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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Franco “Bifo” Berardi: “A espécie humana não sobreviverá a este século"


Conhecido por “Bifo” desde jovem, o italiano Franco Berardi é uma referência do pensamento de esquerda das últimas décadas. Em Maio de 1968 participou na revolta dos estudantes da Universidade de Bolonha. Faria parte do grupo extraparlamentar Potere Operaio, ao lado de figuras como “Toni” Negri. Nesses anos de agitação rebelde fundou a revista A/traverso e esteve na rádio pirata Alice. Nos seus livros, Berardi sai das baias do marxismo mais ortodoxo, chamando, por exemplo, ensinamentos e conceitos da psicanálise para a sua crítica às sociedades capitalistas pós-industriais.

O seu último livro, Disertate (2023), identifica na “onda” de depressão entre os jovens um sintoma de um mundo de trabalho em excesso e em crise climática. Perante o caos e a dor, a resposta desses jovens é a “deserção”, a desistência, como se a alegria só pudesse ser encontrada nas “ruínas”, defende “Bifo”.

Sim, Franco Berardi, hoje com 75 anos, perdeu a esperança. Quisemos falar com ele tendo a recente edição portuguesa de Futurabilidade — A Era da Impotência e o Horizonte de Possibilidade pela VS. como pretexto. Nesse livro, editado originalmente em 2017, o filósofo já fazia um diagnóstico sombrio da vida enformada pelo capitalismo, mas ainda acreditava que seria possível abrir uma rota de fuga. Como? “Criando uma consciência comum e uma plataforma técnica comum para os trabalhadores cognitivos do mundo.” Foram eles, os trabalhadores intelectuais (os artistas, os engenheiros, os cientistas), que montaram a engrenagem, cabia-lhes agora “reprogramar” a grande máquina do mundo para benefício colectivo.

Quase dez anos depois de escrever essas linhas, a esperança de Franco Berardi, que conversou com o Ípsilon por videochamada a partir da sua casa em Bolonha (uma entrevista terminada por email), esfumou-se.

Futurabilidade acaba com um apelo aos trabalhadores intelectuais. Havia alguma esperança nesse livro, mas já me avisou que a perdeu. Porquê?
Futurabilidade foi, de certa forma, o meu último livro a propor a possibilidade de uma alternativa. Foi antes da pandemia, antes da ilusão que a pandemia nos deu e antes do regresso do genocídio à história do mundo.

Sei que o que tenho a dizer não abre uma perspectiva, mas devo escolher entre mentir, afirmar algo em que não acredito, e dizer a verdade. E a verdade é, sintetizando, esta: a experiência humana acabou.

O que é a experiência humana?
É a ideia, crucial na modernidade, de que o mundo, a linguagem, a razão e a lei podem controlar a imediatez do instinto, da bestialidade. As vítimas têm de se tornar assassinas — esta é a lição que aprendi com a transformação de Israel numa entidade nazi. Esta é a lição que aprendo quando vejo Auschwitz nas praias do Mediterrâneo, na costa de Gaza e em centenas de campos de concentração em toda a bacia mediterrânica.

O que faz do horror de Gaza algo diferente de outros conflitos?
Há 50 anos, quando eu tinha 25 anos, testemunhei uma guerra suja que foi como um genocídio, no Vietname. Mas, naquele momento, tínhamos a percepção de que a guerra do Vietname era o início de um futuro possível. Quando os vietcongues conseguiram derrotar os agressores, tivemos a percepção de uma nova possibilidade... Estávamos errados. Os vietcongues não eram uma esperança para a humanidade. Mas nós, tal como milhões de pessoas, víamos ali uma possibilidade de futuro.

Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está consciente do facto de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje. Quando olhamos para Gaza, estamos a olhar para o símbolo de um genocídio que está a acontecer em todo o lado, ao longo da fronteira entre o Norte e o Sul do mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão e ao mar Mediterrâneo, onde todos os dias migrantes são mortos pelos fascistas de Itália.

Em Futurabilidade defendia que havia outros futuros possíveis, inscritos na realidade actual, passíveis de serem desbloqueados. Não é perigoso abandonar a esperança, como está a fazer agora?
Futurabilidade tinha que ver com uma análise materialista do trabalho e da actividade social. Por isso, na última parte, escrevi que, apesar do triunfo de Donald Trump, apesar do “Brexit”, havia uma possibilidade. Uma possibilidade, não uma esperança: a possibilidade de solidariedade entre os trabalhadores cognitivos para criar um terreno comum de transformação.

Esta ideia está no movimento Occupy, de 2011, e está no movimento de 68, que foi o movimento dos trabalhadores intelectuais contra o imperialismo e o capitalismo.

A pandemia acelerou uma tendência que já estava inscrita na história da nova geração: solidão, distanciamento social, medo do corpo do outro. Esta é a transformação antropológica e psicológica que tornou a solidariedade impossível. Quando saímos da pandemia, descobrimos que a nossa solidão era definitiva. A solidão é a característica determinante da vida da geração digital.

Tenho trabalhado particularmente com jovens, estudantes, militantes, pessoas que falam comigo por razões psicanalíticas, e o que descubro é que, para eles, a solidão é o seu futuro. Não há nada que permita imaginar solidariedade no futuro. É por isso que digo que a experiência humana acabou.

Tem toda a razão quando diz que esta minha afirmação está a cancelar a possibilidade de esperança para o futuro. Mas eu respondo: a esperança agora é perigosa. O importante é estarmos conscientes do facto de que não temos possibilidade de ser humanos no futuro. Então, o que devemos fazer?
O meu último livro intitula-se Quit Everything [na versão inglesa, de 2024, de Disertate]. Desista de tudo. Abandone. Vá embora. Pare de procriar. Esta é a verdadeira política para o futuro.

No entanto, nos últimos anos, assistimos a alguns movimentos de reacção. Vimos, por exemplo, jovens a aderirem aos “sabbaths digitais”, um dia semanal com pouco ou nenhum uso de tecnologia digital. E objectos como a série Adolescência e o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, provocaram grandes debates. Há uma maior consciência dos efeitos da tecnologia nas vidas, incluindo dos mais jovens?
Sim, mas é tarde de mais. A questão é que nenhuma campanha cultural, nenhuma terapia psicológica pode mudar a programação básica da mente. A geração que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a mãe não pode ser “reeducada”, não pode ser “curada”. Não se pode ajudar um adolescente a sair da prisão digital porque é o único mundo que conhece, porque a sua mente foi formatada de acordo com esse tipo de estímulo, de acordo com esse paradigma. Não creio que haja um caminho de volta do inferno digital.

Argumenta que a tecnologia e os crescentes automatismos (da economia à política) que governam a vida contemporânea contribuem para aquilo a que chama “era da impotência”. Como podemos sair dela?
A impotência é a característica definidora da vida política mundial nas últimas décadas.

A derrota política da esquerda, dos trabalhadores, está essencialmente ligada à relação automática entre as finanças e a sociedade. Veja o que aconteceu na Grécia em 2015. Nesse livro [Futurabilidade], falo muito sobre a Grécia. 61% da população grega votou contra o memorando [de resgate] financeiro. Mas, no final, Alexis Tsipras foi obrigado a ceder porque era impossível, porque o automatismo financeiro destruiu totalmente a democracia. A democracia é uma farsa e uma coisa inexistente quando as finanças ditam as decisões políticas e económicas dos governos.

Hoje somos impotentes intelectualmente, sexualmente, politicamente. A nossa potência é a bomba atómica. A nossa potência é a concentração de tecnologia e armas.

O seu primeiro livro, publicado em 1970, intitula-se Contro il lavoro, ou seja, contra o trabalho. Acreditava então que a tecnologia seria um aliado do ser humano — permitiria, por exemplo, a libertação do trabalho. O que correu mal?
Muitas coisas correram mal. A primeira coisa errada — muito errada — é a chamada esquerda. Em vez da autonomia social, o foco dos revolucionários sempre foi o poder político. A tecnologia em si é apenas uma possibilidade, mas a esquerda interpretou completamente mal a função e o potencial da tecnologia. Desde o início do século XX, os comunistas reduziram a tecnologia a uma mera ferramenta.

Nos últimos 50 anos, os anos da transformação electrónica e depois digital, os sindicatos consideraram a tecnologia como um inimigo, em vez de pensar que era uma possibilidade.

Quando dissemos “recusa do trabalho” era uma forma de dizer: vamos aceitar a mudança tecnológica e, simultaneamente, vamos lutar pela redução do tempo de trabalho. Os sindicatos e a esquerda em geral disseram algo diferente: é preciso defender os empregos contra a tecnologia.

Até agora, a inteligência artificial não levou a uma redução dos horários de trabalho. Em 1928, o economista britânico John Maynard Keynes escreveu um pequeno ensaio, "Possibilidades económicas para os nossos netos", no qual imaginava como seria o mundo dentro de um século. Escreveu Keynes que, em 2028, os padrões de vida teriam melhorado de tal forma que seria possível trabalhar apenas três horas por dia. Está à vista: a automação não nos deu esse mundo.
Aconteceu o contrário: hoje em dia, as pessoas trabalham mais por menos dinheiro. Mantenho a ideia de que a automação poderia ser uma oportunidade para reduzir o trabalho. Ela foi transformada numa ferramenta para aumentar os lucros, aumentar o poder militar e expandir o consumo inútil.

O problema não é a automação, mas a incapacidade antropológica e cultural de redefinir os objectivos sociais, as aspirações sociais. Deveriam ser trabalhar menos e reduzir o consumismo. Mas a frugalidade nunca foi considerada pelo movimento operário.

Fala muito em depressão, aplicando o conceito clínico a toda a sociedade capitalista.
Os psiquiatras dizem que os jovens estão deprimidos. Isso é verdade do ponto de vista da sintomatologia psiquiátrica, mas acho que há algo mais a entender: os jovens estão a ver a verdade.

James Hillman, um importante psicólogo, dizia que a depressão é o ponto mais próximo da verdade, a verdade da morte e da fragilidade humana. Assim, a depressão não deve ser entendida apenas do ponto de vista patológico. É claro que reconheço que existe um enorme problema terapêutico, mas há outro nível de compreensão da depressão. A depressão é uma forma de conhecimento, de compreensão. Os jovens olham para o presente, olham para o futuro e compreendem que não há futuro humano. Não há amor, não há sexo, não há prazer, não há respeito, não há ar respirável. Então, como podem não estar deprimidos? Eu não chamo a isso depressão, chamo deserção. Deserção é a compreensão de que não há saída e de que a única coisa que podemos fazer é viver em solidariedade diante da extinção da espécie humana.

Mas algo de positivo pode surgir dessa deserção?
Espero que haja uma cultura de alegria entre os desertores. Somos obrigados a desertar. Somos obrigados a abandonar a palavra guerra, a palavra bestialidade. Esta geração tem o direito de pensar na sua vida de forma alegre. O meu presente é feliz porque sei que não devo nada à humanidade. A humanidade acabou, mas eu ainda estou vivo.

A eleição de Barack Obama, em 2008, deu-lhe ânimo. E o sucesso de Zohran Mamdani, que venceu as primárias democratas de Nova Iorque, e a popularidade de alguém como Bernie Sanders, num país onde era quase tabu falar em socialismo?
Acho que todas as tentativas de criar espaços de humanidade devem ser saudadas como algo positivo. Adoro Zoran Mamdani, mas sei que ele não tem possibilidade de sucesso.

Durante os últimos dez ou 15 anos, muitas vezes esperámos algo novo da esquerda — na Grécia, em 2015, com [Jeremy] Corbyn [ex-líder do Partido Trabalhista britânico], com Sanders. Bem, esse entusiasmo é bom, partilho desse entusiasmo, mas não sou idiota, sei que estamos derrotados para sempre! A palavra “esquerda” não significa nada. Essa é a questão.

Partilho a alegria de estarmos juntos contra o fascismo. Mas sei que devo ir além dessa alegria temporária e criar as condições para sair da agonia da espécie humana. Como filósofo, a minha tarefa não é encontrar uma estratégia, é compreender. E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade durante a agonia.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Zohran Mamdani: novidade ou retrotopia?


Por Vitor Belanciano
Muito se tem falado dele, Zohran Mamdani, 33 anos, que se descreve como socialista democrático, candidato oficial democrata para as eleições à câmara de Nova Iorque, nas autárquicas de Novembro, nos EUA.

Na base do apoio popular, para além das questões pessoais (jovem, enérgico, confiante) e formais, com dois vértices principais, domínio da comunicação nas redes sociais e operações quase porta a porta, parece estar uma campanha que apostou em falar claramente de habitação acessível, rendas, desigualdade, salários, transportes, saúde e creches públicas ou comércio local, sem esquecer as questões de género, raciais ou ambientais.

O que seria de esperar. O problema é que vivemos num mundo tão distópico, ficcional – Trump, claro, já veio dizer que é “comunista”, tentativa de o demonizar – e num plano inclinado tão para a direita, que aquilo que parece elementar, se tornou em algo de excecional, daí que Mamdani esteja a ser visto como a luz ao fundo do túnel por muitas vozes progressistas. Calma.

Digamos que Mamdani, americano, nascido no Uganda, de pais indianos, muçulmano, recuperou para o seu discurso aquilo que a maioria dos partidos de esquerda, se esquece, nos EUA como na Europa, quando ascende ao poder: de governar realmente à esquerda.

Tão preocupados com a gestão dos mercados e um crescimento económico residual, que vai parar sempre aos mesmos bolsos, esqueceram-se da equidade e da justiça social. O socialismo vai para o lixo, fica o liberalismo suave.

O discurso de Mamdani tem, aliás, pontos de contato com o de veteranos como Corbyn ou Bernie Sanders, com o aumento de impostos para os super-ricos no horizonte e expondo que o que se passa na Palestina é genocídio. O que, no contexto atual, é uma aragem de ar puro, mas sem nada de radical.

O sintoma Mamdani parece antes inscrever-se naquilo que Zygmunt Bauman (1925-2017), caracterizou, pouco antes de morrer, como tempos de retrotopia.

Por desmemória, manipulação ou insuficiência em conceber novas abordagens, temos visto nos últimos anos novas gerações entregues a ideologias do passado, vividas como se fossem a última novidade da estação, do neofascismo ao neoliberalismo, regressando nacionalismos, protecionismos, gestos autoritários, redes de interesses e lógicas ultraliberais. Mentes e ideias em putrefação, para corpos novos.

Para contrapor a esse domínio conservador hoje no mundo, é necessário ter uma agenda própria, outras grelhas de leitura da realidade expostas com clareza e soluções políticas.

Para já, Mamdani, inspirou-se nos fundamentos perenes do socialismo o que traz uma aura de novidade porque a esquerda liberal quando esteve no poder nunca conseguiu ser, enfim, socialista. Só isso, no contexto atual, é muito. Não vale a pena idealiza-lo. Pode ser um fenómeno circunstancial, mas o sintoma que aspirou é real. Existe uma ânsia popular por mudança, embora refreada por medo e insegurança.

Tempos perigosos, mas também em aberto. Não espantará se as principais dificuldades que Mamdani enfrentar vierem do interior do próprio partido democrata. Mas é quando as placas tectónicas das estruturas de poder se começam a mexer que tudo pode acontecer.

*Mamdani e a mulher, Rama Duwaji. Foto de Kara McCurdy

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Livro - Economia de Missão, de Mariana Mazzucato


Mariana Mazzucato, autora multipremiada e economista influente no panorama internacional, faz uma crítica implacável e muito necessária ao capitalismo atual, na qual defende que, para solucionar as crises maciças que nos ameaçam, precisamos de ser inovadores, de fazer uso de um pensamento colaborativo, com espírito de missão, ao mesmo tempo que é necessário redefinirmos a relação entre os sectores público e privado, para que não se resuma à partilha dos riscos, mas seja também a partilha dos lucros.

A economista ítalo-americana Mariana Mazzucato, que trabalha e reside em Londres, tornou-se um nome muito conhecido no que se pode chamar de “centro-esquerda” ou, mais amplamente, nos principais círculos económicos e políticos. Ela lançou um novo livro Mission Economy: a moon shot guide to change capitalism [Missão Económica: um guia de lançamento para mudar o capitalismo].

Mazzucato foi conselheira de Economia do Partido Trabalhista do Reino Unido, sob Corbyn e McDonnell, por um breve período; ela é aparentemente ouvida pela representante de esquerda do Congresso dos EUA, Alexandria Ocásio-Cortez; ademais, ela aconselhou a candidata presidencial democrata, a senadora Elizabeth Warren e também o líder nacionalista escocês Nicola Sturgeon. Recebeu até o título de “A economista mais assustadora do mundo” porque suas ideias estavam aparentemente abalando as crenças de pessoas importantes. Segundo o jornal London Times, ela é “admirada por Bill Gates, consultada por governos; na verdade, Mariana Mazzucato é aquela especialista com quem os outros discutem por sua conta e risco”.

No entanto, apesar ter começado como conselheira à esquerda do espectro político, mais recentemente, ela se tornou disponível para todo ele. Assim, abandonou rapidamente o seu papel de conselheira de Corbyn. De acordo com um crítico de seu novo livro, “Mazzucato rapidamente reconheceu que não havia um papel real para ela como conselheira Corbyn e, por isso, renunciou após dois meses”.

Na ocasião, falou ao Daily Mail: “as pessoas que mexiam os pauzinhos lá eram Seumas Milne e a sua equipa. Eu não me senti bem e lhes disse: se vocês quiserem fazer o que estão planejando, façam, mas não façam em meu nome”. O Mail comentou em sequência: “Após um breve flerte com o tipo errado de político, ela faz questão de salientar que trabalhou em estreita colaboração com os conservadores, aconselhando Greg Clark, entre outros, sobre estratégia industrial quando ele ocupou o papel em constante mudança de secretário de negócios”.

Mazzucato agora assessora governos e instituições do mundo em geral; ademais, tem comparecido em vários fóruns internacionais. Foi nomeada, pela Organização Mundial da Saúde, como chefe do Conselho de Economia da Saúde para Todos, em 2020. Também se sabe, por outro lado, que ela elogiou recentemente a nomeação do ex-chefe do BCE e banqueiro central (não eleito), Mario Draghi, como primeiro-ministro da Itália. Presumivelmente, considerou que ele vai salvar a economia da Itália. Em consequência disso tudo, ela não parece tão assustadora assim.

Eu revi os livros anteriores (muito mais importantes) de Mazzucato, O Estado empreendedor e O valor de tudo, em outros artigos. Neste último livro, ela continua seu principal argumento que desenvolvera nos livros anteriores: eis que o setor público deve liderar o caminho nas economias modernas. “Em vez de agirem como investidores de primeira instância, muitos governos se tornaram credores passivos de última instância, abordando os problemas apenas depois que eles aparecem. Mas, como deveríamos ter aprendido durante a Grande Recessão pós-2008, custa muito mais socorrer as economias nacionais durante uma crise do que manter uma atitude proativa na questão do investimento público”.

Ela aponta corretamente um erro que está sendo largamente praticado: “quanto mais subscrevermos o mito da superioridade do setor privado, pior estaremos em face das crises futuras”. O papel da inovação financiada pelo setor público, assim como da pesquisa e desenvolvimento tecnológico pelo Estado, foi deliberadamente minimizado pela política dominante. E, no entanto, foi uma pesquisa com financiamento público que levou ao rápido lançamento de vacinas para a pandemia COVID. Ademais, foram os serviços de saúde públicos e administrados pelo governo que forneceram a melhor resposta na redução de mortes causadas pela pandemia.

Mazzucato deseja, com certa razão, restaurar e proclamar a “narrativa do governo como fonte de criação de valor [de uso]”. Embora, como argumento em minha resenha de seu penúltimo livro, o governo não cria valor (ou seja, lucro para o capital), mas usa valores (supostamente em benefício da sociedade). Ora, esta é uma distinção que Mazzucato não reconhece, mas que os capitalistas certamente sempre fazem. Ela observa, por exemplo, que um empréstimo da administração Obama foi crucial para o sucesso da Tesla e que um programa de alfabetização por meio computadores da BBC, feito nos anos 1980, levou à fundação de uma empresa líder de desenvolvimento de software, assim como à criação de um computador de baixo custo usado em salas de aula ao redor o mundo.

Saber mais: 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Melancolia, fragmentação e a crise da práxis. Desafios da esquerda brasileira. Entrevista especial com Sabrina Fernandes


O fato de a esquerda estar em crise não significa que ela esteja perdida ou não tenha um projeto. Ao contrário, ela “tem objetivos” e “se enxerga como um ator”, avalia Sabrina Fernandes, autora da tese de doutorado intitulada “Crisis of Praxis: Depoliticization and Leftist Fragmentation in Brazil”, defendida neste ano na Carleton University, no Canadá. “O que eu argumento é que a esquerda está em crise, sim, e essa é uma crise de práxis. Significa que o papel da esquerda em interpelar multidões, transformá-las em atores políticos como base, e assim unificar suas consciências e experiências ao redor de um projeto, está em crise. A falta de trabalho de base é um fator e sintoma disso. Também há a melancolia da esquerda. Na esquerda moderada isso se manifesta como um contínuo entreguismo à ordem política. A política de conciliação de classes do PT, que não passa de uma farsa, é exemplo disso. Já a esquerda radical está melancólica porque não sabe lidar com a hegemonia que o PT ainda possui, sente falta de um tempo de unificação e base estruturada que não vai recuperar tão fácil assim e se confunde entre autoproclamação, agitação e politização com frequência”, resume.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Sabrina também comenta o fenómeno de Junho de 2013 e suas consequências quatro anos depois. “Junho de 2013 expôs a crise das esquerdas no Brasil. Ficou evidente que havia um problema de representatividade, questões de sentimento antiesquerda, uma leitura popular de traição petista, e a inabilidade da esquerda radical de dialogar com a população que foi às ruas”. Junho, frisa, “marcou o começo de uma nova conjuntura com peso retomado para ações de rua e repercussão intensa sobre temas políticos, em especial a corrupção e a disputa entre esquerda e direita”.

A pesquisadora também analisa a situação da esquerda internacional e o desenvolvimento de novos partidos de esquerda, como o Podemos, o Syriza e a renovação do Partido Trabalhista britânico. “A renovação do Partido Trabalhista britânico, através do Corbyn já aponta para um potencial maior. Corbyn também abraça aspectos populistas, mas sua firmeza na disputa partidária, assim como o apoio formal de novos filiados causou uma certa guinada que ele se demonstra resoluto em levar adiante, especialmente quando se trata da defesa absoluta dos bens e serviços públicos na Grã-Bretanha.”

Sabrina Fernandes é doutora em Sociologia, mestra em Economia Política pela Carleton University, no Canadá, e graduada em Economia pela St. Thomas University, no Canadá. Atualmente é Pesquisadora Colaboradora Plena na Universidade de Brasília - UnB.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que tipo de reorganização está ocorrendo com a esquerda no Brasil e no mundo nos últimos anos? Qual é a razão dessa reorganização e que fatores a motivam?
Sabrina Fernandes - A esquerda brasileira sofre um processo de fragmentação profunda que é paralelo ao declínio do PT como agrupador da esquerda e seu transformismo para um partido da ordem. Isso leva à necessidade de pensar a esquerda de forma não homogênea. Pode-se falar de múltiplas esquerdas, mas uma forma mais direta de tratar é na divisão entre esquerda moderada e radical.

O processo atual no Brasil exige certa colaboração entre esses dois campos, como através de frentes, mas também vemos tensionamentos, especialmente com o crescimento da esquerda radical (parcialmente eleitoral, mas principalmente como referência de projeto), enquanto a esquerda moderada trabalha para manter sua hegemonia sobre o significado de esquerda no imaginário popular. Faz parte do processo de fragmentação, mas também da disputa de forças dissidentes dos grupos hegemônicos de esquerda para formar e propor projetos alternativos. No caso brasileiro, isso certamente se acirrou pós-junho de 2013, especialmente diante da necessidade de resistir uma contraofensiva de direita e de politizar em um cenário de crise de representação.

IHU On-Line - Quais são as principais mudanças que evidencia em relação à esquerda dos anos 60, 70, 80, por exemplo, com o que se chama de esquerda nos dias atuais?
Sabrina Fernandes - No geral, a disputa política se dá em termos bem distintos. A esquerda durante a ditadura militar lidava com problemas diferentes da esquerda sob a democracia liberal. A organização da esquerda na década de 80, especialmente ao redor do projeto PT, tinha um discurso de classe evidente, bastante atrelado ao poder sindical da época, ao mesmo tempo que se envolvia com a disputa pela democratização pós-ditadura. A base era mais militante e menos eleitoral.
A conjuntura de hoje é mais fragmentada, mais despolitizada e mais distante da base do que nos anos 80

A esquerda de hoje já sofre com o declínio sindical, devido a fatores como burocratização, centrais que trabalham para o patrão e não os empregados, despolitização geral, e a fragmentação da classe e transformação em precariado. A disputa democrática existe, principalmente na conjuntura pós-impeachment, mas ela já se dá de forma defensiva e preocupada com os retrocessos sofridos com os limites do modelo de democracia estabelecido. A base está bem menos militante, apesar de certo crescimento na militância após junho, e mesmo eleitoralmente para partidos como o PSOL. A conjuntura de hoje é mais fragmentada, mais despolitizada e mais distante da base do que nos anos 80. Há certo progresso, mas pouco ainda.

IHU On-Line - Alguns têm feito uma crítica de que a esquerda está perdida. É isso mesmo? Quais diria que são as razões da crise da esquerda nos dias atuais?
Sabrina Fernandes - A esquerda não está perdida. A esquerda tem projeto, tem objetivos, e ela se enxerga como ator. O que eu argumento é que a esquerda está em crise, sim, e essa é uma crise de práxis. Significa que o papel da esquerda em interpelar multidões, transformá-las em atores políticos como base, e assim unificar suas consciências e experiências ao redor de um projeto, está em crise. A falta de trabalho de base é um fator e sintoma disso. Também há a melancolia da esquerda. Na esquerda moderada isso se manifesta como um contínuo entreguismo à ordem política. A política de conciliação de classes do PT, que não passa de uma farsa, é exemplo disso. Já a esquerda radical está melancólica porque não sabe lidar com a hegemonia que o PT ainda possui, sente falta de um tempo de unificação e base estruturada que não vai recuperar tão fácil assim e se confunde entre autoproclamação, agitação e politização com frequência.

IHU On-Line - Especificamente em relação à esquerda brasileira, você defende em sua tese de doutorado a existência de dois problemas políticos: a fragmentação e a despolitização. Desde quando isso começou a ocorrer e como podemos ver suas consequências na atual política brasileira?
Sabrina Fernandes - A fragmentação não é um fenômeno recente, não existe uma esquerda ultra-homogénea. O próprio PT se estabeleceu como um partido de tendências por conta disso e ali a homogeneidade se deu mais por conta da burocratização interna do que pela formação de sínteses. Contudo, a fragmentação da esquerda, especialmente em direção à esquerda radical, se acirra com a crise do modelo petista e o cair das máscaras nesse processo. Como há essa melancolia que eu mencionei, a esquerda se fragmenta em várias organizações e projetos, mas sem a formação de sínteses e unidade permanente.

A despolitização é um fator importante nesse processo porque se refere ao derretimento da base e à dificuldade de propor projetos políticos de esquerda sem cair numa falsa dicotomia entre a direita e a esquerda moderada. Essa despolitização faz parte do projeto de direita para reproduzir o status quo, mas também do projeto lulista, porque sem ela (e sem a desmobilização e cooptação da liderança de movimentos sociais) ficaria difícil justificar um governo que falhou em cumprir as grandes promessas populares de campanha. Hoje o PT sofre as consequências das suas contradições em meio à politização através do antipetismo.

IHU On-Line - Que relações estabelece entre a eclosão de Junho de 2013 e a crise da esquerda?

Sabrina Fernandes - Junho de 2013 expôs a crise das esquerdas no Brasil. Ficou evidente que havia um problema de representatividade, questões de sentimento antiesquerda, uma leitura popular de traição petista, e a inabilidade da esquerda radical de dialogar com a população que foi às ruas.

Também se pode falar de politização e despolitização sobre Junho. A pauta inicial era classista e popular, mas na medida que a demografia de Junho foi ficando mais diversa, especialmente com a entrada em peso da classe média, as pautas mais classistas foram engolidas por uma visão mais moralista do sistema eleitoral, corrupção, e a própria ideia de representatividade. Essa parte se deu de forma bastante despolitizada, com pouca preocupação sobre as origens complexas do problema da corrupção, por exemplo, e como esta deve ser abordada também junto à crítica ao capitalismo.

IHU On-Line - Passados quatro anos de Junho de 2013, ainda se percebe ecos dessa manifestação na sociedade brasileira? Em que sentido?
A disputa esquerda e direita se dá através de símbolos e a criação de inimigos, dentro da lógica da ultrapolítica, o que atrapalha uma disputa real de projetos

Sabrina Fernandes - Com certeza. Junho marcou o começo de uma nova conjuntura com peso retomado para ações de rua e repercussão intensa sobre temas políticos, em especial a corrupção e a disputa entre esquerda e direita. A dificuldade que vemos é que a corrupção ainda é abordada de forma bastante pós-política, como se uma administração tecnocrática e falsamente não ideológica pudesse resolver esse problema, e que a disputa esquerda e direita se dá através de símbolos e a criação de inimigos, dentro da lógica da ultrapolítica, o que atrapalha uma disputa real de projetos.

IHU On-Line - Alguns pesquisadores avaliam que há uma "virada estratégica da esquerda" nos países capitalistas avançados. Na sua avaliação, há essa virada? Onde e como ela está ocorrendo e por quê?
Sabrina Fernandes - Eu não diria que há uma virada estratégica da esquerda de modo geral. O que certamente vemos é o surgimento e crescimento de algumas vozes de esquerda, tanto moderada quanto radical, buscando responder a crises econômicas e ao anseio da população por mudança - em alguns casos, qualquer mudança. A direita também tenta responder a esse anseio, o que cria uma polarização e dá a impressão de que a disputa direita x esquerda está ocorrendo de forma mais paritária. Todavia, os efeitos da despolitização beneficiam a direita mais que a esquerda, assim como o poder de discursos conservadores nacionalistas tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

A questão estratégica falha porque o potencial dessas vozes de esquerda é, muitas vezes, minado pelos interesses tradicionais das organizações que ocupam o espaço de esquerda em cada país. Isso foi visto com Bernie Sanders e o Partido Democrata, e mesmo na Grã-Bretanha, com a tentativa de deputados do Partido Trabalhista de reduzir o potencial de Jeremy Corbyn como líder.

No caso dos Estados Unidos, a campanha de Sanders deixa um legado organizacional interessante tanto fora do Partido Democrata quanto dentro através de dissidências internas a favor do que foi classificado por ele como socialismo democrático.

No caso de Corbyn, vemos um potencial mais imediato porque ele soube mobilizar uma nova base para dentro do seu partido tradicional que forçou a mudança de posicionamento de seus burocratas e deputados. O maior apego político histórico da população britânica a respeito de serviços e bens públicos também facilita a mobilização da esquerda de Corbyn, o que foi mais difícil para Sanders por lidar com uma herança mais forte de privatização e o "eu" neoliberal.

IHU On-Line - Como você avalia e compreende os diferentes movimentos que surgiram pelo mundo, como reações da sociedade civil, e que culminaram mais tarde na criação de partidos como o Podemos na Espanha? Quais são os movimentos mais importantes que surgiram pelo mundo nesse sentido? Qual tem sido o potencial político desses movimentos?
Sabrina Fernandes - O Podemos é um partido populista com estética bastante pós-política apesar de assumir uma posição estratégica anticapitalista. Isso visa responder a uma demanda mista de resposta à crise, porém dentro de uma visão de estabilidade política específica no contexto da União Europeia. O Syriza tentou apelar para a mesma abordagem, mas a situação específica da Grécia frente a Troika empurrou o Syriza para os extremos: ou cumpria suas promessas anticapitalistas, ou capitulava. Acabou capitulando. Isso demonstra, brevemente, algum limite do populismo como tática para alcançar o poder institucional diante de uma crise política e econômica.

A renovação do Partido Trabalhista britânico, através do Corbyn já aponta para um potencial maior. Corbyn também abraça aspectos populistas, mas sua firmeza na disputa partidária, assim como o apoio formal de novos filiados causou uma certa guinada que ele se demonstra resoluto em levar adiante, especialmente quando se trata da defesa absoluta dos bens e serviços públicos na Grã-Bretanha. O tem Podemos um programa parecido nesse momento, mas não consegue mobilizar no mesmo sentido até porque faz parte de uma esquerda mais fragmentada na Espanha, versus o caso britânico.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que a eleição do presidente Trump, por exemplo, é uma reação da população ao que foram os governos democratas nos EUA. Em geral, fala-se ainda do ressurgimento de "forças conservadoras" na política. Em que medida isso tem relação com o desenvolvimento dos governos de esquerda?
Sabrina Fernandes - Não houve governo de esquerda nos Estados Unidos em nenhum momento recente, mas há sim uma reação às falhas dos governos democratas. O que vimos foram governos democratas neoliberais com apelo a certas proteções individuais e civis, mas cuja política econômica não contemplou a classe trabalhadora como se esperava. Há um efeito despolitizado disso, pois enquanto parte da população migrou seu apoio para Bernie Sanders e suas propostas mais radicais economicamente, a outra parte, especialmente a que não via Clinton como alternativa, migrou seu apoio para Trump, o que tem um resultado contraditório.

Em sua campanha, Trump se beneficiou das falhas desse neoliberalismo democrata em proteger o crescimento econômico e garantir a qualidade de vida do cidadão e trabalhador estadunidense, além de seu discurso ideológico de extrema direita que apela para um nacionalismo específico como parte da solução econômica. O tom pós-político de bom gestor do capital que Trump empregou teve apelo na classe trabalhadora e na classe média, que viu seu poder aquisitivo e seu acesso a serviços importantes diminuir no último período. É bastante contraditório materialmente, mas resulta dessa combinação entre despolitização sobre as políticas econômicas e a insatisfação geral, essa última sendo mobilizada a todo custo por Trump, inclusive através do racismo quando conveniente.

IHU On-Line - Você utiliza Gramsci como referencial teórico para as suas análises políticas. Por que considera importante retomá-lo para entender as rearticulações políticas e a crise da esquerda no Brasil e no mundo atual?
É importante falarmos da restauração de práxis da esquerda, reformulações organizacionais de ação conjunta e projetos unificados na disputa hegemônica
Sabrina Fernandes - Conceitos gramscianos nos ajudam a enxergar as relações complexas entre modelos organizacionais, tática e estratégia, a relação entre base e vanguarda etc. Gramsci é essencial para compreender a crise e falência do PT, ao falarmos de transformismo. Ele também oferece a visão do interregnum da crise entre o que está morrendo e o que ainda não está pronto para nascer. A crise das esquerdas no Brasil se localiza nesse ponto. Daí é importante falarmos da restauração de práxis da esquerda, reformulações organizacionais de ação conjunta e projetos unificados na disputa hegemônica (podemos falar então de blocos históricos assim como a visão do príncipe moderno), o papel de politização da esquerda, entre outras questões.

IHU On-Line - O que vislumbra em relação ao futuro da esquerda tanto no mundo quanto no Brasil? Vislumbra sinais de "novidade" ou "renovação" à esquerda?
Sabrina Fernandes - No mundo, devemos prestar atenção em Jeremy Corbyn no momento, já que ele é um líder de esquerda radical dentro de um partido de esquerda moderada que representou políticas de direita no passado (o que nos remete ao PT no Brasil). O PSOL tem crescido no Brasil e vemos várias organizações migrando para dentro dele ou estabelecendo diálogo contínuo. É importante também prestar atenção no MTST, o qual se estabeleceu como um movimento social de peso que aborda uma das questões políticas e sociais mais importantes no país, que é a questão urbana. Lideranças do MTST têm ganhado referências nas massas, mas também como articuladores de alianças políticas que se diferem das práticas alinhadas ao petismo dos últimos 20 anos.

sábado, 14 de agosto de 2021

Jeremy Corbyn: Climate Crisis Is a Class Issue

In a column for Jacobin, Jeremy Corbyn writes that we need class politics to transform our economies and save humanity from climate apocalypse. There’s no other way.

The UN secretary-general declaring climate scientists’ report a “code red for humanity” is a critical warning.

The evidence in this week’s Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) report speaks for itself: the hottest five years in recent history, tripling rises in sea levels, and the global retreat of glaciers and sea ice.

But it is also nothing significantly new. Scientists are taking an urgent tone because they have been making the same warnings for decades — while serious action on our warming world has failed to materialize.

Indeed, oil giant Exxon predicted climate change in the 1970s — before going on to spend decades publicly denying its existence.

The political and economic system we live in does not produce climate change by accident but by design, rewarding big polluters and resource extractors with superprofits.

This is our historical legacy. In the UK, imperial-era fortunes were made from oil from places like the Persian Gulf, where Britain sponsored an antidemocratic coup in the 1950s to preserve the Anglo-Iranian Oil Company’s profits. AIOC later became BP, which continues to pump hundreds of millions of tons of carbon into the atmosphere at sites from the Gulf of Mexico to the Caspian. And much of the world’s fossil money is handled by City of London financial institutions which specialize in managing oil profits.

More Disasters Are Coming

Around the world, governments continue to act on behalf of these fossil networks, even as they claim to be taking climate action. Boris Johnson has even copied the Green Industrial Revolution language we in the Labour Party developed. But he has copied only the words, not the actions. In June, the UK’s Climate Change Committee demonstrated that on its current course the government will fail to reach even its own woefully insufficient targets.

On May Day 2019, as leader of the Opposition, I successfully moved a parliamentary statement for Britain to declare a climate emergency — making ours the first parliament in the world to do so. I was, and remain, determined that the Labour Party and our movement should take the climate and environmental crisis very seriously.

If this system remains unchallenged, we can expect a swift increase in the floods, droughts, and wildfires that have ripped through Australia, Siberia, British Columbia, East Africa, California, and much of Europe over the last year. Intense rainstorms are up by two-fifths this century. The heaviest are three-quarters stronger than they were in the 1950s, and once-in-an-epoch hurricanes are now commonplace.

But it is not just the physical consequences of these events we need to worry about; it is also the political ones. In Greece, austerity, deregulation, and the neglect of fire services have magnified the impact of horrific blazes in Evia. In Texas earlier this year, the state allowed energy firms to price-gouge on emergency power, leaving people with unpayable debts.

And from the United States to the European Union, governments are investing in surveillance technology and military equipment to attack the refugees that environmental crises help create. The billions being spent on new guards and drones in the Mediterranean is money not being spent on a green transition, instead going to the profits of a border, surveillance, and military industry deeply tied to the fossil economy. The British Parliament is even currently debating a draconian Nationality and Borders Bill aiming to make it illegal to save refugee lives at sea — putting Britain at odds with the universal law of the sea.

With military budgets ballooning across the world, powerful countries are preparing for conflict, not cooperation, to deal with the climate emergency. Such false solutions will increase all our suffering; but as ever, will favor the wealthy few while punishing the many — whether people flooded out of their homes in England or people fleeing drought in North Africa.

We Can Stop This

But it doesn’t have to be like this, and our reaction must be one of hope rather than fear. Climate scientists can and do tell us with forensic accuracy what a temperature rise of 1.5 or 3 or 5 degrees will do to sea levels, water scarcity, or biodiversity. But the reason they cannot predict what that rise will be is because it is impossible to predict the choices we will make next. Those, as the IPCC report reminds us, are still up to us.

And if we take on the powerful, removing the systemic incentives to burn the planet for a quick windfall, we can do things differently. That means workers everywhere mobilizing for a global Green New Deal at COP26 this year which takes carbon out of the atmosphere and puts money back in workers’ pockets, while tackling injustice and inequality in the Global South. There is no town anywhere that would not benefit from green public transport, or rewilding with new forests, or local renewable energy, or jobs in the green industries of the future.

From climate change, to poverty and inequality, to our dangerous collective failure to get poorer countries vaccinated against COVID-19, we are living through the consequences of a system that puts billionaires first and the rest of us last. The climate and environmental crisis is a class issue. It is the poorest people in working-class communities, in polluted cities, and in low-lying island communities who suffer first and worst in this crisis.

But we do still have the power to change it. In 2019, schoolchildren striking for climate action captured the imagination and attention of people around the globe overnight. If they can do it, so can we. Our response to the climate “code red” must be to work in our communities, in politics, in schools and universities, in our workplaces and with our trade unions to demand and win a livable planet — and a system which puts human life and well-being first.

domingo, 11 de agosto de 2019

A perspectiva comunista em tempos de inteligência artificial e biotecnologia


Comunismo de luxo totalmente automatizado. Essa é a proposta atraente que intitula o livro recente de Aaron Bastani [1]. A ideia central proposta no livro é que estamos atravessando os primeiros momentos de uma grande ruptura tecnológica, a terceira na história da humanidade. A primeira teria sido o desenvolvimento da agricultura, que deu origem ao estilo de vida sedentário e permitiu o desenvolvimento da sociedade; e a segunda ocorreu com o desenvolvimento da revolução industrial, com o motor a vapor sendo o gatilho da mudança. A atual teria sua base no colapso repentino nos custos para a produção de praticamente tudo, remetendo basicamente à iminência do fim do trabalho graças à automatização, que permite a inteligência artificial e a transformação da biotecnologia. Para Bastani, não se trata de saber se o trabalho humano será substituído pelas máquinas, mas sim a velocidade com que isso ocorrerá e a maneira em que a sociedade partilhará seus benefícios. É aqui que a questão do comunismo entra como uma perspectiva possível, e a única que poderia garantir as melhores possibilidades referentes ao desenvolvimento tecnológico atual.

O que normalmente é tratado nos meios de comunicação e por economistas tradicionais com notas sinistras, levando a traçar horizontes distópicos que poderiam ser aliviados com algum paliativo, como a renda básica universal, para Bastani é a base para uma transformação radical de como vivemos. Deixar de trabalhar, que sejam as máquinas que cuidem de tudo, para que aproveitemos de um lazer acompanhado de abundância. Possibilidades que nem os autores do Manifesto Comunista chegaram a imaginar: um comunismo “de luxo”.

Crescimento exponencial
A chave da análise que nos propõe Bastani é o crescimento exponencial da capacidade de gerenciamento da informação. Isso resultou em um colapso abrupto do custo de “coletar, processar, armazenar e distribuir informação digital” que, por enquanto, não tem um piso, ficando cada vez mais baixo. No centro dessas tendências está a operação da lei de Moore: em 1965, Gordon Moore (que mais tarde fundou a Intel) afirmou que, a cada dois anos, o número de transistores que poderia caber em um circuito dobraria, o que significa dizer que a capacidade dos processadores também seria duplicada nesse período. Isso continuou acontecendo até os dias de hoje, com resultados surpreendentes: Bastani nos diz que um supercomputador construído em 1996 pelo governo norte americano, a um custo de 55 milhões de dólares, e que tinha o tamanho de um campo de ténis, tinha a mesma capacidade de processamento que poderia ser encontrada, em 2006, numa PlayStation 3! E por apenas 600 dólares. Em 2013, a PlayStation 4 dobrou essa capacidade e custava 400 dólares.

O mesmo aconteceu em terrenos chave para a coleta de dados, como a fotografia, a geolocalização, etc. Estas têm sido as bases de apoio para a crescente automatização do processo de trabalho e para o desenvolvimento da inteligência artificial. A informação é a matéria-prima central da produção moderna, segundo Bastani, e se torna cada vez mais barato coletar e processar.

Outra área em que o crescimento exponencial teve efeitos radicais é na biotecnologia. O livro apresenta um olhar ambicioso sobre isso. O que é a vida além de uma longa cadeia de informações armazenadas no DNA? Como nos outros terrenos, desde que que foram construídos os primeiros genomas até hoje, o custo do processo despencou. Sequenciar o genoma humano pela primeira vez, em 2003, levou trinta anos e biliões de dólares. Em junho de 2015, sequenciar o DNA de uma pessoa custava 10 mil dólares, mas a empresa de biotecnologia Illumina já apresentou uma máquina que planeia realizar esse processo por menos de 100 dólares.

Desenvolvimentos similares são observados na produção sintética de proteínas animais. Bastani revisa inúmeros casos de empreendimentos que, por meio de diversos métodos, planeiam oferecer-nos ovos, carne vermelha, frango, peixe, leite e queijos a preços competitivos em que poderão afirmar, como nos créditos ao final dos filmes: “nenhum animal foi ferido durante essa produção”. Embora hoje, sob diferentes ângulos, existam propostas de prevenção do envolvimento da biotecnologia na produção de alimentos, o autor é categórico em seu posicionamento: além do tratamento aos animais, que hoje em dia deveria ser uma consideração irrefutável por si só, os menores níveis de poluição (o metano pecuário é um dos maiores propulsores da mudança climática, como evidenciam inúmeras pesquisas), e a redução na utilização de recursos essenciais como a água (1 dúzia de ovos consome 2.400 litros de água para ser produzido e 1 quilo de carne, 3.300 litros de água) poderiam ser motivos suficientes. Além disso, Bastani nos diz, as proteínas que em breve virão dos laboratórios, serão tão saborosas como suas equivalentes produzidas porteiras adentro.

Como conciliar a perspectiva da abundância com a urgência em conter os danos ambientais? O luxo totalmente automatizado significa mais e não menos consumo de energia. A chave está em uma mudança profunda na matriz energética. E aqui Bastani oferece uma resposta surpreendente, porque se trata outra vez do aumento exponencial atuando em algo que tem sido utilizado há muito tempo: energia solar. “Em apenas noventa minutos a terra é banhada por energia solar suficiente para satisfazer a necessidade energética atual por um ano inteiro”, afirma Bastani. Claro, isso sempre esteve aí, e é utilizada há muitas décadas, mas sem escala ou viabilidade económica suficiente para se transformar na base da matriz energética. Em meados da década de 70, produzir 1 watt usando energia solar custava 100 dólares, muito mais que as outras fontes de energia vigentes. Hoje em dia, nos países mais ensolarados, o custo de produzir 1 quilowatt caiu para 10 centavos de dólar, enquanto a capacidade instalada se multiplicou por 100 entre 2004 e 2015. No Reino Unido, em 2010, a energia solar cobria 2% de toda a sua necessidade energética; hoje satisfaz 25%. Para Bastani, a mesma combinação de tornar mais barato e eficaz é observada na energia eólica. As duas fontes, opina, poderiam substituir quase totalmente o gás e o petróleo, e outras formas de gerar eletricidade, em poucas décadas.

A perspectiva de “pós-escassez” delineada pelo livro, se completa com o possível acesso a um conjunto ilimitado de recursos que têm disponibilidade limitada até hoje. A mineração espacial, a custos sustentáveis, é outro desenvolvimento que Bastani vê como algo promissor. Na última década, ela deixou de ser um monopólio de (alguns) governos e, ao contrário disso, é a iniciativa privada, apoiada no crescimento exponencial do desenvolvimento dos processadores, que está determinada a fazer das viagens espaciais regulares uma iniciativa viável. A expectativa é desenvolver uma nova corrida espacial, “na qual as empresas competem no lugar dos países, e nas quais a elite mundial se torna ainda mais rica”.

A informação quer ser gratuita (livre)
A terceira ruptura traz uma mudança radical na economia política. Desde seu desenvolvimento como disciplina, a economia política teve como objeto de análise um mundo de produção dedicado à administração de recursos escassos. O preço e o lucro só fazem sentido se os bens só podem ser produzidos a um determinado custo —– se for necessário realizar um determinado tempo de trabalho socialmente necessário para fazê-los, diria Marx. O mundo das mercadorias —– como “aparece” na sociedade capitalista à primeira vista, de acordo com [O Capital] —– existe porque há uma economia do trabalho social, única base para satisfazer todas as necessidades. Um setor minoritário da sociedade é dono dos meios de produção requeridos para realizar esses trabalhos necessários e monopoliza o acesso a eles. É isso que lhes dá o direito de se apropriar de uma parte do trabalho que faz, sob seu comando, aquela parte da sociedade que não possui nenhum meio de produção. Esta última é a que compõe a classe trabalhadora, que tem apenas sua força de trabalho para vender, a cada dia, em troca de um salário.

A questão mudaria com o peso crescente que a informação adquire no capitalismo contemporâneo. Esse debate não é novo. Entre os marxistas, há décadas há a discussão com aqueles que defendem que entramos na era de um capitalismo cognitivo. Muitos dos defensores dessa última tese voltam a Marx, e sua defesa do “general intellect” feita nos Grundrisse, esboço preliminar d’O Capital, escrito em 1857 e desconhecido até as primeiras décadas do século XX. Marx expõe como o desenvolvimento da técnica, que se traduz em meios de produção cada vez mais complexos (que, sendo mais caros, representam um maior “trabalho objetivado”), tende a transformar a fonte de lucro (a exploração da força de trabalho) numa base cada vez mais “miserável” para sustentar essa sociedade. Partindo dessa frase de Marx, que em algumas interpretações deslocaria o trabalho como fonte de valor em favor do conhecimento “imaterial” (como se este não fosse também material e laboral, mas complexo), os teóricos do capitalismo cognitivo tendem a defender que a ideia de que a fonte do valor (e do lucro) é o trabalho socialmente necessário teria se tornado anacrónica, e com ela todas as categorias da crítica da economia política de Marx.

Bastani passa também por outra abordagem da questão: como a economia dominante, neoclássica, enfrenta a importância que a informação adquiriu como mercadoria cada vez mais importante hoje. A informação (entendida em termos gerais, incluindo desde a coleta de dados até o desenvolvimento de processos e desenhos) tem um custo para ser gerada, mas reproduzi-la, uma vez que terminada, não tem custo. É isso o que dizia Paul Romer, economista do Banco Mundial, que esteve entre os primeiros a analisar essa questão. Em seu artigo de 1990 “Mudança tecnológica endógena”, Romer considerava que o processo que dava título a seu trabalho poderia ser interpretado como “um melhoramento nas instruções para combinar matérias-primas”. Mas, “uma vez que o custo para criar um novo conjunto de instruções foi necessário, estas podem ser utilizadas outras vezes sem custo adicional”.

Uma década depois, serão Larry Summers e James Bradford DeLong, dois economistas de prestígio que integraram o gabinete de Bill Clinton, os que se meteram a considerar essa questão inquietante para uma sociedade baseada na apropriação privada das receitas da produção. Em sua opinião, “a condição mais básica para a eficiência económica” é que “o preço seja igual ao custo marginal”. O custo marginal é o custo para produzir a última unidade, o qual supõe-se ser o mais alto porque, depois de diminuírem, após certo ponto da produção, o custo aumenta. A conclusão clássica da teoria dos rendimentos decrescentes sustenta que a produção aumentará até o nível em que produzir a última unidade (a mais cara) tiver o custo igual ao preço que o produtor espera obter. Esta é uma das bases de toda a economia neoclássica. O problema, diziam Summers e DeLong, é que “com bens informacionais, o custo social e marginal de distribuição é quase zero”. Isso, aponta Bastani, se aplica tanto ao design de medicamentos ou robôs, quanto para livros, filmes e artigos acadêmicos. E também, como vimos, para o DNA ou quase qualquer coisa nos dias de hoje. Mas então, se as mercadorias desse tipo fossem vendidas ao seu preço marginal (zero), “não podem ser criadas e produzidas por empresas que usam sua receita para cobrir os custos”. Qual conclusão tirar disso? Que o sistema baseado no capital privado e no lucro mostra os limites aos quais se confronta para organizar as forças produtivas que desenvolveu? Pelo contrário, os defensores da livre iniciativa e da competitividade, argumentaram sem nenhuma vergonha, diante desse problema, que “o poder do monopólio temporário e os lucros decorrentes dele podem ser a recompensa necessária para estimular a empresa privada a lançar-se a inovações”. Ou seja, em uma situação onde não existe a escassez, ela deve ser criada para que as leis do capital possam “funcionar”. O Spotify ou o Netflix são exemplos de negócios que surgiram dessas ideias, em oposição, por exemplo, ao Napster, empresa que permitia a distribuição gratuita de música entre usuários da Internet do mundo todo. Como nos lembra Bastani, essa empresa foi derrubada pela indústria da música no momento em que Summers e DeLong escreviam seu artigo.

Os remédios sugeridos pelos economistas que consideram o capitalismo como um horizonte insuperável, para presumidamente enfrentar o “problema” da produção de bens que, uma vez gerados, podem ser reproduzidos sem custo e, portanto, não estão sujeitos às leis de escassez, é gerar uma escassez artificial. Não é só agora que isso tem sido discutido sobre o capitalismo. Os direitos autorais e as patentes são quase tão antigos quanto a grande indústria. Sempre foram uma forma do capital declarar sua propriedade e estabelecer um preço. As “novidades” são as condições de abundância e a generalização que a necessidade de controlar essa abundância adquire.

Bastani não considera que o capitalismo não possa encontrar soluções para adaptar as possibilidades criadas pela terceira ruptura. De fato, ele revisa durante todo seu livro, em muitos casos com entusiasmo, as soluções alcançadas pelos empresários para inovar e reduzir custos, sem deixar de lembrar também que o “‘investimento privado’ não é responsável pelo nosso nível atual de tecnologia”, que é devido em muitos casos, direta ou indiretamente, aos investimentos públicos. Mas ainda que o autor mostre que o empreendedorismo, na busca de vender mais e mais barato e transformar tudo o que puder em negócio, cumpriu e segue cumprindo um papel nessa criação de possibilidades para a abundância, não pode nos levar a tal situação. Para garantir o lucro, é necessário seguir impondo, “com fórceps”, as leis do mercado onde elas começam a se tornar precárias.

Bastani retoma em várias ocasiões a sentença de Stewart Brand: “a informação quer ser livre!”. Brand afirmava:
Por um lado, a informação quer ser cara, porque é muito valiosa. A informação correta no momento adequado muda a sua vida. Por outro lado, a informação quer ser livre, porque o preço para se informar cai cada vez mais e mais. Então nós temos essas duas tendências lutando entre si.
Se a segunda tendência vencer, irá nos forçar a ir além do capitalismo.

O futuro já chegou?
Bastani quer provocar e ele consegue. Ele apresenta várias evidências convincentes dos motivos de muitas histórias de ficção científica estarem mais próximas de se tornar realidade do que pensamos.

Mas um dos maiores problemas de sua caracterização das tendências em curso é que toma como certa a ideia de que o desenvolvimento técnico no capitalismo está nos levando ao fim do trabalho. Aqui há uma grande operação ideológica: os grandes meios de comunicação e os “especialistas” falam permanentemente da iminência do fim do trabalho, uma ameaça que é utilizada pelos capitalistas em todo o mundo para forçar a aceitação de reformas trabalhistas cada vez mais precarizadoras. Bastani assume como certo que seguimos por esse caminho, se o capitalismo acabar ou não. Seu “comunismo” não visa acabar com o trabalho, o que ele acha que acontecerá de qualquer maneira, mas sim discutir como serão distribuídos os frutos da automatização. Mas ainda que nos últimos tempos esse espectro tenha se tornado senso comum, a acumulação de capital, que deveria motorizá-lo, se destaca por manter níveis historicamente baixos. Ao mesmo tempo, as empresas mostram a mesma ganância para extrair até o último segundo de trabalho não remunerado que mostraram ao longo da história do capitalismo. Além disso, com o argumento da crise dos sistemas previdenciários, os Estados capitalistas insistem em estender o máximo possível o tempo de vida que devemos dedicar ao trabalho. Hoje se trabalha mais, e não menos, do que há décadas, e os capitalistas estão determinados em não mudar esse cenário, ainda que isso signifique, ao mesmo tempo, condenar milhões ao desemprego ou subemprego, porque “não há” trabalho formal para todos nos limites do capitalismo.

Populismo: o novo caminho para o comunismo?
Como é o caso de Paul Mason e seu pós-capitalismo, que nos diz que o capitalismo está quase desaparecendo diante de nossos olhos para nos oferecer como roteiro uma série de medidas reformistas que não asseguram nenhuma transição entre o presente capitalista e um suposto futuro “pós”, Bastani traça uma perspectiva que se caracteriza por um salto no vazio similar.

Ele nos apresenta um olhar radical sobre as possibilidades inscritas na terceira ruptura que já está em andamento. Mas o caminho até lá estaria em retomar as estratégias que já tentaram, com sucesso na questão eleitoral e palpável adaptação ao regime burguês, as forças como Syriza na Grécia (que prometeu terminar com a austeridade e terminou aplicando os planos de ajuste do FMI e da União Europeia), Podemos no Estado espanhol (que busca se aliar com o partido social liberal – o PSOE – para conformar um governo), DSA nos EUA (apoiando a candidatura “socialista” de Bernie Sanders, que se apresenta novamente nas primárias pelo Partido Democrata) e o Momentum no Reino Unido (que apoia o candidato do partido trabalhista, Jeremy Corbyn). Em todos os casos, querem retomar a tradição da velha socialdemocracia, antes das últimas décadas, em que foram um dos pilares das políticas neoliberais. São uma espécie de “neorreformismo”, que recupera a velha abordagem de uma via de reformas graduais para reverter, ao menos em parte, a herança das políticas neoliberais. Junto com isso, adicionam questões como a renda básica universal, adaptada à perspectiva de “fim de trabalho” que discutimos acima.

Entre o comunismo de luxo plenamente automatizado e o presente, o único caminho passa por “romper com o neoliberalismo”: reavivar as políticas estatais dos benfeitores, impulsionar uma renda básica universal, avançar na “descarbonização” da matriz energética e “reconstruir o Estado capitalista”.

O livro começa nos mostrando viagens ao espaço feitas diariamente, cidades alimentadas por energia solar e uma sociedade onde o trabalho rotineiro é coisa do passado, sem que ninguém tenha menos do que tudo o que puder desejar. E se despede com uma nostalgia pelas políticas dos “30 anos dourados” de boom econômico nos países imperialistas depois da II Guerra Mundial, que deveríamos buscar recuperar como um passo anterior a esse futuro comunista.

Bastani afirma que o comunismo de luxo “não será alcançado com a tomada do Palácio de Inverno”. Por quê? Simplesmente porque nenhuma perspectiva comunista poderia ser possível antes da terceira ruptura. Com essa afirmação, desconsidera-se a necessidade de realizar qualquer balanço histórico sobre a URSS e sua burocratização, porque a experiência daquela época não seria pertinente aos desafios do presente.

Segundo o autor, o que está colocado hoje é
“construir um partido dos trabalhadores contra o trabalho — um cujas políticas sejam populistas, democráticas e abertas, ao mesmo tempo em que lutamos contra o establishment que, por meio de seu poder sobre a sociedade e o Estado, não descansará em assegurar que o comunismo de luxo plenamente automatizado nunca ocorra.”
Mas Bastani não nos diz como essa luta contra o “establishment” vai se desenvolver, nem como seria essa política “contra o trabalho”. Como poderíamos garantir as possibilidades criadas pelos desenvolvimentos tecnológicos que ele detalha fossem em favor da redução da jornada de trabalho, sem afetar o salário, permitindo, ao mesmo tempo, que todos os que estão em condições de trabalhar possam fazê-lo, se não estivermos disputando o controle dos meios de produção? Para estar “contra o trabalho”, ou seja, procurar se libertar desse fardo, questionar o poder sacrossanto do capital de contratar e demitir, e questionar a suposta racionalidade de que alguns trabalhem, nos dias de hoje, jornadas insuportáveis enquanto outros se afundam na pobreza e no desemprego, é o ponto de partida. A isso aponta a exigência de divisão de horas de trabalho entre todas as mãos disponíveis, para acabar com a superexploração e o desemprego, aumentando os salários para que cubram realmente as necessidades dos trabalhadores. Se não começamos por aí, dificilmente poderemos nos aproximar do comunismo, cuja perspectiva é indissociável de tomar o controle dos meios de produção da burguesia, acabando com o monopólio que uma minoria da sociedade exerce sobre a maquinaria, a terra, as fábricas e os transportes. “Expropriar os expropriadores” segue sendo tão inevitável hoje, em tempos de robôs e inteligência artificial (usados pela burguesia para deixar o trabalho mais precário), como era quando Marx escreveu. Só assim, socializando os meios de produção e conquistando um governo dos trabalhadores, em ruptura com esse sistema baseado na exploração, poderemos iniciar uma transição ao comunismo, entendido como uma associação de produtores livres que organizam coletivamente o trabalho social com o objetivo de reduzi-lo ao mínimo indispensável, ou diretamente automatizá-lo, e conquistar o maior tempo livre para o lazer.