Mostrar mensagens com a etiqueta Defesa dos Consumidores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Defesa dos Consumidores. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nota de 7 euros de Ronaldo é falsa, alerta Banco de Portugal

Em causa está a emissão de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo

O Banco de Portugal (BdP) alertou esta quinta-feira para publicações falsas, nas redes sociais, sobre a emissão de uma nota em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo, esclarecendo que não o fez nem tem previsto emitir uma nota assim.

"O Banco de Portugal tem tomado conhecimento de publicações falsas, divulgadas nas redes sociais, relativamente à emissão, pelo Banco de Portugal, de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo", lê-se no comunicado publicado esta quinta-feira.

O banco central reiterou que não emitiu nem colocou em circulação, nem tem previsto emitir ou colocar em circulação, "qualquer nota alusiva à personalidade em questão".

"Esclarece-se ainda que a emissão de notas de euro pelo Banco de Portugal é feita no quadro do Eurosistema", acrescentou o banco central.


O Eurosistema é a autoridade monetária da área do euro, composta pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos bancos centrais nacionais dos países da União Europeia que adotaram o euro. A sua principal função é manter a estabilidade de preços, e as suas atividades incluem a definição e implementação da política monetária, a realização de operações cambiais, a gestão das reservas cambiais e a promoção do bom funcionamento dos sistemas de pagamento. 

Composição e objetivos
Composição: O Eurosistema inclui o BCE e os bancos centrais nacionais dos Estados-Membros que adotaram o euro, como o Banco de Portugal.
Objetivo principal: Manter a estabilidade de preços na área do euro, procurando um aumento anual dos preços inferior, mas próximo, de 2%.

Outras funções:
  1. Salvaguardar a estabilidade financeira.
  2. Promover a integração financeira europeia.
  3. Emitir notas de euro.
  4. Compilar estatísticas. 
  5. Funcionamento
Tomada de decisões: As decisões de política monetária são tomadas pelo Conselho do BCE, que é composto pelos membros executivos do BCE e pelos governadores dos bancos centrais nacionais.

Implementação: A implementação dessas decisões é feita de forma descentralizada pelos bancos centrais nacionais. O Banco de Portugal, por exemplo, interage com as instituições bancárias portuguesas para executar as decisões do BCE no mercado nacional.

Instrumentos: O Eurosistema utiliza instrumentos como a fixação das taxas de juro diretoras, operações de mercado aberto, facilidades permanentes e programas de compra de ativos financeiros para influenciar a liquidez do sistema bancário. 

sábado, 8 de novembro de 2025

Meta ganha milhares de milhões de dólares com anúncios de burlas


A gigante tecnológica Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, encontra-se sob fogo após a divulgação de um relatório explosivo. O documento alega que a empresa arrecada uma fatia significativa das suas receitas através da veiculação de anúncios fraudulentos.

A controversa fonte de receita da Meta
De acordo com um novo relatório da Reuters, a Meta estará a lucrar milhares de milhões de dólares anualmente com anúncios que promovem burlas e produtos ilegais nas suas plataformas. O documento expõe os números avassaladores por detrás deste problema e levanta novas questões sobre a aparente incapacidade da empresa em controlar a situação.

No ano passado, a própria Meta terá estimado que os anúncios fraudulentos poderiam representar até 10% da sua receita total, um valor que ascenderia a cerca de 16 mil milhões de dólares.

Nesta categoria incluem-se anúncios de "esquemas fraudulentos de comércio eletrónico e de investimento, casinos online ilegais e a venda de produtos médicos proibidos". A dimensão do problema é tal que investigadores da própria empresa calcularam que as suas aplicações "estiveram envolvidas num terço de todas as burlas bem-sucedidas nos EUA".

Políticas internas permissivas
O relatório detalha também como a Meta, em certas ocasiões, dificultou o trabalho das suas próprias equipas no combate a estes anúncios e como os seus processos internos permitem que infratores reincidentes continuem a comprar espaço publicitário.

O documento revela que um "pequeno anunciante" apanhado a "promover fraudes financeiras" só seria bloqueado após ser denunciado "pelo menos oito vezes". A política da Meta é ainda mais branda com os "maiores anunciantes", aos quais terá sido permitido "acumular mais de 500 infrações" sem serem removidos da plataforma.

Ainda que esta permissividade possa parecer chocante, o relatório da Reuters sublinha o dilema financeiro que a Meta enfrenta. Apenas quatro campanhas publicitárias, removidas pela empresa este ano, foram responsáveis por uma receita de 67 milhões de dólares.

Internamente, os executivos debatem-se com a forma de controlar os anúncios fraudulentos sem afetar negativamente os resultados financeiros da empresa. A certo ponto, os gestores terão sido instruídos a não "tomar medidas que pudessem custar à Meta mais de 0,15% da receita total da empresa".

Em reação ao relatório, a Meta comunicou à Reuters que a estimativa de 10% da receita proveniente de anúncios fraudulentos era "aproximada e excessivamente inclusiva", mas não partilhou um valor alternativo.

"Nos últimos 18 meses, reduzimos as denúncias de utilizadores sobre anúncios fraudulentos em 58% a nível global e, até agora em 2025, já removemos mais de 134 milhões de conteúdos publicitários fraudulentos." - afirmou o porta-voz Andy Stone.

domingo, 12 de outubro de 2025

Este hábito na caixa automática já fez clientes perderem dinheiro

Nos últimos anos, os supermercados têm apostado cada vez mais nas caixas automáticas. São práticas, rápidas e permitem que os clientes passem as compras sem depender de um funcionário. Mas o que parece uma solução perfeita tem também riscos escondidos. A verdade é que um hábito muito comum na caixa automática já fez clientes perderem dinheiro e muitos só se apercebem quando é tarde demais.

Como funcionam as caixas automáticas
As caixas automáticas substituem o operador tradicional por um sistema onde o cliente faz tudo:
  1. Passa os códigos de barras dos produtos.
  2. Pesa frutas, legumes ou pão.
  3. Escolhe o método de pagamento.
  4. Recebe troco, talão e segue caminho.
Tudo isto parece simples, mas basta um pequeno erro ou distração para abrir a porta a perdas de dinheiro ou mesmo burlas.

O hábito que mais problemas causa
O erro mais frequente é sair antes da operação estar concluída.
Muitos clientes têm pressa, ouvem o terminal fazer um som e assumem que a compra já está paga. Mas nem sempre o pagamento foi validado. Nalguns casos, o processo ainda está em curso; noutros, a transação foi recusada e a máquina aguarda uma nova tentativa.

O que acontece depois?
O cliente sai sem o comprovativo e a compra fica em aberto.
O próximo utilizador pode terminar a operação e levar os produtos sem pagar.
Em pagamentos contactless, pode haver duplicações em alguns casos especiais.

Porque isto acontece tanto?
Três fatores ajudam a explicar:
  1. Pressa: as caixas automáticas são usadas sobretudo por quem quer rapidez. Essa pressa leva a atalhos e distrações.
  2. Ruído e distrações: filas atrás, barulho ambiente e a pressão de não “atrasar os outros” fazem com que muitos não confirmem os passos finais.
  3. Mensagens pouco claras: os ecrãs variam de supermercado para supermercado e, em alguns casos, os avisos não são suficientemente explícitos.
Quem é responsável se houver erro?
Esta é a parte mais delicada: na maioria dos casos, a responsabilidade recai sobre o cliente.
Se deixar o cartão, cabe ao cliente reportar de imediato ao banco.
Se esquecer o troco considera-se negligência.
Em duplicações de pagamento, é preciso abrir reclamação, mas nem sempre é fácil recuperar o valor.
Os supermercados raramente assumem falha, a não ser que se prove um defeito técnico.

Como evitar perder dinheiro
A boa notícia é que este problema tem solução e depende sobretudo da atenção do cliente:
  1. Espera sempre pela mensagem final no ecrã: só te levantares quando leres “Pagamento concluído”.
  2. Confirma no talão: guarda sempre o recibo; é a tua prova de compra e única forma de reclamar.
  3. Recolhe imediatamente o troco e conta-o antes de sair.
  4. Nunca deixes o cartão no terminal. guarda-o logo após retirar.
Se algo correr mal, chama um funcionário no momento em vez de saíres.

Vantagens vs riscos das caixas automáticas
Não se trata de demonizar as caixas automáticas. De facto, são úteis para compras pequenas e rápidas. Para além disso reduzem filas nas horas de maior movimento. Entretanto permitem maior autonomia para o cliente. No entanto exigem atenção redobrada, já que não há funcionário para confirmar se tudo correu bem. A pressa e a distração são as principais inimigas.

As caixas automáticas dos supermercados trouxeram rapidez, mas também novos riscos. O hábito de sair antes da operação estar totalmente concluída já fez muitos clientes perderem dinheiro, seja por duplicações, esquecimento de troco ou abandono do cartão.

Outras advertências:
Nunca deixes o carrinho do supermercado sozinho: pode sair caro

sábado, 11 de outubro de 2025

O truque silencioso dos Bancos para te fazer gastar mais


Os bancos sabem mais sobre ti do que imaginas. Não apenas quanto dinheiro tens mas como e quando o gastas. E é com essa informação que aplicam um truque silencioso, quase invisível, que te leva a gastar mais sem te aperceberes. Mas no que consiste o truque silencioso dos bancos?

Este truque dos bancos não é magia. É psicologia (e dados)
Todos os bancos modernos utilizam sistemas de análise comportamental. Ou seja, algoritmos que estudam os teus hábitos de consumo, horários, tipo de compras e até o humor que transpareces nas tuas transações. Sim, o teu cartão também fala. E é aqui que entra o truque.

Cartões virtuais são seguros? Só se fizeres isto antes da compra!
O “limite invisível” que muda tudo
Quando recebes um aumento automático do limite de crédito ou do plafond do cartão, parece um gesto simpático, certo? Na realidade, é uma jogada calculada.

O banco aumenta ligeiramente o teu limite para dar-te uma falsa sensação de folga financeira. Não é suficiente para parecer excessivo, mas o bastante para te fazer pensar: “posso comprar isto, ainda tenho margem”.

E é assim que pequenas compras, 20€ aqui, 30€ ali, transformam-se em dívidas com juros de 15%, 18%, até 25%.

Os arredondamentos “sem dor”
Outro truque muito comum são os pagamentos automáticos arredondados:
Cada vez que pagas com o cartão, o sistema arredonda o valor para cima e coloca os cêntimos “de lado”, geralmente num fundo de poupança ou numa conta associada.

Parece uma boa ideia e até pode ser mas psicologicamente desliga-te do valor real que estás a gastar. Pagas 19,20€ mas sentes que gastaste “menos de 20€”. Esse “quase nada” repetido dezenas de vezes por mês é o que mantém os lucros constantes dos bancos de retalho.

O atraso calculado das notificações
Já reparaste que às vezes as notificações das tuas compras demoram a chegar? Não é sempre erro da app. Alguns bancos atrasam propositadamente o envio de alertas quando o cliente está a fazer várias transações seguidas.

A ideia é simples: não interromper o fluxo de compras. Se recebes notificações a cada 10 segundos, paras para pensar. Mas se só chegas a casa e vês todas de uma vez, já é tarde  e o cartão já trabalhou por ti.

Como não cair nestas armadilhas
Não há como escapar completamente, mas há formas de contrariar a psicologia do sistema:
  1. Desativa limites automáticos e aumentos “pré-aprovados”.
  2. Vê o teu saldo real, não o “disponível”.
  3. Usa apenas alertas imediatos por SMS ou push.
  4. Evita cartões com pagamento diferido porque mascaram o impacto do gasto.
O segredo é simples: quanto mais consciência tens do que gastas, menos te conseguem influenciar.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Boicote aos Produtos Americanos: Uma Resposta ao Impacto das Políticas de Trump (com lista de produtos e locais de compra)



Nos últimos tempos, a crescente onda de boicotes a produtos americanos tem ganhado força em várias partes do mundo, e Portugal não está imune a essa tendência. A razão? A resposta das políticas económicas de Donald Trump, que afectaram directamente países aliados, como a União Europeia, com a imposição de tarifas pesadas sobre o aço, alumínio e até produtos como o champanhe e o vinho, sectores vitais da economia portuguesa.

A situação é clara: produtos americanos, que antes eram consumidos com regularidade e até com uma certa adoração, passaram a ser vistos sob outra óptica. O boicote não é mais apenas uma opção de grupos políticos ou ativistas, mas uma resposta de cidadãos comuns, que, como protesto, estão a alterar hábitos de consumo e recusar apoiar marcas ou produtos relacionados com os EUA de Trump.

Em supermercados no Canadá, já se observa a iniciativa de marcar produtos com estrelas negras, uma forma simbólica de facilitar o boicote a produtos europeus com origem nos EUA. Produtos como o famoso Jack Daniel’s, as calças Levi’s ou até mesmo as séries da Netflix, associadas diretamente ao país, têm sido colocados de lado por muitos consumidores que não querem mais apoiar essas marcas enquanto as políticas de Trump persistirem.

Em Portugal, gestos semelhantes podem ocorrer, com mudanças simples de pasta de dentes, evitar as compras em grandes cadeias de distribuição americanas ou até mesmo desmarcar férias nos Estados Unidos. Tudo como forma de dizer “não” ao que consideram uma postura económica arrogante e agressiva por parte do governo americano.

Além disso, as recentes ameaças de Trump, como tarifas de até 200% sobre o champanhe, vinhos e outras bebidas alcoólicas da União Europeia, tem criado grande preocupação no sector vitivinícola português. Se implementadas, estas tarifas poderiam prejudicar gravemente as exportações de vinho, um dos principais produtos do país, especialmente para os Estados Unidos, que é o segundo maior mercado de exportação de vinho português.

Diante disso, é hora de reflectir sobre nossas escolhas como consumidores conscientes. O boicote aos produtos americanos, especialmente aqueles que estão ligados à indústria de luxo e entretenimento (HBO, Netflix, Disney, etc), pode ser uma resposta válida a estas políticas. Afinal de contas, as nossas decisões de compra não são apenas sobre o que consumimos, mas também sobre os valores que apoiamos.

Por isso, convidamos todos a reflectir sobre o impacto das suas escolhas de consumo e a considerar um boicote consciente aos produtos que, directa ou indiretamente, sustentam as políticas que prejudicam a economia e a imagem da União Europeia e, consequentemente, de Portugal. Vamos agir juntos e mostrar que o poder de compra pode ser uma poderosa ferramenta de protesto!



E será um dos subscritores da petição de protesto a enviar às empresas que, em Portugal, comercializam produtos dos EUA:

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Obrigações de sustentabilidade com desafios para empresas e consumidores


Promover o comportamento sustentável e socialmente responsável nas operações das empresas - e ao longo das suas cadeias de valor - para garantir que estas identificam e resolvem possíveis condicionantes nos direitos humanos e impactos ambientais provocados pelas suas ações, dentro e fora da Europa. Este é o objetivo da Diretiva CSDDD (ou CS3D) – Corporate Sustainability Due Diligence, que entrou em vigor a 25 de julho último para regular o dever de diligência das empresas no que respeita à sustentabilidade.

A ter uma aplicação eficaz, a diretiva terá várias vantagens para cidadãos e consumidores:
  1. melhor proteção dos direitos humanos, incluindo os direitos laborais;
  2. promoção de um ambiente mais saudável no presente e para as gerações futuras, minimizando os impactos ambientais e as alterações climáticas;
  3. aumento da confiança nas atividades empresariais;
  4. mais transparência, permitindo escolhas informadas e evitando falsas alegações verdes;
  5. melhor acesso à justiça e a plataformas para denunciar comportamentos que não cumprem com as práticas sustentáveis de direitos humanos.
Estas vantagens poderão chegar mais diretamente aos cidadãos e consumidores através de produtos e serviços otimizados ao nível social, da qualidade e da sustentabilidade, considerando toda a cadeia de valor. Também podem ter efeito positivo ao potenciar práticas corporativas harmonizadas e um mercado mais justo, transparente e regulado.

A regulação do mercado é essencial para controlar possíveis repercussões no custo de produção e, consequentemente, no valor de compra dos produtos e serviços. Ou seja, deve haver clarificação e harmonização legal, e devem incentivar-se os investimentos que as empresas têm de fazer para garantir todas estas condições. O objetivo final é que os produtos e serviços comprovadamente sustentáveis sejam acessíveis a toda a população, tanto ao nível económico como em quantidade disponível e distribuição.

Principais obrigações das Empresas
Com esta diretiva, as grandes empresas com volume de negócios obtidos na União Europeia, independentemente de estarem ou não sediadas na Europa, têm um dever de diligência corporativa. Ou seja, devem identificar potenciais e atuais direitos humanos em causa e impactos ambientais negativos nas suas operações, nas das suas filiais e nas operações dos seus parceiros de negócio.

Além disso, a diretiva define também uma obrigação para as grandes empresas adotarem e colocarem em prática, através dos seus melhores esforços. Trata-se de um plano de transição para a mitigação das alterações climáticas, alinhado com os objetivos do Acordo de Paris para a neutralidade carbónica em 2050 (e limite do aquecimento global em 1,5 °C), assim como metas intermédias tendo em conta a Lei Europeia do Clima.

Cada Estado-Membro deve instituir uma autoridade de supervisão dedicada a garantir o cumprimento das obrigações previstas na diretiva. Esta autoridade fica responsável por investigar e aplicar as devidas sanções às empresas que não cumprirem o dever de diligência. O volume de negócios das empresas é tido em conta para a imposição de sanções financeiras, que pode chegar a um máximo de 5% do volume de negócios líquido da empresa em questão.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Dia Nacional da Sustentabilidade


A 25 de setembro celebrou-se o Dia Nacional da Sustentabilidade, uma data simbólica já que coincide com o dia que marca também a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pela ONU (25 de setembro de 2015).

Este dia de celebração nacional foi instituído pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2023, de 9 de junho. A ação local é essencial, e o compromisso de Portugal com a causa da Sustentabilidade está no centro da criação deste dia.

A sustentabilidade enfrenta desafios globais que exigem um crescimento económico sustentável , capaz de garantir as necessidades do presente sem comprometer o futuro, como já descrito em 1987 no Relatório Brundtland.

O Dia Nacional da Sustentabilidade visou divulgar informação, promover o conhecimento e capacitar todos os setores da sociedade para a adoção de comportamentos transformadores.

A Agenda 2030 da ONU, em vigor desde 1 de janeiro de 2016, define 17 ODS e 169 metas para guiar o desenvolvimento sustentável até 2030, com o apoio unânime de 193 países, incluindo Portugal.

A sustentabilidade ganhou relevância nas estratégias das empresas, com impacto na governança, nos compromissos assumidos pelas administrações e nos produtos, que viram os seus processos alterados.

Este ano, foram várias as iniciativas para promover a sustentabilidade em Portugal, entre elas:
  1. Metropolitano de Lisboa: até 22 de outubro, nas estações da Baixa-Chiado e da Alameda, está patente uma exposição sobre os projetos de responsabilidade social e ambiental do Metropolitano de Lisboa;
  2. Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) e Comité Nacional para a Década do Oceano: jornada “Ciência para Alcançar o Desenvolvimento Sustentável”;
  3. INA: WebINAr “Sustentabilidade em Ação: Capacitação e Gestão Sustentável na Administração Pública”, com o objetivo de promover a compreensão da importância estratégica da sustentabilidade na gestão pública, discutir abordagens inovadoras e sustentáveis para enfrentar desafios contemporâneos e apresentar exemplos concretos e bem-sucedidos de integração da sustentabilidade em diversos setores da Administração Pública;
  4. PT Sustentável: promoveu diversas atividades descentralizadas, envolvendo diferentes setores e níveis de governação. O objetivo é divulgar informações e capacitar todos os atores sociais para mudanças conscientes de comportamento rumo a um futuro sustentável;
  5. Visões do Futuro: reuniu diversos parceiros, como Pisca Pisca, Cepsa, LIDL, Auchan, Sogrape, Sociedade Ponto Verde, entre outros. Houve mesas redondas, workshops focados na sustentabilidade, rastreios de saúde e um teatro infantil sobre o tema.

Estas iniciativas refletem o compromisso de Portugal com a sustentabilidade e a promoção de práticas que contribuem para um futuro mais verde e inclusivo.

sábado, 27 de julho de 2024

"Fora da Lei". Inquérito confirma espera excessiva por consultas em hospitais


O estudo da DECO, realizado entre abril e maio deste ano, questionou mais de 700 portugueses (721) entre os 30 e os 79 anos. Cerca de metade receberam a indicação, por parte do médico de família, de que a consulta tinha prioridade normal. Significa isto que, por lei, a mesma deveria ocorrer num prazo máximo de 120 dias, o que não se verificou num quarto dos casos. Já nas consultas prioritárias (22 por cento), o Tempo Máximo de Resposta Garantido foi ultrapassado em quase metade das situações.
Os prazos referidos no inquérito aplicam-se à primeira consulta de especialidade no hospital, com exceção das que são motivadas por doença cardíaca ou oncológica, que devem acontecer no prazo de 15 a 30 dias, consoante a prioridade.

O presidente da Associação de Administradores Hospitalares (AAH) assume “preocupação” e admite que “faltam e vão faltar médicos”. Entrevistado na RTP3, Xavier Barreto considera “totalmente inaceitável” doentes que esperem por consulta nos hospitais “há 400 dias”. Para o dirigente da associação, a reorganização do SNS tem de ser feita, uma vez que “os hospitais têm aumentado a atividade “cinco por cento, seis por cento e até mais”, mas a procura também aumenta.

"Reclamem sem receios"
A DECO alerta ainda para outra conclusão do estudo: 91 por cento dos inquiridos encaminhados para uma consulta da especialidade nos hospitais nunca reclamaram de que o tempo de espera ultrapassou o que está definido por lei. 

Perante este dado, Xavier Barreto transmite uma mensagem aos doentes para que “reclamem sem receios de represálias. Não tenham medo”.

O desconhecimento que os consumidores têm dos seus direitos é sublinhado no estudo. Por exemplo, um em cada quatro inquiridos desconhecia a existência de Tempos Máximos de Resposta Garantidos, 24 por cento não sabia que podia reclamar e 28 por cento acreditam que não valia a pena reclamar por não resultar “qualquer consequência”. Apenas “uma minoria afirmou saber os prazos em concreto”. 
 
A DECO refere ainda que entre os 721 inquiridos “o número de consultas muito prioritárias declarado no estudo foi residual. Porém, mais de um quinto dos inquiridos assinalou "não sei qual o grau de prioridade". Susana Santos, especialista na área de Saúde da Deco PROteste, foi também entrevistada na manhã desta quinta-feira no programa Bom Dia Portugal.

domingo, 21 de abril de 2024

Mirtilos e morangos voltam à lista negra de alimentos com pesticidas


Estudos nos EUA associam pesticidas a nascimentos prematuros, malformações congénitas, aborto espontâneo e um aumento dos danos genéticos nos seres humanos. A exposição a pesticidas também tem sido associada a concentrações mais baixas de esperma, doenças cardíacas, cancro e outras perturbações

Aproximadamente 95% dos morangos não biológicos, folhas verdes como espinafres e couve, couve-galega e folhas de mostarda, uvas, pêssegos e peras testados pelo governo dos Estados Unidos continham níveis detetáveis de pesticidas, de acordo com o 2024 Shopper's Guide to Pesticides in Produce.

Nectarinas, maçãs, pimentos e pimentas, cerejas, mirtilos e feijão verde completaram a lista das 12 amostras de produtos mais contaminados. É apelidada de "Dirty Dozen" (“Dúzia Suja”, na tradução) pelo Environmental Working Group, ou EWG, uma organização de defesa do ambiente e da saúde que produz o relatório anual desde 2004.

Os pesticidas foram associados em estudos a nascimentos prematuros, malformações congénitas como defeitos do tubo neural, abortos espontâneos e um aumento dos danos genéticos nos seres humanos. A exposição a pesticidas também tem sido associada a concentrações mais baixas de esperma, doenças cardíacas, cancro e outras perturbações.

Os trabalhadores agrícolas que utilizam ou estão expostos a pesticidas estão em maior risco, de acordo com estudos. Uma meta-análise de 2022 revelou que os trabalhadores expostos a pesticidas eram quase cinco vezes mais prováveis de sofrer danos no ADN, enquanto um estudo de fevereiro descobriu que as crianças expostas numa idade precoce apresentavam um pior desenvolvimento neurológico desde a infância até à adolescência.

Nem tudo são más notícias. Os abacates, o milho doce, o ananás, as cebolas e as papaias lideram a lista dos “Clean Fifteen” (“Quinze Limpos”, na tradução) de produtos cultivados convencionalmente com a menor quantidade de vestígios de pesticidas - cerca de 65% dos frutos e legumes desse grupo não tinham resíduos de pesticidas detetáveis, de acordo com o relatório divulgado na quarta-feira, dia 20 de março.

A completar os "Quinze Limpos" estavam as ervilhas doces congeladas, espargos, meloas, kiwis, repolhos, melancias, cogumelos, mangas, batatas doces e cenouras.

Lavados, descascados e esfregados
Todos os anos, uma lista rotativa de produtos nacionais e importados é testada pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla original) e pela Food and Drug Administration dos EUA (FDA, na sigla original). Os funcionários do Programa de Dados sobre Pesticidas do USDA lavam, descascam e esfregam os frutos e legumes como os consumidores fariam, enquanto os trabalhadores da FDA apenas limpam a sujidade dos produtos. Depois, as frutas e os legumes são testados para mais de 250 pesticidas diferentes e os resultados são publicados online.

Para 2024, os investigadores do EWG examinaram os dados de 47.510 amostras de 46 frutas e legumes não biológicos, sendo a maioria dos testes realizados pelo USDA. Uma análise desses dados encontrou vestígios de 254 pesticidas em todas as frutas e legumes analisados, com 209 desses produtos químicos em produtos da lista "Dúzia Suja".

"Descobrimos que o que acaba numa lista ou na outra reflete a forma como essas frutas e legumes são cultivados", disse Alexis Temkin, toxicologista sénior do EWG. "Os abacates, por exemplo, não são intensivos em pesticidas, enquanto que os morangos crescem muito perto do solo e têm muitas pragas".

O relatório é injusto para os agricultores, dizem os críticos
Cerca de 70% dos produtos não biológicos testados pelo USDA e pela FDA têm níveis de pesticidas dentro dos limites legais permitidos pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, de acordo com o relatório do EWG. Este facto torna o relatório enganador, afirmou Carl Winter, professor emérito de extensão cooperativa na Universidade da Califórnia, em Davis.

"A dose faz o veneno, não a sua presença ou a sua ausência e essa dose determina o potencial de dano. Em muitos casos, teríamos de ser expostos a um milhão de vezes mais do que aquilo a que estamos expostos para vermos quaisquer efeitos", disse Winter, falando em nome da Alliance on Food and Farming, que representa os agricultores biológicos e convencionais.

No entanto, "níveis legais não significam níveis seguros", afirmou Temkin em resposta. Ela apontou para momentos em que os reguladores permitiram que produtos químicos potencialmente perigosos, como o pesticida DCPA, permanecessem no mercado muito depois de a pesquisa científica ter levantado preocupações. O herbicida foi associado a preocupações com a tiroide durante anos antes de a EPA dizer ao público que o produto químico representava "riscos significativos para a saúde humana" em 2023.

Outro exemplo: o clorpirifos, um pesticida associado a danos cerebrais em crianças e fetos. A Academia Americana de Pediatria juntou-se ao EWG em 2017, protestando contra a aprovação contínua do produto químico pela EPA.

Para além disso, os pesticidas proibidos pelo governo continuam a aparecer nas culturas vendidas nos EUA, de acordo com o relatório do EWG.

"O feijão verde, por exemplo, continua a apresentar vestígios de acefato, um pesticida tóxico cuja utilização no feijão verde foi proibida pela EPA há mais de 10 anos", afirmou Temkin. “Muitos dos pesticidas que constam da lista "Dúzia Suja" foram também proibidos na União Europeia devido aos seus efeitos nocivos para a saúde humana".

Outra preocupação dos críticos é o facto de a lista "Dúzia Suja" ser um insulto para os agricultores de várias gerações que lutam para produzir alimentos para a nação e dar esses mesmos produtos aos seus próprios filhos, disse Steve Clement, diretor executivo da Pacific Northwest Tree Fruit.

“Quando este relatório é publicado, é como se nos esfaqueassem um pouco, porque estamos a trabalhar arduamente para produzir um produto saudável e a implicação da lista 'Dúzia Suja' é que não é saudável", afirmou Clement. "É como fazer algo de bom por alguém e depois essa pessoa virar-se para nós e chamar-nos uma espécie de monstro".

O relatório pode assustar as pessoas para não comerem os frutos e legumes de que necessitam, disse Neil Nagata, cuja família cultiva morangos orgânicos e convencionais em Oceanside, Califórnia, há décadas.

"Sempre que sai um relatório ou há um susto com os morangos importados, vemos as nossas vendas a cair", disse Nagata. "Não é que estejamos a fazer algo de errado ou incorreto, estamos na verdade a produzir alimentos muito saudáveis e seguros. De facto, vivemos no campo de morangos e o meu pai tem 100 anos e a minha mãe 97 e ainda comem morangos."

É importante que as pessoas comam muitas frutas e legumes, mesmo que sejam cultivados convencionalmente, disse Temkin do EWG.

"Enfatizamos sempre isso", disse ela. "Queremos permitir que os consumidores que desejam evitar o maior número possível de pesticidas optem por versões orgânicas da 'Dúzia Suja', onde os níveis de pesticidas serão mais baixos e, em seguida, se desejarem, escolher produtos cultivados convencionalmente mais baratos dos 'Quinze Limpos'".

Os produtos biológicos não são mais nutritivos, mas estudos revelaram que os níveis de pesticidas na urina de adultos e crianças podem baixar até 95% após a mudança para uma dieta biológica.

Os níveis de fungicida eram elevados
Pela primeira vez, os analistas do EWG analisaram os níveis comunicados de fungicidas, uma forma de pesticida utilizada para matar doenças fúngicas como o oídio.

“Quatro em cada cinco dos pesticidas mais frequentemente encontrados na lista 'Dúzia Suja' eram fungicidas e também foram encontrados em concentrações particularmente elevadas", disse Temkin.

Dois fungicidas - fludioxonil e pirimetanil - registaram uma maior concentração do que qualquer outro pesticida na lista dos "Dúzia Suja", de acordo com o relatório. O fludioxonil foi encontrado em 90% dos pêssegos e em quase 30% de todas as amostras da "Dúzia Suja", segundo o estudo. O pirimetanil foi descoberto em 65% das amostras de pêra, 30% das de maçã, 27% das de uva, 26% das de morango e 24% das de nectarina.

"Os fungicidas são frequentemente aplicados após a colheita para manter os produtos sem bolor a caminho do mercado. É provavelmente por isso que as concentrações eram tão elevadas em algumas amostras - mais altas do que outros pesticidas usados no início da estação de crescimento", disse Temkin. "A aplicação do fungicida também está mais próxima da altura em que os produtos são colocados nas prateleiras das lojas e os consumidores os consomem."

domingo, 26 de novembro de 2023

O impacto da Black Friday não acaba hoje: 50% das compras são devolvidas



Você recebeu dezenas, talvez centenas, de mensagens com ofertas apelativas com prazo de validade para hoje ou amanhã através de suas redes sociais ou e-mail nos últimos dias? A Black Friday – que não é mais um dia, mas uma semana inteira – é uma das épocas do ano em que há mais consumo. Assim, segundo a OCU, oito em cada dez utilizadores da organização comprarão durante a Black Friday , gastando em média 237€.

E sua marca é conhecida. Assim, os descontos populares incentivam o hiperconsumismo e a superprodução, e a procura aumenta entre 30% e 40% nestes dias de ofertas generalizadas. “ O principal problema é a superprodução . Estamos produzindo acima das possibilidades de consumo, destruindo também o planeta, contaminando ecossistemas e águas e gerando emissões , mas ninguém está colocando limites para as empresas produzirem”, afirma Celia Ojeda , chefe da área de biodiversidade do Greenpeace.

Mas durante estas datas não só compramos mais, como também devolvemos mais produtos. Assim, de acordo com o estudo ‘Sustentabilidade no comércio eletrónico atual. O impacto da nossa decisão de compra' , publicado pela EAE Business School, as devoluções durante o período da Black Friday chegam a 50% dos produtos adquiridos, enquanto o número médio de devoluções do comércio online ao longo do ano é de 25%.%, 30% para roupas. Uma prática que tem aumentado nos últimos anos devido à generalização das devoluções gratuitas. Porém, no caso das lojas físicas, as devoluções caem para 6%.

May López , autora do relatório e diretora de Desenvolvimento de Negócios para Mobilidade Sustentável, aponta as táticas de neuromarketing utilizadas no comércio online como uma das principais razões para este aumento nos retornos. “Essas práticas estão fazendo com que as pessoas comprem compulsivamente produtos que não precisam e é justamente por isso que começam a devolver cada vez mais produtos”, afirma. As práticas de neuromarketing incluem o uso de dados para adaptar a publicidade aos nossos padrões de consumo e mostrar-nos esses anúncios “quando estamos mais vulneráveis”, explica López.

Porque embora a Black Friday também tenha ido para as ruas e muitas lojas físicas ofereçam descontos, é uma data em que imperam as compras online , cujo impacto é muito maior . “Mandar 60 camisetas numa caixa não é a mesma coisa que enviar 60 camisetas em 60 caixas individuais com os seus 60 envelopes e embalagens para aquele endereço particular onde a pessoa pode não estar em casa, onde você tem que ir uma e duas vezes entregar e onde também queremos de um dia para outro”, diz López.

Esta tendência reforçou-se especialmente desde o confinamento, quando até os mais reticentes começaram a comprar online. “Como estávamos todos em casa, quem não tinha comprado nada online começou a fazê-lo. E não só cada vez mais pessoas começam a comprar, como também começamos a comprar cada vez mais tipos de produtos”, afirma May López, que também coordena o Comitê Técnico sobre o Impacto do Comércio Eletrônico do Congresso Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).

Um dos principais impactos dos pedidos online é o aumento da movimentação de veículos de entrega , o que não só aumenta as emissões, mas também colapsa cidades . Assim, as empresas de entrega têm taxas de falha entre 10% e 15% na primeira tentativa de entrega em domicílio particular, diz o relatório da EAE. Somente endereços errados geram até 70% de falhas nas entregas.

Alguns produtos devolvidos são destruídos
As devoluções, cuja logística é ainda mais ineficiente, aumentam esta tendência, lembra Celia Ojeda. “Com as devoluções, a eficiência da organização logística diminui. Muitas vezes o problema não são tanto as emissões, porque muitas empresas agora possuem veículos sustentáveis, como o congestionamento dentro da cidade e a ocupação de veículos em um local que poderia ser para pessoas”, afirma Ojeda.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Restaurantes Não São Santuários

por João Pereira Coutinho

Este texto é dedicado ao "Chef" Avilez, que estragou dois magníficos restaurantes, o Tavares e, principalmente, o Belcanto. E como esta praga não é nacional apenas, dedicado também ao Alain Ducasse, que assassinou em tempos o magnífico Louis XV, o restaurante (emblemático) do Hotel de Paris, em Monte Carlo. Felizmente, neste caso, pelo menos continua a magnífica garrafeira.
Restaurantes não são santuários...
Estou cansado da religião dos chefs: restaurantes não são santuários...
O melhor restaurante do mundo?
Ora, ora: é o Eleven Madison Park, em Nova York.
Parabéns, gente.
A sério.
Espero nunca vos visitar.
Entendam: não é nada de pessoal.
Acredito na vossa excelência.
Acredito, como dizem os críticos, que a vossa mistura de "cozinha francesa moderna" com "um toque nova-iorquino" é perfeitamente comparável às 72 virgens que existem no paraíso corânico.
Mas eu estou cansado da religião dos chefs.
Vocês sabem: a elevação da culinária a um reino metafísico, transcendental, celestial.
Todas as semanas, lá aparece mais um chef, com a sua igreja, apresentando o cardápio como se fossem as sagradas escrituras.
Os ingredientes não são ingredientes.
São "elementos".
Uma refeição não é uma refeição.
É uma "experiência".
E a comida, em rigor, não é comida.
É uma "composição".
Já estive em vários desses santuários.
Quando a comida chegava, eu nunca sabia se deveria provar ou rezar.
Os meus receios sacrílegos eram acentuados pelo próprio garçom, que depositava o prato na mesa e, em voz baixa, confidenciava o milagre que eu tinha à minha frente:
– Pato defumado com pétalas de tomate e essências de jasmim.
Escutava tudo com reverência, dizia um "obrigado" que soava a "amém" e depois aproximava o garfo trêmulo, com mil receios, para não perturbar o frágil equilíbrio entre as "pétalas" e as "essências".
Em raros casos, sua santidade, o chef, aparecia no final.
Para abençoar os comensais.
No dia em que beijei a mão de um deles, entendi que deveria apostatar.
E, quando não são santos, são artistas.
Um pedaço de carne não é um pedaço de carne.
É um "desafio".
É o teto da Capela Sistina aguardando pelo seu Michelangelo.
Nem de propósito: espreitei o site do Eleven Madison Park.
Tenho uma novidade para dar ao leitor: a partir de 11 de abril, o Eleven vai fazer uma "retrospectiva" (juro, juro) com os 11 melhores pratos dos últimos 11 anos.
"Retrospectiva."
Eis a evolução da história da arte ocidental: a pintura rupestre de Lascaux; as esculturas gregas de Fídias; os vitrais da catedral gótica de Chartres; os quadros barrocos de Caravaggio; a tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm.
Gosto de comer.
Gosto de comida.
Essas duas frases são ridículas porque, afinal de contas, sou português.
E é precisamente por ser português que me tornei um ateu dos "elementos", das "composições" e das "essências".
A religião dos chefs, com seu charme diabólico, tem arrasado os restaurantes da minha cidade.
Um deles, que fica aqui no bairro, servia uns "filetes de polvo com arroz do mesmo" que chegou a ser o barômetro das minhas relações amorosas: sempre que estava com uma namorada e começava a pensar no polvo, isso significava que a paixão tinha chegado ao fim.
Duas semanas atrás, voltei ao espaço que reabriu depois das obras.
Estranhei: havia música ambiente e a iluminação reduzida imitava as casas de massagens da Tailândia (aviso: querida, se estiveres a ler esta crônica, juro que nunca estive na Tailândia).
Sentei-me.
Quando o polvo chegou, olhei para o prato e perguntei ao dono se ele não tinha esquecido alguma coisa.
"O quê?", respondeu o insolente.
"O microscópio", respondi eu.
Ele soltou uma gargalhada e explicou: "São coisas do chef, doutor."
"Qual chef?", insisti.
Ele, encolhendo os ombros, respondeu com vergonha: "O Agostinho".
O cozinheiro virou chef e o meu polvo virou calamares.
Infelizmente, essa corrupção disseminou-se pela pátria amada.
Já escrevi sobre o crime na imprensa lusa.
Ninguém acompanhou o meu pranto.
É a música ambiente que substituiu o natural rumor das conversas.
É a iluminação de bordel que impede a distinção entre uma azeitona e uma barata.
É o hábito chique de nunca deixar as garrafas na mesa, o que significa que o garçom só se apercebe da nossa sede "in extremis" quando existem tremores alcoólicos e outros sinais de abstinência.
Meu Deus, onde vamos parar?
Não sei.
Mas sei que já tomei providências: no próximo outono, tenciono aprender a caçar.
Tudo serve: perdiz, lebre, javali.
Depois, com uma fogueira e um espeto, cozinho o bicho como um homem pré-histórico.
O pináculo da civilização é tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm?
Então chegou a hora de regressar às cavernas de Lascaux..."
Viva a Lampreia‼️
Viva o cozido à Portuguesa‼️
O pudim de Abade dos Priscos‼️
O tinto‼️
O branco‼️
E... poupem na água que faz muita falta na lavoura🥴

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Fidelizações nas telecomunicações são "um embuste", com número "dramático" de queixas, diz presidente da Anacom


“As fidelizações são um engano em que o País tem caído”, disse João Cadete de Matos, presidente da Autoridade Nacional de Comunicações, no parlamento, pedindo ao Governo que aja “rápido” para limitar duração máxima.

“Grave”, “um engano”, “um embuste”, “verdadeiramente chocante”. Foi assim que o presidente da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), João Cadete de Matos, descreveu, em mais uma audição na Assembleia da República, as propostas de fidelização das operadoras de telecomunicações em Portugal, que considera anticoncorrenciais e lesivas dos interesses dos consumidores.

O regulador apelou, de forma veemente, a que o Governo mudasse a lei para limitar as fidelizações a um máximo de seis meses, face aos dois anos atuais, porque o leilão de 5G consagrou a entrada de dois novos operadores. E acusou as incumbentes de terem intensificado as campanhas de refidelização durante o leilão de 5G, classificando algumas delas de refidelizações abusivas, para limitar ao máximo a migração para os novos serviços, eventualmente mais baratos.

“Já não pedimos ao Governo que considere” alterar a lei, invectivou. “Pedimos ao governo que faça. E que faça rápido”.

Na intervenção inicial do regulador aos deputados da Comissão de Economia, Obras Públicas, Planeamento e Habitação, numa audição requerida pelo PCP sobre os aumentos dos preços nas telecomunicações e no serviço postal garantido pelos CTT, Cadete de Matos disse que, se o regime de fidelização não for revisto de forma urgente, os consumidores estão sujeitos a mais aumentos de preços à taxa de inflação nos próximos anos iguais aos que estão já em vigor nas incumbentes.

Isto num país que paga telecomunicações já 20% acima dos preços praticados na União Europeia. Portugal, disse, registou um aumento de 8% no custo das telecomunicações nos últimos 12 anos, quando nos 27 os preços caíram no mesmo período.

“Mais grave ainda é Portugal ter assistido, nomeadamente quando durou a campanha do leilão das frequências [5G], ao aumento das refidelizações e refideliações abusivas”, disse Cadete de Matos. “É dramático o número de consumidores que se queixam do abuso das refidelizações”, não autorizadas ou autorizadas à distância, ou sem apresentar “toda a informação sobre o que implicam essas refidelizações”.

“Muitos clientes só sabem disto no fim do contrato, porque não percebem por que foram refidelizados”, acrescentou. “É verdadeiramente chocante (…) vamos ser muito atuantes e tirar conclusões nessa matéria”, garantiu.

“Recebemos queixas neste mês de janeiro e fevereiro” com consumidores que "em janeiro tinham sido abordados pelas empresas com novas ofertas" e com a garantia de que não iriam aumentar preços, declarou João Cadete de Matos.

“Passado uma semana ou duas receberam a informação que o preço iria aumentar” à taxa de inflação, disse.

“Não há razão nenhuma” para preços atuais
A entrada de dois novos operadores, a Dense Air e a Digi, vai espicaçar a concorrência. Mas para potenciar a queda dos preços, é necessário uma revisão da lei no que toca à duração máxima das fidelizações, disse Cadete de Matos.

“Aquilo que esperamos que aconteça, já este ano e nos próximos, com o investimento destas empresas, é que haja em Portugal as ofertas que há em Espanha e em Itália. Mas para isso temos de libertar os consumidores das ofertas de 24 meses”, defendeu.

Exemplificou com um contrato de fibra ótica, que "consegue ser contratado com uma mensalidade de 20 euros" em Espanha, “com um prazo de compromisso de 3 meses”.

“Em Portugal o preço mais baixo que existe é 30 euros, e é o preço que é prestado pelo operador Nowo”, o operador com a quota mais baixa. Os restantes operadores praticam preços mínimos de 38 euros, mas com fidelizações de dois anos, disse.

“Foi apresentado aos portugueses que com as fidelizações as comunicações eram mais baratas”, disse. “É um embuste no que é dito aos portugueses, que são as vantagens, os descontos”, acrescentou. E interrogou-se, depois de aludir aos preços : “qual é a razão" para serviços como o de Internet “custarem o dobro em Portugal? Não ha razão absolutamente nenhuma”.

“As fidelizações são um engano em que o País tem caído”, resumiu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Mushrooms Provide Hope for Our Plastic Planet


As soluções de embalagem nem sempre exigem inventar coisas novas, mas sim perceber quais coisas úteis já existem e colocá-las para funcionar. Quando fazemos embalagens de cogumelos aproveitamos a incrível “tecnologia” da natureza. Ao utilizar recursos que normalmente são considerados resíduos e de baixo valor - como cascas de milho, cascas de sementes e serragem - e combiná-los como matéria-prima com micélio de cogumelo, podemos criar substitutos naturais e compostáveis para espumas plásticas que, em vez de poluir o planeta, nutrem a Terra. Meghan Olson, Diretora, Embalagem Mushroom® da Ecovative

Como Diretora de Comercialização do negócio de Embalagens Mushroom® da Ecovative, Meghan lidera o desenvolvimento de negócios, vendas, desenvolvimento de produtos e sucesso do cliente para Embalagens Mushroom®. Meghan está focada em acelerar o crescimento e construir participação no mercado global para o produto Mushroom® Packaging por meio de vendas diretas, parcerias e licenciamento, ao mesmo tempo em que avança a visão estratégica da Mushroom® Packaging e cultiva uma rede de parceiros estratégicos. Meghan é responsável por garantir o sucesso comercial integrado das embalagens Mushroom® e de outros produtos MycoComposite™.

Meghan possui um MS. em Engenharia Mecânica e um duplo B.S. em Engenharia Mecânica e Design, Inovação e Sociedade pelo Rensselaer Polytechnic Institute e é apaixonada por tecnologias de micélio há mais de uma década, desde que conheceu os fundadores da Ecovative e a sua história com o seu falecido mentor e antigo campeão da Ecovative, Burt Swersey. Meghan traz experiência técnica em vendas e desenvolvimento de negócios da empresa de tecnologia Vyv e iniciou a sua carreira numa função de design de engenharia de sistemas de fluidos na GE Power, após o seu mestrado em Engenharia Mecânica com foco em fabricação aditiva de compósitos.

sábado, 28 de janeiro de 2023

MEO, Vodafone, NOS: vem aí um "aumento muito elevado de preços - que já são dos mais elevados da Europa". E por isso a DECO escreveu uma carta (e deixa conselhos)


Jurista da Deco explica à CNN como foram calculados os aumentos anunciados pelas operadoras de telecomunicações (podem ir até +7,8%) e aquilo a que os consumidores devem estar atentos para se protegerem

A DECO - Associação do Consumidor já enviou uma carta à Anacom - Associação Nacional de Comunicações a pedir "uma apreciação da total regularidade" dos aumentos anunciados pelas três maiores operadoras de telecomunicações em Portugal - Vodafone, Meo e NOS. "Temos algumas dúvidas, sobretudo no que toca ao cumprimento dos prazos e às alterações aos contratos dos consumidores", explica à CNN Portugal Luís Pisco, jurista da Deco.

No entanto, quanto aos valores dos aumentos, infelizmente o jurista diz que não há muito a fazer: "Não posso dizer que tenha sido uma surpresa. A DECO alertou que isto ia acontecer e procurámos atempadamente que a legislação fosse alterada de modo a prevenir esta situação mas não foi possível", lamenta. Também em outubro, prevendo que isto ia acontecer, a Anacom recomendou aos operadores que avaliassem e mitigassem o impacto das revisões de preços sobre as famílias e melhorem as condições das ofertas.

"Os aumentos são estabelecidos em função do índice de preço no consumidor, que é definido anualmente pelo INE - Instituto Nacional de Estatística. Geralmente, as oscilações são mínimas, de um ou dois pontos percentuais. Mas este ano, como já se previa, o valor disparou", explica Luís Pisco. É por isso que todas as operadoras se preparam para aumentar os preços dos seus produtos e serviços num valor que pode ir até 7,8% (confirmado pela MEO e Vodafone, a NOS ainda não disse quanto).

"O sector das telecomunicações tem sido fortemente afetado pelo atual contexto macroeconómico e geopolítico. Daqui resultaram, entre outros efeitos, aumentos significativos nos preços da energia, prestação de serviços e das matérias-primas", explica a Vodafone na carta que enviou aos seus clientes, explicando o aumento. "Estas circunstâncias tiveram impacto na subida da taxa de inflação e consequentes aumentos expressivos nos custos operacionais e de gestão da rede de suporte à prestação dos nossos serviços."

"É um aumento muito elevado sobre preços de telecomunicações que já são dos mais elevados da Europa", sublinha Luís Pisco. "Ainda por cima num momento em que os consumidores estão a passar por uma fase muito complicada, com outros aumentos, como dos créditos à habitação." E alerta: "Os aumentos vêm para ficar, mesmo que no próximo ano o índice reduza não há volta atrás".

O que é que os consumidores devem fazer?
- A primeira coisa a fazer é consultar o seu contrato e confirmar se, de facto, inclui a cláusula que prevê a possibilidade de atualizações de acordo com o índice do preço no consumidor do INE. Nem todos os contratos têm esta cláusula e, se não tiverem, o aumento pode ser irregular.

- No caso de o seu contrato prever uma mensalidade com valor fixo durante um determinado período (por exemplo, de 24 meses), que é considerado de fidelização, há a possibilidade de questionar a legalidade do aumento. Esta é uma das dúvidas levantadas pela Deco, que defende que os aumentos devem ser aplicados no momento da renegociação dos contratos.

- Requeira ao operador uma comunicação pessoal com a informação concreta sobre o valor do aumento e o valor final a pagar: "Não basta informar que vai haver um aumento, nem é suficiente enviar um link para um tarifário. Não é o consumidor que tem de fazer contas ou consultar tarifários, que são sempre confusos. Cabe ao operador dar a informação exata do valor final a pagar", explica Luís Pisco.

- Confirme a data em que foi informado da alteração: o aviso deve ser feito com 30 dias de antecedência. A Deco tem dúvidas, por exemplo, que a Meo e a Nos, que anunciaram aumentos a partir de 1 de fevereiro, tenham cumprido este prazo.

- Verificar se o que lhe é proposto é uma atualização (com base no índice do preço no consumidor do INE) ou uma alteração ao contrato - são coisas distintas e, no caso de ser uma alteração, o consumidor deve ter sempre a hipótese de terminar o contrato.

- Se estiver em situação de desemprego, de doença prolongada ou emigração pode cancelar o contrato com a operadora de telecomunicações. Consulte as condições no site da Anacom.

- Famílias com baixos rendimentos ou necessidades sociais especiais podem pedir a tarifa social de internet. Consulte as condições no site da Anacom.

- Se tiver dúvidas, peça ajuda à Deco.

- Se considerar que o seu caso é irregular, pode fazer uma queixa à Anacom- Autoridade Nacional de Comunicações.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Euromonitor revela as 10 principais tendências globais de consumo 2023


O custo de vida e a crise ambiental estão transformando as tendências e o comportamento do consumidor, divulgou a Euromonitor International em seu relatório recentemente lançado “10 Principais Tendências Globais de Consumo 2023”.

Consumidores gastando de forma responsável, porém emocional, o papel da digitalização nos processos de compra, as demandas de igualdade feminina e uma Geração Z disruptiva são alguns dos fatores que definirão as tendências globais de consumo em 2023 de acordo a empresa global de pesquisa de mercado.

O aumento do custo de vida e a crise ambiental parecem ser dois dos principais impulsionadores do comportamento do consumidor. Compradores Cautelosos e Eco-Econômicos — duas das 10 principais tendências globais da Euromonitor em 2023 — são resultado direto da dupla evolução.

As 10 tendências que a Euromonitor levantou em seu relatório Principais Tendências Globais de Consumo 2023 são as seguintes:

Automação Autêntica : Humanos e máquinas precisam estar em sincronia para fornecer soluções significativas. As conexões emocionais não devem ser subestimadas e os benefícios tecnológicos devem superar a necessidade de interações pessoais para criar uma experiência perfeita.

Compradores Cautelosos : A crise do custo de vida está diminuindo o poder de compra dos consumidores. Economizar é prioridade. Em 2022, 75% dos consumidores não planejavam aumentar os gastos gerais.

Controlar o Tempo de Tela : As pessoas ainda estão ligadas a seus dispositivos, mas o tempo de tela é mais seletivo. Os consumidores querem uma experiência digital eficiente e filtrada de acordo com seus interesses.

Eco-Económicos : Os padrões de consumo são menos de aquisição e mais de redução, o que impacta positivamente o planeta. 43% dos consumidores reduziram o consumo de energia no ano passado.

Hora do Jogo : Os games se tornaram um líder em entretenimento e transcenderam a divisão geracional. O que antes era um nicho é agora uma oportunidade de mercado em massa.

Aqui e Agora : Soluções flexíveis expandem o poder de compra e aliviam as pressões de custo para ajudar os consumidores a gastar com felicidade. No curto-prazo, “alegria” é um motivador de compra. Em 2022, o valor de empréstimo do buy now, pay later foi de US$ 156 biliões.

Rotinas Revividas : A pós-pandemia está aqui. Os consumidores estão se adaptando a novos horários e navegando em um retorno à realidade. 39% dos consumidores disseram que mais de suas atividades diárias serão presenciais nos próximos cinco anos.

Ascenção Feminina : Os consumidores se recusam a permanecer em silêncio sobre a desigualdade de gênero. Representação justa, equidade e inclusão estão na vanguarda das decisões de compra das mulheres.

Os Prósperos : A fadiga está se instalando à medida que os consumidores navegam em tempos caóticos e erráticos; eles estão colocando as necessidades pessoais acima de tudo. 53% dos consumidores estabeleceram um limite estrito entre vida profissional (ou escolar) e pessoal em 2022.

Jovens e Disruptivos : Os consumidores da Geração Z defendem suas crenças e se expõem. Eles são imunes à publicidade tradicional. Autenticidade e impacto social fazem a diferença.

“Os últimos anos foram tudo menos convencionais e 2023 não será exceção”, de acordo com Alison Angus, Head de Inovação da Euromonitor International. “As empresas devem esperar um comportamento bastante divergente à medida que os consumidores lidam com os desafios contínuos enquanto voltam ao normal”.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Quantos jovens resgatei de um percurso mais doloroso

Street Art by Andrew Salgado

Quantos jovens resgatei de um percurso mais doloroso. Quantos casos incontáveis de putos entregues à CPCJ, sem família, nem escola, nada...Felizmente poucos não fui capaz de antecipar mais cedo um desfecho trágico. Acredito que a disciplina que lecciono lhes abre as mentes, ficam absortos, pretendem fazer mais, sentem-se envolvidos, ficam conscientes do seu corpo e da biocentricidade. Amava saídas de campo- mostrar-lhes seres vivos e os seus ecossistemas, as comunidades onde se encontravam inseridas, as características evolutivas que permitiam a sua adaptação ao meio ambiente , experiências laboratoriais e vê-los sorrir e criar autonomia na investigação científica (isto já mais a nível secundário).
Explicar-lhes cientificamente como fazer pão, iogurte e papel reciclado. Explicar-lhes as diferentes qualidades da água potável. Explicar a rotulagem e verificar a validade. Muitas das vezes sem condições de trabalho. O material laboratorial é muito pouco abundante nas nossas escolas. Tinha que ir mais cedo a correr para dentro da sala de aula, porque em poucas escolas temos material e assistentes técnicos especializados. Fazíamos herbários.
Corre João, corre como os meus alunos me chamaram, carinhosamente uma vez, a gazela.
Numa escola os meus alunos resolveram fazer um trabalho científico de produção de cerveja artesanal. Houve um sururu entre os docentes. Mas a vontade e bom senso superou essas impedâncias morais e os alunos lá conseguiram seguir o seu processo. A cerveja era de boa qualidade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Reino Unido: fundos de investimento rotulam-se de 'verdes' mas financiam empresas de combustíveis fósseis


Os principais fundos de investimento disponíveis para os consumidores britânicos estão a comercializar-se a si próprios como "sustentáveis" e "éticos", mas financiam empresas de combustíveis fósseis. Muitos gestores de ativos estão a utilizar termos "verdes" na sua marca, apesar de investirem em gigantes petrolíferos, com o pior desempenho a ser um fundo gerido pela BlackRock, revela uma reportagem da revista Ethical Consumer.

Na Cimeira Climática da ONU, Urgewald, Stop EACOP, Oilwatch Africa, Africa Coal Network, 33 outras ONGs africanas e BankTrack divulgaram o relatório "Quem está a financiar a expansão dos combustíveis fósseis em África?" O relatório identifica 200 empresas que estão a explorar ou a desenvolver novas reservas de combustíveis fósseis ou a desenvolver novas infra-estruturas fósseis, tais como terminais de gás natural liquefeito, gasodutos ou centrais elétricas alimentadas a gás e a carvão em África.Altos funcionários do Departamento de Ambiente do Novo México demitem-se rotineiramente para irem trabalhar para os laboratórios de armas nucleares, para o Departamento de Energia, ou para os contratantes do DOE. Em alguns casos, foi de onde eles vieram para começar. Jay Coghlan, Nuclear Watch.


16 municípios porto-riquenhos estão a processar a Chevron, ExxonMobil, Shell, e outros para os indemnizar pelos danos da época de furacões de 2017, que foi exacerbada pelas emissões de combustíveis fósseis responsáveis pelo aquecimento global. KENNY STANCIL, Common Dreams.A Nuclear Free WA protestou no exterior da assembleia geral anual da Deep Yellow contra os planos da empresa para extrair urânio em Mulga Rock, a noroeste de Kalgoorlie, Austrália. Sam Wainwright, Green Left.

A Nuclear Free WA protestou no exterior da assembleia geral anual da Deep Yellow contra os planos da empresa para extrair urânio em Mulga Rock, a noroeste de Kalgoorlie, Austrália. Sam Wainwright, Green Left.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Alimentos e ingredientes 'naturais' - o engano viral


A apresentação de alimentos e/ou seus ingredientes como 'natural', em rótulos e publicidade, é difundido em todos os cantos do planeta.

O conceito de 'natural' é completamente ambíguo, na UE, em alimentos como noutras categorias de Bens de consumo rápido (FMCG, por exemplo, cosméticos).

As regras em vigor nos vários mercados internacionais, aliás, tendem a endossar o engano viral. 

Decepção viral.

1) Alimentos naturais v. superprocessado
O recall no 'Naturalidade' de produtos alimentícios hoje responde principalmente à preocupação do consumidor com alimentos ultraprocessados. Que muitas vezes são caracterizadas como junk food, devido a perfis nutricionais desequilibrados, cujo consumo está associado a maiores riscos de doenças graves e crónicas. (1)

Alimentos 'natural, são, portanto, identificados, principalmente, com matérias-primas agrícolas não processadas ou sujeitas a transformações mínimas, por métodos tradicionais, sem adição de aditivos químicos de síntese. A especificação técnica ISO/TS 19657:2017 é de fato estruturada sobre essas premissas, como vimos, mesmo que se aplique apenas a relacionamentos B2B. (2)

2) Comida 'natural', as regras da UE
O Regulamento de Informações sobre Alimentos, reg. EU 1169/11, limita-se a estabelecer os critérios gerais que devem ser seguidos na informação ao consumidor. A transparência, nos rótulos e na publicidade, pressupõe a veracidade (e demonstrabilidade) das informações fornecidas nos produtos alimentícios. E a sua expressão clara e inequívoca, compreensível para o consumidor médio (regulamento da UE 1169/11, artigos 7.º e 36.º).

A Comissão Europeia pode adotar atos delegados para garantir que os consumidores sejam adequadamente informados, quando os operadores de empresas de alimentos fornecem informações voluntárias sobre alimentos que são conflitantes e podem induzir em erro ou confundir o consumidor (regulamento da UE 1169/11, art. 36.4). Mas os apelos repetidos da sociedade civil até agora caíram em ouvidos surdos. (3)

3) Inglaterra
A FSA, Agência de Padrões de Alimentos, recomenda restringir o uso de reivindicar 'natural' a apenas produtos compostos exclusivamente por ingredientes naturais, ou seja, produtos da natureza.

É enganoso use este termo para descrever alimentos ou ingredientes cuja composição foi modificada pelo uso de produtos químicos ou que incluem produtos de 'nova tecnologia'. Inclui aditivos e aromas produzidos pela indústria química ou extraídos por processos químicos. (4)

O texto 'produtos com ingredientes naturais' pode ser usado para descrever alimentos compostos onde todos os ingredientes são naturais, inalterados pelo uso de produtos químicos, no máximo submetidos a processos de fermentação tradicionais.

4) Irlanda

A FSAI, Autoridade de Segurança Alimentar da Irlanda, por sua vez esclarece o uso de uma série de expressões pelos especialistas em Marketing Comida. Estes incluem a expressão 'natural' e variações sobre o tema, por exemplo. 'naturalmente melhor', 'bondade natural'. (5) Recordando a proibição de atribuir a um alimento características comuns a outros produtos da mesma categoria (Regulamento UE 1169/2011, artigo 7.1.c).

Uma comida mono-ingrediente minimamente processado pode, portanto, ser definido como 'natural' apenas se for distinguido por esta característica de todos os alimentos semelhantes. Os alimentos compostos, conforme processados ​​pelo homem, não podem ser considerados "natural".

"Feito com ingredientes naturais", é a única designação permitida para alimentos compostos que, portanto, diferem de produtos similares, desde que atendam a todos os seguintes critérios:
  • apenas ingredientes naturais, não sujeitos a interferência humana significativa,
  • ingredientes e produto final isentos de aditivos, exceto os obtidos de fontes naturais (por exemplo, plantas) submetidos a processos físicos e/ou 'tradicionais' (incluindo destilação e extração com solventes) e aromas naturais.
5) EUA
Três petições foram apresentados pelo CSPI (Centro de Ciência para o Interesse Público) para a FDA (Food and Drug Administration), a partir de 2014, para obter uma regulamentação específica – ou melhor, a proibição – do uso do termo 'natural' no especialistas em Marketing de comida.

Certificação – abstendo-se de adotar normas específicas – especificou que a rotulagem de um alimento como 'natural' – postula a ausência de ingredientes artificiais ou sintéticos. No entanto, sem abordar algumas questões cruciais levantadas pelo CSPI, como o uso de pesticidas e algumas tecnologias (por exemplo, irradiação). (6)

6) Canadá
Health Canada esclareceu os termos de uso do termo 'natural', especificando que os alimentos e ingredientes assim designados:
  • são isentos de vitaminas e sais minerais adicionados, aditivos e aromatizantes não naturais,
  • não foram submetidos a remoção significativa ou modificação de qualquer componente ou fração do mesmo, exceto redução de água,
  • são feitos sem processos que tenham alterado significativamente seu estado físico, químico ou biológico original (processos intensivos).
Os processos que não alterem significativamente o estado físico, químico ou biológico original do alimento (processamento mínimo) seriam reconhecidos como 'natural'. Bem como substâncias aromatizantes derivadas de fontes vegetais e/ou animais. Com algumas exceções. (7)

7) Austrália
"Natura" 'natural', 'mãe natureza', o 'método natural' são termos que podem ser mal utilizados em rótulos de alimentos e bebidas. Mesmo quando baseado em regras técnicas, códigos ou normas.

Então a AAAC, Comissão Australiana de Concorrência e Consumidor, sublinhou:

– a necessidade de se colocar 'no lugar do consumidor' para verificar se o reivindicar não pode enganá-lo,
– a oportunidade de melhor circunstanciar o significado de 'natural'. Ao adicionar, por exemplo, palavras como 'não contém aditivos alimentares', ou 'sem conservantes artificiais'. (8)

8) Israel
O Ministério da Saúde em Israel distingue produtos alimentícios 'natural' em comparação com os feitos 'com ingredientes naturais':

– um alimento mono-ingrediente pode ser rotulado como 'natural', sem texto acompanhante, desde que não tenha sido submetido a processos diversos dos especificados na Norma,
– a designação de um 'ingrediente natural' é permitido quando é feito a partir de matrizes que atendem aos critérios acima e outros processos especificados na Norma,
– um género alimentício constituído por dois ou mais 'ingredientes naturais', e não contém nenhum ingrediente não natural, pode ser apresentado como 'com ingredientes naturais', não também como 'natural',
– alimentos que contenham um ingrediente não natural (por exemplo, aromatizante) só podem incluir a palavra 'na lista de ingredientes natural', após o nome dos componentes que atendem aos requisitos da Norma,
– um ingrediente sintético pode ser indicado como 'semelhante ao natural, quando há identidade de composição química comcomponente natural', apenas na lista de ingredientes (9,10).

Engano viral

No Velho Continente a decepção viral domina as prateleiras dos supermercados. O uso do termo 'natural' – além dos regulamentos setoriais isolados que o regulam especificamente (e.g. alegações nutricionais e de saúde, águas minerais, aromatizantes) – é usado com a mais ampla liberdade e engano. Exceto esporádico ação de classe e decisões de autoridades nacionais responsáveis ​​pela defesa da concorrência e do mercado. (11)

Internacionalmente – na ISO/TS 19657 e nas várias normas citadas – os requisitos para designar um alimento como 'natural' estão de fato limitados ao estágio de transformação. O engano de apresentar aos consumidores como 'natural':
  • alimentos à base de plantas cultivados com glifosato e / ou coquetel tóxico de pesticidas, talvez até de monoculturas de OGM em áreas sujeitas a desmatamento e roubos de terras,
  • produtos derivados de animais tratados com antibióticos (e hormonas de crescimento, bem como alimentados com farinhas de origem animal, no continente americano),
  • embalagens redundantes, excessivas e insustentáveis.
A única solução possível
A única solução possível é restringir o uso desses reivindicações exclusivamente aos produtos orgânicos, os únicos que podem ostentar uma "Naturalidade" autentica com base em regulamentos obrigatórios e certificações reconhecidas internacionalmente.

Referências Bibliográficas
(1) Dario Dongo, Andrea Adelmo Della Penna. Alimentos ultraprocessados, o pior mal. Apelo dos cientistas no British Medical Journal. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 16.8.21

(2) Dário Dongo. Ingredientes naturais, o ABC de acordo com a ISO. GIFT (Grande Comércio de Comida Italiana). 11.1.19

(3) Dario Dongo, Marta Strinati. Reivindicação 'Natural' no rótulo. Petição contra enganos. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 26.11.20

(4) FSA. Critérios para o uso dos termos fresco, puro, natural etc. na rotulagem de alimentos – Critérios recomendados para o uso do termo “Natural”.  (acessado em 23.11.22)




(9) Estado de Israel. Rotulagem de Alimentos e Rotulagem Nutricional. Ministério da Saúde. 

(10) No dir. 88/388/EEC para sabores sintéticos 'idêntico natural'(substâncias aromatizantes idênticas às substâncias naturais). Categoria então eliminada pelo seguinte reg. CE 1334/08

(11) Marta Strinati, Dario Dongo. Puro e '100% natural' com glifosato? Consumidores dos EUA versus Twinings. GIFT (Grande Comércio de Comida Italiana). 21.7.19