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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O que é o patriarcado? O que significa e porque é que toda a gente fala dele?

Amazona - Afro-Brasileira

O que é o patriarcado?
Derivado da palavra grega patriarkhēs, patriarcado significa literalmente “a regra do pai” e é usado para se referir a um sistema social em que os homens controlam uma parte desproporcionalmente grande do poder social, económico, político e religioso, com a herança geralmente a passar pela linha masculina.

Definindo o patriarcado, o famoso sociólogo americano Allan Johnson escreveu: “O patriarcado não se refere a qualquer homem ou conjunto de homens, mas a um tipo de sociedade em que participam homens e mulheres... Uma sociedade é patriarcal na medida em que promove o privilégio masculino ao ser dominada por homens, identificada por homens e centrada em homens. Está também organizada em torno de uma obsessão pelo controlo e envolve como um dos seus aspetos-chave a opressão das mulheres.”

Quais são as características de uma sociedade patriarcal?
Não existem duas sociedades patriarcais exatamente iguais, uma vez que as culturas e as normas são moldadas por diferentes fatores, tais como a geografia, a língua e a religião - e também porque as exigências e os avanços dos movimentos feministas em todo o mundo não são idênticos. No entanto, a principal caraterística de uma sociedade patriarcal é o facto de os homens deterem mais poder e autoridade, o que conduz subsequentemente ao privilégio masculino.

Os preconceitos profundamente enraizados fazem com que os homens ocupem a maioria das posições de liderança e controlem os recursos, tanto na esfera pública como na privada, enquanto as mulheres desempenham um papel secundário e são vistas como mais fracas e mais adequadas ao trabalho doméstico. Como tal, o lugar da mulher numa sociedade patriarcal é principalmente o de dona de casa, procriadora ou cuidadora.

Esta dominação masculina perpetua crenças e práticas (normas culturais) que - consciente ou inconscientemente - favorecem os homens em detrimento das mulheres, e estas crenças não são apenas defendidas pelos homens, mas pela maioria das pessoas nessa sociedade, independentemente do seu género.

Dados recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelaram, em junho, que os preconceitos de género contra as mulheres “permanecem enraizados”, concluindo que “quase 9 em cada 10 homens e mulheres em todo o mundo continuam atualmente a ter esses preconceitos”. O relatório do Índice de Normas Sociais de Género da organização concluiu que “metade das pessoas em todo o mundo ainda acredita que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres e mais de 40% acredita que os homens são melhores gestores de negócios do que as mulheres”.

Em muitas partes do mundo, as normas patriarcais significam que as raparigas recebem pouca ou nenhuma educação, podem casar-se jovens, têm pouco ou nenhum controlo sobre o seu corpo (através do acesso a contracetivos ou abortos) ou sobre o rendimento familiar, e têm menos acesso digital do que os rapazes.

Mesmo quando os resultados escolares são comparáveis ou as raparigas têm melhores resultados escolares, as expectativas patriarcais moldam as trajetórias profissionais, estando as mulheres sub-representadas nas áreas STEM [acrónimo inglês para Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas] e sobre-representadas por exemplo na enfermagem. Os patriarcados também se caracterizam por salários desiguais para o mesmo trabalho; menos investigação sobre doenças que afetam desproporcionadamente alguns géneros mais do que outros (por exemplo endometriose ou enxaquecas); um sentimento de direito ao sexo e ao prazer por parte daqueles que encarnam géneros mais masculinos; a existência de pobreza menstrual, que pode afetar todas as pessoas que menstruam, e o imposto cor-de-rosa - em que os bens de consumo destinados às mulheres são mais caros; encargos desiguais com os cuidados; invisibilidade das mulheres na velhice e estereótipos sobre a menopausa; e a prevalência e aceitação da violência cometida por homens: abuso doméstico, assédio sexual e feminicídio.

O patriarcado é outro termo para designar a desigualdade de género?
A desigualdade de género - o tratamento desigual de alguém com base apenas no seu género - é um resultado das sociedades patriarcais, mas os termos não significam a mesma coisa. A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Os Estados Unidos são um patriarcado?
Apesar dos avanços no sentido da igualdade de género que têm vindo a ganhar força há mais de um século, os EUA continuam a ser uma sociedade patriarcal.

Até à data, por exemplo, nunca nenhuma mulher foi Presidente dos EUA, pelo que o poder supremo como comandante-chefe sempre coube a um homem.

Os dados mostram que os EUA ficam atrás de muitos dos seus aliados em todo o mundo no que diz respeito à licença parental remunerada, aos cuidados de saúde maternos, às taxas de fertilidade na adolescência e, cada vez mais, aos direitos reprodutivos. Também existe uma disparidade salarial persistente entre os géneros, com as mulheres a ganharem, em média, 82 cêntimos por cada dólar ganho por um homem em 2022, de acordo com uma análise do Pew Research Center. Os dados sublinham que esta diferença quase não se alterou em 20 anos e é pior para as mulheres indígenas, asiáticas, latinas e negras.

O progresso no sentido da igualdade de género não é linear nem garantido. Os ganhos no acesso ao aborto perderam-se no ano passado (com a revogação do acórdão Roe vs. Wade) e outros ganhos podem também perder-se, uma vez que a Constituição dos EUA não contém qualquer disposição que proteja explicitamente contra a discriminação com base no sexo. A Emenda dos Direitos Iguais, introduzida no Congresso em 1923, nunca foi ratificada por um número suficiente de estados, embora tenha havido esforços recentes para a reativar.

Todas as sociedades são patriarcais e sempre o foram?
Não. Nem sempre o foram.

Escrevendo para a BBC, a jornalista científica britânica Angela Saini explica que “quanto mais mergulhamos na pré-história, mais variadas são as formas de organização social que encontramos”. Referindo-se a dados arqueológicos de Çatalhöyük, na atual Turquia, descrita como uma das cidades mais antigas do mundo, Saini escreve que esta era “uma povoação em que o género fazia pouca diferença na forma como as pessoas viviam”.

Mas também existem sociedades deste género no mundo contemporâneo. Investigações anteriores identificaram pelo menos 160 populações matrilineares que existem atualmente. Trata-se de sociedades em que a linhagem é transmitida pela mãe. Isto não significa, porém, que os homens sejam discriminados nas matriarquias. Saini escreve: “Muitas vezes, nas comunidades matrilineares, o poder e a influência são partilhados entre mulheres e homens. Nas comunidades matrilineares Asante, no Gana, a liderança é dividida entre a rainha-mãe e um chefe masculino, que ela ajuda a selecionar.”

Que outras sociedades são matriarcais?
Eis apenas algumas das sociedades matriarcais que se sabe existirem em todo o mundo:

Os Minangkabau são a maior sociedade matriarcal conhecida do mundo, compreendendo milhões de pessoas que vivem na ilha de Sumatra, na Indonésia. São matrilineares, traçando a descendência e a herança através da linha feminina.

Os Bribri são uma das mais antigas comunidades matrilineares sobreviventes do mundo. Este grupo indígena vive principalmente na região montanhosa de Talamanca, na Costa Rica e, em 2015, estimava-se que existiam 11 500 pessoas nesta área, com uma população mais pequena no Panamá, mas diz-se que a sua cultura está ameaçada.

Há também os Mosuo na China, os Khasi na Índia, os Himba em Angola e na Namíbia e muitos outros. Mas mesmo as ordens sociais não existem numa escolha binária entre patriarcados e matriarcados. Das 1291 populações definidas no estudo de 2019, 590 eram patrilineares. Para além das matriarquias, tal como referido acima, o estudo também identificou cinco outras formas de as sociedades decidirem a linhagem.

O patriarcado é bom para os homens?
Sim e não. Embora tal não seja concedido de forma uniforme a todos os homens, ser designado à nascença como homem numa sociedade patriarcal traz privilégios. Mas também traz expectativas, e são essas expectativas - de que um “homem viril” é heterossexual, sempre forte, mostra pouca emoção, é o provedor e não o cuidador, domina sobre os outros, deve estar sempre no controlo - que levaram ao que é popularmente referido como masculinidade tóxica.

Estes ideais não são isentos de consequências, certamente para as mulheres (o facto de a violação conjugal não ser crime em muitos países e só ter passado a sê-lo em todos os estados dos EUA em 1993 é apenas um exemplo), mas também para os homens: estudos exploraram - e demonstraram - uma ligação entre o patriarcado e taxas de mortalidade mais elevadas nos homens.

No seu livro de 2004, “The Will to Change: Men, Masculinity and Love” [tradução à letra, “A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor”], a autora feminista negra Bell Hooks escreveu: “O primeiro ato de violência que o patriarcado exige aos homens não é a violência contra as mulheres. Em vez disso, o patriarcado exige de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que matem as partes emocionais de si próprios."

O patriarcado pode ser desmantelado?
Qualquer sistema criado por pessoas pode ser alterado por pessoas.

O patriarcado é um sistema social que foi concebido por homens para favorecer os homens. Foi adotado ao longo dos tempos através de comportamentos aprendidos e normas culturais que colocam os homens no topo. Para desmantelar este ideal, temos de desafiar os preconceitos enraizados contra as mulheres.

Parece simples, mas há muito trabalho a fazer. Face ao “retrocesso dos direitos sexuais e reprodutivos” e aos “direitos das mulheres (...) a serem abusados, ameaçados e violados em todo o mundo”, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em março que a igualdade de género parecia estar “a 300 anos de distância”.

Enumerando várias áreas de desigualdade, Guterres foi explícito quanto às suas causas: “Séculos de patriarcado, discriminação e estereótipos prejudiciais criaram uma enorme lacuna de género na ciência e na tecnologia”, antes de acrescentar: “Sejamos claros: as estruturas globais não estão a funcionar para as mulheres e raparigas do mundo. Têm de mudar”.

São muitas as estratégias que podem conduzir à mudança que Guterres exige, desde os esforços para alterar as normas culturais, ao acesso das raparigas à educação, à capacitação económica das mulheres e à reforma institucional. Mas a principal delas é também o financiamento e o apoio às organizações de defesa dos direitos das mulheres.

Numa coluna para a CNN, a presidente da Democracy Alliance, Pamela Shifman, escreveu: “Para inverter os danos crescentes que estão a ser causados todos os dias aos direitos das mulheres e dos LGBTQ+, os movimentos feministas precisam de mais recursos. Precisam também de liberdade para responder a novas ameaças e oportunidades e para inovar com coragem. As ameaças, na sua origem e natureza, estão sempre a mudar e precisamos de organizações feministas que sejam resilientes e capazes de mudar também. Chegou o momento de financiar a criação dessas organizações”.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Dia Internacional da Língua Materna



A língua materna, também conhecida como idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é a língua que cada pessoa começa a adquirir logo que nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico.

Trata-se do primeiro idioma que uma pessoa aprende, aquele que se domina melhor. Sendo, também, a língua que se fala num determinado país ou região, é relativa a quem é natural desse espaço e que se adquire, portanto, de forma natural, através da interação com o meio envolvente e está relacionada com as primeiras lembranças que a pessoa possui da sua infância.

Assim, a língua não é um mero veículo de comunicação. Encerra em si uma carga afetiva e é, para cada pessoa, estruturante da sua identidade e pertença. A língua, a par da bandeira, da constituição e de outros símbolos identifica, também, as nações e os povos.

Por outro lado, as palavras de uma língua, além de serem elementos centrais da nossa comunicação, são uma ferramenta de poder, capazes de moldar pensamentos, atitudes e comportamentos.

As palavras que escolhemos têm um impacto significativo na sociedade, podendo ser utilizadas para enaltecer, dignificar e valorizar, mas também para oprimir, acentuar injustiças e promover desigualdades.

Comunicar usando linguagem inclusiva permite combater estereótipos, contribuindo, desta forma, para afirmar o princípio constitucional da igualdade.

Esta forma de comunicação é um meio de reconhecimento de todos os membros da sociedade, legitimando, assim, a sua presença no meio linguístico.

O uso do masculino genérico, ou “falso neutro”, contribui para a perpetuação de estereótipos de género e para a invisibilizar pessoas e grupos de pessoas.

Usar uma linguagem inclusiva, que respeita o direito de todas as pessoas, é mais fácil do que pensa.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A identidade de género é um resultado das sociedades patriarcais


A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Fontes sobre Patriarcado
A United Nations Economic and Social Commission for Western Asia define patriarcado como «uma forma tradicional de organizar a sociedade que muitas vezes está na raiz da desigualdade de género… onde os homens, ou o que é considerado masculino, têm mais importância do que as mulheres, ou o que é considerado feminino». 

Um artigo teórico afirma que o patriarcado é «o principal obstáculo ao avanço e desenvolvimento das mulheres… as instituições e relações sociais patriarcais são responsáveis pelo estatuto inferior ou secundário das mulheres». 

Outro estudo explora como normas patriarcais (e atitudes de género inequitativas) funcionam como motoras de violência contra as mulheres, mostrando como a estrutura patriarcal se traduz em desigualdades práticas e de poder. 

Uma publicação académica define “patriarchy” como “sistemas de poder sociais, políticos e económicos estruturados à volta da desigualdade de género. As relações de poder no patriarcado fundamentam-se na primazia dos homens, ou da masculinidade, face aos não-homens”. 

Sobre desigualdade de género: um estudo na região de Nepal mostra que «as hierarquias baseadas no poder fazem com que as mulheres enfrentem subordinação e violência», sendo a desigualdade de género “resultado” dessas relações de género desiguais. 

“O que é patriarcado?” — artigo no site do Instituto Claro. Explica que «o patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder … privilegia homens». 

“Patriarcado: o que é, como funciona, hoje” — no site Mundo Educação. Define patriarcado como “um sistema de organização social e cultural baseado na dominação masculina” e explica consequências como desigualdade salarial, exclusão política das mulheres, etc. 

“Patriarcado - GEDES” — página do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Explora o patriarcado, as relações de gênero e como ele se articula com outras opressões como raça, classe e sexualidade. 

Manual/relatório: “Patriarcado e Mulher: Análise da Violência na Ordem Patriarcal de Género à Mulher Idosa” (autor Cássius Chai et al.) — discute como a ordem patriarcal de género condiciona a violência. 

“Capacitação Maria Penha/MS” — define patriarcado como «uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina». 

Fontes sobre Desigualdade de Género
Dossier “Desigualdade de Género” do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal) — aborda «as desigualdades decorrentes da identidade de género e/ou sexualidade, e o modo como se cruzam com variáveis como classe social, etnicidade, nacionalidade…» 

Artigo “Desigualdade de Gênero no Brasil: Desafiando o Patriarcado e Avançando rumo à Igualdade” — demonstra a ligação entre patriarcado e desigualdade de género. 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

As suas roupas estão a pô-lo doente? O mundo opaco dos químicos na moda


A primeira coisa que aconteceu quando Mary, hospedeira-de-bordo da Alaska Airlines, recebeu um novo uniforme sintético de alto desempenho na primavera de 2011 foi uma tosse seca. Então uma erupção floresceu no seu peito. Em seguida, vieram enxaquecas, nevoeiro cerebral, coração acelerado e visão embaçada.

Mary (cujo nome omiti para proteger seu emprego) foi uma das centenas de hospedeiras da Alaska Airlines relatando naquele ano que os uniformes estavam a causar erupções cutâneas com bolhas, pálpebras inchadas com crostas de pus, urticária e, no caso mais grave, problemas respiratórios e reações alérgicas tão graves que um hospedeiro-de-bordo, John, teve que ser retirado do avião e levado pelo pronto-socorro várias vezes.

Testes encomendados pela Alaska Airlines e pelo sindicato dos comissários de bordo revelaram fosfato de tributil, chumbo, arsénico, cobalto, antimónio, corantes dispersos restritos conhecidos por causar reações alérgicas, tolueno, cromo hexavalente e fumarato de dimetila, um antifúngico recentemente banido em a União Europeia. Mas o fabricante de uniformes, Twin Hill, evitou a culpa no tribunal, dizendo que nenhum desses muitos produtos químicos misturados, por conta própria, estava presente em níveis altos o suficiente para causar todas as diferentes reações. A Alaska Airlines anunciou em 2013 que compraria novos uniformes, sem admitir que os uniformes causaram problemas de saúde. Um processo de hospedeiros-de-bordo contra Twin Hill foi arquivado em 2016 por falta de provas.

Mas um estudo de Harvard de 2018 descobriu que, após a introdução dos uniformes , o número de hospedeiros-de-bordo com sensibilidade química múltipla, dor de garganta, tosse, falta de ar, coceira na pele, erupções cutâneas e urticária, coceira nos olhos, perda de voz e visão turva aumentou. tudo mais ou menos em dobro. “Este estudo encontrou uma relação entre queixas de saúde e a introdução de novos uniformes”, concluíram os autores do estudo.

Em 2021, John, que gozava de perfeita saúde antes da introdução dos uniformes, morreu aos 66 anos, após anos a procurar e a não conseguir tratamento para os seus sintomas. A causa oficial de sua morte foi paragem cardiorrespiratória, asma secundária. Mary, que continuou com alguma dificuldade a trabalhar para a Alaska Airlines, foi diagnosticada no ano passado com três doenças autoimunes: doença mista do tecido conjuntivo, lúpus e Sjögren. O parceiro sobrevivente de Mary e John dizem que os uniformes foram os culpados.

Esta história dos hospedeiros-de-bordo doentes repetiu-se várias vezes, já que a American Airlines, a Delta e a Southwest introduziram novos uniformes , que eram de poliéster de cores vivas em vez do antigo modo de espera, lã, e foram revestidos com camadas anti-rugas, resistentes a manchas e tecnologia têxtil retardante de chama.

Mary e John estão longe de estar sozinhos. O impacto da exposição a produtos químicos nocivos em trabalhadores têxteis, muitos dos quais trabalham em países em desenvolvimento, foi bem documentado e inclui problemas respiratórios, erupções cutâneas e até morte, mas eu estava menos ciente de que tantos nos EUA estavam a relatar efeitos nocivos simplesmente de vestir roupas. Em vez disso, como descobri enquanto pesquisava para o meu livro To Dye For: How Toxic Fashion is Making us Sick – and How We Can Fight Back , eles fazem parte de um grupo diverso e díspar de pessoas que acreditam ter sofrido com os efeitos de drogas tóxicas na saúde e moda.

“Os comissários de bordo são o canário na mina de carvão por causa da duração e consistência da sua exposição”, disse a Dra. Irina Mordukhovich, uma das autoras do estudo de Harvard. “Isso não significa que outras pessoas da população não estejam sendo afetadas de alguma forma. Digamos que alguém tenha roupas com os mesmos componentes – eles podem nem perceber; eles simplesmente não usam tanto.

Karly Hiser é enfermeira pediátrica em Grand Rapids, Michigan. O seu filho mais velho era um bebé quando o seu eczema piorou, disse ela. Ela trocou a sua família por sabonetes sem fragrância e produtos de limpeza não tóxicos, e o lambuzou com loção, vaselina e creme esteróide prescrito após longos banhos. “Tudo o que tentamos não ajudou”, disse ela. Feridas abertas desenvolveram-se nas suas mãos e atrás dos joelhos, e elas foram infectadas.

Como qualquer pai com orçamento limitado, Hiser comprava roupas baratas de marcas do mercado de massa, incluindo roupas desportivas de poliéster, mas recusava-se a vestir as roupas. “Ele é um garoto muito doce, bem comportado e discreto. E todas as manhãs para se vestir era um pesadelo, apenas ataques de raiva”, disse ela. O que finalmente tornou o eczema do seu filho administrável, disse ela, foi pegar a máquina de costura de sua avó, comprar tecidos não tóxicos numa loja online e costurar todas as roupas sozinha.

Apesar de seu trabalho como enfermeira, Hiser levou mais de um ano para descobrir o que ela agora acredita firmemente: que as roupas eram o problema. “Sabe, como a rotulagem nutricional para alimentos, eu preferiria que houvesse uma rotulagem melhor para roupas”, disse ela. “Nem todos os produtos químicos são ruins ou prejudiciais, mas eu gostaria de pelo menos estar ciente do que está nas roupas das crianças.”

Jaclyn é ex-gerente de produção de moda na cidade de Nova York. Ela me contou sobre a sua experiência abrindo caixas de amostras da Ásia e da América do Sul todos os dias e sendo atingida no rosto pelo cheiro pungente de produtos químicos sintéticos. Depois de anos tocando nessas roupas recém-feitas, ela desenvolveu erupções cutâneas nas mãos e nos braços. Quando o seu dermatologista a testou para alergias, ela descobriu que era alérgica a vários produtos químicos normalmente usados ​​na produção de moda, incluindo um corante disperso azul usado para tingir poliéster. Infelizmente, não havia nada que ela pudesse fazer para se proteger – todos esses alérgenos são perfeitamente legais para vestir. Mesmo que ela deixe o emprego, ela tem que usar roupas para viver. A sua saúde piorou depois disso, ela acredita,

Produtos químicos em roupas são uma área complexa, opaca e pouco pesquisada. “Não há necessariamente muitas evidências para decidir o que é um limite seguro de um produto químico”, disse Mordukhovich. “Mesmo que cada produto químico esteja abaixo dos limites que seriam considerados um problema de segurança direto, o que não sabemos é se você tem centenas de produtos químicos interagindo juntos, quais efeitos isso tem?”

Para seu doutorado no departamento de toxicologia integrada e saúde ambiental da Duke, a Dra. Kirsten Overdahl passou anos destilando e catalogando corantes dispersos num esforço para provar, em artigo submetido para revisão por pares, que eles são sensibilizadores da pele. A maioria nem mesmo é rotulada ou catalogada na literatura, muito menos testada quanto à segurança. “Eu vejo todos os dias, apenas em nossos dados brutos que os instrumentos produzem, que muitas vezes existem milhares de produtos químicos em uma amostra que não podem ser comparados a um produto químico conhecido. Isso é absolutamente aterrorizante”, disse ela. “Isso não significa que todo produto químico é ruim. Talvez seja inofensivo. Mas se não conseguirmos associar um nome a uma estrutura química, isso significa que os dados não estão disponíveis. Então você não pode dizer que não é seguro, mas também não pode dizer que é seguro.”

Recentemente, pesquisadores e defensores intensificaram a prática de comprar e testar roupas comuns e os resultados são esclarecedores. O Centro de Saúde Ambiental da Califórnia encontrou altos níveis do BPA, produto químico que desregula as hormonas, em meias de poliéster e elastano e sutiãs desportivos de dezenas de grandes marcas, incluindo Nike, Athleta, Hanes, Champion, New Balance e Fruit of the Loom, em até 19 vezes o limite de segurança da Califórnia.

Quando a Canadian Broadcasting Corporation testou 38 peças de roupas infantis das marcas de moda ultrarápidas Zaful, AliExpress e Shein, descobriu que uma em cada cinco tinha níveis elevados de produtos químicos tóxicos, como chumbo, PFAS e ftalatos. Este ano, a marca de calcinhas de época Thinx resolveu um processo decorrente de um teste feito por um professor da Notre Dame mostrando altos níveis de flúor, indicando a presença de PFAS, uma classe altamente tóxica de “produtos químicos eternos” que fornecem repelência à água e manchas.

Alguns dos produtos químicos que os cientistas descobriram nas roupas - como fosfato de tributil , fumarato de dimetila e corantes dispersos - podem ser extremamente tóxicos ou perigosos, causando reações na pele ou asma. Foi comprovado que outros, além de seu uso em roupas, têm ligações com câncer, toxicidade reprodutiva, alergias e sensibilização da pele.

Um estudo de 2022 da professora Miriam Diamond, da Universidade de Toronto, e do professor Graham Peaslee, da Notre Dame, estimou, entretanto, que, em média, as crianças que usam uniformes escolares resistentes a manchas seriam expostas a 1,03 partes por bilião de PFAS por quilograma de seu corpo. peso por dia através da pele. Os PFAS têm sido associados a vários tipos de cancro, anormalidades fetais, distúrbios reprodutivos, obesidade e redução da função do sistema imunológico. Quando se acumula no sangue, os PFAS são considerados tóxicos no nível de partes por bilhão. Mais pesquisas são necessárias sobre a rapidez com que o PFAS derramado da roupa pode ser absorvido pela pele e pela corrente sanguínea, mas os resultados são alarmantes o suficiente para estimular os bombeiros a se revoltarem contra seus equipamentos de proteção carregados com PFAS .

Alguns produtos químicos encontrados em roupas, como BPA, PFAS e ftalatos, foram encontrados em experimentos com prazo determinado e estudos longitudinais para imitar hormônios e interferir em nosso sistema endócrino, causando uma cascata pouco compreendida de efeitos à saúde que variam de flutuações extremas de peso e fadiga para infertilidade e doença crônica.

Uma vez que a exposição cessa, alguns produtos químicos, como o BPA, podem ser metabolizados e eliminados pelo corpo, acabando por se decompor e desaparecer. Outros, como os metais pesados, se acumulam no organismo e no meio ambiente, durando décadas ou, no caso do PFAS, para sempre.

Quando testadas em contextos diferentes da moda, descobriu-se que muitas dessas substâncias, como pesticidas e solventes, danificam o corpo ao longo de anos de exposição crónica, ainda que infinitamente pequena. A presença deles na moda preocupa alguns especialistas. Como Diamond, da Universidade de Toronto, me disse: “Sabemos que os produtos químicos são continuamente perdidos de qualquer material ao longo do tempo. É uma realidade física que os produtos químicos migram para a sua pele a partir de suas roupas, com e sem suor.”

“Vemos as tendências, mas não podemos identificar as tendências para este e aquele produto químico”, disse-me em 2021 o Dr. Åke Bergman, um toxicologista ambiental sueco especializado em desreguladores endócrinos, sobre o aumento de distúrbios reprodutivos e infertilidade. Ele fez parte de uma força-tarefa convocada em 2020 para aconselhar a Suécia sobre a tributação de produtos químicos tóxicos usados ​​na moda. “Há um uso enorme de um grande número de produtos químicos. Sentimos fortemente que existe uma ligação entre as exposições a esses produtos químicos e os efeitos observados”.

Apesar de todas as evidências, no entanto – os resultados dos testes tóxicos que estão se acumulando, os pesquisadores e advogados na América do Norte e na Europa tocando o alarme , os relatos de queimaduras na pele causadas por sapatos, meias e sutiãs no site da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo – este é um assunto extremamente difícil de fazer declarações conclusivas e uma área impopular de pesquisa científica. Não há estudos relacionando as experiências dos funcionários da moda e das companhias aéreas com as experiências da população em geral, nem estudos examinando os efeitos da exposição diária crônica por meio do uso de tecidos com esses contaminantes e acabamentos perigosos próximos à nossa pele. Enquanto isso, a própria complexidade da moda se presta ao ofuscamento e à confusão.

Nos Estados Unidos, não há padrões federais para o que pode ser colocado em roupas e vendido para adultos. A UE proibiu mais de 30 substâncias para uso na moda e rejeitará algumas remessas na fronteira, mas seu programa de testes é pequeno e facilmente contornado.

Além da moda, está claro que muitos americanos estão preocupados com o fato de o governo estar a falhar em seu trabalho de nos proteger de substâncias nocivas. Alimentos orgânicos que prometem ser livres de resíduos de pesticidas são o setor que mais cresce no mercado de alimentos, com vendas atingindo US$ 57,5 ​​biliões em 2021. A beleza vem logo atrás, com milhões de mulheres reformando todos os armários de banheiro na última década, deitando fora o legado marcas com ingredientes tóxicos como ftalatos e parabenos. Influenciadores, blogueiros e marcas de beleza alimentaram esse medo e desconfiança para angariar engajamento e vender produtos – enquanto muitas vezes vão longe demais ao demonizar substâncias perfeitamente seguras.

No entanto, a moda, uma indústria global de US$ 2,5 triliões, de alguma forma escapou completamente do mesmo escrutínio.

Uma razão é que nem os consumidores nem os profissionais sabem quais, ou mesmo quantas, substâncias químicas são usadas para fabricar, processar, tecer, tingir, finalizar e montar roupas e acessórios.

“Está ficando mais difícil evitar esses produtos químicos”, diz a Dra. Elizabeth Seymour, do Centro de Saúde Ambiental de Dallas, sobre aditivos como solventes e metais pesados. “Existem vários produtos químicos que são colocados em tudo. E suas roupas estão incluídas nisso.” Mas enquanto produtos de beleza, limpeza e alimentos embalados vêm com uma lista de ingredientes, a moda não, embora os testes revelem que ele possui alguns dos perfis químicos mais complicados e multicamadas de qualquer produto, chegando a 50 produtos químicos ou mais.

Depois de pesquisar isso durante dois anos, agora tenho mais cuidado com minhas próprias roupas. Evito marcas de moda baratas, falsificadas ou ultrarrápidas. Eu compro a empresas em quem confio, que se preocupam com a sua reputação e têm um programa de gestão dos produtos químicos ou rótulos como bluesign, Oeko-Tex ou GOTS. Escolho fibras naturais sempre que possível e evito promessas extravagantes como repelência a manchas, acabamentos antiodores, tecidos fáceis de cuidar e antirrugas. Eu lavo qualquer roupa nova antes de usá-la, com sabão em pó não tóxico e sem perfume. E eu confio no meu nariz – se algo cheira mal, eu devolvo.

Mas o que eu realmente quero ver é a ação dos nossos governos. Alguns estados têm requisitos de rotulagem ou proibições futuras de PFAS em roupas, mas o governo federal não regulamenta quais produtos químicos podem ser colocados em roupas e vendidos a consumidores adultos. Precisamos de uma revisão total de como gerenciamos produtos químicos em produtos de consumo neste país.

Eu gostaria de ver o governo federal alcançar o bom trabalho que está sendo feito pela União Européia – e ir além. Deve implementar impostos e tarifas sobre produtos químicos não testados para financiar pesquisas desesperadamente necessárias, exigir que as empresas químicas registrem todos os produtos químicos em uso e compartilhem qualquer pesquisa associada, banir certas classes de produtos químicos para uso na moda e expandir a capacidade da Consumer Product Safety Commission de testar e lembre-se da moda tóxica.

Estas podem parecer grandes perguntas. Então, talvez possamos começar simples. Vamos exigir que a moda venha com uma lista de ingredientes – uma lista de ingredientes realmente completa. Porque se os consumidores realmente soubessem o que há em suas roupas, bem, eles poderiam não querer usá-las.

sábado, 4 de março de 2023

Who made you king of everything? Angela Saini on the origins of patriarchy


On the day Angela Saini talks to me from her book-lined study in New York, the patriarchy is hard at work all over the world. Anti-abortion protestors are getting ready to march on the Supreme Court in Washington, the Metropolitan police force is caught up in yet more accusations of rape, Jacinda Ardern has resigned as prime minister of New Zealand after years of misogynist abuse, and Iran is executing protestors after the death in custody of Mahsa Amini. In this context, it’s easy to see how patriarchy operates but harder to explain exactly what it is.

“Patriarchy is one of these words that has lost some of its meaning through overuse,” Saini says. “We rarely interrogate what we really think it means, and that’s part of what I was trying to do with The Patriarchs.” The subtitle of her new book, “How Men Came to Rule”, is a simple question with a fascinating and complicated answer, which boils down to: “In various ways, in different places, but not everywhere, not always and not necessarily.” Just as her 2017 book, Inferior, challenged the idea that gendered inequality is rooted in our biology, and Superior in 2019 exposed the lie of “race science” as it began to creep chillingly back into the mainstream, this book shows that the dominant system we have come to accept is neither natural nor inevitable.

This refusal to accept injustice has characterised Saini’s career. Her first book, Geek Nation: How Indian Science Is Taking Over the World, was published in 2011. She had recently left a reporting job at the BBC to go freelance shortly after her six-month investigation into bogus universities won a Prix Circom European television award. According to Saini, while she was working on that documentary, there were several attempts to give her story to other reporters in the newsroom. “Maybe it was because of my age, I really have no idea why … but those reporters were always white men.” She managed to keep the story by threatening to leave, she says, and then she did. “It’s one of my faults, maybe, that I have too much pride, and I make my career decisions based on things like that. I just couldn’t stay.”

Since then, Saini has made a name for herself with her series of books with short titles and massive subjects. These have tended to meet first with resistance among scientific communities, then with approbation and set-text status, and finally with attacks from the far right and white supremacists that have largely forced her off social media. Now The Patriarchs is calling into question the basic idea that men are in charge because they are stronger, smarter or better suited for it. Matrilineal, matrilocal societies, as the book shows, are “very much part of the fabric of human history and society … not these super rare, unusual worlds in which somehow the laws of nature have been overturned,” Saini says. “What is odder for me is that male-dominated societies are so common. When you think of all the different ways in which we could live, why is it that this one system has … spread so widely?”

In the course of writing, Saini looked at new genetic research and archaeological scholarship; visited Neolithic ruins in Çatalhöyük, Turkey; talked to Onondaga Nation people in Seneca Falls, New York state, and the Khasi community in Meghalaya, northeast India; and met women in Germany, Hungary and the Czech Republic. She found ancient societies that contradicted modern, binary ideas of gender; matrilineal systems that had been subverted by colonialism; and patriarchal rules that were ended at a stroke on the whim of governments.

When you think of all the ways in which we could live, why is it the patriarchal system that has spread so widely?
“For me, it seemed less obvious that there was this one monolithic, conspiratorial, overarching plan of male domination that somehow just swept the world in a very homogeneous way,” Saini says, “and it became clearer that there were different patriarchies that took different forms in different times and places around the world.”

Patriarchy is not something that men did to women at some point in history, but a fragile system whose perpetuation we all participate in every day. “I’m not saying that it’s patriarchal to take your husband’s name,” she offers as an example. “But that is one of the mundane ways in which these systems stay alive. And there are thousands, if not millions, of them in cultures all over the world.”

Saini grew up in southeast London, with parents who encouraged her and her two sisters to think about big ideas, and to ask: “Why is the world the way it is?” Her dad had been an engineer, and her parents “split everything down the middle. They still do. There was no sense for me and my sisters that there was men’s work and women’s work.” The area was not, she says, “the greatest place to be an ethnic minority in the 1990s.” (She remembers one day calling a friend, who was from a Chinese family, to ask if she fancied going to the shops. Her friend’s mum wouldn’t let her because fascists were marching through the town centre.) “I was made to be acutely aware of these things from a young age, and I think that is why, when I got to university, I became very involved in anti-racism activism.” She became a co-chair of the student union’s anti-racism committee, which led to writing for the student newspaper, and that sparked an interest in journalism and a traineeship at ITN. She also has a master’s in engineering from Oxford University, and another in science and security from King’s College London (which she took in her “spare time” while working at the BBC).

It seemed inevitable to Saini that she would return to the subject of race in her work, but at the time Superior was commissioned – before George Floyd’s murder and only just after the election of Donald Trump – the persistence of racist, eugenicist ideas was not a big part of public conversation. “There was this feeling that we were getting past this,” she recalls. “But for many of us, it’s obvious that these things are always lying under the surface. When politics shifts, these ideas come back into the mainstream – and that’s exactly what has happened.”

Saini brings her own background and experiences to her work, and that’s something she acknowledges repeatedly in The Patriarchs. Given how successfully she has exposed scientific bias, it is interesting to see her acknowledge her own. “Well, I think we can only see anything through our own cultural lens,” she laughs. “So either we can ignore it and pretend that we’re like gods, seeing it from a distance from some privileged point of view … Or we can acknowledge it, incorporate that into the way we look at our work, and have the humility to try and see it from other people’s point of view as well.”

Seeing things from other cultural perspectives is one of the best things about moving to live in the US, she says. British people tend to think that we know the country, but you don’t have to travel very far from her home in New York to find very different stories from the ones we see in the movies. At Seneca Falls, for example, she learned about indigenous American cultures, their approaches to gender and how those were changed as a result of colonialism. She has also found a different mode of discussion there. “I feel that the tone of the public, mainstream debate and what plays out in the newspapers around race and gender [in the UK] is sometimes so reactionary, so dehumanising ... I was finding it very difficult by the end.”

Though Saini, her husband and her nine-year-old son do plan to return to the UK eventually, it felt like a relief when her husband was offered a job in New York. In 2020, she had applied to be a commissioner for the UK’s Equality and Human Rights Commission and was disappointed not to make it to the first round. The subsequent appointment of the journalist David Goodhart, who had defended “hostile environment” immigration policies and “white self-interest”, came as a shock. Soon afterwards, the Sewell report was published “and I quickly realised that this government was doing things that were … running counter to what the equalities agenda had been for a very long time.” Then the culture secretary Oliver Dowden began a campaign against what he saw as “woke” policies in museums. At the time, Saini was sitting on the Natural History Museum’s board for naming and representation, and “I could see that affecting the conversations we were having. There was a kind of underlying anxiety or fear. And I think for many of us who work in academia or cultural institutions, there is no doubt that the Tory government’s policies over the last few years have had a really chilling effect on efforts to combat racism, and efforts to improve the safety and lives of transgender people, for instance. And in the UK they feel mainstream.”

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O Amor não tem Género - Estado da Arte dos Direitos LGBTIA+ em Portugal


Numa postagem critiquei a Igreja Católica, por não aceitar a ordenação das Mulheres, o casamento entre padres, insistir na homofobia e porque razão existe um grande número de casos de pedofilia.

A Igreja Católica tendencialmente é de direita e conservadora. Ora habitualmente os crentes também são preconceituosos em relação às questões de género e acreditam na caridade, em vez de apoio directo e erradicação da pobreza. A Igreja Católica fez uma perseguição atroz aos Teólogos da Libertação, pacificada com a intervenção e entendimento do Papa Francisco.

Hoje, o Brasil vive tempos insuportáveis em relação a esta temática [notícia aqui].

Bolsonaro, fanático católico é homofóbico [notícia aqui].

Não é possível estabelecer um nexo direto entre a teoria marxista e o feminismo, pois Marx nada falou sobre a questão específica da igualdade de género nas suas obras que expõem a estrutura marxista. Não obstante, Marx e Engels defendiam ideias de emancipação das mulheres e de igualdade de género, dizendo que parte da estrutura de dominação burguesa era permitida pelo sistema familiar tradicional.

Existe um ramo contemporâneo de estudos feministas chamado de “feminismo marxista”, que analisa a questão da desigualdade de género e da opressão contra as mulheres por meio da ótica marxista. Essa teoria enxerga o patriarcado como mais uma forma de atuação do capitalismo, que subjuga as mulheres, assim como as classes operárias, para mantê-las sob o seu domínio. nesta corrente do feminismo marxista, podemos destacar na história ocidental nomes de mulheres marxistas que contrariaram os estereótipos de género e lutaram pela igualdade de direitos, como Rosa Luxemburgo e Simone de Beauvoir.

Última hora: quando há padres progressistas e de esquerda, é no seio da sua comunidade que enfrentam o pior da humanidade e o preconceito.

Hoje vou falar da homofobia, bissexualidade e transfobia em Portugal

Até 1982, a homossexualidade era crime. A Lei de 20 de Julho de 1912 enquadrava a homossexualidade na mesma categoria que os “vadios” e os “indigentes”, sendo que as disposições legais integradas pelo Estado Novo em 1954 no Código Penal, vieram impor medidas de segurança para preservar os “bons costumes”, a “decência” e a “moral sexual”. Como tal, quem se entregasse à “prática de vícios contra a natureza” corria o risco de ser punido/a com penas de prisão em albergues e hospitais psiquiátricos, submetido/a a diferentes “tratamentos” (nos quais se incluíam a aplicação de choques elétricos), ter a sua liberdade vigiada ou o exercício da profissão interdito. A “perigosidade” social atribuída às condutas homossexuais era, pois, justificação para serem fortemente reprimidas pelas forças policiais a fim de se conter o “problema” de ameaça à ordem pública, pelo que estas tendiam a ocorrer sobretudo em espaços privados e clandestinos por forma a se fugir às penalidades da lei.

A despenalização da homossexualidade veio a ocorrer somente após a revisão do Código Penal de 1982 (Decreto-Lei n.º 400/82), iniciando-se com ela, um longo caminho de visibilidade e conquistas dos direitos das pessoas LGBTI+, destacando-se:

• em 2001, o reconhecimento legal do direito à união de facto e à economia comum por casais do mesmo sexo (Lei n.º 7/2001);
• em 2003, a introdução do princípio da não-discriminação em função da orientação sexual no Código do Trabalho (Lei n.º 99/2003);
• em 2004, a inclusão da orientação sexual no artigo 13º do princípio da igualdade na Constituição da República Portuguesa;
• em 2007, a introdução da orientação sexual no Código Penal como fator de  agravamento da penal e critério de discriminação (Lei n.º 59/2007);
• em 2007, o estabelecimento da idade de consentimento igual entre pessoas do mesmo sexo e entre pessoas do sexo oposto (Lei n.º 59/2007);
• em 2008, a inclusão da orientação sexual e identidade de género como “motivos de perseguição” para efeitos de apreciação da concessão de asilo ou proteção subsidiária (Lei n.º 27/2008);
• em 2009, a inclusão de relações entre pessoas do mesmo sexo na criminalização da violência doméstica (Lei n.º 59/2007);
• em 2009, a introdução do tema a homossexualidade e da diversidade sexual na lei de aplicação da educação sexual nas escolas (Lei n.º 60/2009);
• em 2010, a aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (Lei n.º 9/2010);
• em 2011, a aprovação do procedimento de alteração do nome e menção ao sexo
no assento de nascimento (Lei n.º 7/2011);
• em 2012, a consagração do direito à não discriminação em função da orientação sexual e identidade de género consagrado no Estatuto do Aluno e Ética Escolar (Lei n.º 51/2012);
• em 2013, a introdução da identidade de género no Código Penal como como fator de agravamento da penal e critério de discriminação (Lei n.º 19/2013);
• em 2015, a introdução do princípio da não-discriminação em função da identidade de género no Código do Trabalho (Lei n.º 28/2015);
• em 2016, a aprovação da adoção de crianças por casais do mesmo sexo casados civilmente ou em união de facto (Lei n.º 2/2016);
• em 2017, a aprovação do acesso a técnicas de procriação medicamente assistida, independentemente do diagnóstico de infertilidade, estado civil ou orientação sexual (Lei n.º 58/2017);
• em 2018, o estabelecimento do direito à autodeterminação de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa (Lei n.º 38/2018);
• em 2019, o estabelecimento de medidas administrativas para implementação nas escolas do previsto no n.º 1 do artigo 12.º da Lei n.º 38/2018 para efeitos de prevenção e combate contra a discriminação em função da identidade e expressão de género em meio escolar (Despacho n.º 7247/2019); e
• em 2021, a proibição da discriminação na elegibilidade para dar sangue em função da orientação sexual e identidade de género (Lei n.º 85/2021).

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Dia Mundial do Mar e Dia do Trabalhador Marítimo



O Dia Mundial do Mar celebra-se este ano a 29 de setembro de 2022, sob o tema “Novas Tecnologias para uma Navegação mais Verde”, antecedido do Dia do Trabalhador Marítimo, que será assinalado no dia 25 de junho de 2022, por iniciativa da Organização Marítima Internacional (IMO no acrónimo inglês). 

O tema escolhido para a celebração do Dia Mundial do Mar reflete a importância e a necessidade de apoio à transição verde do setor marítimo, tendo em vista garantir a sua sustentabilidade futura e sem deixar ninguém para trás num mundo pós-pandemia. 

Por sua vez, o Dia do Trabalhador Marítimo (Day of the Seafarer) pretende dar maior visibilidade à importância do trabalho dos marítimos, e agradecer a sua inestimável contribuição para a economia mundial e a sociedade civil. 

Para mais informações, consultar: 
IMO - International Maritime Organization
World Maritime Day

domingo, 18 de setembro de 2022

Dia Internacional da Igualdade Salarial



O Dia Internacional da Igualdade Salarial é celebrado anualmente a 18 de setembro, desde 2020.

Este dia tem como objetivo homenagear os esforços de longa data que têm sido conduzidos para alcançar a igualdade salarial entre homens e mulheres. Em todas as regiões, as mulheres recebem menos do que os homens, estimando-se que a diferença salarial seja de 23% a nível mundial.

A obtenção da igualdade de género e o empoderamento das mulheres e raparigas é um processo lento e com entraves devido à persistência de relações de poder históricas e estruturais desiguais entre mulheres e homens. Deste modo, o progresso na redução do fosso entre géneros tem sido lento e, embora a igualdade salarial seja uma medida amplamente apoiada, a sua aplicação real tem sido difícil.

Este Dia foi proclamado na Resolução 74/142 adotada na Assembleia Geral da ONU a 21 de janeiro de 2020.

Documentos

Resolução 74/142 da Assembleia Geral da ONU sobre o Dia Internacional da Igualdade Salarial [en]

Links relacionados

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

O que é a “desistência silenciosa”, a mais recente tendência no mundo do trabalho alimentada pelas redes sociais

No original, em inglês, é o "quiet quitting", o que tem levado os vários artigos já publicados online sobre o tema a esclarecerem que não, não se trata de simplesmente bater com a porta do emprego silenciosamente



O contrato especifica que o horário de trabalho é das 9h00 às 18h00? Então às 18h00, desliga-se o computador. Tarefas atribuídas? Sim, mas essas e mais nenhuma e só até àquela hora. Estes podem ser, resumidamente, os princípios do “quiet quitting”, que começou a ganhar tração na Internet depois de um utilizador, que agora responde por @zaidleppelin, ter publicado um vídeo no TikTok em que explicava que não se trata de uma demissão propriamente dita, mas uma demissão da ideia de ir mais além no trabalho.”Ainda cumpres os teus deveres mas já não subscreves a mentalidade de que o trabalho tem de ser a tua vida. Não é”, ouve-se.

Basicamente, trata-se de não executar tarefas para as quais não se recebe compensação financeira, ou, como resume o The Wall Street Journal, não fazer mais do que o necessário para manter o emprego.

No rescaldo pandémico, muitos começaram a dar outra importância ao bem-estar e à saúde mental, o que pode explicar esta tendência emergente nas gerações mais jovens, dispostas a dizer “não” ao burnout e a mudar o statu quo.

Do passa-a-palavra ao debate aceso na internet e na Imprensa internacional foi um ápice. O desprendimento emocional face ao trabalho tem agora um nome e um número crescente de adeptos, para quem não faz sentido vestir a camisola da organização para lá do estritamente necessário, com sacrifício de tempo e saúde e sem ganhos que o justifiquem.

Os resultados do relatório “State of the Global Workplace”, divulgado pela Gallup, sobre o local de trabalho e o bem-estar, parecem confirmar a tendência: o grau de envolvimento dos trabalhadores norte-americanos desceu para 32% no primeiro trimestre deste ano (era de 36% em 2020 e de 34% em 2021) e a percentagem de “não envolvidos” – que definem limites profissionais e cumprem os mínimos – aumentou para 17% (era de 14% em 2020 e de 16% em 2021). O coordenador do estudo, Jim Harter, afirmou ao The Wall Street Journal que mais de metade dos inquiridos deste grupo tinha idades iguais ou inferiores a 33 anos e a maioria cultivava a “desistência silenciosa”.

A causa pode estar na falta de entusiasmo e propósito, nas aspirações não atendidas pelos empregadores ou no facto de muitos terem percebido que trabalhar para aquecer não compensa, após verem familiares e amigos dispensados durante a pandemia, apesar dos seus esforços e da sua lealdade. As mensagens de Kahn no TikTok – “desfrutar a vida também é produtivo” – acabam por ser um abre-olhos para uma imensa minoria, gerando ondas de choque no meio corporativo.

“Tang ping”: a versão asiática (e prévia) do fenómeno

Curiosamente, esta postura face ao trabalho já estava a dar que falar desde o ano passado, na China, conhecida pela cultura materialista, de trabalho árduo, jornadas longas e salários baixos. Cansados da “corrida de ratos” em que as suas vidas estavam a tornar-se – e em protesto contra os valores que estavam na sua base – milhares de jovens chineses iniciaram uma forma de resistência insólita, passando a conduzir-se no registo “tang ping” (deitar-se ao comprido, ou, em língua inglesa, “lying flat”). Como a expressão sugere, a meta é não fazer nada, ou, se quisermos, atirar a toalha ao chão, virando costas aos ideais da cultura vigente: o carro, a casa, os filhos, o emprego e as horas extra (poupando-se ao lamento angustiante, tão bem retratado pela banda Talking Heads, na canção Once in a Lifetime, “Como é que eu cheguei aqui?”).

Radical? Talvez, ou nem por isso, se olharmos para este fenómeno como o contraponto da prosperidade económica e que não contempla, na perspetiva das gerações mais jovens, o que seriam os mínimos de bem-estar para se ter uma vida além da tal corrida laboral desenfreada. Não por acaso, o movimento nasceu num centro tecnológico em Shenzhen, no sudeste da China, onde impera a cultura “996” (trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana, num total de 72 horas, sem que seja garantido qualquer pagamento extra).

O “tang ping” tornou-se viral em abril de 2021 e o impacto foi tal que, em outubro, o presidente Xi Jinping emitiu um aviso aos jovens, num jornal do Partido Comunista Chinês. “Uma vida feliz alcança-se pela luta e a prosperidade depende do trabalho duro e da sabedoria”, assegurou, alertando para a necessidade de, entre outros, “formar um ambiente de desenvolvimento onde todos participem e evitar a ‘involução’ e o ‘deitar-se ao comprido’.”

Talvez não tenha sido suficiente para quebrar a resistência que, como seria expectável, se foi expandindo no mundo globalizado – da Austrália aos Estados Unidos e Europa – com cada vez mais jovens adultos a porem o dedo na ferida e a revoltarem-se contra a “asiatização” (precariedade) laboral e o desperdício de tempo de vida, que é só uma, em atividades não reconhecidas nem pagas.

“Já vais embora?”

“Hoje, nenhum jovem tem constrangimentos em desligar o computador e sair à hora”, assegura Vânia Borges, diretora de recursos humanos da Adecco. “As pessoas não estão a desistir do trabalho, só deixaram de pô-lo em primeiro lugar, para se focarem no que é importante para elas.” Mesmo que prolonguem o tempo de trabalho numa situação pontual, “não ficam até mais tarde no emprego por sistema, para evitar comentários ou parecer bem”.

A prática do presentismo, “ainda enraizada entre nós e que não beneficia ninguém”, é malvista noutros países europeus, onde as leis têm vindo a contemplar, entre outros, o direito à desconexão no meio corporativo. Em Portugal, as alterações ao Código do Trabalho aprovadas no ano passado penalizam empregadores que contactem os funcionários em período de descanso, e as mensagens de correio eletrónico “indevidas” trazem uma advertência, elucidando que o envio foi feito em horário inconveniente para o emissor e não requer resposta imediata.

Quando as aspirações não são atendidas pelos empregadores, instala-se o desprendimento emocional face ao trabalho – para quê vestir a camisola?

“As pessoas não são máquinas”, observa António Moura Queirós, responsável de consultoria organizacional da empresa Alento. “Trabalhar sempre acima do grau em que é suposto, excedendo expectativas, passa uma mensagem errada ao empregador, porque depois não se consegue manter esse ritmo e há o risco de burnout”, esclarece. A alternativa seria fazer ajustes, mas “há muita falta de assertividade para pedir um programa de outplacement e fazer uma transição sustentável de carreira, por exemplo”.

O consultor adianta que o quiet quitting se assemelha à quebra do contrato psicológico (expectativas e promessas tácitas entre as partes), e encara-o como um mecanismo de sobrevivência em climas organizacionais não saudáveis: “Lideranças sem transparência, que monitorizam os trabalhadores, não confiam na sua autonomia e capacidade produtiva tendem a perder talentos e a ter colaboradores não comprometidos.”

Em Portugal, “temos um tecido empresarial pouco amadurecido, sem programas de acolhimento claros, mapeamento de competências, sistemas de incentivos e perspetivas de progressão”. Porém, notam-se sinais de mudança: “As empresas começam a investir na gestão de pessoas, mais pela necessidade de atrair candidatos do que por terem um laivo de consciência instantâneo.”

Sem valores, nada feito

Hugo Bernardes, fundador e sócio-gerente da The Key Talent, entende que “a nossa cultura empresarial ainda não encara o envolvimento e a valorização do propósito de vida como um problema imediato”. O que pensar, então, do desabafo comum “Há muita gente que não quer trabalhar”? O psicólogo sublinha que “são as pessoas que escolhem as organizações e não o contrário”. E vê a escassez de colaboradores em certas áreas como um reflexo dos salários baixos: “Como diz uma famosa citação, se pagar em amendoins, terá macacos.”

As políticas de teletrabalho trouxeram novos desafios, na aculturação e no recrutamento: “A primeira coisa que pergunta quem concluiu o curso remotamente é qual a política de trabalho; se não for flexível, nem consideram a oportunidade.” O paradigma tem de mudar: “As organizações nem sempre são o que dizem ser; ou se alinham com os valores das pessoas e definem a sua proposta de valor ou nada feito.”

As novas gerações, influenciadas pela cultura Erasmus, “olham para os bens na perspetiva do uso e não da propriedade, querem ter experiências e tempo; o trabalho é uma componente da vida, nem sempre a principal”, afirma Luís Miguel Ribeiro, presidente da  Associação Empresarial de Portugal, que aposta em medidas para cativar colaboradores, como a oferta de seguros de saúde, o trabalho híbrido – a pensar na redução de custos de deslocação e no aumento das taxas de juro – e a criação de espaços para refeições e convívio.

Sobre a questão dos horários, Luís Miguel Ribeiro afirma tratar-se de um mito, até porque “ficar mais tempo no local de trabalho implica gastos extras, até de energia, e, caso aconteça, talvez seja preciso fazer ajustes”. No final de contas, “o bom senso e a razoabilidade resolvem grande parte dos desequilíbrios”.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

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