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sexta-feira, 24 de julho de 2026

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mais de 3.000 mortos e 13 milhões afetados por fenómenos climáticos em África em 2025

Mais de 3.000 pessoas morreram e 13 milhões foram afetadas devido aos fenómenos meteorológicos e climáticos extremos em 2025 no continente africano, disse hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Estes fenómenos causaram “impactos em cascata em todos os setores da economia e da sociedade” africana, com os sinais das alterações climáticas “visíveis em toda a África, desde o aumento das temperaturas e da subida do nível do mar até às cheias e secas devastadoras”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, a propósito do relatório divulgado hoje por esta agência especializada das Nações Unidas.

“Este relatório evidencia não apenas a dimensão dos riscos, mas também a crescente importância dos alertas precoces, dos serviços climáticos e da ação coordenada para proteger vidas e meios de subsistência”, sublinhou a responsável.

Segundo o relatório, que reúne contributos de dezenas de especialistas, serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, centros climáticos e parceiros do sistema das Nações Unidas, “o continente continua a ter dificuldades em lidar com estes impactos e apenas 40% dos países dispõem de sistemas de alerta precoce multirriscos, essenciais para salvar vidas e meios de subsistência”.

Ainda assim, enalteceram as melhorias no reforço da cooperação entre os serviços meteorológicos, os organismos de gestão de catástrofes e as autoridades locais, bem como os progressos nos serviços climáticos, como as previsões sazonais.

No mesmo relatório, a OMM detalhou que, em 2025, a temperatura média anual do ar à superfície em África ficou 0,51 graus centígrados acima da média do período 1991-2020.

Por outro lado, os glaciares africanos perderam mais de 90% da sua área desde o final do século XIX. No Monte Kilimanjaro, a área glaciar diminuiu de 11,4 quilómetros quadrados (km²) em 1900 para menos de 1 km² nos últimos anos.

Já o aquecimento dos oceanos prossegue em todo o continente, embora em 2025 o conteúdo térmico dos oceanos e a temperatura da superfície do mar tenham sido inferiores aos níveis recorde observados em 2023 e 2024, com a subida do nível do mar ao longo das costas africanas entre 1999 e 2025 a ultrapassar a média mundial de 3,6 milímetros por ano em várias regiões.

Quantos aos países lusófonos, foram registados totais anuais de precipitação acima da média na maior parte da África Austral em particular, Moçambique.

A agência recordou ainda que ciclones tropicais e as cheias afetaram várias zonas da África Austral no início de 2025.

“Moçambique foi atingido pelos ciclones Dikeledi, em janeiro, e Jude, em março, agravando os impactos já provocados pelo ciclone Chido, em dezembro de 2024”, recordou, detalhando que “mais de um milhão de pessoas foram afetadas pela passagem do Jude em Moçambique, tendo sido registadas 16 mortes e mais de 492 mil deslocados”.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Iniciativa Liberal (IL) apresentou uma proposta para dinamitar a Lei de Bases do Clima


Por Nelson Peralta, Biólogo.
A Iniciativa Liberal (IL) apresentou uma proposta para dinamitar a Lei de Bases do Clima. Argumenta que o faz porque o contexto geopolítico agora é diferente. Desculpa de mau pagador, já que em 2021 foi o único partido a votar contra a lei. A IL era já nessa altura uma ferrenha adepta do não há emergência climática, libertem os negócios. Vejamos então quão erradas e desajustadas são as suas propostas para este mundo em mudança.

O argumento central é que a crise energética europeia e a instabilidade geopolítica devem levar à retirada da orientação para as energias renováveis. Nada mais errado. Neste mundo em mudança, o que garante a segurança de abastecimento é a produção local, de fontes energéticas renováveis existentes e interligações solidárias. Energia que não é preciso importar do outro lado do mundo e com reduzida pegada ambiental. O erro da Europa foi a falta de investimento público e a ausência de uma estratégia orientada para a autonomia energética (e simultaneamente para a neutralidade climática). Tornou-se refém do petróleo e do gás de outros, das suas vontades, de conflitos económicos e de envolvimento numa História de guerras para os garantir.

A IL não quer a soberania energética e a segurança das populações, quer a liberdade do negócio. Sejamos claros, a soberania e segurança energética não são condições que o mercado dará a um país. Essa construção depende de decisões de planeamento democrático. Só assim se garante que as escolhas protegem as comunidades e não os donos do negócio. A descentralização da produção - que a IL quer apagar - é também uma arma poderosa para esse fim.

Outra das panaceias que a IL apresenta é a aposta em soluções de captura, utilização e armazenamento de carbono. É a política de que a tecnologia serve para resolver os problemas de um modelo insustentável, para não o mudar, para manter o business as usual. E faz esta proposta depois de conhecermos tantos casos mundiais  de fraude nas contas do carbono capturado.

Mas esta discussão entronca num tema mais vasto: a discussão internacional sobre a prioridade ao financiamento à mitigação ou à adaptação. Aqui, numa versão ainda mais direta. Escolhemos financiamento público (sim, estas coisas levam sempre subsídios) para o norte global construir armazenamento falível de carbono. Ao mesmo tempo, deixamos destruir os sorvedouros naturais de carbono, as grandes florestas, maioritariamente localizadas no sul global, por subfinanciamento ou para produzir carne ou vegetais para o comércio internacional de mercadorias.

A Lei de Bases do Clima foi um grande avanço para o país, apesar de muitas das suas lacunas, de uma orientação demasiado para “o mercado resolve” e de muito ainda não ter saído do papel. A proposta da IL retira as políticas climática da esfera da democracia e coloca-as na mão do mercado. Foi assim que chegamos a este ponto de crise climática…E a IL desprotege o país neste mundo em mudança, não garantindo uma capacidade de planeamento, investimento público, de capacidade de saber e produzir, de uma política de pleno emprego, de redução da jornada laboral, de ciclos curtos de produção, de uma política industrial para suprir as necessidades sociais, em suma, de mudanças significativas que mudem a vida para melhor e resolvem a crise climática.

Entretanto tenho aqui um pequeno resumo do projeto de lei da IL. Reconhecimento da emergência climática? Afuera. Fontes de energia renováveis? Afuera. Direitos de âmbito climático? Afuera. Compete ao Estado a realização da política climática, através dos seus órgãos e da mobilização dos cidadãos e agentes sociais e económicos? Afuera. Planos municipais de ação climática? Afuera. Estatuto refugiado climático? Afuera. Estudar antecipação da neutralidade de 2050 para 2045? Afuera. Metas de mitigação? Afuera. Planos de mitigação? Afuera. Planos de adaptação? Afuera. Avaliação de impacte legislativo climático? Afuera. Áreas de áreas de interdição de extração de recursos minerais e sujeita a avaliação ambiental estratégica os projetos de mineração? Afuera. Fim de novos carros a combustíveis fósseis? Afuera. Substituição de fertilizantes químicos sintéticos por orgânicos? Afuera. O Estado promove políticas de envolvimento da comunidade piscatória na prevenção e combate aos resíduos marinhos? Afuera. Normas do Carbon Border Adjustment Mechanism da União Europeia? Afuera.

O problema climático não são as exigências democráticas sobre a produção. São uma sociedade de extração máxima, divisão internacional do trabalho e comércio global de mercadorias, tudo em nome do lucro máximo e não do bem comum. E o problema é desigualdade a mais, na economia e nos impactos climáticos. E o nível de desigualdade vai aumentar com a necessidade de recursos naturais e energia para a corrida à inteligência artificial. Há que resolver o problema da desigualdade e criar um novo mundo.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Dia Mundial do Refugiado - Ahmad Joudeh Dance


Ahmad Joudeh é um bailarino e coreógrafo holandês. Ele nasceu e foi criado como refugiado apátrida na Síria. Mudou-se para a Holanda com a ajuda da Companhia Nacional Holandesa de Ballet em 2016. Atualmente atua internacionalmente como artista. Em 2021, obteve a cidadania holandesa.

É importante celebrarmos o Dia Mundial do Refugiado porque as pessoas precisam de perceber o que os outros estão a passar e parar de tratar mal as pessoas consideradas refugiadas. Guerras, conflitos e outras dificuldades podem destruir a realidade de uma criança nos dias de hoje. Podemos ajudá-las a salvar o seu futuro.

Gostava que não ouvíssemos a palavra "refugiado" o tempo todo. A rotulagem tem um impacto enorme. Eu cresci a ser chamado de "refugiado" o tempo todo. O que é um "refugiado"? Como pode uma criança pequena compreender o conceito de "refugiado"?

As crianças não compreendem o que está a acontecer se elas e as suas famílias precisam de fugir e estão em constante movimento. E não conseguem perceber se vivem noutro país e continuam a ser chamadas de "refugiadas". Até quando uma pessoa pode ser considerada "refugiada"?

É a complexidade da pertença. As pessoas apoiam-se em rótulos para criar uma divisão, para fazer com que os outros pareçam inferiores e excluí-los sistematicamente.

Como podemos ser tão cruéis e deixar uma criança crescer sentindo que nunca pertence a lado nenhum? Que nunca se sentirá em casa e que não se poderá sentir segura.
Uma mudança não pode começar com ações de sistemas ou governos, mas precisa de começar na mente das pessoas.

As pessoas devem começar a reparar na forma como se olham e se tratam. Para isso, cada pessoa precisa de começar por si própria.
Entrevista aqui

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Transformando Tradições em Novos Ciclos


Hoje lembrei-me de África. Um super-continente riquíssimo de recursos naturais, mas politicamente cheio de regimes ditatoriais, milícias, refugiados, exploração e escravidão. Incontáveis os maus momentos, mesmo desumanos.
Quem vai a África fica marcado. Há uma sensação em nós que foi ali a diáspora do Homo Sapiens.
Os céus de dia são de um azul cobalto. Os céus de noite amplos e luminosos. Milhões de estrelas e galáxias.
O calor e o sorriso das gentes de várias tribos. Imensas lições de bondade e família quando regressamos.
O exotismo da fauna e flora também incluídos.
Os dias parecem demorar mais que 24 horas.
Porém as mudanças por uma democracia e autodeterminação dessas gentes são muito lentas e bem merecidas. Muito culpa nossa, o Norte Global e a China.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

'Shell sabia': filme de 1991 da gigante do petróleo alertou sobre o perigo das alterações climáticas


Filme de informação pública não visto há anos mostra que a Shell tinha uma compreensão clara do aquecimento global há 26 anos, mas não agiu de acordo desde então, dizem os críticos

Alterações climáticas “a um ritmo mais rápido do que em qualquer momento desde o fim da era glacial – mudanças demasiado rápidas, talvez para que a vida se adapte, sem perturbações graves”. Esse foi o alerta surpreendente emitido pela gigante petrolífera Shell há mais de um quarto de século.

O filme visionário da empresa de 1991, intitulado Climate of Concern, expôs com clareza cristalina como o mundo estava a aquecer e como poderiam resultar consequências graves.

“Ilhas tropicais que ainda hoje mal flutuam, primeiro tornadas habitáveis ​​e depois destruídas pelas ondas… planícies costeiras por todo o lado sofrem poluição de preciosas águas subterrâneas, das quais dependem tanta agricultura e tantas cidades”, diz o narrador do filme, sobre imagens perturbadoras de pessoas. afetados por desastres naturais e pela fome. “Num mundo populoso e sujeito a mudanças climáticas tão adversas, quem cuidaria desses refugiados do efeito estufa?”

O filme reconheceu as incertezas nas previsões do modelo computacional da época, mas observou que os vários cenários “havia gerado o mesmo aviso sério, um aviso endossado por um consenso excepcionalmente amplo de cientistas no seu relatório às Nações Unidas no final de 1990”. ”.

“O que eles prevêem não é um aquecimento global constante e uniforme, mas alterações nos padrões climáticos familiares e a frequência crescente de condições meteorológicas anormais”, advertiu. “Pensa-se que mares mais quentes podem tornar as tempestades destrutivas mais frequentes e ainda mais ferozes.”

“Quer a ameaça do aquecimento global se revele ou não tão grave como os cientistas prevêem, será demasiado esperar que possa funcionar como estímulo – o catalisador – para uma nova era de cooperação técnica e económica?” o filme termina. “Nossos números são muitos e infinitamente diversos. Mas os problemas e dilemas das alterações climáticas dizem respeito a todos nós.”

O filme foi feito para exibição pública, principalmente em escolas e universidades, mas acredita-se que não seja visto há muitos anos. Foi extraordinariamente presciente, segundo o professor Tom Wigley, que era chefe da Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia quando ajudou a Shell no filme de 1991.

“É incrível que isso tenha acontecido há 25 anos. Incrível”, disse ele. “Foi bastante abrangente sobre o que pode acontecer, quais são as consequências e o que podemos fazer a respeito. Quero dizer, não há muito mais.” Ele disse que as previsões para o aumento da temperatura e do nível do mar no filme de 1991 eram “muito boas em comparação com o entendimento atual”.

“O que é realmente surpreendente é que nada aconteceu [desde então] que nos faça duvidar da ciência tal como foi declarada então”, disse Tom Burke, do grupo de reflexão verde E3G e antigo membro do comité de revisão externa da Shell.

Mas as acções da Shell relativamente ao aquecimento global desde 1991, tais como grandes investimentos em areias betuminosas altamente poluentes e o lobby contra a acção climática, têm sido fortemente criticadas. Em 2015, foi acusado de se comportar como um “psicopata” pelo antigo enviado do Reino Unido para as alterações climáticas e de estar envolvido numa tentativa cínica de bloquear ações contra o aquecimento global. Até mesmo o antigo diretor-gerente do seu próprio grupo, Sir Mark Moody-Stuart, disse em 2015 que era “angustiante” que “muito pouco progresso” tivesse sido feito em matéria de alterações climáticas pela Shell e outras empresas petrolíferas.

“O filme mostra que a Shell entendeu que a ameaça era terrível, potencialmente existencial para a civilização, há mais de um quarto de século”, disse Jeremy Leggett, empresário de energia solar e ex-geólogo que já havia pesquisado depósitos de xisto com financiamento da Shell e da BP. .

“Até hoje vejo como eles defendem obstinadamente o aumento do uso de gás, daqui a décadas, apesar da evidência clara de que os combustíveis fósseis têm de ser completamente eliminados”, disse ele. “Sinceramente, sinto que esta empresa é culpada de uma forma moderna de crime contra a humanidade. Eles salientarão que não se comportaram de forma diferente dos seus pares, BP, Exxon e Chevron. Para pessoas como eu, que são muitas, isso não é defesa.”

Paul Spedding, ex-chefe global de petróleo e gás do HSBC e agora no thinktank Carbon Tracker, disse que cerca de metade da base de reservas da Shell é gás natural, o combustível fóssil com menor intensidade de carbono. “No entanto, o seu portfólio de petróleo pode ser uma bomba-relógio de areias betuminosas. As areias betuminosas, que representam quase 30% das reservas de petróleo do grupo, são significativamente mais intensivas em carbono do que o petróleo convencional. Do jeito que as coisas estão, a produção de petróleo da Shell está destinada a se tornar mais pesada, com custos mais elevados e com maior teor de carbono, o que dificilmente se enquadra na perspectiva descrita no vídeo da Shell.”

Na verdade, a Shell tinha conhecimento dos riscos das alterações climáticas ainda mais cedo. Um relatório “confidencial” da empresa escrito em 1986, também visto pelo Guardian, notou as incertezas significativas na ciência climática da época, mas alertou para a possibilidade de mudanças “rápidas e dramáticas” que “teriam impacto no ambiente humano, nos padrões de vida futuros e abastecimento alimentar, e poderá ter importantes consequências sociais, económicas e políticas”.

Em 1989, a Shell já tinha tido em conta os efeitos das alterações climáticas na construção de uma plataforma petrolífera . Mas no mesmo ano, a chamada Coligação Global para o Clima (GCC) foi formada pelas principais empresas petrolíferas, incluindo a operação norte-americana da Shell, Shell Oil. Fez forte lobby para lançar dúvidas sobre a ciência climática e opor-se à acção governamental e, em 1998, a Shell retirou-se, alegando diferenças “irreconciliáveis” .

No entanto, a Shell permaneceu membro de outro grupo de lobby empresarial que fez campanha contra a ação climática, o American Legislative Exchange Council, até 2015 e continua a ser membro da Business Roundtable e do American Petroleum Institute, que lutaram contra o Plano de Energia Limpa de Barack Obama.

A empresa afirmou que continua a ser membro de grupos que têm opiniões diferentes sobre a acção climática para os “influenciar” . Mas Thomas O'Neill, do grupo Influence Map, que acompanha o lobby, disse: “As associações comerciais e os grupos industriais estão lá para dizer coisas que a empresa não pode ou não quer dizer. É deliberadamente assim.”

A Shell também fez lobby directamente para minar os objectivos europeus em matéria de energias renováveis , um sector em que investiu, embora a um nível muito inferior ao do petróleo e do gás. Em 2016, a Shell lançou a sua divisão de Novas Energias , com gastos anuais inferiores a 1% do total de 30 mil milhões de dólares que a Shell investe em petróleo e gás.

Apesar do apoio público da empresa desde a década de 1990 aos impostos sobre o carbono para impulsionar cortes nas emissões, em 2015 fez lobby por isenções para a eletricidade que produz e utiliza , especialmente para as suas plataformas offshore de petróleo e gás.

Alguns dos investimentos da Shell hoje também são criticados por serem incompatíveis com a meta de aquecimento de 2°C acordada pelas nações do mundo. Um relatório do Carbon Tracker de 2015 concluiu que a empresa planeava investir mais de 75 mil milhões de dólares em tais projectos durante a década seguinte, parte de uma “bolha de carbono” na qual estão a ser desenvolvidas reservas que não podem ser queimadas se se quiser travar as alterações climáticas – uma preocupação partilhada pelo Banco de Inglaterra e pelo Banco Mundial .

Outro relatório do Carbon Tracker de 2016 citou um documento da Shell de 1998 que mostrava que a empresa estava ciente deste risco. “A Shell sabia dos riscos de uma bolha de carbono, mas não agiu de acordo”, afirmou o relatório. “Olhando para trás nos últimos 20 anos, parece que a Shell retrocedeu em termos de transparência e ainda está reciclando as mesmas velhas iniciativas verdes e tentando desviar a responsabilidade face a uma ameaça existencial ao seu negócio.”

A Shell foi uma das primeiras grandes empresas petrolíferas a reconhecer a necessidade de agir sobre as alterações climáticas e há muito que defende que fornecer energia a preços acessíveis era vital para o mundo e para o seu desenvolvimento. O filme de 1991 antecipou o problema: “Como poderiam os países [em desenvolvimento] continuar a avançar, mas ultrapassar a face do desenvolvimento com utilização intensiva de energia, através da qual outras nações prosperaram antes que as suas consequências adversas viessem à luz?”

Mas em 2015, o seu próprio comité de avaliação externo concluiu que o relatório de sustentabilidade da Shell não “transmitiu adequadamente a urgência desta transição [energética de baixo carbono]”. No início de Fevereiro, o CEO da Shell, Ben van Beurden, disse: “Acreditamos que as alterações climáticas são reais e acreditamos que serão necessárias medidas”.

Moody-Stuart, que também foi presidente da Shell entre 1998 e 2002, disse ao Guardian que as críticas generalizadas à empresa eram injustas. “Não creio que tenha sido feito o suficiente, mas não destacaria a indústria petrolífera. Os governos e outros têm alguma responsabilidade e a Shell e outros têm apelado a um preço para o carbono desde a década de 1990.”

“Não foi muito longe, mas isso não é culpa da Shell”, disse ele. “É bastante singular que uma indústria esteja realmente pedindo algo que aumentará o preço de seu produto, mas está pedindo isso porque é isso que é necessário para conduzir a indústria na direção certa.”

Burke, ex-chefe da Friends of the Earth, concordou que há um problema mais amplo. “É muito fácil culpar a Shell por ter feito tudo errado”, disse ele, já que houve “um fracasso social mais amplo”.

O relatório da Shell de 1986 afirmava que o problema das alterações climáticas era um problema que “em última análise, apenas os governos podem resolver”. Mas também observou, há mais de três décadas, que a indústria energética “tem interesses muito fortes em jogo e muita experiência para contribuir. Também tem a sua própria reputação a considerar, havendo muito potencial para ansiedade pública e atividades de grupos de pressão.”

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Perdem “saúde”, “educação” e a “infância”. Milhões de crianças em risco no Bangladesh por causa das alterações climáticas

Foto e notícia aqui
O relatório divulgado pela UNICEF refere que, embora o país tenha melhorado a sua resistência às alterações climáticas, a sua “topografia plana, densidade populacional e fracas infraestruturas tornam-no vulnerável a cheias, ciclones e outras calamidades ambientais”. As crianças, que representam 40% da população, são das mais afetadas, perdendo o acesso à educação e à saúde.

Mais de 19 milhões de crianças encontram-se em risco devido a desastres relacionados com as alterações climáticas no Bangladesh, alertou esta sexta-feira o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O relatório divulgado pela agência refere que, embora o país tenha melhorado a sua resistência às alterações climáticas, a sua “topografia plana, densidade populacional e fracas infraestruturas tornam-no vulnerável a cheias, ciclones e outras calamidades ambientais”. E as crianças, incluindo as da minoria muçulmana rohingya que fugiram de Myanmar (antiga Birmânia) e vivem em campos na zona sul do país (representam 40% da população total do Bangladesh), serão das mais afetadas. Quase 12 milhões encontram-se numa situação de grande vulnerabilidade face às frequentes inundações num país que tem uma quinta parte do seu território ocupado por rios e afluentes. “O perigo é extremo e é-o durante todo o ano”, refere Simon Ingram, autor do relatório, citado pela “Al Jazeera”.

As maiores cheias das últimas décadas no país deram-se em 2017, afetando cerca de oito milhões de pessoas. Pelo menos 480 clínicas de saúde ficaram inundadas, assim como quase 50 mil poços, essenciais para as comunidades que deles extraem água para as suas necessidades diárias.

O relatório alerta ainda para os riscos que correm as cerca de 4,5 milhões de pessoas que vivem nas zonas costeiras, frequentemente afetadas por ciclones, e outras cerca de três milhões que vivem no interior e têm de lidar com períodos de seca cada vez mais frequentes e intensos. “No Bangladesh, e também noutras partes do mundo, as alterações climáticas podem vir a reverter anos e anos de ganhos no que diz respeito à sobrevivência das crianças”, afirmou, por sua vez, a diretora-executiva da UNICEF, Henrietta Fore, a quem preocupam sobretudo as comunidades mais pobres, que não têm condições para lidar com quaisquer adversidades relacionadas com o clima, e as comunidades que, não o sendo, para lá caminham.

São citados dados no documento que indicam que o número de migrantes climáticos do Bangladesh irá passar dos atuais seis milhões para o dobro em 2050 e é dado um aviso: as famílias mais pobres vão continuar a abandonar as suas casas e comunidades para tentar sobreviver noutros sítios, nomeadamente em Dhaka, capital do país, onde as crianças acabam muitas vezes por cair em redes de exploração laboral (ou patrões que simplesmente as exploram), abusos variados e casamentos forçados. “Quando as famílias saem das suas casas por causa das alterações climáticas, as crianças perdem, efetivamente, a sua infância”, referiu o representante da UNICEF no Bangladesh, Edouard Beigbeder.