Mostrar mensagens com a etiqueta Biocapacidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Biocapacidade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de junho de 2026

E se o "Fascismo Eterno" de Umberto Eco, tivesse encontrado a ferramenta perfeita na Inteligência Artificial?

O custo da IA não é apenas ecológico; é cultural e político. Convoco os meus amigos à leitura desta minha reflexão profunda sobre o mundo que estamos a construir e a leitura que nos pode salvar do fascismo eterno.

𝐏𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐫𝐞́𝐯𝐢𝐨
Atualmente, o grande desafio é o crescimento exponencial da Inteligência Artificial - um campo que nasceu em meados do século XX, mas que hoje atinge proporções sem precedentes. Os chips de IA, como os GPUs, consomem muito mais energia do que os servidores tradicionais. Este aumento súbito na procura de eletricidade está a pressionar as redes elétricas e, em algumas regiões, a obrigar ao prolongamento da atividade de centrais a gás ou carvão, dificultando as metas de descarbonização.

Para além da eletricidade, a corrida aos minerais raros para construir estes componentes tornou-se insuportável e insustentável. É neste cenário - um mundo polarizado, minado por fraudes e mergulhado numa nova era tecnológica quase imposta - que os algoritmos disparam em todas as direções, perpetuando vieses políticos e alimentando bolhas ideológicas para maximizar o lucro. É assim que o tecnofascismo e o carbofascismo se impõem numa era tecnológica quase imposta. A verdade é que não estamos preparados. Explico porquê no segundo texto.

𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 - 𝐀 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐔𝐦𝐛𝐞𝐫𝐭𝐨 𝐄𝐜𝐨 𝐞 𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥: 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬?

O Fascismo Eterno, obra em que Umberto Eco analisa as estruturas mentais e socioculturais do autoritarismo, ganha uma relevância alarmante quando confrontado com a atual e acelerada evolução da Inteligência Artificial. Embora o ensaio tenha sido escrito na década de 1990, muito antes da explosão dos modelos generativos e dos algoritmos avançados, as catorze características do Ur-Fascismo identificadas pelo filósofo italiano servem como um aviso severo sobre os impactos culturais e políticos da automação tecnológica no comportamento humano.

A primeira grande interseção reside no conceito de novilíngua. Eco alertava que o fascismo eterno recorre a um vocabulário empobrecido e a uma sintaxe elementar para limitar o raciocínio complexo e eliminar o pensamento crítico. Ao transferirmos a produção de textos, discursos e comunicações diárias para sistemas de IA, corremos o risco de padronizar a linguagem de forma global. Estes modelos tendem a gerar respostas estatisticamente previsíveis e polidas, o que pode esvaziar a riqueza linguística, a ironia e a profundidade do debate público, pavimentando o caminho para uma sociedade que aceita mais facilmente narrativas simplistas e polarizadas.

Além disso, o culto da ação pela ação e o consequente desprezo pela reflexão intelectual encontram um terreno fértil na busca cega pela produtividade algorítmica. A pressa em obter resultados imediatos através de prompts substitui muitas vezes o processo humano de pesquisa profunda, erro e ponderação. Quando o ato de pensar é delegado à máquina em nome da eficiência, a capacidade da sociedade para exercer a dúvida filosófica e a contestação - defesas vitais contra regimes autoritários - acaba por atrofiar.

Outro ponto crítico é a obsessão pelo complô e a criação de inimigos imaginários, dinâmicas que alimentam o ecossistema fascista. Atualmente, a Inteligência Artificial é utilizada para potenciar bolhas de radicalização através de algoritmos de recomendação baseados no envolvimento pela indignação e, ironicamente, maximizando o lucro dos plutocratas . A capacidade de gerar desinformação em massa, clones de voz e deepfakes de forma automatizada e barata permite que atores maliciosos criem conspirações personalizadas para diferentes franjas da população, fraturando o tecido social à escala industrial.

Por fim, o populismo qualitativo, onde o líder se assume como a encarnação da vontade de uma massa homogénea, ganha contornos de precisão cirúrgica com o uso de dados processados por IA. A análise automatizada do sentimento das redes sociais permite moldar discursos políticos que não convidam ao debate, mas que ecoam de forma artificial os medos e preconceitos do eleitorado. Assim, o maior perigo não reside numa revolta das máquinas contra a humanidade, mas sim na possibilidade de a IA ser utilizada para automatizar e perpetuar os hábitos mentais mais primitivos e intolerantes que Umberto Eco nos instou a combater.

Ler mais:

sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026