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terça-feira, 7 de julho de 2026

Taxar os Bilionários: justiça fiscal ou utopia económica?


A discussão sobre a tributação das grandes fortunas e dos bilionários deixou de ser apenas um debate ideológico e transformou-se numa das discussões económicas mais complexas e urgentes da atualidade global. À medida que propostas como um imposto mínimo global sobre os super-ricos avançam em fóruns como o G20, o mundo divide-se entre a necessidade de combater a desigualdade extrema e os desafios práticos de aplicar uma medida desta escala. O grande problema do modelo fiscal atual é que ele foi desenhado para taxar o rendimento do trabalho e o consumo, mas a riqueza dos bilionários cresce através da valorização de ativos, como ações e empresas, que muitas vezes escapam ao radar dos impostos tradicionais até serem vendidos.

Na linha de frente dos defensores desta medida estão economistas de renome como Gabriel Zucman e Thomas Piketty, conhecidos pelos seus estudos profundos sobre a desigualdade. Zucman, que desenhou a proposta levada ao G20, argumenta que os bilionários pagam taxas efetivas de imposto absurdamente baixas em comparação com a classe média, e que uma coordenação internacional geraria fundos cruciais para a saúde pública e o combate às alterações climáticas. A este coro junta-se o Prémio Nobel Joseph Stiglitz, que alerta que a concentração extrema de riqueza sufoca a economia e fragiliza a democracia, já que os mercados por si só não distribuem os recursos de forma justa.

Por outro lado, o ceticismo é alimentado por economistas de peso que apontam falhas estruturais graves nesta abordagem. Lawrence Summers, ex-Secretário do Tesouro dos EUA, é uma das vozes mais críticas, argumentando que as estimativas de arrecadação destes impostos são ilusórias e que a sofisticação financeira dos mais ricos criará sempre novas formas de evasão. Na mesma linha, Gregory Mankiw, professor de Harvard, alerta que penalizar o capital reduz os investimentos produtivos e a inovação, o que acaba por prejudicar os próprios trabalhadores a longo prazo através de salários mais baixos. Somando-se a estas críticas, analistas como Chris Edwards e Daniel Mitchell relembram o fracasso histórico destas tentativas na Europa nos anos 90, onde a fuga de capitais para paraísos fiscais e a dificuldade em avaliar ativos não líquidos forçaram a maioria dos países a revogar o imposto. O debate sobre taxar os bilionários não é sobre "punição", é sobre viabilidade. Sem uma nova forma de arrecadar receita dos que mais beneficiaram com a globalização, os governos não terão capacidade financeira para garantir uma Transição Justa. A riqueza extrema dos bilionários passa a ser vista não apenas como um indicador de desigualdade, mas como a matéria-prima financeira para construir o futuro sustentável.

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

A catastrophic climate event is upon us. Here is why you’ve heard so little about it


The poor and middle pay taxes, the rich pay accountants, the very rich pay lawyers – and the ultra-rich pay politicians. It’s not an original remark, but it bears repeating until everyone has heard it. The more money billionaires accumulate, the greater their control of the political system – which means they pay less tax, which means they accumulate more, which means their control intensifies.

They reshape the world to suit their demands. One of the symptoms of the pathology known as “billionaire brain” is an inability to see beyond their own short-term gain. They would sack the planet for a few more stones on the pointless mountain of wealth. And we can see it happening. Last week delivered the biggest news of the year so far, perhaps the biggest news of the century. But partly because billionaires own most of the media, most people never heard it. We might find ourselves committed to a civilisation-ending event before we even learn that such a thing is possible.

The news is that the state of a crucial oceanic circulation system has been reassessed by scientists. Some now believe that, as a result of climate breakdown changing the temperature and salinity of seawater, it is more likely than not to collapse. This system – known as the Atlantic meridional overturning circulation (Amoc) – delivers heat from the tropics to the North Atlantic. Recent research suggests that if it shuts down, it could cause both a massive drop in average winter temperatures in northern Europe and drastic changes in the Amazon’s water cycles. This could help tip the rainforest into cascading collapse and trigger further disaster.

Amoc’s shutdown is likely also to cause an acceleration of sea level rise on the east coast of the US, threatening cities. It could also raise Antarctic temperatures by roughly 6C and release a vast pulse of carbon currently stored in the Southern Ocean, accelerating climate catastrophe.

Even when the countervailing effects of generalised global heating are taken into account, a further paper proposes, the net impact in northern Europe would be periods of extreme cold – including events in which temperatures in London fall to -19C, in Edinburgh to -30C and in Oslo to -48C. Sea ice in February would extend as far as Lincolnshire. Our climate would change drastically, with the likelihood of far greater extremes, such as massive winter storms. Rain-fed arable agriculture would become impossible almost everywhere in the UK.

This shift, on any realistic human scale, would be irreversible. Its speed is likely to outrun our ability to adapt. Amoc shutdowns, driven by natural climate variability, have happened before. But not in the era of large-scale human civilisation.

The first paper proposing that Amoc might have an on-state and an off-state was published in 1961. Since then, many studies have confirmed the finding and explored potential triggers and likely implications. Until recently, Amoc collapse caused by human activity fell into the category of a “high impact, low probability” event, devastating if it happens, but unlikely to occur. Research over the past few years prompted a reassessment: it began to look more like a “high impact, high probability” event. Now, in response to last week’s paper, Prof Stefan Rahmstorf – perhaps the world’s leading authority on the subject – says the chances of a shutdown look like “more than 50%”. We could pass the tipping point, he says, “in the middle of this century”.

So why is this not all over the news? Why is it not the top priority for the governments that claim to protect us from harm? Well, in large part because oligarchic power has championed a model of climate impact that bears little relation to reality: that is, they have a hypothesis about how the world works that is completely detached from scientific findings. This model underpins official responses to the climate crisis.

It began with the work of the economist William Nordhaus, who sought to assess the economic effects of global heating. His modelling suggests that a “socially optimal” level of heating is between 3.5C and 4C. Most climate scientists see a temperature rise of this kind as catastrophic. Even 6C of heating, Nordhaus suggests, would cause a loss of just 8.5% of GDP. Climate science suggests it would look more like curtains for civilisation.

As the eminent economists Nicholas Stern, Joseph Stiglitz and Charlotte Taylor have argued, the mild effects Nordhaus forecasts are merely artefacts of the model he has used. For example, his modelling assumes that catastrophic risks do not exist and that climate impacts rise linearly with temperature. There is no climate model that proposes such a trend. Instead, climate science forecasts nonlinear impacts and greatly escalating risk. The likely impacts of high levels of heating include the inundation of major cities, the closure of the human climate niche (the conditions that sustain human life) across large parts of the globe, the collapse of the global food system and cascading regime shifts – that is, abrupt transitions in ecosystems – releasing natural carbon stores, potentially leading to a “hothouse Earth” in which very few survive. Never mind a few points off GDP: there would be no means of measurement and scarcely an economy to measure.

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terça-feira, 31 de março de 2026

O pior país do mundo


Por Paulo Nogueira Batista Jr *
Preparem-se para um artigo violento. A nossa paciência esgota-se e, com ela, desaparece também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas. Para determinados assuntos, pelo menos. Qual é o pior país do mundo? A concorrência é forte. Temos, por exemplo, a Inglaterra e a Holanda. Ao longo da vida, tive a oportunidade de conhecer vários ingleses e holandeses. E devo dizer: poucos se salvam. Os ingleses, nem se fala, estão na origem de grande parte dos males que enfrentamos no mundo. Os holandeses, menores, menos conhecidos nas suas abjeções, destacam-se pela antipatia e preconceitos contra estrangeiros. Deram bastante liberdade aos judeus em tempos remotos, é verdade, mas figuraram entre os principais e entusiásticos colaboradores dos nazis na perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em contraste com os dinamarqueses, que resistiram obstinadamente, como relatou Hannah Arendt no seu célebre livro Eichmann em Jerusalém. Cerca de ¾ dos judeus que viviam na Holanda foram assassinados! Já a história dos judeus dinamarqueses é sui generis, conta Arendt. A resistência dos dinamarqueses à perseguição dos judeus foi única entre todos os países da Europa, fossem países ocupados, aliados de Hitler ou verdadeiramente neutros e independentes. Ninguém se igualou à Dinamarca.

Estou a desviar-me um pouco do assunto, porém. Não era da Holanda ou da Dinamarca que queria falar, países pequenos e irrelevantes para o quadro mundial. Retomo o tema principal. Seriam os Estados Unidos o pior país do mundo? Há muitos motivos para pensar assim; eu próprio morei oito longos anos em Washington e sei como os americanos podem ser desagradáveis e até detestáveis. Muito mais importante: o Império americano tem uma longa lista de crimes e agressões contra outros países. Os seus últimos feitos foram o ataque à Venezuela e a intensificação do embargo criminoso contra Cuba, além da agressão ao Irão.

Mas ninguém consegue superar o estado genocida e terrorista de Israel. Um alerta meio óbvio: vou falar aqui do estado de Israel (que nunca deveria ter sido criado) e do projeto sionista que levou à sua criação – e não propriamente do povo judeu ou dos judeus em geral. Note-se, entretanto, que as políticas do governo de Israel são apoiadas pela maioria dos judeus israelitas, em especial a agressão ao Irão e a oposição à criação de um Estado palestiniano. Essas políticas são apoiadas também pela maioria das comunidades sionistas em outros países, inclusive aqui no Brasil e – mais importante – nos Estados Unidos.

O lobby sionista nos Estados Unidos
O cientista político americano John Mearsheimer, em coautoria com Stephen Walt, escreveu um importante livro, publicado em 2007, sobre o que ele denomina de “Israel lobby”, cuja influência decisiva nos Estados Unidos, notadamente em Nova Iorque e Washington, acaba por subordinar a política externa dos Estados Unidos – um caso clássico do rabo a abanar o cão. Um país pequeno, com 10 milhões de habitantes, dita as regras à superpotência, os Estados Unidos, contribuindo para acentuar a sua delinquência. A mais recente demonstração da força desse lobby foi precisamente o ataque ao Irão. Os Estados Unidos acabaram por se envolver numa guerra para servir não os próprios interesses, mas os de um país estrangeiro, como denunciou Joseph Kent ao renunciar ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, para o qual foi nomeado pelo próprio Donald Trump.

Os judeus sionistas financiam campanhas sórdidas, corrompem, elegem e controlam políticos para a Presidência e o Congresso, controlam grande parte da comunicação social, são donos de bancos e outras instituições financeiras privadas e têm forte influência em Hollywood e na indústria da pornografia. Mandam e desmandam. Beneficiam os seus serviçais e ameaçam, chantageiam e punem os seus críticos. Jeffrey Epstein, não por acaso, era judeu. Esses sionistas são todos eles criminosos, apoiantes de assassinos de crianças palestinianas, iranianas e de outros países. E assassinar crianças é o crime mais grave que se pode cometer. Nos Estilhaços, o meu livro mais recente, cheguei a escrever que o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo. E quem representa o Diabo na Terra hoje? Quem melhor que Israel e os seus apoiantes no resto do mundo?

O lobby israelita faz parte, na verdade, de algo maior e mais desastroso para os Estados Unidos – a subordinação das políticas públicas a bilionários e lobbies privados – entre os quais figuram também as big techs (gigantes da tecnologia), o complexo industrial-militar (que ganha com todas as guerras), o lobby cubano (focado em boicotar Cuba), o lobby pró-armas, o lobby financeiro (que se sobrepõe em grande parte ao israelita), entre outros. Não há democracia, mas plutocracia – o governo dos ricos. E cleptocracia – o governo dos ladrões. E, também, kakistocracia – o governo dos piores. Não é o que se vê, diga-se de passagem, na Rússia e na China.

Génios e mediocridades judaicas
Os judeus têm, desde tempos remotos, forte presença nos meios financeiros privados – em bancos e demais instituições financeiras. Sabem ganhar dinheiro. Mas isso não quer dizer grande coisa. Muitos ditos “génios financeiros” não passam em geral de figuras bizarras. A dedicação a assuntos financeiros parece levar inexoravelmente a uma perda continuada de massa cerebral e criatividade, além de solapar valores éticos.

Bem. Uma das singularidades do povo judeu é a mistura de génios, verdadeiros génios, com uma massa criminosa e/ou medíocre. Entre os génios, podemos recordar Karl Marx, Gustav Mahler, Sigmund Freud, Franz Kafka e Albert Einstein. A própria Hannah Arendt foi, não diria genial, mas certamente uma intelectual de enorme destaque. E entre economistas judeus americanos de projeção hoje em dia podemos mencionar Joseph Stiglitz, Paul Krugman e Jeffrey Sachs (nenhum deles sionista). Para mim, entretanto, o judeu mais importante de todos foi Heinrich Heine, um poeta alemão da primeira metade do século XIX, que figura com destaque nos Estilhaços e por quem tenho verdadeira paixão desde os meus 22 anos.

Por outro lado, a galeria de mediocridades judaicas é extensa. Dou alguns exemplos ao acaso. Aqui no Brasil temos Celso Lafer, discípulo fervoroso e acrítico de Hannah Arendt, e ministro das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique Cardoso, o mais limitado que já comandou o Itamaraty (superado apenas por Ernesto Araújo, nomeado por Bolsonaro). Outro exemplo, este da área financeira brasileira: Luís Stuhlberger. Até recentemente, eu nunca ouvira falar dele. Sinal alarmante de ignorância financeira, pois ele é um destacado e respeitado judeu, que integra as hostes da Faria Lima. Não merece respeito, porém. Vejam a entrevista que ele deu ao jornal Valor (publicada a 30 de maio de 2025, p. C3), um verdadeiro festival de asneiras políticas, económicas e culturais, inclusive na linguagem salpicada de termos ingleses para os quais há palavras rigorosamente equivalentes na nossa língua.

Mas vamos voltar aos Estados Unidos. Como mencionei, os judeus têm, historicamente, forte presença no setor financeiro privado – em bancos, fundos de investimento e outras instituições financeiras. Menos conhecida é a presença desse lobby no setor financeiro público, especialmente nos Estados Unidos. No FMI, por exemplo, onde trabalhei durante oito anos, todos ou quase todos os representantes do governo americano na Administração e na Direção eram judeus americanos (alguns bem inteligentes). Mais importante: o lobby domina também o Tesouro dos EUA (o ministério das finanças deles). Nas décadas recentes, a maioria dos Secretários do Tesouro dos EUA foram também judeus americanos. A “comunidade” marca presença. É o Tesouro quem dita as regras no FMI, no Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entidades financeiras sediadas em Washington. Não é por acaso, por exemplo, que uma mediocridade brasileira, o judeu Ilan Goldfayn, foi alçado à presidência do BID. Ele está lá para cumprir as ordens do Tesouro americano, leia-se, do lobby sionista.

A reação do Irão
Não vale a pena, entretanto, gastar pólvora com fracos. O que importa são as barbaridades que o estado terrorista de Israel está a cometer em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e, agora, com o ataque ao Irão. Não se deve perder de vista que a guerra foi iniciada por Israel. Os Estados Unidos acompanharam a agressão. O Irão já provou que não é nenhum país indefeso. Pelo contrário, está a castigar Israel com uma chuva de mísseis balísticos e drones, que atingem Telavive e Haifa, entre outros locais. As indicações são de que a economia israelita está a ser arruinada. E os israelitas estão a provar do próprio veneno. Israel desencadeou uma guerra regional, com consequências económicas, sociais e políticas para o mundo inteiro. Esse país criminoso precisa de ser travado. Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!

*Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021.

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Trump's Magical Thinking

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Just 0.001% hold three times the wealth of poorest half of humanity, report finds


Fewer than 60,000 people – 0.001% of the world’s population – control three times as much wealth as the entire bottom half of humanity, according to a report that argues global inequality has reached such extremes that urgent action has become essential.

The authoritative World Inequality Report 2026, based on data compiled by 200 researchers, also found that the top 10% of income-earners earn more than the other 90% combined, while the poorest half captures less than 10% of total global earnings.

Wealth – the value of people’s assets – was even more concentrated than income, or earnings from work and investments, the report found, with the richest 10% of the world’s population owning 75% of wealth and the bottom half just 2%.

In almost every region, the top 1% was wealthier than the bottom 90% combined, the report found, with wealth inequality increasing rapidly around the world.

“The result is a world in which a tiny minority commands unprecedented financial power, while billions remain excluded from even basic economic stability,” the authors, led by Ricardo Gómez-Carrera of the Paris School of Economics, wrote.

The share of global wealth held by the top 0.001% has grown from almost 4% in 1995 to more than 6%, the report said, while the wealth of multimillionaires had increased by about 8% annually since the 1990s – nearly twice the rate of the bottom 50%.

The authors, one of whom is the influential French economist Thomas Piketty, said that while inequality had “long been a defining feature of the global economy”, by 2025 it had “reached levels that demand urgent attention”.

Reducing inequality was “not only about fairness, but essential for the resilience of economies, the stability of democracies, and the viability of our planet”. They said such extreme divides are no longer sustainable for societies or ecosystems.

Produced every four years in conjunction with the United Nations Development Programme, the report draws on the biggest open-access database on global economic inequality and is widely considered to shape international public debate on the issue.

In a preface, the Nobel prize-winning economist Joseph Stiglitz repeated a call for an international panel comparable to the UN’s IPCC on climate change, to “track inequality worldwide and provide objective, evidence-based recommendations”.

Looking beyond strict economic inequality, it found that inequality of opportunity fuels inequality of outcomes, with education spending per child in Europe and North America, for example, more than 40 times that in sub-Saharan Africa – a gap roughly three times greater than GDP per capita.

Such disparities “entrench a geography of opportunity”, it said, adding that a 3% global tax on fewer than 100,000 centimillionaires and billionaires would raise $750bn a year – the education budget of low and middle-income countries.

Inequality was also fuelled by the global financial system, which is rigged in favour of rich countries, the report said, with advanced economies able to borrow cheaply and invest abroad at higher returns, allowing them to act as “financial rentiers”.

About 1% of global GDP flows from poorer to richer countries each year through net income transfers associated with high yields and low interest payments on rich-country liabilities, it said – almost three times the amount of global development aid.

On gender inequality, the report said a gender pay gap “persists across all regions”. Excluding unpaid work, women earn on average only 61% of what men earn per working hour. Including unpaid labour, that figure falls to just 32%, it added.

The report also highlighted the critical role played by capital ownership in the inequality of climate-changing carbon emissions. “Wealthy individuals fuel the climate crisis through their investments even more than their consumption and lifestyles,” it said.

Global data shows the poorest half of the global population accounts for only 3% of carbon emissions associated with private capital ownership, the report calculated, while the wealthiest 10% account for about 77% of emissions.

“This disparity is about vulnerability,” it said. “Those who emit the least, largely populations in low-income countries, are also those most exposed to climate shocks. Those who emit the most are more insulated against the impacts of climate change.”

The evidence shows that inequalities can be reduced, particularly by public investment in education and health and by effective taxation and redistribution programmes. It notes that in many countries, the ultra-rich escape taxation.

“Effective income tax rates climb steadily for most of the population, but then fall sharply for billionaires and centimillionaires,” the report said. Proportionately, “these elites pay less than most of the households that earn much lower incomes”.

Reducing inequality is a political choice made more difficult by “fragmented electorates, under-representation of workers, and the outsized influence of wealth”, it concluded. “The tools exist. The challenge is political will.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Enfrentamos uma emergência de desigualdade


Embora o texto esteja no FT , para assinantes, fui ler a OXFAM. Nesse artigo Lula, Ramaphosa e Sánchez apoiam a criação de um Painel Internacional sobre a Desigualdade. O termo «emergência da desigualdade» refere-se à crescente disparidade na distribuição de rendimentos e riqueza a nível global, que tem levado a uma maior instabilidade política e a uma diminuição da confiança nos sistemas democráticos. Relatórios recentes indicam que os 1% mais ricos capturaram uma parte significativa da riqueza, enquanto milhares de milhões enfrentam insegurança alimentar, destacando a necessidade urgente de agir para resolver estas questões. A OXFAM desafia este bullying geopolítico e tudo fez na cimeira de G20 em Joanesburgo para colocar na agenda o debate. Aconselho a leitura “G20 Extraordinary Committee of Independent Experts on Global Inequality”, pelo Professor Joseph Stiglitz.

Entre 2000 e 2024, o 1% mais rico captou 41% de toda a nova riqueza criada no mundo, refere o relatório. Ao mesmo tempo, uma em cada quatro pessoas no mundo, cerca de 2,3 mil milhões, enfrenta agora insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa que salta refeições com regularidade. Esse número aumentou em 335 milhões desde 2019, acrescenta o relatório.

Recomenda-se no relatório a criação de um novo Painel Internacional sobre Desigualdade para aconselhar os governos sobre como enfrentar o problema, à semelhança do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, designado pela ONU, que apoia o desenvolvimento de políticas climáticas.

Economistas e especialistas em desigualdade, incluindo galardoados com o Nobel e antigos altos responsáveis do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, afirmam na carta dirigida aos líderes mundiais estar preocupados com o facto de “concentrações extremas de riqueza se traduzirem em concentrações de poder antidemocráticas, a corroer a confiança nas nossas sociedades e a polarizar a política”.

A África do Sul, que acolheu a cimeira do G20 a 22 e 23 de novembro, fez com que a desigualdade global fosse um dos temas centrais, apesar de o próprio país ser classificado pelo Banco Mundial como o mais desigual do mundo.

domingo, 28 de setembro de 2025

Nobel da Economia dos EUA diz que taxas aduaneiras de Trump são "um desastre"


O economista norte-americano e Prémio Nobel da Economia, Joseph E. Stiglitz, afirmou hoje que “as taxas aduaneiras de Trump são um desastre” e lamentou que a “Europa tenha desistido” de negociar com o Presidente dos EUA.

“É realmente importante que a Europa não ceda”, defendeu numa conferência de imprensa realizada antes de receber o título de doutor ‘honoris causa’ da Universidade Internacional Menéndez Pelayo (UIMP), num evento realizado no Palácio Magdalena, em Santander.

“Ceder significa abandonar a soberania da Europa”, considerou.

Joseph E. Stiglitz alertou que as políticas comerciais e fiscais promovidas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, geram o caos económico, enfraquecem o Estado de direito e minam os direitos de propriedade intelectual.

O economista salientou também que as decisões tomadas pela administração Trump desde a tomada de posse, em janeiro, representaram uma “reviravolta de 180 graus” na tradição económica norte-americana, com políticas antiglobalização, cortes de impostos para os ricos e um abrandamento da supervisão institucional que, na sua opinião, causaram instabilidade tanto interna como externamente.

“A propriedade intelectual, essencial para o equilíbrio dos mercados, foi controlada e levou a uma espécie de bazar onde tudo vale”, sublinhou.

Stiglitz alertou ainda para os efeitos dos ataques do “trumpismo” à ciência e às universidades que vão “prejudicar o progresso e os indivíduos”, porque se instalou um sentimento de medo entre os estudantes nos Estados Unidos.

Muitos dos estudantes temem atualmente ser deportados por expressarem opiniões críticas e evitam regressar aos seus países durante as férias por medo de não poderem voltar a entrar nos Estados Unidos.

“Quem viveu o autoritarismo, como Espanha, sabe o que isso significa. Os Estados Unidos nunca viveram uma ditadura, e agora estamos a ver o que acontece se o sistema falhar”, disse, reiterando que as universidades devem continuar a defender os valores democráticos face a tais pressões.

Stiglitz aproveitou o seu discurso para destacar o papel internacional do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a quem elogiou pela sua liderança no evento “Democracia para Sempre”, realizado recentemente em Nova Iorque com outros países.

Oriundo de uma família judia, o Prémio Nobel da Economia abordou ainda a situação em Gaza, que descreveu como “um genocídio, tanto a nível humano como académico”.

Criticou as tentativas de silenciar o debate nas universidades e nos fóruns públicos, recordando as palavras de Pedro Sánchez na Universidade de Columbia, onde o primeiro-ministro espanhol afirmou que criticar Israel não é antissemitismo.

domingo, 18 de junho de 2023

Joseph Stiglitz - A nossa dívida com as gerações futuras

O peso do clima na juventude (fonte: Project Syndicate)

Os conservadores costumam fazer um grande show de preocupação com o peso da dívida que estamos passando para nossos filhos. Esse argumento moral apareceu com destaque na recusa dos republicanos  em apoiar um aumento rotineiro do teto da dívida dos EUA. O Partido Republicano supostamente está tão comprometido em reduzir os gastos que está disposto a manter a economia global como refém e arriscar danos permanentes à reputação dos Estados Unidos.

Ninguém argumenta que não devemos pensar nas gerações futuras. A verdadeira questão é quais políticas e compromissos fiscais atuais servirão melhor aos interesses de nossos filhos e netos. Visto dessa perspectiva, fica claro que são os republicanos que estão exibindo um desrespeito imprudente pelas consequências de suas ações.

Qualquer pessoa com boa-fé económica sabe que é preciso sempre olhar para os dois lados do balanço. O que realmente importa é a diferença entre ativos e passivos. Se a dívida aumenta, mas os ativos aumentam ainda mais, o país fica melhor – e as gerações futuras também. Isso é verdade quer se invista em infraestrutura, educação, pesquisa ou tecnologia. Mas ainda mais importante é o capital natural: o valor do nosso meio ambiente, água, ar e solo. Se nosso ar e nossa água estão poluídos e nosso solo está contaminado, estamos passando um fardo maior para nossos filhos.

A dívida financeira é apenas algo que devemos uns aos outros. É uma questão de pedaços de papel que podem ser embaralhados para ajustar direitos a bens e serviços. Se deixarmos de pagar a nossa dívida, a nossa reputação ficará manchada, mas o nosso capital físico, humano e natural permanecerá inalterado. Os detentores de títulos ficarão mais pobres do que pensavam, e alguns contribuintes podem acabar mais ricos do que seriam se a dívida fosse paga, mas a nossa “riqueza” geral não terá mudado.

A “dívida ambiental” é diferente. É um fardo que não pode ser eliminado com a pena de um juiz de falências. Os danos causados hoje podem levar décadas para serem reparados e exigir o gasto de dinheiro que poderia ter sido usado para enriquecer o país. Da mesma forma, gastos sábios para proteger e reabilitar o meio ambiente – como investimentos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa – deixarão as gerações futuras em melhor situação, mesmo se financiados por dívidas.

Suponha que pudéssemos estimar os benefícios diretos de tais investimentos – por exemplo, o aumento da produção (ou a redução dos custos de reparação de danos causados por incêndios florestais, furacões e outros eventos climáticos extremos) e o valor da melhoria da saúde e da longevidade decorrentes da redução da poluição do ar – em termos monetários. Que taxa de retorno devemos exigir? O governo dos EUA está atualmente tentando responder a essa pergunta, e tudo o que surgir terá consequências de longo alcance. Se exigimos uma alta taxa de retorno (como fez o governo Trump quando estabeleceu o padrão até 7% ao ano), haverá pouco investimento na mitigação da mudança climática, e as gerações futuras vão assar num mundo onde as temperaturas aumentaram 3° Celsius ou mais.

Dadas as consequências inevitáveis da inação, os investimentos em mitigação climática devem ser vistos como uma espécie de seguro. Os retornos são maiores quando os efeitos da mudança climática são mais adversos e quando o valor do dinheiro é particularmente alto. Os retornos exigidos em “investimentos em seguros” devem ser menores do que a taxa de juros real segura (ajustada pela inflação). Essa taxa tem sido negativa nos últimos anos; mas mesmo numa perspectiva de prazo muito mais longo, tem girado em torno de 1%, mais ou menos 0,5%. A “taxa de desconto” apropriada, portanto, deve ser nitidamente inferior a 7%, inferior até mesmo à taxa de 2,5-5% usada pelo governo Obama e possivelmente até negativa.

Para considerar o assunto de outro ângulo, podemos perguntar qual taxa de desconto é necessária para atingir a meta acordada internacionalmente de limitar o aquecimento global a 1,5-2°C. Permitir que as temperaturas subam permanentemente além desse limite representa riscos inaceitáveis. Os incêndios, furacões, inundações, secas, geadas e outros desastres que temos sofrido são apenas uma amostra do que este futuro nos reserva. Cálculos com descontos altos – mesmo os descontos usados pelo governo Obama – não nos permitirão atingir a meta de 1,5°.

Também poderíamos ver o assunto do ponto de vista das “gerações futuras”. Que valor damos aos nossos filhos? Quais são os seus direitos? Se os valorizamos tanto quanto valorizamos a nós mesmos (e não há razão ética para não fazê-lo), devemos considerar como os danos causados ao meio ambiente hoje afetarão seu bem-estar. Como obviamente estamos vivendo além dos limites planetários, temos uma obrigação moral urgente de reduzir todas as formas de poluição.

Em todo o mundo, crianças e jovens exigem que os líderes de hoje adotem as políticas necessárias para preservar o seu futuro. Eles estão reivindicando isso como um direito básico e, em algumas jurisdições - incluindo os Estados Unidos, onde um juiz federal em Oregon decidiu recentemente que uma ação constitucional climática movida por 21 jovens americanos pode prosseguir e uma ação semelhante já está em andamento contra o Estado de Montana – as crianças vão a tribunal para lutar pelos seus interesses. Os mais velhos não deveriam estar a fazer o mesmo?

sábado, 17 de junho de 2023

Os economistas que desafiam os velhos dogmas

O Pudim [The Doughnut]. Gráfico de Kate Raworth e Christian Guthier

Temos nos apegado aos experimentos mais curiosos e muitas vezes ridículos em análise econômica, alguns até consagrados com o Prémio Nobel do Banco da Suécia (não um prémio Nobel oficial) como é o caso de Milton Friedmann, com pessoas ofegantes com a profundidade de sua simplicidade: “O negócio do negócio é o negócio”. Como se isso significasse algo além de comportamento corporativo gratuito. Os modelos matemáticos deram uma aparência de ciência séria ao que se tornou, nas palavras de Michael Hudson,“economia lixo”. Parece que a economia está atualmente recolocando os pés no chão. E, olhando para trás, é impressionante o quanto estivemos (e ainda estamos) atrelados a simplificações absurdas. Basicamente, se cada um de nós se concentrar em se apropriar do máximo que puder, o resultado será mais prosperidade para geral. Quão racional é o slogan A ganância é boa?

A humanidade está pronta para acreditar em quase tudo, e transformar suas crenças em dogmas, se sentir que tem companheiros ao seu lado. A bestialidade coletiva surge com tanta força e muitas vezes encontra cientistas de prontidão para apoiá-la com argumentos. Esses argumentos são racionais, mas construídos sobre pressupostos absurdos, como a invenção do homo economicus, o indivíduo racional que maximiza o lucro. Dar asas às tensões internas e poder cobri-las com argumentos gera uma impressionante sensação de libertação. Jonathan Haidt chamou isso de “mente correta”, que justifica qualquer coisa. Se hoje reagimos aos absurdos da Ku-Klux-Klan, ou ao lema nazi Deutschland Über Alles (com Gott Mit Uns, é claro), tantos compraram a “teoria do dominó” que justificou a invasão do Vietnã, ou a narrativa das “armas de destruição em massa” para justificar a invasão do Iraque, ou as ditaduras militares na América Latina supostamente para nos salvar do comunismo. É difícil abrir a mente de alguém, se seu conforto emocional depende de mantê-la fechada. E os interesses econômicos podem ser facilmente envolvidos em argumentos científicos, se possível complexos o suficiente para evitar que as pessoas olhem mais de perto. Na verdade, a teoria econômica tornou-se principalmente uma justificativa de interesses privados, disfarçada de ciência. J.K. Galbraith chamou isso de “economia da fraude inocente”.

“Devido às pressões e modas pecuniárias e políticas da época, a economia e os sistemas económicos e políticos mais amplos cultivam sua própria versão da verdade. Isso não tem relação necessária com a realidade” (Galbraith, p.x). Este “[não ter] relação necessária com a realidade” faz parte da leve abordagem irónica de Galbraith. Às vezes ele é mais direto: “Os executivos da espetacularmente falida Enron foram um exemplo proeminente, assim como os da respeitável General Electric. Recompensas generosas para a administração se estendem por toda a empresa corporativa moderna. O autoenriquecimento legal de milhões de dólares é uma característica comum do governo corporativo moderno. Não surpreende: os gerentes estabelecem sua própria remuneração” (p. 27). Bem, é o mercado! “A crença em uma economia de mercado na qual o consumidor é soberano é uma de nossas formas mais difundidas de fraude. Que ninguém tente vender sem o controle da gestão do consumidor” (p. 14). Nosso progresso econômico deve ser resumido no valor do PIB: “Mas do tamanho, composição e eminência do PIB se origina também uma de nossas socialmente mais difundidas formas de fraude… A fraude mais básica consiste em medir o progresso social quase exclusivamente pelo volume de produção influenciada pelo produtor, o aumento do PIB… Não a educação ou a literatura ou as artes, mas a produção de automóveis, incluindo SUVs: Aqui está a medida moderna de realização econômica e, portanto, social” (p. 15).

Numa abordagem crítica similar, de acordo com Kate Raworth, as economias devem “nos fazer prosperar, cresçam ou não”. Nesta simples imagem, temos o pudim – o lugar seguro onde devemos estar –, o meio – as carências – e a parte de fora do círculo – os excessos que devemos reduzir. Colocar resultados em vez de velocidade na forma como medimos o progresso é uma mudança profunda naquilo para que vemos a economia ser útil. A economista apresenta mais visualizações em seu Doughnut Economics: seven ways to think like a 21st century economist [Economia do Pudim: sete maneiras de pensar como um economista do século 21]. Mas conduzir a economia para aquilo que precisamos, e não o contrário, é uma mudança profunda.

Robert Skidelsky, com What’s Wrong with Economics [O que há de errado com a economia], é outro estudioso que aponta para novas tendências. Ele sugere um “repensar radical da metodologia”, em que “os tópicos centrais seriam o papel do Estado, a distribuição de poder e o efeito de ambos na distribuição de riqueza e renda… Além disso, o meu livro deixaria claro que o único propósito defensável da economia é tirar a humanidade da pobreza” (p. 193). E se a economia for útil hoje, “ela precisará modificar a sua crença no mercado autorregulado”. As fortunas financeiras estão a crescer, mas “os historiadores do futuro, olhando para trás, podem muito bem identificar a globalização liderada pelas finanças como a causa raiz das tribulações do século XXI”. Não se trata apenas de crescimento, mas o que produzimos, para quem, com quais impactos ambientais. E recoloca a economia no seu lugar, apenas como parte das ciências sociais, numa abordagem sistémica: “É pelo fato de que a economia não é uma ciência que ela precisa de outros campos de estudo – quais sejam, psicologia, sociologia, política, ética, história – para suprir as lacunas em seu método de compreensão da realidade… A tarefa é nada menos do que recuperar a economia para as humanidades” (p. 78).

Thomas Piketty teve um papel importante nessa redefinição do pensamento económico. Analisando O Capital no Século 21, ele mostrou uma mudança fundamental nas economias atuais: a produção de bens e serviços cresce em torno de 2,5% ao ano, enquanto as aplicações financeiras rendem entre 7% e 9%, o que significa simplesmente que o sistema financeiro está drenando as atividades produtivas. A financeirização tornou-se não apenas evidente, mas os economistas de todo o mundo voltaram sua atenção para um conjunto de transformações dela decorrente. Em seus estudos mais recentes, Piketty mostrou como isso mudou a relação entre poder econômico (e particularmente financeiro) e poder político. Com contribuições do WID (World Inequality Database) e de economistas como Gabriel Zucman, hoje podemos ter uma compreensão muito mais clara não apenas do aumento dramático da desigualdade, mas de como o dinheiro virtual (97% da liquidez hoje em dia são apenas sinais magnéticos, não dinheiro impresso pelo governo) permite uma gigantesca drenagem de riqueza.

Não se trata de “mercados”, mesmo que o chamemos assim. Trata-se de um poder radicalmente concentrado. Larry Fink, chefe da BlackRock, uma corporação de gestão de ativos, administra US$ 10 triliões; o orçamento federal dos Estados Unidos da América é de US$ 6 triliões. O rabo está abanando o cachorro. Compreender o dreno financeiro improdutivo da economia está levando a um amplo conjunto de estudos sobre sistemas de distribuição, tributação, financiamento de serviços públicos como saúde, educação, políticas ambientais. Em particular, ficou evidente a lacuna de governança entre os fluxos financeiros, um processo de escala global, e a regulação financeira, fragmentada entre tantos países. A evasão fiscal é escancarada, e em lugares próximos como, por exemplo, Delaware. O que ficou evidente é que atualmente não temos regulação de mercado (os gigantes corporativos mundiais gostam do nome, “mercados”, e afetam agir como se estivessem obedecendo a “eles”) nem regulação governamental (qualquer esforço de regulação em nível nacional leva a corporação a mudar seu local de residência fiscal).

O resultado geral é que estamos diante da convergência de uma catástrofe ambiental, de desigualdades explosivas (tanto a nível nacional como internacional) e de uma gestão caótica e oportunista dos recursos financeiros, que deveriam justamente estar nos ajudando a financiar os desafios ecológicos e sociais. Precisamos de uma sociedade que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justa e ambientalmente sustentável. Esse triplo resultado final está se tornando óbvio em círculos amplos e foi detalhado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas podemos organizar a economia de acordo com metas? A mudança básica deve ser a concentração em como devemos migrar da maximização do lucro em escala corporativa mundial gratuita para uma economia que seja social e ambientalmente útil, ou no mínimo menos destrutiva. Praticamente todas as corporações afirmam aderir aos ESGs [ambiente, sociedade e governança], o que significa que estão conscientes dos desafios, mas deixam isso restrito aos seus departamentos de relações públicas e comunicações. Não é falta de entendimento, mas falha no processo de tomada de decisões corporativas. Governança é a questão central.

Mariana Mazzucato tem sido particularmente bem-sucedida na divulgação dessa nova visão da economia do mundo real, tanto em seu livro The Entrepreneurial State [O Estado Empreendedor] como em Mission Economy [Economia por Missões]. Em vez da maximização imprudente dos lucros corporativos junto com a tímida regulamentação pública, deveríamos nos concentrar nas principais questões que a humanidade enfrenta, particularmente nos dramas sociais e ambientais. Esses são os desafios, e políticas públicas, iniciativas empresariais e organizações da sociedade civil devem se unir para enfrentá-los em conjunto. O exemplo que ela usa é a missão da corrida à lua, que organizou contribuições de diferentes setores, gerando sinergia em vez de competição. Mazzucato mostra, assim, não apenas o papel fundamental do setor público na provisão de bens e serviços (o Estado como empreendedor), mas também seu papel em promover a convergência de esforços em torno de prioridades nacionais e internacionais.

J is for Junk Economics [L de Economia Lixo] de Michael Hudson apresenta, numa linguagem fácil, uma descrição bem-humorada do que ele chamou de “os 22 mitos económicos mais difundidos de nosso tempo”, como o de que os ciclos econômicos são regulados pelos estabilizadores automáticos da economia, que a privatização é mais eficiente do que a propriedade e gestão públicas, que não existe renda não auferida, que a desregulamentação do setor financeiro irá liberá-lo da burocracia e permitir que ele repasse a economia de custos para seus clientes, entre outros mitos muito presentes. “O antídoto para essa economia lixo deve explicar por que as economias tendem a se tornar mais instáveis ​​e mais polarizadas como resultado de suas próprias dinâmicas internas (“endógenas”) – acima de tudo, dinâmicas de crédito e dívida, e a desoneração da renda econômica não auferida” (p. 267). Para cada mito, Hudson apresenta “realidade”.

Uma análise particularmente bem estruturada da mudança global na análise económica é apresentada por Brett Christophers, em Rentier Capitalism (Capitalismo rentista, 2020), bem como em Our lives in their portfolios: why asset managers own the world (Nossas vidas nos portfólios deles: por que os gestores de ativos são donos do mundo, 2023). O argumento básico consiste no fato de que ganhar dinheiro (Big Money) resulta essencialmente de escoamentos financeiros, não de produção. Gestão de crédito e ativos financeiros, apropriação de reservas naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de serviços, taxas de licenciamento de infraestrutura, aluguel do solo – todas essas atividades têm a comum característica de obter dinheiro com produtos e capitais existentes, não com produção. Eles não estão a aumentar a nossa capacidade de produção, mais estão drenando.

Quer se trate de fraude absoluta na análise económica, como colocado por Galbraith, ou a mudança na forma como medimos os resultados que expõe o absurdo que é a contabilidade centrada no PIB, quer seja a análise de Skidelsky sobre como a economia perdeu sua ligação com aquilo para o que precisamos dela, a poderosa análise de Piketty sobre o significado do próprio capital, a abordagem de Mazzucato sobre o resgate da capacidade do Estado em definir missões e organizar a convergência racional de esforços, ou ainda a demonstração de Hudson de como a economia (a chamada economia ortodoxa) perdeu contato com a realidade, ou finalmente a síntese de Christophers sobre como o capitalismo produtivo migrou para o capitalismo de extração de renda financeira – a imagem geral que construo em minha mente é a de uma mudança global em como os economistas estão abordando nossas novas realidades. E eles são novos.

Gosto da abordagem direta de Robert Reich, em The System [O sistema]: “Não pode haver responsabilidade sem leis que obriguem as corporações a sacrificar alguns ganhos dos acionistas em benefício dos trabalhadores, das comunidades e da sociedade. E entenderão que as próprias leis não têm sentido se as grandes corporações continuarem a violá-las sempre que as multas resultantes forem inferiores aos benefícios derivados de sua ilegalidade. Eles verão que o atual sistema americano não é uma meritocracia onde a capacidade e o trabalho árduo são recompensados, mas uma impostura cruel dominada pela riqueza e pelo privilégio” (p. 189).

Tantos outros autores poderiam ser mencionados aqui, desde Joseph Stiglitz em New Rules for the 21st Century [Novas regras para o século 21], até Michael Sandel de The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? [A tirania do mérito: o que é feito do bem comum?], mas a questão-chave é que os contos de fadas, movidos a altos juros, a respeito dos mercados, do gotejamento para baixo ou que a busca por ganhos individuais trará naturalmente a prosperidade social estão todos sendo deixados para trás, enquanto uma nova economia do mundo real está nos dando novas ferramentas para enfrentar nossos desafios: a catástrofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Riscos globais, crises ambientais e reformas do desenvolvimento


De acordo com o Relatório de Riscos Globais 2023, do Fórum Econômico Mundial, “os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e econômicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais”. 
De um lado do planeta, em pleno inverno, em Davos reuniu-se a elite empresarial e política no Fórum Econômico Mundial (FEM). Simultaneamente, do outro lado do globo, no verão, vários países do extremo sul da América Latina sofrem uma estiagem muito severa. Esses distúrbios climáticos, assim como outros problemas, não deveriam ter chamado a atenção de quem estava em Davos se tivesse lido o Relatório de Riscos Globais 2023 que ali foi apresentado?

Segundo este relatório, os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e económicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais.

No Relatório de Riscos Globais 2023, ao abordar o futuro imediato, referente aos anos de 2023 e 2024, entre os dez riscos mais graves, metade é ambiental (1). Em primeiro lugar está o custo de vida, mas é seguido por desastres naturais e eventos climáticos extremos. Outros riscos ambientais referem-se à mudança climática, aos incidentes provocados por danos ambientais e à crise de recursos naturais. Outros tipos de riscos se intercalam além do custo de vida, como a erosão da coesão social e a polarização social e a migração em massa.

É chamativo observar que nenhum dos riscos mais prementes é econômico, apesar das repetidas previsões de estagnação ou recessão neste e nos próximos anos. Tampouco aparece indicada uma propagação da guerra na Europa ou em outras regiões. Mas a economia e a guerra estão por trás de vários efeitos associados ao meio ambiente. As estiagens, como as tornadas mais frequentes pelas mudanças climáticas, resultam em safras menores, levando ao aumento dos preços dos alimentos, o que impacta no custo de vida. Também contribuíram para isso as alterações no comércio internacional de grãos e fertilizantes em decorrência da guerra na Ucrânia.

Sempre se deve ter presente a forma como o Fórum Económico Mundial (FEM) avalia os riscos em escala planetária. Baseia-se em entrevistas com mais de 1.200 pessoas, e quase uma centena de especialistas e académicos, com especial atenção para os executivos de empresas, ministros de finanças, políticos ou analistas, muitos deles associados ao poder. O relatório atual é o 18º numa série que tem muitos anos, e seus alertas ambientais não são novidade, uma vez que em relatórios anteriores fazem alertas semelhantes. Na edição de 2022, entre os dez maiores riscos, cinco eram ambientais; os três primeiros falharam em evitar as mudanças climáticas, clima extremo e perda de biodiversidade. O relatório atual aumenta a preocupação com as condições ecológicas no futuro imediato.

Os riscos nos próximos dez anos
Considerando os próximos dez anos, a lista dos riscos mais graves também é dominada pelas questões ambientais; passam a ser seis, e quatro deles estão localizados sucessivamente nas primeiras posições. O quinto e o sétimo riscos são sociais, um é tecnológico e outro é geopolítico. Mais uma vez, nem os conflitos econômicos nem os bélicos aparecem. Vários dos riscos apontados para 2023-24 se repetem, como é o caso de todos os riscos ambientais, enquanto a avaliação decenal indica um agravamento.

De fato, mais da metade dos consultados entende que a situação vai piorar. 20% alertam que em dez anos serão ultrapassados pontos de inflexão que levarão a consequências catastróficas. Em seu sentido ecológico e social, deveriam ser entendidas como situações irreversíveis. 34% acreditam que a volatilidade prevalecerá nas economias e setores, o que levará a choques múltiplos. Em resumo, 54% consideram que vamos lidar com condições muito piores. Por outro lado, nas restantes respostas considera-se que esta volatilidade pode ser controlada (26%) ou limitada (11%).

A situação latino-americana
Deixando de lado, neste caso, uma revisão crítica dos sentidos que o FEM de Davos dá à ideia de “risco”, já que para os fins desta análise basta seguir com os entendimentos mais usuais, fica evidente que na América Latina todos eles estão presentes. Riscos severos como o aumento do custo de vida, e especialmente o risco associado à inflação e aos preços dos alimentos, afetam praticamente todos os países (2). Estão acontecendo diversas crises ambientais; a mais recente é a estiagem no Cone Sul (Argentina, Uruguai e sul do Brasil). O fracasso das medidas de mitigação das alterações climáticas é evidente e o mesmo acontece com os programas e apoios de adaptação às suas consequências.

O que o FEM chama de erosão da coesão social e polarização social está diante dos nossos olhos em casos como o do Peru, onde há grandes mobilizações cidadãs e dura repressão policial, ou na tentativa de golpe de Estado dos bolsonaristas no Brasil. O desempenho econômico será muito modesto, as condições comerciais serão restritivas, e isso faz com que os níveis de pobreza aumentem ou persistam, alimentando as instabilidades políticas.

Conexões e pontos de inflexão
Os riscos ambientais estão conectados, como é o caso da estreita associação entre mudanças climáticas, perda de biodiversidade e crises de recursos naturais, e a partir daí vários setores são afetados. Se tomarmos a agricultura como exemplo, circunstâncias como as inundações ou as estiagens afetam a produção de alimentos. Isso é transmitido às cadeias de comercialização agrícola, levando a limitações na oferta de alimentos ou ao aumento de seu custo. Muitos países do Sul Global não têm dinheiro para amortecer esses impactos, como financiar a irrigação, comprar fertilizantes mais caros ou subsidiar os alimentos. A alto do custo de vida torna-se inevitável, o que aumenta o descontentamento dos cidadãos, multiplica os protestos e afeta a coesão social.

Este exemplo esquemático mostra que os distúrbios ecológicos transmitem seus efeitos para diferentes áreas. Eles não podem ser analisados separadamente um do outro. Produzem-se crises interligadas que se retroalimentam.

Reformas no desenvolvimento diante das crises ambientais
Considerando os alertas deste relatório, como em anos anteriores, fica claro que ações urgentes são necessárias para, por exemplo, prevenir as mudanças climáticas ou resolver os desequilíbrios econômicos. Aparecem justificativas adicionais para reformar o desenvolvimento capitalista, e isso é precisamente o que foi levantado pelo FEM. Em 2020, seu presidente, Klaus Schwab, apresentou sua alternativa ao “Grande Reinício” (ou Great Reset), com medidas como os impostos para os mais ricos, o fomento da economia participativa ou o abandono dos combustíveis fósseis (3). Schwab faz uma diferença entre três capitalismos: um corporativo, outro estatal (como na China), e sua alternativa, o capitalismo das partes interessadas.

Isso faz parte dos confrontos que ocorrem entre essas elites empresariais e políticas. De um lado estão aqueles que entendem que o desenvolvimento capitalista predominante tornou-se insustentável, que causaria uma crise em escala planetária e, portanto, são necessárias reformas como as que acabamos de mencionar. Os que discordam destas políticas rejeitam qualquer correção de rota do capitalismo, insistindo em blindar estratégias convencionais (4).

O que muitas vezes é interpretado a partir da América Latina como um bloco homogêneo que defende o desenvolvimento, na verdade abriga diferentes estratégias que estão em forte discussão. No debate mais recente, as palavras e os conceitos usados são reveladores. Agora usa-se explicitamente a palavra capitalismo, e seus autores reconhecem que a situação é grave e propõem algumas reformas. Entre elas estão as mencionadas acima e outras que implicam intervenções nos mercados, retomando a presença do Estado em setores como educação e saúde, e uma mudança na gestão ambiental, a começar pelo cumprimento dos acordos sobre mudanças climáticas.

Entre esses reformadores, além do FEM, estão vários bilionários e empresas de setores como comércio e serviços. Muitos deles participam não por serem ambientalistas, mas por entenderem que cada grau de aumento da temperatura global coloca seus negócios em risco. Há também economistas que hoje são mais conhecidos na América Latina por apoiar alguns progressismos. São os casos de Joseph Stiglitz (em relação ao governo de Alberto Fernández na Argentina) ou, mais recentemente, Mariana Mazzucato (que é invocada pelo presidente colombiano Gustavo Petro).

O outro grupo rejeita as propostas de mudança. Querem preservar os mercados liberalizados sem a intervenção do Estado, renunciam aos impostos, negam ou minimizam as mudanças climáticas, ainda se apegam aos combustíveis fósseis e gostariam de manter serviços públicos como educação e saúde privatizados. Agendas moderadamente reformistas, como a de Schwab, são classificadas como típicas de um "comunismo". Nessas trincheiras estão economistas e políticos conservadores ou neoliberais e corporações de setores como mineração, petróleo ou agronegócio, todos com forte presença na América Latina.

O debate e o não debate latino-americano
Este tipo de discussão, as diferentes formas de diagnosticar os problemas e as alternativas propostas não são comuns na América Latina. Na nossa região, a agenda política dominante, e também boa parte da acadêmica, é tão conservadora que predomina o continuísmo do desenvolvimento capitalista convencional enquanto os reformistas são minoria. Pequenos ajustes, como a reforma tributária proposta na Colômbia, que se poderia dizer mais modesta do que as traçadas pelos reformistas em Davos, era, aos olhos dos setores conservadores colombianos, de uma radicalidade de extrema esquerda. Entre as elites empresariais e políticas latino-americanas há poucos reformistas, e na maioria não sabem ou não entendem o que propõem no Norte alguns dos que são mais ricos e têm mais poder do que eles.

Essa desconexão é perfeitamente ilustrada pelos resultados da consulta realizada no Brasil pelo FEM para a elaboração do relatório de riscos globais. Sob o olhar dos políticos e analistas brasileiros consultados, nos cinco primeiros lugares predominam os riscos econômicos (inflação, economia ilícita e choques de preços de matérias-primas), e nenhum é ambiental. É como se essa elite local brasileira vivesse em um planeta diferente do que se avalia de outros continentes.

Até agora, o único que parece estar ciente desse problema é o presidente colombiano Gustavo Petro. Em seu discurso em Davos, atacou o capitalismo como incapaz de resolver os problemas que produziu, e advertiu que "o capitalismo acabará com a humanidade". Acrescentou que os “empresários de Davos deveriam pensar em outro capitalismo”, e a partir daí levantou sua alternativa de um “capitalismo descarbonizado” (5). Assim, Petro foi imediatamente colocado entre os reformadores do desenvolvimento capitalista. Petro não é contra o capitalismo, e já disse isso várias vezes, mas quer retificá-lo. Em sua reivindicação em Davos, parece que ele ignorou ou se esquivou do fato de que seu “capitalismo descarbonizado” não é muito diferente do capitalismo dos stakeholders do Grande Reinício discutido nesse fórum.

Mas, ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que Petro é o único presidente que pelo menos tenta uma reforma do capitalismo que enfrente seus problemas mais agudos e, por exemplo, nos afaste do vício em combustíveis fósseis. Inclusive aqueles chefes de Estado ideologicamente mais próximos, como Manuel López Obrador (México) e Lula da Silva (Brasil), rejeitaram as propostas de Petro de despetrolizar suas economias.

Seja como for, não se pode perder de vista que os reformadores, seja o Grande Reinício, Stiglitz, Petro ou outros, em nenhum caso se propõem a abandonar o capitalismo, nem rompem com concepções básicas. Todos querem crescer economicamente e veem que a exploração da Natureza é uma forma incontornável de conseguir esse objetivo. O que eles postulam são regulações diferentes do mercado e o fortalecimento do Estado, invocando objetivos como melhorar a equidade, reduzir a pobreza ou evitar eclosões sociais. Suas medidas amenizam as arestas mais negativas, e que por sinal seriam bem-vindas em muitos países. Mas mesmo esse reformismo é insuficiente para enfrentar as emergências ambientais.

A própria análise de risco do Fórum Econômico de Davos fornece evidências que mostram que os ajustes do capitalismo não nos salvarão de uma crise múltipla. Nem a crise da biodiversidade nem a crise das mudanças climáticas estão se dissipando. As soluções necessárias envolveriam transformações simultâneas em várias frentes, como abandonar as energias fósseis e se voltar para a agroecologia, mudar padrões de consumo e aceitar estilos de vida mais austeros. Essas e outras são mudanças radicais que nenhum tipo de capitalismo assumirá.
Nossa própria discussão

Analisar os riscos e discutir o desenvolvimento, seja ele capitalista ou de qualquer outra natureza, é um primeiro passo para desenhar alternativas às crises sociais e ambientais.

É inaceitável que os elencos partidários não o façam porque continuam a enfrentar as situações com as mentalidades do século passado, sem compreender as urgências do século XXI. Também não faz sentido retrucar que considerar a reforma ou o colapso do capitalismo expressa vocabulários e ideias ultrapassadas.

Essas são discussões que devemos começar em nossos próprios termos. Isso é necessário porque, como vimos acima, os riscos globais graves já são observados na América Latina e, ao mesmo tempo, somos tão subservientes aos contextos internacionais que um desastre externo nos arrastará imediatamente. Também não podemos esquecer que nossos países dependem da terra e da água, do subsolo e do clima, o que significa que nossas economias são ecologicamente condicionadas. Devemos fazer nossas próprias avaliações de risco e não podemos mais confiar naquelas que são feitas em Davos ou em outro lugar.

Estas reflexões devem ser incentivadas por políticos, empresários, sindicalistas, acadêmicos, ativistas sociais, entre outros, até envolverem a grande maioria dos cidadãos. Enfrentamos questões prementes: quais são os riscos que enfrentamos? Quais são as reformas necessárias? As correções do capitalismo são suficientes para enfrentar esses riscos? Outros já estão respondendo a perguntas como essas e não podemos ficar para trás.

Notas

1. WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2023. 18th edition. Insight report., Genebra, 2023.

2. Segundo a CEPAL, a inflação em 2022 atingiu um pico de 8,4% no meio do ano, para depois diminuir; espera-se que caia para 4,8% em 2023. CEPAL. Balance preliminar de las economías de América Latina y el Caribe 2022, Santiago, 2022.

3. SCHWAB, K.; MALLERET, T. Covid-19: The great reset. World Economic Forum, Genebra, 2020.

4. As várias alternativas focadas no desenvolvimento são discutidas em GUDYNAS, E. Tan cerca y tan lejos de las alternativas al desarrollo. Planes, programas y pactos en tiempos de pandemia. RedGE y Cooperacción, Lima, 2020.

5. Veja, por exemplo, El mundo necessita un “capitalismo descarbonizado”: el mesaje de Petro em Davos. El Espectador, Bogotá, 19 de janeiro de 2023; TORRADO, S. El Petro mas ecologista se despide de su primer Davos. El País, Madri, 21 de janeiro de 2023.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Livro: "O Preço da Desigualdade" de Joseph Stiglitz



Stiglitz argumenta que a desigualdade se auto-perpetua e que é gerada pela grande dimensão de poder político de que a riqueza dispõe para controlar a atividade legislativa e regulatória. Ele não acredita que a globalização e as mudanças tecnológicas estejam no cerne das diferenças de riqueza nos EUA. "Ainda que possa haver forças económicas subjacentes em ação," escreve ele, "a política moldou o mercado e fê-lo de tal forma que deu vantagem ao topo à custa de todos os outros."

Stiglitz culpa os que apenas procuram capturar o excedente económico (Rent-seekings) de causar a desigualdade, usando os ricos o seu poder para gerar monopólios, receber tratamento favorável por parte do estado e pagar impostos reduzidos. O resultado final não só é moralmente errado, como também prejudica a produtividade da economia.

Stiglitz critica muitos comentadores conservadores que pensam que a solução está na liberdade dos mercados ao salientar que reduzir os impostos sobre o património e desregular as contribuições para campanhas eleitorais é agir no sentido de restringir a concorrência e dar aos grupos empresariais um poder indevido na política. Ainda que defenda a ideia que um mercado livre é bom para a sociedade se for concorrencial, ele afirma que é preciso que o governo o regule para ser benéfico. Se isso não acontecer, os poderosos grupos empresariais irão influir para lucrar à custa da maioria. De acordo com Stiglitz, concentrar o poder de mercado em poucas mãos é tão mau como o excesso de regulação.

No New York Times, o professor de jornalismo Thomas B. Edsall classificou o livro como "o mais abrangente rebate tanto do neoliberalismo dos Democratas como das teorias de laissez-faire dos Republicanos". Edsall acrescentou que "pode vir a provar-se que Stiglitz estava certo quando avisou sobre uma sociedade regida por 'regras de jogo que enfraquecem a força negocial do trabalhadores face ao capital'."

Uma resenha no Economist foi geralmente positiva, salientando que "Stiglitz é (principalmente) hábil a elaborar o seu argumento." No entanto, escreveu o crítico, "a argumentação do senhor Stiglitz beneficiaria com um melhor sentido de história e geografia," e criticou a sua referência para a baixa da desigualdade nas décadas de 1950 a 1980 como uma protuberância na ampla planície da história americana. "Tenha ou não as respostas certas, o senhor Stiglitz tem toda a razão em focar a questão", concluiu o comentador.

Yvonne Roberts, no The Guardian, classificou o livro como "um argumento poderoso para a implementação do que Alexis de Tocqueville denominou de "interesse pessoal devidamente compreendido"."

A obra recebeu o Prémio de Livros de 2013 do Centro Robert F. Kennedy para a Justiça e Direitos Humanos.

Saber mais:
Joseph Eugene Stiglitz - biografia
Página Oficial: Joseph Stiglitz

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Livro de férias: Gary Gerstle- The Rise and Fall of the Neoliberal Order

Uma nova pobreza- a pobreza energética. Muitas questões e poucas respostas. Que regimes nacionais e mecanismos justos e empresariais para uma fonte de energia descarbonizada, menos impactante em termos ecológicos, geradora de empregos e segurança dos trabalhadores?
Quanto mais leio sobre as alterações climáticas mais me parece que o que quer que aconteça não será uma transição mas uma ruptura, e que isso implica o fim da ordem neoliberal. Não o escrevo com leveza, porque sei que as rupturas causam um sofrimento avassalador.



Book review by Finantial Times

It’s rare that one can use the term “instant classic” in a book review, but Gary Gerstle’s latest economic history, The Rise and Fall of the Neoliberal Order, warrants the praise. It puts neoliberalism, defined as a “creed that prizes free trade and the free movement of capital, goods and people,” as well as deregulation and cosmopolitanism, in a 100-year historical context, which is crucial for understanding the politics of the moment, not just in the US but globally. 
The book also knits together a century of very complicated economic, political, and social trends, which are often siloed but are in fact quite interrelated, creating a new and important narrative about where America has been, and where it may be going. One of the most useful things Gerstle does for readers is to blow up the usual definitions of conservative and liberal, at least in terms of how US economic history is framed. Former Republican presidents Ronald Reagan and both Bushes were “conservative”, while their Democrat peers Bill Clinton and Barack Obama were “liberals”. And yet all of them could be described as neoliberals, in the sense that many of their economic policies were at core about unleashing (or at least not restraining) capitalism, with the underlying belief that markets would, indeed, know best. 
Capital, as always, moved faster than goods or people.  While decades of unchecked markets ultimately contributed to everything from the financial crisis, to the rise of both Donald Trump and Bernie Sanders (reflecting again the way in which neoliberalism and its discontents have blurred political categories), they were in the beginning a necessary and in many ways useful reaction to what came before. You can’t really understand the Reagan revolution, with its dismantling of unions, deregulation, and tax-slashing, without understanding FDR’s “New Deal,” and how it so dramatically expanded the power of the public sector. And so, the first section of the book tackles the 1930s to the 1970s, in which the pendulum of economic power swung towards state planning, welfare, the curbing of corporate monopolies, and stability over speculation. 
The fact that a book on neoliberalism starts with Herbert Hoover, the president whose failure paved the way for Roosevelt’s success, rather than Friedrich Hayek, will throw some readers (like me). Other important works on the topic, such as Quinn Slobodian’s Globalists (2018), which Gerstle quite rightly name checks, begin with the European roots of neoliberalism in post-first world war Vienna, where economists such as Hayek and Ludwig von Mises struggled to find a way to knit a war-torn continent back together. 
What they came up with as a philosophy was neoliberalism, the idea being that if capital, goods, and people could more freely move across borders, conflict would be less likely. Their ideas informed the creation of institutions such as the International Monetary Fund and the World Bank, which have since stopped working as well as they once did, in part because the world was never quite as flat as New York Times columnist Tom Friedman would have had us believe. 
Capital, as always, moved faster than goods or people. Gerstle does a particularly wonderful job of connecting the political and economic dots in that post 2000s era in the US, a complicated and fascinating time in which the sort of “techno-utopianism” exemplified by Friedman’s book The World Is Flat (2005) collided with two ill-advised wars in Afghanistan and Iraq, as well as a Democratic party in thrall to both Wall Street and Silicon Valley, the election of the first black president, an economic crash, and a political narrative — we must save banks but not homeowners — that never quite added up to average voters. While it’s impossible to include every scintillating detail of the time in 300 pages (I craved even more on the existential splits between the neoliberal economic policy camp exemplified by Alan Greenspan, Bob Rubin and Larry Summers, and others like former Clinton and Obama administration advisers including Robert Reich and Joe Stiglitz, who worried about where it was all leading), Gerstle gets the broad brush strokes right. Low interest rates, financialisation, and Bush’s “ownership society” collided with increasing California wealth, identity politics, and creative accounting of stock options to brew up our very own version of 1929, which was quickly followed by the ugly race and class-dividing politics we have now. 
Gerstle has a real genius for capturing political irony — how 1960s hippies turned into Bay Area libertarians, how increased access to credit hurt minorities most, how Democrat Jimmy Carter was a deregulator, how individual “freedom” to pursue prosperity might morph into terrible inequality and insecurity. But one such point he seems to have missed is the way in which Reagan, whom he sees as the “ideological architect” of the past half century of neoliberalism, supported industrial policy, something Gerstle either misses or doesn’t explore, and used state power in the form of things such as voluntary export agreements and anti-dumping duties to bolster American trade interests. Of course, protectionism and neoliberalism can marry with particularly unfortunate results such as Trump, who slashed taxes even as he started a trade war with China. 
As Gerstle points out towards the end of the book, the former president may have been “pushing on an open door,” in the sense that globalisation as we’ve known it since the 1980s started shifting after 2008, when both “producers and consumers” in various countries began “to question the pursuit of a borderless world”. As The Rise and Fall of the Neoliberal Order shows us, some of this reckoning is racist and xenophobic. Some of it is a necessary swinging of the economic pendulum back to a happy medium. As we wait to see where it lands, Gerstle’s history of where we’ve been is essential reading for a post-neoliberal era.

Site oficial: Gary Gerstle