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sábado, 11 de março de 2023

"A necropolítica é deixar morrer para manter viva uma economia predatória”. Entrevista com Eduardo Gudynas


Aos 63 anos, Eduardo Gudynas (Montevidéu, Uruguai, 1960) é o mais jovem da lista dos 75 principais pensadores dos últimos 150 anos sobre questões ligadas ao desenvolvimento elaborada pelo geógrafo David Simon, da Universidade de Londres. Há apenas oito latino-americanos na lista. Como pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), disciplina na qual é mestre, acompanha há mais de três décadas os problemas do desenvolvimento, do meio ambiente e dos movimentos sociais na América Latina, tendo escrito vários livros sobre esses temas.

Suas publicações mais recentes são uma avaliação das violações dos direitos humanos e da natureza no extrativismo na Bolívia e uma análise dos impactos da guerra na Ucrânia na ecologia política da América Latina. Além disso, colabora com organizações cidadãs sul-americanas e com instituições universitárias.

Apesar de centrar seus estudos em seu continente natal, Gudynas foi o primeiro latino-americano a receber a Cátedra Arne Naess em Meio Ambiente e Justiça Global da Universidade de Oslo (Noruega); também é pesquisador do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Munique (Alemanha) e recentemente passou a integrar a Comissão para a Transformação da Economia Global do Clube de Roma.

Aqui conversamos com ele sobre conflitos socioambientais, direitos da natureza e política.
Eis a entrevista.

Vamos falar sobre os conflitos socioambientais. Como eles ocorrem?
São disputas com componentes sociais onde as demandas ecológicas ou territoriais têm grande relevância. Incluem, por exemplo, protestos de comunidades locais contra projetos de mineração ou petróleo. As manifestações cidadãs que incorporam questões ambientais e territoriais têm uma longa história.

Lembro-me, por exemplo, da primeira grande marcha indígena na Bolívia, cujo slogan era território e dignidade, e isso ocorreu em 1990. Nessa mobilização, estavam presentes ingredientes sociais, ambientais e territoriais. Embora em relatos históricos de conflitos contra a mineração dos inícios do século XX esses componentes já estivessem presentes.

O que diferencia o conceito de território para os povos originários de como é entendido pelo senso comum tradicional? Como tudo isso se expressa na prática?
O território é uma construção social, é definido pelas vivências, histórias ou religiosidades, por exemplo, de comunidades camponesas ou indígenas. O que encontramos ouvindo, acompanhando ou participando de alguns conflitos é a defesa de um espaço geográfico considerado como próprio. Essa condição é chamada de território. Portanto, espaço ou geografia não são sinônimos de território, e em uma mesma região podem coexistir múltiplos territórios, inclusive sobrepostos entre si.

Há uma semelhança nos conflitos socioambientais?
A importância de acompanhar e ouvir as comunidades locais é que fica claro que existem muitos tipos de conflitos. Entre os mais visíveis estão aqueles que são uma reação às ameaças à saúde, à integridade do meio ambiente ou à usurpação de territórios considerados como próprios. Ali estão enraizados os protestos tão comuns que existem contra as mineradoras ou as petroleiras.

Mas também há conflitos onde o que está em disputa é uma indenização em dinheiro ou obras de infraestrutura, como um posto de saúde local ou um equipamento escolar. Não existe uma oposição frontal à chegada, digamos de uma mineradora, mas a luta é para conseguir parte do benefício económico.

Ao mesmo tempo, existem conflitos que operam na direção contrária. São as mobilizações que reivindicam a chegada desse tipo de empreendimento, argumentando que trarão investimentos e empregos. Chega-se, assim, a situações muito complicadas, onde há disputas entre diferentes grupos de uma comunidade, sendo uns a favor e outros contra esses empreendimentos.

Que relação existe, em geral, entre os conflitos socioambientais e a ação política nacional?
Muitos conflitos têm estreita associação com os problemas e, especialmente, com as misérias da política convencional. Boa parte deles explode em consequência de decisões, ações ou omissões em políticas públicas tomadas pelos Estados, como concessões feitas a mineradoras ou petroleiras. Em outros casos, há um Estado ausente e cúmplice, que falha em controlar e monitorar os efeitos da agricultura intensiva.

Muitas dessas disputas estão associadas à corrupção e aos crescentes níveis de violência, onde a política participa de múltiplas formas dessas mazelas. Os casos extremos estão no assassinato de defensores de direitos humanos ou ambientais em diferentes países, com as situações mais graves, por exemplo, no Brasil e na Colômbia.

O que exatamente está acontecendo?
O que acontece em muitos países é que as concessões de mineração ou de petróleo, ou as licenças para expansão agrícola são expedidas nas capitais para áreas que os técnicos acreditam estar vazias, que não são de ninguém, ou que, embora saibam que estão ocupadas, não consideram relevantes para os grupos locais. Dessa forma, o território de uma comunidade indígena de repente se encontra dentro de um polígono de petróleo e, logo depois, chegam militares, trabalhadores e técnicos para invadir suas terras. Isso torna inevitável o surgimento de um conflito.

Como reconhecemos nessas situações a herança colonial?
A herança colonial está presente de várias formas. A política convencional, especialmente com aquele repetido viés latino-americano em direção ao caudilhismo, tem uma clara herança colonial. Mas, ao mesmo tempo, as condições econômicas também estão imersas em uma subordinação que tem muito de colonial. Isso é muito evidente nos extrativismos, pois são extrações em grande quantidade de recursos naturais que são exportados para mercados globais, repetindo uma inserção internacional secular baseada em matérias-primas. Atualmente, explica boa parte dos conflitos ambientais mais graves do continente que estão associados à apropriação de recursos naturais para exportação. É como se o vínculo colonial se mantivesse, mas vestido com outra roupagem, que, em vez de ser dirigido por reis e vice-reis, passa a ser decidido nas Bolsas.

E qual é, assim vista, a relação entre globalização e conflitos socioambientais?
A globalização determina uma relação na qual a região latino-americana tem um papel subordinado. Os preços dos bens naturais são determinados nos centros financeiros, como é o caso da cotação dos minerais em Londres ou dos agroalimentos em Chicago. Se o valor do cobre ou da soja aumenta, todos os países começam a procurar cobre ou a plantar soja. As condições globais são tão poderosas que determinam as estratégias nacionais de desenvolvimento.

E qual é o nível ou a intensidade desses fluxos de exportação de recursos naturais?
O volume de extração de recursos naturais é brutal. Penso que o nível que essa depredação da natureza atingiu está passando despercebido. Na década de 1960, foram exportados pouco mais de 200 milhões de toneladas de recursos naturais, como minerais, hidrocarbonetos e produtos agrícolas e florestais, etc. Em meados da década de 2010, eram exportados cerca de 700 milhões de toneladas. Ou seja, mais que triplicou, o que significa que cada recanto do continente está enfrentando problemas com esses extrativismos.

O ritmo, a intensidade e o volume de apropriação da natureza são vertiginosos. Portanto, não é de se estranhar que os conflitos e as resistências diante desse avanço se multipliquem. Dessa forma, as condições globais que determinam o comércio e os preços acabam impactando nesses conflitos.

E como podemos identificar/reconhecer a pressão desses interesses estrangeiros no desenvolvimento dos conflitos socioambientais?
Em alguns setores, os interesses estrangeiros são decisivos, como sabemos, por exemplo, pela atuação das grandes corporações mineradoras, ou pelos fundos de investimento do capitalismo global que investem seu dinheiro em todo tipo de projeto em nosso continente.

Mas deve ficar claro que a situação mudou muito. Na década de 1960, os principais destinos das exportações de matérias-primas latino-americanas eram os Estados Unidos, o Canadá e os países da Europa Ocidental. Nos últimos anos, o destino é principalmente a China e outros países asiáticos. Além disso, esses fluxos para a América do Norte foram drasticamente reduzidos e a China absorve mais de três vezes os recursos que são exportados para a União Europeia. Em muitos casos, a pressão sobre os nossos territórios e recursos depende cada vez mais das decisões do Partido Comunista Chinês em Pequim.

Que papel desempenham ali os atores económicos nacionais?
O que a experiência latino-americana mostra, e que está ficando bastante claro no continente, mas não tanto em outras regiões, é que a propriedade dos recursos naturais ou das empresas que os extraem e comercializam não condicionam ou garantem que sejam cumpridos os mandatos de justiça social e ecológica.

Os atores nacionais operam da mesma forma que os interesses estrangeiros. Temos os casos de conhecidas mineradoras de capital nacional, das cooperativas de mineradoras bolivianas que se apresentam inclusive como revolucionárias, e dezenas de milhares de agricultores lançados na agricultura intensiva baseada nos agroquímicos. Todos eles estão por trás de muitos conflitos socioambientais. E não podemos esconder o caso das petrolíferas estatais, que também provocam impactos sociais e ambientais de toda ordem.

Podemos relacionar os recentes conflitos sociais e as mobilizações populares no Chile, Colômbia, Peru e outros países latino-americanos com os conflitos socioambientais?
Estamos enfrentando disputas que têm alguns aspectos comuns, mas são muito diferentes entre si. Cada caso permite observar que as situações nacionais são diferentes e, embora existam fatores recorrentes, também existem particularidades próprias de cada país.

No caso do Chile, observou-se uma explosão popular generalizada, que se multiplicou em várias cidades, expressando cansaço com a política e o regime institucional nesse país.

Por outro lado, no Equador ocorreram levantes liderados por organizações indígenas, alimentados por mobilizações de comunidades rurais e o apoio de alguns setores populares urbanos. As reivindicações contra a mineração, por exemplo, estiveram presentes, mas esse tema não liderou essas mobilizações.

Os conflitos socioambientais não eram perceptíveis?
Sim, claro, eles estão presentes. Continuam a multiplicar-se as reações em defesa dos territórios e na exigência de garantir a qualidade de vida e a conservação da natureza em todos os lugares. O número de conflitos continua a aumentar, e em vários casos conseguem travar alguns empreendimentos muito prejudiciais, e que, por sua vez, se tornam um exemplo para outra comunidade, em outra região ou outro país, que também decide se mobilizar.

Você se refere à forma como os Estados assumem esses conflitos com o termo necropolítica.
A meu ver, estamos entrando em tempos de necropolítica. Tomo emprestado esse termo do filósofo camaronês Achille Mbembe, para estruturar uma reflexão que mostra que há uma aceitação da morte. Tolera-se que pessoas morram, ou definhem numa condição eterna de mortos-vivos mergulhados na pobreza e na exclusão, toleram-se as quadrilhas e os pistoleiros, e tolera-se que as florestas sejam derrubadas e as águas poluídas.

Essa aceitação explica por que personagens repulsivos como Jair Bolsonaro puderam conquistar um governo. A mesma coisa está acontecendo agora no Peru, onde a presidência e o congresso se mantêm graças a uma sucessão de mortes e repressões. Esse deixar morrer consolidou-se durante a longa crise provocada pela pandemia. A necropolítica é deixar morrer, mas para manter vivo um tipo de economia predatória.

Os conflitos que eclodem na resistência aos extrativismos são uma das frentes de oposição a essa indiferença à morte e, ao mesmo tempo, são elas que alimentam as chamas de alternativas voltadas para a vida.

Num sentido mais político, como devemos propor alternativas locais, regionais e, finalmente, globais, às ameaças contra a natureza?
Surgiram inovações incríveis, especialmente na América do Sul. O reconhecimento dos direitos da natureza é um avanço substancial, especialmente sob a formulação alcançada no Equador. Essa estrutura permite acolher as tradições dos povos indígenas, bem como as posições críticas do conhecimento ocidental, e articulá-las para reconhecer os não humanos com seus valores intrínsecos.

O mesmo aconteceu com a plataforma do Bem Viver em suas acepções originais, pois é uma construção crítica ao desenvolvimento convencional, mas que lança alternativas ao mesmo tempo pós-capitalistas e pós-socialistas.

Essas e outras posições alcançaram um vigor extraordinário, e por isso foram inclusive formalizadas na Constituição equatoriana. Essa demanda é muito forte na América Latina.

Como isso se traduziu em políticas públicas?
Muitas dessas ideias foram utilizadas para propor novas políticas públicas. Quando se entende que os direitos da natureza impossibilitam a aprovação de novas explorações de petróleo na Amazónia por seus impactos sobre a biodiversidade, os solos e a água, imediatamente surgem desafios para as políticas públicas. A pergunta imediata é como projetar uma transição pós-petróleo que nos permita abandonar os hidrocarbonetos.

Com base nesse tipo de preocupação, foram desenhadas as chamadas transições pós-extrativistas. Elas podem ser descritas como planos de ação, com medidas que vão desde novas regulamentações até mudanças nos impostos, que seriam aplicadas se estivéssemos no comando de um governo que pretende caminhar para o Bem Viver. A experiência sul-americana, com todas as suas conquistas, mas também com suas derrotas, possibilita a construção de verdadeiros planos de governo e de ação muito sofisticados em várias frentes.

Que balanço faz? Qual é o horizonte dessas alternativas?
O atual ritmo e intensidade na apropriação dos recursos naturais só pode ser mantido com o aumento dos níveis de violência e sob condições de pobreza. Se houvessem avaliações socioambientais adequadas, se as comunidades locais fossem informadas e consultadas, a maioria dos projetos extrativistas atuais não seria aprovada.

Mas os conflitos locais se multiplicam e, enquanto isso, as maiorias, que estão nas cidades, parecem ter naturalizado a destruição da natureza, permitem que os povos indígenas sejam encurralados e os camponeses marginalizados. O que quero dizer é que há muitas reações e protestos, mas ainda são insuficientes, porque os governos e a política persistem nas mesmas estratégias, e o fazem porque têm importantes bases de apoio dos cidadãos.

Nesse contexto, o que entendemos por direitos da natureza?
Os seres humanos assumem-se como sujeitos, e nessa condição seus direitos são reconhecidos. Nisso consiste a condição determinante dos direitos das pessoas em seus usos contemporâneos.

Devido a determinadas sensibilidades e posturas entende-se que na vida não humana também há sujeitos. Uma vez que essa condição é compreendida, os direitos devem ser automaticamente reconhecidos.

Foi o que se discutiu no processo constituinte do Equador, que culminou com o reconhecimento dos direitos da natureza. A nova Constituição assim os reconhece, e coloca como sujeito os grupos onde a vida se baseia, como uma espécie. Isso também é importante porque serve para nos lembrar que os direitos da natureza não são iguais aos chamados direitos dos animais, nem que impõem um ambiente intocado onde nada pode ser cultivado ou extraído. Esses direitos permitem o uso da natureza desde que seja assegurada a sua sobrevivência.

Paralelamente aos direitos da natureza, mantêm-se os direitos humanos, inclusive os que envolvem a garantia da saúde e da qualidade do ambiente.

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quarta-feira, 8 de março de 2023

Estas são outras crises e quase não há tempo: políticas da morte e aberturas para outra política


O que tradicionalmente se qualifica como “a política” está imersa em múltiplas crises. Em suas dimensões sociais, como exemplo, é possível lembrar que a América Latina continua sendo a região mais violenta do mundo, tanto no número total de homicídios quanto em sua proporção em relação à população. Brasil, Colômbia, México e Jamaica estão entre os países que mais sofrem essa situação. No campo ambiental, há décadas se repetem alertas sobre o desmatamento, a perda de biodiversidade e a poluição.

A pandemia de coronavírus tornou mais claras as circunstâncias dramáticas vividas, já que ao menos 1,5 milhão de pessoas morreram, enquanto eram aplicados todos os tipos de quarentenas, controles e punições. Por uma razão ou outra, é possível dizer que em muitos lugares esses exemplos de morte e destruição lembram aos de uma guerra. É uma situação que afeta particularmente as comunidades camponesas e indígenas, e que chega a extremos como a lenta, mas persistente destruição dos ambientes amazônicos e dos meios de vida que sustentam os povos originários.

No entanto, os sistemas políticos não conseguem resolver essas problemáticas. Somam-se as denúncias de assassinatos e contaminações, mas raramente há consequências políticas na renúncia de um ministro. A gestão da pandemia foi terrível em quase todos os países, mas não se efetivou um debate político que levasse à imposição de uma reforma do setor de saúde para que isso não se repetisse.

Não se pode esquecer que, no passado, dramas como esses foram vividos na América Latina. Lembremos por um momento as ditaduras militares do século XX que, no caso da Argentina, finalmente desembocou numa rejeição e indignação que ganharam as ruas, levando à queda dos generais. Foi seguida pelo horror diante dos crimes, torturas e desaparecimentos, e é nesse contexto que foi publicado o relatório Nunca más (elaborado pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas). Em suas páginas, adverte-se que o país sofreu sua “maior tragédia”, na qual os princípios dos direitos humanos foram pisoteados e ignorados.

Essa lembrança serve para levantar uma inevitável questão: por que não acontece algo semelhante, atualmente? Por que não há reivindicações por um “nunca mais”, por exemplo, frente aos assassinados, aos que dormem nas ruas ou não conseguem se alimentar, ou frente à destruição ambiental? Por que no Brasil, nas grandes cidades, não aconteceram grandes marchas denunciando o genocídio de seus povos indígenas? Todos esses problemas são nossas tragédias atuais e em todos eles os direitos são pisoteados.

Diante desses questionamentos, responde-se com referências à ineficiência nos governos, sua subordinação a interesses econômicos e à corrupção. Ao mesmo tempo, questiona-se os líderes políticos porque embora prometam mudanças e soluções, nos fatos, os problemas se repetem e, pouco a pouco, agravam-se. Tudo isso, por sua vez, leva ao que se descreve como o desencanto com a política e que não parou de se aprofundar. A maior parte dos latino-americanos confia muito mais em sua igreja, nos militares e até em empresas do que em atores políticos. Só 27% dos entrevistados dizem confiar no próprio governo, e apenas 13% nos partidos políticos [1].

Sabemos que a política contemporânea, herdeira de tradições eurocêntricas, foi construída invocando a razão, a liberdade, o bem-estar e a paz. Sabe-se também que esteve infestada de contradições, onde a política também criou mecanismos de controle e disciplinamento, amparou o colonialismo e o racismo, consolidou a desigualdade e a pobreza, legitimou a opressão e os totalitarismos.

Mas essas quedas desencadeavam reações tanto dentro da política quanto entre os cidadãos. Irrompiam protestos contra as violações de direitos, enfrentava-se o colonialismo e o racismo, ocorriam mobilizações pela democracia e em defesa dos trabalhadores, e assim sucessivamente. Eram reações a situações consideradas intoleráveis e ultrajantes, eram respostas alimentadas pelo horror, como aquelas que explicam aquele “nunca mais”.

Essa dinâmica de avanços e retrocessos, com todas as suas contradições, está sendo alterada. O que alguns classificavam como correções próprias da biopolítica, citando M. Foucault [2], agora são mais esporádicas e menos poderosas, e prevalece a aceitação e a resignação. São tantas as denúncias sobre descumprimentos de direitos que deixam de chamar a atenção. Convive-se com violências tão agudas que muitos setores cidadãos as naturalizam. A pandemia acentuou essa situação ao tolerar mortes e controles como nunca.

Vem sendo cruzado um limiar que desemboca na necropolítica. Este termo, cunhado pelo camaronês Achille Mbembe, pode ser ajustado e redefinido à situação atual para descrever uma política que deixa as pessoas e a Natureza morrerem, embora mantenha as economias vivas. Não é um sinônimo de ações violentas específicas, mas é funcional a elas e gera as condições para sua aceitação e reprodução [3].

O governo de Jair Bolsonaro, no Brasil, foi um exemplo da guinada à necropolítica, por suas posições racistas, machistas e violentas. Sua gestão é a responsável direta pela onda de mortes por Covid, pela violência nas cidades, a proliferação de pessoas com armas, a fome e morte em terras indígenas e pela depredação ecológica. Deisy Ventura, professora da Universidade de São Paulo, argumenta que as ações do governo foram atos desumanizadores intencionais, onde os interesses econômicos justificavam a “morte em massa dos mais frágeis”.

O intolerável, como as mortes em massa, especialmente de pobres e indígenas, foi justificado e tolerado por amplos setores da sociedade. Os bolsonaristas não escondiam seus extremismos, e onde havia uma legitimação, não se baseava na moral, mas na economia e no mercado. Ventura conclui com uma avaliação lapidar: o Brasil é um “país humilhado por ter tolerado o intolerável” [4]. Contudo, apesar de tudo isso, Bolsonaro conseguiu um enorme apoio dos cidadãos (obteve mais de 58 milhões de votos, contra pouco mais de 60 milhões da a coligação de Lula, em 2022).

Atualmente, no Peru, ocorre algo semelhante, já que se mantém um governo apesar das dezenas de mortos e mais de mil feridos nas repressões e repetidas mobilizações. Neste país, assim como em outros, estamos diante de situações em que muitas pessoas deixam de ser cidadãs e, inclusive, são despojadas de sua humanidade, para serem inferiorizadas, marginalizadas e excluídas. Se morrem, afinal de contas, não importa muito nem para a política vernácula, nem para os mercados.

Sob a necropolítica, inúmeros setores cidadãos ficam presos ao entendimento de que para eles não há alternativas melhores ou mais corretas, afundando-se na indiferença e na omissão. Não é que as maiorias repentinamente tenham se tornado insensíveis, por exemplo, com o genocídio dos povos amazônicos ou com as matanças, mas, sim, que suas instâncias morais foram arrebatadas. As urgências estão em sobreviver, não têm para onde fugir, não conseguem pesar as consequências de seus atos e também não encontram outra opção para escolher. O que era imoral, intolerável e até horrível, algumas vezes é aceito, e em outras tolerado, ou nem sequer podem fazer uma avaliação moral, porque se consomem em sobreviver. Essas são as condições da necropolítica.

Em boa medida, a disseminação da necropolítica passa despercebida, uma vez que essas crises são interpretadas como expressão de posições conservadoras, neoliberais ou fascistas, ou se entende que problemas como a violência seriam muito antigos e não têm nada de essencialmente novo. Contudo, é imperativo reconhecê-la porque é substancialmente diferente. Também não é um vazio político, nem uma antipolítica, mas produz ativamente narrativas que anulam os sentimentos de indignação, combate as resistências cidadãs focalizadas e legitima prioridades econômicas. Continuamente, justifica a morte de pessoas ou o desaparecimento de ecossistemas.

A necropolítica é resultado do esgotamento dos mecanismos que a política moderna tem para operar contra a morte e, ao mesmo tempo, de uma incapacidade de se envergonhar por esse fracasso. Não só isso, mas como essa mesma modernidade, contém os fatores que levam a essa situação de destruição e violência, não oferece as opções para uma verdadeira reversão. Como a modernidade assume o mundo, por exemplo, em dualidades e hierarquias, cedo ou tarde, desemboca-se na exploração, exclusão e dominação, e a violência se torna inevitável. Ao mesmo tempo, como também sustenta que não há alternativas possíveis a ela mesma, as opções de mudança que a transcendem não são imaginadas, nem concebidas.

Isso faz com que as alternativas devam ser buscadas para além da modernidade ou em suas margens. É necessária uma política concebida, sentida e praticada em outros mundos. O primeiro passo nessa tarefa consiste em aceitar essa possibilidade, o que não é simples porque a modernidade continuamente a bloqueia. Essa mudança de posição corresponde ao que tem sido chamado de aberturas para outras ontologias [5] e, felizmente, dispomos de vários exemplos.

Algumas estão na academia do norte (como as contribuições de Isabelle Stengers e Bruno Latour), outras se baseiam em experiências latino-americanas (como as do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro e da peruana Marisol de la Cadena). Alguns são de décadas atrás e não receberam a atenção que mereciam (como o Projeto Andino de Tecnologias Camponesas – PRATEC, nas montanhas do Peru, ou as explorações do argentino Rodolfo Kusch). Mas também há aqueles que alcançaram ampla divulgação e impactaram nos debates políticos, como aconteceu com as primeiras versões do Bem Viver na Bolívia, Equador e Peru.

Essas aberturas também são urgentes, porque não há mais tempo para continuar tentando ajustes e retificações dentro da modernidade. O descalabro ecológico é enorme em escala e intensidade, e a cada ano que as conhecidas crises se mantêm, torna-se mais difícil revertê-las e aumentam as restrições que impomos às gerações futuras. Quanto mais demoramos, mais nossas possibilidades de reverter um colapso serão reduzidas e, em caso de ocorrer, entre os primeiros afetados estarão, mais uma vez, as comunidades indígenas e camponesas.

Esta breve explanação permite fundamentar um convite a se juntar à tarefa de evidenciar que a necropolítica está entre nós. Não é uma nova crise, nem uma maior deterioração, ao contrário, estão mudando as formas como se reproduz a política, suas bases de legitimação e seus fundamentos morais. Isso explica que a resignação, a indiferença e a aceitação diante da morte sejam cada vez mais difundidas. É indispensável evidenciar essas mudanças para começar a detê-las.

É também um convite a promover aberturas a outras ontologias, a partir de um compromisso de garantir a vida. É abrir-se a pensar, imaginar e ensaiar uma “outra política” direcionada a mundos políticos organizados de outras formas, com outros participantes e outros devires. São propósitos impulsionados por um sentido de urgência, porque não há muito mais tempo disponível e porque já estamos atolados em crises que são muito diversas.
Notas

1. Informe 2021. Adiós a Macondo. Latinobarómetro, Santiago, 2021.
2. Nacimiento de la biopolítica: curso en el Collège de France (1978-1979), M. Foucault. Fondo Cultura Económica, Buenos Aires, 2021.
3. Necropolítica: la política del dejar morir en tiempos de pandemia, E. Gudynas. Palabra Salvaje 2, p. 100-123, 2021.
4. “O Brasil é hoje um país humilhado por ter tolerado o intolerável”. Entrevista com Deisy Ventura, J. V. Santos, Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 26 de janeiro de 2023.
5. The politics of modern politics meets ethnograhies of excess through ontological openings, M. de la Cadena. Filedsights – Theorizing the contemporary, Cultural Anthropology Online, 13 enero 2014.

Observação
O presente artigo é uma versão abreviada de um ensaio mais longo que inaugura a série Cuestiones y Disputas en Otra Política. 

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Riscos globais, crises ambientais e reformas do desenvolvimento


De acordo com o Relatório de Riscos Globais 2023, do Fórum Econômico Mundial, “os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e econômicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais”. 
De um lado do planeta, em pleno inverno, em Davos reuniu-se a elite empresarial e política no Fórum Econômico Mundial (FEM). Simultaneamente, do outro lado do globo, no verão, vários países do extremo sul da América Latina sofrem uma estiagem muito severa. Esses distúrbios climáticos, assim como outros problemas, não deveriam ter chamado a atenção de quem estava em Davos se tivesse lido o Relatório de Riscos Globais 2023 que ali foi apresentado?

Segundo este relatório, os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e económicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais.

No Relatório de Riscos Globais 2023, ao abordar o futuro imediato, referente aos anos de 2023 e 2024, entre os dez riscos mais graves, metade é ambiental (1). Em primeiro lugar está o custo de vida, mas é seguido por desastres naturais e eventos climáticos extremos. Outros riscos ambientais referem-se à mudança climática, aos incidentes provocados por danos ambientais e à crise de recursos naturais. Outros tipos de riscos se intercalam além do custo de vida, como a erosão da coesão social e a polarização social e a migração em massa.

É chamativo observar que nenhum dos riscos mais prementes é econômico, apesar das repetidas previsões de estagnação ou recessão neste e nos próximos anos. Tampouco aparece indicada uma propagação da guerra na Europa ou em outras regiões. Mas a economia e a guerra estão por trás de vários efeitos associados ao meio ambiente. As estiagens, como as tornadas mais frequentes pelas mudanças climáticas, resultam em safras menores, levando ao aumento dos preços dos alimentos, o que impacta no custo de vida. Também contribuíram para isso as alterações no comércio internacional de grãos e fertilizantes em decorrência da guerra na Ucrânia.

Sempre se deve ter presente a forma como o Fórum Económico Mundial (FEM) avalia os riscos em escala planetária. Baseia-se em entrevistas com mais de 1.200 pessoas, e quase uma centena de especialistas e académicos, com especial atenção para os executivos de empresas, ministros de finanças, políticos ou analistas, muitos deles associados ao poder. O relatório atual é o 18º numa série que tem muitos anos, e seus alertas ambientais não são novidade, uma vez que em relatórios anteriores fazem alertas semelhantes. Na edição de 2022, entre os dez maiores riscos, cinco eram ambientais; os três primeiros falharam em evitar as mudanças climáticas, clima extremo e perda de biodiversidade. O relatório atual aumenta a preocupação com as condições ecológicas no futuro imediato.

Os riscos nos próximos dez anos
Considerando os próximos dez anos, a lista dos riscos mais graves também é dominada pelas questões ambientais; passam a ser seis, e quatro deles estão localizados sucessivamente nas primeiras posições. O quinto e o sétimo riscos são sociais, um é tecnológico e outro é geopolítico. Mais uma vez, nem os conflitos econômicos nem os bélicos aparecem. Vários dos riscos apontados para 2023-24 se repetem, como é o caso de todos os riscos ambientais, enquanto a avaliação decenal indica um agravamento.

De fato, mais da metade dos consultados entende que a situação vai piorar. 20% alertam que em dez anos serão ultrapassados pontos de inflexão que levarão a consequências catastróficas. Em seu sentido ecológico e social, deveriam ser entendidas como situações irreversíveis. 34% acreditam que a volatilidade prevalecerá nas economias e setores, o que levará a choques múltiplos. Em resumo, 54% consideram que vamos lidar com condições muito piores. Por outro lado, nas restantes respostas considera-se que esta volatilidade pode ser controlada (26%) ou limitada (11%).

A situação latino-americana
Deixando de lado, neste caso, uma revisão crítica dos sentidos que o FEM de Davos dá à ideia de “risco”, já que para os fins desta análise basta seguir com os entendimentos mais usuais, fica evidente que na América Latina todos eles estão presentes. Riscos severos como o aumento do custo de vida, e especialmente o risco associado à inflação e aos preços dos alimentos, afetam praticamente todos os países (2). Estão acontecendo diversas crises ambientais; a mais recente é a estiagem no Cone Sul (Argentina, Uruguai e sul do Brasil). O fracasso das medidas de mitigação das alterações climáticas é evidente e o mesmo acontece com os programas e apoios de adaptação às suas consequências.

O que o FEM chama de erosão da coesão social e polarização social está diante dos nossos olhos em casos como o do Peru, onde há grandes mobilizações cidadãs e dura repressão policial, ou na tentativa de golpe de Estado dos bolsonaristas no Brasil. O desempenho econômico será muito modesto, as condições comerciais serão restritivas, e isso faz com que os níveis de pobreza aumentem ou persistam, alimentando as instabilidades políticas.

Conexões e pontos de inflexão
Os riscos ambientais estão conectados, como é o caso da estreita associação entre mudanças climáticas, perda de biodiversidade e crises de recursos naturais, e a partir daí vários setores são afetados. Se tomarmos a agricultura como exemplo, circunstâncias como as inundações ou as estiagens afetam a produção de alimentos. Isso é transmitido às cadeias de comercialização agrícola, levando a limitações na oferta de alimentos ou ao aumento de seu custo. Muitos países do Sul Global não têm dinheiro para amortecer esses impactos, como financiar a irrigação, comprar fertilizantes mais caros ou subsidiar os alimentos. A alto do custo de vida torna-se inevitável, o que aumenta o descontentamento dos cidadãos, multiplica os protestos e afeta a coesão social.

Este exemplo esquemático mostra que os distúrbios ecológicos transmitem seus efeitos para diferentes áreas. Eles não podem ser analisados separadamente um do outro. Produzem-se crises interligadas que se retroalimentam.

Reformas no desenvolvimento diante das crises ambientais
Considerando os alertas deste relatório, como em anos anteriores, fica claro que ações urgentes são necessárias para, por exemplo, prevenir as mudanças climáticas ou resolver os desequilíbrios econômicos. Aparecem justificativas adicionais para reformar o desenvolvimento capitalista, e isso é precisamente o que foi levantado pelo FEM. Em 2020, seu presidente, Klaus Schwab, apresentou sua alternativa ao “Grande Reinício” (ou Great Reset), com medidas como os impostos para os mais ricos, o fomento da economia participativa ou o abandono dos combustíveis fósseis (3). Schwab faz uma diferença entre três capitalismos: um corporativo, outro estatal (como na China), e sua alternativa, o capitalismo das partes interessadas.

Isso faz parte dos confrontos que ocorrem entre essas elites empresariais e políticas. De um lado estão aqueles que entendem que o desenvolvimento capitalista predominante tornou-se insustentável, que causaria uma crise em escala planetária e, portanto, são necessárias reformas como as que acabamos de mencionar. Os que discordam destas políticas rejeitam qualquer correção de rota do capitalismo, insistindo em blindar estratégias convencionais (4).

O que muitas vezes é interpretado a partir da América Latina como um bloco homogêneo que defende o desenvolvimento, na verdade abriga diferentes estratégias que estão em forte discussão. No debate mais recente, as palavras e os conceitos usados são reveladores. Agora usa-se explicitamente a palavra capitalismo, e seus autores reconhecem que a situação é grave e propõem algumas reformas. Entre elas estão as mencionadas acima e outras que implicam intervenções nos mercados, retomando a presença do Estado em setores como educação e saúde, e uma mudança na gestão ambiental, a começar pelo cumprimento dos acordos sobre mudanças climáticas.

Entre esses reformadores, além do FEM, estão vários bilionários e empresas de setores como comércio e serviços. Muitos deles participam não por serem ambientalistas, mas por entenderem que cada grau de aumento da temperatura global coloca seus negócios em risco. Há também economistas que hoje são mais conhecidos na América Latina por apoiar alguns progressismos. São os casos de Joseph Stiglitz (em relação ao governo de Alberto Fernández na Argentina) ou, mais recentemente, Mariana Mazzucato (que é invocada pelo presidente colombiano Gustavo Petro).

O outro grupo rejeita as propostas de mudança. Querem preservar os mercados liberalizados sem a intervenção do Estado, renunciam aos impostos, negam ou minimizam as mudanças climáticas, ainda se apegam aos combustíveis fósseis e gostariam de manter serviços públicos como educação e saúde privatizados. Agendas moderadamente reformistas, como a de Schwab, são classificadas como típicas de um "comunismo". Nessas trincheiras estão economistas e políticos conservadores ou neoliberais e corporações de setores como mineração, petróleo ou agronegócio, todos com forte presença na América Latina.

O debate e o não debate latino-americano
Este tipo de discussão, as diferentes formas de diagnosticar os problemas e as alternativas propostas não são comuns na América Latina. Na nossa região, a agenda política dominante, e também boa parte da acadêmica, é tão conservadora que predomina o continuísmo do desenvolvimento capitalista convencional enquanto os reformistas são minoria. Pequenos ajustes, como a reforma tributária proposta na Colômbia, que se poderia dizer mais modesta do que as traçadas pelos reformistas em Davos, era, aos olhos dos setores conservadores colombianos, de uma radicalidade de extrema esquerda. Entre as elites empresariais e políticas latino-americanas há poucos reformistas, e na maioria não sabem ou não entendem o que propõem no Norte alguns dos que são mais ricos e têm mais poder do que eles.

Essa desconexão é perfeitamente ilustrada pelos resultados da consulta realizada no Brasil pelo FEM para a elaboração do relatório de riscos globais. Sob o olhar dos políticos e analistas brasileiros consultados, nos cinco primeiros lugares predominam os riscos econômicos (inflação, economia ilícita e choques de preços de matérias-primas), e nenhum é ambiental. É como se essa elite local brasileira vivesse em um planeta diferente do que se avalia de outros continentes.

Até agora, o único que parece estar ciente desse problema é o presidente colombiano Gustavo Petro. Em seu discurso em Davos, atacou o capitalismo como incapaz de resolver os problemas que produziu, e advertiu que "o capitalismo acabará com a humanidade". Acrescentou que os “empresários de Davos deveriam pensar em outro capitalismo”, e a partir daí levantou sua alternativa de um “capitalismo descarbonizado” (5). Assim, Petro foi imediatamente colocado entre os reformadores do desenvolvimento capitalista. Petro não é contra o capitalismo, e já disse isso várias vezes, mas quer retificá-lo. Em sua reivindicação em Davos, parece que ele ignorou ou se esquivou do fato de que seu “capitalismo descarbonizado” não é muito diferente do capitalismo dos stakeholders do Grande Reinício discutido nesse fórum.

Mas, ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que Petro é o único presidente que pelo menos tenta uma reforma do capitalismo que enfrente seus problemas mais agudos e, por exemplo, nos afaste do vício em combustíveis fósseis. Inclusive aqueles chefes de Estado ideologicamente mais próximos, como Manuel López Obrador (México) e Lula da Silva (Brasil), rejeitaram as propostas de Petro de despetrolizar suas economias.

Seja como for, não se pode perder de vista que os reformadores, seja o Grande Reinício, Stiglitz, Petro ou outros, em nenhum caso se propõem a abandonar o capitalismo, nem rompem com concepções básicas. Todos querem crescer economicamente e veem que a exploração da Natureza é uma forma incontornável de conseguir esse objetivo. O que eles postulam são regulações diferentes do mercado e o fortalecimento do Estado, invocando objetivos como melhorar a equidade, reduzir a pobreza ou evitar eclosões sociais. Suas medidas amenizam as arestas mais negativas, e que por sinal seriam bem-vindas em muitos países. Mas mesmo esse reformismo é insuficiente para enfrentar as emergências ambientais.

A própria análise de risco do Fórum Econômico de Davos fornece evidências que mostram que os ajustes do capitalismo não nos salvarão de uma crise múltipla. Nem a crise da biodiversidade nem a crise das mudanças climáticas estão se dissipando. As soluções necessárias envolveriam transformações simultâneas em várias frentes, como abandonar as energias fósseis e se voltar para a agroecologia, mudar padrões de consumo e aceitar estilos de vida mais austeros. Essas e outras são mudanças radicais que nenhum tipo de capitalismo assumirá.
Nossa própria discussão

Analisar os riscos e discutir o desenvolvimento, seja ele capitalista ou de qualquer outra natureza, é um primeiro passo para desenhar alternativas às crises sociais e ambientais.

É inaceitável que os elencos partidários não o façam porque continuam a enfrentar as situações com as mentalidades do século passado, sem compreender as urgências do século XXI. Também não faz sentido retrucar que considerar a reforma ou o colapso do capitalismo expressa vocabulários e ideias ultrapassadas.

Essas são discussões que devemos começar em nossos próprios termos. Isso é necessário porque, como vimos acima, os riscos globais graves já são observados na América Latina e, ao mesmo tempo, somos tão subservientes aos contextos internacionais que um desastre externo nos arrastará imediatamente. Também não podemos esquecer que nossos países dependem da terra e da água, do subsolo e do clima, o que significa que nossas economias são ecologicamente condicionadas. Devemos fazer nossas próprias avaliações de risco e não podemos mais confiar naquelas que são feitas em Davos ou em outro lugar.

Estas reflexões devem ser incentivadas por políticos, empresários, sindicalistas, acadêmicos, ativistas sociais, entre outros, até envolverem a grande maioria dos cidadãos. Enfrentamos questões prementes: quais são os riscos que enfrentamos? Quais são as reformas necessárias? As correções do capitalismo são suficientes para enfrentar esses riscos? Outros já estão respondendo a perguntas como essas e não podemos ficar para trás.

Notas

1. WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2023. 18th edition. Insight report., Genebra, 2023.

2. Segundo a CEPAL, a inflação em 2022 atingiu um pico de 8,4% no meio do ano, para depois diminuir; espera-se que caia para 4,8% em 2023. CEPAL. Balance preliminar de las economías de América Latina y el Caribe 2022, Santiago, 2022.

3. SCHWAB, K.; MALLERET, T. Covid-19: The great reset. World Economic Forum, Genebra, 2020.

4. As várias alternativas focadas no desenvolvimento são discutidas em GUDYNAS, E. Tan cerca y tan lejos de las alternativas al desarrollo. Planes, programas y pactos en tiempos de pandemia. RedGE y Cooperacción, Lima, 2020.

5. Veja, por exemplo, El mundo necessita un “capitalismo descarbonizado”: el mesaje de Petro em Davos. El Espectador, Bogotá, 19 de janeiro de 2023; TORRADO, S. El Petro mas ecologista se despide de su primer Davos. El País, Madri, 21 de janeiro de 2023.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Crescer ou não crescer, eis a questão?


“Parece mais sensato propor à América Latina um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento económico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis”, escreve Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social - CLAES, em artigo publicado por Brecha, 27-01-2023. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.

Nos últimos anos, nos países mais ricos, multiplicam-se os questionamentos sobre a obsessão pelo crescimento económico como condição central para a compreensão do desenvolvimento. Uma obsessão que, quando concretizada, também tinha um lado obscuro em seus impactos sociais e ambientais. Entre as diferentes respostas alternativas, surgiu o chamado decrescimento, conforme resenhado no excelente artigo de Geoff Mann publicado no Brecha em 20 de janeiro (“Darle la vuelta a la ecuación”). Mas várias questões permanecem pendentes, especialmente desde uma perspectiva do Sul. A mais óbvia é se o decrescimento faz sentido para um país latino-americano ou se, em vez de resolver nossos problemas, não os agravaria.

Os defensores mais entusiastas do decrescimento encontram-se na Europa Ocidental, entre alguns académicos e ativistas sociais. Por outro lado, em quase toda a América Latina, as abordagens têm sido muito mais limitadas e permaneceram distantes dos grandes movimentos sociais. A novidade mais recente é que essa inusitada palavra veio à tona na Colômbia, como resultado das intenções da nova ministra de Minas e Energia de limitar a exploração de petróleo. Encurralada pelas interpelações da imprensa, chegou a justificar a medida apelando à ideia do decrescimento.

Um equivalente uruguaio dessa posição seria como se o ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca dissesse que deseja limitar a expansão da soja ou da celulose e, ao clamor da media sobre uma catástrofe económica, respondesse dizendo que a economia deve reduzir.

Na Colômbia, o debate se intensificou quando o novo presidente, Gustavo Petro, apoiou a ideia, indicando que “hoje a ciência sabe que o consumo de petróleo e carvão deve diminuir substancialmente, que o consumo de carne bovina, desde que seja sustentado por combustíveis fósseis, deve diminuir em escala global”, e concluiu dizendo que devemos nos acomodar ao “equilíbrio da vida no planeta” (1).

Uma palavra gatilho
Os usos atuais do termo decrescimento têm origem na França, com economistas e ativistas políticos. O décroissance foi popularizado pelo economista Serge Latouche nos anos 2000, entendendo-o como um slogan ou palavra gatilho para atacar a obsessão pela ideia de desenvolvimento como crescimento perpétuo (2). Com o passar dos anos, tornou-se mais complexo, e agora, na academia, é definido como uma "crítica à economia do crescimento", que busca a "abolição do crescimento económico como objetivo social", ao mesmo tempo em que incentiva alternativas baseadas na simplicidade, no convívio, no cuidado e na partilha. Isso implicaria uma redução equitativa da produção e do consumo, de modo a reduzir os fluxos de energia e matérias-primas (3).

Não é de estranhar que, para a grande maioria dos que vivem nos países do Sul, um apelo a decrescer não faça muito sentido. Eles imediatamente imaginam contrações económicas com consequências negativas para suas vidas. É um termo que se choca com ditados repetidos há décadas, que assumem que o emprego e o bem-estar derivam do crescimento da economia.

Por outro lado, para algumas pessoas e movimentos de países ricos, o decrescimento faz sentido, pois reduziria os impactos sociais e ambientais, aplacaria o consumismo e até mesmo a extração de recursos naturais. No entanto, essas conceituações de decrescimento não oferecem argumentos ou modelos precisos para o Sul, onde, para muitos, o problema é o subconsumo que traz a pobreza.

De qualquer forma, o questionamento ao crescimento, como adverte o artigo de Mann, contém verdades que não podem ser ignoradas. Em 2022, as economias da Argentina e do Uruguai, por exemplo, apresentaram bom crescimento económico, mas esses indicadores macroeconómicos não se traduziram em melhorias nas condições de vida da maioria. A história latino-americana está repleta de casos semelhantes, em que o crescimento económico beneficia alguns poucos, mas sempre se defende indicando que geraria derramamentos ou gotejamentos que atingiriam o restante da população.

Limites do crescimento
Ao mesmo tempo, fica claro que o crescimento económico perpétuo proposto pelos economistas é impossível. Pelo menos desde a década de 1960, houve alertas sobre os chamados limites do crescimento, tanto sociais quanto ambientais. Os mais evidentes estão no esgotamento dos recursos naturais (por exemplo, as reservas limitadas de minerais ou hidrocarbonetos) ou na incapacidade de lidar com impactos ambientais crescentes (manifestada, por exemplo, nas mudanças climáticas). As economias não podem crescer indefinidamente porque o planeta é finito.

No Uruguai, tais limites já estão diante dos nossos olhos. A agropecuária está limitada às terras disponíveis no país, razão pela qual o aumento da produção passa por uma maior intensidade, o que desencadeia múltiplas alterações sociais e econômicas, enquanto a pressão sobre o solo se multiplica e a água é contaminada. Apesar disso, políticos, empresários e quase toda a academia parecem minimizar ou ignorar esses limites.

Na Colômbia, por outro lado, alguns desses limites são mais prementes. Há quem avalie que as suas reservas exploráveis de hidrocarbonetos têm apenas cinco anos, o que significaria que sua economia não pode mais crescer à custa das receitas do petróleo. Nessas condições, não surpreende que o novo governo use a palavra decrescimento para discutir o futuro da economia nacional.

Mas esses casos mostram que o decrescimento postulado para o Norte rico, como descreve o artigo de Mann, não pode ser transplantado para a América Latina. Impor uma redução geral das economias seria catastrófico. Mas ele consegue nos obrigar a questionar se o crescimento econômico deve ser a questão essencial que deve orientar e organizar uma economia. A resposta é “não”, por vários dos motivos que já foram referidos e outros que todos podemos acrescentar. Parece mais sensato propor para o Uruguai, e outros países da região, um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento econômico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis.

Não devemos cair nas modas, repetindo a moda do decrescimento porque se popularizou em Paris, Madri e Berlim, mas buscar as nossas próprias soluções ajustadas às nossas urgências e necessidades.

Notas

1. Gustavo Petro no Twitter, 02-09-2022.
2. Ver, por exemplo, La apuesta por el decrecimiento, por S. Latouche, Icaria, Barcelona, 2008.
3. ‘Decrescimento’, por G. Kallis, F. Demaria e G. D’Alisa, em Decrescimento. Vocabulário para um novo mundo. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2016.

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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Cenários de catástrofe mundial climática estão a ser ignorados, avisam cientistas

Artigo lança uma proposta à comunidade científica para estudar os piores cenários causados pelas alterações climáticas e, assim, evitar o risco de sermos “dolorosamente surpreendidos”.



A possibilidade de catástrofes em série geradas pelo aquecimento global, capazes de levar ao colapso das sociedades e, em última análise, à extinção da espécie humana está “perigosamente” pouco estudada, alerta uma equipa de cientistas num artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O trabalho é uma análise e propõe uma “agenda” à comunidade científica para avaliar os piores cenários das alterações climáticas e as suas ramificações nas sociedades humanas, tendo em conta as fragilidades sociais já existentes, como os países que têm estruturas estatais fracas e doenças endémicas graves, e outros desafios que podem surgir ligados a mudanças dos ecossistemas naturais, à geopolítica e à tecnologia. “Enfrentar um futuro com a aceleração das alterações climáticas e, ao mesmo tempo, mantermo-nos cegos em relação aos piores cenários possíveis é ingénuo, no melhor dos casos, e, no pior dos casos, uma insensatez fatal”, lê-se na conclusão do artigo.

“O nosso artigo não exagera os riscos [existentes] ou afirma que vamos todos morrer”, escreveu numa publicação no Twitter Luke Kemp, primeiro autor do artigo. “Observamos que há razões plausíveis para acreditar que existe um risco climático catastrófico plausível que requer mais estudos”, acrescentou o investigador do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

A equipa internacional argumenta que relatórios como os que são lançados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, sigla em inglês) das Nações Unidas se têm concentrado principalmente nos efeitos do aquecimento global para temperaturas entre 1,5 e dois graus Celsius. “Estudos de como o impacto das alterações climáticas podem desencadear efeitos em cascata ou provocar crise maiores são espaçados”, alerta o artigo.

No entanto, os autores relembram que se continuarmos na actual trajectória das emissões de gases com efeito de estufa, em 2100 o aumento da temperatura média da superfície terrestre será entre 2,1 a 3,9 graus Celsius superior aos valores pré-industriais. E mesmo que todas as promessas de corte das emissões daqueles gases sejam cumpridas, o aumento da temperatura irá situar-se entre os 1,7 e 2,6 graus. “Mesmo estas suposições optimistas levam a trajectórias perigosas do sistema da Terra”, defendem os autores.

“Os caminhos de desastre não se limitam aos impactos directos das altas temperaturas, tais como os fenómenos meteorológicos extremos. Os efeitos colaterais, como as crises financeiras, os conflitos e as novas epidemias, podem desencadear mais calamidades”, acrescenta Luke Kemp, citado pela agência Lusa.
Nesse sentido, a equipa propõe uma agenda de estudo sobre as possibilidades mais negras das alterações climáticas sustentada em quatro linhas de investigação: compreender as dinâmicas das alterações climáticas extremas e os impactos a longo termo; explorar quais são os processos desencadeados pelos eventos climáticos que podem provocar a mortalidade e morbilidade em massa; investigar a fragilidade social, ou seja, quais são as vulnerabilidades das sociedades e o risco de acontecimentos em cascata; e integrar o risco das alterações climáticas com outros riscos sistémicos, como as guerras e a tecnologia.

“Se não olharmos para os riscos interseccionais, vamos ser dolorosamente surpreendidos”, diz por sua vez Kristie Ebi, co-autora do artigo e especialista em clima e saúde pública na Universidade de Washington (Estados Unidos), citada pela agência Associated Press.

A investigadora recorda o que se passou antes de a covid-19 se alastrar. Quando pensaram nos efeitos de uma possível pandemia, os profissionais de saúde debruçaram-se apenas na propagação da doença, não falaram dos confinamentos, dos problemas das cadeias de abastecimento de produtos nem da degradação das economias. Por isso, no caso das alterações climáticas, é necessário ter em conta a possibilidade de se desencadearem guerras, haver fome e da economia entrar numa espiral descendente.

“Este artigo não exige ter-se uma perspectiva apocalíptica [sobre as alterações climáticas]. Também não diz que necessitamos de ter mais conhecimento antes de podermos agir”, defende, por sua vez Joeri Rogelj, investigador que não fez parte do estudo e é director de investigação do Instituto Grantham (do Imperial College), dedicado ao estudo da acção climática. “Em vez disso, [o artigo] pede para haver mais investigação dedicada a compreender como as nossas sociedades irão evoluir caso tenhamos muito azar na forma como o clima responde às nossas emissões”, acrescenta, citado pelo Centro de Comunicação de Ciência do Reino Unido.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Extrativismo e soberania na América Latina. Uma conversa entre Eduardo Gudynas, Michael Löwy, Sabrina Fernandes e René Ramírez Gallegos


Uma conversa sobre progressismo e extrativismo, na América Latina, com Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia pela Carleton University (Canadá) e editora da Jacobin Brasil, Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), Michael Löwy, diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), e René Ramírez Gallegos, economista especializado em políticas públicas sociais, desigualdade, pobreza, que foi secretário de Educação, Ciência e Tecnologia do Equador, durante o governo de Rafael Correa.

A entrevista é de Thea Riofrancos, publicada originalmente por Jacobin América Latina e reproduzida por Observatorio de la crisis.

Eis a entrevista.

Governos progressistas, nas últimas décadas, fizeram alguns avanços importantes em termos de “políticas de soberania”: bancos, gastos públicos, política externa etc. No entanto, em questões socioambientais eles têm sido questionados sob vários ângulos. Talvez a questão mais espinhosa seja que tipo de soberania eles conseguiram —ou tentaram— promover com um modelo econômico centrado na extração e exportação de matérias-primas, ou seja, em uma base produtiva que, como foi apontado, leva mais ao aprofundamento da dependência do que à extensão da soberania. Qual é a sua leitura do tipo de desenvolvimento empreendido durante o chamado “ciclo progressista”?

Michael Löwy: A principal conquista dos governos progressistas girou em torno da redistribuição de renda, com medidas sociais em favor das camadas mais pobres da população. Aqui é preciso distinguir dois tipos de governos progressistas: os “social-liberais” (como Brasil e Uruguai), que desenvolveram uma importante política social, mas sem alterar o modelo neoliberal, e os anti-imperialistas (Venezuela e Bolívia), que enfrentaram a oligarquia e o imperialismo buscando alternativas soberanas. Em ambos os casos, porém, deparamo-nos com um modelo de desenvolvimento baseado na extração e exportação de matérias-primas, o que levou a uma nova forma de dependência do mercado internacional.

Além disso, o extrativismo é negativo sob outros pontos de vista: em primeiro lugar, é contraditório à soberania alimentar, que exige a produção de alimentos para o mercado interno e não produtos para exportação. Em segundo lugar, muitas vezes tem consequências ambientais extremamente negativas para as populações indígenas ou camponesas locais. E terceiro, no caso da extração de combustíveis fósseis – particularmente petróleo -, contribui para o catastrófico processo planetário de mudança climática.

Sem dúvida, os governos progressistas adotaram medidas sociais importantes em termos de redistribuição social. Mas eles não questionaram o modelo econômico capitalista de exportação. É verdade que é difícil para países como Equador, Venezuela ou Bolívia interromper a produção de petróleo ou gás de uma só vez. Mas há medidas intermediárias, como a proposta do Parque Nacional Yasuní promovida pelo governo de Rafael Correa no Equador (embora mais tarde o tenha abandonado): em uma região de florestas altamente biodiversas, deixar o petróleo no subsolo exigindo indenização dos países ricos.

Este projeto foi o símbolo de uma opção radical: preferir a natureza ao mercado, a vida ao lucro. Os países capitalistas industriais não se entusiasmaram com o projeto, não só porque não tem nada a ver com os “mecanismos de mercado” onde têm sua preferência, mas porque temiam o efeito estimulante dessa iniciativa: outros países poderiam apresentar propostas semelhantes.

Eduardo Gudynas: A avaliação das estratégias de desenvolvimento do progressismo está se mostrando não fácil. Dentro dos países são reivindicados, mas ao mesmo tempo são muitos os protagonistas desse ciclo que os atrapalham, seja por sua sincera convicção de ter feito a coisa certa, seja pela intenção de esconder erros. As recentes campanhas eleitorais, por exemplo, na Bolívia e no Equador, as condicionaram ainda mais, porque as energias estavam voltadas para conquistar novamente o governo. Mas a isso se sobrepõe uma rede de opiniões e analistas transnacionalizados, tanto de dentro quanto de fora da América Latina, que abusam de simplificações e slogans.

Por exemplo, você me diz que o progressismo alcançou “políticas de soberania” no setor bancário e noutros setores. Esses tipos de ditados são muito comuns, especialmente no Norte Global. Mas eles estão um pouco errados. Na realidade, sob o progressismo, o banco privado vivia num paraíso: a sua cobertura da população aumentava e a financeirização se diversificava. Isso aconteceu nos governos de Correa no Equador, Lula da Silva no Brasil ou da Frente Ampla no Uruguai, entre outros. Isso explica a bancarização obrigatória no Uruguai ou a expansão da financeirização para setores como consumo popular, educação ou saúde no Brasil.

Na realidade, os progressismos estavam cheios de claro-escuro. Tiveram avanços, estagnações e retrocessos dentro de cada setor. Devemos comemorar que reduziram a pobreza e a marginalidade, porque aliviou milhões de famílias; mas isso não quer dizer que não devamos deixar de reconhecer as limitações que tinham em sua acentuada dependência da ajuda monetária condicionada aos mais pobres ou do crédito para consumo popular. Devemos também parabenizar seus investimentos em infraestrutura, que por exemplo no Equador são evidentes em suas estradas e pontes. Mas, ao mesmo tempo, devemos entender que muito dinheiro foi perdido dentro dos labirintos do Estado, seja por meios legais, mas ineficientes, bem como por corrupção.

Essas contradições se deviam ao fato de que os progressismos —em termos gerais e muito esquemáticos— estavam orientados para uma variedade de capitalismo que buscava capturar uma proporção maior do excedente para tentar a redistribuição económica. Mas ele recorreu a práticas específicas que, como o extrativismo e o consumo de massa, exigiam sua subordinação ao capital. E isso aconteceu de várias formas: blindaram o setor financeiro, aprofundaram a exportação de matérias-primas, atraíram investimentos estrangeiros e aderiram plenamente a instituições globais (como a Organização Mundial do Comércio).

Tal operação se dava por meio de tênues balanças em que os Estados progressistas procuravam, por um lado, regular o capital e, por outro, tinham que ceder a ele. Esses equilíbrios eram instáveis, mas enquanto os preços das commodities eram altos, o excedente apropriado era capaz de sustentar as medidas de compensação e de amortecimento. Quando os preços das commodities caíram, tal coisa deixou de ser possível. E, pior ainda, isso ocorreu ao mesmo tempo em que se exauriu a capacidade de renovação política do progressismo.

René Ramírez Gallegos: A superação do modelo extrativista, e com ele da acumulação como tal, sempre foi o horizonte. Mas o fundamental é não perder a noção de temporalidade: primeiro, porque é um debate que não pode deixar de lado a subjetividade; segundo, porque há reformas do presente e reformas transitórias que apontam para uma mudança quantitativa (como a satisfação de necessidades) e para um salto qualitativo (como a transformação para uma sociedade do «bem viver»).

Nessa perspectiva, é preciso destacar que “outra acumulação” (que inclui a “não acumulação” como horizonte) implica e exige que haja muita acumulação hoje (obviamente, para fins ecossociais). Isso não é algo que uma certa esquerda gosta de ouvir. Mas vivemos dentro do capitalismo e, embora o horizonte seja superá-lo, devemos pensar na “grande transição” para essa “grande transformação estrutural”. Não pensar na ponte temporária é escrever ficção científica.

A opção de transformação social deve ser sustentável ao longo do tempo, pois acumular para benefício social em larga escala leva décadas, mas esbanjar acumulação em benefício de poucos é muito fácil (e assim foi visto ou é visto nos governos neoliberais de Bolsonaro, Macri ou Moreno). A opção que os governos progressistas tinham para essa acumulação eram os recursos naturais. E aqui devemos nos perguntar pelo menos duas coisas: a acumulação obtida com a exploração dos recursos naturais serviu para redistribuição de renda e democratização de direitos? Claramente sim.

Segundo a CEPAL, sob governos progressistas houve uma clara redução da pobreza, da desigualdade e da cobertura dos direitos sociais. Em segundo lugar, cabe perguntar se os recursos obtidos foram utilizados para uma mudança na matriz produtiva (o modo de produção). Do meu ponto de vista, não é suficiente. Em alguns países, a necessidade de tal transformação nem sequer foi discutida.

Independentemente da situação política, todas as economias latino-americanas continuam partilhando certas características centrais: os setores econômicos predominantes são baseados na extração de recursos, agricultura de monocultura e indústria de baixos salários; em termos de emprego, a região é marcada por um grande setor informal, bem como pela prática enraizada de precarização e terceirização, resultando numa classe trabalhadora que trabalha em extrema precariedade sem rede de proteção social; e em termos de inserção no sistema mundial, a região encontra-se em um lugar de dependência caracterizado por exportações de baixo valor agregado, plena integração aos mercados globais e altos níveis de dívida soberana. O que a pandemia e a crise económica revelaram sobre o modelo de acumulação na região? Que abordagem deve orientar a recuperação latino-americana e em que escala ela deve ser concebida e implementada?

Sabrina Fernandes: A pandemia revelou que as classes capitalistas do continente não têm vergonha em seu espírito de maximizar seus lucros quando a população mais pobre vive o risco diário de morrer, seja de fome ou de COVID. Com o aumento da informalidade do emprego e da pobreza, esperamos que as organizações de esquerda em todos os continentes percebam de uma vez por todas que o atual modelo de desenvolvimento nos mantém vulneráveis e que não é possível derrotar a direita sem políticas mais radicais.

Nossa história é uma história de golpes e intervenções imperialistas. A memória do atentado a Salvador Allende, por exemplo, vive como um aviso melancólico de que “não podemos pedir muito”. Esse é um caminho perigoso de aceitação do sistema capitalista. Mas então o que fazer? Primeiro, entenda que a burguesia se fortalece quando pode governar tanto com a direita quanto com a esquerda. O golpe contra o governo de Dilma Rousseff, nesse sentido, foi um golpe duplo: veio de fora (como sabemos, pela influência dos Estados Unidos), mas também de dentro, dos mesmos grupos aliados dos governos de Dilma e de Lula um pouco antes.

Por outro lado, é preciso nos convencer de que os governos de esquerda devem investir muito mais num projeto de mudança ecológica como força de criação de novos empregos, numa rede energética o máximo autónoma possível, bem como em caminhos para uma agricultura agroecológica reformada. Os investimentos devem ser públicos, estaduais ou comunitários: bem diferente dos acordos de fomento, que estimulavam projetos de 20 ou 30 anos de lucro para corporações que nem sequer garantem um bom serviço.

Para que a recuperação nada mais seja do que um novo pacote de estímulos econômicos no capitalismo, as organizações sindicais devem ser incluídas no processo de planejamento, assim como a comunidade de professores e pesquisadores deve opinar sobre mudanças importantes nos conteúdos das universidades e da direção de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. E esse investimento com dinheiro público deve incluir também as comunidades, pois elas estão mais aptas a saber se o problema local da fome é melhor resolvido com hortas comunitárias ou com mais comida na escola das crianças.

A crise atual se sobrepõe a várias crises que já estavam em andamento em 2019 e antes. Por sua vez, embora existam semelhanças, as diferenças entre os países também são muito importantes. O que acontece, por exemplo, no Brasil não é o mesmo que acontece no Chile, México ou Colômbia. Após esse alerta, pode-se dizer que diferentes graus de colapso, colapso ou miséria são observados na política e no papel dos governos. Em alguns casos, isso é extremo, como pode ser visto com a inação e o autoritarismo de Jair Bolsonaro no Brasil. Sem atingir esse nível, outras situações também são dramáticas. É o caso, por exemplo, do Peru, onde enquanto os contágios avançavam, a política partidária desmoronava.

Nesse desespero, os governos recorrem novamente ao extrativismo como forma de aliviar a crise econômica. Todos os países sul-americanos, sem exceção, tentam aumentar suas exportações de matérias-primas e ao mesmo tempo agregar novos setores (como a mineração de lítio ou a expansão das monoculturas transgênicas).

René Ramírez Gallegos: A pandemia de COVID-19 exigiu uma mudança radical nos sistemas agroindustriais de alimentos, única forma de reduzir ou eliminar a possibilidade de novas zoonoses. Isso foi alertado há muito tempo pelos movimentos ambientalistas. Da mesma forma, a importância do papel da mulher na reprodução da vida tem feito parte das lutas dos movimentos feministas. Mais ainda: todo o modelo de relação entre o ser humano e a natureza deve ser transformado, pois é o imperativo da acumulação que tem levado à depredação do meio ambiente e aos desequilíbrios ecológicos que permitem a atual pandemia.

Embora a região tenha que consolidar um estado de bem-estar social que coloque o público e o comum antes do privado ou do comercial, conseguir isso não leva à superação dos problemas colocados pela pandemia. Deixar de ser “periferia” e passar a fazer parte do “centro” não é a solução para os países da nossa região. A Europa, sendo o continente com os maiores níveis de bem-estar do mundo, não escapou dos impactos da pandemia. O objetivo deve ser construir alternativas ao desenvolvimento. Porque o desenvolvimento como o conhecemos nos leva a aprofundar a crise sanitária, e esse tipo de ameaça se tornará cada vez mais frequente no mundo.

Além do momento da recuperação, qual é o horizonte político da esquerda? Se entendermos a pandemia do COVID-19 como a primeira grande crise ecológica global, é hora de um paradigma que aborde mais explicitamente as questões entrelaçadas de extração de recursos, danos ecológicos e mudanças climáticas? Em outras palavras, é hora de passar do “socialismo do século 21” para a discussão do ecossocialismo, um novo pacto ecossocial, uma economia democrática verde ou alguma outra formulação? Como você define sua visão de uma alternativa radical ao modelo econômico predominante e como você acha que as conexões fundamentais entre a economia e a natureza poderiam ser articuladas?

Sabrina Fernandes: Vivemos um momento frágil para a esquerda revolucionária, e a direita continua avançando em nosso continente. Não podemos simplesmente esperar o momento da revolução, porque o risco de chegarmos tarde é grande. Um grande pacto ecossocial ou um green new deal, qualquer que seja o nome de um sério projeto de descarbonização enraizado na justiça social, deve fazer parte da construção do ecossocialismo na América Latina.

Mas um pacto não será suficiente, e os ecocapitalistas sabem disso e tentam sequestrar as discussões sobre investimento e as políticas em torno dele. Assim, a tarefa é impulsionar ,medidas de descarbonização focadas no setor público, juntamente com um projeto de autonomia energética e investimento tecnológico. Um novo ciclo progressivo pode ser capaz de fazê-lo. A esquerda mais radical deve partir dessa base para trabalhar a consciência da classe trabalhadora em direção a uma ruptura secular. E só o ecossocialismo apresenta a possibilidade de uma síntese entre os debates do pós-extrativismo, descarbonização, direito à cidade, bem viver, ecofeminismo, soberania e internacionalismo, antirracismo e decrescimento.

René Ramírez Gallegos: Os paradigmas não nascem de grandes think tanks, mas de lutas históricas, de processos democráticos, de resistências criativas. Mas são necessários quadros analíticos para acompanhar e fornecer ferramentas para essas grandes disputas civilizatórias. No Equador, em um movimento constituinte entre 2007 e 2008, surgiu do intelecto social coletivo o pacto social que se denominou “bem viver” ou Sumak Kawsay. Do meu ponto de vista, essa proposta vai além do chamado “socialismo do século XXI” e até do ecossocialismo: é uma proposta nascida de um amplo processo constituinte.

É uma proposta de mudança social epistêmica e é, voltando ao exposto, uma alternativa social ao desenvolvimento. Não veio de nenhuma cabeça, de nenhum think tank. Tem suas raízes em uma frente social antineoliberal que foi canalizada para um processo constituinte, que se nutriu dos saberes ancestrais dos povos indígenas, do feminismo, da economia social e solidária, do ambientalismo, das lutas estudantis, das classes médias, dos pobres, etc. Esse quadro analítico propõe que o conceito de “bem viver” deve ser lido a partir do que está consagrado no pacto de convivência assinado pelos equatorianos na Constituição de 2008. Algo semelhante aconteceu na Bolívia, enquanto se construía um processo constituinte com paradigmas alternativos.

As políticas públicas, é claro, não surgem no vácuo ou são concedidas livremente pelas elites políticas. Os Estados são condensações da luta de classes, e as políticas que decretam refletem o equilíbrio de poder predominante na sociedade em geral. Dadas suas respostas acima, como essa mudança de paradigma poderia ocorrer? Que atores coletivos, forças de classe e movimentos sociais estão preparados para atuar como protagonistas na próxima batalha pelo modelo de recuperação econômica e social, e além? Que alianças e blocos poderiam reunir diferentes grupos em uma força com potencial hegemônico, capaz de transformar o modelo de acumulação vigente?

René Ramírez Gallegos: Um problema grave nessas duas décadas do século XXI é que na América Latina tem havido um processo de desindustrialização com a transição para uma sociedade centrada no setor de serviços, muitas vezes deslocalizada (isso no quadro de uma sociedade heterogênea, informal, com alta níveis de subemprego). Isso torna muito mais complexa a lógica da ação coletiva em torno das lutas pelo trabalho decente.

Há algumas semanas, li um tuíte que, seguindo Chico Mendes, dizia: «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem; o feminismo sem luta de classes é a guerra dos sexos; anticolonialismo sem luta de classes é (potencial) fascismo». É claro que a lógica também deve ser lida de trás para frente; ou seja, não se deve pensar em luta social sem luta feminista, ambientalista ou pós-colonial, nem ambientalismo sem luta feminista etc. O que é preciso é a convergência de todas essas lutas sociais. A forma que a convergência assume depende de cada contexto: na Argentina, por exemplo, é liderada por trabalhadores e mulheres; no Equador, agora, pelo movimento indígena. E esses setores terão que se articular com os movimentos políticos que disputam eleitoralmente o Estado.

Michael Löwy: Atualmente, acho que as forças mais ativas na luta por uma mudança de paradigma na América Latina são os jovens, as mulheres, os camponeses e as comunidades indígenas. Movimentos como a Via Campesina têm um papel muito importante, pois procuram associar a luta camponesa pela terra com uma perspectiva ecológica. E as comunidades indígenas estão na linha de frente da luta contra o extrativismo, em defesa das florestas e dos rios. “Água sim, ouro não!” é a palavra de ordem dos camponeses e indígenas do Peru contra a mineração de ouro que envenena os rios. Muitas vezes as mulheres são as mais ativas nessas mobilizações, mesmo à custa de suas próprias vidas, como Berta Cáceres em Honduras.

No entanto, não conseguiremos criar uma força hegemônica capaz de romper com o modelo dominante sem o apoio da classe trabalhadora, do proletariado rural e urbano. Também precisamos incluir intelectuais, artistas, cristãos da libertação e a massa do “pobretariado”, os excluídos do sistema. A tarefa fundamental da esquerda socialista é organizar esse bloco de classes e camadas sociais. E fazendo isso de baixo: nos bairros, nas fábricas, nas escolas, no campo, nas florestas. A partir de demandas concretas e imediatas, como não pagar a dívida externa, reforma agrária, etc., mas tentar impulsionar, no mesmo movimento, uma dinâmica antissistêmica, anticapitalista.

Por fim, diante da possibilidade de um novo superciclo de commodities e com o retorno de vários governos progressistas, que conselho você daria aos governos de esquerda ou centro-esquerda —atuais e futuros— na região? Como devem se orientar em um contexto de crise multidimensional, em que outro boom de commodities pode trazer maior pressão para expandir a fronteira agrícola e extrativista? Como suas economias nacionais poderiam mudar para a transição para energia renovável, maior proteção social, agricultura regenerativa e outras alternativas econômicas ao extrativismo? Essa transição poderia ser financiada? É possível traçar um caminho nessa direção sem a coordenação dos governos do Sul Global para acabar com o regime de dívida e austeridade imposto pelas instituições financeiras?

Sabrina Fernandes: Se não há socialismo em um único país, também não pode haver ecossocialismo, pois reconhece que para a natureza não há fronteiras. Por outro lado, é perigoso para o progressismo ver um novo superciclo de mercadorias como uma janela de possibilidade para mais investimentos nos setores extrativistas, em colaboração com os grandes capitalistas.

Nunca devemos abandonar a luta pela distribuição justa da propriedade da terra e dos direitos originários e tradicionais aos territórios. Os governos de esquerda devem começar corrigindo a enorme desigualdade no acesso à terra se quiserem realmente evitar que o superciclo resulte em maior concentração de riqueza e ativos. E isso também está relacionado à discussão sobre o mercado financeiro e o papel que ele desempenha na garantia de lucros com commodities, quando diferenças de preços e barreiras de concorrência colocam em risco o trabalhador rural.

Mas há outra coisa que precisamos discutir: por que a transição para energia renovável é tão importante. Toda produção de energia em larga escala tem impactos ambientais e sociais. Nossa tarefa é minimizar os impactos atendendo às demandas das comunidades ameaçadas. Não é possível pensar – como algumas das grandes potências econômicas acreditam hoje – que se trata apenas de crescimento e desenvolvimento econômico, mas agora com energias renováveis. Dessa forma, os impactos que o sistema industrial extrativista tem são esquecidos, mesmo quando se trata de investimentos em tecnologia verde.

Para alguns desses governos, a busca por lítio e outros minerais já é vista como uma nova oportunidade de crescimento. Na Bolívia, Luis Arce disse desde sua campanha que aspira fazer do país uma grande energia solar com seu próprio lítio. Declarações como essas não levam em conta os limites do lítio boliviano, as exigências de proteção ambiental na área e o grande desafio da transferência de tecnologia. Explorar o lítio e exportá-lo sem acesso direto à tecnologia não resulta no desenvolvimento verde da Bolívia, mas de outros, seja da União Europeia ou da China.

Michael Löwy: Não existe “receita milagrosa” para sair dos impasses da crise atual. Mas uma coisa é certa: os governos progressistas não tomarão o caminho de uma mudança de paradigma se não houver pressão social e política “de baixo” que os leve a fazê-lo. É por isso que a tarefa prioritária dos ecossocialistas passa pela organização do movimento, pela aliança de classes e grupos sociais interessados em uma mudança radical.

Mas para isso não podemos sentar e esperar que todos os governos do Sul Global se juntem. Com mais um ou dois governos avançados, que servem de exemplo e estimulam outras experiências, já teremos dado um grande passo em direção ao objetivo final: uma agenda latino-americana para uma mudança de paradigma, capaz de criar uma relação de forças no continente nível.