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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O novo relatório Global Wetland Outlook 2025 apela a ação urgente para conservar as zonas húmidas


Principais conclusões

1. Perda e degradação em curso
Desde 1970, o mundo perdeu cerca de 22 % das zonas húmidas, o que equivale a 411 milhões de hectares, com uma taxa média anual de perda de 0,52 % ao ano .
Aproximadamente 25 % das zonas húmidas remanescentes já estão em pobre estado ecológico 

A degradação é mais severa em África, América Latina e Caraíbas, mas também em aceleração na Europa, América do Norte e Oceânia 

2. Valor económico colossal – mas vulnerável
Embora ocupem apenas cerca de 6 % da superfície terrestre, as zonas húmidas contribuem com até 7,5 % do PIB global, estimado entre 8 e 39 triliões de dólares por ano em serviços (filtragem de água, controlo de cheias, sequestro de carbono, pesca, cultura, etc.) 

Estima-se que a redução desses serviços até 2050 possa representar uma perda económica total acumulada (NPV) superior a 205 triliões USD, caso os ecossistemas sejam geridos de forma eficaz até lá 

3. Causas principais da degradação
A transformação das terras (agricultura, desenvolvimento urbano e infraestruturas) é o principal fator de perda nas zonas húmidas — especialmente em África, América Latina e Caraíbas 

Noutras regiões, os fatores dominantes variam: espécies invasoras na América do Norte e Oceânia; seca e alterações climáticas na Europa 

A mudança climática — subida do nível do mar, alterações hidrológicas, branqueamento de corais e secas — está a intensificar perdas e riscos 

4. Investimentos actuais insuficientes
O financiamento mundial para a conservação da biodiversidade representa apenas 0,25 % do PIB global, muito aquém do necessário 

O relatório sugere que são necessários entre 275 e 550 mil milhões de dólares por ano para travar a perda de zonas húmidas e promover a sua restauração sustentável 

Exemplos de sucesso: o projecto dos Kafue Flats (Zâmbia) começou com 300 000 USD e já entrega 1 milhão anual, suportando 1,3 milhões de pessoas — e um fundo regional de 3 mil milhões USD em rotas de migração de aves na Ásia, restaurando mais de 140 zonas húmidas 

5. Quatro caminhos estratégicos para a mudança
Integrar o valor das zonas húmidas no planeamento nacional, considerando-as como infraestrutura natural essencial (zonamento estratégico, regulação da água, políticas agrícolas) 

Reconhecer o papel central das zonas húmidas no ciclo hídrico global, valorizar a sua função de armazenamento e filtragem de água

Incorporar zonas húmidas nas finanças climáticas e da biodiversidade, usando instrumentos como créditos de carbono, obrigações resilientes e financiamento misto público‑privado 

Mobilizar investimentos públicos e privados para conservação e restauração, com capacidade local e participação comunitária nos projetos 

6. Custos e benefícios da gestão
Proteger zonas húmidas saudáveis é mais económico do que restaurar zonas degradadas: restauração pode custar entre 1 000 e 70 000 USD por hectare por ano, enquanto preservação requer menos recursos

O retorno estimado para cada dólar investido em restauração está entre 5 a 35 USD em benefícios ecológicos e sociais 

O relatório pode ser descarregado aqui


terça-feira, 22 de abril de 2025

Dia da Terra


“A cultura ecológica deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” Laudato Si, 111

sábado, 12 de abril de 2025

IPBES - were are making an X-IT


We have important news…

Starting 1 May 2025, ipbes.net will no longer post to X.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Curta-Metragem de Steve Cutts - The Turning Point


A natureza não precisa de nós.
Nós é que precisamos da natureza.

E este brilhante vídeo de Steve Cutts traz isso para casa mais do que nunca.
Pergunta, e se os animais nos tratassem. A forma como os tratamos.
E é assustador.
A verdade?
Isto é realmente um reflexo da nossa realidade.
Está a acontecer.

Desde 1970:
→ Declínio de 83% das populações de vertebrados de água doce
→ 1 milhão de espécies em risco de extinção
→ Declínio de 69% nas populações de vida selvagem

Isto significa:
- Propagação de doenças
- Perda de meios de subsistência
- Menor segurança alimentar
- Diminuição da água potável
- Perda de espaços trazendo paz e conexão à Terra
- 44 biliões de dólares do PIB global (mais de metade do total mundial) em risco

Fontes: WWF, IPBES e Fórum Económico Mundial

domingo, 20 de outubro de 2024

Financiamento da conservação: É preciso “abrir os cordões à bolsa” para salvar a vida na Terra


Fazer as pazes com a natureza é a tarefa que determinará o século XXI”. Estas palavras foram proferidas por António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, na abertura da cimeira global da biodiversidade (COP16), que decorreu no final de outubro, na Colômbia.

Um dos principais assuntos na agenda do encontro era o financiamento para a conservação, ou seja, impulsionar as contribuições financeiras dos Estados signatários da Convenção da Diversidade Biológica para ser possível cumprir as metas definidas pelo Acordo de Kunming-Montreal, que saiu da cimeira de 2022 e que tem como objetivo travar e reverter a perda de biodiversidade até 2030.

Em suma, pretende-se cessar a guerra humana contra a Natureza, um empreendimento urgente e de proporções dantescas, dada a história das relações da nossa espécie com o mundo natural. Um dos principais pilares do acordo é, claro, o financiamento. Sem dinheiro, pouco ou nada se conseguirá fazer. E as estimativas apontam que sejam precisos, pelo menos, 200 mil milhões de dólares por ano para os objetivos serem cumpridos.

Mas entre as palavras e a ação há todo um mundo de possibilidades. Na mais recente COP, os países juntaram-se em Cali para concretizar progressos, mas assistiu-se, ao invés, à falta de acordo entre as delegações dos vários Estados sobre como prosseguir no que toca ao financiamento da conservação. No dia 2 de novembro de 2024, já depois de a data oficial de encerramento da cimeira ter passado e de as negociações entre os países se terem arrastado durante quase meio-dia sem avanços significativos, a COP foi suspensa, sem que se tivesse chegado a qualquer acordo sobre como os Estados vão conseguir mobilizar o financiamento para tirar o Acordo de Kunming-Montreal do papel.

A Colômbia, país anfitrião da cimeira, decidiu suspender os trabalhos na manhã do dia 2 por não haver na sala delegações suficientes que permitissem adotar um acordo sobre o financiamento. A continuação das discussões foi adiada, ainda sem data e local definidos.

O fim abrupto da cimeira foi visto por alguns observadores como sinal do fracasso do encontro, apesar de alguns avanços relevantes noutras áreas, como, por exemplo, a criação do Fundo Cali para a partilha “justa e equitativa” de recursos económicos provenientes do uso de informação genética digital sobre a biodiversidade, um novo impulso para a proteção dos ecossistemas marinhos e o reconhecimento do papel central dos povos indígenas e comunidades locais na conservação da Natureza. Contudo, o principal, a questão do financiamento, ficou por decidir

A importância do setor privado
Em traços largos, o financiamento para a conservação é a mobilização e gestão de capital, não apenas público, mas de uma ampla variedade de fontes, para proteger e, em alguns casos, recuperar a biodiversidade.

Num artigo publicado em março de 2023 na revista Journal of Environmental Management, investigadores de Itália recordavam que os recursos alocados à biodiversidade nunca foram avultados e que “a maioria das áreas mais biodiversas do mundo estão em lugares ameaçados pela pobreza, corrupção, grande extração de recursos e desenvolvimento generalizado”, tudo fatores que põem em risco a biodiversidade.

Conseguir maior financiamento passa, por exemplo, por canalizar os apoios e subsídios considerados prejudiciais à Natureza (tais como para os combustíveis fósseis e atividades extrativas intensivas) para ações e estratégias que visem a sua proteção e conservação. Por isso, o dinheiro não pode apenas vir dos Estados, mas deve também ser mobilizado no setor privado, algo já reconhecido no Acordo de Kunming-Montreal, no qual os Estados signatários destacavam a importância de “encorajar o setor privado a investir na biodiversidade”.

Helena Freitas, Professora Catedrática da Universidade de Coimbra e um dos grandes nomes da Ecologia portuguesa, conta-nos, em entrevista, que nenhum país, Portugal incluído, será capaz de “enfrentar os desafios da conservação sem o envolvimento ativo do setor privado”.

Para a ecóloga, “a magnitude dessas questões ultrapassa a capacidade de ação exclusiva dos Estados” e “as parcerias público-privadas, consagradas na Agenda 2030 e no tratado da Kunming-Montreal, devem ser mais eficazes para acelerar a implementação de soluções que sejam tanto adequadas quanto justas”. Assim, aliar a capacidade de financiamento dos setores público e privado “permite mobilizar recursos, conhecimento e inovação de forma mais ágil e integrada, garantindo um impacto mais robusto na conservação e sustentabilidade”, sentencia.

A conservação da Natureza em Portugal
Tal como acontece um pouco por todo o mundo, o financiamento da conservação em Portugal tem também as suas fragilidades. Helena Freitas destaca que “o período mais positivo para a conservação da natureza” em Portugal “foi no essencial concluído no século passado”, resultando na criação de áreas protegidas e na concretização da Rede Natura 2000. Contudo, desde então, “o desinvestimento na conservação em Portugal tem sido notório”.

Para a docente universitária, nos últimos 20 anos tem-se tornado “evidente” uma falta de capacidade no país para “gerir as exigências emergentes”, a par de uma “escassez de recursos humanos nos territórios e a perda de capacidade técnica para planear e responder a solicitações, que se tornaram cada vez mais complexas e diversificadas”.

A ecóloga aponta que esses fatores têm “limitado a eficácia das políticas de conservação e a gestão sustentável dos ecossistemas” no país, recordando que, na última década, as prioridades têm recaído sobre a “prevenção e, sobretudo, combate aos incêndios florestais, menosprezando claramente a conservação da natureza”.

No passado mês de agosto, entrou em vigor a Lei do Restauro da Natureza, um instrumento legislativo no âmbito da União Europeia, que vai além da conservação e destaca a reversão dos danos causados. Essa lei define que os Estados-membros têm até 2030 para proteger legalmente, no mínimo, 20% de habitats terrestres e marinhos, e que até 2050 medidas de restauro devem estar a ser aplicadas em todos os ecossistemas que precisem de ser recuperados.

Claro que nada disto será possível sem o financiamento adequado. O atual Governo de coligação PSD/CDS-PP, liderado por Luís Montenegro, assumiu, no seu programa eleitoral, que “a perda de biodiversidade é um sério problema, pelo que devem ser criadas condições para um efetivo restauro ecológico de áreas degradadas”. Em junho, o Executivo votou a favor da Lei do Restauro e quatro meses depois anunciou a criação de um grupo de trabalho para criar o Plano Nacional de Restauro da Natureza, para concretizar as metas europeias e do Acordo de Kunming-Montreal.

Helena Freitas considera que “a Ministra do Ambiente [Maria da Graça Carvalho] assumiu com coragem a Lei de Restauro da Natureza”, esperando–se “uma rápida elaboração de um plano nacional que apoiará a respetiva implementação”. No entanto, não deixou de expressar algumas dúvidas sobre a efetiva concretização dos compromissos, uma vez que “a prática de baixo investimento que se instalou deixa-me pouco confiante na mudança de trajetória”, confessa a ecóloga, reconhecendo que teremos de esperar para ver.

Em Portugal, o financiamento da conservação da biodiversidade tem  padecido de “inconsistência e imprevisibilidade a longo-prazo”, destaca, acrescentando que projetos de conservação têm tido dificuldade em gerar resultados e impactos significativos, sustentáveis e duradouros porque acabam por ficar dependentes de “financiamento a curto-prazo”.

Para Helena Freitas, “a fragmentação das fontes de financiamento, sem uma coordenação eficaz entre fundos nacionais, europeus e internacionais, também leva à duplicação de esforços ou ao esquecimento de áreas prioritárias”.

A par disso, outro problema é identificado: a falta de valorização dos serviços de ecossistema, ou seja, dos benefícios que o mundo natural nos possibilita a custo zero, como, por exemplo, a polinização natural, entre muitos outros. A docente universitária acredita que por não serem quantificados, acaba por não ser possível mobilizar recursos para a proteção desses serviços, que são “essenciais para o bem-estar humano e para a economia”.

Além disso, apesar da importância que lhe é reconhecida na conservação, o envolvimento do setor privado nessa arena tem sido “limitado”, o que para Helena Freitas representa “uma oportunidade desperdiçada, dado o crescente interesse na responsabilidade social corporativa”.

Então, o que fazer? A ecóloga avança-nos algumas propostas: “é fundamental garantir um financiamento de longo-prazo, com mecanismos que assegurem a continuidade dos projetos”, “é necessário integrar a valorização dos serviços dos ecossistemas nas políticas públicas e incentivar o setor privado a colaborar mais ativamente” e “melhorar a coordenação intersectorial, implementando uma abordagem integrada que alinhe os interesses de vários setores (agricultura, turismo, urbanismo, etc.) com os objetivos de conservação”.

No campo das soluções, o grupo de reflexão português NaturaConnect.PT, coordenado pelo investigador Miguel Bastos Araújo, apresentou, em setembro último, uma série de propostas para ajudar Portugal a cumprir os compromissos internacionais assumidos no que toca à conservação da biodiversidade.

Entre as medidas propostas estão a revisão dos subsídios públicos que prejudicam a biodiversidade, o restauro das funções e processos naturais dos ecossistemas, a alavancagem de fundos europeus para a conservação e restauro e o reforço de fundos públicos para aquisição e gestão de propriedades em terrenos classificados. O documento sugere ainda a aplicação dos princípios de poluidor-pagador e utilizador-pagador, a aplicação dos fundos obtidos por essa via para financiar programas de protetores-recebedores, a criação de um mercado de créditos de biodiversidade, um maior investimento público na marca NATURAL.PT que promove a visitação de áreas protegidas e valoriza os produtos artesanais nelas produzidos, e equiparar os donativos para fins ambientais aos que se destinam a causas sociais.

O grupo NaturaConnect.PT considera que só com estes esforços e transformações Portugal conseguirá atingir as metas de conservação e restauro da biodiversidade com as quais se comprometeu, com Miguel Bastos Araújo a destacar que “tendo em conta a matriz territorial portuguesa, com cerca de 97% de propriedade privada, qualquer intervenção no sentido de promover a conservação da biodiversidade requer a identificação de soluções articuladas e suportadas por financiamentos públicos e privados, que impliquem compromissos de longo prazo”.

Os choques entre a Ciência e a Política
É frequente ouvirmos numa variedade de discursos públicos sobre Ambiente e Natureza, desde logo proferidos por políticos, que a Ciência é fundamental para informar os esforços de conservação da biodiversidade. No entanto, nem sempre os interesses políticos e os factos científicos se alinham uns com os outros.

Ainda que “os cientistas sejam frequentemente consultados, nem sempre as suas recomendações são totalmente integradas nas decisões e políticas finais”, reconhece Helena Freitas, de tal forma que acaba por existir “um desfasamento entre o que é sugerido pela ciência e o que é efetivamente implementado”, sobretudo, continua, “quando existem pressões económicas e políticas em jogo”.

O diálogo, ou falta dele por vezes, entre Política e Ciência está repleto de fricções e colisões, especialmente quando as medidas e ações propostas pelos cientistas são vistas como “inconvenientes ou contrárias aos interesses de curto-prazo de determinados grupos de interesse ou dos próprios decisores políticos, que muitas vezes enfrentam restrições orçamentais e preferem soluções menos dispendiosas”, diz a docente da Universidade de Coimbra.

Por isso, “o financiamento e a prioridade das medidas científicas propostas podem ser diminuídos ou adiados, comprometendo a eficácia das políticas de conservação em Portugal”, pelo que seria relevante criar “mecanismos ou plataformas formais que garantam um diálogo fluido e contínuo entre a comunidade científica e os decisores políticos”, propõe.

Um planeta com cada vez menos diversidade de vida
No passado dia 10 de outubro, o 15.º Relatório Planeta Vivo, elaborado pela organização WWF, veio, uma vez mais, confrontar-nos com a dimensão da perda de biodiversidade. No último meio século, o tamanho médio das populações de animais selvagens a nível mundial diminuiu 73%, considerado um “declínio catastrófico” da vida selvagem na Terra.

O documento alerta que “para garantir um planeta habitável e próspero” é preciso “uma mudança sísmica” para que o financiamento passe a fluir “na direção certa, deixando de prejudicar o planeta e passando a curá-lo”.

Apesar dos esforços e de irmos na 16.ª cimeira global da biodiversidade, a perda de espécies, habitats e ecossistemas continua a progredir com velocidade e intensidade estonteantes. Ainda que reconheça a importância das COP “na criação de acordos multilaterais que visam proteger o planeta”, Helena Freitas não deixa de apontar que “as negociações enfrentam muitas vezes entraves, pois estão condicionadas por interesses económicos e políticos de curto-prazo, especialmente de países mais desenvolvidos”.

Recentemente, um grupo de altas personalidades internacionais, entre elas o ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu uma reforma organizacional das COP das alterações climáticas, cuja estrutura atual consideram não ser capaz de “produzir a mudança a uma velocidade e escala exponenciais”, o que é “essencial” para assegurar o futuro da humanidade num planeta em crise climática. Talvez, da mesma forma, seja preciso refletir sobre a eficácia das cimeiras globais da biodiversidade.

O relatório da WWF avança que as maiores perdas de biodiversidade acontecem na América Latina, nas Caraíbas e em África, regiões onde se concentra parte significativa dessa diversidade biológica global e onde estão países fortemente afetados por grandes desigualdades socioeconómicas e dos mais vulneráveis às crises ambientais. Por essa razão, sociedade civil e cientistas têm apelado a um maior envolvimento e participação do chamado “Sul Global” nos processos de tomada de decisão política relativamente à conservação da biodiversidade.

Ecoando essas reivindicações, Helena Freitas acredita que “uma maior participação do ‘Sul Global’ é absolutamente imperiosa, não só porque estas regiões são as mais afetadas pela perda de biodiversidade e alterações climáticas, mas também porque possuem um vasto conhecimento local e tradicional que pode ser valioso nas negociações”.

Como tal, “uma abordagem mais inclusiva e equitativa, que considere as necessidades e vozes dessas nações, pode ajudar a garantir que os acordos globais sejam mais justos e eficazes, promovendo um caminho de desenvolvimento sustentável e de verdadeira proteção do planeta”, defende a especialista.

Será a Natureza alguma vez uma prioridade política?
Embora acredite que “a sociedade portuguesa está cada vez mais disposta a apoiar a conservação da natureza” e que “há uma atitude, de maneira geral, mais favorável por parte da sociedade e das empresas” em relação a esse tema, e que o reconhecimento dos impactos da inação sobre as vidas e negócios impulsionará “um maior empenho na conservação da biodiversidade”, Helena Freitas sublinha que a conservação da biodiversidade “está longe de constituir uma prioridade política efetiva e transversal”. Isto porque continua a ter de enfrentar “limitações orçamentais, competição com outras prioridades como a economia, a saúde e o emprego, e a pressão de setores como a agricultura, a construção e o turismo, que muitas vezes colidem com os objetivos de conservação”.

Para que se torne uma verdadeira prioridade política, é preciso que vários fatores se conjuguem e reforcem mutuamente, como, por exemplo, “a sensibilização da população e dos decisores políticos para a urgência da crise ecológica e para a relevância da biodiversidade na qualidade de vida e na economia” e “a inclusão de compromissos de conservação nos planos de recuperação económica”, bem como “a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável que aliem a conservação ao crescimento económico”.

Mas mesmo isso poderá não ser suficiente. Para mudar o atual estado de coisas, a sociedade civil e a comunidade científica devem continuar a fazer pressão para que a mudança aconteça e para que os decisores políticos assumam compromisso de longo-prazo, porque a Natureza não se rege por ciclos de quatro ou cinco anos.

Uma vez mais, também o financiamento contínuo é crucial para tornar a conservação uma prioridade nacional, além da integração da biodiversidade “nas políticas setoriais de forma mais robusta, de modo a garantir que a preservação dos ecossistemas naturais seja uma parte intrínseca e inexorável do desenvolvimento do país”, salienta Helena Freitas.

Por sua vez, Miguel Bastos Araújo, do grupo NaturaConnect.PT, avisa-nos que “a biodiversidade não é apenas um bem natural a ser preservado, mas também uma componente fundamental do funcionamento dos ecossistemas, ajudando a criar barreiras naturais que minimizam o impacto de calamidades”. Por outras palavras, a biodiversidade é um aliado fundamental num planeta à beira do colapso ecológico e climático do qual não devemos, nem podemos, prescindir ou desvalorizar.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Curta-metragem: Life after fire (Vida após incêndios)


Animated short of the article "What is the value of biotic seed dispersal in post-fire forest regeneration?", published in Conservation Letters.  
This research results from work developed with the "Life After Fire" project, which was created after the 2017 fires in Portugal with the aim of understanding the importance of seed dispersal in the recovery of forests after a fire.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Esforços de conservação estão a travar a perda de biodiversidade


Os esforços globais de conservação das últimas décadas têm conseguido abrandar a perda de biodiversidade e evitar extinções, segundo uma revisão científica publicada pela The Royal Society.

O estudo, que envolveu investigadores australianos e internacionais, procurou responder a três questões centrais: se a conservação tem reduzido as taxas globais de extinção, se tem permitido recuperar populações anteriormente em declínio e qual o progresso na proteção de áreas naturais a nível mundial.

Apesar de reconhecerem que o estado atual da biodiversidade é “grave”, os autores defendem que há um desfasamento entre narrativas que anunciam uma catástrofe planetária iminente — frequentemente descrita como a “sexta extinção” — e as evidências científicas documentadas sobre sucessos e falhas concretas das políticas de conservação.

Extinções evitadas e populações recuperadas
De acordo com a análise, existem provas de que medidas de conservação impediram a extinção de várias espécies e contribuíram para a recuperação de algumas populações outrora em declínio.

Além disso, a área global de territórios protegidos — tanto em terra como no oceano — tem aumentado de forma consistente. Em muitos casos, essas áreas têm sido designadas em locais considerados estratégicos para reduzir o risco de extinção e favorecer a recuperação de espécies ameaçadas.

Falta medir melhor o que resulta
Os investigadores sublinham, no entanto, que persistem lacunas significativas no conhecimento sobre a dimensão real da perda de biodiversidade. Defendem que o sucesso futuro dependerá da definição de métricas claras e transparentes que permitam avaliar, de forma rigorosa, o que funciona e o que não funciona em matéria de conservação.

Mais do que adotar discursos alarmistas, argumentam, será essencial reforçar a monitorização, melhorar os critérios de seleção de áreas protegidas e investir em políticas baseadas em evidência científica sólida.

A conclusão é cautelosamente otimista: embora a crise da biodiversidade seja real e preocupante, os dados disponíveis mostram que a conservação pode produzir resultados concretos — e que esses resultados tendem a ser mais eficazes quando acompanhados por avaliação sistemática e objetivos bem definidos.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A riqueza em África e o falso nacionalismo


Porque razão África é apetecível, maltratada, dizimada, colonizada, destruída e sem Paz e não nos dá Paz. A razão dos refugiados e imigrantes para a Europa tem culpados. O maior deles é China. Não sejamos puristas, nem nacionalistas e o raio que vos parta. Não sejamos hipócritas!

sábado, 9 de dezembro de 2023

Prémio Ernst Haeckel 2024 a Helena Freitas


A candidata proposta pela SPECO ao prémio Ernst Haeckel promovido pela European Ecological Federation (EEF), Professora Helena Freitas, foi a premiada do ano 2024. É o segundo candidato premiado que a SPECO propõe. O primeiro foi atribuído a Miguel Bastos Araújo, no ano 2018.

Este prémio foi atribuído pela primeira vez em 2011 e destina-se a homenagear um(a) ecólogo(a) pela sua contribuição notável para a ciência ecológica europeia.

Partilhamos convosco uma breve resenha histórica do seu percurso académico, profissional e de investigação na área da Ecologia:

Helena Freitas (Famalicão, 1962) obteve uma das primeiras teses de doutoramento em Ecologia em Portugal (1993). O Doutoramento, estudo sobre as respostas das plantas em ambientes extremos, foi desenvolvido na Universidade de Coimbra, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha. Entre 1994 e 1996 realizou um pós-doutoramento na Universidade de Stanford, EUA, com Harold Mooney para melhor compreender o impacto do carbono nas alterações globais, particularmente nas alterações climáticas. Desde então, tem estado envolvida em projetos globais.

Diretora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (2004 - 2012), preparou e coordenou o programa de requalificação deste espaço único de Coimbra e implementou estratégias de conservação. Para além da sua evolução académica no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Helena Freitas ocupa a Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável desde 2014. Dentro desta Cátedra tem implementado e apoiado uma rede de investigadores e instituições nas áreas da biodiversidade, ecologia, conservação e desenvolvimento sustentável.

Ao longo da sua carreira tem contribuído para um melhor conhecimento sobre a ecologia funcional da vegetação mediterrânica e sobre a gestão de espécies exóticas e invasoras como estratégia para minimizar a perda de diversidade dos ecossistemas. Com todos estes conhecimentos adquiridos fundou o Centro de Ecologia Funcional - Ciência para as Pessoas e para o Planeta (cfe.uc.pt) onde ainda é actualmente Coordenadora. Recentemente, lançou o Laboratório Associado TERRA – Laboratório de Sustentabilidade do Uso da Terra e Serviços de Ecossistema.

O conhecimento de Helena Freitas é reconhecido a nível internacional sendo convidada (2019 até agora) para a Assembleia da Missão de Adaptação às Alterações Climáticas, incluindo a Transformação Social, da Comissão Europeia. Actualmente é Ponto Focal Português do IPBES (sigla inglesa para Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e os Serviços de Ecossistema).

Coordenou ou participou em vários projetos e consórcios nacionais e internacionais, incluindo o Millennium Ecosystem Assessment. Orientou ou co-orientou mais de 30 dissertações de doutoramento sendo autor de mais de 200 publicações científicas internacionais indexadas e de diversas publicações de promoção e divulgação da ciência. Publica regularmente na imprensa nacional e regional, nomeadamente sobre ambiente, territórios e sociedade, planeamento e políticas de desenvolvimento baseadas no conhecimento. Em Março de 2000 foi agraciada com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio.

Esteve também envolvida em organizações não governamentais de ecologia e conservação, tais como: Presidente da Liga para a Protecção da Natureza (2002-2005), fundadora e Presidente da Sociedade Portuguesa de Ecologia (2004-2013) e Vice-Presidente da Sociedade Europeia de Ecologia (2009-2012).

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Pseudo Simplex Ambiental: desresponsabilizar sem desburocratizar

Minha arte digital

“A crise ecológica está a colocar em risco a civilização tal como a conhecemos. Os relatórios do IPCC e do IPBES não deixam dúvidas sobre a gravidade alarmante das alterações climáticas e da consequente perda de diversidade e que as mesmas tenderão a agravar-se nos próximos anos. Em contraciclo com a necessidade urgente de acautelar os valores ambientais, sentida à escala planetária, em Portugal, o Governo aprovou o Simplex Ambiental, um diploma legal cujo objetivo, legítimo, de simplificação dos procedimentos administrativos para obtenção de autorizações e licenças ambientais, é feito à custa de medidas que prejudicam a sua qualidade e, portanto, podem comprometer o Ambiente em Portugal.” (Continua)

Ler o Manifesto por completo aqui (versão atualizada, a versão inicial de 25 de setembro de 2023 pode ler aqui).

A subscrição continuará aberta. Caso queira subscrever, entre em contacto com a PAS: pas.plataforma.agua@gmail.com

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Adrienne Buller: "A crise ecológica não pode ser submetida aos mecanismos de mercado"

Adrienne Buller [Fonte: The Guardian]

Adrienne Buller é diretora de pesquisa do think tank britânico Common Wealth , onde lidera projetos sobre a construção de uma economia democrática, autora de "The Value of a Whale: On the Illusions of Green Capitalism" , e coautora, com Mathew Lawrence, de Owning o Futuro: Poder e Propriedade em uma Era de Crise .

Numa época em que o capitalismo verde exige que filtremos a nossa resposta à crise climática por meio do mercado, a autora analisa tudo o que há de errado com essa abordagem.

Nesta entrevista realizada como parte de um projeto sobre populismo climático de direita no Centro para o Avanço da Imaginação Infraestrutural (CAII), Buller aponta que tudo se resume à política: o greenwashing não impedirá que o financiamento climático minimize os riscos, maximize os retornos e negligencie o bem comum. É fundamental que lutemos para governar democraticamente nossos sistemas económicos.

O que é capitalismo verde e quais são seus objetivos? Quem são suas líderes de torcida, tanto em termos de instituições quanto de indivíduos reais?
Em essência, o capitalismo verde tenta encontrar uma maneira de gerenciar a complexidade de abordar a crise climática e ecológica através do prisma do mercado. Isso requer encontrar preços para as coisas, seja carbono ou outras formas de capital natural, e encaixá-los em nosso modelo financeiro.
O mercado busca promover a arbitragem neutra entre atores que buscam lucro e, então, a entende como algo inerentemente alinhado com resultados positivos, como redução de emissões ou combate à perda de biodiversidade.
Minha primeira experiência com o capitalismo verde foi trabalhar na numa organização sem fins lucrativos que ajudava empresas financeiras a otimizar seu papel na transição verde.
A indústria financeira sustentável foi uma janela para essa mentalidade sobre como enfrentar a crise climática e ecológica fazendo pequenos ajustes impulsionados pelo mercado e resistindo à suposta confusão da política.
Seus defensores estão por toda parte. A própria indústria financeira está, na minha opinião, na vanguarda dessa ideia. Você tem campeões como Larry Fink, CEO da BlackRock, como emblemas desse movimento. Mas também está presente em todos os tipos de fóruns de governança climática europeia.
O European Green New Deal é um programa político arquetípico do capitalismo verde. Assim como o Inflation Reduction Act [IRA] nos EUA, que tenta atrair agentes do mercado e encontrar maneiras de tornar os investimentos climáticos desejáveis ​​para o setor privado e seus clientes. É realmente a estrutura predominante com a qual a maioria dos formuladores de políticas, pelo menos no norte global, está trabalhando.

Qual é o principal fator por trás de sua aparência? As empresas não querem enriquecer com esta tragédia?
Sem ficar muito do lado da conspiração, eu diria que este é um casamento feliz de uma série de interesses do capital. Há o reconhecimento da ameaça de que a crescente crise climática representa um alerta sem precedentes para o capitalismo, especialmente em termos de sua capacidade de se reproduzir.
Mas, ao mesmo tempo, também há um entendimento de que essa é uma esfera totalmente nova de lucro com esse problema. Voltando aos chefões financeiros, Larry Fink publica uma carta anual apresentando a crise climática como uma oportunidade sem precedentes para os investidores.
O outro lado está mais perto dos palcos de Davos. Há reconhecimento da ameaça, mas também da necessidade de manter o capitalismo e os sistemas baseados no mercado.
Isso muitas vezes me parece um compromisso mais ideológico, motivado pela crença de que este é o único – e último – sistema econômico que poderíamos ter. A chave para o capitalismo verde é que é um casamento feliz de todos esses interesses.

Quem interpreta o antagonista do capitalismo verde? Quem representa essa figura da oposição?
Se existe um inimigo imaginário, é aquele que resiste aos sistemas de mercado existentes, ou questiona os fundamentos do capitalismo diante da crise climática e ecológica. É uma descrição bastante nebulosa do inimigo no capitalismo verde.
Aqueles que se encaixam com ela podem ser as partes mais anarquistas da frente climática, grupos como Extinction Rebellion, o ambientalista que resiste a colocar um preço na natureza em qualquer sentido romântico ou de princípios.
Dito isto, nem tenho certeza se há necessidade de um "inimigo" em sentido estrito. Tudo o que consigo lendo o trabalho ou entrevistas de pessoas que considero líderes do movimento capitalista verde é a convicção absoluta de que a sua posição é inevitável e correta. Eles têm aquela crença thatcheriana estridente de que não há alternativa ao sistema existente.
Na minha opinião, é menos sobre ter um "inimigo" e mais sobre uma convicção genuína de que o capitalismo verde e seus defensores são os adultos na sala. Eles acham que todo mundo está a jogar um jogo, sem entender como o mundo funciona e como ele deve continuar a funcionar.

Em seu livro, ele desmonta a ideia dos mercados de carbono, um dos métodos que o capitalismo tem usado para enfrentar a crise climática. O que já sabemos sobre sua eficácia?
Eu me apoio no trabalho de duas pessoas, Jessica Green, uma académica canadiana, e Cédric Durand, que escreveu artigos brilhantes sobre as falácias lógicas dos mercados de carbono.
Olhando para os sistemas atualmente em vigor e a sua eficácia comprovada, Green publicou uma das únicas meta-análises para analisar os resultados reais de todos os sistemas de precificação de carbono que foram implementados, como o esquema de comércio de emissões na União Europeia. Ela conclui que apesar de muitas reclamações sobre a incrível eficácia desses programas, em média, eles estão a gerar reduções entre 0 e 2% ao ano.
A sua eficácia é limitada, em parte porque cobre apenas uma parcela relativamente pequena das emissões reais da UE, mas também porque muito do que realmente consegue é a mudança de emissões.
Embora mudanças como as do carvão para o gás pareçam temporárias, não é exatamente um resultado notável em termos da capacidade dos sistemas de precificação de carbono de fazer o que eles dizem que fazem. Ele refuta as habituais alegações pomposas feitas por economistas sobre a rapidez e a justiça com que podem cortar.
A razão para isso acontecer se resume principalmente a questões políticas. A precificação do carbono pretende ser um mecanismo apolítico baseado no mercado para enfrentar a crise climática. A ideia é que o que ela emitir a mais terá um preço mais alto e, portanto, será expulso do mercado; então, a motivação do lucro garantirá a sua substituição por soluções inovadoras que possam ser oferecidas a um custo menor.
Mas, paradoxalmente, todos os tipos de questões políticas rapidamente entram em jogo. Até mesmo estabelecer os limites do que o preço do carbono cobre requer política. Os combustíveis fósseis e as emissões de carbono estão tão profundamente enraizados em todos os aspectos das nossas vidas, desde a energia até o transporte e a alimentação, que é impossível inovar tão cedo.
Para que os mecanismos de precificação do carbono sejam realmente eficazes, eles teriam que entrar em vigor num nível politicamente tóxico. É por isso que nunca aconteceu. Imediatamente, você está a enfrentar enormes injustiças e desigualdades que muitas vezes recaem sobre aqueles que menos podem pagar pelo preço do carbono.
É por isso que vimos surgir rapidamente muita resistência política aos mercados de carbono. Seja no Canadá , em torno dos esforços de Trudeau para impor um preço ao carbono; ou mais recentemente na Holanda , com a oposição dos trabalhadores rurais às metas climáticas. Há boas razões para essa resistência.

Onde a China se encaixa nessa narrativa? Como você explica o fato de eles terem optado pelos mercados de carbono e parecerem estar indo bem?
Indiscutivelmente, é necessário haver formas mais autoritárias de governo para que esse tipo de mecanismo de mercado funcione. A menos que sejam cuidadosamente articulados ou aplicados num nível tão baixo que sejam muito lentos ou ineficazes na redução de emissões, esses sistemas têm o potencial de causar injustiças e desigualdades económicas significativas.
Portanto, acho justo presumir que na China a ausência de caminhos reais para a dissidência democrática desempenhou um papel significativo no sucesso político percebido de seu sistema de comércio de carbono.

Outro tema que se seguiu é a ascensão da agenda ambiental, social e de governança (ESG). Como você vê a política deles, ou a falta dela?
Há um primeiro ponto muito óbvio. Quer a sua perspectiva da economia seja capitalista ou não, nesta transição precisa haver uma realocação massiva de capital para longe das tecnologias marrons e poluentes e para as verdes. E os ESGs têm sido a principal resposta do financiamento privado e do setor corporativo a essa necessidade óbvia.
O E significa "ambiente", as outras duas letras significam "social" e "governança". Os critérios ESG oferecem uma estrutura clara para os investidores avaliarem o destino de seu capital. Você pode indicar se uma empresa na qual deseja investir atende a uma série de critérios, que podem estar relacionados ao clima ou a questões como paridade de gênero nos conselhos. Mas isso também substitui o planeamento.
Isso nos impede de ter metas mais exatas de como queremos realocar o capital. O ESG tem se mostrado uma maneira eficaz de reduzir a pressão por regulamentações mais rígidas que proíbem a alocação de capital para certas coisas, ou exigem que mais material seja alocado para investimentos verdes, criando a impressão de que algo está sendo feito sem exigir muito, ou nada , de empresas.
Também tem tido enorme sucesso como ferramenta de marketing. Por muito tempo, a área financeira entendeu que tinha um problema de imagem quando se tratava de clima e meio ambiente.
O ESG tem sido um produto incrivelmente popular tanto para investidores de retalho quanto para fundos de pensão, todos os quais colocam seus ativos no sistema acreditando que você ainda pode ser verde e fazer o bem ganhando dinheiro, que você pode maximizar o retorno financeiro. e leve em consideração o critério ESG.
Se isso é verdade ou não, é outra questão, mas é assim que foi vendido. E há muito triunfalismo no setor financeiro sobre como está funcionando bem, sobre como os retornos dos investidores se alinham perfeitamente com questões de sustentabilidade, direitos humanos ou leis trabalhistas.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Serviços ecossistémicos


Os serviços do ecossistema ou serviços ambientais traduzem os benefícios que a humanidade retira dos ecossistemas e podem incluir bens materiais e/ou serviços imateriais.
As áreas florestais, por exemplo, além dos produtos mais imediatos como madeira, cortiça e frutos ou sementes, também contribuem para reduzir a poluição do ar, retendo partículas e poeiras, e para a purificação da água, capturam e armazenam carbono, reduzem a probabilidade de cheias e influenciam a precipitação a nível local e regional. Além disso, são também um espaço de lazer e recreio e melhoram a qualidade estética da paisagem.
Os serviços do ecossistema dividem-se em serviços de aprovisionamento (por exemplo a produção de alimento, fibra e madeira), de regulação (ciclo hidrológico, sequestro e armazenamento de carbono), culturais (de recreio) ou de suporte (fertilidade do solo e ciclo de nutrientes). O conceito está diretamente relacionado com as funções dos ecossistemas e com a sua biodiversidade, da qual dependem. A degradação dos ecossistemas e a perda de biodiversidade afetam estes serviços.
Neste sentido, a conservação da biodiversidade é essencial à manutenção do funcionamento e dos serviços do ecossistema. Como lembra o relatório da União Europeia Ecosystem Services and Biodiversity (2015), “apesar da sua importância para as pessoas, muitos foram tomados como garantidos no passado, sendo vistos como livres e infinitos”.
Como explica este relatório, o conceito tornou-se mais conhecido na viragem para o século XXI, com o projeto global Millennium Ecosystem Assessment (MEA) que procurou determinar como as alterações nos ecossistemas afetariam o bem-estar humano. Desenvolveram-se depois outros métodos e nomenclaturas para tentar definir e avaliar os serviços de ecossistema, como o TEEB – The Economics of Ecosystems and Biodiversity, IPBES – Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services e CICES – Common International Classification of Ecosystem Services.
O MEA definiu os serviços do ecossistema como “os benefícios que as pessoas obtêm dos ecossistemas” e divide-os em quatro categorias:
– Serviços de Suporte – processos naturais que são necessários para a produção e que mantêm todos os outros serviços, tais como o ciclo de nutrientes e a formação do solo;
– Serviços de Provisão ou Aprovisionamento – bens ou produtos provenientes do ecossistema, que incluem alimentos (como bagas, cogumelos ou mel), água doce, madeira, resina, caça, entre outros;
– Serviços de Regulação – benefícios que se obtêm da regulação e controlo do ecossistema sobre os processos naturais e que incluem serviços como a purificação do ar, a filtragem da água, a prevenção da erosão ou a regulação do clima por via do sequestro de carbono.
– Serviços Culturais e de Recreio – experiências e benefícios obtidos quando em proximidade com a natureza em atividades recreativas, turismo ou contemplação da paisagem.
Há quem siga o sistema definido pelo MEA, outros a classificação proposta na iniciativa TEEB, outros ainda a classificação do IPBES. Paralelamente há países que seguem uma classificação própria adaptada à sua realidade, como os sistemas de classificação do Reino Unido (UK National Ecosystem Assessment – UK NEA) e Bélgica (CICES-BE).
Atualmente o sistema de classificação mais utilizado pelos cientistas e decisores para os serviços do ecossistema é o CICES, que foi criado em 2009, permitindo uma abordagem mais integradora e holística que visava reunir informação capaz de integrar os sistemas de contabilidade nacionais. O CICES veio estabelecer equivalências entre os vários sistemas disponíveis à data, mencionados acima, e facilitar a avaliação dos serviços dos ecossistemas.
O CICES propõe uma classificação internacional comum que viabiliza o cálculo económico do valor dos serviços do ecossistema e que permite incluir o seu valor no Sistema de Contabilização Económico e Ambiental criado pelas Nações Unidas e usado pela Agência Europeia do Ambiente. Ao contrário do MEA, o CICES reconhece apenas três principais categorias de serviços do ecossistema:
– Serviços de Provisão – produtos obtidos dos ecossistemas para alimento (como as culturas agrícolas e a criação de animais) e os materiais (fibras e outros recursos provenientes de plantas, algas e animais).
– Serviços de Regulação e Manutenção – benefícios obtidos por manutenção das condições físicas, químicas e biológicas como o sequestro de carbono ou pela mediação dos fluxos como a proteção do solo e prevenção de erosão.
– Serviços Culturais – interações físicas e intelectuais com os ecossistemas e paisagens, como o turismo e interações simbólicas ou espirituais.
Os serviços de suporte (como a reciclagem de nutrientes e a formação do solo) definidos no MEA são considerandos no CICES como parte subjacente às estruturas, processos e funções que caracterizam os ecossistemas.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Webinar - Vamos conhecer os nossos polinizadores


Consultar ainda:
- Documento sobre o Plano de Ação para a I.I.P., produzido pela Conferência das Partes 6 da Convenção da Diversidade Biológica , realizada em 2002 em Haya : pdf 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Estado de emergência climática global


Conhecemos o efeito de estufa desde 1824 (Fourier), sabemos o sentido que as mudanças das concentrações de gases atmosféricos provocam na variação de temperatura desde 1859 (Tyndall) e temos uma previsão do aquecimento global pela duplicação do dióxido de carbono desde 1896 (Arrhenius). É simples: mais moléculas na atmosfera absorvem mais radiação solar que se manifesta em mais energia sob a forma de calor. Como a queima de combustíveis tem como efeito a produção de energia e dióxido de carbono, a construção de uma economia baseada nessa queima não poderia senão aumentar drasticamente a concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Em 2019 temos a maior concentração de dióxido de carbono atmosférico dos últimos 3 milhões de anos. Nós existimos há 300 mil. Temos civilizações há 12 mil. Começámos a queimar combustíveis fósseis há 200 anos. Não somos nós que não conseguimos mudar, são os donos do capitalismo que não querem abdicar do seu monstruoso poder.


As pessoas merecem saber que os cientistas estão apontando para uma ação imediata de mudança do sistema económico porque estão detectando sinais de alerta de uma extinção em massa totalmente concluída na Terra dentro de décadas.

1. Uma rápida extinção em massa está aqui e pode estar completa dentro de 'um ou alguns séculos se nada for feito' (a partir de 2022).

Podemo-nos esforçar para interromper os processos de crescimento económico industrial para proteger as espécies e todos [artigo científico - 2022]

2. O crescimento econômico representa um inferno de aquecimento de 2,5°C a 6°C até 2090. O rápido aquecimento de 5,2°C coloca as espécies da Terra em território de extinção em massa "mesmo sem outros impactos não climáticos" [artigo Nature -2021]

Junte-se para acabar com o silêncio da media corporativa que bloqueia a compreensão do público.

3. Os cientistas dizem que devemos reduzir as emissões imediatamente e parar o desmatamento e os pesticidas nos próximos 2 a 8 anos. Isso exigirá uma mudança de sistema.

Totalmente ignorado pela media estatal-corporativa: o relatório do IPCC AR6 inclui o decrescimento.

4. A media estatal-corporativa não explicará que a rápida extinção de 50% - 75% das espécies da Terra neste século devido ao uso excessivo e abuso de recursos pelos ricos é uma possibilidade real porque isso ameaçaria o poder estatal-corporativo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Five options for restoring global biodiversity after the UN agreement



To slow and reverse the fastest loss of Earth’s living things since the dinosaurs, almost 200 countries have signed an agreement in Montreal, Canada, promising to live in harmony with nature by 2050. The Kunming-Montreal agreement is not legally binding but it will require signatories to report their progress towards meeting targets such as the protection of 30% of Earth’s surface by 2030 and the restoration of degraded habitats.

Not everyone is happy with the settlement, or convinced enough has been promised to avert mass extinctions. Thankfully, research has revealed a lot about the best ways to revive and strengthen biodiversity – the variety of life forms, from microbes to whales, found on Earth.

Here are five suggestions:

1. Scrap subsidies
The first thing countries should do is stop paying for the destruction of ecosystems. The Montreal pact calls for reducing incentives for environmentally harmful practices by $US500 billion (£410 billion) each year by 2030.

Research published in 2020 showed that ending fuel and maintenance subsidies would reduce excess fishing. Less fishing means more fish at sea and higher catches for the remaining fleet with less effort. The world’s fisheries could cut emissions and become more profitable.

Scrapping policies which subsidise overexploitation in all sorts of industries – fisheries, agriculture, forestry, and of course, fossil fuels – are in many cases the lowest fruit to be picked in order to save biodiversity.

2. Protect the high seas
In the twilight zone of the ocean, between 200 and 1,000 metres down, fish and krill migrate upwards to feed at night and downwards to digest and rest during the day. This is the ocean’s biological pump, which draws carbon from near the ocean’s surface to its depths, storing it far from the atmosphere and so reducing climate change.

The total mass of fish living in the open ocean is much greater than in overfished coastal seas. Though not exploited to any large extent yet, the high seas and the remote ocean around the Antarctic need binding international agreements to protect them and the important planetary function they serve, which ultimately benefits all life by helping maintain a stable climate.

3. Ban clear-cutting and bottom trawling
Certain methods of extracting natural resources, such as clear-cutting forests (chopping down all the trees) and bottom trawling (tugging a big fishing net close to the seafloor) devastate biodiversity and should be phased out.

Bottom trawling catches fish and shellfish indiscriminately, disturbing or even eradicating animals which live on the seafloor, such as certain types of coral and oysters. It also throws plumes of sediment into the water above, emitting greenhouse gases which had been locked away. Seafloors that have been trawled continuously for a long time may appear to be devoid of life, or trivialised with fewer species and less complex ecosystems.

4. Empower indigenous land defenders
Indigenous people are the vanguard of many of the best-preserved ecosystems in the world. Their struggle to protect their land and waters and traditional ways of using ecosystems and biodiversity for livelihoods are often the primary reason such important environments still exist.

Such examples are found around the world, for example more primates are found on indigenous land than in surrounding areas.

5. No more production targets
These models were heavily criticised in the subsequent decades for oversimplifying how nature works. For instance species often contain several local populations which live separately and reproduce only with each other, yet some of these “substocks” could still become overfished if just one production target was applied for all of them. However, the idea of a maximum sustainable yield has come back into fashion this century as a means to curtail overfishing.

Herring is a good example here. The species forms many different substocks across the North Atlantic, yet one maximum yield was adopted over vast areas. In the Baltic Sea for instance, Swedish fishing rights were given to the largest shipowners as a part of a neoliberal economic policy to achieve a more effective fishing fleet. Local stocks of herring are now declining, and with them local adaptations (genetic diversity) could eventually disappear.

Heading for more robust strategies than elusive optimal targets for extracting the most fish or trees while maintaining the stock or the forest may lead to a more resilient pathway regarding biodiversity and climate mitigation. It could involve lower fishing quotas, but also change from industrial fishing to more local fishing with smaller fishing vessels.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Balanço final da COP 15 : acordo de Kunming-Montreal

Discurso de António Guterres no arranque da COP 15


Pequena tradução em Português aqui

Após mais de 190 Estados terem chegado esta segunda-feira a um acordo histórico em Montreal, no Canadá, para impedir a destruição da biodiversidade e os seus recursos, essenciais para a humanidade, o secretário-geral da ONU, António Guterres, também fez um balanço sobre o ano de 2022.

No final da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para a Diversidade Biológica (COP15), António Guterres começou por dizer que "o nosso mundo enfrentou muitas provações e testes em 2022 - alguns familiares, outros que talvez não imaginássemos. Pode haver muitos motivos para desespero. As divisões geopolíticas tornaram a solução de problemas globais cada vez mais difícil - às vezes impossível".

Segundo Guterres, mantém-se "esperança" na resolução de diversos conflitos possibilitada pelo "renascimento da diplomacia" nos últimos meses, apesar dos "muitos motivos para desespero".

A guerra da Rússia na Ucrânia foi um dos exemplos que Guterres referiu para ilustrar "o poder da diplomacia determinada e discreta", nomeadamente com o desbloqueio de mais de 14 milhões de toneladas métricas de alimentos que estavam retidos nos portos ucranianos, através da Iniciativa de Cereais do Mar Negro, alcançada com Kyiv e Moscovo após a mediação da Turquia e da própria ONU. 

"Mas termino este ano com uma convicção primordial: Este não é um momento para ficar à margem, é um momento de resolução, determinação e - sim - até esperança. Porque, apesar das limitações e das longas adversidades, estamos a trabalhar para resistir ao desespero, lutar contra a desilusão e encontrar soluções reais. Não são soluções perfeitas - nem sempre soluções bonitas - mas soluções práticas que fazem uma diferença significativa na vida das pessoas", disse.

Num ano marcado por várias guerras em diversas zonas geográficas, o ex-primeiro-ministro português afirmou que o mundo viu "nos últimos meses um renascimento da diplomacia", que "ajudou a afastar da rutura vários conflitos".

"Mesmo na guerra brutal na Ucrânia, vimos o poder da diplomacia determinada e discreta para ajudar as pessoas e enfrentar níveis sem precedentes de insegurança alimentar global", frisou.

Isso inclui cerca de 380.000 toneladas métricas transportadas pelo Programa Alimentar Mundial para apoiar as operações humanitárias em andamento em países como o Afeganistão, Etiópia, Somália e Iémen, segundo o secretário-geral.

Esses movimentos alcançados pela "diplomacia discreta" permitiram, de acordo com a ONU, que o Índice de Preços de Alimentos da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) diminuísse ao longo de oito meses consecutivos - cerca de 15% - evitando que milhões de pessoas em todo o mundo caíssem na pobreza extrema.

"Mas resta-nos muito trabalho. Os preços dos alimentos ainda são muito altos e o acesso a fertilizantes ainda é muito limitado. (...) E não cederemos na busca pela paz na Ucrânia, de acordo com o direito internacional e a Carta das Nações Unidas", sublinhou Guterres.

Para o novo ano, o objetivo é "que seja um ano do paz e ação (...), um ano em que vamos lutar".

Questionado sobre se o facto de Putin estar de visita esta segunda-feira à Bielorrúsia poder aumentar a escala do conflito na Ucrânia, Guterres considera que "esse escalar da guerra já aconteceu quando foram atacadas as infraestruturas de energia essenciais à população". "Essa escalada está a acontecer", frisou.

"Os bombardeamentos em massa que estão a acontecer a infraestruturas são gravíssimos porque ameaçam as vidas humanas", relembrou o secretário-geral da ONU.

Na opinião de Guterres, "a guerra vai continuar" e não haverá nova troca de conversações, só se for no sentido de "se incrementar novas trocas de prisioneiros".

"A posição das Nações Unidas é muito clara no que diz respeito aos direitos humanos", esclareceu Guterres. "Não acredito numa solução militar para estes problemas", rematou.

Saber mais:

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

COP15 - quem deve pagar a defesa dos ecossistemas?


Começou esta quarta-feira a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas (COP15), sobre Biodiversidade no Canadá. A humanidade tornou-se uma "arma de extinção maciça" e é tempo de parar a nossa "guerra contra a natureza", afirmou o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, apelando aos países para que tomem decisões corajosas durante a cimeira COP15 sobre a biodiversidade. O director do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas, na Guiné-Bissau, Justino Biai, lembra que "estamos a dar prioridade ao desenvolvimento em relação à biodiversidade".

Depois de dois anos de adiamento, por causa da pandemia da Covid-19, a conferência da ONU sobre biodiversidade, a COP15, arrancou esta quarta-feira, 7 de Dezembro, em Montreal, no Canadá. Os objectivos dos negociadores para as próximas duas semanas: chegar a um acordo internacional com compromissos concretos até 2030 para proteger a natureza.

"A biodiversidade é um dos componentes essenciais no meio ambiente. Não podemos separar a biodiversidade do meio ambiente", defende o director do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP), na Guiné-Bissau, Justino Biai, que lembra que "estamos a dar prioridade ao desenvolvimento em relação à biodiversidade".

Segundo o último relatório do World Wildlife Fund (WWF), as populações de animais selvagens diminuíram em média 69% desde 1970. Enquanto os estudos mostram uma degradação da biodiversidade, a COP15 da biodiversidade vai traçar novos objectivos para a preservação dos ecossistemas. "Só as pessoas que estão próximas da biodiversidade é que sentem que ela está a ser ameaçada. Enquanto as mudanças climáticas todos estamos a sentir os seus impactos. Talvez seja por isso que existe maior lobbing em torno das mudanças climáticas", compara o directo do IBAP.

Os cientistas descrevem um círculo vicioso: quanto mais altas as temperaturas, mais certas espécies, plantas ou animais, ficam desprotegidas: árvores, pássaros, morcegos, peixes. Essas mudanças na biodiversidade afectam os ciclos do carbono e da água e, portanto, aceleram as mudanças climáticas.

No início da COP15, que decorre em Montreal, no Canadá, até dia 19 de Dezembro, António Guterres realçou que um terço do planeta está degradado, com um milhão de espécies em risco de extinção, causando danos à natureza e também à sobrevivência das populações.

"A perda da natureza e da biodiversidade traz um custo humano acentuado. Um custo que medimos em empregos perdidos, fome, doenças e mortes. Um custo que medimos em 3 triliões de dólares [2,8 biliões de euros] em perdas anuais até 2030 pela degradação dos ecossistemas. Um custo que medimos em preços mais elevados da água, alimentos e energia. E um custo que medimos nas perdas profundamente injustas e incalculáveis dos países mais pobres, populações indígenas, mulheres e jovens", acrescentou António Guterres.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O decrescimento pode funcionar - veja como a ciência pode ajudar

Os países ricos podem criar prosperidade usando menos materiais e energia se abandonarem o crescimento econômico como objetivo.


A economia global é estruturada em torno do crescimento – a ideia de que empresas, indústrias e nações devem aumentar a produção a cada ano, independentemente de ser necessário. Essa dinâmica está impulsionando a mudança climática e o colapso ecológico. As economias de alta renda, e as corporações e classes abastadas que as dominam, são as principais responsáveis ​​por esse problema e consomem energia e materiais a taxas insustentáveis ​​1 , 2 .

No entanto, muitos países industrializados estão agora lutando para aumentar suas economias, dadas as convulsões econômicas causadas pela pandemia do COVID-19, a invasão russa da Ucrânia, a escassez de recursos e as melhorias estagnadas da produtividade. Os governos enfrentam uma situação difícil. Suas tentativas de estimular o crescimento colidem com os objetivos de melhorar o bem-estar humano e reduzir os danos ambientais.

Pesquisadores em economia ecológica pedem uma abordagem diferente — decrescimento 3 . As economias ricas devem abandonar o crescimento do produto interno bruto (PIB) como meta, reduzir as formas de produção destrutivas e desnecessárias para reduzir o uso de energia e materiais e concentrar a atividade económica em garantir as necessidades humanas e o bem-estar. Essa abordagem, que ganhou força nos últimos anos, pode permitir uma descarbonização rápida e interromper o colapso ecológico, ao mesmo tempo em que melhora os resultados sociais 2. Ele liberta energia e materiais para países de baixa e médio rendimento nos quais o crescimento ainda pode ser necessário para o desenvolvimento. O decrescimento é uma estratégia intencional para estabilizar as economias e alcançar objetivos sociais e ecológicos, ao contrário da recessão, que é caótica e socialmente desestabilizadora e ocorre quando as economias dependentes do crescimento não conseguem crescer.

Relatórios deste ano do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sugerem que as políticas de decrescimento devem ser consideradas na luta contra o colapso climático e a perda de biodiversidade, respectivamente. As políticas para apoiar tal estratégia incluem o seguinte.

Reduza a produção menos necessária. Isso significa reduzir setores destrutivos, como combustíveis fósseis, carne e laticínios produzidos em massa, moda rápida, publicidade, carros e aviação, incluindo jatos particulares. Ao mesmo tempo, é preciso acabar com a obsolescência programada dos produtos, prolongar sua vida útil e reduzir o poder de compra dos ricos.

Melhorar os serviços públicos. É necessário garantir o acesso universal a cuidados de saúde de qualidade, educação, habitação, transporte, Internet, energia renovável e alimentação nutritiva. Os serviços públicos universais podem gerar resultados sociais fortes sem altos níveis de uso de recursos.

Introduzir uma garantia de empregos verdes. Isso treinaria e mobilizaria a mão-de-obra em torno de objetivos sociais e ecológicos urgentes, como a instalação de energias renováveis, isolamento de edifícios, regeneração de ecossistemas e melhoria da assistência social. Um programa desse tipo acabaria com o desemprego e garantiria uma transição justa de empregos para trabalhadores em indústrias em declínio ou 'setores em declínio', como aqueles dependentes de combustíveis fósseis. Poderia ser emparelhado com uma política de renda universal.

Reduzir o tempo de trabalho. Isso poderia ser alcançado diminuindo a idade da reforma, incentivando o trabalho em meio período ou adotando uma semana de trabalho de quatro dias. Essas medidas reduziriam as emissões de carbono e libertariam as pessoas para se envolverem em cuidados e outras atividades de melhoria do bem-estar. Eles também estabilizariam o emprego à medida que a produção menos necessária declinasse.

Possibilitar o desenvolvimento sustentável. Isso requer o cancelamento das dívidas injustas e impagáveis ​​dos países mais pobres, coibindo o câmbio desigual no comércio internacional e criando condições para que a capacidade produtiva seja reorientada para a consecução de objetivos sociais.

Aubagne, na França, é um dos quase 100 lugares no mundo que oferecem transporte público gratuito. Crédito: Viennaslide/Alamy

Alguns países, regiões e cidades já introduziram elementos dessas políticas. Muitas nações europeias garantem saúde e educação gratuitas; Viena e Singapura são conhecidas por habitações públicas de alta qualidade; e quase 100 cidades em todo o mundo oferecem transporte público gratuito. Esquemas de garantia de emprego foram usados ​​por muitas nações no passado, e experimentos com renda básica e jornadas de trabalho mais curtas estão em andamento na Finlândia, Suécia e Nova Zelândia.

Mas a implementação de uma estratégia mais abrangente de decrescimento – de maneira segura e justa – enfrenta cinco desafios principais de pesquisa, conforme descrevemos aqui.

Remova as dependências do crescimento

Hoje, as economias dependem do crescimento de várias maneiras. Bem-estar é muitas vezes financiado por receitas fiscais. Os provedores de previdência privada dependem do crescimento do mercado de ações para obter retornos financeiros. As empresas citam o crescimento projetado para atrair investidores. Os pesquisadores precisam identificar e abordar tais “dependências de crescimento” setor por setor.

Por exemplo, o 'dever fiduciário' dos diretores da empresa precisa ser mudado. Em vez de priorizar os interesses financeiros de curto prazo dos acionistas, as empresas devem priorizar os benefícios sociais e ambientais e levar em conta os custos sociais e ecológicos. Setores como assistência social e pensões precisam de mecanismos de financiamento seguros para provedores públicos e melhor regulamentação e desmantelamento de incentivos financeiros perversos para provedores privados 4 .

Equilibrar a economia nacional exigirá novos modelos macroeconômicos que combinem variáveis ​​econômicas, financeiras, sociais e ecológicas. Modelos como o LowGrow SFC (desenvolvido pelo TJ e PAV), EUROGREEN e MEDEAS já estão a ser utilizados para projetar os impactos das políticas de decrescimento, incluindo impostos redistributivos, universalização dos serviços públicos e redução do tempo de trabalho.



Mas esses modelos geralmente se concentram num único país e não levam em conta a dinâmica transfronteiriça, como movimentos de capital e moeda. Por exemplo, se os mercados estiverem assustados com o baixo crescimento num país, algumas empresas podem transferir o seu capital para o exterior, o que pode afetar adversamente a moeda do país original e aumentar os custos dos empréstimos. Condições como essas representaram sérios problemas financeiros para a Argentina em 2001 e para a Grécia em 2010. A cooperação internacional para um controle fronteiriço mais rígido dos movimentos de capital precisa ser considerada e os efeitos modelados.

Financiar serviços públicos

Novas formas de financiamento serão necessárias para financiar serviços públicos sem crescimento. Os governos devem interromper os subsídios para a extração de combustíveis fósseis. Eles deveriam tributar indústrias prejudiciais ao meio ambiente, como viagens aéreas e produção de carne. Os impostos sobre a riqueza também podem ser usados ​​para aumentar os recursos públicos e reduzir a desigualdade.

Os governos que emitem sua própria moeda podem usar esse poder para financiar objetivos sociais e ecológicos. Essa abordagem foi usada para resgatar bancos após a crise financeira global de 2007–8 e para pagar esquemas de licença e hospitais durante a pandemia de COVID-19 5 .

Os riscos inflacionários devem ser administrados, caso o aumento da procura ultrapasse a capacidade produtiva da economia. O destino da moeda para serviços públicos reduz a inflação do custo de vida. Mas uma estratégia de decrescimento também pode reduzir a procura de bens materiais – por exemplo, por meio de tributação progressiva, incentivando o consumo partilhado e colaborativo, incentivando reformas e reparos e apoiando serviços baseados na comunidade.

Outro risco é que, quando estados ou bancos centrais emitem moeda, isso pode aumentar os pagamentos do serviço da dívida do governo. A investigação sugere que gerir este risco requer uma coordenação cuidadosa da política fiscal (quanto os governos tributam e gastam) e da política monetária (como é mantida a estabilidade de preços) 6 . Modelagem e pesquisa empírica são necessárias para lançar luz sobre os prós e contras de mecanismos inovadores de política monetária — como um 'sistema de reservas escalonadas', que reduz a taxa de juros da dívida do governo.

Gerenciar reduções de tempo de trabalho

Ensaios de jornadas de trabalho mais curtas geralmente relataram resultados positivos. Isso inclui menos estresse e esgotamento e melhor sono entre os funcionários, mantendo a produtividade 7 . A maioria dos ensaios se concentrou no setor público, principalmente no norte da Europa. Mas empresas privadas na América do Norte, Europa e Australásia realizaram testes de semanas de quatro dias, com resultados semelhantes 8 . No entanto, as empresas foram auto-selecionadas e pesquisas são necessárias para testar se essa abordagem pode ser bem-sucedida de forma mais ampla, por exemplo, fora das indústrias de colarinho branco que dominam os testes.


Jovens em Hong Kong seguram cartazes sobre o movimento Lying Flat, que viu um grande número de trabalhadores pedir demissão. Crédito: Jonathan Wong/SCMP via ZUMA Press

As barreiras à implementação de horas reduzidas precisam ser compreendidas e abordadas. Os custos de pessoal per capita, como contribuições fiscais limitadas e seguro de saúde, tornam mais caro para os empregadores aumentar o número de funcionários. A dívida pessoal pode encorajar os funcionários a trabalhar mais horas, embora estudos recentes não mostrem evidências disso 7 , 8 .

A compreensão dos impactos coletivos também é limitada. Os resultados dos experimentos da França com uma semana de 35 horas têm sido mistos: embora muitas pessoas tenham se beneficiado, alguns trabalhadores com salários mais baixos e menos qualificados experimentaram salários estagnados e trabalho mais intenso 9 . Essas pressões precisam ser estudadas e abordadas. Suposições de que a redução de horas resulta em mais empregos precisam ser testadas em diferentes setores e contextos. Evidências recentes sugerem que os trabalhadores podem manter a produtividade reorganizando seu trabalho 7 , 8 .

As relações entre horas de trabalho e emissões de carbono também precisam ser estabelecidas 10 . Embora menos deslocamento reduza o uso de energia e as emissões de carbono durante as semanas de trabalho compactadas, os comportamentos durante os fins de semana de três dias permanecem pouco explorados. Mais viagens ou compras durante o tempo livre podem aumentar as emissões, mas esses efeitos podem ser mitigados se a produção em setores problemáticos for reduzida.
Redefina os sistemas de provisionamento

Atualmente, nenhum país atende às necessidades básicas de seus residentes de forma sustentável 1 . As economias ricas usam mais do que sua parcela justa de recursos 2 , enquanto os países de baixa renda provavelmente precisarão usar mais. Os pesquisadores precisam estudar como os sistemas de abastecimento vinculam o uso de recursos aos resultados sociais, tanto para os sistemas físicos (infraestrutura e tecnologia) quanto para os sociais (governos e mercados).

Estudos de baixo para cima sugerem que melhores sistemas de abastecimento poderiam oferecer padrões de vida decentes com muito menos uso de energia do que é necessário hoje 11 . Esses estudos não respondem totalmente por instituições como o estado e provavelmente serão subestimados. Estudos de cima para baixo, que levam em consideração tais instituições, sugerem que mais energia é necessária para atender às necessidades humanas 12 . Mas esses estudos são incapazes de separar o consumo desnecessário, como grandes carros ou iates, e, portanto, provavelmente serão superestimados.



Os pesquisadores precisam conciliar essas abordagens e considerar recursos além da energia, incluindo materiais, terra e água. Eles precisam examinar os sistemas de provisão para habitação, transporte, comunicação, saúde, educação e alimentação. Que mudanças sociais e institucionais melhorariam o abastecimento? Que tipos de provisão têm os resultados sociais e ambientais mais benéficos? Tal pesquisa pode ser feita usando observação empírica, bem como por meio de modelagem.

Veja a habitação, por exemplo. Em muitas partes do mundo, os mercados imobiliários atendem a incorporadores, proprietários e financiadores. Isso contribui para a segregação e a desigualdade e pode expulsar os trabalhadores dos centros das cidades, tornando-os dependentes de carros, o que aumenta as emissões de combustíveis fósseis. Abordagens alternativas incluem habitação pública ou cooperativa e um sistema financeiro que prioriza a habitação como uma necessidade básica e não como uma oportunidade de lucro.
Viabilidade política e oposição

O crescimento é muitas vezes tratado como um árbitro do sucesso político. Poucos líderes ousam desafiar o crescimento do PIB. Mas as atitudes públicas estão mudando. Pesquisas na Europa mostram que a maioria das pessoas prioriza o bem-estar e os objetivos ecológicos em detrimento do crescimento (consulte The Guardian ). Pesquisas nos Estados Unidos e no Reino Unido mostram apoio a garantias de empregos e reduções de jornada de trabalho (consulte The Hill e YouGov- pdf). O grande número de trabalhadores que deixaram seus empregos em movimentos como a Grande Renúncia dos EUA ou os grupos de protesto Lying Flat na China mostram que há demanda por jornadas de trabalho mais curtas e trabalhos mais humanos e significativos. No entanto, os partidos políticos que apresentaram ideias de decrescimento receberam apoio limitado nas eleições. Isso levanta a questão: de onde viria o impulso para a política de decrescimento?

Movimentos sociais e mudanças culturais fermentando abaixo da superfície muitas vezes precedem e catalisam a transformação política. Os cientistas sociais devem examinar quatro áreas. Primeiro, eles precisam identificar mudanças de atitudes e práticas usando pesquisas e grupos focais.



Em segundo lugar, eles devem aprender com 'cidades de transição' sustentáveis, cooperativas, projetos de coabitação ou outras formações sociais que priorizam modos de vida pós-crescimento. As experiências de países que tiveram de se adaptar a condições de baixo crescimento – como Cuba após a queda da União Soviética e o Japão – também trazem lições.

Em terceiro lugar, os pesquisadores devem estudar os movimentos políticos que estão alinhados com os valores do decrescimento – desde a Via Campesina, o movimento camponês internacional que defende a soberania alimentar e métodos agroecológicos, até os movimentos municipalistas e comunalistas e governos em cidades progressistas como Barcelona ou Zagreb, que promover políticas que favoreçam a justiça social e os bens comuns. É preciso entender melhor os obstáculos enfrentados por governos com ambições ecológicas, como os eleitos este ano no Chile e na Colômbia.

Quarto, é necessária uma melhor compreensão dos interesses políticos e econômicos que podem se opor ou apoiar o decrescimento. Por exemplo, como grupos como think tanks, corporações, lobistas e partidos políticos que trabalham para apoiar os interesses da elite se organizam, nacional e internacionalmente, para minar políticas econômicas e sociais progressistas? O papel da mídia na formação de atitudes pró-crescimento permanece pouco explorado. Dados os vínculos entre crescimento econômico e poder geopolítico, nações individuais podem não estar dispostas a agir sozinhas, por medo de enfrentar desvantagens competitivas, fuga de capitais ou isolamento internacional. Esse problema do 'pioneiro' levanta a questão de saber se, e sob quais condições, os países de alta renda podem cooperar para uma transição de decrescimento.
Qual o proximo?

A ação do governo é crucial. Isso é um desafio, porque os que estão no poder têm ideologias enraizadas na economia neoclássica dominante e tendem a ter uma exposição limitada a pesquisadores que exploram a economia de outros ângulos. Será necessário espaço político para debater e compreender alternativas e para desenvolver respostas políticas. Os fóruns que trabalham nisso incluem a Wellbeing Economy Alliance, o movimento Growth in Transition na Áustria, a iniciativa da conferência Pós-Crescimento do Parlamento Europeu e o Grupo Parlamentar de Todos os Partidos do Reino Unido sobre Limites do Crescimento.



São necessários movimentos sociais fortes. Formas de tomada de decisão descentralizadas, de pequena escala e diretas, como as assembléias de cidadãos, ajudariam a destacar as opiniões públicas sobre economias mais equitativas 13 .

Abordar a questão de como prosperar sem crescimento exigirá uma mobilização maciça de pesquisadores em todas as disciplinas, incluindo economistas de mente aberta, cientistas sociais e políticos, modeladores e estatísticos. A pesquisa sobre decrescimento e economia ecológica precisa de mais financiamento para aumentar a capacidade de abordar as questões necessárias. E a agenda precisa de atenção e debate nos grandes fóruns econômicos, ambientais e climáticos, como as conferências das Nações Unidas.

Um editorial de março de 2022 nesta revista argumentou que é hora de ir além de um debate sobre 'limites do crescimento' versus 'crescimento verde'. Nós concordamos. A nosso ver, a questão não é mais se o crescimento terá limites, mas sim como podemos permitir que as sociedades prosperem sem crescimento, para garantir um futuro justo e ecológico. Vamos abrir o caminho.


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