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terça-feira, 9 de julho de 2024

A biomimética é infinita – do velcro ao edifício Gherkin

O desenho da Torre Gherkin, em Londres, foi inspirado na esponja de cristal Euplectella aspergillum . Esta esponja especial possui um exoesqueleto em forma de treliça. 

O dicionário Priberam define a biomimética (de bio, “vivo” + mimético, “capaz de imitar”) como uma “área interdisciplinar que pretende utilizar na ciência os conhecimentos da estrutura biológica dos seres vivos”, acrescentando também que “biomimético” é aquele “que imita alguma coisa da natureza ou algum processo natural”. Por outras palavras, a biomimética consiste na aplicação do conhecimento sobre o mundo natural, principalmente ao nível da engenharia ou do design, para solucionar problemas ou suprir necessidades humanas. O termo, que substituiu outros mais antigos, foi cunhado por Otto Herbert Schmitt em 1957, na sua tese de doutoramento que apresentava um aparelho cujo funcionamento era baseado no funcionamento de um nervo de lula.

Desde quando existe a biomimética?
Podemos dizer que a biomimética sempre deve ter existido, pois o homem sempre se inspirou no que via na natureza para resolver problemas práticos. No entanto, a primeira figura que é descrita como tirando inspiração directa da natureza para desenvolver objectos é a figura semi-mitológica chinesa de Lu Ban, do fim da dinastia Zhou, por volta de 500 a.c., a quem é atribuído um sem número de invenções, incluindo a daserra, cuja inspiração seria proveniente de uma planta em que Lu Ban teria cortado acidentalmente a mão na borda em serrilha, percebendo então que poderia usar aquele padrão serrilhado para construir uma ferramenta que mais facilmente lhe permitisse cortar vários materiais.

Mais tarde, durante o Renascimento, Leonardo da Vinci cita explicitamente o voo das aves como inspiração directa para as suas máquinas voadoras, que nunca chegaram a ser construídas, fonte de inspiração essa que dizem ter sido comum também aos irmãos Wright que, no início do século XX, inventaram o primeiro avião controlado por um piloto.

Em 1851, Joseph Paxton cita as folhas dos nenúfares como inspiração para o padrão de vigas de metal cruzadas que suportam a estrutura do Palácio de Cristal construído para a Grande Exibição que ocorre nesse ano.

Quais são alguns exemplos relevantes da biomimética?
Muitos objectos que utilizamos no dia-a-dia tiveram inspiração directa da natureza. Uma das mais famosas é o velcro, uma invenção registada em 1955 pelo suíço Georges de Mestral que consiste em fitas de aspereza distinta que aderem uma à outra quando em contacto. O nome do invento entretanto tornado produto provém do francês velours (veludo) e de crochet (gancho) e teve como origem uma caçada em que o cão do futuro inventor ficou coberto de “ouriços”, pequenas sementes que aderem ao pelo dos animais a fim de se espalharem com mais eficiência. Mestral teve visão e decidiu, com sucesso, imitar o que observou na natureza.

Da mesma forma, um dos edifícios mais conhecidos de Londres, o Gherkin, teve como inspiração directa a esponja Euplectella aspergillum e o seu exoesqueleto silicioso (ver imagem no topo do artigo). Curiosamente, gherkin significa pepininho e a arquitectura do edifício da torre é apodada de neo-futurista, pós-moderna ou hi-tech.

Talvez se lembre também do sucesso da equipa olímpica de natação dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2008, que conquistou 98% das medalhas possíveis, devida em grande parte aos seus fatos desenvolvidos com o apoio da NASA: estes tinham inspiração directa na pele dos tubarões, cujas escamas especializadas criam zonas de baixa pressão que aumentam a sua velocidade na água. Este material apresenta também propriedades físicas que fazem com que seja muito difícil a fixação de bactérias na sua superfície, o que o torna apetecível para, por exemplo, uso em hospitais.

No Zimbabwe, cientistas inspiraram-se nos sistemas de refrigeração naturais das termiteiras para construir edifícios que se autoarrefecem, poupando assim grandes quantidades de energia na refrigeração e, por isso, com efeitos ambientais positivos.

Em 2015, o microbiólogo holandês Henrik Jonkers desenvolveu uma solução inspirada no corpo humano para cimento auto-reparador, recorrendo à adição à massa de bactérias produtoras de calcário, que se tornam activas quando em contacto com água.

Que futuro para a biomimética?
Embora muitas invenções sejam fruto de processos biomiméticos, podemos dizer que ainda estamos no início de uma verdadeira revolução. As aplicações de replicação de processos ou soluções naturais aos problemas humanos são infinitas, e apenas limitadas pelo nosso conhecimento da natureza. No entanto, isto também reforça a importância da preservação da biodiversidade e do seu estudo: quantas soluções para os nossos problemas estarão já presentes na natureza, e quantas já terão desaparecido da face da Terra antes que sequer soubéssemos da sua existência?

quarta-feira, 16 de março de 2016

Biomimética e desafios filosóficos e de ética ambiental


1. Introdução: o que é a biomimética?
A biomimética (ou biomimicry) é o campo que estuda modelos, sistemas e elementos da natureza com o objetivo de emular os seus princípios para resolver problemas humanos complexos, em ciência, engenharia, medicina ou arquitetura . O termo “biomimetics” foi cunhado por Otto Schmitt por volta de 1957, num contexto de eletrónica inspirada nos nervos, e entrou no dicionário Webster em 1974, descrevendo o estudo de materiais e mecanismos biológicos para síntese de análogos artificiais (discutido em Bhushan, 2009). Em termos etimológicos, deriva de biosbios (vida) e mimesismimesis (imitação), sublinhando a ideia de aprender com a experiência evolutiva acumulada pela biosfera ao longo de cerca de 3,8 mil milhões de anos . Esta perspetiva implica uma mudança epistemológica: em vez de dominar a natureza, procura‑se tratá‑la como modelo e “mentora”, avaliando também o desempenho ecológico das soluções (abordado na literatura de biomimicry)

2. Principais pensadores e consolidação do campo
Embora haja antecedentes em Leonardo da Vinci ou no desenvolvimento da aviação inspirada em aves, a biomimética moderna consolida‑se na segunda metade do século XX, com a formalização científica do termo e a emergência de comunidades interdisciplinares. Otto Schmitt, físico e biólogo, é frequentemente referido como o primeiro a usar “biomimetics” ao desenhar dispositivos eletrónicos que imitavam a condução nervosa. Posteriormente, o campo ganha visibilidade com trabalhos de engenharia e materiais que sistematizam “lições da natureza”, como o artigo de revisão “Biomimetics: lessons from nature - an overview”, que descreve a transição de simples analogias para estratégias de design baseadas em estruturas da escala nano à macro.

A figura pública mais influente na vulgarização contemporânea é Janine Benyus, bióloga e escritora, que populariza o termo “biomimicry” com o livro Biomimicry: Innovation Inspired by Nature(1997), contextualizado no perfil do Biomimicry Institute. Benyus propõe três papéis para a natureza - Modelo, Medida e Mentora - defendendo que as soluções inspiradas em sistemas naturais podem ser simultaneamente de alto desempenho e sustentáveis, ao emular princípios como uso eficiente de energia, ausência de resíduos e cooperação ecológica. Mais recentemente, autores como Hwang e colaboradores discutem a biomimética como vetor estratégico para o futuro da ciência, engenharia e medicina, no artigo “Biomimetics: forecasting the future of science, engineering, and medicine

3. Exemplos clássicos de biomimética
Alguns exemplos tornaram‑se canónicos na literatura, ilustrando como observações biológicas se traduzem em artefactos tecnológicos.
  1. Fatos de natação de baixo arrasto inspirados na microestrutura da pele do tubarão, que reduzem a resistência hidrodinâmica ao replicar saliências microscópicas (dentículos), descritos no artigo em 
  2. O velcro, desenvolvido a partir da observação de sementes de bardana cujos ganchos microscópicos aderiam ao pelo de animais, originando um sistema de fixação reversível e robusto.
  3. Perfis de asas de aviões e planadores inspirados em aves, onde a forma e distribuição de penas sugerem soluções aerodinâmicas para maior sustentação e controlo
  4. Estruturas arquitetónicas e de engenharia civil inspiradas em conchas ou esqueletos, como a espiral do búzio Turbo cuja geometria oferece resistência e estabilidade a cargas complexas.
Na área da robótica e da locomoção, o estudo de insetos, peixes e minhocas levou ao desenvolvimento de robots com múltiplas articulações e corpos flexíveis, capazes de navegar em ambientes complexos e confinados. Por exemplo, robots endoscópicos “soft” inspirados em minhocas utilizam materiais flexíveis e segmentados que permitem avançar dentro de lúmens corporais com menor dano tecidular, sendo aplicados em cirurgia minimamente invasiva 
4. Avanços recentes: materiais, nanoescala e medicina
Nas últimas duas décadas, a biomimética expandiu‑se particularmente em ciência de materiais e engenharia biomédica, com enfoque em superfícies funcionais, hidrogéis e interfaces hierárquicas. Revisões recentes apontam para o desenvolvimento de materiais biomiméticos capazes de emular microambientes celulares e funções tecidulares, incluindo hidrogéis, compósitos à base de colagénio, superfícies modificadas e aplicações em bioprinting 3D para engenharia de tecidos, como discutido em “Recent Advances in the Development of Biomimetic Materials”. Este artigo de 2023 sublinha que estes sistemas tentam reproduzir propriedades mecânicas, bioquímicas e topográficas da matriz extracelular, mas enfrentam ainda desafios na replicação da complexidade real de comunicação e motilidade celular.

Superfícies inspiradas em fenómenos naturais — como a lotus (autolimpeza) ou a pele de tubarão (antifouling) — influenciam o design de revestimentos antibacterianos, têxteis funcionais e dispositivos médicos mais resistentes à colonização microbiana. Na fronteira com a nanotecnologia, a integração de biomimicry permite criar sistemas de energia, sensores, dispositivos fotónicos e têxteis com melhor eficiência e menor impacto ambiental, tirando partido de estruturas periódicas e gradientes presentes em asas de borboletas, olhos de insetos ou cascas de diatomáceas.Em biomedicina, revisões recentes descrevem scaffolds vasculares “biomiméticos” baseados em misturas de gelatina, gellan e elastina, com propriedades elásticas, hidrofílicas e citocompatíveis semelhantes a vasos naturais, viabilizando aplicações em substituição ou regeneração vascular, como se lê em “Advances in Biomimetics: Combination of Various Effects at Different Length Scales for Innovative Developments in Biological and Bioinspired Systems

Paralelamente, a convergência entre biomimética, impressão 3D e inteligência artificial é apontada como fator‑chave para acelerar o design “bottom‑up” de sistemas artificiais com comportamento semelhante ao de tecidos vivos (discutido na secção sobre perspetivas futuras em ). Contudo, os autores enfatizam que a escalabilidade, reprodutibilidade e compatibilidade a longo prazo destes materiais continuam a ser obstáculos significativos, colocando em evidência a distância entre protótipos de laboratório e aplicação clínica ampla.

5. Desafios filosóficos e éticos
Para além da dimensão técnica, a biomimética levanta questões filosóficas e éticas sobre a relação humana com a natureza e sobre o uso de organismos como “catálogos de soluções”. Benyus e o Biomimicry Institute defendem que a disciplina deve incorporar explicitamente critérios de sustentabilidade, procurando não só eficiência, mas alinhamento com ciclos ecológicos e limites planetários. Isto implica avaliar se os materiais, processos e sistemas inspirados pela natureza, de facto, reduzem o consumo de recursos, a toxicidade e a produção de resíduos, em vez de apenas explorarem formas e mecanismos biológicos de modo instrumental.

Autores como Hwang et al. sublinham ainda o risco de “hiper‑otimismo” tecnológico, lembrando que muitas soluções biomiméticas permanecem em fase experimental e que a imitação parcial de mecanismos naturais pode ter efeitos imprevistos em contextos reais. Há, também, o desafio epistemológico de compreender verdadeiramente os princípios subjacentes aos sistemas vivos — muitas vezes não lineares, emergentes e contextodependentes —, o que exige abordagens interdisciplinares que cruzem biologia, física, engenharia, design e ciências sociais. Neste sentido, a biomimética pode ser vista tanto como estratégia de inovação tecnológica como convite a repensar a própria cultura técnica, aproximando formas de produção humana da lógica de ecossistemas maduros.

Referências bibliográficas
  1. Benyus, J. M. (1997). Biomimicry: Innovation Inspired by NatureBiomimicry: Innovation Inspired by Nature. New York: William Morrow.​
  2. Hwang, J. et al. (2015). “Biomimetics: forecasting the future of science, engineering, and medicine”. Nanotechnology, 26(12): 122001.​
  3. Bhushan, B. (2009). “Biomimetics: lessons from nature – an overview”. Philosophical Transactions of the Royal Society APhilosophical Transactions of the Royal Society A, 367(1893): 1445–1486.
  4. Ciulla, M. M. et al. (2023). “Recent Advances in the Development of Biomimetic Materials”. International Journal of Molecular SciencesInternational Journal of Molecular Sciences, 24(20): 15238.​
  5. Himel, M. H. et al. (2023). “Biomimicry in nanotechnology: a comprehensive review”. Nanoscale Advances.​
  6. Rosellini, E. et al. (2023). “Advances in Biomimetics: Combination of Various Effects at Different Length Scales for Innovative Developments in Biological and Bioinspired Systems”. International Journal of Molecular Sciences, 24(14): 11552.
Verbete geral “Biomimetics
Síntese enciclopédica “Biomimetics | Research Starters – Chemistry

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fritjof Capra: “Sobrevivência da Humanidade Dependerá da Nossa Alfabetização Ecológica”



Para o físico Fritjof Capra, Leonardo da Vinci, o génio da Renascença, seria hoje um aliado imprescindível na busca de soluções para o desenvolvimento sustentável. A sua síntese muito particular de arte, ciência e tecnologia – crê – ajudaria na compreensão dos mais importantes problemas socioambientais contemporâneos a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

“O conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos urgentemente de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenômeno natural e nos reconectem com a Terra”, disse o físico.

Principal teórico do pensamento sistêmico, Capra defende a ideia de que todas as formas de vida - das células mais primitivas até os seres humanos - se configuram seguindo um único princípio básico: o de organização em redes. Ao exemplificar as relações de interdependência na complexa “teia da vida”, o físico tem propalado uma forma de interpretar o mundo radicalmente distinta do humanismo individualista, que coloca o homem no centro do universo.

Segundo ele, em vez de buscar o que extrair da natureza, as pessoas devem aprender a partir dela. “Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica, da habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles”, ressalta.

Na visão de Capra, boa parte dos problemas atuais decorre do fato de a humanidade ter ignorado e interferido nos padrões e processos de relacionamento dos ecossistemas, que sustentam a vida. Para o autor de best-sellers como o “Tao da física”, “Ponto de Mutação” e “Conexões ocultas”, é possível revisar os valores do capitalismo e conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável.

“O mercado global funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia e a proteção ambiental. No entanto, esses mesmos fluxos financeiros e de informação podem ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política”, destaca.

Em entrevista a Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, Capra apresenta um repertório de ideias tão vasto quanto a sua proposta para a sustentabilidade. Saiba o que o físico pensa a respeito das novas tecnologias de informação, da economia global e do Brasil, entre outros assuntos.

Ideia Socioambiental: Como indivíduos e organizações devem atuar em rede? Quais são os desafios e benefícios dessa mudança?

Fritjof Capra: Hoje, a criação de redes sociais se tornou algo fácil. Nos últimos anos, as redes se transformaram no maior foco de atenção dos negócios e da sociedade, de maneira geral, como uma cultura global emergente. A internet é uma rede de comunicação poderosa e muitas das novas companhias da web atuam como uma interface entre redes de consumidores e fornecedores. Redes similares existem entre organizações não governamentais. Com as novas tecnologias de comunicação e informação, as redes sociais se tornaram todas extensivas, dentro e além das organizações. Teóricos organizacionais falam hoje de “práticas de comunicação” para se referir às redes sociais informais ou auto-geradas existentes em toda organização. São comunidades de pessoas que interagem com e se ajudam umas às outras para construir relacionamentos, e dar maior significado pessoal às atividades do dia-a-dia.

Dentro de cada organização, existe um cluster de comunidades de práticas interconectadas. Cada vez mais pessoas estão engajadas nessas redes informais e quanto mais sofisticadas elas forem, mais condições a organização terá de aprender respondendo criativamente a novas circunstâncias. A sobrevivência da organização reside na sua comunidade de práticas. O desafio para líderes empresariais não é criar redes dentro das organizações, mas conhecer e legitimar as redes informais já existentes.

IS: Como a sociedade deverá se adaptar à perspectiva sistémica na velocidade exigida para reverter problemas complexos como o do aquecimento global?

FC: O grande desafio de nosso tempo é criar e manter comunidades sustentáveis, concebidas de maneira que suas formas de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias não interfiram na habilidade inerente da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo nessa direção é o que chamo de “alfabetização ecológica”, a habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Se compreendermos os padrões de relacionamento que tornam os ecossistemas capazes de sustentar a vida, também entenderemos as muitas formas, padrões e processos que nossa civilização ignorou e interferiu neles. Assim, perceberemos que essas interferências são as causas fundamentais dos atuais problemas no mundo.

Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica que deve se tornar uma competência essencial para políticos, líderes empresariais e profissionais em todas as esferas. Ela também deve ser a parte mais importante da educação em todos os níveis – do ensino primário e secundário até ao ensino médio e superior, assim como na formação e treinamento contínuo de profissionais.

IS: Como o senhor avalia movimentos como o do biomimetismo, ascendente no mundo, especialmente no campo do design? Esse conceito ajuda as organizações a adaptarem seus modelos a uma perspectiva sistémica?

FC: A alfabetização ecológica é o primeiro passo rumo à sustentabilidade. O segundo é o design ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para um redesign fundamental das nossas tecnologias e instituições sociais, preenchendo a distância entre o design humano e os sistemas ecológicos da natureza.

Design, em um sentido mais amplo, consiste em moldar o fluxo de energia e matéria para propostas humanas. Já pelo design ecológico, as propostas são cuidadosamente entrelaçadas com os grandes padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização nos quais a natureza tem evoluído para sustentar a teia da vida. Praticar o design nesse contexto requer uma mudança fundamental em nossa atitude diante da natureza. Numa nova visão, ao invés de descobrir o que extrair da natureza, devemos identificar o que aprender a partir dela.

Nos últimos anos, tem havido um aumento dramático em práticas de design orientadas ecologicamente. O biomimetismo se refere a um tipo especial de tecnologia do ecodesign. Trata-se de um novo tipo de biotecnologia que não envolve a modificação genética de organismos vivos, mas utiliza as técnicas da engenharia genética para entender as sutilezas do design da natureza e aplicá-las como modelos para novas tecnologias humanas. O biomimetismo integra o conhecimento ecológico ao design de materiais e processos tecnológicos, aprendendo a partir de plantas, animais e microorganismos como manufaturar fibras, plásticos e químicos não-tóxicos, completamente biodegradáveis e sujeitos à contínua reciclagem.

IS: A economia global já funciona em rede, mas as interações decorrentes dela não têm trazido benefícios econômicos, ambientais e sociais de maneira equilibrada. É possível rever os valores que guiam o capitalismo e, fazendo isso, conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável?

FC: A economia global está organizada amplamente em torno de redes de fluxos financeiros. Tecnologias de comunicação e informação sofisticadas permitem que o capital financeiro se mova rapidamente de uma opção para outra em uma implacável busca global por oportunidades de investimentos.

O impacto da nova economia nos seres humanos tem sido, na maioria das vezes, negativo. Há um acúmulo sem precedentes de riqueza no alto. Em contrapartida, as consequências sociais e ambientais apresentam-se desastrosas. Além disso, como temos visto com a atual crise econômica, esse modelo ameaça severamente o bem estar financeiro de pessoas em todo o mundo.

O problema central é que a economia global foi desenhada sem nenhuma dimensão ética. O então chamado “mercado global” funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental ou qualquer outro valor humano. No entanto, a mesma network eletrônica de fluxos financeiros e de informação poderiam ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política.

IS: A desmaterialização da economia pode contribuir nesse sentido?

FC: Acredito que sim. Ao que me parece, o desafio-chave é como adaptar-se de um sistema baseado na noção de crescimento ilimitado - o que é impossível em um planeta finito - para um outro que seja, ao mesmo tempo, sustentável e socialmente justo. O crescimento, é claro, representa uma característica central de toda vida. Uma sociedade ou economia, que não cresce, morre mais cedo ou mais tarde. O crescimento, contudo, não deve ser linear, nem ilimitado. Enquanto, certas partes dos organismos ou ecossistemas crescem outras declinam, lançando e reciclando seus componentes que se transformam em recursos para novo crescimento.

O tipo de crescimento balanceado e multifacetado que é bem conhecido pelos biólogos e ecologistas pode ser chamado de crescimento qualitativo. Em organismos vivos, ecossistemas e sociedades, o crescimento qualitativo consiste em um aumento de complexidade, sofisticação e maturidade que aprimora a qualidade de vida. Em outras palavras, crescimento qualitativo significa desmaterializar a economia em alguma extensão.

IS: Como as companhias deveriam rever seus esforços de inovação, pesquisa e desenvolvimento?

FC: O conceito de crescimento qualitativo será uma ferramenta crucial nessa tarefa. Ao invés de avaliar o estado da economia em termos de medidas quantitativas simplórias como o PIB, precisamos distinguir o “bom” crescimento do “ruim”. Do ponto de vista ecológico, essa distinção é óbvia. O crescimento ruim está relacionado a processos de produção e serviços que são baseados em combustíveis fósseis, envolvendo substâncias tóxicas, que levam à escassez de recursos naturais e à degradação dos ecossistemas terrestres. O bom crescimento relaciona-se a processos de produção e serviços mais eficientes com energias renováveis, emissões zero, reciclagem contínua de recursos naturais e restauração dos ecossistemas terrestres. As companhias precisam reavaliar seus processos de produção e serviços para determinar quais deles são ecologicamente destrutivos e, por essa razão, devem ser substituídos. Ao mesmo tempo, as empresas precisam diversificar seus portefólios na direção de produtos e serviços verdes.

IS: Como os cidadãos, companhias, organizações e governos podem articular diálogos estratégias, considerando as conexões ocultas e as relações de interdependência do sistema, sem perder de vista os problemas locais?

FC: As redes informais ou comunidades de práticas, que existem dentro de toda organização são idealmente moldadas para lidar com problemas locais. O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. De fato, está ficando cada vez mais evidente que nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada. Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistematicamente, em termos de relacionamentos, padrões e contextos.

IS: Como a internet e as novas tecnologias de informação podem integrar a sociedade em um esforço global para promover o desenvolvimento sustentável? Como os cidadãos, organizações e governos podem explorar essas possibilidades?

FC: Esse processo está em pleno movimento. Na virada deste século, uma coalização impressionante de ONGs disseminaram os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Esse “movimento pela justiça global”, como também é chamado, tem mobilizado uma série de encontros do Fórum Social Mundial, muitos deles no Brasil. Nesses encontros, as ONGs propõem um grupo completo de políticas de mercado alternativas, incluindo iniciativas concretas e radicais para reestruturar as instituições financeiras globais, que mudariam profundamente a natureza da globalização.

Esse engajamento exemplifica uma nova forma de movimento político típico da nossa Era da Informação. Por causa da habilidade em usar a Internet, em aliança, as ONGs são capazes de se interconectar para trocar informação e mobilizar seus membros com uma velocidade sem precedentes. Como resultado, essas organizações emergiram como atores políticos efetivos que são independentes das instituições tradicionais, nacionais ou internacionais, constituindo uma nova forma de sociedade civil global.

Para dotar o discurso político de uma perspectiva ecológica, a sociedade civil global depende de uma network de estudantes, institutos de pesquisa, think thanks e centros de aprendizado que operam em larga escala fora de nossas instituições académicas líderes. Há dúzias dessas instituições de pesquisa e ensino em todas as partes do mundo. Em comum, elas apresentam a característica de alinhar sua atividade de pesquisa e ensino a uma estrutura compartilhada de valores essenciais.

IS: É possível estabelecer uma agenda ou compromisso global capaz de conduzir a sociedade na transição para o desenvolvimento sustentável? Quais seriam os assuntos e metas prioritários dessa agenda?

FC: Sim. Lester Brown tem desenvolvido uma agenda detalhada com o seu livro Plan B, que também está disponível no Brasil. A obra de Brown traça um caminho para salvar a civilização. Trata-se de uma alternativa ao modelo de business as usual (Plano A), que tem nos conduzido ao desastre. A estratégia do Plan B é informada pela consciência da interdependência da maioria dos nossos problemas globais. Envolve uma série de ações simultâneas que são mutuamente apoiadas, espelhando a interdependência dos problemas que endereça.

Os componentes do Plan B são moldados pelo que é necessário hoje e não pelo que é considerado politicamente alcançável. Os principais objetivos são, nas palavras do autor, “reestruturar a economia, restaurar seus sistemas de apoio naturais, erradicar a pobreza, estabilizar a população e mudanças climáticas e, acima de tudo, restaurar a esperança.”

A revolução recente do ecodesign oferece a justificativa para o otimismo e esperança de Lester Brown. Todas as propostas do Plan B baseiam-se em tecnologias existentes e são ilustradas com exemplos de sucesso de países ao redor do mundo. Essas experiências evidenciam que temos o conhecimento, as tecnologias e os recursos financeiros para salvar a civilização e construir um futuro sustentável. Tudo o que precisamos agora é vontade política e liderança.

IS: Considerando a conjuntura atual, há algum agente (empresas, governos, ONGs etc.) que tem mais condições de liderar o movimento rumo ao desenvolvimento sustentável?

FC: No mundo atual, há três principais centros de poder: os governos, as empresas e a sociedade civil. O governo envolve instituições nacionais; as empresas e sociedade civil se tornaram globais. Acredito que a maioria de nossos problemas globais só poderão ser resolvidos se houver cooperação entre esses três setores. Cada um deles tem algo especial para contribuir. O governo pode guiar a população pela legislação. Líderes políticos carismáticos também podem desempenhar papéis importantes educando e persuadindo o público. Os negócios têm competências especiais de comunicação e na resolução de problemas. Já a sociedade civil adota os valores que precisaremos para um futuro sustentável.

No meu entendimento, o Brasil é o único país de peso, onde a colaboração tem sido facilitada e institucionalizada pelo seu presidente. Quando Lula tomou posse em 2003, criou canais administrativos especiais pelos quais membros da sociedade civil têm acesso direto ao governo. Ele também indicou líderes da sociedade civil para várias posições nos ministérios. Somando-se a isso, vejo que, no Brasil, tornou-se uma tradição executivos do mundo dos negócios fazerem trabalhos voluntários em ONGs, ajudando seus membros, por exemplo, com tarefas de contabilidade e gestão. A organização desses novos canais de comunicação e cooperação no Brasil pode servir de modelo e inspiração para o resto do mundo.

IS: Em seu mais recente livro, o senhor analisa os estudos de Leonardo da Vinci. Que contribuições esse grande cientista do Renascentismo pode trazer para a discussão da sustentabilidade no século XXI?

FC: Leonardo da Vinci, o grande mestre da pintura e génio do Renascentismo, desenvolveu e praticou uma síntese única de arte, ciência e tecnologia. Descobri que seu legado é muito relevante para o nosso tempo. Nossas ciências e tecnologias têm se tornado cada vez mais estreitas em seu foco, o que impossibilita a compreensão dos nossos multifacetados problemas a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Além disso, o conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos exatamente o tipo de síntese que Leonardo da Vinci delineou há 500 anos.de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenómeno natural e nos reconectem com a Terra.

IS: O que é essencial na educação de crianças e na de adultos para construção de uma sociedade sustentável? Esses públicos exigem estratégias diferentes de sensibilização e aprendizado?

FC: Ao longo dos últimos 20 anos, eu e meus colegas do Center for Ecoliteracy, em Berkeley, desenvolvemos uma pedagogia especial, que chamamos “educação para uma vida sustentável” com o objetivo de promover a alfabetização ecológica e o pensamento sistémico na educação primária e secundária.

Crianças, assim como adultos, passam por certas fases de desenvolvimento. Tanto a linguagem utilizada quanto as estratégias pedagógicas devem ser apropriadas a essas fases. Em nosso trabalho no Center for Ecoliteracy, descobrimos que os princípios da ecologia precisam ser ensinados de forma completamente diferente na educação primária (entre 6 a10 anos), secundária (entre 11 a13 anos) e no ensino médio (dos 14 aos 17 anos). E promover a alfabetização ecológica no ensino superior e na educação contínua de profissionais também exige estratégias e metodologias diferentes.