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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Super-ricos lucram com dor: investimentos agravam crise climática e aproveitam recuperação



Um novo relatório da ONU deixa claro que não podemos depender das atuais promessas climáticas nacionais para manter o aumento da temperatura global dentro de limites seguros.

Os planos mais recentes reduziriam as emissões globais de gases com efeito de estufa em apenas 6 por cento até 2035, face aos níveis de 2019.

Isto representa uma descida face à projeção do ano passado, que apontava para um corte de 10 por cento, sobretudo devido à retirada dos EUA do Acordo de Paris. Continua, porém, muito aquém dos 60 por cento que os cientistas dizem ser necessários para limitar o aquecimento a 1,5 °C, o limiar para evitar impactos climáticos catastróficos e irreversíveis.

Ao combinar as promessas de 154 países, o relatório abrange 71 por cento das emissões globais. Mesmo que todos os países aplicassem integralmente os seus planos obrigatórios ao abrigo do Acordo de Paris e cumprissem também as metas condicionais, os cortes nas emissões chegariam ainda assim apenas aos 9 por cento.

Para manter o aquecimento dentro do limite alternativo de 2 °C acima dos níveis pré-industriais previsto pelo Acordo de Paris, as emissões teriam de cair 37 por cento até 2035.

Mesmo que os esforços para reduzir emissões tenham êxito, a ONU alertou no início deste mês que o mundo está a caminho de uma ultrapassagem temporária, ou potencialmente prolongada, do limite de 1,5 °C. A notícia levou à emissão de um alerta da UE de que os países devem preparar-se para um aumento potencial de 3 °C na temperatura até 2100.

Investidores privados podem fazer a diferença no aquecimento global?
Num segundo relatório, igualmente publicado em 27 de outubro, a ONU conclui que o financiamento climático global está a aumentar, mas continua muito aquém do necessário.

O financiamento climático global atingiu em média 1,9 biliões de dólares (1,7 biliões de euros) por ano em 2023-24, mais 32 por cento do que em 2021-22. O aumento foi impulsionado sobretudo pelo investimento privado em tecnologias de baixas emissões, incluindo energias renováveis, bem como pelas despesas das famílias com veículos elétricos, energia solar e bombas de calor.

Perante o fracasso dos esforços dos governos, poderá o investimento privado colmatar esta lacuna?
Um relatório separado da organização de solidariedade Oxfam, publicado antes das negociações climáticas da COP31 na Turquia, defende que, para os investidores mais ricos, os incentivos os orientam muitas vezes na direção errada.

Os ultra-ricos não só alimentam a crise climática através de atividades poluentes, como também “tiram partido do sofrimento” – por vezes obtendo um “duplo dividendo”: primeiro das indústrias que impulsionam o colapso climático, depois das empresas envolvidas na preparação e recuperação de desastres, afirma a Oxfam.

Como lucram os ultra-ricos com a crise climática?
O novo ‘Destroy and Rebuild Index’ da Oxfam, incluído no relatório ‘Disaster Divide: How climate chaos deepens inequality and enriches the few’, analisou 217 empresas, algumas em setores que alimentam a degradação do clima e outras em setores que se dedicam à preparação para desastres climáticos ou à reconstrução após esses acontecimentos.

Segundo a organização, as empresas incluídas no índice não só registaram em 2025 um lucro médio de 1,8 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros), como distribuíram em média mais de mil milhões de dólares aos acionistas. Prevê-se que o mercado global de recuperação após desastres cresça dos 70 mil milhões de dólares (63 mil milhões de euros) para 92 mil milhões de dólares (84 mil milhões de euros) por ano até 2029.

A Oxfam afirma que os investimentos dos mil bilionários mais ricos do mundo estiveram ligados a 486 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2025. Se fossem um país, ocupariam o 19.º lugar entre os maiores poluidores do mundo. Cerca de 71 por cento desses investimentos estão em setores altamente poluentes, como petróleo, gás e químicos.

Emissões dos ultra-ricos ligadas a milhões de mortes
A Oxfam diz que os mais ricos também contribuem de forma desproporcionada para as emissões que alimentam a crise. Os 0,1 por cento mais ricos – cerca de oito milhões de pessoas – emitem mais do que os 44 por cento mais pobres da humanidade juntos, o que corresponde a cerca de 3,5 mil milhões de pessoas.

A Oxfam estima que as emissões do 1 por cento mais rico tenham sido responsáveis por cerca de 20 por cento do aquecimento global desde 1990. Um único ano das suas emissões causará, segundo as estimativas, 1,9 milhões de mortes adicionais relacionadas com o calor ao longo do século seguinte, de acordo com o relatório.

Ao chamar aos desastres climáticos “máquinas de desigualdade”, a Oxfam aponta para investigação publicada na revista Nature que mostra que as mortes provocadas por cheias são sete vezes superiores nos países mais desiguais.

Ao mesmo tempo, os mais ricos estão em melhor posição para se protegerem, desde a compra de casas mais seguras à contratação de bombeiros privados. As famílias abastadas conseguem absorver aumentos do preço dos alimentos e segurar os seus bens. As pessoas mais pobres tendem a viver em zonas mais expostas e em habitações de menor qualidade, com menos poupanças a que possam recorrer.

A Oxfam está a pedir aos governos que limitem as emissões dos ultra-ricos, incluindo as associadas aos seus investimentos, que os países ricos disponibilizem muito mais financiamento em forma de subsídio para adaptação e que ponham fim ao lucro obtido à custa dos desastres climáticos.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fascismo do Fim dos Tempos: Como Elites Tecnológicas e Religiosas se Preparam para o Apocalipse Global


Em setembro de 2026, a publicação do livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World, escrito pela jornalista e ativista Naomi Klein e pela realizadora e escritora Astra Taylor, trouxe para o centro do debate uma tese alarmante sobre a ascensão da extrema-direita global. Numa entrevista concedida ao programa Democracy Now!, Klein e Taylor explicam que o fenómeno atual não é uma simples repetição do fascismo do século XX, mas uma evolução adaptada à era de colapso climático, avanço desenfreado da inteligência artificial e intensificação de conflitos geopolíticos.

Na perspetiva das autoras, o fascismo sempre funcionou como uma espécie de "capitalismo com dentes de fora" - uma reação violenta das elites para proteger as suas posições de poder quando o sistema económico entra em crise estrutural. Contudo, na sua nova roupagem, este fascismo do fim dos tempos funde três fações aparentemente distintas: fundamentalistas religiosos com visões messiânicas, etnonacionalistas obcecados pelo fecho de fronteiras e uma elite tecnológica de Silicon Valley que desistiu completamente da ideia de um futuro partilhado.

Um dos focos principais dessa análise é a ascensão da chamada "Máfia do PayPal" no poder político dos EUA. Nomes como Peter Thiel (cofundador da Palantir) e David Sacks (nomeado para a administração norte-americana para supervisionar a política de IA e criptomoedas) influenciaram diretamente figuras políticas como JD Vance. As autoras argumentam que essa aliança acelerou o desmantelamento de salvaguardas regulatórias, enquanto os executivos do setor utilizam a rivalidade com a China como pretexto para uma expansão desregulada da inteligência artificial, ignorando os riscos existenciais que a própria tecnologia acarreta.

Ao mesmo tempo que promovem sistemas que aceleram a rutura social e ambiental, estas elites preparam o seu próprio escapismo através da construção de bunkers subterrâneos, estações espaciais e a ilusão do que Klein denomina de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture). O livro exemplifica esta lógica com propostas de requalificação imobiliária apresentadas no Fórum Económico Mundial em Davos, onde projetos como o "New Gaza" procuram transformar cenários de destruição massiva em empreendimentos imobiliários de luxo.

Os três pilares identificados por Naomi Klein e Astra Taylor constituem uma aliança frágil, mas extremamente perigosa, formada por grupos que divergem em crenças, mas convergem na aceitação da rutura do mundo para garantir o controlo ou a sobrevivência exclusiva durante o colapso.

O primeiro grupo é composto pelos Religiosos do Fim dos Tempos (Religious Endtimers), maioritariamente fundamentalistas associados a correntes do sionismo cristão e setores messiânicos. Para este pilar, os conflitos no Médio Oriente, a degradação ambiental e as crises sociais não são problemas a resolver, mas sim sinais proféticos incontornáveis do Armagedão ou da segunda vinda de Cristo. A sua função nesta aliança é conferir uma justificativa teológica e moral à destruição, encarando o caos e a violência apocalíptica como etapas necessárias de um plano divino.

Paralelamente surgem os Aceleracionistas Tecnológicos (Tech Endtimers), constituídos por bilionários, investidores e executivos de Silicon Valley ligados ao ecossistema da inteligência artificial. Embora reconheçam abertamente que a tecnologia desregulada pode causar desemprego em massa, rutura social ou até a extinção humana, adotam uma postura fatalista e aceleradora. Este grupo promove o que as autoras chamam de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture), acreditando que o capital e a inovação lhes permitirão escapar às consequências da crise através de bunkers de luxo, colonização espacial ou fusão com a IA, lucrando com o colapso enquanto constroem saídas de emergência privadas.

Por fim, o pilar dos Etnonacionalistas (Ethonationalists) reúne movimentos e partidos da extrema-direita global focados na identidade nacional, racial ou cultural. A sua visão de mundo encara o futuro como um jogo de soma zero, onde recursos essenciais como água, terra e alimentos serão drasticamente escassos. O seu papel na aliança consiste em implementar o fecho absoluto de fronteiras, a militarização do Estado e a desumanização do "outro", canalizando o medo e a insegurança das populações contra alvos específicos, como imigrantes, minorias e refugiados climáticos.

Apesar das contradições evidentes entre o fervor religioso, o materialismo tecnológico e o nacionalismo estatal, estes três grupos encontram-se no mesmo ponto cego: todos desistiram da ideia de um futuro partilhado para toda a humanidade. Em vez de tentarem travar a crise global, unem forças para construir o que Klein e Taylor classificam como "arcas" exclusivas para as elites, abandonando o resto da população à mercê do colapso.

Para combater esta espiral autodestrutiva, Taylor e Klein propõem o conceito de "triplo desarmamento": desarmar arsenais nucleares e militares, estabelecer guardas-de-corpo rigorosas para tecnologias de alto risco como a IA e desmantelar a extrema concentração de riqueza, tratando a desigualdade desmedida como uma verdadeira arma de destruição maciça. A solução não passa por fugir do planeta, mas por um compromisso renovado com a sobrevivência e a solidariedade no mundo real.

A peça central desta contraofensiva reside no que as autoras definem como um "triplo desarmamento". Esta estratégia procura desmantelar as maiores ameaças existenciais do nosso tempo através de três frentes coordenadas: o desarmamento militar e nuclear, travando a corrida aos armamentos e a perigosa integração da Inteligência Artificial em sistemas de defesa; o desarmamento tecnológico, impondo regulamentação pública severa e guardas-de-corpo à IA antes que a sua expansão desenfreada cause danos irreversíveis; e o desarmamento da própria riqueza concentrada. Nesta última vertente, o acúmulo extremo de capital por parte dos bilionários é tratado como uma verdadeira arma de destruição maciça, exigindo políticas fiscais agressivas que redistribuam recursos e travem a privatização de infraestruturas essenciais.

Freneticamente oposta às fantasias corporativas de fuga para Marte, bunkers subterrâneos de luxo ou simulações virtuais na nuvem, surge a proposta de uma ética do "aqui" (here-ness). Esta postura filosófica e política recusa categoricamente o fatalismo de que o apocalipse é inevitável. Em vez disso, apela ao investimento direto na proteção das comunidades, dos territórios e dos ecossistemas reais, promovendo uma solidariedade horizontal entre as pessoas - em direto contraste com a solidariedade vertical oferecida pelos autoritários, que une o cidadão comum às elites através do medo e do ódio ao "outro".

Na prática, esta resistência já ganha forma em várias frentes de ação direta pelo mundo. Destaca-se a crescente vaga de protestos comunitários contra a construção descontrolada de data centers destinados à IA, devido ao seu consumo devastador de água e energia; a organização sindical de trabalhadores que lutam para impedir que a automação sirva unicamente para desmantelar direitos laborais; e a defesa ativa de migrantes e refugiados contra a militarização das fronteiras. Para guiar esta ação, as autoras sugerem o "Teste Steven Miller": uma métrica simples que estabelece que, se uma tecnologia ou concentração de poder for perigosa ao ponto de se tornar devastadora nas mãos do pior governante autoritário imaginável, essa ferramenta simplesmente não deve ter permissão para existir.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Taxar os Bilionários: justiça fiscal ou utopia económica?


A discussão sobre a tributação das grandes fortunas e dos bilionários deixou de ser apenas um debate ideológico e transformou-se numa das discussões económicas mais complexas e urgentes da atualidade global. À medida que propostas como um imposto mínimo global sobre os super-ricos avançam em fóruns como o G20, o mundo divide-se entre a necessidade de combater a desigualdade extrema e os desafios práticos de aplicar uma medida desta escala. O grande problema do modelo fiscal atual é que ele foi desenhado para taxar o rendimento do trabalho e o consumo, mas a riqueza dos bilionários cresce através da valorização de ativos, como ações e empresas, que muitas vezes escapam ao radar dos impostos tradicionais até serem vendidos.

Na linha de frente dos defensores desta medida estão economistas de renome como Gabriel Zucman e Thomas Piketty, conhecidos pelos seus estudos profundos sobre a desigualdade. Zucman, que desenhou a proposta levada ao G20, argumenta que os bilionários pagam taxas efetivas de imposto absurdamente baixas em comparação com a classe média, e que uma coordenação internacional geraria fundos cruciais para a saúde pública e o combate às alterações climáticas. A este coro junta-se o Prémio Nobel Joseph Stiglitz, que alerta que a concentração extrema de riqueza sufoca a economia e fragiliza a democracia, já que os mercados por si só não distribuem os recursos de forma justa.

Por outro lado, o ceticismo é alimentado por economistas de peso que apontam falhas estruturais graves nesta abordagem. Lawrence Summers, ex-Secretário do Tesouro dos EUA, é uma das vozes mais críticas, argumentando que as estimativas de arrecadação destes impostos são ilusórias e que a sofisticação financeira dos mais ricos criará sempre novas formas de evasão. Na mesma linha, Gregory Mankiw, professor de Harvard, alerta que penalizar o capital reduz os investimentos produtivos e a inovação, o que acaba por prejudicar os próprios trabalhadores a longo prazo através de salários mais baixos. Somando-se a estas críticas, analistas como Chris Edwards e Daniel Mitchell relembram o fracasso histórico destas tentativas na Europa nos anos 90, onde a fuga de capitais para paraísos fiscais e a dificuldade em avaliar ativos não líquidos forçaram a maioria dos países a revogar o imposto. O debate sobre taxar os bilionários não é sobre "punição", é sobre viabilidade. Sem uma nova forma de arrecadar receita dos que mais beneficiaram com a globalização, os governos não terão capacidade financeira para garantir uma Transição Justa. A riqueza extrema dos bilionários passa a ser vista não apenas como um indicador de desigualdade, mas como a matéria-prima financeira para construir o futuro sustentável.

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sábado, 4 de julho de 2026

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.


Also recall the episode of a tweet by George Bush's brother in 2016. The tweet was published by Jeb Bush on February 16, 2016, during his campaign for the Republican Party presidential primaries. The post is extremely minimalist and consists of just one image: a photograph of a .45 caliber semiautomatic pistol (an FNX-45) with the inscription "Gov. Jeb Bush" engraved on the barrel. The caption simply read "America." The tweet immediately went viral and generated a massive wave of criticism, memes, and parodies on a global scale. Users from all over the world began responding with photos of typical objects from their own countries using the same monotonic caption. In 2020, Anja Thaler made a homonymous music video "America is a Gun", based on this story.

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Entrevista. Gabriel Zucman: “Aumentar impostos sobre o rendimento não é uma forma eficaz de tributar os super-ricos: esse tipo de imposto é demasiado fácil de manipular”


Gabriel Zucman é hoje um dos economistas mais influentes do mundo. Considerado um dos principais especialistas em fiscalidade internacional, afirma, nesta entrevista concedida à Comunidade Cultura e Arte, que “a batalha mais importante do século XXI será entre as forças democráticas e a oligarquia”.

“O problema não é que os multimilionários não paguem nada. O problema é que pagam uma parcela muito menor daquilo que realmente têm, comparativamente ao que os trabalhadores comuns pagam sobre os seus salários. É essa a anomalia que precisamos de corrigir.”, sublinha ainda o professor na Paris School of Economics e na Universidade da Califórnia, Berkeley, que publica com regularidade nas cinco revistas científicas de Economia mais reputadas do mundo. O economista francês, que em 2023 foi distinguido com a John Bates Clark Medal, vista por muitos como uma antecâmara para o Prémio Nobel da Economia, refere também que “um imposto mínimo de 2% sobre a riqueza extrema não é uma proposta radical. O que é radical é um sistema que permite que algumas das pessoas mais ricas do mundo paguem proporcionalmente menos impostos do que os cidadãos comuns.”

Foi aluno e colaborador do economista Thomas Piketty, porém, é fora da academia que se tem destacado no debate público. Em “A Riqueza Escondida das Nações” (ed. Temas e Debates, 2014), expôs a dimensão da riqueza dissimulada em paraísos fiscais. Em 2024, assinou um relatório para o G20, durante a Presidência Brasileira, no qual defendia a coordenação da taxação dos multimilionários coordenada entre as maiores economias mundiais.



É sobre esta taxação que o seu novo livro se debruça, “Os Multimilionários não Pagam Imposto Sobre o Rendimento e Está na Hora de Acabar com Isso” (ed. Penguin, 2026) e é sobre ela que conversámos, por escrito, na entrevista que se segue.

No seu relatório para o G20 em 2024, conclui que os mais ricos pagam uma taxa de imposto efetiva de cerca de 0,3% da sua riqueza total, mais baixa do que a de um enfermeiro ou a de um professor. No entanto, em termos absolutos, o 1% do topo paga muito mais impostos, e é esse o valor que usa para argumentar que paga mais do que a sua parte. Como explicaria esta baixa taxa efetiva a alguém que nunca leu um artigo científico de economia, sobretudo quando também lhe dizem que os que mais ganham pagam em termos percentuais a maior parte do imposto sobre o rendimento?
Pode-se pagar mais imposto do que toda a gente em termos absolutos e, ainda assim, ter uma taxa de imposto muito baixa em proporção de todo o rendimento económico.
Tomemos um exemplo fictício. Se eu ganhar 2.000€ e pagar 1.000€ (50%) ao fisco, e a Maria Fernanda Amorim, a pessoa mais rica de Portugal, ganhar 200.000€ e pagar 50.000€ (25%) ao fisco, essa pessoa pagará mais imposto em termos absolutos, mas pagará menos imposto em proporção da sua capacidade contributiva. É exatamente isto que se passa com os nossos sistemas fiscais. Com todos os impostos incluídos, os multimilionários têm taxas de imposto efetivas mais baixas do que um enfermeiro ou um professor, porque estruturam a sua riqueza de forma a declarar muito pouco rendimento tributável.
Para a maioria das pessoas, o sistema fiscal é muito direto. Um enfermeiro, um professor ou um jovem profissional recebe um salário, e os impostos são-lhe retirados todos os meses. Não há grande margem para esconder ou adiar seja o que for. O seu rendimento é visível.
No topo, funciona de forma diferente. Um multimilionário pode deter ações, empresas e ativos financeiros que valorizam enormemente, mas ainda assim declarar muito pouco rendimento tributável. Portanto, no papel, pode não parecer alguém com rendimentos elevados, mesmo quando a sua fortuna cresce em milhões ou milhares de milhões.
Por isso, o problema não é que os multimilionários não paguem nada. O problema é que pagam uma parcela muito menor daquilo que realmente têm, comparativamente ao que os trabalhadores comuns pagam sobre os seus salários. É essa a anomalia que precisamos de corrigir.
“Se um multimilionário sair de Portugal, o imposto mínimo português poderia continuar a aplicar-se durante 5 ou 10 anos. Se beneficiou das instituições, mercados, infraestruturas e proteções jurídicas de Portugal, esse vínculo fiscal não deveria desaparecer de um dia para o outro.”

Em Portugal, o escalão de rendimento mais alto situa-se nos 86.634€, com uma taxa marginal de imposto de 48%, cerca de 7.200€ por mês antes de impostos. Concorda com essa taxa? E como conquistaria as pessoas que mais ganham com a sua proposta? Há também um segundo grupo: pessoas que saem da universidade a ganhar 2.000€ por mês antes de impostos, pagando cerca de 500€ de impostos por mês, e que com o ressentimento que têm em relação ao sistema fiscal, seriam instintivamente contra a sua proposta, mesmo que isso não as afetasse. Como chegaria tanto aos que mais ganham, como a estes trabalhadores mais jovens e com salários mais baixos?
Os médicos, os engenheiros e os professores não são o problema aqui. Na verdade, já fazem parte do grupo que contribui significativamente para o sistema fiscal e para o bem comum porque, como disse há pouco, recebem salários diretamente. E pagam impostos sobre eles.

Deverá o sistema fiscal português fixar taxas ainda mais altas sobre os salários mais elevados? É, em última análise, uma escolha democrática da sociedade portuguesa: se querem ou não pôr mais no comum. Mas o que é claro é que impostos mais altos sobre o rendimento não farão nada para tributar de forma efetiva os super-ricos.

É isto que o nosso trabalho no International Tax Observatory [Observatório Fiscal Internacional] demonstrou: não se tributam os super-ricos de forma efetiva - pense-se em pessoas com mais de 100 milhões de euros de património líquido - aumentando o imposto sobre o rendimento. Isto porque, quando se tem uma riqueza tão grande, é muito fácil estruturá-la para minimizar o montante de rendimento tributável, por vezes até zero. Para os super-ricos, o rendimento não é o melhor indicador para compreender a sua capacidade contributiva — porque é demasiado fácil de manipular. É isto que enfraquece o consentimento fiscal de todos. Como podem os trabalhadores que são tributados sobre os seus primeiros salários aceitar um sistema em que os super-ricos fogem ao imposto sobre o rendimento, por vezes na totalidade?

É por isso que é muito melhor tributar a riqueza e não o rendimento. Daí que a minha proposta seja um imposto mínimo de 2% para pessoas com mais de 100 milhões de euros. A ideia é que se alguém assim tão rico não pagar pelo menos 2% da sua riqueza em imposto por ano, pagaria a diferença.

Um imposto mínimo sobre a riqueza extrema ajudaria a financiar os serviços públicos de que todos dependem, como escolas, hospitais, infraestruturas, segurança e adaptação climática. Estes serviços beneficiam a sociedade no seu conjunto, incluindo os mais ricos, porque as grandes fortunas também dependem de instituições em funcionamento e do Estado de direito.

Os críticos dizem que os ricos vão simplesmente embora. No seu trabalho com Boll e Saez sobre os multimilionários da Califórnia, aponta para a coordenação e para o modelo norte-americano de tributação baseada na cidadania. Qual é a versão dessa resposta que uma pessoa comum acha convincente, e a versão que convence outros economistas, incluindo os da esquerda que se opõem aos impostos sobre a riqueza por causa do argumento da fuga? E como é que isto se traduz numa economia pequena e aberta como a portuguesa, que fez o contrário: um regime de taxa fixa de 20% para expatriados ricos, vistos gold, e benefícios para reformados estrangeiros abastados? Para um país como Portugal, será a nação a unidade errada, isto só funciona ao nível da União Europeia?
Será que os super-ricos vão embora se os tributarmos? Olhemos para a história. Quando os países, ao longo da história, aumentaram os impostos sobre os ricos, uma pequena fração de pessoas foi-se embora. Mas está longe de ser a maioria. Na maior parte das vezes, a receita fiscal obtida com o imposto compensa largamente esses custos marginais para a economia. Mas, mais importante, os países aceitaram as regras da globalização e, em particular, a ameaça de que as pessoas vão-se embora como se se tratasse de uma lei da natureza. Mas a lei fiscal não é a lei da gravidade. Os países podem optar por deixar as pessoas sair do país por motivos fiscais, ou podem decidir tributá-las.
Os multimilionários não criam as suas fortunas sozinhos. Beneficiam de trabalhadores, infraestruturas, universidades, investimento público e dos sistemas jurídicos que protegem a sua propriedade. Por isso, a ideia de que se pode construir uma fortuna num país e depois apagar todas as suas obrigações fiscais mudando de residência não é convincente. Por exemplo, os cidadãos norte-americanos continuam, em geral, sujeitos ao imposto federal sobre o rendimento dos EUA mesmo quando vivem no estrangeiro. E, se pessoas muito ricas renunciarem à cidadania, há regras de imposto à saída.
A Califórnia é um caso pouco específico porque, enquanto estado dos EUA, não controla as políticas de imposto à saída. O risco não é que saiam dos EUA - como expliquei, o imposto norte-americano segui-los-ia. O risco é que se relocalizem para outro estado. É por isso que o referendo da Califórnia é um imposto pontual que se aplica retroativamente aos que já eram contribuintes no estado a partir de janeiro de 2026.
Não creio que o modelo norte-americano de tributação à saída seja necessariamente a solução. O que propomos é um meio-termo. Não é exatamente o modelo norte-americano, mas também não é o atual modelo europeu, em que alguém se pode tornar muito rico e, quando decide partir, deixar quase de imediato de pagar impostos ao país. A ideia é simples: se um multimilionário sair de Portugal, o imposto mínimo português poderia continuar a aplicar-se durante 5 ou 10 anos. Se beneficiou das instituições, mercados, infraestruturas e proteções jurídicas de Portugal, esse vínculo fiscal não deveria desaparecer de um dia para o outro.

Em Portugal, um imposto adicional sobre imóveis acima dos 600.000€ foi aprovado, mas gerou uma forte reação contrária, ainda que afetasse muito poucas pessoas. Continua a ser chamado de “Imposto Mortágua”, em referência à economista que a propôs, exatamente o que está agora a ser feito com a sua proposta em França. Concorda com uma medida deste tipo? E, de forma mais ampla, qual tem sido a sua experiência com as pessoas que se opõem a este tipo de medida, incluindo as que nunca terão sequer perto desse patamar, e que mesmo assim não apoiam o argumento?
Um imóvel de valor muito elevado deve ser tributado mais do que um imóvel comum. Um apartamento modesto e uma casa de vários milhões de euros não são a mesma coisa. Mas é também importante perceber que os impostos sobre imóveis — mesmo os de luxo — não são extremamente eficazes para tributar os super-ricos. Isto porque o imóvel é o principal ativo da classe média e da classe média-alta. Para os multimilionários, no entanto, a habitação costuma ser apenas uma pequena parte da sua fortuna. A sua riqueza está sobretudo em ativos financeiros.
Por isso, o risco é que, se tributarmos apenas as casas caras, acabemos por falhar o verdadeiro topo. É por isso que a minha proposta é diferente: tributa todos os diferentes ativos que compõem a riqueza — imóveis, ativos financeiros, etc. — à mesma taxa, sem isenções.

O nosso trabalho retira lições de todas as tentativas históricas de tributar os super-ricos. E a conclusão é bastante simples: se fixarmos o patamar demasiado baixo, haverá uma pressão enorme para conceder isenções pelas mais variadas razões: proprietários de habitação, liquidez, etc. Mas quando nos concentramos nos super-ricos, digamos 100 milhões de euros de património líquido, toda a gente percebe que têm uma elevada capacidade contributiva.

Qual é a melhor forma de enquadrar a sua proposta? Será argumentar desde um princípio de equidade fiscal, que os ricos não pagam a sua parte ou será melhor ligá-la diretamente ao bolso das pessoas: tu pagas os teus impostos, mas se tributássemos os ricos como deveria ser, poderíamos baixar o que pagas de imposto sobre o teu rendimento. Por outras palavras, isto só faz mesmo sentido se a mensagem mais ampla passar a ser tributar a riqueza em vez do trabalho?
Penso que todas essas ideias fazem sentido. Mas o que há de novo nesta conversa é que temos dados vindos das administrações fiscais a mostrar quão pouco os super-ricos pagam em impostos. E este aspeto da justiça é algo que as pessoas compreendem de imediato. Um bom exemplo é Jeff Bezos. Num determinado ano, quando a sua fortuna já valia milhares de milhões de dólares, declarou legalmente tão pouco rendimento tributável que conseguiu receber um crédito fiscal por filho, um benefício pensado para famílias com rendimentos muito mais baixos. A questão não é que tenha feito algo ilegal. A questão é que o sistema fiscal permitiu que uma das pessoas mais ricas do mundo tivesse, para efeitos fiscais, muito pouco rendimento. As pessoas veem claramente que isso não é justo.
Mas há também uma questão mais profunda, que é a questão democrática. A riqueza extrema não é somente poder económico; é também poder político. O poder de influenciar, através dos meios de comunicação que se possui, a ideologia dominante, de distorcer o mercado consolidando monopólios — o que acaba por ter impacto no preço dos bens que todos pagamos — e o poder de influenciar eleições através de donativos extraordinários. Tudo isto significa jogar com um conjunto de regras, no jogo democrático, diferente do resto de nós. Não podemos aceitar uma situação em que os mais ricos conseguem, na prática, colocar-se fora das regras que se aplicam a todos os outros.
É por isto que penso que a batalha mais importante do século XXI será entre as forças democráticas e a oligarquia. E a tributação é central nessa batalha: é a forma como as democracias deixam claro que ninguém, por mais rico que seja, está acima das regras comuns. E estou otimista de que a democracia prevalecerá, porque as pessoas compreendem o problema, as soluções existem e o momento político está a crescer.

Poderia indicar-nos um livro para leitores que nunca estudaram economia?
Recomendaria o livro do economista Anthony B. Atkinson, “Desigualdade – O Que Fazer?”. É claro, rigoroso e acessível. A sua mensagem central é muito simples: a desigualdade não é inevitável. É o resultado de escolhas que as sociedades fazem - sobre tributação, salários, propriedade, educação e serviços públicos.
Essa mesma ideia está no cerne do meu livro mais recente, dedicado à urgência de tributarmos os multimilionários. Um imposto mínimo de 2% sobre a riqueza extrema não é uma proposta radical. O que é radical é um sistema que permite que algumas das pessoas mais ricas do mundo paguem proporcionalmente menos impostos do que os cidadãos comuns. Precisamos de restaurar um princípio democrático básico: todos devem contribuir com a sua justa parte.

domingo, 28 de junho de 2026

Bilionário faz acidentalmente a defesa do imposto sobre os ricos


Neste comentário, Robert Reich utiliza a atuação do cofundador da Google, Sergey Brin, para ilustrar a necessidade urgente de taxar as grandes fortunas. Reich explica que o bilionário terá gasto dezenas de milhões de dólares para tentar derrotar uma iniciativa de votação na Califórnia que pretendia aplicar um imposto único sobre a riqueza dos residentes mais ricos do estado. Esse dinheiro seria canalizado para apoiar o sistema público de saúde (Medicaid), que sofreu cortes significativos devido a reformas fiscais federais anteriores que favoreceram os mais abastados.

Embora Reich defenda que a acumulação de riqueza não é obrigatoriamente um jogo de soma zero, o mesmo não se aplica ao poder político. Na sua visão, os super-ricos conseguem converter as suas fortunas em influência política desmedida, comprando eleições, travando o aumento de impostos e moldando as leis a seu favor, o que acaba por silenciar os restantes cidadãos.

A grande ironia apontada no vídeo é que, ao gastar uma fortuna para impedir a criação de um imposto para bilionários, Sergey Brin acabou por demonstrar na perfeição a razão pela qual essa taxa é indispensável. Robert Reich conclui que o objetivo de taxar as grandes fortunas não é punir os indivíduos ou confiscar os seus bens, mas sim garantir a proteção da democracia, impedindo que um pequeno grupo de bilionários domine por completo o panorama político.

California’s proposed billionaire tax: what you need to know

I have some tremendous news to share: we've just won a decisive victory against Mark Zuckerberg and the Silicon Valley billionaires. Together with my colleague Emmanuel Saez, we’ve spent years working alongside California's civil society to make the 200 Silicon Valley billionaires - including Mark Zuckerberg and Peter Thiel - pay their fair share. Today (26/06/2026), they have just lost a crucial battle.
It all began in July 2025, when Donald Trump signed the One Big Beautiful Bill Act into law.
The legislation included sweeping budget cuts, slashing funding for Medicaid, the health insurance program that serves low-income Americans.
To offset these devastating cuts, the SEIU-UHW union has spent the past six months gathering signatures to put a ballot initiative before California voters that would impose a one-time 5% tax on Silicon Valley billionaires.The tax on extreme wealth could raise nearly $100 billion.
Panicked, the billionaires did everything they could to stop it. Everything.
The initiative first needed to collect roughly one million signatures to qualify for the November ballot.

So what did the billionaires do over the past few months?
They poured enormous sums of money into preventing the union from gathering enough signatures.
They spent hundreds of millions of dollars and used every tool at their disposal. According to some reports, they even paid homeless people (!!) to sabotage the signature drive. 
That tells you just how rattled they were.

But every one of their maneuvers failed miserably.
The billionaires didn't concede defeat, however, and fought until the very last minute to have the measure removed. The deadline was June 25.
They could count on California Governor Gavin Newsom, who worked behind the scenes to kill the initiative and shield the billionaires to the very end.

Despite enormous pressure, the union held firm.
It is now official and irreversible: Californians will vote on November 3 on whether to tax billionaires. The people will decide. This is a hugely important milestone.
Now comes four months of campaigning to convince Californians to vote in favor of taxing Mark Zuckerberg and the state's other billionaires.
A 5% tax on just 200 individuals could raise $100 billion to fund education and healthcare for millions of Californians.
Since 1982, the wealth of California's billionaires—the richest 0.0002% of the population—has increased thirtyfold.
It grew by 144% between 2023 and 2025 alone.
California's billionaires now hold $2.3 trillion in wealth - equivalent to roughly half of California's GDP and about 10% of U.S. GDP.That would be enough to offset the cuts imposed by the One Big Beautiful Bill Act.
According to a study we have just completed, California's billionaires pay only 0.07% of their wealth each year in California income tax - representing barely 0.2% of the state's total tax revenue.

Take Sergey Brin and Larry Page, Google's founders.
In 2019, 2020, and 2023, they reported no taxable income and paid no California income tax on the wealth generated by Alphabet.
Since 2019, their fortunes have increased by more than $400 billion.Sergey Brin is now spending tens of millions of dollars to defeat the billionaire tax initiative.
In the United States, extreme wealth has reached levels never seen before - not even during the Gilded Age of the late nineteenth and early twentieth centuries, when railroad, finance, and oil tycoons dominated the economy through monopolies.This is the concentration of wealth we must confront.
Because extreme wealth always brings with it extreme power: the power to crush competition, manipulate public debate, shape public policy, and buy elections.
Of course, billionaires will use that power to influence the November 3 ballot.
They are preparing to spend without limit while predicting every imaginable catastrophe should the 5% tax be adopted, backed by dubious studies and every kind of threat they can muster.

But democratic forces are more prepared than ever to take them on.
There is every reason to believe that the California ballot will be one of the defining political battles of the U.S. midterm elections.
If the measure passes, California's billionaire tax could quickly inspire similar initiatives in states such as New York, Washington, and Massachusetts.
In time, this process could very well lead to the creation of a federal tax on extreme wealth.
That's precisely what happened more than a century ago with the progressive income tax, which first emerged at the state level before being adopted by the federal government in 1913.

With a sufficiently large coalition of states - or, better yet, a federal tax - nothing would stand in the way of moving from a one-time levy to an annual tax on the largest fortunes, since wealthy Americans would not be able to escape taxation simply by moving to another state.

In 1978, California stood at the forefront of the anti-tax revolt by passing the famous Proposition 13, which capped property taxes and foreshadowed the conservative revolution that swept across the United States a few years later.

Nearly half a century later, history may be repeating itself - but in reverse.
California is now emerging as the front line in the fight for global tax justice. The November 3 vote could mark the beginning of a worldwide movement to end the tax impunity of the ultra-rich.

sábado, 20 de junho de 2026

Nobel defende imposto sobre mais ricos para diminuir desigualdades


O Prémio Nobel da Economia de 2019 Abhijit Banerjee considerou, em entrevista à agência Lusa, que se deve tributar os mais ricos para diminuir a desigualdade e possibilitar mais margem orçamental para medidas de combate à pobreza.

Para o economista, desde a pandemia da Covid-19 tem havido uma série de choques que prejudicaram os rendimentos das famílias mais pobres, que têm vindo a estagnar.

"Até à pandemia, os rendimentos reais dos mais pobres estavam a aumentar e agora, em muitos sítios estão a estagnar", o que considerou não ser surpreendente tendo em conta a subida dos preços da alimentação, bem como as mudanças no mercado de trabalho.

Para Abhijit Banerjee, "há algo que mudou depois de 2019 no mundo e isso é mau para os mais pobres", disse.

O economista apontou ainda que se tem espalhado uma ideia de que o Estado-social talvez seja "demasiado generoso", nomeadamente pelos partidos de direita, mas ainda assim, "a desigualdade está a explodir por todo o mundo".

"Não entendo por que esta ideia tem recebido alguma legitimidade", confessou, salientando que "muitos países têm sistemas de providência social bem desenvolvidos na Europa, por exemplo, e poderiam fazer mais através desse sistema".

No entanto, tal pode não acontecer porque o envelope orçamental está a ser gerido da forma errada, "principalmente porque não estamos a conseguir taxar os ricos".

O Nobel considerou que há uma oportunidade para fazer este avanço, ainda que constatando que "os muito ricos são muito bons em desinformar as pessoas e tentar criar 'loop holes' (lacunas)", fingindo que não têm rendimentos nenhuns por forma a não serem taxados.

"Não estão a pagar taxas, está-se a cortar tudo o resto" e isso "parece insustentável", afirmou, sinalizando esperança de que "as pessoas realmente aceitem que isso é insustentável".

Os impostos sobre os mais ricos dariam margem orçamental para o Estado-social, tendo em vista mitigar as desigualdades, mas também para fazer face às consequências da implementação da Inteligência Artificial no mercado de trabalho, em particular na classe média, defendeu.

Quanto às medidas para mitigar as desigualdades, afiançou que não é preciso inventar políticas, mas sim assegurar que chegam às pessoas certas, apontando que em Espanha, onde foi feito um estudo, "muitas pessoas pobres não aproveitam os subsídios porque o acesso é muito complicado".

"A questão não é desenvolver mais complicações, mas ser relativamente generoso, especialmente no mundo de hoje com desigualdade e raiva social", apontou, acrescentando que "qualquer Governo que realmente queira ter durabilidade e bom impacto tem de pensar em como fazer bem o Estado-social".

"E isto não é sobre reduzir o Estado-social, é sobre aumentar os fundos e voltar a aplicar tributação aos mais ricos", concluiu.

Abhijit Banerjee recebeu o prémio Nobel da Economia de 2019, em conjunto com Esther Duflo e Michael Kremer. Os três economistas foram premiados pela "abordagem experimental para aliviar a pobreza global", segundo a Real Academia de Ciências da Suécia. 

Os trabalhos conduzidos pelos laureados "introduziram uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre a melhor maneira de reduzir a pobreza no mundo", adiantou a Academia.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Património dos super-ricos causa danos climáticos desproporcionados, diz estudo

Stargate Datacenter (Texas)
A Greenpeace calcula que os mais abastados contribuem com quase um bilião de dólares de prejuízos por ano através de emissões associadas à propriedade de ativos.

As pessoas ultra ricas que cruzam os céus mundiais nos seus jatos privados, relaxam em iates e se destacam pelo seu consumo ostensivo no Instagram estão entre os culpados individuais mais facilmente identificáveis na crise climática. No entanto, uma nova investigação defende que a culpa não reside apenas nos seus estilos de vida exuberantes, mas também nas suas contas bancárias.

Através da detenção de empresas e de ativos financeiros e físicos privados — que vão desde produtores de petróleo a empreendimentos imobiliários —, os super-ricos são responsáveis por uma fatia desproporcionada dos gases com efeito de estufa que estão a sobreaquecer o planeta. O 1% do topo da população mundial em termos de riqueza controla, através das suas participações acionistas e investimentos, cerca de um quarto do total das emissões anuais globais.

A Greenpeace calculou a "dívida climática" destes indivíduos com elevado património líquido, atribuindo-lhes a respetiva quota-parte dos danos causados ao clima pelos ativos de que são proprietários. Segundo estas contas, os mais ricos do mundo provocam quase um bilião de dólares ($1tn) por ano em prejuízos climáticos.

Clara Thompson, responsável global de campanhas sobre sistemas socioeconómicos na Greenpeace International, afirmou: "Numa altura em que as pessoas enfrentam faturas de energia cada vez mais altas, o aumento do custo de vida e impactos climáticos crescentes, muitos questionam-se por que razão os agregados familiares comuns devem carregar com uma parte tão grande do fardo, enquanto algumas das pessoas mais ricas do mundo continuam a lucrar com as indústrias que alimentam a crise."

A Greenpeace estima que o 1% mais rico da população seja responsável por cerca de 40% de todas as emissões baseadas na "propriedade" — ou seja, as emissões produzidas por empresas e associadas a ativos financeiros e físicos privados —, as quais representam, por si só, 60% da produção global de carbono. Dentro desse grupo, os 0,1% do topo respondem por cerca de 17% das emissões baseadas na propriedade, e os 0,01% mais ricos por cerca de 9%.

O escalão do 1% do topo é composto por indivíduos com um património superior a cerca de 2 milhões de dólares; os 0,1% detêm uma riqueza acima dos 7 milhões de dólares; e os 0,01% correspondem a pessoas com fortunas superiores a cerca de 38 milhões de dólares. Em contrapartida, a metade mais pobre da população mundial detém apenas 3% das emissões associadas à propriedade de ativos.

Thompson sublinhou que é fundamental pensar em termos de emissões baseadas na propriedade porque, embora sejam menos visíveis do que as emissões associadas ao consumo, são mais difíceis de combater.

"Isto não é apenas uma história sobre jatos privados e estilos de vida luxuosos. Quando se trata da poluição dos ultra-ricos, a propriedade importa ainda mais do que o consumo. Uma grande parte das emissões está associada à detenção de ativos e investimentos com elevada intensidade de carbono", explicou. "Durante anos, a política climática focou-se nos consumidores. Mas as nossas conclusões sugerem que deveríamos prestar muito mais atenção àquilo que as pessoas possuem e onde investem."

Uma forma de corrigir este desequilíbrio poderia passar pela aplicação de impostos sobre a riqueza. "A dívida climática tem a ver com responsabilidade", referiu Thompson. "Se concordamos que aqueles que mais contribuíram para o problema devem contribuir mais para o resolver, é perfeitamente razoável perguntar se esse princípio também se deve aplicar à riqueza extrema."

Dados independentes revelaram que os grandes bancos e outros investidores financeiros canalizaram 900 mil milhões de dólares para combustíveis fósseis no ano passado, apesar das promessas feitas por muitos deles há cinco anos para reduzir tais investimentos.

As disparidades gritantes entre o impacto ambiental dos super-ricos e o dos cidadãos comuns estão cada vez mais no centro das atenções, à medida que a desigualdade de riqueza dispara em todo o mundo. Recentemente, um relatório liderado pelo economista Thomas Piketty demonstrou que o mundo poderia viver de forma equitativa dentro dos recursos finitos do planeta, caso os excessos de riqueza fossem travados por impostos e os mais pobres pudessem reter uma maior fatia daquilo que o seu trabalho produz.

Governos de todo o mundo, com exceção dos EUA, estão reunidos em Bona, na Alemanha, para duas semanas de conversações que antecedem a cimeira do clima da ONU (Cop31) em novembro. Um dos temas que deverá receber maior atenção prende-se com os mecanismos para uma "transição justa", que ajude os trabalhadores afetados pelo abandono dos combustíveis fósseis a integrarem-se na economia de baixo carbono.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

The Logic of Taxing Great Wealth

Dados de 2023 [clicar aqui para melhor visualização e mais info]


The 2026 Billionaire Tax Act initiative recently submitted enough signatures to be put on the California ballot for the November 2026 elections. Its goal is to raise revenue by imposing a one-time 5 percent wealth tax on California billionaires to offset large cuts to California’s Medicaid caused by the Trump regime and Congress when, in July 2025, they cut federal taxes mainly on the wealthiest.

The reason for targeting California billionaires for new revenue is their wealth has grown faster than anyone else’s in recent years and they currently pay low taxes relative to their large wealth gains. Many borrow against their wealth for living expenses (banks are delighted to lend to them), enabling them to claim little or no taxable income.

As a result, taxing billionaires can both raise substantial revenue and restore tax progressivity at the very top. California is in the vanguard of what the nation must do. I believe they will do it when Democrats are back in control, and when they enact campaign finance reforms so no member of Congress is necessarily dependent on the super-wealthy for the bulk of their campaign contributions.

The following oped appeared in today’s New York Times. It was written by two of my colleagues at Berkeley, Professors Emmanuel Saez and Gabriel Zucman (who is also at the Paris School of Economics). I have reproduced it in its entirety, with permission, and have highlighted paragraphs I believe to be particularly important.

They make the case for the billionaire wealth tax in California, and indirectly for a billionaire wealth tax nationwide. They also answer the arguments against the tax, such as that California billionaires may leave the state in expectation that such wealth taxes would be renewed, possibly reducing future income tax revenue to the state and reducing its economic dynamism as the engine of tech innovation.

With wealth inequality now surging beyond anything ever witnessed in America, the dictum attributed to Justice Louis D. Brandeis has become dramatically relevant: “America faces a choice: We can have great wealth in the hands of a few, or we can have a democracy, but we cannot have both.” A wealth tax is a necessary precondition for everything else.

The billionaire class in California includes roughly 250 households, a mere 0.001 percent of the state’s families. Yet its wealth now amounts to more than half of California’s entire annual economic output.

This means that if these billionaires spent all of their wealth, they could buy more than half of the goods and services produced in a year in the entire state.

This extraordinary wealth does not translate into extraordinary tax contributions.

From 2019 to 2025, California billionaires’ wealth grew an average of over 15 percent per year, while they paid, on average, just 0.26 percent of their wealth annually in state income taxes. Their income tax payments accounted for only 2.4 percent of California’s income tax revenue.

For the very richest individuals, the effective burden was even lower. The four wealthiest Californians — former Google co-founder Sergey Brin, Nvidia’s Jensen Huang, former Google CEO Larry Page, and Facebook’s (Meta’s) Mark Zuckerberg — paid an average of just 0.07 percent of their wealth annually in California income tax over that period, according to our analysis of Securities and Exchange Commission records on stock sales and executive compensation from their companies.

California’s tax system fails to effectively tax ultrahigh-net-worth individuals. The same is true of the United States’ tax system and those of other countries.

The problem is that billionaires’ fortunes are largely held in assets (mainly stocks) that rise in value over time. This rise in value is not taxed unless the assets are sold. Under current law, when billionaires don’t sell their stock, wealth accumulates while taxes on their gains are deferred indefinitely and sometimes avoided entirely.

To understand how California’s billionaires have become so unfathomably rich, it’s helpful to think of their fortunes as icebergs. Some earnings are easy to see — and tax. From 2019 to 2025, Mr. Zuckerberg reported more than $7.1 billion in income from Meta: $181 million in compensation, $1.4 billion in dividends and $5.6 billion in gains from selling stock.

Despite making so much money, Mr. Zuckerberg was taxed a combined state and federal rate of just 27 percent on that income. That’s not much higher than the average California household’s effective tax rate of about 20 percent.Mr. Zuckerberg’s tax rate was relatively low in large part because most of his income was in the form of capital gains — what he made from selling stock that had risen in value. Capital gains are taxed federally at a lower rate than ordinary income.

Most of Zuckerberg’s wealth is hidden from income taxes. Since 2019, Meta has made hundreds of billions of dollars in profit. As Meta’s chief executive, Mr. Zuckerberg has invested much of that money back into the company, of which he owns about 13 percent. These profits have been taxed at a relatively low 17 percent, Meta’s effective corporate income tax rate. Their reinvestment has boosted the company’s value and, therefore, the value of its shares. This caused Mr. Zuckerberg’s wealth to rise by tens of billions of dollars.

The same is true of the wealth Mr. Zuckerberg accumulated as Meta grew and investors became more bullish about the company. This dynamic increased the value of his shares by an additional $142 billion. Unless Mr. Zuckerberg sells his shares, all of this growth remains untaxed.

But he can put his gains to use without selling them, borrowing tax-free against his holdings at low interest rates, as he did in 2023, when he pledged $3.1 billion worth of his Meta shares as collateral for a loan.

California’s other top billionaires have similarly structured fortunes. Without a wealth tax, these tech barons will continue to hoard the rewards of the state’s economic growth while its cities cut services and its workers lose health care.

Google’s founders, Mr. Brin and Mr. Page, are the state’s richest individuals, with more than $600 billion in wealth between the two of them — up from $345 billion last September. They have come out against the wealth tax initiative while making moves to leave the state. They benefit from the status quo.

Mr. Brin has funded the political campaign against the measure and has funded signature collection for two competing ballot initiatives that could undercut the wealth tax, spending at least $57 million to fight it.

They stepped down from day-to-day management at the end of 2019. That year and in 2020 and 2023, each got from Alphabet, Google’s parent company, only $1 per year in executive compensation.

They didn’t sell stock, and they didn’t receive dividends or any other compensation relating to Alphabet, so they paid no income tax on their wealth related to the company. But their stock wealth rose by $133 billion, driven in part by the reinvestment of their share of company profits, which amounted to $20 billion in those three years. Scenarios like this show why some of the very wealthiest people in America are among the least taxed.

This arrangement violates basic principles of fairness, deprives the government of revenue it needs for public services and fuels wealth concentration.

Overwhelming wealth becomes power — power to influence the direction of corporate behemoths, power to sway society through donations and media ownership, power to steer politics through unlimited campaign contributions to super PACs.

Elon Musk’s recent adventures in the executive branch, after spending hundreds of millions of dollars to help elect Donald Trump, demonstrate how quickly concentrated wealth can transmute into political control.

We don’t imagine that a one-time 5 percent tax on the wealth of California billionaires, as proposed in the 2026 Billionaire Tax Act, would fix all these problems. But it could raise nearly $100 billion in revenue for California. This amount would make up for the funding the federal government is taking away from the state over the next five years. It would also be tiny relative to billionaires’ recent wealth gains.

In the past three years alone, the total wealth of California’s billionaires grew by a staggering 144 percent, to over $2 trillion.

Taking such a small bite out of billionaires’ exponentially growing tech wealth wouldn’t doom Silicon Valley because the value of California’s concentrated tech talent dwarfs the proposed wealth tax. Nvidia’s chief executive, Mr. Huang, who would be one of the biggest payers of the tax, said he would be “perfectly fine” with it.

Other myths about the proposal need to be dispelled. It would tax only billionaires. It has been carefully written to respect the California and U.S. Constitutions. It contains provisions designed to prevent taxation beyond 5 percent of the fair market value of anyone’s shares and to avoid hitting start-ups hard. Billionaire entrepreneurs, with sizable illiquid stakes in newly founded private companies, would be able to defer payments until they began to cash out.

It is too late for superrich Californians to flee the state to avoid the tax. If approved in November, the tax would apply to billionaires who were residents of California as of Jan. 1, 2026. Some affected taxpayers might have left between the ballot initiative’s introduction, in late October 2025, and the end of the year. But it is improbable that any significant number of billionaires fully cut ties with California in that short period.

Critics of the ballot measure have voiced concerns that even a small number of billionaires leaving the state would lead to lower state tax revenues overall. Their math doesn’t add up. California’s billionaires currently pay such a low tax rate that even if all of them left the state, it would take 25 years for the loss of their tax payments under the current set of rules to surpass the amount the state would raise if the one-time tax succeeds this fall.

In 2025, California collected $4.1 billion in income tax from its billionaires. We estimate that California would collect about 25 times that much revenue — about $103 billion — from the proposed wealth tax.

While billionaires who no longer run their businesses day to day may choose to eventually leave California, uprooting an established business that relies on the pool of California’s tech talent and tech ecosystem would be much harder: While Mr. Page and Mr. Brin may leave for Florida or Nevada, there are no discussions of Google leaving Mountain View.

California’s tech sector produces billionaires faster than any other state’s. Its superrich — who have benefited from the state’s infrastructure, universities and networks of people and businesses — have accumulated enormous fortunes almost tax-free. The proposed billionaire tax would finally make them contribute in modest proportion to their gains.

In November, California’s voters should show the nation the way forward.

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