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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Mais um estudo científico a alertar porque é que as crianças olham tanto para alimentos pouco saudáveis nas idas ao supermercado

A recente investigação australiana que revelou que as crianças passam cerca de 17% do tempo de compras fixadas em locais estratégicos e que 99% dessa atenção vai para produtos pouco saudáveis insere-se num corpo científico sólido e em constante crescimento. A forma como o design das lojas e as embalagens capturam a atenção infantil tem sido amplamente documentada por investigadores em todo o mundo. A ciência comportamental e a nutrição comunitária há muito que analisam o fenómeno do "pester power" (o poder de persuasão e insistência das crianças sobre os pais durante as compras), e as técnicas de monitorização visual moderna, como a tecnologia de rastreamento ocular (eye-tracking), apenas vieram confirmar numericamente o que a observação direta e a psicologia do consumo já haviam mapeado.

A atenção das crianças aos ultraprocessados não é acidental, pois responde a estímulos biológicos e visuais diretos. A este respeito, a fixação visual automática em alimentos calóricos demonstra como o cérebro está programado para o consumo; um estudo publicado no PMC (PubMed Central) revelou que o cérebro humano está naturalmente programado para detetar e fixar o olhar em alimentos com maior densidade calórica de forma mais rápida. No entanto, enquanto os adultos conseguem exercer autorregulação e desviar o olhar, as crianças mantêm o foco visual preso nesses produtos, tornando-as o alvo perfeito para estratégias no ponto de venda.

A par desta vulnerabilidade biológica, o impacto das mascotes e personagens nas embalagens surge como uma das ferramentas mais poderosas no retalho. A investigação divulgada pelo MDPI / Nutrients avaliou a influência das personagens de desenhos animados e das cores vivas na escolha alimentar infantil, concluindo que estes elementos ativam respostas emocionais e comportamentos impulsivos no momento de decisão, sobrepondo-se a qualquer noção de valor nutricional.

Por fim, a importância da posição nas prateleiras completa este ciclo de atração no retalho. A localização estratégica nas pontas de corredor e junto às caixas registadoras explora a vulnerabilidade do momento final da compra, e os relatórios analíticos sobre o ambiente de consumo publicados pela World Health Organization (WHO) alertam que a exposição contínua a alimentos ricos em gorduras, açúcar e sal (HFSS) nas zonas de maior circulação dos supermercados correlaciona-se diretamente com um aumento substancial nas solicitações de compra por parte dos mais novos.

Para ler mais sobre o impacto do ambiente alimentar e das estratégias de marketing na saúde infantil, pode consultar investigações focadas em estudos com eye-tracking, tais como a Atenção visual e atratividade das embalagens alimentares nas crianças (PMC / PubMed Central) ou a Monitorização ocular de estímulos de marketing alimentar no retalho (MDPI Nutrients). Caso pretenda aprofundar estudos de impacto comportamental e políticas públicas sem eye-tracking, recomenda-se o Manual da Organização Mundial da Saúde sobre restrições ao marketing alimentar infantil (WHO) e a análise sobre O papel da exposição no ponto de venda e o comportamento de compra familiar (Appetite / ScienceDirect).

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Trocar uma crise por outra? Preço do petróleo pode aumentar em 70% a procura global por biocombustíveis até 2030


A atual procura por matérias-primas para produção de biocombustíveis para escapar aos impactos da subida dos preços do petróleo pode vir a fazer disparar o consumo desses combustíveis de baixo carbono.

Um estudo da organização Transport & Environment (T&E) prevê um aumento de até 30% do consumo de biocombustíveis a nível global ainda este ano, e que poderá chegar aos 70% em 2030. Os especialistas temem que esse aumento acentuado da procura por biocombustíveis faça subir ainda mais os preços dos alimentos, levando-os para novos máximos.

Apelando aos governos para não trocarem “uma crise dos combustíveis por uma crise alimentar”, a T&E diz que, um pouco por todo o mundo, os preços de vários produtos alimentares, especialmente dos óleos vegetais, uma das principais matérias-primas do biodiesel, estão a subir há três meses consecutivos. Os analistas desta organização não-governamental referem que esse é um padrão já visto em 2022, altura da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e com a crise no Médio Oriente daí resultante, os preços dos combustíveis fósseis atingiram máximos históricos, o que levou vários governos, como o norte-americano, o tailandês e o indonésio, a definirem novas metas de incorporação de biocombustíveis nos combustíveis fósseis para tentarem amortecer os impactos da subida de preços do petróleo.

Ao mesmo tempo, grandes potências exportadoras, como o Brasil e a Indonésia, têm limitado a quantidade de matérias-primas para biocombustíveis que vendem para outros mercados.

“Os governos estão a correr riscos ao promoverem a conversão de alimentos em combustível”, avisa Kädi Ristkok, diretor das áreas de energia e clima na T&E. “Compreensivelmente, os líderes estão a tentar encontrar soluções para a atual crise do petróleo, mas os biocombustíveis jamais poderão desempenhar um papel mais do que marginal nos nossos sistemas energéticos sem consequências devastadoras”, salienta.

Para o responsável, “os impactos indesejados nos preços dos alimentos e no ambiente são enormes” e argumenta que “em vez de alimentarem os carros, os governos devem apostar em opções mais sustentáveis, como a eletrificação”.

A guerra no Médio Oriente levou também a uma escassez de fertilizantes de escala mundial, pressionado os sistemas de produção agroalimentar e refletindo-se nos preços dos produtos. Por isso, a T&E considera que a corrida aos biocombustíveis poderá esgotar rapidamente as reservas globais de produtos alimentares.

Os biocombustíveis já consomem 5 % dos fertilizantes mundiais para produzir apenas 4 % dos combustíveis para transportes a nível global, diz a organização, que alerta que qualquer aumento na produção dos biocombustíveis exerceria “ainda mais pressão sobre um mercado que tem sido fortemente afetado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz”.

Os analistas da T&E acreditam que não é possível aumentar a produção de biocombustíveis sem entrar em concorrência direta com a produção alimentar, e estimam que se os esses combustíveis passassem a representar 20% da composição dos combustíveis usados nas estradas por todo o mundo, como países como a Indonésia e o Brasil propõem, seriam precisos mais 130 milhões de hectares de terras para consegui-lo.

Isso, apontam, resultaria no agravamento da perda de ecossistemas e de florestas, e em mais emissões de gases com efeito de estufa do que as libertadas pelos combustíveis fósseis que se pretende substituir por biocombustíveis.

“A escassez mundial de fertilizantes ameaça pôr em risco a segurança alimentar global. Enquanto os governos procuram formas de armazenar fertilizantes, ninguém fala dos biocombustíveis. Quanto mais cultura queimarmos, de mais fertilizantes precisaremos. Os governos têm de dar prioridade aos alimentos em vez de aos combustíveis”, defende Kädi Ristkok.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Clima extremo: calor insistente na Europa, seca recorde na Austrália, monções mínimas e destruidoras na Índia


Tudo vai se encaminhando para fazer de 2023 o ano mais quente da história. Mas também é possível que, em 31 de dezembro, descubra-se que o ano foi o que registou os eventos climáticos mais extremos, com secas e chuvas intensas e fora de época em todos os cantos do planeta.

Na Europa, Áustria, França, Alemanha, Polónia e Suíça anunciaram na 6ª feira (29/9) o mês de setembro mais quente já registrado nesses países, informa o France24. E as temperaturas excepcionalmente elevadas deverão continuar em outubro, destaca o Guardian.

Na Espanha, o início deste mês foi o mais quente desde que o início dos registros de temperatura, há mais de um século, disse a AEMET, agência meteorológica do país, na 2ª feira (2/10). Segundo a Reuters, quase 40% das estações meteorológicas registaram temperaturas máximas acima de 32oC.

Já no continente asiático, as chuvas de monções na Índia neste ano foram as menores desde 2018, relata a Reuters, com o país registando o agosto o mais seco em mais de um século, disse o departamento meteorológico estatal. As monções são vitais para a economia indiana, respondendo por quase 70% da chuva de que o país precisa para irrigar suas culturas agrícolas e reabastecer reservatórios e aquíferos.

As fracas chuvas aumentaram as preocupações de que a Índia – o segundo maior produtor de trigo, arroz e açúcar do planeta – continue a restringir as exportações de produtos essenciais para gerir a inflação alimentar antes das eleições nacionais em 2024. Tal medida apoiaria os preços globais, explica a Bloomberg. O arroz na Ásia está perto do máximo dos últimos 15 anos, enquanto o açúcar em Nova York saltou mais de 30% este ano.

Ainda que abaixo da média, as monções indianas foram arrasadoras em algumas partes do país, com magnitude e intensidade nunca vistas, segundo a AP. O estrago foi significativo. No estado de Himachal Pradesh, 428 pessoas morreram e houve mais de US$ 1,42 bilião em danos materiais desde junho.

A Austrália, na Oceania, registou o setembro mais seco desde que os registos começaram, em 1900, com uma média nacional de precipitação de apenas 4,83 mm. A precipitação total foi 70,8% inferior à média do mês de 1961-1990. Os dados do Bureau of Meteorology foram divulgados no momento em que incêndios florestais estavam fora de controle em Victoria e Nova Gales do Sul, no meio a alertas de possíveis inundações repentinas no final da semana, explica o Guardian.

New York Times, Bloomberg, VOA News, ABC, Sky News, Accuweather e Guardian também repercutiram os extremos climáticos no mundo.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Os impactos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal


O governo federal revogou, na semana passada, um decreto de 2009 que estabelecia o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar e impedia a expansão do cultivo para áreas sensíveis. A decisão gerou preocupação pelos possíveis efeitos em biomas como a Amazônia e o Pantanal, mas também pelo viés econômico, já que esse mecanismo de proteção ambiental impulsionou a aceitação do etanol de cana brasileiro no mercado internacional.

Sob o decreto extinto em 6 de novembro, havia sido delimitada uma área de 64 milhões de hectares como apropriada para o plantio de cana-de-açúcar, correspondente a 7,5% da superfície do país e quase oito vezes maior que a atual área plantada para fins energéticos.

O cultivo de cana para etanol se concentra atualmente na região Centro-Sul do país, sobretudo no Sudeste. A área ocupada para essa finalidade na Amazônia corresponde a apenas 144 mil hectares, 1,5% do total permitido, concentrada no sul do Mato Grosso.

Especialistas apontam que a Amazônia e o Pantanal, biomas protegidos pelo zoneamento, não apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento da cana-de-açúcar.

Em artigo publicado na revista Science, principal periódico científico internacional, os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Lucas Ferrante e Philip Fearnside esmiuçaram os possíveis efeitos ambientais do fim do zoneamento da cana.

O texto chamava atenção para o chamado efeito de borda desse cultivo. Mesmo que realizado em áreas degradadas, seus danos podem se estender por até um quilômetro dentro de áreas florestais adjacentes aos locais de produção, com impactos negativos sobre a flora e a fauna.

Com base no que se observou pela expansão da soja, que substituiu pastagens e outros cultivos, os cientistas também alertaram para o potencial risco de desmatamento, visto que, com a chegada da cana, a pecuária e outras atividades seriam deslocadas para outras áreas. Sendo a Amazônia a última fronteira agrícola do país, o avanço se daria sobre o bioma.

O artigo foi publicado na Science em março do ano passado, mesmo mês em que o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) apresentou um projeto de lei que visava a liberação do cultivo na Amazônia. À época, a própria União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) se posicionou contra a medida.

Na ocasião, a entidade manifestou preocupação com o impacto que o fim do zoneamento poderia ter sobre a imagem do etanol no exterior, já que o decreto de 2009 era tido como um selo de sustentabilidade da produção brasileira.

Agora, nesta nova etapa do debate, o setor reviu sua posição. Segundo o novo entendimento da Unica, a salvaguarda oferecida pelo decreto já é contemplada no Código Florestal de 2012 e nas exigências de desmatamento zero do programa RenovaBio – política instituída em 2018 e que visa aumentar a produção e consumo de biocombustíveis no Brasil a fim de cumprir os objetivos ambientais do Acordo de Paris até 2030.

"A revogação do zoneamento em nada vai mudar as práticas sustentáveis do setor. É prioridade para as empresas representadas pela Unica seguir os altos padrões de sustentabilidade exigidos por nossos compradores", garante Evandro Gussi, presidente da organização.

"Da parte das empresas associadas à Unica, nada muda. Continuaremos produzindo na região Centro-Sul, a mais de 2 mil quilômetros do bioma Amazônia, preservando a mata e os recursos hídricos dentro de nossas propriedades, em linha com o estipulado pelo RenovaBio e as demais leis."

A linha de argumentação é a mesma adotada pelo Ministério da Agricultura (Mapa), que associou a medida ao objetivo de desburocratizar e simplificar o plantio de cana-de-açúcar.

No final de agosto, quando a Amazônia registrou uma grave onda de queimadas, o presidente Jair Bolsonaro chegou a falar que atenderia a um pedido da ministra Tereza Cristina para ampliar as áreas de plantio e que estava ciente da possibilidade de haver uma repercussão negativa.

"Medida beneficia 1,5% da produção e coloca em risco 98,5%"

Dadas as condições desfavoráveis para a cana na Amazônia, a adoção da medida gerou inquietação entre especialistas. Entre eles, Raoni Rajão, professor associado de Gestão Ambiental e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

"A partir do momento que você vincula a cadeia da cana-de-açúcar com o desmatamento na Amazônia – mesmo que seja, inicialmente, uma percentagem pequena ­–, a cadeia é poluída e exposta a pressões que não existiam anteriormente. Você beneficia 1,5% da produção de cana e coloca em risco 98,5%. Não faz sentido, do ponto de vista econômico", avalia.

"Como o Brasil está competindo, nesse caso, com o etanol de milho dos Estados Unidos, isso certamente nos coloca em uma situação mais frágil ante alguns mercados. O mesmo ocorre com o açúcar, que concorre com o de beterraba europeu e de milho dos Estados Unidos", complementa.

Rajão, que já atuou como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), lembra que o fim do zoneamento implica a revogação dos pressupostos pelos quais a União Europeia (UE) calculou a cota de exportação sul-americana de etanol para o bloco europeu nas tratativas do Acordo de Paris.

O pesquisador aponta fragilidades nos argumentos do governo e do setor sucroalcooleiro. Embora reconheça a importância do RenovaBio, Rajão lembra que a adesão ao programa é voluntária.

Além disso, as exigências do programa recaem sobre a produção, e não sobre o imóvel rural como um todo. Ou seja, é possível que um produtor desmate ilegalmente desde que preserve a área destinada ao etanol.

"Caso haja uma grande expansão ilegal da cana na Amazônia, daqui a dois ou cinco anos, bastará uma canetada muito simples do ministro para permitir que essas áreas possam vender e obter crédito do RenovaBio, o que expõe a fragilidade desse instrumento. Finalmente, se o setor não quer expandir a cana na Amazônia, por que o decreto foi revogado?", indaga o pesquisador.

A medida também é questionada por Luiz Augusto Horta, coordenador do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e consultor em assuntos energéticos para a Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal).

O cientista acredita que os mecanismos previstos no Código Florestal e no RenovaBio serão eficazes para restringir a expansão dos canaviais em áreas sensíveis. Porém, lembra que o zoneamento foi elaborado sob diversos critérios após estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que levaram em conta clima, solo, topografia, outros usos e áreas protegidas.

"Não conheço estudos revisando esses critérios e tampouco há necessidade de novas fronteiras para a cultura da cana. Considero essa medida inadequada, principalmente na forma intempestiva e pouco articulada em que foi decidida", avalia Horta.

"Se existem fundamentos para que novas áreas sejam abertas, o Mapa deveria ter apresentado seus estudos e resultados, eventualmente ajustando o zoneamento, que foi um sinalizador importante para o mercado global dos requisitos de sustentabilidade na expansão da cultura da cana."