenta quais produtos químicos podem ser colocados em roupas e vendidos a consumidores adultos. Precisamos de uma revisão total de como gerenciamos produtos químicos em produtos de consumo neste país.

Eu gostaria de ver o governo federal alcançar o bom trabalho que está sendo feito pela União Européia – e ir além. Deve implementar impostos e tarifas sobre produtos químicos não testados para financiar pesquisas desesperadamente necessárias, exigir que as empresas químicas registrem todos os produtos químicos em uso e compartilhem qualquer pesquisa associada, banir certas classes de produtos químicos para uso na moda e expandir a capacidade da Consumer Product Safety Commission de testar e lembre-se da moda tóxica.

Estas podem parecer grandes perguntas. Então, talvez possamos começar simples. Vamos exigir que a moda venha com uma lista de ingredientes – uma lista de ingredientes realmente completa. Porque se os consumidores realmente soubessem o que há em suas roupas, bem, eles poderiam não querer usá-las.