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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Maioria dos homens não é tóxico, aponta estudo da Universidade de Auckland


Levantamento internacional aponta baixos níveis de traços problemáticos na maior parte dos participantes. No entanto, especialistas apontam que realidade do Brasil é diferente e é preciso cautela.

A maioria dos homens é tóxica?
A maioria dos homens é realmente "tóxica"? Um estudo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, com mais de 15 mil participantes, diz que não. A pesquisa revelou que 89,2% dos homens apresentam níveis baixos ou moderados de traços problemáticos.

O termo “homem tóxico” se popularizou e se tornou parte do vocabulário popular. Nas redes sociais, milhares de vídeos com essa tag trazem conteúdos que explicam sinais que podem indicar que um homem tem uma inclinação a ser machista, misógino ou violento.
A ciência já vinha tentando entender o que é o homem tóxico, e uma pesquisa apontou uma checklist que poderia colocar ou retirar homens dessa “categoria”. Agora, pesquisadores entrevistaram mais de 15 mil homens para entender: a maioria é ou não é tóxica?

Diferente do que muitos poderiam imaginar, a pesquisa aponta que não. Na verdade, a maioria dos homens entrevistados estava fora dessa categoria.

A pesquisa vem sendo replicada nas redes sociais, mas o que especialistas ouvidos pelo g1 explicam é que os dados são importantes, mas é preciso levar em consideração o abismo social entre a Nova Zelândia, onde o estudo foi feito, e o Brasil.

Aqui, o país vem batendo recordes de violência contra a mulher, e a maioria dos homens acha que há muita cobrança sobre eles para a igualdade entre os gêneros.

Homens não são tóxicos?
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, analisou diferentes dimensões de atitudes associadas à masculinidade — incluindo agressividade, controle emocional, visões sobre mulheres e normas de gênero. A partir disso, os participantes foram divididos em cinco perfis.

O que eles descobriram:
O perfil “atóxico”, que não tem nenhum traço tóxico, representava o maior grupo. Cerca de 35% dos homens da pesquisa estavam nele e apresentavam os menores níveis de comportamentos considerados problemáticos.
O grupo mais extremo, denominado “tóxico hostil”, teve os menores índices, representando apenas 3,2% dos entrevistados.

Para identificar o grupo mais problemático, os pesquisadores analisaram respostas ligadas a oito indicadores. Os homens classificados como “hostis” se destacaram por combinar pontuações altas em temas como:
  1. crença de que mulheres buscam controlar os homens;
  2. valorização da agressividade e da dominação;
  3. dificuldade extrema de expressar vulnerabilidade;
  4. rejeição a traços considerados femininos e maior preconceito;
  5. tendência a comportamentos de controle em relações íntimas;
  6. baixa capacidade de lidar com emoções.
“Dizer que homens são tóxicos é uma forma solta de avaliar o momento que estamos vivendo. Se queremos uma mudança de comportamento, não tenho certeza se usar o termo como se usa, de forma ampla, como um rótulo para os homens, seja útil”, explica Deborah Hill Cone, autora do estudo.

Entre os dois extremos encontrados na pesquisa, ficaram perfis considerados intermediários, com homens que podem apresentar algum nível de sexismo ou visões tradicionais de gênero, mas sem traços de hostilidade ou agressividade elevada.

Foram eles:
  1. Moderados Tolerantes a LGBT (27,2%): Níveis baixos a moderados de traços tradicionais, mas com alta aceitação da diversidade.
  2. Moderados Anti-LGBT (26,6%): Perfil semelhante ao anterior, porém com maior preconceito sexual. Ainda assim, com poucos traços de agressividade relacionada.
  3. Tóxicos Benevolentes (7,6%): Homens que apresentam um sexismo "paternalista", acreditando que as mulheres devem ser protegidas e se manter em papéis sociais restritos. Ainda assim, com pouco índice de agressividade.
Isso vale para o Brasil?
O que Hill e a pesquisadora brasileira sobre género e doutora em psicologia Ana Maria Bercht explicam é que não.

A ideia da pesquisa é ter um norte, mas é preciso entender que existe um abismo social entre o Brasil e a Nova Zelândia.

O país está nas primeiras posições de rankings mundiais de paridade de gênero, enquanto o Brasil segue na 70ª posição.

"impossível que esses dados sejam aplicados ao Brasil, que tem a violência contra mulheres vivida como uma epidemia. O resultado da Nova Zelândia reflete uma trajetória de políticas públicas que colocaram as mulheres em pé de igualdade com os homens no país. Hoje, lá, elas são vistas como pessoas individuais, e não como alguém que deve ser submissa a seus maridos." - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre género.

Hill, autora do estudo, reforça que a pesquisa traz uma análise importante sobre o quão distorcidas podem ser essas “etiquetas sociais” criadas, mas que isso precisa ser analisado levando em conta o cenário do país.

“Podem existir diferenças transculturais significativas se a pesquisa fosse replicada em outro contexto cultural, como o caso do Brasil”, diz.

E por que o cenário no Brasil é tão diferente?
Para os especialistas, essa é uma questão cultural, em que, no Brasil, a mulher ainda é vista como um anexo do homem, e não em sua individualidade.

Para Bercht, isso tem relação com mudanças sociais tardias: No Brasil, tem menos de 100 anos que a mulher tem o direito ao voto, a ser eleita e ao trabalho formal. Isso tudo só aconteceu no país nos anos 30. E foi só nos anos 70 que a mulher recebeu o direito de se divorciar.

Para que um homem entenda uma mulher como pessoa, ele precisa vê-la nos mesmos espaços que ele, com o mesmo poder de decisão, pautando as discussões. Isso demorou para nos ser permitido no Brasil e ainda está longe de ser equilibrado. As mulheres ainda ganham menos no mercado e não somos nem mesmo a metade dos que nos representam nas esferas de poder. - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre gênero.

É a partir desse histórico que a mulher é vista na sociedade. E, ainda que algumas dessas conquistas tenham quase 100 anos, dados recentes reforçam essa percepção de que o Brasil ainda caminha a passos lentos na igualdade de gênero.

Uma pesquisa feita pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London mostra que no país:
  1. 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade (a média global é de 46%).
  2. 21% concordam que a mulher deve obedecer ao marido.
  3. 16% dos homens acreditam que cuidar dos filhos torna o homem "menos masculino".
Para Hill e Bercht esse contexto que traduz a violência quase epidêmica que mulheres vem sofrendo no país e que ainda não afastam uma parcela importante dos homens de uma postura de violência e subordinação.

"Vivemos uma violência quase epidêmica contra mulheres. Ainda não somos vistas no país de forma individual e livres. Muitos homens brasileiros sequer entendem a violência como tal. Pesquisas recentes mostram que autores de violência doméstica, mesmo após serem condenados, justificam seus atos culpando a vítima ou o ciúme, demonstrando uma forte desresponsabilização masculina", explica Bercht.

A misoginia não passa batido nem mesmo nas redes sociais. Ela se reflete nas trends recentes, que trazem dicas de como homens devem tratar mulheres, com conteúdos misóginos que acumulam milhões de seguidores. Além da incitação à violência.

Recentemente, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou resistência na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Dinâmica do Abuso Emocional: Identificar o Homem Tóxico na Relação


As relações de intimidade devem basear-se no respeito mútuo e no apoio emocional, mas nem sempre é essa a realidade. Um homem tóxico costuma apresentar um desequilíbrio de poder na relação, manifestando um controlo excessivo disfarçado de cuidado, uma manipulação baseada na inversão de culpa e críticas constantes que minam progressivamente a autoestima da parceira. A literatura científica no campo da psicologia e da violência doméstica identifica estes comportamentos não como incidentes isolados, mas sim como parte de um padrão estruturado de abuso emocional e controlo coercivo, conforme teorizado por Evan Stark (2007).

O primeiro grande sinal de alerta traduz-se no controlo disfarçado de proteção. No início do relacionamento, este comportamento pode facilmente ser confundido com interesse, zelo ou romantismo, mas rapidamente se transforma numa vigilância exaustiva e sufocante. O agressor demonstra uma necessidade constante de saber onde a parceira está e com quem se encontra a todo o momento. Gradualmente, começa a questionar as suas amizades e a tentar afastá-la do seu núcleo familiar e social, recorrendo a uma estratégia clássica de isolamento. Estudos sobre dinâmicas abusivas (como os de Dutton e Painter, 1993) demonstram que o isolamento social é fundamental para reduzir as redes de apoio da vítima, tornando-a mais vulnerável. Além disso, este controlo estende-se à monitorização das roupas, dos horários e das redes sociais, uma forma de violência psicológica moderna frequentemente designada na literatura científica como "abuso digital nas relações de namoro".

O segundo pilar desta dinâmica é a manipulação e a inversão de culpa. Numa relação saudável, os conflitos e os problemas resolvem-se em conjunto, através do diálogo. Contudo, perante um parceiro tóxico, a responsabilidade de qualquer discórdia recai sempre sobre a mulher. Para alcançar este objetivo, o agressor recorre frequentemente ao gaslighting, um termo amplamente estudado na psicologia clínica (ver Stern, 2007) que descreve uma forma de manipulação onde a vítima é levada a duvidar da sua própria sanidade, memória ou perceção da realidade, fazendo com que ele nunca tenha de assumir um erro. Qualquer que seja o motivo da discussão original, o homem tóxico manipula a conversa de tal forma que a parceira acaba por se sentir culpada e a pedir desculpas. A isto soma-se o uso do "tratamento do silêncio" — a ausência deliberada de comunicação durante dias —, que funciona como uma punição psicológica para vergar a resistência da vítima e conseguir o que ele quer.

Por fim, a desvalorização e as críticas constantes formam o mecanismo ideal para perpetuar a dependência. O homem tóxico ataca a autoconfiança da parceira de forma gradual e subtil, minando o seu autoconceito. Este comportamento manifesta-se através de comentários depreciativos ou "piadas" sarcásticas que deixam a mulher desconfortável e envergonhada, muitas vezes em frente de terceiros. O agressor critica as ambições profissionais, o trabalho ou a aparência física da parceira, gerando um sentimento crónico de que ela "nunca é boa o suficiente". Quando confrontado com o impacto das suas palavras, ele tende a desvalorizar e a minimizar os sentimentos da mulher, acusando-a de ser "demasiado sensível" ou "histérica". A investigação científica (como a de Walker, 1979, sobre o ciclo da violência) sublinha que esta erosão contínua da autoestima cria um estado de desamparo aprendido, dificultando a rutura da relação.

Se reconhece estes sinais na sua vida e sente que a relação lhe traz mais sofrimento do que bem-estar, é fundamental compreender que não está sozinha e que a culpa não é sua. Procurar apoio especializado é o primeiro passo para recuperar a autonomia. Em Portugal, pode encontrar recursos de aconselhamento, informação e proteção através do Portal da Violência Doméstica (da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género - CIG). Não hesite em conversar com um profissional de saúde mental ou com as linhas de apoio especializadas, que a poderão ajudar a avaliar a situação com clareza, segurança e total confidencialidade.


Referências Científicas de Apoio 
Stark, E. (2007). Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. Oxford University Press. (Aborda o conceito de controlo coercivo e isolamento).

Stern, R. (2007). The Gaslight Effect. Harmony Books. (Analisa a manipulação psicológica e a inversão da perceção da realidade).

Dutton, D. G., & Painter, S. (1993). Emotional attachment in abusive relationships: A test of traumatic bonding theory. Violence and Victims. (Explica o porquê de ser difícil romper estas relações devido aos laços traumáticos).


Walker, L. E. (1979). The Battered Woman. Harper & Row. (Teoria sobre o ciclo do abuso e a erosão da autoestima).