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segunda-feira, 9 de março de 2026

Mais de metade das empresas quer aumentar participação no mercado voluntário de carbono até 2030


À medida que as regulamentações ambientais, sociais e de governação (ESG) enfrentam novos desafios políticos e económicos, um novo inquérito global da SE Advisory Services — o ramo de consultoria global da Schneider Electric, empresa de tecnologia energética — aponta para uma mudança no posicionamento das empresas: os líderes empresariais e os profissionais de sustentabilidade estão a confiar cada vez mais nos créditos de carbono como instrumentos credíveis de ação climática.

De acordo com o relatório Carbon Credit Outlook 2025, dois terços das empresas já utilizam normas certificadas pela International Carbon Reduction and Offset Alliance (ICROA), enquanto 55% aplicam os Princípios Fundamentais de Carbono (CCPs) do Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM) para avaliar a qualidade dos projetos. Estes dados indicam que as normas, os sistemas de verificação e as infraestruturas associadas aos créditos de carbono de elevada integridade estão cada vez mais consolidados.

O que anteriormente era visto como um mercado envolto em ceticismo tem vindo a amadurecer, tornando-se mais estruturado e orientado para resultados. Segundo o estudo, 40% dos inquiridos afirma que as suas organizações já participam em atividades relacionadas com créditos de carbono, utilizando-os para gerir o risco climático, reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento e criar valor a longo prazo.

A tendência deverá intensificar-se nos próximos anos. Mais de metade das empresas (55%) planeia aumentar a sua participação no mercado voluntário de carbono até 2030, enquanto apenas 12% afirma não integrar estes instrumentos na sua estratégia climática.

“Num contexto em que a descarbonização global exige investimentos sem precedentes — sendo que só os países em desenvolvimento necessitam de um bilião de dólares por ano até 2030 —, os créditos de carbono oferecem um mecanismo comprovado para as organizações apoiarem ações climáticas verificadas, ao mesmo tempo que constroem valor estratégico”, afirma Mathilde Mignot, diretora do grupo de Soluções Baseadas na Natureza e na Tecnologia da SE Advisory Services.

Segundo a responsável, a perceção empresarial está a mudar. “Quando quase um em cada cinco inquiridos está a desenvolver os seus próprios projetos, torna-se claro que o mercado está a ganhar dinamismo. Estas empresas reconhecem que controlar a sua própria estratégia de carbono lhes permite também controlar a sua narrativa climática”, acrescenta.

O estudo revela ainda que as empresas estão a diversificar os seus portefólios de créditos de carbono. Os créditos de remoção baseados na natureza — como projetos de florestação, reflorestação e restauração de ecossistemas — continuam a ser a prioridade para metade dos inquiridos (50%), sobretudo pelo impacto climático imediato e pelos benefícios associados à biodiversidade e às comunidades locais.

Em segundo lugar surgem os créditos de prevenção e redução de emissões, que incluem iniciativas de proteção florestal, energias renováveis e eficiência energética, priorizados por 34% das empresas. Já 16% dos inquiridos dá preferência a soluções tecnológicas ou híbridas de remoção de carbono, como a captura direta de carbono do ar (DAC), a bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) e o biocarvão, refletindo um reconhecimento crescente do papel destas tecnologias nas estratégias climáticas de longo prazo.

Apesar do crescente interesse, persistem obstáculos à expansão do mercado. Quase metade dos participantes no inquérito (46%) identifica a falta de orientações claras sobre a integração dos créditos de carbono nas atuais estruturas climáticas como o principal entrave, enquanto 40% aponta a incerteza nas políticas governamentais.

“Os líderes empresariais estão cada vez mais confiantes na infraestrutura de qualidade que já existe, mas precisam de orientações claras sobre como os créditos de carbono voluntários complementam os sistemas de conformidade”, afirma William Theisen, diretor comercial de Soluções Baseadas na Natureza e na Tecnologia da SE Advisory Services. “Criar caminhos transparentes entre a ação voluntária e a regulamentada ou apoiada pelo governo é o próximo passo para permitir uma ação corporativa credível e em larga escala.”

Atualmente, 37 jurisdições já integram sistemas de créditos ou de fixação de preços de carbono nas suas políticas nacionais. A SE Advisory Services prevê que estes instrumentos assumam um papel cada vez mais central nas estratégias de descarbonização de empresas e governos.

O relatório destaca ainda o surgimento, em 2025, de coligações governamentais destinadas a reforçar os mecanismos do mercado voluntário de carbono e a harmonizar padrões de qualidade. Para transformar a confiança empresarial em impacto real, a consultora defende uma maior coordenação entre governos, entidades reguladoras e investidores, criando estruturas claras que permitam mobilizar capital privado na escala necessária para alcançar os objetivos globais de neutralidade carbónica.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Principais Críticas ao Mercado Voluntário de Carbono


Avançou no Público, que o Mercado Voluntário de Carbono português passará a estar, finalmente, operacional a partir desta sexta-feira, com a publicação da primeira metodologia nacional entretanto aprovada pela Agência para o Clima (ApC).

Porém há muitas críticas
  1. Adicionalidade duvidosa

  2. Medição, Monitorização e Permanência

    • Medir de forma confiável a redução ou remoção de carbono (especialmente em projetos florestais) é complexo: é necessário estimar cenários futuros (“o que teria acontecido sem o projeto”), considerar vazamentos (emissões que migram para outros lugares) e riscos como incêndios, degradação ou reversão. 

    • A permanência também é um problema: por exemplo, florestas usadas para créditos podem ser cortadas ou queimar no futuro, liberando o carbono “sequestrado”. 

  3. Transparência e Governança Fraca

    • Falta de transparência nos preços: muitas revendedoras (“resellers”) não divulgam suas margens nem quanto do valor dos créditos vai para os projetos e comunidades locais.

    • Ausência de regulação forte: como é um mercado voluntário, não há um regulador central forte (ou padronização global), o que permite práticas divergentes entre diferentes certificadoras e projetos. 

    • Problemas de dupla contagem (“double counting”): em alguns casos, o mesmo crédito pode ser reivindicado por mais de uma parte, o que enfraquece a confiança no impacto real.

  4. Risco de “Greenwashing”

    • Empresas podem usar créditos para aparentar ação climática (“net zero”) sem fazer reduções reais — simplesmente comprando créditos para compensar emissões, em vez de reduzir suas próprias emissões. 

    • Há casos em que empresas fazem alegações vagas (“carbon neutral”, “Paris aligned”) que são difíceis de verificar e podem enganar consumidores. 

  5. Qualidade dos Créditos

    • Alguns créditos são de baixa qualidade ou inflacionados: por exemplo, projetos de fogões limpos (“cookstove”) foram recentemente criticados por superestimar seus benefícios climáticos por um fator muito alto. 

    • Segundo a Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM), uma parte significativa de metodologias (por exemplo, de energia renovável) não atende critérios recentes de integridade (“Core Carbon Principles”), especialmente no que toca à additionalidade. 

  6. Volatilidade de Mercado e Risco Financeiro

    • Os preços dos créditos podem ser altamente voláteis, o que dificulta o planeamento para compradores e desenvolvedores de projetos. 

    • A liquidez pode ser limitada, porque o mercado é fragmentado (muitos padrões, muitos tipos de crédito, muitos intermediários). 

  7. Impactos Sociais e Ambientais Não Intencionais

    • Alguns projetos podem ter consequências negativas para comunidades locais: por exemplo, projetos florestais podem deslocar populações ou gerar conflitos de uso da terra. 

    • A equivalência entre carbono biológico (florestas) e carbono fóssil nem sempre é realista: créditos baseados em florestas (ciclo rápido de carbono) podem não compensar totalmente as emissões fósseis (ciclo lento), especialmente se haver risco de reversão. 

  8. Incentivos Pervertidos

    • perverse incentives: quanto mais emissões, mais procura por créditos, mais lucro para quem vende créditos. Isso pode levar a uma lógica onde emissores grandes preferem continuar poluindo e “compensar”, em vez de reduzir. 

    • Também há críticas de que a existência de um mercado voluntário pode desviar o foco de políticas mais rígidas de regulação (por exemplo, impostos sobre o carbono, metas de redução obrigatórias). 

  9. Credibilidade e Reputação

Conclusão Crítica

  • Não é tudo “golpe”, mas há riscos reais: muitos críticos não rejeitam totalmente o VCM, mas pedem reformas — mais transparência, padrões mais rigorosos, verificação independente, regulação.

  • Complemento, não substituto: para muitos analistas, os créditos voluntários devem ser usados além das reduções diretas, não como a única estratégia.

  • Governança é chave: com a criação de órgãos como o ICVCM (Integrity Council), há movimento para tornar o mercado mais confiável, mas ainda há muito trabalho.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

GEOTA alerta para riscos ambientais em proposta do mercado voluntário de carbono


O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente – manifestou esta segunda-feira sérias reservas quanto à proposta de “Metodologia de Carbono sobre Novas Florestações”, cuja consulta pública decorreu até 25 de abril, pois, embora reconheça a importância de mecanismos que incentivem o sequestro de carbono, teme que o documento em causa acabe por viabilizar, de forma indireta, o financiamento de plantações de eucalipto, comprometendo a sustentabilidade florestal em Portugal.

Segundo o GEOTA, a proposta não estabelece limites claros à inclusão do eucalipto, permitindo a elegibilidade de todas as espécies constantes nos grupos I e II dos Programas Regionais de Ordenamento Florestal (PROF), nos quais o eucalipto se encontra. Além disso, a metodologia admite exceções, desde que devidamente justificadas e aprovadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, abrindo a porta a espécies fora dos grupos prioritários. Esta flexibilidade levanta preocupações face aos impactos já conhecidos da proliferação do eucalipto no território nacional.

Miguel Jerónimo, coordenador dos projetos Renature, considera “profundamente perverso” que o mercado voluntário de carbono possa servir de suporte financeiro a uma cultura florestal que já ocupa mais de 25% da floresta portuguesa, associada a riscos como a perda de biodiversidade, escassez hídrica e maior vulnerabilidade a incêndios. Para o GEOTA, permitir a expansão desta espécie é contrário ao espírito da proposta, que deveria contribuir para a mitigação das alterações climáticas de forma ambientalmente responsável.

A organização critica também a possibilidade de conversão de terrenos agrícolas e pastagens atualmente produtivos, alertando para os potenciais efeitos negativos na segurança alimentar e na diversidade de usos do espaço rural. Defende-se, em alternativa, que apenas solos agrícolas abandonados e sem viabilidade de recuperação produtiva sejam considerados elegíveis para florestação.

Outra falha apontada prende-se com a exclusão de áreas recentemente afetadas por incêndios, que não podem ser intervencionadas se tiverem tido presença florestal nos últimos dez anos (ou seis nas zonas prioritárias). Esta restrição, segundo o GEOTA, contraria a urgência de restaurar ecossistemas destruídos pelo fogo e enfraquece a capacidade de adaptação das florestas às alterações climáticas.

Por fim, o GEOTA contesta a possibilidade de corte de madeira durante o período de validade dos créditos de carbono, mesmo que acompanhado de replantação. Essa prática, sublinha, mina o princípio de "permanência" – essencial à credibilidade e eficácia climática do mercado de carbono – e pode colocar em causa a confiança pública e institucional neste tipo de mecanismos. A organização exige uma revisão profunda da metodologia, alinhada com os objetivos da conservação da natureza e da justiça intergeracional.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Que Fazer Com as Árvores – Madeira ou Créditos de Carbono?


A procura de créditos de carbono tornou as florestas mais atrativas para os investidores. Os gestores de investimentos que adquiriram terrenos florestais estão a analisar árvore a árvore para saber se devem ser abatidas para a produção de madeira ou mantidas para a produção de créditos de carbono.

A procura crescente de créditos significa que o investimento em florestas não se resume à produção de madeira, mas pode ser necessário muito trabalho para determinar o papel que cada árvore deve desempenhar numa carteira, bem como para garantir que está a cumprir os benefícios ambientais prometidos se for mantida de pé. Quando se investe numa floresta, a pergunta que fazemos é: "Como é que se gerem os produtos de madeira versus o carbono?", diz Brian Kernohan, diretor de sustentabilidade, mercados privados, na Manulife Investment Management. "A resposta para nós é: 'O que é que os nossos clientes querem?

A Manulife, que tem 5,4 milhões de acres de floresta na sua carteira de investimentos, calcula o valor de cada árvore para informar a sua estratégia de colheita. Cada árvore de uma floresta tem de ser avaliada com base nas taxas de crescimento das espécies e no valor do produto. Se o valor do crédito de carbono for suficientemente elevado, a árvore mantém-se, mesmo que seja apenas por mais alguns anos. Se não for, é cortada para a produção de madeira. As árvores de folha larga, por exemplo, são melhores para o sequestro de carbono, mas demoram mais tempo a crescer, criando até 500 a 600 créditos por hectare, mas levando mais de 100 anos a atingir a maturidade. As árvores coníferas, por outro lado, criam metade do número de créditos por hectare, mas demoram apenas 35 a 40 anos a atingir a maturidade, o que as pode tornar mais úteis para atingir mais rapidamente as emissões líquidas nulas.

Kernohan afirma que, até há pouco tempo, os terrenos florestais não eram suficientemente valiosos para se considerar que valia a pena investir apenas no sequestro de carbono. "Agora podemos perceber esse valor", diz ele.

O mercado voluntário de créditos de carbono poderá valer 40 mil milhões de dólares até 2030, contra 2 mil milhões de dólares em 2021, de acordo com um relatório do Boston Consulting Group e da Shell. Este mercado oferece uma forma de as empresas ajudarem a anular as emissões de carbono que produzem nas suas operações e pode ser especialmente útil para as empresas de sectores difíceis de eliminar, como a produção de energia e a indústria pesada.

A procura de créditos de carbono tem crescido rapidamente, tanto nos EUA como no estrangeiro, mas nos últimos anos começou a abrandar depois de terem sido levantadas questões sobre se os projetos estão a cumprir o que prometem. Uma investigação levada a cabo em 2023 pelo jornal britânico The Guardian, pelo semanário alemão Die Zeit e pela Source Material, uma organização jornalística sem fins lucrativos, revelou que muitos dos créditos de carbono certificados que são comprados e vendidos não representam, de facto, reduções genuínas das emissões de carbono.

"O problema de todo o mercado é a diversidade dos tipos de créditos e das metodologias utilizadas para os calcular", afirma Tom Frith, gestor de investimentos da JustCarbon, uma empresa de financiamento de projetos de créditos de carbono. "Para uma empresa, é muito mais fácil pensar na compra de créditos de carbono como um investimento num projeto individual do que num produto uniforme".

Há diferentes tipos de créditos de carbono. Os créditos de remoção, por exemplo, são gerados pela quantidade de dióxido de carbono que uma empresa remove da atmosfera e são vistos como mais valiosos porque a tonelagem de carbono pode ser calculada mais facilmente. Entretanto, os créditos de evitação podem ser mais difíceis de calcular com precisão, uma vez que são gerados através de uma atividade que não se realiza - por exemplo, não cortar uma árvore. As iniciativas de plantação de árvores também geram créditos de remoção porque removem carbono através da fotossíntese.

Fonte: WSJ

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Financiamento para travar a desflorestação está muito aquém do que é preciso


Atualmente, estima-se que o financiamento, a nível mundial, para proteger as florestas da destruição é de entre dois e três mil milhões de dólares por ano. Mas um relatório da organização Energy Transitions Commission revela que, para proteger as florestas da destruição para fins económicos, reduzindo os incentivos à desflorestação, seriam precisos mais de 130 mil milhões de dólares ao ano.

Intitulado ‘Financiando a Transição: O custo de evitar a desflorestação’ (Financing the Transition: The Cost of Avoiding Deforestation, no original), o relatório, divulgado hoje, reconhece que é uma quantia “muito grande”, pelo que, além de ter de vir de pagamentos feitos pelas empresas no âmbito dos mercados voluntários de carbono, da filantropia e de um maior esforço por parte dos países mais ricos, proteger as florestas do mundo implicaria também uma série da ações não-financeiras.

Entre elas, reduzir a procura dos principais produtos que estão fortemente associados à desflorestação, e que a tornam atrativa, como o óleo de palma e a carne, criar modelos de negócio alternativos que permitam tornar lucrativa a conservação das florestas (como o ecoturismo e práticas sustentáveis que juntem a agricultura e a silvicultura), e também reforçar as medidas governamentais que travar a destruição das áreas florestais.

Contudo, os relatores reconhecem que implementar estas ações não-financeiras exige tempo, que podem ser apenas parte da solução e que podem não ser eficazes no curto prazo. Por isso, argumentam que, pelo menos para já, o pagamento de compensações às empresas e negócios que estão dependentes e beneficiam da desflorestação “desempenhará um papel importante” na proteção das florestas mais vulneráveis à destruição humana, pelo menos enquanto as ações não-financeiras não mostraram sinais de maturidade.

E salientam que os incentivos financeiros à proteção das florestas devem andar lado a lado com medidas como a ilegalização da desflorestação e a redução da procura por produtos associados a essa destruição.

Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission e membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido, considera que sem um “significativo fluxo” de incentivos financeiros “qualquer redução da desflorestação chegará demasiado tarde para ser possível manter o aquecimento global bem abaixo dos dois graus Celsius”, tal como plasmado no Acordo Climático de Paris de 2015.

O responsável alerta, porém, que os apoios financeiros “por si só não conseguirão travar a desflorestação”, e que para tal são precisas ações para reduzir a procura dos produtos dessa destruição, sendo que, nesse âmbito, os governos, as empresas e os consumidores são inevitavelmente chamados a agir e a fazerem as escolhas necessárias e que são urgentes para assegurar um planeta habitável por muitas mais gerações.

O relatório recorda que quase 15% do total das emissões de dióxido de carbono produzidas pelas ações humanas derivam da desflorestação, pelo que travar e transformar as atividades que dela dependem e beneficiam é fulcral para combater o aquecimento global e a degradação dos ecossistemas.

sábado, 3 de dezembro de 2022

As 10 principais políticas para uma economia de estado estável


Por Herman Daly,  28/10/ 2013

Vamos ser específicos. Aqui estão dez políticas para acabar com o crescimento antieconómico e passar para uma economia estável. Uma economia de estado estacionário é aquela que se desenvolve qualitativamente (pelo aperfeiçoamento da ciência, tecnologia e ética) sem crescer quantitativamente nas dimensões físicas; ele vive de dieta – um fluxo metabólico constante de recursos desde a exaustão até a poluição (o rendimento entrópico) mantido em um nível que é tanto suficiente para uma boa vida quanto dentro das capacidades assimilativas e regenerativas do ecossistema que o contém.

Dez é um número arbitrário - apenas uma maneira de ser específico e desafiar os outros a sugerir melhorias. Embora todo o pacote aqui discutido se encaixe no sentido de que algumas políticas complementam e equilibram outras, a maioria delas pode ser adotada isoladamente e gradualmente.

1. Sistemas de cap-auction-trade (limite-leilão-comércio) para recursos básicos.
Os limites limitam a escala biofísica por cotas de esgotamento ou poluição, o que for mais limitante. Leiloar as cotas captura rendas de escassez para redistribuição equitativa. O comércio permite alocação eficiente para os usos mais elevados. Esta política tem a vantagem da transparência. Há um limite para a quantidade e taxa de esgotamento e poluição que a economia pode impor ao ecossistema. Caps são cotas físicas, limites para a produção de recursos básicos, especialmente combustíveis fósseis. A cota geralmente deve ser aplicada no final do insumo porque o esgotamento é mais concentrado espacialmente do que a poluição e, portanto, mais fácil de monitorar. Além disso, o preço mais alto dos recursos básicos induzirá seu uso mais económico em cada etapa inicial da produção, bem como nas etapas finais de consumo e reciclagem. A propriedade das cotas é inicialmente pública – o governo as leiloa periodicamente para indivíduos e empresas. Não deve haver “aquisição” de direitos de cota para usuários anteriores ou “offshoring” de cotas para novas usinas de combustível fóssil em um lugar por créditos de plantio de árvores em outro lugar. O reflorestamento é uma boa política por si só. É tarde demais para meias medidas de auto-cancelamento – tanto o aumento do sequestro de carbono quanto a redução das emissões são necessários. As receitas dos leilões vão para o tesouro e são usadas para substituir impostos regressivos, como o imposto sobre a folha de pagamento, e para reduzir o imposto de renda sobre os rendimentos mais baixos. Uma vez adquiridas em leilão, as cotas podem ser livremente compradas e vendidas por terceiros, assim como os recursos cuja taxa de esgotamento elas limitam. O limite atende ao objetivo de uma escala sustentável; o leilão atende ao objetivo de distribuição justa; e o comércio permite uma alocação eficiente — três objetivos, três instrumentos políticos. Embora aplicada principalmente a recursos não renováveis, a mesma lógica funciona para limitar a extração de recursos renováveis, como pesca e florestas, com o nível de cota definido para se aproximar de um rendimento sustentável.

2. Reforma tributária ecológica.
Mudar a base tributária do valor adicionado (trabalho e capital) para “aquilo ao qual o valor é adicionado”, ou seja, o fluxo entrópico de recursos extraídos da natureza (esgotamento) e devolvidos à natureza (poluição). Essa mudança de impostos precifica a contribuição escassa, mas anteriormente não precificada, da natureza. Valor agregado aos recursos naturais pelo trabalho e capital é algo que queremos encorajar, então pare de tributá-lo. O esgotamento e a poluição são coisas que queremos desencorajar, então taxe-os. O pagamento acima do preço de suprimento necessário é aluguel, renda não ganha, e a maioria dos economistas há muito defende a taxação, tanto por razões de eficiência quanto de equidade. A reforma tributária ecológica pode ser uma alternativa ou um complemento aos sistemas de cap-auction-trade.

3. Limitar a faixa de desigualdade na distribuição de renda com uma renda mínima e uma renda máxima.
Sem crescimento agregado, a redução da pobreza requer redistribuição. A desigualdade ilimitada é injusta; igualdade total também é injusta. Busque limites justos para o alcance da desigualdade. O serviço público, o exército e a universidade administram uma escala de desigualdade de um fator de quinze ou 20. A América corporativa tem uma escala de 500 ou mais. Muitas nações industrializadas estão abaixo de 25. Não poderíamos limitar a faixa para, digamos, 100, e ver como funciona? Isso pode significar um mínimo de 20 mil dólares e um máximo de 2 milhões. Isso não é mais do que suficiente para incentivar o trabalho árduo e compensar diferenças reais? As pessoas que atingiram o limite podem trabalhar de graça se gostarem de seu trabalho ou dedicar seu tempo extra a hobbies ou serviço público. A demanda não atendida pelos que estão no topo será atendida pelos que estão abaixo do máximo. Um senso de comunidade, necessário para a democracia, é difícil de manter em meio às vastas diferenças de renda existentes nos Estados Unidos. Ricos e pobres separados por um fator de 500 têm poucas experiências ou interesses em comum e são cada vez mais prováveis envolver-se em conflitos violentos.

4. Liberte a duração do dia de trabalho, da semana e do ano — permita mais opções para trabalho pessoal ou de meio período.
Emprego externo em tempo integral para todos é difícil de fornecer sem crescimento. Outros países industrializados têm férias e licenças-maternidade muito mais longas do que os Estados Unidos. Para os economistas clássicos, a duração do dia de trabalho era uma variável-chave pela qual o trabalhador (autónomo ou artesão) equilibrava a inutilidade marginal do trabalho com a utilidade marginal da renda e do lazer, de modo a maximizar o aproveitamento da vida. . Sob o industrialismo, a duração do dia de trabalho tornou-se um parâmetro em vez de uma variável (e para Karl Marx era o fator determinante da taxa de exploração). Precisamos torná-la mais uma variável sujeita à escolha do trabalhador. Milton Friedman queria “liberdade para escolher” – OK, aqui está uma escolha importante que a maioria de nós não pode fazer! E devemos parar de influenciar a escolha trabalho-lazer pela publicidade para estimular mais consumo e mais trabalho para pagar por isso. No mínimo, a publicidade não deve mais ser tratada como uma despesa de produção dedutível de impostos.

5. Reregulamentar o comércio internacional – afastar-se do livre comércio, da livre mobilidade de capital e da globalização.

Cap-auction-trade, reforma tributária ecológica e outras medidas nacionais que internalizam os custos ambientais aumentarão os preços e nos colocarão em desvantagem competitiva no comércio internacional com países que não internalizam os custos. Devemos adotar tarifas compensatórias para proteger, não empresas ineficientes, mas políticas nacionais eficientes de internalização de custos da competição que reduz os padrões com empresas estrangeiras que não são obrigadas a pagar os custos sociais e ambientais que infligem. Esse “novo protecionismo” é muito diferente do “velho protecionismo” que foi concebido para proteger uma empresa doméstica verdadeiramente ineficiente de uma empresa estrangeira mais eficiente. A primeira regra de eficiência é “contabilizar todos os custos” – não “livre comércio”, que, juntamente com a livre mobilidade de capital, leva a uma competição que reduz os padrões para contabilizar o menor número possível de custos. As tarifas também são uma boa fonte de receita pública. Isso vai entrar em conflito com a Organização Mundial do Comércio/Banco Mundial/Fundo Monetário Internacional. . .

6. Rebaixar a OMC/BM/FMI.
Reformar essas organizações com base em algo como o plano original de Keynes para pagamentos multilaterais compensando a união, cobrando taxas de penalidade sobre o superávit, bem como os saldos deficitários com a união – buscar o equilíbrio na conta corrente e, assim, evitar grandes dívidas externas e transferências de conta de capital. Por exemplo, sob o plano de Keynes, os EUA pagariam uma penalidade à união de compensação por seu grande déficit com o resto do mundo, e a China também pagaria uma penalidade semelhante por seu superávit. Ambos os lados do desequilíbrio seriam pressionados a equilibrar suas contas correntes por penalidades financeiras e, se necessário, por ajustes cambiais relativos à unidade de conta de compensação, chamada de “bancor” por Keynes. O bancor também serviria como moeda de reserva mundial, um privilégio que não deveria ser desfrutado por nenhuma moeda nacional, incluindo o dólar americano. O status de moeda de reserva para o dólar é um benefício para os EUA – assim como um caminhão cheio de heroína gratuita é um benefício para um viciado. O bancor seria como ouro sob o padrão-ouro, só que você não teria que rasgar a terra para desenterrá-lo. Alternativamente, um regime de taxas de câmbio livremente flutuantes é uma possibilidade viável que requer menos cooperação internacional.

7. Afastar-se do sistema bancário de reservas fracionárias em direção a um sistema de 100% de reservas obrigatórias.
Isso colocaria o controle da oferta monetária e da senhoriagem (lucro obtido pelo emissor da moeda fiduciária) nas mãos do governo, e não dos bancos privados, que não seriam mais capazes de viver o sonho do alquimista de criar dinheiro do nada e emprestar isso a juros. Todas as instituições financeiras quase bancárias devem ser submetidas a esta regra, reguladas como bancos comerciais sujeitos a 100 por cento de reservas obrigatórias. Os bancos ganhariam seu lucro apenas por intermediação financeira, emprestando dinheiro dos poupadores para eles (cobrando uma taxa de empréstimo mais alta do que a taxa paga aos depositantes de poupança ou “conta a prazo”) e cobrando por cheques, custódia e outros serviços. Com reservas de 100%, cada dólar emprestado a um mutuário seria um dólar previamente economizado por um depositante (e não disponível para ele durante o período do empréstimo), restabelecendo assim o equilíbrio clássico entre abstinência e investimento. Com o crédito limitado pela poupança prévia (abstinência de consumo), haverá menos empréstimos e empréstimos e será feito com mais cautela – não haverá mais crédito fácil para financiar a compra massiva de “ativos” que não passam de apostas em dívidas duvidosas. Para compensar a queda do cre-banco Com moeda fiduciária remunerada, o governo pode pagar algumas de suas despesas emitindo mais moeda fiduciária sem juros. No entanto, só pode fazer isso até um limite estrito imposto pela inflação. Se o governo emite mais dinheiro do que o público voluntariamente deseja reter, o público irá trocá-lo por bens, elevando o nível de preços. Assim que o índice de preços começa a subir, o governo deve imprimir menos e tributar mais. Assim, uma política de manutenção de um índice de preços constante governaria o valor interno do dólar. O Tesouro substituiria o Federal Reserve, e as variáveis-alvo da política seriam a oferta monetária e o índice de preços, não a taxa de juros. O valor externo do dólar poderia ser deixado à livre flutuação das taxas de câmbio (ou preferencialmente à taxa contra o bancor na união de compensação de Keynes).

8. Pare de tratar o escasso como se fosse gratuito e o gratuito como se fosse escasso.
Coloque os bens comuns de acesso aberto restantes do capital natural rival (por exemplo, a atmosfera, o espectro eletromagnético e as terras públicas) em fundos públicos e precifique-os por sistemas de comércio de leilões ou por impostos. Ao mesmo tempo, livre do fechamento privado e dos preços da comunidade não rival de conhecimento e informação. O conhecimento, ao contrário do fluxo de recursos, não é dividido no compartilhamento, mas multiplicado. Uma vez que o conhecimento existe, o custo de oportunidade de compartilhá-lo é zero e seu preço alocativo deve ser zero. A ajuda internacional ao desenvolvimento deve assumir cada vez mais a forma de conhecimento livre e ativamente compartilhado, juntamente com pequenas doações, e cada vez menos a forma de grandes empréstimos com juros. Partilhar conhecimento custa pouco, não cria dívidas impagáveis ​​e aumenta a produtividade dos fatores de produção verdadeiramente rivais e escassos. Os monopólios de patentes (também conhecidos como “direitos de propriedade intelectual”) devem ser dados por menos “invenções” e por menos anos. Os custos de produção de novos conhecimentos devem, cada vez mais, ser financiados publicamente e depois o conhecimento ser livremente partilhado. O conhecimento é um produto social cumulativo, e temos a descoberta das leis da termodinâmica, da dupla hélice, da vacina contra a poliomielite, etc. sem monopólios de patentes e royalties.

9. Estabilizar a população.
Trabalhe para um equilíbrio em que nascimentos mais imigrantes sejam iguais a mortes mais emigrantes. Isso é controverso e difícil, mas, para começar, a contracepção deve ser disponibilizada para uso voluntário em todos os lugares. E enquanto cada nação pode debater se deve aceitar muitos ou poucos imigrantes, e quem deve ter prioridade, tal debate torna-se discutível se as leis de imigração não forem cumpridas. Devemos apoiar o planeamento familiar voluntário e a aplicação de leis imigratórias razoáveis, promulgadas democraticamente.

10. Reformar as contas nacionais – separar o PIB em uma conta de custos e uma conta de benefícios.
O consumo de capital natural e “despesas defensivas lamentavelmente necessárias” pertencem à conta de custo. Compare custos e benefícios de um throughput crescente na margem e interrompa o crescimento do throughput quando os custos marginais forem iguais aos benefícios marginais. Além dessa abordagem objetiva, reconheça a importância dos estudos subjetivos que mostram que, além de um limite, um maior crescimento do PIB não aumenta a felicidade autoavaliada. Além de um nível já alcançado em muitos países, o crescimento do PIB não traz mais felicidade, mas continua gerando esgotamento e poluição. No mínimo, devemos não apenas assumir que o crescimento do PIB é crescimento econômico, mas provar que não é crescimento antieconómico.

Atualmente, essas políticas estão além dos limites politicamente. Ao leitor que perseverou até aqui, agradeço por sua voluntária suspensão da descrença política. Somente após um crash significativo, uma dolorosa demonstração empírica do fracasso da economia de crescimento, esse programa de dez princípios, ou algo parecido, teria hipótese de ser implementado.

Certamente, a mudança conceitual na visão da norma de uma economia de crescimento para a de uma economia de estado estacionário é radical. Algumas dessas propostas são bastante técnicas e requerem mais explicação e estudo. Não há como escapar de estudar economia, mesmo que, como disse Joan Robinson, a principal razão para isso seja evitar ser enganado pelos economistas. No entanto, as políticas exigidas estão longe de serem revolucionárias e estão sujeitas a uma aplicação gradual. Por exemplo, 100% de reservas bancárias foram defendidas na década de 1930 pela conservadora Escola de Chicago e podem ser abordadas gradualmente, a gama de desigualdade distributiva pode ser restringida gradualmente, os limites podem ser ajustados gradualmente etc. instituições impecavelmente conservadoras de propriedade privada e alocação de mercado descentralizada. As políticas aqui defendidas simplesmente reafirmam pilares esquecidos dessas instituições, a saber: (1) a propriedade privada perde a sua legitimidade se for muito desigualmente distribuída, (2) os mercados perdem a sua legitimidade se os preços não disserem a verdade sobre os custos de oportunidade, e como aprendemos mais recentemente; (3) a macroeconomia torna-se um absurdo se sua escala for exigida para crescer além dos limites biofísicos da terra.

Bem antes de atingir esse limite biofísico radical, estamos nos deparando com o limite econômico clássico em que os custos extras de crescimento tornam-se maiores do que os benefícios extras, inaugurando a era do crescimento antieconômico, cuja possibilidade é negada pelos crescimentistas. A desigualdade na distribuição da riqueza anulou as virtudes tradicionais da propriedade privada ao conceder quase todos os benefícios do crescimento ao 1% mais rico, ao mesmo tempo em que generosamente compartilhava os custos do crescimento com os pobres. Desigualdade grosseira, além de monopólios, subsídios, brechas fiscais, contabilidade falsa, globalização de externalização de custos e fraude financeira tornaram os preços de mercado quase sem sentido como medidas de custo de oportunidade. Por exemplo, uma política de taxas de juros próximas de zero (afrouxamento quantitativo) para impulsionar o crescimento e salvar os grandes bancos eliminou a taxa de juros como uma medida do custo de oportunidade do capital, prejudicando assim a eficiência do investimento. Tentar manter o atual Esquema Ponzi baseado no crescimento é muito mais irrealista do que mudar para uma economia de estado estacionário por meio de algo como as políticas aqui delineadas. Provavelmente é tarde demais para evitar as consequências inevitáveis ​​do irrealismo. Mas enquanto estamos agachados e desempregados, suportando o colapso, podemos pensar sobre os princípios que devem guiar a reconstrução.

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sábado, 7 de dezembro de 2019

A tecnologia realmente “salvará” o planeta?


“Com a crise climática piorando e nenhum contrapoder efetivo no horizonte, o que precisamos desesperadamente é de um imaginário político completamente novo, que finalmente consiga libertar o mundo do domínio das corporações transnacionais”, escreve Carl Boggs, professor de ciências sociais na Universidade Nacional de Los Angeles, em artigo publicado por Rebelión, 06-12-2019. A tradução é do Cepat.

Na medida em que a crise ecológica se aprofunda e nos leva ao famoso “ponto de inflexão” - que nos aproxima de uma catástrofe planetária -, tentam nos convencer de que o “reverdecimento” da economia mundial nos afastará de um futuro muito obscuro. De alguma forma, contra toda lógica, adotamos uma fé coletiva na disposição dos governos e das grandes empresas em fazer a coisa certa. A pegada de carbono será drasticamente reduzida graças a uma combinação de estratégias de mercado e tecnologias mágicas. E, na medida em que progride sem complicações a mitigação do efeito estufa, as forças dominantes serão capazes de fazer o que melhor fazem: entregar-se à religião de acumulação e crescimento sem limites.

Esse cenário lindamente decorado é a mais deprimente e paralisante de todas as grandes ilusões. E em nenhum outro lugar sua influência é mais forte do que onde vivem os maiores vilões ambientais: os Estados Unidos.

O pomposo Acordo de Paris de 2015 foi vendido como a grande esperança, mas seria melhor defini-lo como um exercício bem-intencionado de futilidade, algo que o prestigiado climatologista James Hansen, definiu com desprezo como “uma farsa sem propostas de ação, apenas promessas”. Em Paris, os 200 membros participantes propuseram a fórmula 20/20/20: redução de 20% nas emissões de carbono, aumento de 20% nas fontes de energia renováveis e aumento de 20% na eficiência energética geral. Teoricamente, isso manteria a temperatura global média em menos de 2 graus (idealmente 1,5º) acima do nível pré-industrial.

O problema é que todos os objetivos são voluntários e não há mecanismo que obrigue o seu cumprimento. Segundo o Acordo de Paris, cada nação (atualmente as 187 signatárias) determina seus próprios planos, estabelece seus próprios resultados e relata suas iniciativas de mitigação de carbono. A realidade é que nenhum desses países ainda avançou na implementação de metas consistentes com a prescrição 20/20/20, e a maior parte deles se encontra muito longe desse objetivo. Embora o presidente Trump tenha retirado os Estados Unidos do Acordo, sua pegada de carbono não é pior do que a de outros grandes emissores (China, Índia, Rússia, Japão, Alemanha, Canadá e México).

Apesar de muitas nações terem aumentado sua utilização de energias limpas, o aumento do crescimento econômico global levou a um aumento paralelo das emissões de carbono: 1,6% em 2017, 2,7% em 2018 e se preveem aumentos ainda maiores para 2019. A economia fóssil se move a toda velocidade: as extrações de petróleo e gás atingiram recordes históricos e não se espera que diminuam. Mesmo com um aumento significativo das renováveis, como está ocorrendo na China, Índia, Estados Unidos e Europa, está previsto um aumento constante da pegada de carbono devido ao aumento total do crescimento econômico e do consumo de energia. Atualmente, os 10 países mais poluentes representam 67% do total de emissões de gases do efeito estufa (GEE) e há poucas mudanças à vista.

Recentemente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um organismo que dificilmente poderia ser chamado de radical, projetou que até 2030 a produção global de combustíveis fósseis seria mais do que o dobro da quantidade que devemos consumir se quisermos reverter o aquecimento global. Em outras palavras, os acordos de Paris estavam vazios de conteúdo. O relatório do PNUMA concluiu, extrapolando os dados de emissão dos oito países mais poluentes, que a “humanidade” avança por um caminho suicida em direção ao desastre ecológico, marcado por aumentos de temperatura de quatro graus ou mais.

De qualquer forma, mesmo que as principais nações cumprissem os objetivos 20/20/20, pouco mudaria. Na realidade, a soma de todos os compromissos assumidos em Paris não manteria a temperatura abaixo do aumento de dois graus (ou mais) nas próximas décadas. O consumo global de combustíveis fósseis, associado ao aumento do crescimento, anularia esses esforços, de modo que as estratégias existentes de mitigação de carbono seriam ilusórias.

De fato, muitos observadores aplicados acreditam que já é tarde demais e que, carregados com o fardo de uma herança de fracasso político, estamos indo diretamente para um desastre planetário. Ondas de protestos climáticos em todo o mundo estão tentando aumentar a indignação pública, mas esses protestos (e anteriores) ainda não geraram o tipo de oposição política coesa capaz de reverter a crise. Estamos presos em um ciclo de futilidade, uma imobilidade psicológica que David Wallace-Wells chama de “niilismo climático”, em seu livro “A terra inabitável” [1]. Os protestos massivos que ocorrem num ambiente como esse não se traduzem automaticamente em uma mudança no sistema, nem mesmo em grandes reformas, como as associadas aos diferentes Green New Deals.

Na opinião de escritores como Wallace-Wells, estamos presos em um mundo que avança inexoravelmente em direção a um aumento de quatro ou cinco graus no final do século, se não antes. O autor conclui afirmando que “se os próximos 30 anos de atividade industrial traçarem um arco ascendente semelhante ao dos últimos 30 anos, regiões inteiras serão inabitáveis pelos padrões atuais”.

O cataclismo ecológico devastará grandes regiões da Europa, América do Norte e do Sul. Nesse cenário, a economia mundial sofrerá tanta destruição que a famosa teoria da crise de Karl Marx parecerá tíbia. Wallace-Wells acrescenta: “Um aquecimento de três graus desencadeará um sofrimento maior do que os seres humanos experimentaram ao longo de milénios de tensões, conflitos e guerra total”.

Além da “atividade industrial”, Wallace-Wells poderia ter mencionado o âmbito ainda mais problemática da agricultura e da alimentação: esse será o elo mais fraco de um sistema em crise. Atualmente, 80% da água doce é dedicada à agricultura e pecuária, e metade é usada na produção de carne. Vivemos em um mundo onde são necessários cerca de 20.000 litros de água para produzir um quilo de carne bovina e 685 litros por um litro de leite.

A metade de toda a superfície cultivável é dedicada a pastagens, e não parece que esse valor diminua com a industrialização de novos países. A pegada de carbono da agricultura para alimentação animal pode atingir 30% do total, ou até mais, se considerarmos o uso de combustíveis fósseis. Como atualmente mais de 2 bilhões de pessoas estão privadas de água e alimentos adequados, seria necessário considerar seriamente a insustentabilidade da agroindústria capitalista.

Apesar dos apelos para “salvar o planeta” e do recente aumento do “ativismo climático”, poucos países lançaram um programa para reduzir radicalmente as emissões de carbono. Para governos e elites empresariais, tudo permanece igual. No livro “Leviatán climático” [2], os escritores britânicos marxistas Geoff Man e Jonathan Wainwright lamentam: “A possibilidade de conseguir uma rápida redução do carbono global que mitigue a mudança climática já passou. As elites mundiais, ao menos, parecem tê-la abandonado, se alguma vez a levaram a sério”. Em vez disso, parece que optaram por uma política de adaptação a um planeta em aquecimento contínuo.

Os mesmos gigantes corporativos que dominam a economia mundial são os que tomam as decisões que afetam o futuro ecológico. Na atualidade, e de acordo com Peter Phillips em “Gigantes. Os senhores do Mundo” [3], as 385 transnacionais que dominam o sistema mundial estão avaliadas em 255 trilhões de dólares e grande parte desse dinheiro é investido no setor de combustíveis fósseis.

Os Estados Unidos e a Europa possuem quase dois terços dessa quantia. Não mais de 100 empresas são responsáveis por pelo menos 70% de todas as emissões de GEE. No topo desta pirâmide, 17 gigantes financeiros dirigem a economia do mundo capitalista. Até o momento, não há sinais de que os chefes do capitalismo fóssil estejam dispostos a se desviar de seu curso historicamente destrutivo.

Atualmente, as elites tecnológicas nos Estados Unidos falam muito sobre reduzir sua pegada de carbono, um movimento que obviamente beneficiaria sua imagem corporativa. Os executivos da Amazon, Google, Microsoft e Facebook parecem ansiosos para lançar suas próprias cruzadas verdes. Ritualmente, pregam que a tecnologia verde é a maneira para mitigar a emissão de carbono. Jeff Bezos afirmou que a Amazon receberá 100% da energia que precisa de fontes alternativas em 2030. Outros oligarcas tecnológicos parecem prometer uma economia livre de carbono em resposta, pelo menos parcialmente, à escalada dos protestos dos trabalhadores.

Outra bela ilusão: os gigantes tecnológicos e os gigantes do petróleo decidiram, de fato, avançar estreitamente associados. Aparentemente, a ideia de “reverdecer” não impede que Google, Amazon, Microsoft e outros tirem proveito de sua contribuição para que esses outros gigantes (Shell, ExxonMobil, Chevron, BP etc.) possam encontrar locais melhores, mais baratos e mais eficientes para perfurar e fazer fracking.

As grandes empresas de tecnologia podem fornecer o que mais precisam: espaços na nuvem, inteligência artificial, robótica e informações geológicas e meteorológicas. Essas ferramentas foram especialmente úteis na exploração de reservas de petróleo de xisto betuminoso no Canadá e nos Estados Unidos. Referindo-se especificamente à ExxonMobil, Bezos disse que “precisamos ajudá-los, em vez de vilipendiá-los”. O que significa 50.000 barris diários a mais de petróleo de xisto apenas para uma das empresas destruidoras do clima.

Enquanto os negócios do Google, Microsoft e Amazon estão indo de vento em poupa, flui o descontentamento dos trabalhadores, que se manifestam através de protestos e greves direcionadas não apenas contra a hipocrisia do clima, mas também contra outras “colaborações” com os corpos policiais, os organismos de segurança nas fronteiras, as operações de inteligência e, claro, o Pentágono. Outra fantasia das grandes empresas de tecnologia é a captura e armazenamento de carbono, um projeto considerado muito problemático tanto técnica, quanto economicamente.

A obstinada realidade é que, até 2040, o mundo consumirá um terço a mais de energia do que atualmente e que provavelmente 85% dessa energia virá de gás, petróleo e carvão. O subsolo contém combustíveis fósseis no valor de muitos trilhões de dólares. A lógica empresarial determina que essa incrível fonte de riqueza seja utilizada ao máximo, independentemente dos objetivos “verdes” que possam surgir em Paris e na COP de Madri.

Ao mesmo tempo, reputadas projeções econômicas indicam que em 2040 a China liderará a economia mundial, com um PIB de 50 trilhões de dólares, seguida pelos Estados Unidos, com 34 trilhões de dólares, e pela Índia, com 28 trilhões. Presumivelmente, essas nações terão mais riqueza do que o resto do mundo como um todo. E, o que é mais impressionante, as duas principais nações possuirão mais riqueza (e controlarão mais recursos) do que o total do que existe atualmente no planeta.

Que implicações esse cenário aterrorizante terá para o consumo de energia? E para a alteração do clima? E para a miséria social? Para a agricultura e a escassez de alimentos? Para as guerras por recursos e o militarismo que se supõe ser a causa e o efeito dessas guerras? Podem o Acordo de Paris, a COP de Madri e outras cúpulas que acontecem - ou qualquer New Green Deal - mudar substancialmente a trajetória de um sistema tão insustentável?

Com a crise climática piorando e nenhum contrapoder efetivo no horizonte, o que precisamos desesperadamente é de um imaginário político completamente novo, que finalmente consiga libertar o mundo do domínio das corporações transnacionais.
Notas:

[1] A terra inabitável: Uma história do futuro. Wallace-Wells, David. Companhia da Letras, 2019.

[2] Leviatán climático. Mann, Geoff e Jonathan Mainwright. Editorial Biblioteca Nueva, 2018.

[3] Gigantes: Os Senhores do Mundo. Phillips, Peter. Desassossego, 2019.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O preço do desperdício de comida

Das quintas às lojas, passando pela mesa das nossas casas, um terço do alimento que produzimos perde-se ou é desperdiçado. Temos muito por onde melhorar.
Texto de Elizabeth Royte, National Geographic, Agosto 2014

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Os alimentos desperdiçados por uma família típica americana de quatro membros pesam, ao fim de um ano, meia tonelada. Compilados na sala de estar dos Waldt, de New Jersey, estes produtos representam os 1,2 milhões de calorias que uma família desperdiça todos os anos – mais do que o suficiente para alimentar outra pessoa. Fotografia de Robert Clark
Estamos na época da alface no vale de Salinas, uma região no centro da Califórnia que produz cerca de 70% dos legumes de folha verde vendidos nos EUA. Numa manhã típica de nevoeiro, uma procissão de veículos carregados de plantas sai das unidades transformadoras e dirige-se para norte, sul e leste.

Entretanto, um camião entra lentamente na estação de transferência de Sun Street, perto da baixa de Salinas. O condutor detém-se sobre uma balança e, de seguida, posiciona a caixa amolgada do camião sobre uma plataforma de betão. Depois de manobrar uma alavanca, ouve-se um silvo pneumático e cerca de 15 metros cúbicos de alface e espinafres são descarregados no solo. Acondicionados em caixas e sacos de plástico e empilhados a dois metros de altura, os legumes parecem frescos, rijos e incólumes. Mas devido a vários pequenos erros, irão em breve ser condenados ao aterro sanitário: as suas embalagens foram irregularmente cheias, rotuladas, vedadas ou cortadas.

Qualquer observador diria que esta montanha do tamanho de dois elefantes africanos representa um desperdício horrível, talvez mesmo criminoso. Mas isto não é nada. Ao longo desse mesmo dia, a estação de transferência receberá mais dez a vinte carregamentos de legumes perfeitamente comestíveis, provenientes de agricultores das redondezas. Entre Abril e Novembro, a Autoridade para os Resíduos Alimentares do Vale de Salinas envia para o aterro sanitário dois a quatro milhões de quilogramas de legumes frescos vindos dos campos. E é apenas uma de muitas estações de transferência que prestam serviço aos vales agrícolas da Califórnia.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que mantém sob vigilância tudo o que é cultivado e consumido como alimento em todo o mundo, calcula que, todos os anos, um terço dos géneros alimentares produzidos para consumo humano no planeta perde-se ou é desperdiçado ao longo da cadeia que vai das quintas às unidades transformadoras, aos mercados, aos pontos de venda, aos restaurantes e às nossas cozinhas. Representando 1.300 milhões de toneladas, esse total seria suficiente para alimentar três mil milhões de pessoas.

O desperdício é gerado em lugares diferentes por razões diferentes. Em geral, os países industrializados desperdiçam mais alimentos nas fases de retalho e consumo da cadeia alimentar do que os países menos desenvolvidos. Nos países em vias de desenvolvimento, que muitas vezes não possuem infra-estruturas para distribuir todos os seus géneros alimentares em boas condições, as perdas ocorrem, na sua maioria, durante as fases de produção, pós-safra e transformação.