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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Kasper Bjørke: Young Again (feat. Jacob Bellens)

Melhor som aqui

[Verse 1]
Enough is enough, no one stops the caterpillar
The weight of the world already too much to bear
You do it too loud, mix it up with vanilla
The sound is the best I have heard for a million years

[Verse 2]
From the thunder that came, I was never the same
And I would stop to think of what to do
I was taking a leap I was playing for keeps with you

[Verse 3]
Too many touches on my skin
That's lying between now and then
Too many kisses on my chin
So severe

[Verse 4]
I can't believe the state I'm in
I can't believe what's happening
We'll never be this young again
Guinevere

[Verse 5]
The comic relief that makes room for my decision
To tighten the rope so that you never will forget
The music that comes from when playing with precision
The words are too rough, I can't shake it from off my head

[Verse 6]
I was making a mess for the better I guess
With a desire to be understood
There were people around with the need to get down for good

[Verse 7]
The many touches on my skin
That's lying between now and then
The many kisses on my chin
So severe

[Verse 8]
I can't believe what's happening
I can't believe the state I'm in
We'll never be this young again
Guinevere

Significado da canção
Kasper Bjørke e Jacob Bellens são dois artistas de nacionalidade dinamarquesa que, nesta colaboração de 2009 intitulada "Young Again", criaram uma faixa que transita entre o synth-pop, o indie dance e o electro-house. Se analisarmos apenas a letra, a música foca-se na nostalgia, na efemeridade da juventude e na aceitação da passagem do tempo, deixando o aviso agridoce de que nunca seremos tão jovens como no momento presente.

O uso do nome Guinevere nesta canção baseia-se no forte simbolismo que a personagem carrega na literatura, servindo como uma metáfora perfeita para a mensagem de melancolia e nostalgia da música. O compositor Jacob Bellens, conhecido pelo seu estilo abstrato e romântico, utiliza a icónica rainha de Camelot para evocar o arquétipo do amor proibido e trágico. Na mitologia arturiana, o romance de Guinevere com Lancelot é sinónimo de uma paixão avassaladora, mas que carrega consigo a dor e a inevitabilidade da ruína, o que se alinha perfeitamente com o desabafo melancólico presente na letra da canção.

Além disso, a figura de Guinevere está intrinsecamente ligada ao fim de uma era dourada, já que a sua traição acabou por ditar a queda de Camelot e a destruição da Távola Redonda. Ao cruzar essa referência com o refrão que repete que nunca mais seremos assim tão jovens, a música transforma a personagem num símbolo da perda da inocência e da passagem implacável do tempo. Ao escolher um nome mítico e intemporal em vez de um nome comum, o autor eleva a pessoa a quem canta ao estatuto de uma musa distante e inalcançável, transformando a canção num lamento poético sobre as marcas que os amores intensos deixam na nossa pele e a saudade de um passado que não volta atrás.

No entanto, o conceito de biofilia - que remete para a ligação inata do ser humano com a natureza e com o mundo vivo - torna-se o pilar central da obra quando olhamos para a sua componente visual. No teledisco, realizado por Karim Huu Do , esta ligação é explorada de forma artística e surrealista, mostrando plantas, musgos e fungos a brotarem diretamente da pele e dos corpos das personagens. Esta fusão funciona como uma metáfora poética onde o ciclo da vida humana é equiparado ao ciclo botânico do nascimento, florescimento e decomposição. Assim, ao contrastar a batida eletrónica e sintética com imagens puramente orgânicas, a obra completa acaba por sugerir que, independentemente do quão urbanos ou tecnológicos nos tornemos, a nossa essência permanece biológica e inevitavelmente ligada à Terra.

segunda-feira, 23 de março de 2026

IKON - The Garden of the Lost


A música "The Garden of the Lost" faz parte do EP The Garden of the Lost, lançado originalmente em 1998. Melhor som aqui

Innocence, never in you
 Decay, through and through
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end

Disease, is all of you
 You're fake, and psycho too
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end

As imagens utilizadas para ilustrar a música desta banda australiana pertencem ao filme O Amante (L'Amant), de 1992, dirigido por Jean-Jacques Annaud. O filme é baseado no romance autobiográfico de Marguerite Duras e passa-se na Indochina Francesa (atual Vietname).

Musicalmente, a faixa assenta numa linha de baixo pulsante e hipnótica, complementada por guitarras carregadas de reverb e chorus que criam uma sensação de espaço vazio e frio, evocando a influência direta de bandas como Joy Division e New Order. A voz barítona de Chris McCarter entrega a letra com um distanciamento emocional que reforça o sentimento de desolação e introspeção típico do género.

No que toca ao seu significado, a letra funciona como uma metáfora poética sobre o isolamento e a decadência emocional. O "jardim dos perdidos" representa um estado mental ou um refúgio metafórico onde são depositadas as memórias esquecidas, as oportunidades perdidas e os sentimentos de abandono. Há uma celebração da tristeza e da solidão, transformando a dor num lugar de beleza estática, onde o tempo parece não passar. A canção explora a ideia de que certas experiências e amores deixam marcas que nos confinam a um espaço interior do qual nunca conseguimos sair totalmente, restando apenas o silêncio e a contemplação do que foi perdido.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente

Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.

Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.

As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?

O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.

O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).

Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.

Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.

Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.

A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.

Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.

Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.

O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.

Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?

Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?

É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.

Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.

Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.

Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

O olhar de Sebastião Salgado: a Humanidade sem fronteiras

"Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas...” (Êxodos”, publicado em 2000).


Sebastião Salgado é referência mundial pela sua fotografia social, que historicamente retratou pessoas em situações de pobreza, miséria, em tragédias e em movimentações da sociedade que influenciaram as migrações humanas no globo terrestre. Dessas histórias, originaram-se obras como Êxodos, a qual, quando terminada sua produção, levou Salgado à depressão. Por isso, o fotógrafo e sua esposa, Lélia, voltaram para Aimorés (MG), a fim de cuidar da antiga fazenda dos pais de Salgado. Ali, viu a degradação ambiental. Uma terra tão doente quanto ele mesmo estava. Foi sua esposa quem teve a ideia de reflorestar a Mata Atlântica naquele pedaço de terra assoreado e sem vida. Criou-se o Instituto Terra e, junto com ele, Sebastião Salgado obteve a cura para sua depressão. Deste modo, fotografou 32 reportagens durante oito anos, retratando o que ainda há de puro ecologicamente no mundo. As fotografias deram origem à obra Gênesis. A partir desse conhecimento, a presente pesquisa questionou como teria ocorrido a mudança de olhar do fotógrafo de Êxodos para Gênesis e o que mudou na hora de Salgado fazer fotografia. O objetivo foi o de descobrir se, através da aproximação do fotógrafo com o objeto a ser registrado, a fotografia teria a capacidade de construir uma transformação no agente fotográfico. Para isso, utilizou-se o levantamento bibliográfico e a entrevista aberta em profundidade para aprofundar o conhecimento sobre o Salgado e suas obras. E, para análise das fotos, usou-se a metodologia das conotações, híbrida das teorias de Barthes (2000) e Eco (1997). Esse método se fez necessário para decompor as fotografias em seus elementos e analisá-los de modo a interpretar suas conotações e compreender as alterações do fotógrafo em seu trabalho. Os resultados obtidos enfatizam a mudança vivida por Sebastião graças ao seu contato com a natureza através do Instituto Terra; a essência de suas fotografias; e mantém o questionamento sobre o paradigma da aproximação entre jornalistas e seus objetos de trabalho.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Fornecedoras de algodão para fabricantes de peças vendidas por Zara e H&M, fazendas no oeste da Bahia têm histórico de desmatamento e grilagem, aponta investigação da ONG Earthsight.

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado nesta quinta-feira (11/04). Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.

Crimes no Cerrado
O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, numa entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

"Grilagem verde"
Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Rota até as marcas europeias
Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnam, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

Mais controle das cadeias
À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora partilhe o resultado da sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Nesta quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de incumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.

domingo, 14 de julho de 2024

Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial


Recentemente em 2022, na sequência de um massacre numa escola dos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump discursou na convenção da poderosa Associação Nacional do Rifle (NRA), principal financiadora do lobby das armas no país, e afirmou que a melhor solução contra a violência é armar ainda mais a população.
De 2021 a 2023 houve mais de 600 tiroteios em massa nos EUA, quase dois por dia em média, segundo a organização americana GunViolence.
Devido ao porte de arma generalizado nos EUA, de 2021 a 2023 morreram quase 60.000  pessoas no país (excluindo suicídios com recurso a arma), o que dá a espantosa média de quase 20.000 mortes por ano nos três últimos anos.
Desses 60.000 cerca de 4800 eram crianças ou adolescentes, o que dá uma média de 1.600 mortes dentro dessas faixas etárias nos três últimos anos.
Já os suicídios com uso de arma de fogo rondam em média as mais de 26.000 mortes nos três últimos anos, ou seja, cerca de 78.000 pessoas suicidaram-se nos EUA nestes três últimos anos recorrendo a armas de fogo.
De 2021 a 2023, armas de fogo foram directamente responsáveis por quase 140.000 mortes nos EUA!
Para termos uma noção, morreram nas duas guerras do Iraque cerca de 9.000 soldados americanos. No Afeganistão morreram cerca de 2.400.
Cerca de 36.500 soldados americanos morreram durante a Guerra da Coreia. 
Aproximadamente 58.220 soldados americanos morreram na Guerra do Vietname.
116.516 soldados americanos morreram durante a Primeira Guerra Mundial.
Apenas na segunda guerra mundial morreram mais americanos do que nos EUA em tempo de paz de 2021 a 2023. Nesse conflito cerca de 405.000 soldados americanos morreram, estando nós a falar do conflito mais mortífero alguma vez ocorrido no planeta.
Se no entanto alargarmos esta estatística para os últimos dez anos, aproximadamente 400.000 americanos morreram devido a armas de fogo, considerando homicídios, suicídios e acidentes.
Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial.

sábado, 18 de maio de 2024

Thich Nhat Hanh - A Poem on Peace and Compassion


"Let us be at peace with our bodies and our minds.
Let us return to ourselves and become wholly ourselves.
Let us be aware of the source of being,
common to us all and to all living things.

Evoking the presence of the Great Compassion,
let us fill our hearts with our own compassion- towards ourselves and
towards all living beings.

Let us pray that we ourselves cease to be
the cause of suffering to each other.

With humility, with awareness of the existence of life, and of the suffering that are going on around us,
let us practice the establishment of peace in our hearts and on earth."

Thich Nhat Hanh

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Dezenas de milhões de pessoas neste país bebem água contaminada com arsénico. A situação pode piorar muito


Incolor, insípido e inodoro. O arsénio é um assassino furtivo, naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas. Há vários países onde se verificam contaminações por arsénico

Começou com pontos espalhados pelo peito e costas das pessoas. Manchas duras invulgares na pele das palmas das mãos e nas solas dos pés. Para alguns, um escurecimento dos dedos dos pés.

Médicos e investigadores começaram a observar pacientes no Bangladesh que apresentavam este tipo de sintomas na década de 1980. Rapidamente se tornou claro o que estavam a ver: sinais clássicos de envenenamento por arsénico.

Numa trágica ironia, a razão acabou por ser atribuída a um programa de saúde pública de enorme sucesso.

Na década de 1970, as crianças do Bangladesh morriam em grande número devido a doenças como a disenteria e a cólera, depois de beberem água suja dos rios, lagos e ribeiros. Em resposta, o governo do Bangladesh, juntamente com agências de ajuda lideradas pela UNICEF, lançou um enorme esforço para obter água mais limpa no subsolo.

Ao longo das duas décadas seguintes, milhões de poços tubulares - tubos estreitos perfurados a profundidades relativamente pequenas - foram enterrados na terra. "No espaço de uma geração, mudaram o comportamento da água potável de toda uma população", disse Seth Frisbie, químico e professor emérito da Universidade de Norwich, que passou décadas a investigar a contaminação por arsénico.

Os números de crianças a morrer diminuíram significativamente. Ainda assim, nos anos 90, tornou-se claro que o projeto tinha falhado a ter em conta um problema enorme e mortal: grande parte das águas subterrâneas continha níveis elevadíssimos de arsénico, um conhecido agente cancerígeno ligado a uma série de outros impactos negativos para a saúde.

Os especialistas em saúde classificaram-no como o "pior envenenamento em massa" de uma população na história - com dezenas de milhões de pessoas afetadas. Embora o governo, a UNICEF e outras agências de ajuda humanitária se tenham esforçado por combater a contaminação, os impactos do envenenamento continuam a ser generalizados. Estima-se que 43.000 pessoas morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com o arsénico no Bangladesh, de acordo com um estudo.

Agora, numa reviravolta cruel, a situação pode estar a piorar. Novas evidências sugerem que os impactos da crise climática causada pelo homem - incluindo as inundações e o aumento do nível do mar - estão a alterar a química da água no subsolo e a aumentar ainda mais os níveis de arsénico.


O problema estende-se muito para além do Bangladesh.
Um número crescente de estudos realizados noutros países, incluindo os Estados Unidos, sugere que o aquecimento global pode estar a superalimentar o problema da água contaminada com arsénico em todo o mundo.

"Afeta todos os órgãos do corpo"
O arsénico é naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas, não só no Bangladesh, mas também em países como a Índia, China, Taiwan, Vietname, Argentina, Chile, México, partes da Europa, Austrália e EUA.

Enquanto as águas superficiais poluídas adoecem rapidamente as pessoas, o arsénico é um assassino furtivo.

É incolor, insípido e inodoro. Não há forma de o detetar sem testes e os seus impactos tendem a surgir ao fim de muitos anos.

A exposição crónica pode revelar-se através da pele endurecida das mãos e dos pés, chamada queratose, do aparecimento de manchas pigmentadas na pele e até da "doença do pé negro", uma doença vascular que pode causar gangrena - tecido morto causado pela falta de fluxo sanguíneo.

Os seus efeitos nocivos continuam no interior do corpo das pessoas, onde aumenta o risco de cancro da pele, do fígado, dos pulmões e da bexiga, bem como de doenças cardíacas e diabetes. O arsénico também tem sido associado à perda da gravidez, a atrasos no desenvolvimento das crianças e a doenças respiratórias.

"Afeta todos os órgãos do corpo", afirma Rubhana Raqib, cientista sénior do Centro Internacional de Investigação sobre Doenças Diarreicas no Bangladesh (ICDDR,B - na sigla original).

Alguns peritos sugeriram que a escala do envenenamento no Bangladesh ultrapassa largamente a de outras catástrofes mais conhecidas causadas pelo homem, como o desastre nuclear de Chernobyl. Mas o número exato de mortos é quase impossível de calcular, em parte devido às dificuldades em desvendar as causas do cancro.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 140 milhões de pessoas em pelo menos 70 países têm bebido água contaminada com arsénico a níveis que excedem o limite recomendado de 10 microgramas por litro.

No Bangladesh, onde as diretrizes do governo estão fixadas numas menos restritivas 50 microgramas, acredita-se que milhões de pessoas terão sido afetadas.

Um enorme estudo de análise de poços realizado pelo British Geological Survey, que teve início em 1998 e abrangeu a maior parte do Bangladesh, revelou que 27% dos poços tubulares menos profundos excediam as diretrizes do país, afetando cerca de 35 milhões de pessoas. Cerca de 57 milhões de pessoas foram expostas a níveis que violavam as indicações de 10 microgramas da OMS, de acordo com o estudo - aproximadamente 45% da população.

Frisbie, que passou algum tempo no Bangladesh a produzir mapas da água potável afetada pelo arsénico, disse que o número era evidente.

"Percorri aldeias onde ninguém tinha mais de 30 anos", disse à CNN.

Mesmo as normas mais rigorosas em matéria de arsénico recomendadas pela OMS e adotadas por países como os EUA não proporcionam proteção suficiente, afirmou. "O arsénico é extremamente tóxico. Só porque está a um determinado nível que o governo diz ser seguro... não significa que seja seguro, não significa que as pessoas não vão morrer."

O aquecimento global pode aumentar os riscos
Os riscos são cada vez maiores à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Os impactos cada vez mais graves das alterações climáticas podem mudar a química das águas subterrâneas, de acordo com um estudo recente de que Frisbie é coautor.

Isto significa mais problemas para o Bangladesh, que está firmemente na linha da frente da crise climática. Baixa e densamente povoada e com uma longa costa, enfrenta uma imensidão de ameaças, desde a subida do nível do mar até às inundações - todos os anos, cerca de 20% do país fica submerso.

As inundações podem impedir que o oxigénio da atmosfera penetre nas águas subterrâneas, de acordo com a investigação, o que, por sua vez, pode aumentar a libertação de arsénico dos sólidos e sedimentos para a água - um processo designado por "redução".

A subida do nível do mar representa outro desafio, provocando a infiltração de água salgada nas fontes de água subterrâneas. Isto não só faz com que a água tenha um sabor mais salgado, como a presença de sal pode também aumentar as concentrações de arsénico, fazendo com que este se dissolva na água através de um fenómeno chamado "efeito salino".

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Juntos somos um Só(nho)


Tenho amigos casados com japonesas, outros com vietnamitas, muitos casados com pessoas dos países da CPLP. Os meus vizinhos são uma família de brasileiros. Tive na minha carreira docente turmas multiculturais. Dei-me bem. Ucranianos, russos, sírios, judeus, afrodescendentes, japoneses, chineses, alemães, belgas, franceses e brasileiros. Era uma festa!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

John Pilger (1939-2023): A denúncia das opressões e das agendas escondidas do poder

Morreu este domingo, aos 84 anos, o escritor, académico, cineasta, ativista dos direitos humanos e um dos maiores jornalistas de investigação de todos os tempos, cujas obras transcendem nações e gerações. Muitos dos seus trabalhos podem ser encontrados no site John Pilger

O trabalho de John Pilger permitiu desvendar histórias ocultas de inúmeros acontecimentos contemporâneos. As suas obras expuseram opressores e seus crimes, e deram visibilidade à coragem daqueles que resistiram à opressão, dos povos aborígenes vítimas de apartheid na Austrália, seu país de origem, às vítimas do colonialismo, guerras, ocupações, pilhagens, injustiças e abusos vários no Vietname, Timor-Leste, Camboja, Afeganistão, Iraque, Chile, Palestina, entre muitos outros países.

O seu documentário 'Death of a Nation: The Timor Conspiracy', datado de 1994, por exemplo, foi feito a partir de uma reportagem clandestina em Timor-Leste e deu um valioso contributo para tornar conhecido o genocídio do povo timorense sob a ocupação da Indonésia, bem como incluiu testemunhos pessoais e imagens de notícias que descrevem o envolvimento de governos estrangeiros neste processo.

Com quase 30 anos de diferença, os dois documentários de John Pilger sobre a Palestina “Palestine Is Still The Issue (Parte 1 e 2)” mostram-nos que, no decorrer de uma geração, a grande injustiça e a violência que assola o povo palestiniano permaneceu inalterada e impune. No seu filme de 1974, descreveu a fuga e a expulsão de quase um milhão de palestinianos, que se tornaram refugiados na sua própria terra – na criação do Estado de Israel em 1948, e depois como resultado da Guerra dos Seis Dias em 1967. “O que mudou”, disse Pilger no seu regresso para filmar o documentário de 2002, “é que os palestinianos reagiram”. “Apátridas e humilhados durante tanto tempo, levantaram-se contra o enorme regime militar de Israel, embora eles próprios não tenham exército, tanques, aviões americanos, navios de guerra ou mísseis... Para [eles], a rotina dominante do terror, dia após dia, tem sido o controlo implacável de quase todos os aspetos das suas vidas, como se vivessem numa prisão aberta”, referiu.

Pilger ganhou um American TV Academy Award, um Emmy, e um British Academy Award, um BAFTA pelos seus documentários, que também ganharam vários prémios nos EUA e na Europa, como o de Melhor Documentário da Royal Television Society, o Reporter Sans Frontières de França e o Prémio Richard Dimbleby, concedido pela Academia Britânica de Artes Cinematográficas e Televisivas. O British Film Institute incluiu o seu filme de 1979, “Ano Zero: a Morte Silenciosa do Camboja”, entre os dez documentários mais importantes do século XX.

Pilger ganhou duas vezes o maior prémio do jornalismo britânico, o de Jornalista do Ano, pelo seu trabalho em todo o mundo, nomeadamente no Camboja e no Vietname. Foi Repórter Internacional do Ano e vencedor do Prémio da Paz e a Medalha de Ouro das Nações Unidas.

Os seus artigos são lidos em todo o mundo. Em 2001, foi curador de uma grande exposição no London Barbican, Reporting the World: John Pilger's Eyewitness Photographers, uma homenagem aos grandes fotógrafos a preto e branco com quem trabalhou. Em 2003, foi galardoado com o prestigiado Prémio Sophie pelos “30 anos de exposição da injustiça e promoção dos direitos humanos”. Em 2009, recebeu o prémio australiano de direitos humanos, o Prémio da Paz de Sydney. Em 2017, a Biblioteca Britânica anunciou um Arquivo John Pilger, com todos os seus trabalhos escritos e filmados. Em outubro de 2023, foi premiado com o Prémio Gary Webb de Liberdade de Imprensa do Consortium News.

Pilger apoiou firmemente a luta de Julian Assange e a exigência da sua libertação, denunciando incansavelmente a tentativa de silenciamento da verdade e o ataque à liberdade de imprensa.

O premiado cineasta e gigante do jornalismo é conhecido pelas suas críticas à política externa ocidental e por expor todos aqueles que, detendo o poder político, económico ou ambos, prefeririam permanecer intocados. John Pilger passou a vida a denunciar e a combater, de forma destemida, o imperialismo e o colonialismo, e a expor os media “por aquilo que são, uma extensão do poder corporativo", e um instrumento de “promoção e limpeza das guerras contemporâneas”. Para Pilger, “'austeridade' é a imposição do capitalismo aos pobres e a dádiva do socialismo aos ricos - a maioria paga as dívidas de poucos”.

Também era um grande defensor dos direitos dos aborígenes. Na sua última coluna para o Guardian, em 2015, condenou como “os aborígenes serão expulsos das terras onde as suas comunidades viveram durante milhares de anos”.

Numa das suas últimas publicações no Twitter, Pilger escreveu que: “O sangue nunca seca na Palestina. As multidões e as bandeiras em Londres e noutras cidades do Reino Unido são hoje um vislumbre da resistência em todo o mundo à barbárie e às mentiras de uma ocupação patrocinada e armada pelos ‘líderes’ do Ocidente – aqueles que exigem o vosso apoio. Não lhes deem esse apoio”.

Podes ler aqui artigos de e sobre John Pilger publicados no Esquerda.net.

sábado, 11 de novembro de 2023

Abstracto psicadélico e o movimento psicadélico


A história da mudança que transformou o mundo
Ideia de mente, espírito ou alma, essa é a definição do significado do termo de composição “psico”, segundo a Enciclopédia Mérito (1964). Mas o termo “psicadélico”, parte da composição das palavras gregas psiké (mente) e deluon (sensorial), referindo-se a uma manifestação da mente que produz efeitos profundos sobre a experiência consciente.

O movimento psicadélico viveu seu apogeu nos anos 60, transformando esta década em algo que parece estar mais no futuro do que no passado. Se deve basicamente à criação do LSD-25, sintetizado por Albert Hoffman em 1943 na Suíça. O ácido dielitamida d-lisérgico foi a vigésima quinta substância extraída numa série de testes com o fungo ergot, sendo absorvida acidentalmente através da pele do cientista. Seus efeitos consistem na provocação de um estado de realidade alterada, e Hoffman descreveu em seu diário os seguintes acontecimentos relatados no Documentário “Tempos de Rebeldia: Contracultura e Psicadelia”, produzido por David Schultz : “Ao voltar para casa de bicicleta, meu campo de visão estava distorcido como uma imagem de espelho côncavo. Um estado de delírio nada agradável que era caracterizado por imagens fantásticas de realidade extraordinária e um caleidoscópio intenso de cores”.  Estes efeitos foram descritos num relatório, fazendo com que o mundo científico se interessasse pela substância.

O movimento psicadélico nos anos 50
Na década de 50, como consta no documentário “Tempos de Rebeldia: Contracultura e Psicadelia”, o LSD e outras drogas psicoativas passaram por diversos testes promovidos pela CIA com o intuito de produzir uma arma química capaz de controlar a mente das pessoas durante a Guerra Fria, achavam que seus efeitos poderiam servir como ferramentas de espionagem. Imaginavam estar criando um “soro da verdade” ou um dispositivo de controle para controlar a população. Foram recrutados voluntários para tomarem a droga e responderem a perguntas sobre as suas experiências alucinogénicas. No entanto, aconteceu o contrário, a droga abria as portas do inconsciente e dava uma sensação de liberdade e fazia com que cada um pensasse por si mesmo, sem se preocupar com as culturas vigentes.

Como relata o documentário, um estudante de 26 anos chamado Ken Kesey iniciou as suas próprias pesquisas de expansão da mente com o LSD. Organizou atividades junto com colegas da faculdade para que expandissem a comunicação, como teatros, uso de fantasias malucas e acessórios bizarros. “Assim jovens começaram a experimentar por eles mesmos e se desligavam da corrente cultural, mas se reprogramavam com o seu próprio sistema de valores”. (Schultz).

Disposto a divulgar seu novo livro, Ken Kesey e a sua turma, programaram uma viagem rumo a Nova Iorque numa camioneta colorida, denominado “Further”, numa busca psicadélica, espalhando alegria e o sentido de uma rebelião saudável contra uma sociedade restritiva. Desta forma, em 1966, como relata o documentário, deram início ao “teste de ácido” com o apelidado “refresco elétrico”. Numa dessas noites o governo tornou o uso do LSD ilegal.  “O LSD era uma ferramenta revolucionária de libertação da mente e esperava que fosse mudar o mundo”. (Schultz).

Os anos 60 e a liberdade
No começo da década de 60, o LSD-25 foi empregado experimentalmente em sessões de psicoterapia, principalmente nos Estados Unidos, onde seu uso era legal. Das clínicas e das universidades, a droga espalhou-se para o mundo, transformando-se, junto com a beatlemania e a revolução sexual, em símbolos de uma época que, para muitos, representava o início da Era de Aquário. 

O psicólogo Timothy Leary, dá início à pesquisa com o uso de drogas que alteram a consciência para fazer uso na psicoterapia. Segundo o documentário de Schultz, Leary descreve no seu livro “A Experiência Psicadélica – Um Manual Baseado no Livro Tibetano dos Mortos”, que as drogas alucinógenas alteram o nível de consciência e são capazes de mudar e ampliar a perspectiva da vida de uma pessoa. Mostra os aspectos positivos do uso dessas substâncias, questiona as autoridades. Além de incentivar as pessoas a usarem suas cabeças, saírem dos meios estáticos, sair dos jogos sociais destrutivos. Pensarem por si mesmas, não aceitar algo só porque uma autoridade diz, e através do uso dessas substâncias haverá a descoberta de que muitas dessas chamadas autoridades são bobagens. A mensagem de Leary era sobre a descoberta espiritual transformadora. A antiga crença na visão mística sagrada. Desta forma, em 1966, o LSD se tornou ilegal porque a última coisa que os Estados Unidos e qualquer governo desejaria era que os seus cidadãos expandissem as suas consciências, e desta forma qualquer pesquisa científica com drogas foi proibida.

Em 14 de janeiro de 1967, na praça de São Francisco aconteceu o Grande Encontro, na tentativa de formar uma comunidade com hippies da geração do amor, Beats e ativistas políticos, que agiam contrariamente ao governo com ações diferentes, porém todos a favor da paz e ao fim da guerra, a favor da liberdade de expressão e da liberdade do indivíduo. Queriam sair da cultura reinante e trilhar algo novo.

O documentário ainda descreve os rótulos criados pela sociedade dados aos hippies, dizia que eles eram simplesmente sujeitos estranhos que utilizam “óculos de vovó”, cabelos longos e que não tomavam banho. Mas nada do que eles vestiam transmitia o que estava acontecendo dentro deles, eles estavam rompendo com qualquer coisa que tentava contê-los. E com isso tornaram-se um fenómeno de media, uma atração turística. Enquanto os Estados Unidos matavam crianças do outro lado do mundo no Vietname, jovens dessa geração se reuniam no evento histórico denominado “Woodstock”.

Para eles este não era simplesmente um evento de sexo, drogas e rock’n’roll, mas era sobre o Vietname, direitos civis, reclamação contra a interferência americana no resto do mundo. Foi um momento histórico, um momento em que as pessoas acordaram e foram gentis e amistosas umas com as outras. Este Festival de música e arte de três dias, ocorrido em 1969, simbolizou as melhores esperanças de uma geração para a humanidade. E significou que momentos como este poderiam acontecer de novo noutro lugar e noutro tempo. Este movimento de contracultura dos anos 60 terminou chamando a atenção sobre a violência e sobre a morte, foi uma afirmação da vida. A rebelião psicadélica trouxe uma nova percepção até para os que não tomaram as drogas. Houve uma mudança social impulsionada pela mudança de consciência, sentido de unidade e gentileza que pode ser recapturado

sexta-feira, 3 de março de 2023

Vanuatu reúne mais de 100 países em defesa da Justiça Climática na ONU


A pequena nação insular de Vanuatu, no Pacífico, angariou o apoio de mais de 100 países em torno de um projeto de resolução da Assembleia Geral da ONU que pretende solicitar à Tribuna Internacional de Justiça (TIJ) um parecer sobre as obrigações legais dos governos em relação à crise climática. O apoio de peso mais recente foi da Austrália, que aderiu ao pedido nesta semana.

A proposta foi apresentada em dezembro passado por Vanuatu, com o apoio de países como Alemanha, Angola, Bangladesh, Moçambique, Nova Zelândia, Portugal e Vietname, além de outras pequenas nações insulares. De lá para cá, outros países aderiram à proposta, entre eles Bélgica, Canadá, Chile, França, México, Holanda e Reino Unido.

Pela proposição, a TIJ seria requisitada pela Assembleia Geral da ONU a definir uma interpretação acerca das responsabilidades legais dos países em torno da mudança do clima, principalmente no que diz respeito à responsabilidade de agir sobre as causas e consequências do problema.

Ou seja, até que ponto os países responsáveis pela ocorrência do problema (leia-se economias desenvolvidas) são responsáveis do ponto de vista legal pelos esforços de mitigação e compensação por perdas e danos sofridos por outras nações vulneráveis.

A expectativa de Vanuatu e de outras nações insulares vulneráveis à mudança do clima é de que a opinião da TIJ possa dar mais suporte legal e político a esses países nas negociações internacionais da ONU.

Um dos tópicos que certamente seria afetado pela interpretação da Corte seria a discussão em torno do fundo para perdas e danos, definido na COP27, depois de um duro embate diplomático entre países ricos e pobres.

ABC Australia, AFP, Climate Home e Guardian repercutiram a notícia.

Em tempo: Por falar no fundo para perdas e danos, o secretariado da UNFCCC marcou para 27 de março a primeira reunião do comitê de transição encarregado de definir a estrutura, o modelo e as regras desse mecanismo. Os países desenvolvidos demoraram mais de dois meses além do prazo de 15 de dezembro para indicar seus representantes. No entanto, como o Climate Home destacou, ainda falta a indicação dos nomes da região da Ásia-Pacífico, curiosamente, uma das áreas mais vulneráveis e recipiente potencial dos recursos do fundo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

‘Waste colonialism’: world grapples with west’s unwanted plastic

Germany and UK are big exporters of plastic, much of which lies rotting in ports in Turkey, Vietnam and other countries.



One hundred and 41 containers filled with rotting plastic waste have been on a journey for more than a year. Scattered between Turkey, Greece and Vietnam, far from their origins in Germany, the containers’ voyage sheds light on the hidden global trade in plastic waste.

Arriving in Turkey in late 2020, shortly before a ban on mixed plastic waste imports came into force, the containers quickly became the centre of a battle between traders, a shipping line, multiple governments and environmental campaigners demanding their return.

Turkish authorities refused entry to the containers, leaving them in limbo. As they languished in ports across the country, the contents began to rot. “After a couple of months, all the dirty waste inside was disrupted, and some had fermented due to the presence of micro-organisms. It smelled really bad and it was covered in rats and mice,” said Sedat Gündoğdu, a plastics pollution researcher based in the southern city of Adana.

The year-long saga of the 141 containers is a small slice of the international trade in plastic waste, the ugly underbelly of recycling in the global north. Plastic waste, especially mixed plastic from households, is frequently sent overseas to countries with lax environmental regulations, where it is melted into plastic pellets, dumped, or simply burned.

Mixed plastics are the dirtiest and least desirable waste in the trade, as they typically contain household rubbish such as bottles or packaging, meaning a jumble of recyclable plastics with non-recyclable items. As many countries move to ban mixed plastic imports, observers say some traders have taken to hiding bales of banned mixed plastics behind others that pass regulation to sneak them past inspectors.

The containers remained stuck after a company involved in their initial journey lost its import licence and disappeared. “The consignee delayed us saying there were some things to sort out with customs. But then we found out their import licence was cancelled, and they were blacklisted by Turkey. Lab tests showed some loads in the containers are hazardous city waste,” said Omer Bulduk of Monax, a Turkish freight company assigned to receive the containers. “It’s simply garbage,” he added.

Some of the countries listed among the world’s top recyclers are also the biggest plastic waste exporters: Germany was named the world’s top recycler by the World Economic Forum three years ago, but exports an average of 1m tonnes of plastic waste annually, more than any other nation in the EU. The UK is little better, exporting 61% of its plastic waste according to recent data from the British Plastics Foundation.

“When you continue to consume more plastic there are only two ways to tackle the waste. One is incineration, the second is dumping. If you don’t have dumping in your country then you should incinerate. But this has a carbon footprint, and many countries trying to cut carbon emissions don’t want to incinerate their own waste,” said Gündoğdu.

“Some of the top waste producers in Europe, like the UK, France and Germany have to find ways to deal with this issue. And the way they’ve found is exporting to poorer countries without effective waste management systems or environmental legislation and regulations. This is waste colonialism,” he said.



In May, the Turkish foreign ministry contacted their counterparts in Germany to demand the containers’ return. According to Bulduk, the German side “claimed that too much time had passed and they cannot accept them”. Angela Griesbach, a spokesperson for the waste management authority in the state of Baden-Württemberg, now in charge of overseeing the containers, said this was “probably a misunderstanding”, adding that the containers contained waste that was legal when it arrived in Turkey.

When some of the containers of German waste were suddenly re-exported to Vietnam, campaigners sprung into action. Activists believe that the 16 containers sent last July to the port of Hai Phong were a test, to see if others could later follow the same route in order to dispose of the rotting containers entirely. But who authorised their onward travel remains a mystery, especially as sending waste directly from an EU country to those outside the OECD is banned, and new controls on mixed plastic exports introduced last January require express consent from the Vietnamese authorities to import the containers.

Vietnam’s own ban on plastic waste imports is due to go into force in 2025, but it remains a popular destination for the global plastic recycling trade. There, workers are paid less than £5 a day to sort plastic into recyclable elements and non-recyclable. The former are melted down, exposing those nearby to toxic fumes.

Jim Puckett of the Basel Action Network, a group that campaigns against plastic-related pollution, tracked 37 of the German containers heading towards Piraeus port near Athens in November, and grew suspicious they were also headed to Vietnam.

“I dropped what I was doing and sent a strong message to the Greek authorities, saying that they couldn’t allow that waste to get on a ship and go to Vietnam. It’s illegal and it should be returned to Germany,” he said. The Greek authorities took note, and cordoned off the containers on the dock in Piraeus, where they remain.

“There’s also almost a hundred containers sitting in Turkey, and we’re very worried they will be bound for countries like Vietnam,” he added. In an open letter to Germany’s newly inaugurated environment ministry, a coalition of green groups including BAN demanded they “take moral and political leadership” and reclaim the 141 containers.

When contacted by the Guardian, the environment ministry referred questions to Griesbach. “The campaigners are right in saying that there are many legal questions and legal grey areas,” she said. She stressed that “a voluntary return shipment by a German company involved is intended but has not yet been possible,” and said the German authorities were unaware that some containers had been re-exported to Vietnam.

If certain conditions were met, she added, the containers in Turkey could be returned. “If the problem is not an internal Turkish enforcement problem, the German authorities, as well as the German company voluntarily, are willing to take back this waste in accordance with the law. However, this requires the corresponding cooperation and information from the Turkish side.” The Turkish environment ministry did not respond when contacted for comment on the issue.

Vietnam and Turkey are two of a growing number of countries that have reported a sudden spike in plastic waste, after China’s decision to ban waste imports in 2018 proved to be a watershed for the global trade. The decision “reverberated around the world”, according to the United Nations, which added that nations in the global north “will, at last, have to face up to the true cost of their plastic addiction instead of shipping the problem to China, which has taken nearly half the world’s waste since 1992”.

“We’ve been sold a notion of ‘don’t worry, we’ll recycle it’ – and no one looked at what recycling was like in China until three years ago,” said Puckett. “We’re putting out more plastic waste into the world, every day more than the day before, and there’s no destination for it. It’s now become a game of who will take it because there are mountains of plastic waste and it’s not stopped.”

The result is a frantic hunt for new destinations for an estimated 111m metric tonnes of plastic waste displaced by the ban between now and 2030. While China has banned imports, it continues to profit from the global trade in plastics through its domination of the shipping trade. Cosco shipping, the company that transported all 141 containers, is a Chinese state-owned company. Cosco did not respond when contacted for comment on the issue.

Matthew Gordon, an environmental researcher at Yale University who is part of a team compiling an “atlas of plastic waste” to show new plastic dumping sites across the world, said he was surprised by the number of countries represented in their initial findings, including Bosnia, Thailand, Romania, Malaysia and Turkey.

“South-east Asia clearly seems to be a hotspot, especially in the aftermath of the China import ban,” he said. “One of the reasons for this seems to be that when container ships travel from places like China to the US carrying manufactured goods, they offer extremely low freight on the return trip – otherwise they would be going back empty. So exporters in the US often find it cheaper to send plastics abroad than to deal with them at home.”



Turkey has increasingly found itself on the frontline of the struggle between local plastic importers’ desire to stay in the global recycling trade and rising environmental concerns. After an investigation by Greenpeace found plastic products from British and German supermarket chains intended for recycling dumped by the roadside, Turkey briefly banned all plastic imports last May before rescinding the law soon afterwards. Gündoğdu said new dumping grounds for plastic waste were springing up again after a brief lull.

In Adana, a hub for plastic waste imports, a coalition of local plastics traders wrote their own open letter to the Turkish president, Recep Tayyip Erdoğan, imploring him to allow the industry to continue. The letter was part of a campaign to rebrand plastic waste imports, under the slogan “It’s not waste, it’s raw material.”

The plastic waste industry, they said, employs 300,000 Turkish people. Traders described themselves as “the ones cleaning the environment, not polluting it”.

Many Turkish citizens disagree. When asked how they felt about the 800,000 tonnes of plastic waste that Turkey imported last year from the EU, a majority said “very bad”, while others cited a slogan that is rapidly becoming a rallying cry against plastic imports in their country: “Turkey is not a garbage bin.”

terça-feira, 13 de abril de 2021

John Lennon e Yoko Ono - Cama Pela Paz


John Lennon e Yoko Ono, dos Beatles, passaram sete dias da lua-de-mel na cama do Hotel Hilton de Amesterdão, a dar entrevistas à imprensa. O quarto estava decorado com desenhos sobre a paz. Do lado de fora do hotel, as pessoas aglomeravam-se em redor do Rolls-Royce de Lennon e Ono.

Durante sete dias, os recém-casados Yoko Ono e John Lennon passaram a lua de mel na cama da suíte presidencial do Hotel Hilton em Amsterdã, na Holanda. O peculiar foi que, todos os dias, recebiam jornalistas e fotógrafos do mundo inteiro para divulgarem seu bed-in for peace, uma campanha pela paz, contra a Guerra do Vietname.

A forma de protesto contra a violência chegou a ser repetida em outras cidades. Esse foi mais um passo de Lennon em busca de independência em relação aos Beatles, banda da qual fizera parte. O processo de dissolução do grupo havia começado em 1966, quando cada um dos músicos começou a desenvolver projectos individuais e Lennon conheceu a vanguardista japonesa Yoko Ono em Londres.

A tentativa de Ono de participar das gravações da banda nos estúdios Twickenham, em 1969, foi rejeitada pelos parceiros George Harrison, Ringo Starr e principalmente por Paul McCartney. Lennon distanciou-se mais ainda do grupo e casou-se em 20 de março em Gibraltar, onde o casal teve a ideia de chamar a atenção para uma campanha pela paz.

"Todos falam de paz, mas ninguém faz nada por ela. A gente pode deixar crescer os cabelos ou renunciar a uma semana de férias pela paz. O importante é que ela só pode ser atingida com métodos pacíficos. Combater um sistema com as armas é errado. Eles são milhares e ganhariam sempre. Se quiserem te apagar, te matam. Mas, contra o humor pacífico, eles não têm estratégia", foi a mensagem de Lennon.

Barrados nos EUA
De volta a Londres, o casal resolveu repetir o bed-in nos Estados Unidos. Eles pretendiam viajar a Nova York no famoso transatlântico de luxo Queen Elizabeth 2º, ao lado de Ringo Starr, Peter Sellers e outros atores do filme Magic Christian. As malas já estavam a bordo quando receberam a notícia de que os Estados Unidos se negavam a conceder o visto de entrada. Alegaram que Lennon era "indesejado" por causa de um delito envolvendo drogas.

Resolveram então ir para Montreal, no Canadá, onde promoveram sua campanha pela paz durante dez dias num quarto do Hotel Rainha Elizabeth. Na ocasião – era junho de 1969 – gravaram a música Give Peace a Chance (Dê uma Chance à Paz).

Essa campanha de Lennon durou quase dez meses, entre março e dezembro de 1969. Apoiado por Yoko Ono, ele encontrou várias maneiras para chamar a atenção nesse período.

Uma delas foi devolver a medalha de honra Membro da Ordem do Império Britânico ao Palácio de Buckingham, em protesto à ingerência inglesa na Guerra de Biafra e ao apoio aos Estados Unidos na Guerra do Vietname.