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sábado, 1 de agosto de 2026

Vígundr - Draumspaki


A tradução do título Draumspaki vem do nórdico antigo, sendo a junção das palavras draumr (sonho) e spaki (sabedoria ou dom da profecia), resultando em termos como "Sabedoria dos Sonhos", "Adivinhação pelos Sonhos" ou "Aquele que interpreta sonhos". Na tradição nórdica antiga, os sonhos eram encarados como visões proféticas enviadas pelas Fylgjur (espíritos protetores) ou pelos próprios deuses para antecipar o destino imutável (Örlög). Como a música do Vígundr não possui uma letra convencional - utilizando apenas vocalizações atmosféricas, cânticos guturais, sussurros e instrumentos ancestrais -, o vídeo funciona como um poema audiovisual focado no estado de transe e na viagem astral. Ele retrata o limiar entre o sono e a vigília, evocando as antigas práticas de feitiçaria e xamanismo nórdico (Seiðr), onde o isolamento na natureza, o fogo e a fumaça servem de conduíte para desligar a mente do mundo físico e navegar pelo inconsciente.

Musicalmente, a obra transita pelo Pagan e Dark Ambient, com fortes traços de Neofolk e Dungeon Synth, priorizando drones contínuos, tambores xamânicos e texturas soturnas para criar uma atmosfera hipnótica e meditativa, muito alinhada a uma vertente mais abstrata do folk nórdico. Suas influências conceituais bebem diretamente da literatura das Sagas e da Poética Edda - em especial relatos como Baldrs Draumar, onde os sonhos prenunciam o inevitável -, mas também dialogam com a Psicologia Analítica de Carl Jung, tratando o sonho como a linguagem pura dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Além disso, há um fundo do Romantismo Sombrio e do Existencialismo, expressos pelo fascínio pela solidão, pelo sublime da natureza selvagem e pelo confronto do indivíduo com o mistério e com a sua própria sombra.
Mary Anlezark vive e produz o seu trabalho a partir da Austrália.

Vale a pena rever e ouvir:
Viktor Orri Árnason - Hino da Terra

segunda-feira, 20 de julho de 2026

IAMTHESHADOW - Bleed Dry

Melhor som aqui

Letra
Take my love
And drown it
In the empty dark sky
Hold my breath
Explode me
From the memories of your mind

A place of loss
Has found me
A slice of what was light
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

Built my fate
Around this
Lost and empty sight
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

A noite portuense como espelho da alma darkwave
A sonoridade texturada e melancólica dos IAMTHESHADOW encontra na noite do Porto o seu cenário conceptual perfeito, transformando a geografia da cidade numa extensão física das emoções que moldam "Bleed Dry". Sob a capa da escuridão, o projeto liderado por Pedro Code e Vitor J Moreira cruza a herança estética do Post-Punk e da Coldwave com a essência gótica e introspetiva da Invicta, resultando numa simbiose perfeita entre música, filosofia e arquitetura. 

Quando a luz do dia desaparece, o Porto despe-se da azáfama quotidiana e veste-se de sombras, revelando um labirinto urbano que parece saído diretamente de um conto do romantismo sombrio do século XIX. Caminhar pelas ruelas desertas da Sé ou de Miragaia a estas horas, onde o eco dos passos rebate no granito húmido e nas calçadas escuras, evoca a exata sensação de claustrofobia e isolamento psicológico descrita na letra, que explora de forma visceral a perda e o esgotamento emocional de quem se mantém preso a algo destrutivo. 

A própria humidade e o nevoeiro que frequentemente sobem do rio Douro funcionam como uma neblina cinematográfica real, confundindo as fronteiras entre o espaço físico e a "tumba da mente" a que a voz barítona e aveludada do vocalista se refere, remetendo diretamente para o arquétipo freudiano e junguiano da "sombra" interior e para a tradição literária de autores como Edgar Allan Poe ou Lord Byron. 

Musicalmente, a base rítmica eletrónica marcada e os sintetizadores gélidos da canção encontram um reflexo visual nas luzes públicas que cintilam no chão molhado da cidade, criando uma atmosfera simultaneamente industrial e etérea, onde lendas do género como Joy Division ou Clan of Xymox ganham uma roupagem contemporânea. 

À noite, a imponência das estruturas de ferro e o abismo negro da água que corre em direção à Foz materializam o vazio existencial, o niilismo e o "céu escuro" da composição, onde o sofrimento é esgotado - sangrado até secar - para dar lugar a uma catarse artística. 

O próprio videoclipe da banda, com o seu jogo geométrico de feixes de luz que rasgam a penumbra de forma minimalista, ganha assim uma nova dimensão interpretativa: a luz que corta a escuridão do estúdio é a mesma que tece o contorno dos edifícios históricos do Porto na madrugada, transformando a cidade não apenas num pano de fundo geográfico, mas sim numa cúmplice silenciosa que converte a dor psicológica numa obra de arte incrivelmente bela e hipnótica.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Nordvargr - Hascimh Reborn


Hailing back to the late '80s, Nordvargr (real name Henrik Nordvargr Björkk) has been making subconscious-melting industrial, black and ambient music for more than enough time now to become well known to dark ambient fans. "Re-Awaken" is a re-release/re-mix/re-invention of the Nordvargr's 2002 debut "Awaken." If you have heard Lustmord, there will not be too many surprises here. 80% of this album follows the dark ambient passage you'd expect it to take and the defining elements are not so different as to warrant any extended reference. That is not to say, however, that "Re-Awaken" is a release that is lacking. Quite the opposite; it is a genuinely fulfilling dark ambient experience.

First off, you can't fault Nordvargr in terms of quantity on this disc. Most tracks range around the seven-minute mark and there's over an hour of sucking vortex fridge noises here to keep you entertained or mesmerize or whatever people do when they listen to dark ambient. Summon demons maybe? I can only assume so.

As you'd expect, the music itself is undeniably and hellishly dark. It's a pick and mix of horror movie soundtracks, whose only goal seems to be aggravating you with menacing build ups and more mellowed songs that are less likely to ambush you, but still likely to leave you a paranoid, possibly zen, hermit. Each track has the individual charm to keep you from hitting skip out of boredom and dynamics, such as a piano lead or pseudo black metal guitar riff or vocal line, will spring up and fill in various gaps. I will add that this fails in the case whenever the campy eastern chanting brigade turns up, but otherwise, the tracks are solid dark ambient goo.

Is that enough? Well, I personally demand a little more out of my ambient music. Mortiis, Earth, and the master himself Brian Eno can all leave me mesmerized. While I genuinely did enjoy all the tracks on display enough to get some replay value, it hasn't vaulted to the top of my ambient list. Stuff like the soft beating drums of "Sulphur Mist" and the echoing gurgles in "Natt" all add up to a polished release, but not one that you haven't essentially heard before in the dark ambient field.

Perhaps the issue is that nothing seems to push to the front and demand you remember one defining element. Ironically, there may be too much dynamic energy in "Re-Awaken" to avoid feeling like a how-to of all dark ambient features. If any element is truly mastered, it is the mellow, cavernous and tribal tracks like "Hascimh" - now that would have made for a great full length had it been pursued with minimalist zeal.

Perhaps simply being a re-issue of a great debut is enough to warrant its existence once again. It's an album that succeeds in every way it should and provides plenty of substance for enthusiasts. Thrills and chills abound, I fully recommend at least taking a dive into the strange black pool of Nordvargr.

Highs: The cavernous, quasi tribal drippings of the more minimalist tracks

Lows: No one single element that makes Nordvargr stand out from other dark ambient albums

Bottom line: "Re-Awaken" is a more than solid overview of everything dark and ambient.

Página Oficial
Nordvargr
Nordvargr spotify
Nordvargr wikipedia
Henrik Nordvargr Björkk youtube

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Por que os vampiros e lobisomens fascinam a literatura, o cinema e a música?

Cena do filme Crepúsculo (2008)

O vampiro e o lobisomem não são apenas monstros assustadores que povoam os nossos pesadelos; eles são espelhos perfeitos das maiores ansiedades, desejos e conflitos internos da humanidade. Desde o século XIX, na literatura gótica, até aos blockbusters cinematográficos e streaming e palcos de música atuais, estas duas figuras nunca passam de moda porque representam os dois extremos da nossa própria natureza: a repressão sedutora e o instinto animal.

A evolução destas criaturas começou muito antes do nascimento das salas de cinema, fincando as suas raízes no folclore camponês europeu, onde eram usadas para explicar surtos de raiva, deformidades físicas ou a própria decomposição dos corpos. No território do vampirismo, a fundação do mito moderno deve-se inevitavelmente ao irlandês Bram Stoker, cujo romance Dracula (1897) não só definiu o aristocrata das trevas, como também estabeleceu a ligação íntima entre o vampiro e o lobo, já que o próprio Conde tinha o poder de se transformar em canídeo e comandar as alcateias. Antes dele, John William Polidori já tinha lançado as bases do predador sedutor com The Vampyre (1819), e Sheridan Le Fanu introduzira o erotismo e a ambiguidade com a novela Carmilla (1872). A transição para a contemporaneidade e a humanização do monstro operou-se de forma magistral pelas mãos de Anne Rice, cujas Crónicas Vampíricas trouxeram dilemas existenciais e uma carga filosófica que moldou toda a subcultura gótica do final do século XX.

Já o lobisomem, ou a licantropia, encontrou o seu expoente literário em autores que exploraram a dualidade entre a civilização e a bestialidade humana. Guy de Maupassant, no seu conto Le Loup (1882), e Clemence Housman, com a novela The Were-Wolf (1896), foram pioneiros ao trazer a ameaça do lobo para o centro do horror psicológico e social. Guy Endore, com o livro The Werewolf of Paris (1933), consolidaria mais tarde esta transição ao usar a licantropia como uma metáfora visceral para a violência política. Foi, contudo, a britânica Angela Carter quem revolucionou o mito em The Bloody Chamber (1979), reescrevendo contos de fadas tradicionais sob uma perspetiva visceral, onde o lobo representa o despertar dos instintos mais profundos, a carne e a paixão selvagem.

Com a chegada do cinema no século XX, estas narrativas literárias ganharam rostos, movimentos e uma nova escala de terror, iniciando uma era de ouro que definiu o imaginário visual do género. O expressionismo alemão entregou Nosferatu em 1922, realizado por F.W. Murnau, que chocou o público com uma representação cadavérica do vampiro. Nas décadas de 1930 e 1940, os estúdios Universal assumiram o controlo dos monstros, transformando Bela Lugosi no Drácula definitivo e Lon Chaney Jr. no trágico lobisomem de The Wolf Man (1941), estabelecendo as regras cinematográficas de que a prata e a lua cheia controlavam a besta - abrindo também caminho para o fenómeno pop de Stephenie Meyer com a saga Crepúsculo nos anos 2000.

Esta evolução da criatura assustadora para o ícone melancólico, rebelde e incompreendido foi o combustível perfeito para o mundo da música. No final dos anos 1970, o surgimento do pós-punk e do rock gótico adotou os vampiros como estética oficial, tendo a banda Bauhaus lançado o hino Bela Lugosi's Dead em 1979. Nas décadas de 1980 e 1990, o metal extremo e o metal sinfónico abraçaram completamente o tema: bandas como Cradle of Filth dedicaram álbuns inteiros à condessa Elizabeth Báthory, enquanto os alemães Powerwolf criaram uma carreira assente na iconografia de lobisomens e batalhas épicas. Até a música pop usou o tema com maestria, sendo o exemplo máximo Michael Jackson no videoclipe de Thriller (1983), onde se transforma num lobisomem.

Ao fundir a imortalidade trágica do vampiro com a lealdade e a fúria da alcateia do lobisomem, a literatura, o cinema e a música celebram a eterna luta humana contra a sua própria finitude. Nas artes, estas figuras deixaram de ser apenas personagens de terror para se tornarem símbolos de contracultura, sensualidade e liberdade, transformando o medo da noite numa ode à memória daqueles que caminham nas sombras.

Por que os vampiros e lobisomens temem um ao outro
A rivalidade ancestral entre vampiros e lobisomens é um dos mitos mais enraizados na cultura popular, alimentada por um medo mútuo que decorre de uma profunda oposição biológica e psicológica. Na sua essência, este temor não nasce apenas da capacidade que cada um tem de destruir o outro, mas sim do facto de representarem forças da natureza absolutamente antagónicas. O vampiro é a personificação da imortalidade estática, do controlo frio, da sofisticação aristocrática e da escuridão eterna. Move-se nas sombras com uma elegância calculada e vê o mundo através de uma lente de superioridade intelectual e desapego emocional. Em contrapartida, o lobisomem encarna a fúria implacável da natureza indomada, a volatilidade da carne, o calor do sangue e o caos instintivo. Para um vampiro, o lobisomem é uma abominação imprevisível e animalesca, cuja força bruta e descontrolo representam uma ameaça real à sua existência eterna e meticulosamente planeada; o lobisomem possui uma vitalidade selvagem que o vampiro perdeu e que nunca poderá recuperar, tornando-se um lembrete vivo da sua própria corrupção estéril.

Por outro lado, o medo que o lobisomem sente em relação ao vampiro baseia-se na aversão ao que é antinatural e manipulador. O lobisomem, intimamente ligado aos ciclos da lua e à terra, vê no vampiro um parasita morto-vivo que desafia a ordem natural da vida e da morte. A frieza do vampiro, a sua capacidade de hipnotizar e a sua propensão para a manipulação mental são armas contra as quais a força física pouco pode fazer. O lobisomem teme ser caçado não por um igual, mas por um predador invisível que ataca a partir do manto do intelecto e da ilusão, alguém capaz de corromper a mente e transformar a própria alcateia contra si mesma. Adicionalmente, em muitas mitologias e universos de ficção, o sangue ou a mordedura de uma destas criaturas funciona como um veneno letal para a outra, transformando o confronto físico num risco absoluto de extinção mútua. Assim, o temor que partilham não é apenas o medo da morte, mas sim o pavor existencial de serem consumidos ou dominados por uma força que subverte completamente a sua própria natureza, resultando numa trégua tensa ou numa guerra perpétua onde nenhum dos lados pode alguma vez baixar a guarda.

O espelho do inconsciente: a explicação psicanalítica do mito
A recorrência destes monstros na cultura pop ganha uma profundidade ainda maior quando analisada à luz da psicanálise freudiana, uma vez que o vampiro e o lobisomem funcionam como projeções anatómicas das forças ocultas da mente humana. O lobisomem surge como a personificação mais pura do id, aquela camada do nosso inconsciente governada pelos instintos mais primitivos, pela agressividade e pelo princípio do prazer. A transformação sob a lua cheia representa a rutura total das amarras da civilização, o momento em que o verniz social estala e o homem é engolido pela fúria e pela herança animal que tenta recalcar no dia a dia. O drama desta criatura é, no fundo, o drama do próprio homem moderno, dividido entre a satisfação dos seus impulsos viscerais e o choque do ego na manhã seguinte, quando o lado consciente acorda devastado pela culpa e pelo horror das suas próprias ações.

Por outro lado, o vampiro opera num território onde a sexualidade e a morte se fundem de forma sofisticada, ilustrando na perfeição o embate entre as pulsões de vida e de morte - eros e thánatos - descritas por Sigmund Freud. O ato de morder o pescoço, carregado de uma sensualidade soturna, serve na ficção como um substituto claro para o desejo sexual proibido, expressando o conceito do "retorno do reprimido". Não é por acaso que o Drácula de Bram Stoker se tornou um fenómeno na era vitoriana, uma época marcada por uma repressão moral extrema; o público encontrava no predador aristocrata uma libertação catártica para os seus próprios tabus. Assim, a arte e a psicologia cruzam-se para demonstrar que o verdadeiro fascínio por estas figuras não nasce do medo do desconhecido, mas sim do confronto com aquilo que reconhecemos em nós próprios: o lobisomem como a fúria que tentamos domar e o vampiro como o desejo de imoralidade, poder e sedução que a sociedade nos obriga a esconder nas sombras.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Boy Harsher - Burn It Down

Melhor som aqui
[Verse 1]
Take my heart
And pull me down
Take my heart
And burn it down

[Pre-Chorus]
Take my heart
And burn it down

[Chorus]
Here we are
The dam has broken
You try to run
But I’m in motion
When it’s done
It drags us both in
‘Cause I was young
And I was broken

[Pre-Chorus]
Help me find the right way
Help me be a nice guy

[Chorus]
Here we are
The dam has broken
You try to run
But I’m in motion
When it’s done
It drags us both in
‘Cause I was young
And I was broken

Numa entrevista para a PopHorror, Jae Matthews (vocalista) e Gus Muller (produtor) contam que foram chamados para fazer uma música para o filme Halloween Ends

A canção “Burn It Down”, do duo Boy Harsher, é uma poderosa metáfora sobre libertação e renascimento. Criada para o filme Halloween Ends (2022), a música reflete a tensão entre desejo e destruição, explorando o momento em que é preciso queimar o passado para poder recomeçar.

Com o seu som hipnótico e sombrio, “Burn It Down” fala menos de ruína e mais de metamorfose: a ideia de que, ao destruir o que já não serve - memórias, relações, versões antigas de nós próprios - abrimos espaço para algo novo emergir.

Assim, Boy Harsher transforma a escuridão em acto de purificação, onde o fogo deixa de ser apenas destrutivo e passa a ser um símbolo de libertação interior.