Mostrar mensagens com a etiqueta Bailado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bailado. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de agosto de 2026

Death Cab for Cutie - You Are A Tourist

Melhor som aqui

A deriva existencial num mundo de espetadores: Uma Análise a "You Are A Tourist"
Lançada em 2011 como o single de avanço do sétimo álbum dos Death Cab for Cutie, Codes and Keys, "You Are A Tourist" é uma das composições mais emblemáticas do rock alternativo e indie norte-americano do início do século XXI. Por trás de uma linha de baixo vibrante, guitarras pontuadas por um pulsar quase hipnótico e uma melodia contagiante, esconde-se uma reflexão profunda sobre a condição humana na contemporaneidade.

No seu cerne, a canção explora a metáfora do "turista" para criticar a passividade, o conformismo e a desconexão emocional. Um turista é, por definição, alguém que atravessa um território sem nele criar raízes: observa a realidade através de uma lente superficial, consome paisagens e parte sem se deixar transformar. Ben Gibbard utiliza esta imagem para confrontar o ouvinte com a sua própria vida. Estaremos verdadeiramente a viver com propósito, ou limitamo-nos a ser visitantes temporários e distantes da nossa própria existência? Frases como "If there's no burning in your output, then you're missing the fire" servem como um apelo direto para que se abandone a segurança da zona de conforto e se recupere a paixão genuína pelas escolhas que fazemos.

Esta dimensão filosófica encontra um eco límpido nas correntes do Existencialismo. A lírica de Gibbard ressoa com as ideias de Jean-Paul Sartre e Albert Camus sobre a "má-fé" e a necessidade imperativa de viver com autenticidade. Em vez de nos deixarmos levar pelo piloto automático ou pelas expetativas alheias, a canção exige que assumamos a responsabilidade pela criação do nosso próprio destino. Paralelamente, sente-se a influência da literatura Beat - nomeadamente de Jack Kerouac, uma referência constante na escrita do vocalista -, onde a viagem deixa de ser um mero deslocamento físico para se tornar numa demanda espiritual e interior.

É precisamente por essa razão que o videoclipe oficial, realizado por Aaron Stewart-Ahn com direção de arte de Tim Nackashi, recusa liminarmente mostrar monumentos ou cenários turísticos literais. O "turismo" aqui retratado é estritamente psicológico e emocional. Historicamente marcante por ter sido o primeiro videoclipe na história da música a ser gravado e transmitido totalmente ao vivo na internet - numa única tomada sem cortes -, o vídeo recorre à dança contemporânea, a jogos de luzes e a projeções geométricas. As bailarinas que rodeiam a banda e os seus movimentos fluidos corporizam os pensamentos, as distrações e as rotas mentais que nos desviam da nossa essência. A ausência de cenários exteriores reforça a mensagem central: o verdadeiro labirinto a superar e o território a explorar não estão no mapa, mas sim dentro de nós.

Página Oficial
Death Cab for Cutie

Biografia, discografia e muito mais aqui

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Nadiiife - A Warriors Hymn


A canção "A Warrior’s Hymn", lançada pela artista e compositora alemã Nadine Wairimu Moser - conhecida pelo nome artístico Nadiiife -, insere-se no universo do neofolk, dark folk e indie folk, destacando-se por uma sonoridade cinematográfica e arranjos vocais densos. A obra abdica de uma letra em idioma convencional para se apoiar no uso de melismas, vocalizes e glossolalia, recorrendo a estruturas silábicas intuitivas sem significado linguístico literal como forma de expressar sentimentos e emoções onde a linguagem falada se revela insuficiente.
O nome próprio Wairimu é um nome tradicional Kikuyu (etnia maioritária do Quénia), o que reflete as suas raízes ou ascendência queniana.
Dedicada pela própria artista àqueles que não encontram as palavras certas para descrever a sua dor e a quem permanece forte perante as adversidades, a faixa aborda o conceito de "guerreiro" sob uma perspetiva interior e de resiliência psicológica. Este tema é transposto visualmente no videoclipe codirigido por Nadiiife e pela fotógrafa e realizadora Vivienne Mok, no qual a iluminação etérea e a interpretação em dança contemporânea das bailarinas Alana Nastold e Laetitia Kiefer traduzem o conflito interno, a vulnerabilidade e a busca pela libertação emocional.
No plano filosófico e literário, a obra dialoga com o arquétipo do guerreiro espiritual e conceitos da fantasia sombria e do folclore europeu, aproximando-se de correntes como o existencialismo e o estoicismo. O estoicismo, em particular, fundamenta-se historicamente num rigoroso monismo materialista panteísta. Para os filósofos estoicos da Antiguidade, como Zenão de Cítio, Crisipo, Séneca, Epicteto e Marco Aurélio, a realidade compreende uma única substância e o universo físico é idêntico a Deus. Nessa visão, tudo o que existe - incluindo virtudes, afetos e a própria alma - possui natureza corporal.
A estrutura do monismo estoico organiza a matéria única a partir de dois princípios inseparáveis: o princípio passivo, representado pela matéria inerte e moldável, e o princípio ativo, identificado como o Logos ou Pneuma (sopro racional e criador) que permeia e ordena o cosmos. Esta perspetiva resulta na sympatheia, a conceção de que todas as partes do universo estão interligadas por uma rede contínua de causa e efeito. Na ética estoica, esta unidade cosmológica justifica o dever de viver em conformidade com a natureza e aceitar a ordem do universo (Amor Fati), compreendendo o indivíduo como parte integrada de um todo único e racional.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Bella Figura, coreogrado por Jiří Kylián


Criada em 1995 para o prestigiado Nederlands Dans Theater (NDT), «Bella Figura» é amplamente considerada uma das coreografias mais belas e icónicas da dança contemporânea.
O título italiano (que se traduz por «bela figura» ou «manter as aparências») serve de ponto de partida para uma viagem hipnotizante pela dualidade entre a arte e a realidade, o corpo humano e a vulnerabilidade dos bailarinos.

Biografia

Página Oficial
Jiří Kylián

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Alphaville - Sounds Like a Melody


O Brilho Efémero de "Sounds Like a Melody": Uma Análise à Obra-Prima dos Alphaville
Lançada em 1984, "Sounds Like a Melody" permanece como um dos marcos indeléveis da Synth-pop europeia, distinguindo-se não apenas pela sua sonoridade, mas pela complexidade que esconde sob uma camada de sintetizadores vibrantes. Numa época em que a maioria das bandas do género utilizava a tecnologia de forma rudimentar para emular sons de cordas, os Alphaville elevaram a fasquia ao criarem uma orquestração eletrónica sofisticada que servia de moldura para uma narrativa profunda sobre a futilidade e a natureza efémera da fama. A canção vive, essencialmente, de um contraste fascinante: soa como um tema pop luminoso e cativante, mas a sua letra carrega uma melancolia densa sobre a vacuidade dos relacionamentos e do estrelato.

O âmago da composição explora a dicotomia entre a ilusão e a realidade. Enquanto o título e o refrão transportam o ouvinte para uma atmosfera onírica, sugerindo que algo "parece uma melodia" ou um sonho perfeito, o verso seguinte desfere um golpe de realismo ao afirmar que "é apenas uma memória" (but it's just a memory). Esta progressão lírica ilustra a sensação de que as experiências mais gratificantes podem ser superficiais e passageiras; é o equivalente musical a estar no auge de uma festa, plenamente consciente de que todo aquele brilho se extinguirá assim que as luzes se apagarem.

Esta visão crítica estende-se ao estilo de vida "Jet Set" dos anos 80, com Marian Gold a utilizar a ironia para dissecar a cultura das celebridades e o desejo desesperado de imortalidade. Através de versos como "Show me your moves / I'm looking for a vision", a banda reflete a busca incessante por uma imagem perfeita e por estímulos novos, algo que se tornou a norma com a ascensão da MTV. A música acaba por descrever encontros rápidos e intensos — romances de uma noite que, embora cinematográficos no momento, se revelam vazios de significado real.

Contudo, o aspeto mais subversivo de "Sounds Like a Melody" reside na sua natureza de metamúsica. Escrita sob forte pressão da editora discográfica para ser um êxito comercial imediato, a banda respondeu ao desafio com um gesto de rebeldia intelectual. Criaram a melodia "orelhuda" que lhes era exigida, mas inseriram nela uma letra que questiona precisamente a "música vazia" e descartável produzida pela indústria fonográfica. Ao cantar sobre palavras vãs e melodias que desaparecem, os Alphaville estavam, na verdade, a comentar a própria engrenagem comercial de que faziam parte, elevando um simples tema de rádio ao estatuto de crítica social intemporal. Videoclipe original e letra


Sounds Like a Melody (versão longa)
(Alphaville)

It’s a rendition of a dream
A fish-eye lens or a golden beam
The stars are playing on a silver screen
In a movie that I've never seen

Show me your moves
I'm looking for a vision
The only rule is: no more rules
And I'm on a mission

[Chorus]
It's a way you look
It's a way you feel
It sounds like a melody
But it's just a memory
It's a way you look
It's a way you feel
It sounds like a melody
But it's just a memory

Your lipstick on my cigarette
The shadow of a silhouette
The music's over and the sun is set
But I'm not ready for a sunrise yet

Show me your moves
I'm looking for a vision
The only rule is: no more rules
And I'm on a mission


[Chorus]

A versão orquestrada de "Sounds Like a Melody" é, para muitos críticos e fãs, a realização plena do potencial que a canção já demonstrava em 1984. Embora a versão original usasse sintetizadores para emular cordas, o projeto "Eternally Yours" (lançado em 2022) permitiu que a banda gravasse o tema com a German Film Orchestra Babelsberg.

Se a versão original de "Sounds Like a Melody" já era audaz pela sua tentativa de mimetizar a grandiosidade clássica através da eletrónica, a reinterpretação orquestral incluída no álbum Eternally Yours eleva o tema a uma nova dimensão cinematográfica. Ao substituir as texturas digitais por uma orquestra real, os Alphaville não se limitaram a fazer uma "cobertura" sinfónica de um êxito antigo; eles despiram a canção da sua armadura tecnológica para revelar a sua essência dramática.

Nesta versão, a introdução de cordas reais confere uma gravidade que o sintetizador dos anos 80, por mais sofisticado que fosse, não conseguia alcançar totalmente. O crescendo orquestral acentua o tom de tragédia e futilidade da letra, transformando o que era um "êxito de discoteca" num verdadeiro poema sinfónico. A voz de Marian Gold, agora mais madura e profunda, navega sobre os arranjos com uma autoridade que reforça a ironia e a melancolia da composição original. É, em muitos aspetos, o fechar de um ciclo: a canção que foi escrita sob pressão para ser um "produto comercial" acabou por se transformar, décadas depois, numa peça de arte erudita, provando que a boa música pop sobrevive a qualquer roupagem estética.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Slow Meadow - Borderland Sorrows


Slow Meadow é o nome artístico do músico Matt Kidd, um artista de nacionalidade americana que vive em Houston, no Texas. Em "Borderland Sorrows", 3ª música do álbum Costero (2017), Kidd utiliza uma instrumentação delicada que combina pianos suaves, arranjos de cordas profundos e camadas eletrônicas atmosféricas. O estilo musical é marcado por uma sonoridade introspectiva e contemplativa, feita para evocar estados de melancolia e paz, resultando em composições que funcionam como paisagens sonoras para momentos de reflexão ou foco.

O projeto foi apadrinhado por Marc Byrd, da icónica banda de post-rock Hammock, o que explica a alta qualidade da produção atmosférica.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Yuri Pysar

"Lacy morning", 2015

Yuri Pysar (pintor Ucraniano, nascido em 1985)

Estilo artístico: 
Yuri Pysar desenvolveu um estilo pessoal que combina elementos de pintura figurativa e abstracta, com forte foco no movimento e na cor.

Muitas das suas obras — especialmente da série “Ballet” — tendem à abstração e expressão emocional através da cor e da forma. 

Em vários trabalhos, utiliza traços que lembram Expressionismo abstrato e pós-impressionismo. 

Temas principais
Pysar explora sobretudo:

1. A forma humana e o movimento
Através de séries sobre bailarinas e dança, ele investiga a estética e a expressividade do corpo em movimento e o “universo interior” do ser humano. 

2. O interior emocional do indivíduo
As suas obras frequentemente buscam transmitir estados interiores e sensações em vez de descrever apenas uma realidade exterior.

3. Natureza, paisagens e flores
Pysar pinta paisagens e naturezas-mortas, muitas vezes como estudos de cor e composição que influenciam as suas séries figurativas.

Técnica:
Usa principalmente óleo sobre tela, explorando camadas de cor para criar profundidade, vibração e harmonia visual. 
Também trabalha com acrílico em algumas peças, sobretudo em trabalhos mais abstratos.
A sua técnica valoriza cor pura, ritmo visual e nuances de tom como meio de expressão concreta do sentimento e da forma.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Brigitte Bardot: polémicas, grandes paixões, drogas e lutas. Recorde a lenda do cinema francês, que acabou sozinha e abandonada pelo filho


"A Fundação Brigitte Bardot anuncia com profunda tristeza a morte da sua fundadora e presidente, Madame Brigitte Bardot, atriz e cantora mundialmente reconhecida, que escolheu abandonar a sua prestigiada carreira para dedicar a sua vida e energia ao bem-estar animal e à sua fundação".

Foi assim que o mundo soube, este domingo, dia 28, da morte de Brigitte Bardot, aos 91 anos de idade.

Musa dos maiores cineastas e músicos franceses, de Godard a Gainsbourg, BB, como era conhecida, foi símbolo de libertação sexual e da emancipação da mulher e ícone da sétima arte, tendo participado em 47 filmes em pouco mais de duas décadas.

Nascida em 1934 numa família parisiense rica e educada numa escola católica, a jovem Brigitte recebeu uma educação particularmente rigorosa. Desde a infância, foi incentivada a dançar pela sua mãe, Anne-Marie. A dança viria a 'esculpir' o seu famoso corpo, a sua graça e elegância, mas foi diante das câmeras que BB encontrou a sua vocação.

Com apenas 15 anos, foi capa da revista 'Elle', graças a um pedido especial da sua mãe a uma amiga, que era editora da revista. Foi assim que conseguiu a sua primeira audição para um filme do realizador Marc Allégret, onde viria a conhecer e a apaixonar-se pelo seu assistente, Roger Vadim.

Os dois casaram em 1952, quando BB tinha 18 anos, e separaram-se em 1956. Foi Vadim quem deu a BB o seu primeiro grande papel - e um dos mais icónicos da sua carreira - depois de algumas participações menores: 'E Deus Criou a Mulher', que foi um sucesso mundial que catapultou a carreira da jovem atriz.

Provocativa e moderna, livre e sensual, num piscar de olhos Brigitte Bardot tornou-se um símbolo sexual, uma estrela de cinema e um dos rostos mais famosos do planeta.

Depois de 'Une Parisienne' e 'Babette s'en va-t-en guerre', BB protagonizou 'La Vérité' em 1960, uma produção extremamente desgastante durante a qual foi maltratada pelo realizador, Henri-Georges Clouzot. O filme foi um sucesso, mas terá sido o início do desencanto de BB com o mundo do cinema. Em apenas três anos, a atriz fora alvo de todo o tipo de comentários, tanto admirada como insultada.

A tentativa de pôr fim à vida
No meio do turbilhão que foram os primeiros anos da sua carreira, com a fama súbita e as más-línguas sobre os seus inúmeros 'affairs' e a sua imagem sexual, BB chegou mesmo a tentar o suicídio e também recorreu às drogas, tendo tido uma overdose em 1958.

A própria atriz admitiu que as suas relações nunca duravam muito porque fartava-se rapidamente. "Sempre procurei paixão. Era por isso que era muitas vezes infiel. Quando a paixão começava a desaparecer, ia fazer as malas", contou.

Depois de Vadim, BB foi casada mais três vezes, com Jacques Charrier - o pai do seu único filho, Nicolas-Jacques, com quem nunca teve uma relação próxima por nunca ter realmente querido ser mãe - com o milionário Gunter Sachs e com Bernard d'Ormale, a sua relação mais duradora. Pelo meio ficaram inúmeros romances e affairs extraconjugais, entre os quais com o ator Alain Delon ou o músico Sacha Distel. Relações "oficiais" terão sido 17, segundo contas da própria atriz.

BB chegou também a fazer carreira na música, com êxitos como 'Harley-Davidson' e 'Bonnie and Clyde' e, em 1973, decidiu abandonar de vez o mundo do cinema, com apenas 38 anos. No set do seu último filme, a atriz, prestes a reformar-se, resgatou uma cabra. E os animais tornaram-se então a sua maior paixão.

Em 1976, dedicou-se integralmente à defesa das focas, abatidas por sua pele, um produto de luxo que Brigitte Bardot conseguiu banir em França e, posteriormente, na Europa.

Em 1986, criou então a Fundação Brigitte Bardot, à qual dedicaria todo o seu tempo e fortuna, envolvendo-se nas mais variadas campanhas de bem-estar animal, por vezes de forma radical.

Nas últimas décadas, BB escolheu retirar-se da vida pública e viver em reclusão na sua propriedade em Saint-Tropez.

A aproximação à extrema-direita
Os seus últimos anos ficaram marcados por posicionamentos controversos, entre os quais o seu apoio público a Marine Le Pen. Mas estas polémicas também faziam parte da liberdade de Bardot.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Anne Teresa De Keersmaeker - Rosas danst Rosas


Leitura simbólica e filosófica de Rosas danst Rosas

1. O corpo como linguagem e pensamento
Anne Teresa De Keersmaeker parte da ideia de que o corpo pensa — que o gesto é uma forma de raciocínio.
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo deixa de ser mero instrumento expressivo e torna-se um sujeito que reflete, insiste e questiona.
A repetição de movimentos banais (mexer o cabelo, cruzar as pernas, cair, reerguer-se) torna-se uma meditação física sobre a existência:

“Sou corpo, logo insisto.”
Assim, a peça aproxima-se de uma fenomenologia do corpo, no sentido de Merleau-Ponty — o corpo como modo de estar-no-mundo, como consciência encarnada.

2. Repetição e diferença
A repetição obsessiva dos gestos não é redundante; é criadora.
Inspirada no pensamento de Gilles Deleuze, podemos ver aqui uma “repetição que gera diferença”:
cada volta, cada gesto repetido, transforma-se subtilmente — porque o tempo, o corpo e a intenção mudam.
A dança torna-se um laboratório da diferença no seio do idêntico.

Esta repetição também evoca o ciclo da vida: o nascer, o cansar-se, o recomeçar — um ritmo existencial que espelha o modo como o ser humano insiste na construção do sentido.

3. O feminino como resistência
A presença de quatro mulheres que dançam até à exaustão é simultaneamente um gesto de poder e vulnerabilidade.
Os gestos femininos, por vezes sensuais ou domésticos, são reapropriados e amplificados, libertando-os da sua carga social ou sexualizada.
A mulher não é objeto, mas sujeito da sua própria repetição.
O corpo feminino, ao resistir à fadiga e à monotonia, afirma-se como força criadora, como uma espécie de revolta silenciosa.
Neste sentido, a obra pode ser lida como um manifesto feminista do corpo — não por representar “a mulher”, mas por fazer do corpo feminino um espaço de pensamento e autonomia.

4. O tempo e a duração
A peça é também uma reflexão sobre o tempo vivido — o tempo que não corre “para a frente”, mas que se dobra, se repete, se expande.
O tempo na dança é corporal: o público sente o peso da duração, o tédio que se transforma em transe.
Há aqui um eco de Henri Bergson, que via a duração (durée) como uma experiência interior, fluida e não mensurável.
“Rosas danst Rosas” faz o espectador sentir o tempo como matéria física, como respiração, como desgaste e renascimento.

5. A coletividade e o indivíduo
As quatro intérpretes formam uma unidade, mas cada uma tem um ritmo ligeiramente distinto — como vozes de um mesmo coro.
Simbolicamente, isso reflete o tenso equilíbrio entre o coletivo e o singular, entre o eu e o outro.
É uma metáfora da coexistência humana: seres que repetem o mesmo padrão, mas cada um à sua maneira, num mundo que partilham.

6. A estética do essencial
De Keersmaeker retira tudo o que é decorativo. O cenário é austero, o figurino simples, os movimentos mínimos.
Esse despojamento é ético — é uma busca pela verdade do movimento, pela essência da presença.
Nesse sentido, a coreografia aproxima-se de uma espiritualidade laica, onde o gesto repetido se torna ritual e meditação.

7. Síntese filosófica
Em “Rosas danst Rosas”, o corpo:
  1. Pensa (fenomenologia do gesto);
  2. Repete e transforma (Deleuze: diferença na repetição);
  3. Resiste e afirma-se (feminismo existencial);
  4. Habita o tempo (Bergson: duração vivida);
  5. Partilha e coexiste (ética do coletivo).
A obra, portanto, é uma metáfora do ser humano no mundo: persistente, cíclico, sensível, vulnerável e criador.
É uma dança da existência — onde o movimento é pensamento e o cansaço é revelação.

Saber mais:
Henri Bergson, vitalismo e teoria social

domingo, 12 de outubro de 2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Gavanaya - Excelente intérprete


Incorporando elementos do jazz espiritual e da instrumentação clássica indiana, a artista Ganavya, nascida em Nova Iorque e criada em Tamil Nadu, revela um videoclipe meditativo para a sua mais recente faixa, Pasayadan, realizado por Vali Chandrasekaran. Extraído do novo álbum Nilam, lançado pela Leiter, a cantora e artista transdisciplinar inicia uma profunda contemplação, em contraste com a natureza, comunicada através de vocais pungentes e movimentos expressivos do bailarino David Adrian Freeland Jr.

"O Pasayadan", explica Ganavya, "é um abhang da tradição da peregrinação. É uma das últimas orações que cantamos, onde o jovem santo reza para que o sol nasça em todos os corações frios, pela sabedoria de nos vermos como árvores que realizam desejos, para que sejamos santuários uns dos outros, para que nos lembremos de que somos os verdadeiros templos uns dos outros. Tratas a crueldade como uma doença. Introduz uma suavidade na vida. Para mim, dada a minha vida particular, é uma suavidade que salva-me."

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dulce Pontes - Na Língua Das Canções



Não te posso amar
Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento
O meu pensamento
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

Ao olhar pra ti
Sei que te escolhi
Porque foste rio
Dei as mãos aos abraços e a boca aos beijos que eu ousei sonhar
Sou irmã de tudo, amor
O meu canto é mudo, amor
Se eu não conseguir
Chorar e sorrir
Sempre que cantar

Mas eis que o coração
Se torna transparente
Eis que o coração
Abriga os temporais que nascem no mar
E tudo é ser capaz de traduzir na língua das canções
Na minha voz
Na tua voz
O som da água a passar

Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento, amor
O meu pensamento, amor
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

A música 'Na Língua das Canções' de Dulce Pontes é uma ode à conexão profunda entre o ser humano e a natureza, bem como à capacidade de expressar emoções através da música. A letra começa com a cantora questionando se a pessoa amada já foi um rio, simbolizando a fluidez e a transformação. Ela se identifica como irmã do vento, sugerindo uma ligação íntima com os elementos naturais e a liberdade que eles representam. A ideia de que o pensamento só se torna canção ao sentir-se irmão do que quer cantar reforça a necessidade de uma conexão genuína e profunda para a verdadeira expressão artística.

Ao longo da música, Dulce Pontes explora a escolha do amor e a reciprocidade emocional. Ela menciona que escolheu a pessoa amada porque esta já foi um rio, o que pode ser interpretado como uma escolha baseada na capacidade de transformação e adaptação. A cantora também fala sobre a importância de sentir e expressar emoções, afirmando que seu canto se torna mudo se ela não conseguir chorar e sorrir ao cantar. Isso destaca a autenticidade emocional como um componente essencial da arte e da vida.

A metáfora do coração que se torna transparente e abriga os temporais que nascem no mar sugere uma vulnerabilidade e uma abertura para as emoções intensas. A música conclui com a ideia de traduzir essas emoções na língua das canções, utilizando a voz como um meio de comunicação universal. A repetição de elementos naturais como o rio, o vento e o mar ao longo da letra reforça a ideia de que a natureza e as emoções humanas estão intrinsecamente ligadas, e que a música é uma forma poderosa de expressar essa conexão.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Dia Mundial do Refugiado - Ahmad Joudeh Dance


Ahmad Joudeh é um bailarino e coreógrafo holandês. Ele nasceu e foi criado como refugiado apátrida na Síria. Mudou-se para a Holanda com a ajuda da Companhia Nacional Holandesa de Ballet em 2016. Atualmente atua internacionalmente como artista. Em 2021, obteve a cidadania holandesa.

É importante celebrarmos o Dia Mundial do Refugiado porque as pessoas precisam de perceber o que os outros estão a passar e parar de tratar mal as pessoas consideradas refugiadas. Guerras, conflitos e outras dificuldades podem destruir a realidade de uma criança nos dias de hoje. Podemos ajudá-las a salvar o seu futuro.

Gostava que não ouvíssemos a palavra "refugiado" o tempo todo. A rotulagem tem um impacto enorme. Eu cresci a ser chamado de "refugiado" o tempo todo. O que é um "refugiado"? Como pode uma criança pequena compreender o conceito de "refugiado"?

As crianças não compreendem o que está a acontecer se elas e as suas famílias precisam de fugir e estão em constante movimento. E não conseguem perceber se vivem noutro país e continuam a ser chamadas de "refugiadas". Até quando uma pessoa pode ser considerada "refugiada"?

É a complexidade da pertença. As pessoas apoiam-se em rótulos para criar uma divisão, para fazer com que os outros pareçam inferiores e excluí-los sistematicamente.

Como podemos ser tão cruéis e deixar uma criança crescer sentindo que nunca pertence a lado nenhum? Que nunca se sentirá em casa e que não se poderá sentir segura.
Uma mudança não pode começar com ações de sistemas ou governos, mas precisa de começar na mente das pessoas.

As pessoas devem começar a reparar na forma como se olham e se tratam. Para isso, cada pessoa precisa de começar por si própria.
Entrevista aqui

quinta-feira, 29 de maio de 2025

M83 - Wait


Send your dreams
Where nobody hides
Give your tears
To the tide
No time
No time

There's no end
There is no goodbye
Disappear
With the night
No time
No time

A canção foi apresentada no nono episódio da série televisiva The Secret Circle, em 2011, e no episódio 14 da quinta temporada de Gossip Girl, The Backup Dan. A canção foi também apresentada no filme Step Up Revolution e no episódio 14 da primeira temporada de "Revenge", em 2012. 

"Wait" foi apresentada na homenagem de fim de ano da Turner Classic Movies, "TCM Remembers", em 2012, que homenageou todos os profissionais do entretenimento que faleceram nesse ano.

Em 2013, a música foi apresentada na série de TV dramática de ficção científica Under The Dome, no episódio 7 da primeira temporada.

O produtor musical norueguês Kygo fez um remix gratuito da música, que lançou em 2014. Mais tarde, lançou o remix oficialmente como uma nova edição no seu quinto álbum, "Kygo", lançado em junho de 2024.

A música teve destaque no filme "A Culpa é das Estrelas", de Josh Boone, de 2014, que este solicitou que fosse incluída como uma das músicas do filme. Também em 2014, a música foi apresentada no final do filme "Perfect Sisters" e no episódio cinco da sexta temporada de "The Vampire Diaries".

A música foi utilizada no bailado de 2018 "Hour Up, We're Dreaming".  Além disso, o episódio 1 da primeira temporada da série Ragnarok da Netflix apresenta esta música logo no início, durante a abertura.

A música foi utilizada no documentário "Chasing the Moon", da PBS American Experience, de 2019, um filme de Robert Stone, que apresenta a corrida humana à lua para uma nova geração com mitologia convencional e no filme de 2019 "Five Feet Apart".

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Música do BioTerra : Suzane - Je t'accuse

Este vídeo conta com o apoio de vítimas de violência sexista e sexual e ativistas que escolheram unir-se para fazer com que suas vozes e as de todas as vítimas sejam ouvidas


[Couplet 1]
D'abord y a eu Gisèle
Et puis y a eu Sophie
Isa, Khadija et Marie
Et ma copine Claire
Et puis y a moi aussi
Et puis toutes celles qui n’ont jamais rien dit

[Pré-refrain]
Mais t'en as rien à faire, toi
Ce sera qu'un nom d’plus sur la liste
Dans un fait divers, dans un tiroir
Des tonnes de vies classées sans suite
Mais tu vas rien faire, toi
Et c'est bien ça le problème
Justice, est-ce qu'on doit te faire nous-même ?

[Refrain]
Car je t'accuse (ah)
De fermer les yeux alors que t'as tout vu
Je t'accuse (ah)
Fais pas l'innocent, t'as rien fait quand t’as su
Je t’accuse (ah)
Main droite levée
Je t'accuse (ah)
Et j’assume (ah)

[Couplet 2]
T'étais où ?
Sûrement qu't'existes pas
Pourquoi t’es jamais là quand on n'croit plus qu'en toi ?
Demande à tous les gosses que tu n'protèges pas
Tous les monstres ne sont pas que dans les salles de cinéma

[Pré-refrain]
Mais t'en as rien à faire, toi
Ce sera qu'un nom d'plus sur la liste
Dans un fait divers, dans un tiroir
Des tonnes de vies classées sans suite
Mais tu vas rien faire, toi
Ou faudrait qu'on t'harcèle
Justice, est-ce qu'on doit te faire nous-même ?

[Refrain]
Car je t'accuse (ah)
De fermer les yeux alors que t'as tout vu
Je t'accuse (ah)
Fais pas l'innocent, t'as rien fait quand t'as su
Je t'accuse (ah)
Main droite levée
Je t'accuse (ah)
Et j'assume (ah)
Et j'assume (ah)
Pour toutes celles que la violence a condamnées au silence
Je t'accuse (ah)
Pour celles qu'avaient prévenu mais que t'as jamais entendues
Je t'accuse (ah)
Pour celles qui prennent la plus lourde des peines
Pour les victimes de ton système (ah)
(Ah)
Je t'accuse
Et j'assume

La totalité des droits éditoriaux de cette chanson sera reversée à la Fondation des Femmes en soutien à leurs combats. Merci à eux et tout particulièrement à Jessica Ohayon pour son aide sur la mise en place de ce projet.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Death In Rome - Wide Open (The Chemical Brothers - Cover)


O butô ou ainda Ankoku Butô é uma dança que surgiu no Japão pós-guerra e ganhou o mundo na década de 1970. Criada por Tatsumi Hijikata na década de 1950 o butô é também inspirado nos movimentos de vanguarda, expressionismo, surrealismo, construtivismo, entre outros. Wikipédia

Original

The Chemical Brothers - The Making Of Wide Open