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domingo, 19 de julho de 2026

A tecnocratização do erro: como o Marketing Político substituiu a resolução de problemas

Esta semana foi pródiga em sobressaltos sociopolíticos que nos impõem uma reflexão e ponderação, antes de irmos a banhos. A 'guerra da água' em Almada, o caos logístico nos exames motivado pelo outsourcing na Educação e o caso Luís Neves expuseram a erosão da legitimidade política pela perda de confiança, a tecnocratização do erro (transformar falhas políticas em meros 'problemas de comunicação') e a crise de credibilidade institucional.

No horizonte, desenha-se já o caminho para a destruição do Serviço Nacional de Saúde e, provavelmente, da Segurança Social.

Em todos os casos, o padrão repete-se: o erro estrutural é sistematicamente reduzido a um problema de comunicação, esvaziando o princípio da responsabilidade política e transformando a governação num permanente spin-off, onde a gestão da imagem pública substitui a resolução dos problemas reais.

A análise contemporânea da crise cívica
Este divórcio entre quem governa e quem é governado não constitui um exclusivo da nossa contemporaneidade, mas adquiriu uma sofisticação técnica sem precedentes históricos. Em 1973, quando Jürgen Habermas publicou Crise de Legitimidade, o pensamento político ocidental foi alertado para o facto de o Estado moderno ter assumido uma hipertrofia de responsabilidades administrativas que fatalmente ditaria a sua vulnerabilidade. Ao centralizar e tutelar a gestão direta de pilares como a instrução pública ou a segurança precípua, o poder político inevitavelmente politizou o quotidiano da sociedade civil. O reverso desta dinâmica apresenta-se de forma severa: sempre que as estruturas e as respostas falham na sua execução factual, a responsabilidade cai diretamente sobre a cúpula governativa, e não sobre a imprevisibilidade do sistema. Para mitigar esta fragilidade estrutural, as elites políticas contemporâneas ergueram uma barreira assente na tecnocratização e na gestão permanente da imagem mediática. Quando um modelo de avaliação escolar colapsa ou o percurso ético de um governante é fustigado por inconsistências, a máquina estatal reage através da redução do erro a um mero incidente técnico, a uma contingência organizacional ou a um problema de comunicação reativa. Esta degradação da substância democrática em favor do espetáculo - fenómeno que Bernard Manin teorizou como a Democracia de Público - esvazia o escrutínio factual e promove o isolamento cívico, induzindo o cidadão a uma retirada cínica para a esfera privada do consumo.

Esta alienação institucional acarreta profundas sequelas morais e psicológicas na comunidade. Axel Honneth, na sua obra fundacional Luta por Reconhecimento (1992), demonstrou que o motor da coesão social não reside unicamente em vetores económicos, mas sim na necessidade inalienável de validação da dignidade humana. Sempre que a governação mascara a incompetência estrutural através de artifícios de retórica ou de justificações burocráticas, desrespeita diretamente a inteligência do eleitorado e a sua condição de sujeito de direito. Ao permitir-se a degradação da escola pública ou do sistema de saúde, envia-se uma mensagem implícita de desvalorização aos profissionais essenciais e às famílias, destruindo a premissa da casa comum. É nesta exata rutura de expectativas que a cientista política Catherine de Vries ancora o seu diagnóstico contemporâneo em "Political Entrepreneurs: The Rise of Challenger Parties in Europe" (2020). Recorrendo a dados empíricos, De Vries comprova que o cidadão atual ultrapassou a mera apatia; manifesta, sim, uma postura desafiante e reativa contra a ineficácia governativa. Quando se constata que as infraestruturas básicas falham sistematicamente enquanto as lideranças investem em dispendiosas estratégias de marketing de crise, fratura-se irremediavelmente o contrato de fidelidade aos partidos tradicionais. O populismo radical não cria a indignação; limita-se a recolher e a instrumentalizar os estilhaços dessa humilhação social, oferecendo simulacros de pertença e identidades exclusórias a uma população deliberadamente desprovida de voz pela arrogância tecnocrática.

Propostas de resolução e caminhos
A reversão deste diagnóstico e a consequente preservação das instituições democráticas requerem reformas profundas que transcendem o voluntarismo eleitoral ou a mera cosmética da mensagem oficial. A prioridade fundamental reside no desenvolvimento de uma autodefesa intelectual coletiva, pautada pela recusa inequívoca do jargão tecnocrático como justificação para falhas éticas ou políticas. Na ótica habermasiana, urge resgatar o agir comunicativo através da revitalização do espaço público informal, o que se traduz na necessidade imperiosa de reconstruir a comunidade a partir das suas bases, ocupando e dinamizando microespaços de debate real e deliberação local, onde o descontentamento atomizado possa ser articulado como exigência cívica organizada.

No plano das estruturas do Estado, o pensamento de Honneth impõe a necessidade imperiosa de desmercantilizar os serviços sociais basilares. A blindagem da saúde, da habitação e da educação face à lógica mercantil do custo-benefício constitui a única via para devolver a estes setores o seu papel primordial de espaços de igualdade absoluta e de cidadania partilhada, o que exige, concomitantemente, uma justa dignificação material e estima pública pelas carreiras que asseguram a reprodução da vida social. Finalmente, o desenho prático desta transição beneficia das propostas de Catherine de Vries no que concerne à descentralização efetiva do poder e à urgência de novos paradigmas de prestação de contas. Torna-se indispensável a implementação de mecanismos diretos e independentes de monitorização e auditoria da ação governativa por parte da sociedade civil. A convergência entre o revigoramento da participação comunitária, a restauração da dignidade social e o desenho de uma transparência institucional implacável desenha a única rota viável para resgatar a legitimidade democrática e neutralizar o avanço das soluções populistas.

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O futuro passa pelas Comunidades de Energia Renovável (CER) mas com mais reindustrialização solar dentro da Europa /União Europeia

Produção e partilha de energia limpa por um grupo de cidadãos e instituições públicas e privadas a custos vantajosos com redução significativa da emissão de CO2 é o foco que está na origem da criação das Comunidades de Energia Renovável (CER).

Em 2019 foi introduzido em Portugal o Decreto-Lei n.º 162/2019 que define as bases para a criação destas Comunidades. A energia solar é a fonte de energia preferencial na Europa para a criação de CER pela abundância, custos mais reduzidos e simplicidade do planeamento da instalação. Conheça neste artigo o que são as Comunidades de Energia Renovável, como se podem constituir e quais os seus benefícios.

De acordo com o Fundo Ambiental, as Comunidades de Energia Renovável tornam possível que cidadãos, empresas e entidades públicas e privadas, produzam, consumam, partilhem, armazenem e vendam a energia produzida a partir de fontes de energia renováveis. Desta forma, participam ativamente na transição energética, na transformação das redes elétricas convencionais em redes elétricas inteligentes e, ao mesmo tempo, conferem maior qualidade de serviço e segurança de abastecimento, ao permitirem a integração significativa de fontes renováveis.

CER – O que são e como funcionam?
Uma Comunidade de Energia Renovável (CER) reúne cidadãos, empresas e instituições, inclusive Municípios, na realização de projetos de energia renovável com proveito e partilha dessa energia para satisfazer as suas necessidades locais. Baseia-se numa participação aberta e voluntária dos seus membros que estão localizados na proximidade desses projetos. O objetivo principal de uma CER é proporcionar aos seus membros e às localidades onde se encontra benefícios ambientais, económicos e sociais.

O Decreto-Lei n.º 162/2019 que regula as CER visa facilitar a participação ativa na transição energética de empresas e de cidadãos interessados em investir, sem subsídios públicos, em recursos energéticos renováveis que respondam às necessidades de consumo.

Os membros de uma Comunidade de Energia Renovável têm de ter proximidade geográfica e podem organizar-se entre si para Autoconsumo Coletivo (ACC). No entanto, enquanto no Autoconsumo Coletivo os autoconsumidores têm de ser proprietários das instalações de autoconsumo, no caso das CER esta obrigatoriedade não se coloca. Ou seja, a Comunidade de Energia Renovável destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos seus membros e não tem necessariamente de ser proprietária das instalações de consumo que deverá alimentar, mas apenas da(s) Unidade(s) de Produção para Autoconsumo (UPAC).

Para clarificar, o Autoconsumo Coletivo refere-se à atividade de produção de energia renovável para consumo próprio através de uma ou mais Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC), constituída por, pelo menos, dois autoconsumidores locais. Destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos autoconsumidores que constituem o coletivo que são também proprietários da(s) UPAC(s) e das instalações de consumo e partilham a energia de acordo com coeficientes previamente definidos pelos próprios. Os autoconsumidores são, assim, detentores dos contratos de fornecimento de energia elétrica que devem ser alimentados pelo coletivo.

Quais os benefícios de uma Comunidade de Energia Renovável?
O principal benefício é a redução na fatura da eletricidade que pode alcançar uma média de 30%. Uma poupança considerável numa altura em que os preços da eletricidade alcançam máximos históricos. Para a indústria é particularmente relevante, tendo em conta que a eletricidade influencia muito o custo de produção, logo, a rentabilidade ou até a manutenção do negócio.

Outro benefício imediato é a redução de CO2 e o consequente impacto benéfico no planeta. As Comunidades de Energia Renovável podem desempenhar um papel fundamental no cumprimento das metas e objetivos de Portugal e da Europa no que se refere ao clima e à sustentabilidade.

A criação de Comunidades de Energia Renovável tem ainda como objetivo estimular a coesão social e territorial ao envolver pessoas e instituições públicas e privadas, o que pode gerar emprego e contribuir para uma melhor distribuição do tecido empresarial por todo o país e também proporcionar maior competitividade.

A partilha do excedente de produção de energia elétrica das Comunidades é outra das vantagens.

Que fonte de energia renovável escolher para criar uma CER?
A maioria dos projetos de Comunidades de Energia em desenvolvimento na Europa são de energia solar. A energia solar revela-se a mais indicada para este tipo de projetos por vários fatores.

Quais os fatores que tornam a energia solar a principal escolha para criar uma Comunidade de Energia Renovável?
Um deles, no caso concreto de Portugal, tem a ver com a abundância. Portugal é um dos países da Europa com maior disponibilidade de radiação solar: 2.500 a 3.200 horas de sol por ano. Outro, é o baixo custo quando comparado a outras fontes renováveis. Além disso, o planeamento de uma instalação fotovoltaica é mais simples. De acordo com o mesmo guia, a energia solar é uma ótima opção para ambientes urbanos e tem um grande impacto na criação de empregos e no desenvolvimento económico local.

Como constituir uma Comunidade de Energia Renovável?
O novo Decreto-Lei define as bases para o Autoconsumo Coletivo (ACC) e Comunidades de Energia Renovável (CER) que se tratam de novos modelos de organização local de autoprodução de energia que apresentam novas oportunidades para as comunidades locais de consumidores, para a indústria e para os fornecedores de serviços e tecnologias de autoprodução e autoconsumo a partir de fontes de energia 100% limpa. Significa que particulares, Autarquias, Juntas de Freguesia, Parques Industriais e pequenas e médias empresas podem tornar-se produtores, armazenistas e vendedores de energia. Assim, é possível alcançar uma redução da fatura de eletricidade, através de uma utilização sustentável dos recursos locais disponíveis na própria comunidade, bem como contribuir para as metas de descarbonização e, com isso, para um planeta mais saudável.

Como constituir então uma Comunidade de Energia Renovável?
A Comunidade pode ser constituída por pessoas físicas ou jurídicas e qualquer entidade pública ou privada que queira criar uma Comunidade de Energia Renovável. Até mesmo um conjunto de pessoas que vive no mesmo bairro pode fazê-lo.

O primeiro passo é escolher uma área próxima dos consumidores para instalar a estrutura para a produção. Este passo é de extrema importância. Se estivermos a falar de um sistema fotovoltaico para autoconsumo, a área deve ter uma boa exposição solar para assegurar que se obtém o melhor rendimento. Opções podem ser telhados ou terrenos.

No caso das Comunidades de Energia Renovável, a estrutura selecionada não precisa de ser propriedade da comunidade, a não ser que se opte pela solução de Autoconsumo Coletivo. Numa CER, a estrutura pode ser fornecida por um ou mais membros da Comunidade ou até por outras pessoas ou entidades que não fazem parte da Comunidade.


Quais os incentivos para constituir uma Comunidade de Energia Renovável (CER)?
Apesar do Decreto-Lei que serve de base à criação das Comunidades de Energia Renovável ter entrado em vigor no início de 2020, em Portugal ainda são conhecidas poucas Comunidades de Energia Renovável. Foi lançado de 14 de junho a 31 de outubro de 2022 um concurso com um apoio total de 30 milhões de euros para a criação de Comunidades de Energia Renovável (CER) e Autoconsumo Coletivo (ACC). Um concurso integrado no programa “Eficiência energética em edifícios de serviços” e com apoios disponíveis para edifícios residenciais, de serviços e da Administração Pública. O aviso de abertura do concurso está disponível aqui.

O objetivo é o financiamento do Autoconsumo Coletivo e das Comunidades de Energia Renovável como modelos essenciais para assegurar a produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis. De acordo com a Recuperar Portugal, espera-se que este apoio permita alcançar cerca de 30% do consumo de energia primária nos edifícios beneficiados, o que representa 93 MW.

Novas medidas em 2026 (Decreto-Lei n.º 58/2026 e atualizações da DGEG) visam acelerar o licenciamento, reforçar o acesso às redes e criar modelos de partilha mais justos, reduzindo a burocracia.

Minha análise
Ponto 1 - O modelo energético que as políticas públicas devem incentivar cada vez mais é o da energia dos e para os cidadãos e cidadãs. A legislação já permite o desenvolvimento de Comunidades de Energia Renovável (que não são as "comunidades energéticas ou de energia" publicitadas por grandes empresas do ramo), mas sim associações, cooperativas, fundações ou sociedades sem fins lucrativos em que pessoas que vivem na mesma zona (num raio de 2 - 4 km consoante os casos) se juntam para produzir, partilhar energia renovável e desenvolver outras atividades na área da energia, como compras coletivas para renovação energética das suas casas, mobilidade partilhada elétrica, literacia energética, entre outras. O caminho da autonomia e da descarbonização passa pela cooperação! A Comunidade de Energia Renovável de Telheiras/Lumiar, da Associação Viver Telheiras com o apoio da Junta de freguesia do Lumiar, é um exemplo pioneiro de base cidadã, mas há outros na Culatra, na Comenda e em todo o país a dar os primeiros passos. Isso sim é que o Governo deve apoiar com incentivos fiscais, financiamento e capacitação técnica. A Coopérnico tem apoiado tecnicamente vários projetos, tem em curso um programa de mentoria e tem feito um enorme esforço de defesa da clarificação da lei, da desburocratização e da agilização dos procedimentos para os cidadãos se envolverem e recolherem os benefícios dessa participação democrática no setor da energia. Mas as políticas e entidades públicas têm de ser coerentes, mostrar claramente o caminho e não obstaculizar o modelo descentralizado gerido pelos cidadãos e cidadãs

Ponto 2- Há um grande dilema aqui. Ficar refém dos fabricantes chineses de painéis solares, baterias e aerogeradores é reduzir a dependência energética? Se a UE vai proibir os inversores chineses porque continua a importar os outros equipamentos que podem pôr em causa a segurança energética europeia? Fonte

sábado, 25 de abril de 2026

Cidade portuguesa entra no top das mais felizes do mundo


A Maia é a cidade portuguesa mais bem posicionada no Happy City Index 2026. Ocupa o 69.º lugar a nível mundial, com 6.273 pontos, destacando-se entre os municípios nacionais.

A capital dinamarquesa, Copenhaga, lidera o ranking, que resulta de uma avaliação feita a centenas de cidades em todo o mundo.

Como é avaliada a qualidade de vida no ranking
O índice, desenvolvido pelo Institute for Quality of Life, avalia onde se vive melhor ao analisar fatores como:
  1. a governação
  2. o ambiente
  3. a economia
  4. a saúde
  5. a sustentabilidade
  6. o envolvimento dos cidadãos
A edição de 2026 começou com a análise de 3.400 cidades em todo o mundo, sendo depois reduzida a uma seleção mais detalhada de mil, até chegar à lista final de 251 cidades.

O estudo envolveu centenas de investigadores e teve em conta milhares de registos validados.

As dez cidades mais felizes do mundo
Os investigadores destacam as cidades mais bem classificadas a nível mundial por pontuação:
1. Copenhaga, Dinamarca
2. Helsínquia, Finlândia
3. Genebra, Suiça
4. Uppsala, Suécia
5. Tóquio, Japão
6. Trondheim, Noruega
7. Berna, Suíça
8. Malmö, Suécia
9. Munique, Alemanha
10. Aarhus, Dinamarca

Cidades portuguesas em destaque
A posição da cidade da Maia ganha ainda mais relevância por surgir entre as 70 cidades mais bem classificadas do mundo, à frente de destinos internacionais como Bordéus e Adelaide. Este reconhecimento surge no mesmo ano em que a cidade foi eleita Capital Europeia do Voluntariado.

Portugal conta com várias cidades neste ranking. Depois da Maia, surgem Matosinhos (111.º lugar), Odivelas (114.º), Almada (124.º), Lisboa (159.º), Braga (166.º), Gondomar (199.º) e Funchal (225.º).

O estudo confirma a presença de cidades portuguesas na lista, mas destaca a Maia como o principal exemplo nacional em termos de qualidade de vida.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A máquina da atenção: análise da cobertura do Chega e do seu líder


Há uma pergunta que não podemos evitar sempre que começa uma campanha eleitoral: quem define, de facto, os temas que ocupam o espaço público: os partidos ou as redacções dos Meios de Comunicação Social? Nas Autárquicas de 2025, a resposta ganhou contornos mensuráveis. Um levantamento exploratório do MDP: Movimento pela Democracia Participativa em que participei, baseado em pesquisas diárias realizadas no Google nos principais órgãos de comunicação portugueses entre 22 de setembro e 11 de outubro, mostra como a presença do Chega e, em particular, de André Ventura, foi não apenas dominante, mas também organizada em “ondas” temáticas com alto potencial de amplificação.

Com efeito, a curva de menções a “André Ventura” seguiu o padrão clássico dos ciclos mediáticos eleitorais: um pré-arranque relativamente discreto (André Ventura esteve três dias em parte incerta), uma explosão mediática no início oficial da campanha, um pico pronunciado e, por fim, uma retracção que permanece, ainda assim, acima do ponto de partida. Os números são eloquentes: de 1 700 referências no início da série para 9 080 na recta final, com um pico absoluto de 14 900 a 9 de outubro. Não é só volume; é o “timing”. O auge ocorre precisamente quando a disputa de mensagens é mais valiosa, ou seja, na fase em que os indecisos ainda escutam e os alinhados reforçam convicções.

Esta dinâmica não acontece no vazio: É construída. Entre 30 de setembro e 9 de outubro, a visibilidade de Ventura cresce de forma quase contínua, sinal de uma estratégia de “campanha de choque”: gerar acontecimentos (declarações, polémicas, episódios viralizáveis) capazes de puxar a cobertura para si, antes de a agenda estabilizar ou saturar.

Não basta contar menções: é preciso saber ao que remetem. O estudo isolou cinco enquadramentos discursivos recorrentes no discurso do Chega: justiça, corrupção, segurança, imigração e “comunidades ciganas” e seguiu a tração mediática de cada uma destas “frames”:

  1. A Justiça destacou-se como o eixo mais persistente e volumoso, liderando durante todo o período e batendo o recorde absoluto no dia 10 de outubro. Não é um acaso: “justiça” funciona como ponto de convergência para indignação, moralidade e punição: uma gramática que oferece ao Chega o papel autoatribuído de “voz do povo contra o sistema”.
  2. A Segurança mostrou-se o tema mais estável. Sem fogos-de-artifício, mas sempre alto. Se “justiça” dá a moral, “segurança” dá a ordem e sustenta a narrativa dia após dia.
  3. Imigração e “ciganos” operaram como boosters episódicos. Picos abruptos e quedas rápidas: sinais de ativação deliberada de polémicas com forte valor-notícia. Servem para reconfigurar a conversa nos momentos-chave, mas não se mantém como eixo estrutural da campanha.
  4. No agregado, o retrato é claro: o Chega agarrou a agenda com um tema estruturante (“justiça”), alimentou-a com um tema perene (“segurança”) e potenciou a sua visibilidade com detonadores de curto prazo (“imigração” e “ciganos”).

Comparando com PS e PSD, o Chega liderou o volume total de menções ao longo da série. O PS acompanhou a tendência na segunda metade da campanha, crescendo com intensidade na aproximação ao fecho. O PSD teve um pico precoce e perdeu tração logo depois. Três estilos distintos de presença mediática: exposição contínua e controversa (Chega), mobilização institucional concentrada (PS) e arranque forte com menor capacidade de retenção (PSD).

A consequência é um efeito de sobrerrepresentação temática: quando uma força política consegue impor, com regularidade, os seus temas preferidos, o risco não é apenas assimétrico, é cumulativo. A atenção puxa atenção; a polémica puxa cliques; e os cliques, por sua vez, reforçam o alinhamento editorial com aquilo que “rende”.

Este não é um apelo para “calar” ou silenciar ninguém ou nenhum partido (por muito extremista e radical que seja o Chega). É, sobretudo, um convite à existência de filtros editoriais mais conscientes: diversificar as fontes e os temas; distinguir o facto novo da provocação repetida; exigir contexto antes do título; medir o impacto de cobertura em narrativas que estigmatizam grupos sociais; e, sobretudo, não confundir barulho com relevância pública.

Do lado dos cidadãos, o antídoto chama-se literacia mediática: reconhecer quando um tema reaparece como trigger emocional; perguntar o que ficou de fora enquanto seguimos a polémica da semana; exigir contraditório e escrutínio simétrico para todas as forças políticas.

O estudo do MDP é exploratório, limitado na quantidade de media analisados e na duração dos dias medidos. O estudo assenta em contagens manuais de resultados do motores de busca da Google, restringidas a domínios jornalísticos de referência e recolhidas diariamente, sempre no mesmo intervalo horário. Como qualquer contabilização automatizada, pode incorporar duplicações, variações editoriais e ruído algorítmico. Por isso, o mais prudente é encarar estes números como indicadores de tendência, não como um estudo exaustivo e muito profundo.

Se quisermos um debate mais informado e plural, precisamos de monitorização periódica e transparente da agenda mediática. O MDP propõe-se fazê-la em ciclos regulares, incluindo as presidenciais que se avizinham. Não para limitar a pluralidade mas para iluminar as assimetrias que, invisíveis, decidem o que vemos, quando vemos e com que emoção vemos.

Democracia participativa também é isto: olhar para o espelho dos media, medir o reflexo e perguntar, sem receio, quem está a segurar a câmara ou o teclado que escreve as notícias.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Paul Evans


Paul Evans (pintor Britânico, nascido em 1954)

Estilo:
Pintura contemporânea que dialoga com o expressionismo abstracto e Art Informel, embora com uma abordagem pessoal muito própria.
O seu trabalho explora a relação física e emocional entre o espectador e a obra, muitas vezes procurando um diálogo entre estrutura e caos, entre ordem e entropia.

Técnica:
Usa uma grande variedade de meios: desde pintura, desenho, aguarelas a projectos colaborativos em animação e vídeo. Frequentemente trabalha com o fluxo e viscosidade da tinta, aproveitando processos naturais de secagem e gravidade para criar efeitos meditados e dinâmicos.
Explora materiais como mica e variações de transparência e opacidade para enriquecer a superfície das suas pinturas e provocar uma resposta sensorial no observador.

Temas:
A natureza — entendida como campo complexo de interacções físicas e emocionais — é um dos focos centrais da sua obra.
A sua prática inclui projectos de envolvimento com as comunidades e colaborações com poetas, designers e académicos.

sábado, 8 de novembro de 2025

Dia Mundial do Urbanismo. O exemplo Holandês

Dordrecht 

Regra 3-30-300 e Urbanismo Holandês: o guia científico para Parques Urbanos mais verdes, seguros e sustentáveis

A transformação das cidades contemporâneas exige abandonar a visão obsoleta do espaço verde como mero elemento decorativo ou "sobra de terreno" abandonada entre eixos rodoviários. No modelo de ordenamento holandês e na silvicultura urbana europeia, os parques e áreas arborizadas são abordados como infraestruturas essenciais de saúde pública e resiliência climática. Para garantir a qualidade e a funcionalidade destes ecossistemas urbanos, aplicam-se métricas científicas, estratégias de acalmia de tráfego e modelos de gestão preventiva e participativa.

A Métrica Científica da Arborização: a Regra 3-30-300
Para evitar espaços urbanos desprovidos de sombra e de biodiversidade, o urbanismo holandês adota cada vez mais a Regra 3-30-300, métrica concetualizada pelo perito em florestas urbanas Cecil Konijnendijk e publicada na revista científica Forestry. Esta norma fixa um padrão quantitativo e qualitativo claro para o espaço público:
  1. 3 árvores à vista: todas as pessoas devem conseguir visualizar pelo menos 3 árvores maduras e de bom porte a partir da janela da sua habitação ou local de trabalho.
  2. 30% de cobertura de copa (Canopy Cover): cada bairro deve garantir, no mínimo, 30% de cobertura vegetal de copa para mitigar o efeito de ilha de calor urbana, melhorar a qualidade do ar e promover a biodiversidade local.
  3. 300 metros de distância: nenhum cidadão deve caminhar mais de 300 metros a partir da sua porta para aceder a um parque público ou espaço verde de alta qualidade.
A evidência científica que sustenta esta métrica é robusta. Um estudo de grande escala publicado na Environmental Research demonstrou que o cumprimento estrito da regra 3-30-300 está diretamente associado a uma redução substancial dos problemas de saúde mental, do uso de medicação psiquiátrica e da frequência de consultas no médico de família.

Acalmia de tráfego e acesso seguro: o Princípio Duurzaam Veilig
A utilidade de um parque urbano depende criticamente da facilidade e segurança com que a população a ele acede. Na Holanda, a integração dos espaços verdes na malha urbana recusa o isolamento de parques no meio de avenidas de tráfego rápido, fundamentando-se no princípio da Segurança Sustentável (Duurzaam Veilig), desenvolvido desde os anos 1990 e documentado pelo SWOV - Institute for Road Safety Research:
  1. Zonas de acalmia de tráfego: as artérias envolventes aos parques são redesenhadas para limites de velocidade de 30 km/h, incorporando passadeiras elevadas, estreitamentos de via e elementos vegetais de acalmia (traffic calming).
  2. Corredores Verdes contínuos: os parques funcionam como nós de uma rede contínua de mobilidade suave, interligada por caminhos pedonais e ciclovias segregadas.
  3. Acessibilidade universal: crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida conseguem aceder aos parques de forma autónoma, sem a necessidade de atravessar eixos rodoviários de elevado tráfego automóvel.
A relevância desta integração é suportada pela literatura científica: um estudo de revisão sistemática na Lancet Planetary Health  concluiu que o acesso pedonal facilitado e seguro a espaços verdes urbanos está associado a uma redução significativa da mortalidade prematura por todas as causas.

Gestão e Zoneamento Canino (Hondenbeleid)
Um dos principais fatores de degradação e conflito nos parques urbanos reside na ausência de regras para a presença de animais de companhia. Os municípios holandeses regulam esta matéria através do regulamento municipal (Algemene Plaatselijke Verordening - APV) e de políticas específicas para cães (Hondenbeleid):
  1. Zoneamento rígido: Os parques são divididos em zonas sem entrada de cães (hondenvrij - em torno de relvados de piquenique e parques infantis), zonas de circulação obrigatória à trela (aanlijnplicht) e áreas vedadas e dedicadas onde os cães podem andar soltos (hondenlosloopgebied).
  2. Infraestrutura e higiene: As zonas dedicadas contêm dispensadores de sacos e contentores de lixo de despejo diário.
  3. Fiscalização e coimas: Agentes de autoridade municipal (BOA - Buitengewoon Opsporingsambtenaar) fiscalizam os parques. O incumprimento da remoção de dejetos (opruimplicht) ou a presença de cães fora das zonas permitidas resulta na aplicação imediata de coimas (frequentemente superiores a 100€).
Manutenção preventiva e padrões de qualidade (CROW-normen)
A longevidade e a atratividade dos parques sustentam-se num modelo de gestão do espaço público (Inrichting en Beheer van de Openbare Ruimte) altamente estruturado e assente em auditorias técnicas constantes, evitando a degradação reativa do mobiliário e do ecossistema.

Normas CROW: 
  1. As autarquias utilizam os referenciais do CROW - Plataforma Holandesa de Infraestruturas e Espaço Público para classificar o estado do parque (de A+ a D). Se os bancos, caminhos ou iluminação ficam abaixo do nível de qualidade estipulado, são ativadas intervenções de reparação contratualizadas antes que ocorra vandalismo ou risco de acidente.
  2. Avaliação sanitária das árvores (VTA): Cada árvore é catalogada num cadastro digital municipal e submetida à Visual Tree Assessment por arboristas qualificados, programando-se podas de formação e garantindo a segurança de ramos e troncos.
  3. Maneio Ecológico do Relvado: Em alternativa ao corte indiscriminado, alternam-se relvados de uso intensivo com áreas periféricas geridas como prados floridos (ecologisch beheer), ceifados apenas uma a duas vezes por ano para apoiar polinizadores e a biodiversidade local.
Participação cidadã e resposta rápida a anomalias
O último pilar do modelo holandês reside na ligação direta entre a comunidade local e a gestão autárquica:
  1. Plataformas digitais de reporte: Através de aplicações municipais e sistemas integrados como o BuitenBeter  qualquer cidadão pode fotografar e georreferenciar um banco danificado, um contentor cheio ou um baloiço partido.
  2. Acordos de Nível de Serviço (SLA): As equipas municipais e os empreiteiros de manutenção operam sob prazos estritos de resposta (geralmente de 24 a 48 horas para questões de segurança e limpeza urbana), assegurando a manutenção contínua e a confiança da população no espaço público.

domingo, 2 de novembro de 2025

Por onde andam a democracia e o bem comum e qual o papel da petição?


Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tantos meios para nos informarmos, comunicarmos e participarmos na vida pública — e, no entanto, a sensação dominante é a de afastamento. A democracia, esse bem conquistado à custa de tanto esforço e memória, parece hoje andar perdida entre o ruído e a indiferença. O bem comum, fundamento ético da convivência humana, foi sendo substituído por um pragmatismo egoísta, por uma lógica de mercado que transforma cidadãos em consumidores e a política em espetáculo.
A democracia não se esgota no voto. Ela exige presença, vigilância e um sentido de pertença. Precisa de cidadãos atentos, críticos, capazes de questionar e propor. Infelizmente, a apatia cresce à medida que se agravam as desigualdades, que o discurso público se torna tóxico e que os centros de decisão se afastam das pessoas. A desinformação — alimentada por algoritmos que premiam o escândalo — corrói o terreno fértil da confiança, sem a qual nenhuma comunidade pode florescer.
E o bem comum? Esse conceito, tão simples e tão esquecido, é o que poderia restituir sentido à democracia. Falar de bem comum é lembrar que a liberdade individual só faz sentido num quadro de responsabilidade partilhada. É reconhecer que a nossa saúde depende da saúde dos ecossistemas, que o nosso bem-estar depende da justiça social, que o futuro dos nossos filhos depende da coragem coletiva de mudar de rumo.
Por onde andam, então, a democracia e o bem comum? Talvez não estejam perdidos — apenas esquecidos nos gestos pequenos que deixámos de valorizar: no diálogo entre vizinhos, na participação local, na escola que ensina a pensar, na comunidade que cuida. É aí, no quotidiano concreto, que renasce a possibilidade de uma cidadania viva e solidária.

Porque a democracia não se herda — constrói-se. E o bem comum não se decreta — cultiva-se.

A democracia — como defende Pierre Rosanvallon (2008) — “não é um estado, é um processo contínuo de invenção coletiva”. E esse processo exige participação real, protagonismo cidadão e uma educação que ensine não apenas a competir, mas a cooperar. O bem comum, por sua vez, não é uma abstração moral: é, como lembra Martha Nussbaum (2011), a condição material e simbólica que permite que todas as pessoas floresçam em dignidade e interdependência.

Uma petição pode ter um papel estratégico e simbólico muito forte neste contexto de reflexão sobre democracia e bem comum.
Mesmo parecendo um instrumento modesto, ela representa a prática viva da cidadania participativa — um antídoto contra a apatia democrática. 

Para Rosanvallon (2015), estes “atos de vigilância cívica” são hoje essenciais para revitalizar a democracia representativa, criando laços entre a sociedade civil e as instituições.

Estudos recentes (por exemplo, Smith, 2009; Nabatchi & Leighninger, 2015) mostram que formas de democracia participativa — como petições, orçamentos participativos e assembleias cidadãs — aumentam a confiança pública e a qualidade deliberativa das políticas públicas.

Eis algumas vantagens claras:
🟢 1. Reforça a cidadania ativa
Assinar (ou criar) uma petição é um ato de participação direta. Mostra que as pessoas não se limitam a votar de quatro em quatro anos, mas querem intervir no debate público. Cada assinatura é um gesto de consciência cívica, e o conjunto delas cria uma voz coletiva que o poder político não pode ignorar.
🟢 2. Cria comunidade e convergência
Num tempo de fragmentação e polarização, uma petição pode reunir cidadãos em torno de um propósito comum — seja ambiental, social ou ético. Funciona como ponto de encontro entre pessoas que, mesmo diferentes, reconhecem a urgência de defender um valor partilhado.
É o bem comum, em forma de mobilização.
🟢 3. Traz visibilidade e pressão política
Uma petição bem articulada e divulgada atrai a atenção pública e mediática, obrigando decisores e instituições a reagirem. Mesmo quando não resulta imediatamente em legislação, força o debate, expõe contradições e obriga à transparência.
🟢 4. Educa e desperta
Muitas pessoas tomam contacto com certos temas através de uma petição — é um instrumento de consciencialização. Bem redigida, ela explica, contextualiza e propõe soluções. Ou seja, transforma a indignação dispersa em conhecimento e ação concreta.
🟢 5. Articula o local e o global
Peticionar é um ato simultaneamente local e global: pode começar num bairro, numa escola ou numa associação, e acabar a influenciar decisões nacionais ou internacionais. É uma ponte entre a democracia de proximidade e a política institucional.

👉 Em resumo:
1. Num tempo em que muitos se perguntam “por onde anda a democracia?”, uma petição é um modo de trazê-la de volta para as mãos das pessoas — não como ideal abstrato, mas como prática quotidiana.
2. Portanto, peticionar não é um gesto simbólico ou de "activismo de sofá": é agir sobre a realidade, dar forma política à indignação ética. É um exercício de corresponsabilidade e de reconstrução do bem comum a partir da base social.

Relembro o Exercício do direito de petição
Lei n.º 43/90 publicado no Diário da República n.º 184/1990, Série I de 1990-08-10

Referências bibliográficas selecionadas

  • Freire, P. (1996). Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra.

  • Habermas, J. (1996). Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy. MIT Press.

  • Nabatchi, T., & Leighninger, M. (2015). Public Participation for 21st Century Democracy. Jossey-Bass.

  • Nussbaum, M. (2011). Creating Capabilities: The Human Development Approach. Harvard University Press.

  • Orr, D. (2004). Earth in Mind: On Education, Environment, and the Human Prospect. Island Press.

  • Rosanvallon, P. (2008). La légitimité démocratique. Seuil.

  • Rosanvallon, P. (2015). Le bon gouvernement. Seuil.

  • Smith, G. (2009). Democratic Innovations: Designing Institutions for Citizen Participation. Cambridge University Press.

  • Sterling, S. (2010). Transformative Learning and Sustainability: Sketching the Conceptual Ground. Learning and Teaching in Higher Education, 5(11), 17–33.

  • UNESCO (2019). Education for Sustainable Development Beyond 2019. Paris: UNESCO.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

C7 toma posição sobre possível extinção do ICNF


As Organizações Não-Governamentais de Ambiente que compõem a Coligação C7 receberam com profunda preocupação as notícias veiculadas pela comunicação social sobre uma possível intenção do governo de extinguir o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), transferindo as suas competências para a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR).

Ainda que o governo não tenha, até ao momento, confirmado esta possibilidade, a Ministra do Ambiente e Energia infelizmente também não a afastou completamente quando confrontada pelos jornalistas. Mais, a redução drástica da verba a transferir do Fundo Ambiental para o ICNF, prevista na atual proposta de Orçamento de Estado, reforça esta preocupação face às responsabilidades do ICNF, nomeadamente com a implementação da Estratégia para a Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030 (revista), o Programa Alcateia, a conclusão dos planos de gestão das Zonas Especiais de Conservação da Rede Natura 2000 e o Plano Nacional de Restauro da Natureza. Portanto, a C7 considera fundamental manifestar desde já o seu completo repúdio a qualquer ação que venha a ser tomada no sentido do desmantelamento do órgão nacional de conservação da natureza. Isto representaria um retrocesso grave na política de conservação da natureza em Portugal, com impactos negativos previsíveis na capacidade do país de cumprir compromissos internacionais, proteger a biodiversidade e garantir uma gestão eficaz e estratégica do seu património natural.

O ICNF, enquanto Autoridade Nacional para a Conservação da Natureza e Biodiversidade, tem desempenhado um papel essencial na execução das políticas públicas de conservação da natureza e das florestas, na gestão de áreas protegidas e na articulação com redes europeias e internacionais. A sua extinção fragmentaria competências críticas, dificultando a coordenação nacional e estratégica.

A redução da prioridade política da conservação da natureza já foi concretizada pelos dois mais recentes governos com a extinção da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e consideramos que dar mais um passo para o enfraquecimento de uma área tão relevante comprometeria ainda mais a capacidade do país em dar respostas à atual crise de perda de biodiversidade. A gestão eficaz da natureza exige uma visão integrada, estratégica e especializada, que só pode ser garantida por uma entidade nacional com conhecimento técnico acumulado e presença territorial. Transferir responsabilidades para entidades com vocações distintas pode configurar um risco de conflito de interesses, como no caso dos processos de licenciamento ambiental, e colocar em risco o cumprimento de compromissos assumidos e a credibilidade internacional do país. 

Relembramos que a conservação da natureza é um pilar fundamental da sustentabilidade, da resiliência territorial e da qualidade de vida das populações. Enfraquecer esta missão é comprometer o futuro.

Assim, apelamos ao Governo que não avance com nenhuma proposta nesta direção, promova um debate público alargado e transparente, e reforce — em vez de desmantelar — a capacidade institucional do ICNF.

As organizações da C7 estão disponíveis para colaborar na construção de soluções que fortaleçam a proteção ambiental em Portugal, com base na ciência e na participação democrática.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pró - Democracia


Texto muito poderoso. Obrigado Helena Freitas. Já tinha abordado isto nesta postagem . Vivemos em tempos do absurdo, de grave iniquidade social, muita desinformação e estamos a sofrer das escolhas desumanas dos globocratas (para melhor perceberem, os multibilionários e bilionários, sejam eles russos, norte-americanos ou chineses ou de outra nacionalidade) . É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e ver quem está a fazer boas práticas sócio-ambientais e travar a tempo, novo fascismo e desconstruir o patriotismo pacóvio. Também relembro outra reflexão que fiz aqui, com o título "Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia". Varoufakis diz, e bem, que esta época é tecno-feudalista. Só um exemplo: porque não nos revoltamos contra McDonald´s, Burger Kings, Coca-Cola e aceitamos como "normalidade". Não é! Porque aceitamos a Temu, Shein, Shopee, AliExpress, Amazon como "normalidade"? Não é! Porque nos inscrevemos e pagamos para a Netflix, Prime Video, Disney+ ou Filmin que são "estrangeiras"? Porque não contestamos a Galp, a Navigator, a Altri? E por aí fora. Neste texto alerto para um problema existencial grave: a lavagem do cidadão (citizen washing). E, desculpem: porra, a culpa não é dos imigrantes "ilegais", a culpa não é do envelhecimento da população. Não gosto da palavra "estrangeiros" nem "povos indígenas", nem "idosos". Gosto da palavra "povos originários", "pessoas", "humanidade". Gosto também da palavra "urbanidade" . Gosto da palavra "Renaturalizar", "Regenerar" e "Prevenir". As causas são as nossas ESCOLHAS e atitudes e EXIGIR Sustentabilidade REAL e não lavagem verde!

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O papel cívico das tascas


O papel cívico das tascas é um tema fascinante, porque estas pequenas instituições populares vão muito além da função de servir comida e bebida — são verdadeiros centros de sociabilidade, cultura e cidadania informal. Eis algumas dimensões importantes desse papel:

1. Espaço de convivência e debate
As tascas sempre foram lugares onde as pessoas se encontram para conversar, partilhar opiniões e discutir assuntos do dia — da política à bola, da aldeia ao mundo.
Nelas, as ideias circulam livremente, o que favorece o exercício do pensamento crítico e da expressão pública.
Num certo sentido, são micro-espaços democráticos, onde todos têm voz, independentemente da classe social ou nível de instrução.

2. Igualdade e pertença
A tasca é um dos poucos espaços onde a convivência é horizontal: o trabalhador, o agricultor, o artista, o professor, o reformado — todos se encontram à mesma mesa.
Esse ambiente reforça laços comunitários e combate o isolamento social.
Através da partilha (um copo de vinho, um petisco), a tasca reafirma a identidade coletiva de um bairro, aldeia ou freguesia.

3. Preservação da cultura popular
Muitas tascas funcionam como arquivos vivos da memória local: guardam histórias, tradições orais, expressões idiomáticas e saberes práticos.
São escolas informais de cidadania e cultura, onde se aprende pelo convívio.
Também desempenham um papel importante na transmissão intergeracional — os mais velhos contam histórias e ensinam valores aos mais novos.

4. Solidariedade e redes de apoio
As tascas muitas vezes são refúgios de proximidade, onde se organizam ajudas discretas: uma vaquinha para quem está em dificuldades, um aviso sobre alguém que precisa de apoio, um contacto que resolve um problema.
Assim, cumprem uma função solidária e comunitária, especialmente em tempos de crise.

5. Resistência e identidade local
Num mundo cada vez mais uniformizado, as tascas representam uma forma de resistência cultural.
Mantêm o carácter local, autêntico e humano das comunidades.
Funcionam como símbolos de identidade territorial — um contraponto às cadeias globais e à cultura de consumo rápido.

Em suma, o papel cívico das tascas reside na sua capacidade de gerar comunidade, diálogo e identidade, servindo como espaços de cidadania quotidiana onde se pratica a convivência, a empatia e o sentido de pertença.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Valpaços foi distinguida como Cidade Biológica Europeia de 2025


O galardão reconhece o compromisso da cidade transmontana com práticas sustentáveis, a promoção de produtos locais e a integração da produção biológica na estratégia de desenvolvimento regional. O município português, com mais de 14 500 habitantes, é líder nacional em agricultura biológica e em sustentabilidade integrada, contando com 516 produtores biológicos certificados, o maior número em Portugal. A educação para a sustentabilidade, as medidas ambientais e a inovação estão no centro da sua estratégia, apoiadas por uma liderança política empenhada, pela cooperação interinstitucional e por políticas inclusivas. Os “tesouros biológicos” de Valpaços incluem produtos DOP e IGP premiados, como vinho, azeite, amêndoas, castanhas e mel.

O Comissário Europeu para a Agricultura e a Alimentação, Christophe Hansen, declarou: «Os vencedores dos Prémios Europeus da Produção Biológica são exemplos brilhantes do que o movimento biológico na Europa pode alcançar: combinam os mais elevados padrões ambientais com resiliência económica e envolvimento social. O seu trabalho demonstra que a agricultura biológica não só produz de uma forma sustentável, como também constrói comunidades e molda o futuro. Hoje celebramos as suas conquistas e homenageamos a força e o potencial de todo o setor biológico na Europa.»

Na cerimónia, o Comissário Hansen proferiu o discurso de abertura, seguido de uma mesa-redonda com representantes das instituições europeias, do organismo representativo dos agricultores COPA-COGECA e dos premiados.

Na sua quarta edição, os Prémios Europeus da Produção Biológica foram lançados em 2022 como um compromisso no âmbito do Plano de Ação para o Desenvolvimento da Produção Biológica, com o objetivo de reforçar o consumo de produtos biológicos. Na nova proposta relativa à Política Agrícola Comum, a União Europeia continuará a assegurar um forte apoio político à agricultura biológica, garantindo que o setor possa continuar a crescer e prosperar.

Mais informações sobre todos os vencedores de 2025 estão disponíveis nesta página

sábado, 20 de setembro de 2025

Dinamarca - ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestre


Na Dinamarca, ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestres estão a transformar portos movimentados em bolsas de natureza.
Construídas com materiais ecológicos, estas ilhas oferecem locais de nidificação para aves, néctar para abelhas e borboletas e abrigo subaquático para peixes.
Não só aumentam a biodiversidade, como também purificam o ar e a água, absorvendo carbono e filtrando os poluentes.
Ancoradas em segurança, as ilhas comprovam que, mesmo em vias navegáveis ​​industriais, as cidades podem criar santuários verdes onde a vida selvagem prospera juntamente com a atividade humana. 

domingo, 1 de junho de 2025

Manual de Métodos para Pesquisa Digital



O novo livro da equipa do MediaLab para download livre para utilização em investigação de base digital, nas redes sociais e fora delas, está disponível para download, partilha e utilização por todos os que nas áreas das ciências sociais, humanidades e business estudam a sociedade,
economia e cultura. 
Este manual reúne um conjunto de propostas práticas sobre como realizar investigação no âmbito das plataformas de redes e media sociais digitais e na pesquisa digital.
Contempla também uma reflexão teórica sobre o que implica realizar investigação na qual o objeto de estudo são posts, vídeos, perfis ou hashtags em ambientes online variados e com características próprias.
Trata-se de um manual inovador pensado para investigadores, estudantes, docentes e todos os profissionais que, embora não pertencendo ao universo académico, desejam realizar análises no âmbito de plataformas digitais e/ou sobre as expressões de dimensão social, económica, financeira, cultural e política que com elas se relacionam.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Prioridades ambientais para as Legislativas 2025

Os efeitos das alterações climáticas já são sentidos em todo o mundo e constituem ameaças reais à segurança e bem-estar das pessoas. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental, que seguem a um ritmo acelerado, agravam ainda mais esta realidade. Para garantir que os líderes que estarão à frente das decisões em Portugal estejam comprometidos em reverter este cenário, a Coligação C7 destaca as seguintes medidas prioritárias que devem ser incluídas nos programas das Eleições Legislativas que se aproximam:

Conservação e Restauro da Natureza, dentro e fora de Áreas Classificadas:
  1. Retorno da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e da pasta das Florestas ao Ministério do Ambiente.
  2. Reverter a alteração à lei dos solos que veio permitir construção em solos rústicos.
  3. Garantir o cumprimento da meta de proteção de 30% do território terrestre e marinho até 2030, incluindo os 10% de proteção estrita, através de uma rede eficaz de Áreas Protegidas ecologicamente representativas, conectadas e bem geridas - necessidade de cumprir as metas definidas na Lei do Restauro;
  4. Garantir a implementação da Rede Natura 2000 (nomeadamente, a conclusão da elaboração dos planos de gestão e a ampliação desta rede ecológica em Portugal) e a efetiva aplicação da legislação, da regulamentação e de iniciativas de conservação, monitorização e fiscalização em todo o Sistema Nacional de Áreas Classificadas;
  5. Garantir financiamento para a elaboração e implementação do Plano Nacional de Restauro, para promover o restauro ecológico à escala da paisagem e dos ecossistemas degradados, reabilitar o equilíbrio ecossistémico e reverter a perda de biodiversidade;
  6. Promover o restauro dos rios através da remoção de barreiras fluviais obsoletas, em linha com o Regulamento do Restauro da Natureza e o objetivo do Pacto Ecológico Europeu de libertar 25 mil km de rios;
  7. Repensar a estratégia nacional para a gestão da água apostando em soluções baseadas na natureza, enquanto alternativas mais sustentáveis e de baixo custo, como o restauro de zonas húmidas, proteção de aquíferos e o uso de tecnologias de armazenamento alternativas, como reservatórios naturais ou infiltração de água no solo, em detrimento da construção de novas grandes barragens e transvases;
  8. Aumentar em pelo menos 50% o financiamento disponível (quer em Orçamento de Estado, quer no Fundo Ambiental quer no Fundo Azul) para ações de conservação da natureza, que deverá ser plurianual, de forma a garantir o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos, nomeadamente o Global Biodiversity Framework da Convenção da Diversidade Biológica;
  9. Reforçar a proteção do lobo ibérico ao nível nacional e estimular ativamente a adoção de medidas que promovam a coexistência harmónica, tendo em consideração que a proteção desta espécie será severamente reduzida ao nível europeu;
  10. Criar legislação para a conservação das árvores junto das estradas nacionais e municipais, obrigando as entidades gestoras a fundamentarem publicamente as decisões sobre abates.
Clima e energia:
  1. Garantir a implementação imediata do disposto na Lei de Bases do Clima, atendendo a que o seu calendário de implementação se encontra manifestamente atrasado;
  2. Concretizar a revisão do Roteiro Nacional de Baixo Carbono e a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, previstos para 2025, garantindo a participação efetiva das ONGAs e tendo como ponto de partida uma avaliação completa dos resultados das estratégias anteriormente em vigor;
  3. Garantir a efetiva implementação do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, tendo em consideração a necessidade de compatibilizar as suas ambições com outros objetivos ambientais, como a proteção da biodiversidade, e com a racionalidade económica;
  4. Promover a transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a eliminação de todos os subsídios e apoios públicos aos combustíveis fósseis;
  5. Promover a eficiência energética, nomeadamente garantindo recursos para a implementação da Estratégia de Longo-Prazo para a Renovação dos Edifícios e da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050, e apostar prioritariamente na descentralização e democratização da produção renovável, nomeadamente através do autoconsumo e das comunidades de energia;
  6. Concretizar o processo de seleção de áreas de aceleração de energias renováveis, através de uma Avaliação Ambiental Estratégica, e definir mecanismos para encorajar a localização de projetos de energias renováveis em áreas de menor sensibilidade ambiental (por exemplo, limitar a aplicação do princípio do “interesse público prevalecente” dos projetos de energias renováveis, previsto na REDIII, a estas áreas de aceleração);
  7. Incorporar critérios ecológicos e sociais (critérios não-preço) nos futuros leilões de renováveis (incluindo os leilões para a energia eólica offshore), bem como realizar um planeamento cuidadoso da instalação das infraestruturas de produção e de rede e uma monitorização rigorosa e contínua dos impactos ambientais e sociais dos mesmos;
  8. Maior integração dos aspetos da transição justa, nomeadamente com a elaboração participada do Plano Social Climático de Portugal;
  9. Garantir recursos para apoiar o desenvolvimento e implementação dos planos municipais e regionais de ação climática.
Agricultura e alimentação:
  1. Criar o Plano Nacional de Alimentação Sustentável, que defina de forma participada e transparente os princípios para a alimentação sustentável e os integre de forma sistémica nas políticas de produção, consumo e combate ao desperdício e perdas de alimentos, bem como nas políticas de saúde;
  2. Elaborar a Estratégia Nacional de Promoção do Consumo de Proteínas Vegetais, conforme disposto no PNEC 2030;
  3. Investir na agricultura de baixo impacto, que realiza práticas sustentáveis de uso do solo e da água, com reduzida emissão de gases de efeito de estufa e que beneficia a biodiversidade e que reduz o desperdício agro-alimentar, através de práticas agro-ecológicas;
  4. Promover o uso eficiente e contido da água na agricultura, diversificação e complementaridade entre origens de água nos diversos sistemas de abastecimento, e a regulação do uso de água em todos os sistemas, respeitando sempre os ecossistemas; Promover instrumentos que permitam acabar com a subsidiação pública da água na agricultura de forma a que os agricultores paguem o real custo da água.
  5. Inserir critérios ambientais obrigatórios para as compras públicas de alimentação escolar, garantindo uma alimentação saudável e sustentável nas cantinas, privilegiando cadeias de abastecimento mais sustentáveis e dando escala à implementação da Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas;
Oceanos e Pescas:
  1. Garantir financiamento estrutural que permita o adequado funcionamento dos comités de cogestão das pescarias e a realização de todas as suas funções, de maneira contínua e que dê resposta às singularidades deste modelo de gestão;
  2. Desenvolver de maneira colaborativa e implementar o Plano de Ação Nacional para a Gestão e Conservação de Tubarões e Raias, bem como o Plano de Ação para a Mitigação dos Impactos da Pesca sobre Cetáceos, Aves e Tartarugas;
  3. Criar o Fórum de Carbono Azul em Portugal;
  4. Apoiar a transição para práticas pesqueiras de baixo impacto, direcionando fundos públicos para avaliações que comprovem os impactos das pescarias e eliminando gradualmente os subsídios prejudiciais aos recursos pesqueiros;
  5. Assegurar a implementação eficaz da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha por meio de planos de monitorização assentes na ciência, com financiamento adequado;
  6. Garantir a implementação correta da Política Comum de Pescas, com destaque para o novo Regulamento de Controlo e o Plano de Ação Marinha.
  7. Assegurar a ratificação do Tratado de Alto Mar, para proteção da biodiversidade em áreas para além da jurisdição nacional.
Para além das prioridades temáticas mencionadas, é fundamental assegurar mais espaços formais de participação da sociedade civil no desenvolvimento das políticas públicas, abrangendo todas as suas fases, desde a concepção inicial até a implementação e monitorização. As consultas públicas podem ser agilizadas através da criação de uma plataforma única (semelhante à utilizada pela Comissão Europeia), seguindo enquanto padrão mínimo o disposto na legislação de Avaliação de Impacte Ambiental e garantindo o cumprimento da Convenção de Aarhus sobre o direito à participação. É essencial também salvaguardar e apoiar a ação das organizações da sociedade civil, pela sua importância democrática e papel na defesa da natureza e do bem-estar das pessoas, incluindo através da garantia da continuidade de instrumentos de financiamento centrais, como o programa LIFE.

A C7 considera que estas medidas representam o mínimo necessário para que Portugal possa enfrentar os desafios ambientais globais, cumprir os compromissos internacionais assumidos, e garantir a manutenção dos ecossistemas e a construção de uma sociedade resiliente.

A Coligação C7 é composta pelas seguintes organizações:
FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
WWF Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável

Robert de Niro ataca Trump em Cannes: “Temos de agir agora“


De Niro recebe a Palma de Ouro Honorária na abertura de Cannes. Durante o seu discurso, o ator elogiou o espírito do evento, aberto à arte, a uma “arte que procura a verdade, uma arte que abraça a inclusão”. “E é por isso”, continuou, “a arte é uma ameaça, nós somos uma ameaça para os autocratas e fascistas de todo o mundo”. A partir daí, começou a falar com Donald Trump ("o presidente filisteu americano") para desfazer os seus cortes na ajuda cultural e atacar o seu plano tarifário. “A originalidade na arte não tem preço, mas parece que pode ser tributada.” E pediu que as pessoas se organizassem em apoio da democracia, “sem violência, mas com paixão e determinação”.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Couto Mixto - criação de um microestado


Coto Mixto (em galego:  Couto Mixto , em português: Couto Misto ) foi um microestado na fronteira entre Espanha e Portugal, independente de ambos os reinos , de apenas trinta quilômetros quadrados.

A República do Couto Mixto foi uma  micronação independente na região galega  que emergiu de um dos capítulos menos conhecidos da história europeia. Seu nascimento não se deveu a uma conquista, mas a uma  anomalia jurídica medieval que lhe conferiu um sistema administrativo único , juntamente com direitos e privilégios.

A origem do Couto Mixto é basicamente um mistério. No final da Idade Média, os limites administrativos dos diferentes territórios (reinos, condados, ducados, baronias, etc.) eram imprecisos e difusos. O Couto Mixto estabeleceu-se nas margens geográficas e cronológicas do nascimento de Portugal como reino independente de Leão, em algum momento do magma territorial dos três séculos que vão do aparecimento do Condado Portucalense (século IX) ao reconhecimento do Reino de Portugal pela Santa Sé (1179).

Sua origem remonta ao  século XII , quando o território recebeu benefícios especiais e autonomia, provavelmente devido à sua localização estratégica. Este período coincidiu com a assinatura do  Tratado de Zamora , que, em 5 de outubro de 1143, estabeleceu uma fronteira entre Afonso I de Portugal e Afonso VII de Leão, marcando o início do Reino de Portugal e da dinastia Afonsina.

Após a criação desta fronteira, surgiu uma pequena área ilegal, dando origem a este "microestado", composto por três municípios (que hoje fazem parte da província galega de Ourense): Rubiás dos Mixtos, Meaus e Santiago de Rubiás, este último considerado sua capital. Este microestado tinha até sua própria bandeira, brasão e até um lema: “Tres unum sunt” (Três são um).

Sua bandeira era quadrada, com listras azuis e brancas, imitando a do Reino de Portugal, mas invertendo as cores, e com a diferença de que a bandeira portuguesa continha o brasão do país.

Governo e vida em Couto Mixto
Couto Mixto era governado por uma  república federativa  com um sistema político baseado em três juízes eleitos, conhecidos como ' home de acordo ', selecionados nas três aldeias, além do 'xuiz' ou juiz , que atuava como presidente do Governo.

Este juiz era eleito democraticamente a cada três invernos pelos próprios moradores (chefes de família), permitindo-lhes administrar os assuntos locais e resolver disputas  sem a intervenção de autoridades externas.

A igreja de Santiago funcionava como Parlamento. Ali estava guardado  o tesouro do Couto Mixto : um cofre com três fechaduras, uma para cada juiz, que continha os documentos oficiais do país.

Esta era uma comunidade onde  as decisões eram tomadas localmente , sem depender de um governo central. Seus habitantes desfrutavam de um grau notável de  autogoverno democrático , algo incomum na Europa medieval, numa época em que Portugal e Espanha enfrentavam múltiplas lutas pelo poder.

Com uma área de apenas 27 quilómetros quadrados, Couto Mixto não tinha uma população grande. Entre as três cidades,  a população mal chegava a mil,  o que, aliado à falta de recursos, contribuiu para sua discrição ao longo dos séculos.

Sua estrutura social era  igualitária e baseada na cooperação mútua , essencial para a sobrevivência em uma região isolada. Entre os privilégios dos habitantes do Couto Mixto estava a possibilidade de escolher sua nacionalidade (espanhola ou portuguesa, ou em alguns casos, nenhuma delas) e não pagar impostos a nenhum dos dois países. Além disso, eles estavam isentos de serem convocados para as armas por qualquer país e por qualquer guerra, civil ou internacional.

Eles também desfrutavam de liberdade no comércio e na agricultura, já que não tinham controle fiscal e alfandegário . Da aldeia de Rubiás partia o Caminho do Privilégio, um percurso de sete quilómetros até à aldeia portuguesa de Tourém, devidamente assinalado com marcos de pedra, por onde os habitantes do Couto podiam percorrer sem serem incomodados ou interrompidos por qualquer autoridade. Assim, os mestiços podiam ir a Portugal comprar sal, bacalhau, óleo ou tecidos e depois revendê-los na Galícia sem pagar impostos.

O fim do Couto Mixto
Na segunda metade do século XIX, Espanha e Portugal decidiram delimitar adequadamente sua fronteira, com o  Tratado de Lisboa, em 1864 , que dividiu oficialmente o território entre Espanha e Portugal. Este tratado se concentrou na resolução de disputas de fronteira e questões de soberania, afetando a independência histórica do Couto Mixto e encerrando um capítulo de sua história.

Ambos os países concordaram em eliminá-lo.  As três aldeias permaneceram no lado espanhol do Raya , e uma pequena faixa de terra desabitada permaneceu no outro lado  do Raia . Naquele ano, os habitantes da reserva, cerca de mil, tornaram-se espanhóis, impostos foram cobrados deles e as quintas foram convocadas.

"Portugal renuncia em favor da Espanha a todos os direitos que possa ter sobre as terras do Coto Misto e as aldeias nelas situadas, as quais, em virtude da divisão determinada pela linha descrita, permanecem em território espanhol." Artigo VII do Tratado de Lisboa (1864)

A anexação pôs fim ao modo de vida tradicional dos Couto Mixto: o comércio. Ou melhor, acabou com sua legalidade. Assim como em toda a fronteira, o contrabando foi uma das principais fontes de riqueza até o Tratado de Schengen entrar em vigor em 1995, que eliminou as fronteiras entre os estados da União Europeia. 

Desde então, só resta sua memória. Em 2008, foi erguida uma estátua em homenagem a  Delfín Modesto Brandón, o último juiz da pequena nação , e uma réplica do baú que continha os arquivos da república é conservada na igreja de Santiago de Rubiás, como homenagem àquela época.

Embora Couto Mixto tenha deixado de ser um país há quase dois séculos, algumas de suas atrações ainda podem ser visitadas:
  1. Santiago de Rubiás : Famosa por sua igreja e seu charmoso entorno rural.
  2. Rubiás de los Mixtos : Uma cidade tranquila com vestígios de sua história única.
  3. Meaus : Outra das vilas históricas, com arquitetura tradicional e paisagens naturais.