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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Sampaio da Nóvoa: "Os partidos preferem salvar a pele a salvar o país"


Como é que o PS pode sair da crise em que mergulhou?
Não vou dar conselhos a partidos, sobretudo a partidos nos quais nunca estive integrado. Agora, há um problema de fundo com os partidos em Portugal, viraram-se muito para dentro deles próprios.

O PS deve ser o parceiro do Governo para aprovar o Orçamento, ainda que Luís Montenegro possa não excluir o Chega das conversações?
Não diria a mesma coisa há dez anos, mas a cada momento temos de perceber onde é que está o problema principal, qual é a ameaça. Hoje a ameaça principal está claramente definida e portanto, sim, devemos fazer tudo para assegurar estabilidade. Não quer dizer que concordemos com tudo. É bom que haja uma crítica, porque isso faz parte da democracia. A democracia é a promessa de uma liberdade total, mas deve ser feito tudo para assegurar a continuidade deste Governo até ao final da legislatura.

Não há o risco de deixar o Chega liberto de responsabilidades, com mais espaço para ser oposição e crescer?
Não acredito nisso. Eu acho que o problema de Portugal está na instabilidade que foi criada nestes últimos anos.

O resultado nas autárquicas deve ser tido em conta na avaliação que os candidatos presidenciais fazem dos jogos de forças?
Quaisquer eleições têm uma leitura política. Claro que os candidatos que estão no terreno, as pessoas, os partidos, os movimentos, os cidadãos, devem fazer uma leitura disso. Até antes desse dia, a conversa já é necessária agora. É necessário que falem.

Acredita que haja ainda uma desistência por parte de alguns dos candidatos?
Não sei. Não estou na cabeça deles nem dentro dos partidos. O que me custa muito é que os partidos, na sua lógica interna, fecham-se na sua concha e às vezes preferem salvar a pele a salvar o país. De repente um partido que tem 3% conseguiu um candidato que teve 3,5% e é uma vitória extraordinária, o país pouco importa.

Esse recado encaixa-se por exemplo no PCP e na forma como recusou coligações?
Encaixa-se de um modo geral em todos os partidos. A maneira como não se renovaram, não construíram novas gerações de quadros, não se abriram à sociedade, não conseguiram construir outras dinâmicas, é um dos fatores que nos trouxe aqui. Mas chegados aqui, a prioridade das prioridades é combater esta espécie de fatalidade, de inevitabilidade que o André Ventura muito inteligentemente tem deixado passar junto de toda a gente. Precisamos de corrigir as imperfeições, já disse no discurso do Dia de Portugal em 2012, já lá vão 13 anos, quando utilizei a imagem de que há muitos Portugais dentro de Portugal. E se em 2012 havia muitos, em 2025 ainda há mais Portugais de desigualdades, de pobreza.

Quais são as nossas maiores assimetrias? Sociais ou territoriais?
São sociais. Há hoje um nível de vida médio aceitável em Portugal. Não é bom, mas é aceitável. Mas há bolsas de pobreza e de miséria absolutamente inaceitáveis. E também de pobreza e de miséria nos imigrantes, naqueles que acolhemos, o que é igualmente inaceitável. Há uma fratura social muito forte e há também as grandes desigualdades territoriais. Eu que nasci em Valença, que vivi no Minho, no Porto, em Coimbra, em Aveiro, em Lisboa e em Oeiras, que fiz várias voltas ao país ao longo da minha vida, às vezes estou em Arouca e dizem-me que é o interior dos interiores. Arouca em linha reta deve estar a 35 km do mar.

Essa desigualdade é a causa maior do ressentimento que tem dado espaço ao Chega.
A desigualdade é uma das causas maiores, aquela sensação de que não podemos conduzir a nossa vida, que não temos os instrumentos, os lugares para habitar, os lugares para trabalhar, etc., junto com a ideia de abandono. A ideia de que elegemos certas pessoas para cuidarem de nós, porque é esse o princípio da democracia, e sentimo-nos abandonados.

As redes sociais e o contexto internacional são fatores a ter igualmente em conta. Ou seja, Portugal não está sozinho relativamente aos extremismos e à polarização.
O último relatório feito em França, pela Assembleia Nacional Francesa, sobre o TikTok é absolutamente assustador. Nós não sabemos lidar com o digital, que é uma espécie de máquina extraordinária que puseram nas nossas mãos em muito pouco tempo e não sabemos o que fazer com isto. Receio que o mundo digital seja um mundo contrário ao da democracia. Por duas razões principais. Porque a democracia é um exercício de tempo, de maturidade, de diálogo.

E o digital é um espaço de velocidade.
O digital é o contrário disso. E a democracia precisa de uma segunda coisa que é essencial, que são as mediações institucionais. O digital é o contrário disso tudo, é o instantâneo e é o direto. Eu receio que a democracia tal como a conhecemos esteja em sérios riscos face ao mundo digital, se não aprendermos muito rapidamente a lidar com ele. E depois, claro, os fenómenos internacionais. Julgo que estamos a assistir, com grande pena minha, a uma espécie de fim de uma época, que tem três datas. 1945, Nações Unidas, cooperação, multilateralismo. 1948, direitos humanos. 2015, agenda 2030 da sustentabilidade. Julgo que estamos a assistir ao fim de uma época destas três datas.

Quando anunciou que não seria candidato, disse que nunca virará a costas nem falhará ao seu país e que a cidadania exige coragem. Não lhe faltou coragem no momento de avançar?
A coragem está cá e estará sempre. Eu não tenho medo. Ao dar esta entrevista, estou a fazer uma intervenção pública cidadã, a pedir a convergência, a apelar aos candidatos das autárquicas, que são de uma importância extrema para os próximos anos, e aos candidatos presidenciais, estou a fazer o papel que julgo que me compete. Não tenho nenhum plano. Se for preciso travar combates, estarei para os combates que for preciso travar.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Petição dirigida à Assembleia da República para o reconhecimento do Estado da Palestina


Numa petição tornada pública esta terça-feira e que pode ser assinada aqui, mais de cem personalidades exigem que o Estado português tome finalmente a decisão de reconhecer o Estado da Palestina. Os promotores entendem que o "reconhecimento do Estado da Palestina por parte de um grande número de países é, hoje, uma forma eficaz de, no plano diplomático, demonstrar a solidariedade para com o povo palestiniano e pressionar o governo israelita a pôr fim à escalada de violência contra as populações de Gaza e da Cisjordânia". E concluem que “apenas o reconhecimento do direito do povo palestiniano a constituir o seu próprio Estado permitirá abrir um horizonte de esperança num futuro de paz para a região”.

"Os abaixo-assinados não admitem ser testemunhas silenciosas ou passivas destes crimes. Ao condená-los, recordam décadas de violência e humilhações contra o povo palestiniano", diz o documento citado pela agência Lusa e que é subscrito por figuras do meio académico e cultural como António Sampaio da Nóvoa, Júlio Machado Vaz, Maria de Lurdes Rodrigues, Teresa Violante, Vital Moreira, Pilar del Rio, Ana Bacalhau, Capicua, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho ou Rui Reininho. No plano político, além de Sampaio da Nóvoa, a lista de promotores conta ainda com outra antiga candidata presidencial, Ana Gomes, os ex-deputados bloquistas Alda Sousa, João Teixeira Lopes e José Manuel Pureza, o ex-presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues e um antigo secretário de Estado do governo de Passos Coelho, Bruno Maçães, entre outros atuais e ex-parlamentares.

O texto diz ainda que os signatários seguem "com crescente preocupação o agravamento das violações de direitos humanos e da lei humanitária internacional, os crimes de guerra e a escalada de violência sobre civis em Gaza e na Cisjordânia". Além do reconhecimento do Estado da Palestina, os signatários querem que Portugal se comprometa com as deliberações do Tribunal Penal Internacional, “nomeadamente apoiando o cumprimento de mandados de captura contra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e Yoav Gallant, ex-Ministro da Defesa de Israel” e que o nosso país “impossibilite o trânsito e o transbordo de material militar destinado a Israel em território português ou águas territoriais portuguesas e adote as políticas necessárias para garantir que entidades jurídicas privadas registadas na jurisdição portuguesa cessem a prestação de serviços utilizados por Israel nas suas operações militares em Gaza”.

Em declarações ao Público, Sampaio da Nóvoa explicou o seu apoio a esta iniciativa, dizendo que “ao longo da História, foi pelo silêncio de muitos, e que tantas vezes foram as vítimas seguintes, que se cometeram as maiores barbaridades. Não podemos ficar em silêncio.”

Noutra iniciativa, que junta 146 “personalidades que, de um ou outro modo, trabalham em ligação com a infância”, na maioria escritores e ilustradores, também se defende que “ante o massacre de milhares de crianças e outros palestinos em Gaza, não seremos cúmplices pelo silêncio”. Segundo a agência Lusa, o abaixo assinado dinamizado pelas ilustradoras Ana Biscaia e Inês Oliveira e pelo escritor João Pedro Mésseder juntou escritores como Alice Vieira, Álvaro Magalhães, Ana Filomena Amaral, António Mota, José Fanha, Luísa Ducla Soares e Rita Taborda Duarte e ilustradores como André Carrilho, Catarina Sobral, Madalena Matoso, Mariana Rio, Rachel Caiano e Yara Kono. “Denunciamos e repudiamos o genocídio”, afirmam os signatários, considerando que “um mundo de paz é possível”.

Outro manifesto divulgado na semana passada juntou mais de 230 escritores de língua portuguesa num apelo ao cessar-fogo imediato na Palestina e em defesa da “entrada urgente de ajuda humanitária nos territórios ocupados”. A iniciativa foi da Fundação José Saramago e juntou nomes como Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Chico Buarque, José Eduardo Agualusa, Mia Couto e Mário Lúcio Sousa. Iniciativas semelhantes ocorreram no Reino Unido e Irlanda e também em França.

Hoje , 4 de junho, o MPPM convoca uma manifestação em solidariedade com a Palestina e pelo fim do genocídio, com ponto de partida às 18h no Largo do Chiado. O protesto seguirá até ao Largo 1.º de Dezembro.

“Ajuda” israelita já matou mais de 100 nas filas
Os massacres da população faminta em Gaza são agora diários, com as tropas de Israel a abrirem fogo sobre os deslocados que se dirigem aos centros de distribuição de alimentos geridos por uma organização patrocinada por Israel e EUA. Na manhã de terça-feira, os disparos fizeram pelo menos 27 mortos e dezenas de feridos num desses pontos em Rafah.

Um porta-voz da Cruz Vermelha disse à Reuters que o seu hospital de campanha recebeu 184 vítimas, dos quais 19 foi declarado o óbito à chegada, tendo outros oito morrido pouco depois devido aos ferimentos. As autoridades de Gaza elevam para 102 o número de mortos nestes pontos de distribuição de alimentos na última semana.

“Atacar os famintos enquanto procuram o seu sustento revela a natureza deste inimigo fascista, que usa a fome e os bombardeamentos como armas de morte e de deslocação, como parte de um plano sistemático para esvaziar Gaza da sua população”, afirmou o Hamas, considerando o processo promovido pelos israelitas e estadunidenses à margem das redes de apoio da ONU e das ONG no terreno como “uma armadilha de morte e humilhação”

domingo, 26 de fevereiro de 2023

António Sampaio da Nóvoa: "Segundo a UNESCO, no mundo, metade dos alunos terminam a escola sem terem aprendido praticamente nada"

Ciência, Educação e Conhecimento é o tema a debate no ciclo "Desafios da Ciência na Sociedade Contemporânea", organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. A iniciativa com a presença de António Sampaio da Nóvoa, decorre online, via Zoom, hoje a partir da 18.00. António Sampaio da Nóvoa, doutor em Educação e em História, foi Embaixador de Portugal na UNESCO, de 2018-2021, presidente da sessão da Conferência Geral da UNESCO e é, atualmente, titular de uma Cátedra UNESCO sobre os futuros da educação. Conferencista detalha algumas das reflexões que leva ao encontro.
Propõe-se abrir a sua participação na conferência "Desafios da Ciência na Sociedade Contemporânea", referindo-se às "identidades assassinas", numa alusão ao livro do escritor e ensaísta libanês Amin Maalouf. A obra é um manifesto contra a loucura da morte em nome daquilo que se designa identidade. Como faz a ponte entre estas identidades e o tema que o leva à conferência, "Ciência, Educação e Conhecimento"?
George Steiner tem páginas luminosas sobre a música como linguagem fundamental para unir a humanidade. Maria Bethânia disse-o à sua maneira: "A música é a língua materna dos deuses." Depois da música, a ciência é a outra linguagem fundamental para tentarmos viver em paz com a Terra e em paz com os Outros. Num mundo fragmentado, alimentado por negacionismos de todos os tipos, por narrativas delirantes reforçadas por documentos e imagens que parecem "credíveis", resta-nos a ciência como linguagem comum. Se a perdermos, ficaremos à mercê dessas "identidades assassinas" de que nos fala Amin Maalouf. A ciência é a nossa "última razão", talvez mesmo a última possibilidade para uma conversa humana. Sem esquecer que "conversar" significa dar voltas ao pensamento, às ideias, na companhia dos outros.

Reimagining our Futures Together é o terceiro relatório da UNESCO, datado de 2021, dedicado ao futuro da educação. Na abertura do documento é salientada a necessidade de "um novo contrato social para a educação que possa reparar as injustiças enquanto transforma o futuro". A que injustiças alude o documento e que propostas apresenta para as reparar?
Estamos a viver a maior transformação de que há memória na história da educação. O contrato social celebrado no século XIX tinha dois grandes pilares: a obrigatoriedade escolar para a infância e um modelo escolar normalizado em torno da sala de aula. A escola pública tornou-se uma instituição central, talvez mesmo, como escreve Darcy Ribeiro, "a maior invenção do mundo". Este contrato cumpriu o seu papel, mas já não é suficiente. A educação tem de se renovar, valorizando a relação entre gerações e novos ambientes educativos. Trata-se de pensar a educação para além da escola, em todas as idades, tempos e lugares. No espaço público da cidade. E, na escola, construir ambientes para todos e onde todos aprendam. Só assim poderemos reparar exclusões e injustiças do passado. Para ser transformadora, a escola tem ela própria de se transformar.

Num tempo de desinformação e retrocesso em matéria de confiança na ciência, os currículos escolares estão à altura de promover o compromisso de defender a verdade?
É inquestionável a importância da ciência e da educação científica. Os alunos devem adquirir conhecimentos, mas também compreender o modo como as diferentes disciplinas se organizam e produzem conhecimento. É isso que lhes permitirá um olhar crítico, esclarecido, sobre as "inverdades" que circulam a um ritmo alucinante. Frequentemente, o problema não está nos currículos, mas na pedagogia. Há duas ideias centrais: a convergência entre disciplinas e a pedagogia do trabalho. A revolução da convergência, título de um relatório do MIT, alerta-nos para a necessidade de uma educação construída em torno de temas e problemas, com base em projetos de investigação, produção e criação dos alunos. Por isso, o mais importante é sempre o trabalho dos alunos, a forma como estudam, procuram, criam, resolvem problemas, individual e coletivamente. Ninguém se educa sozinho. Precisamos dos outros para nos educarmos. A pedagogia é tudo menos facilitismo. É conseguir que os alunos trabalhem mais, e não menos, mas que o façam com sentido, emoção e curiosidade.

"O lugar da Escola vem sendo discutido com ardor e entusiasmo. Após um século de enormes progressos, surgem sinais claros de insatisfação e de mal-estar (...) Há cada vez mais alunos que abandonam a escola privados de tudo: sem um mínimo de conhecimentos e de cultura, sem o domínio das regras básicas da comunicação e da ciência, sem qualquer qualificação profissional". O professor deixou estas palavras na Revista Saber e Educar, em 2006. Volvidos 17 anos, que análise faz desta mesma realidade?
A realidade está pior. A pandemia cavou novas e profundas desigualdades. Segundo a UNESCO, no mundo, metade dos alunos terminam a escola sem terem aprendido praticamente nada. É inaceitável. Muitos, consideram que é preciso investir mais na educação. Têm razão. Mas não basta. É preciso também que haja uma metamorfose da escola, uma mudança da forma e da configuração da escola. Não vale a pena esperar por uma novidade extraordinária, que venha de uma lei, de uma reforma, de um método ou de uma tecnologia. A novidade está naquilo que, hoje, já se faz em tantas escolas e que precisamos de conhecer, estudar, repertoriar e partilhar. É a partir destas experiências que podemos, em conjunto, pensar e construir novas formas de educar.

Associa às métricas dominantes para avaliar as universidades e os universitários àquilo que são, nas suas palavras "duas tendências particularmente negativas: a hiperespecialização ["os instruídos incultos e os cultos ignorantes"] e o híper produtivismo ["universidades como fábricas de artigos"]. Quer aprofundar, alertando para os riscos que impõem estas duas tendências?
A essência de uma universidade está na diferença. A universidade é um lugar único, marcado pela relação intergeracional e pelo diálogo entre todas as formas de conhecimento. Quando procura copiar as lógicas de funcionamento e as métricas das outras instituições, a universidade empobrece-se e torna-se irrelevante. Na sua tomada de posse, em 2007, disse a Reitora de Harvard: "A universidade é responsável perante o passado e perante o futuro - não só, nem sequer primordialmente, perante o presente". Com estas palavras, abre uma crítica a duas tendências. Por um lado, a hiperespecialização que, segundo Michel Serres, conduz à formação de duas populações de imbecis: os instruídos incultos, cientistas que não querem saber nada da cultura geral, humanística; e os cultos ignorantes, letrados que ignoram totalmente a matemática, a física ou a biologia. Por outro lado, o híper produtivismo que está a transformar as universidades em fábricas de artigos, autores sem leitores, produções sem sentido, com riscos sérios para a integridade e a originalidade do trabalho científico. Medir é preciso, mas a razão de ser de uma universidade está muito para além do que se pode medir no imediato.

Hoje vivemos um tempo breve de crises e de urgências. A pandemia é disso exemplo; a crise climática também o é. Estas crises obrigam a políticas públicas também elas urgentes. É um tempo compaginável com o tempo ponderado que exige a ciência, a investigação e a produção de conhecimento?
A universidade existe no tempo longo, não no tempo breve das "crises" e das "urgências". A sua maior utilidade está em cultivar o que não parece ter "utilidade imediata" e, no fim, se revela a coisa mais útil. A tecnologia tem, hoje, uma base científica. Mas a ciência vai muito para além da tecnologia. É nesse sentido que o filósofo italiano Nuccio Ordine faz o "elogio do tempo perdido", chegando mesmo a citar a oitava sátira de Juvenal para alertar as universidades de que não podem, para salvar a vida, perder a razão de viver. Numa sociedade híper acelerada, permanentemente ocupada, 24 horas/7 dias, espera-se da universidade um processo de desaceleração, uma forma diferente de pensar e de agir para, assim, ser "útil" às sociedades. É preciso dar tempo ao tempo, devolver o tempo às universidades. E à ciência. "Não há pressa. Um grande poema pode esperar 500 anos, sem que ninguém o leia ou compreenda", diz-nos Walter Benjamin.

Vai levar à conferência uma questão de suma importância, a da Ciência Aberta. Quer enquadrar-nos o conceito e resumir o seu contributo para aquilo a que chamamos o "bem público", de um "bem comum" e de como pode esbater as desigualdades no mundo, entre o Sul e o Norte?
O conceito de Ciência Aberta refere-se a um conjunto de tendências que procuram afirmar a importância da partilha do conhecimento, da colaboração entre cientistas e de uma maior presença da ciência na sociedade. Há três temas centrais. O primeiro, e mais óbvio, é o acesso aberto. O segundo prende-se com a cultura científica e uma ciência ligada ao exercício da cidadania. O terceiro diz respeito à importância da ciência para a nossa vida coletiva, nomeadamente no domínio das políticas públicas. A pandemia do coronavírus tornou nítida a importância da ciência como bem público e comum. Sabemos que os indicadores de educação continuam a ser aqueles que melhor explicam as desigualdades entre indivíduos, mas sabemos também que os indicadores de ciência são aqueles que melhor explicam as desigualdades entre países e regiões. Reforçar o Sul Global é, acima de tudo, reforçar as suas capacidades científicas, de produção de conhecimento e de tecnologia. Sem isso, como assegurar um desenvolvimento sustentável?

Vivemos maravilhados com a inteligência artificial, com a biotecnologia, com os avanços na ciência que prometem catapultar a vida humana muito além dos limites concebíveis há cem anos.
Hoje, tudo parece ao alcance da ciência. Mas nem tudo é desejável. Mais do que nunca precisamos de estabelecer limites. Não se trata de censurar, mas de estabelecer padrões éticos e transparentes através do debate público. É impossível evitar ambições desmedidas. Mas é possível controlá-las através da consciência crítica, pública, assente em princípios e instrumentos internacionais. Sobre a inteligência artificial, ainda esta semana a ONU alertou para avanços recentes que representam uma ameaça real aos direitos humanos. Não é ficção científica, diz-nos António Guterres, "os nossos dados estão a ser usados, sem a nossa autorização, para fins que desconhecemos", condicionando as nossas decisões e comportamentos. Também aqui precisamos de desenvolver possibilidades e ferramentas digitais, abertas, que permitam transformar a esfera digital num bem público e comum.

Em todo este contexto, ainda pensamos com humanidade a ciência, a educação e o conhecimento?
Este ano celebra-se o 75.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Devemos estar mais atentos à ligação entre direitos humanos e ciência, e dedicar uma grande atenção aos temas do digital - e da inteligência artificial. Sempre com o olhar numa ciência que também é arte. À maneira de Almada: "Arte e ciência não podem deixar de estar estreitamente ligadas entre si. É a íntima união do sentimento com o conhecimento humanos, formando o entendimento da humanidade". No tempo de transição que estamos a viver, transição de que temos consciência, mas que não conseguimos ainda alcançar com a vista, é bom pensar com humanidade a ciência, a educação e o conhecimento. Com humanidade e com humanismo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Dia Internacional da Geodiversidade reconhecido por unanimidade

A UNESCO anunciou hoje que se confirmou a proposta portuguesa que apadrinhou a campanha internacional do mundo científico para o reconhecimento formal desta data.



O Dia Internacional da Geodiversidade foi aprovado hoje na 211.ª sessão do conselho executivo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que decorre em Paris e por video-conferência, em respeito das regras sanitárias.

A introdução deste dia nos calendários internacionais passa a assinalar-se a 6 de outubro.

«A UNESCO sempre foi muito conhecida pela protecção do património cultural e a ideia do património natural, ligado à geodiversidade, está a ganhar muita força», afirmou esta sexta-feira à Lusa o embaixador de Portugal, António Sampaio da Nóvoa.

A iniciativa que brotou do meio científico, tem tido liderança de José Brilha, professor da Universidade do Minho, e juntou várias organizações internacionais e 82 organizações ambientais de 40 países diferentes.

«É raro – porque devia ser mais habitual – que haja uma proposta que venha de fora da UNESCO. 99% das coisas são propostas por delegações ou comissões e não estamos suficientemente atentos ao que se passa fora», explicou o embaixador.

A celebração desta data, segundo António Sampaio da Nóvoa, vem no seguimento de outras iniciativas da UNESCO como o programa dos geo-parques, onde Portugal conta com cinco localizações, e as reservas da biosfera, que no País são já 11, e constitui uma homenagem pessoal ao professor Galopim de Carvalho.

Some of EFG’s actions in relation to this initiative
“From the soils we grow crops in, to the natural resources our society is built upon; from geology’s regulation of our environment, to the outdoor landscapes people visit for recreation – geodiversity underpins it all.” (Source: Geodiversity Day)

Why do we need an International Geodiversity Day?


Why Geodiversity is important tou us?

Visit Geoparks

sábado, 29 de agosto de 2020

Futures against futurisms


The Futures of Education Ideas LAB space is designed to highlight original scholarship and opinion pieces that bear on issues being examined within UNESCO’s Futures of Education initiative. The ideas expressed here are those of the authors; they are not necessarily those of UNESCO and do not commit the Organization.

When UNESCO launched the Futures of Education project, none of us imagined that the theme was going to have such an immediate and urgent relevance. The tsunami that we are experiencing will have unprecedented consequences in the field of education. It is necessary to prepare ourselves, with intelligence, with the strength of cooperation, with the open sharing of knowledge.


“Everyone is wrong about the future. We can only be certain about the present. But a person with no knowledge of the future cannot understand the meaning of the present.”
This is the reason for the Futures of Education initiative - trying to look to the future to understand the present and understand all that we have to do to overcome inequalities in education, inequalities that deepen other inequalities that make the world more fragile.
The Futures of Education initiative is not a futuristic exercise, like so many others that, in recent years, have been extraordinarily popular. Futurism has three major venerations: the digital, the artificial intelligence and the brain. No one should disregard the importance of these three topics. But we must look at them with caution, as a starting point and not, as so often happens, as a solution or, even worse, as the solution.
These futurisms are linked by a common denominator: they all announce the disintegration of the school, establishing a more individualized, a more private relationship with education.
The digital announces the possibility of an education made from home or other private locations.
Artificial intelligence announces, to quote the words of Laurent Alexandre, “a transhumanist school where it will be normal to modify the brains of students using the whole panoply of nano, bio, information and cognitive science (NBIC) technologies." 

It is worth remembering a text by Edgar Morin about the Earth system which I am adapting it to the Education system:

“When a system is unable to deal with its vital problems, it degrades, disintegrates, or else it is capable of creating a process of metamorphosis. The probable is disintegration. The improbable but possible is metamorphosis.”

For me, the future relies on the metamorphosis of the school. We need a deep change in the organization of the school and in curriculum. In the organization of the school space. In the organization of the school. In our conception of curriculum, pedagogy and learning. Metamorphosis is our way out, not disintegration.

Contrary to what happened throughout the 20th century, there will not be a single model of school. Therefore, it is worth talking about futures, diverse, plural, based on experiences and projects that, fortunately, already exist all over the world. It is in the strength of these experiences, in their capacity for sharing, for mutual inspiration, that the future of education will be.

And we can never forget that education needs to be a factor to fight inequalities, and not to create even more inequalities.

Instead of following the path of consumerism, we should remember Maxine Greene’s wise words, in her Presidential Address at the AERA meeting, in 1982:

For its part, neuroscience proposes, first, to personalize learning and, then, to optimize bio-electronically the brain.
In one way or another all these futurisms aim at the confinement of education within private spheres. 

As a consequence, as David Labaree argues, education tends to be re-established through a consumerist approach that undermines the role of schooling, a consumerist approach that constitutes the greatest danger for the future of schooling.
The current situation with the coronavirus crisis does nothing more than accentuate this trend. This must be a matter of great concern to us all.
“I cannot imagine a coherent sense of purpose in education if something common does not arise in a public space”.

The phrase is brilliant and calls attention to the concepts of common and public space. Perhaps we could add – a global common good.

What I am trying to say, to conclude, is that the future that interests me involves strengthening education as a global common good that arises in a public space. This common does not mean “uniformity”, but it refers to what enables “diverse human beings to act in common and to be recognized for what they do” (Maxine Greene).

The withdrawal of education in private spheres is not a solution. The two words that interest me are diversity and cooperation: the diversity of futures and the cooperation that allows us to act in common.

Schools must experiment with new ways of organizing space and time, the work of teachers and students. The curriculum must be centered on a planetary consciousness, a curriculum of the world’s intelligence.

We are all part of the same humanity, and only a global citizenship, a global responsibility for education will allow us to find the paths of the future. In diversity, in cooperation, we strengthen education as a global common good.

António Nóvoa is Ambassador of Portugal to UNESCO, professor and former rector of the University of Lisbon, as well as a member of the International Commission on the Futures of Education.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Antropologia e Formas quotidianas - a Filosofia de S. Tomás de Aquino Subjacente à nossa Linguagem do Dia-a-Dia


Antropologia e Formas quotidianas - a Filosofia de S. Tomás de Aquino Subjacente à nossa Linguagem do Dia-a-Dia
(Conferência proferida na Universitat Autònoma de Barcelona, Dept. de Ciències de l'Antiguitat i de l'Etat Mitjana, 23-4-98)
L. Jean Lauand

"Obrigado", "Parabéns", "Perdoe-me", "Meu caro", "Felicidades", "Meus pêsames" e diversas outras formas de linguagem do relacionamento quotidiano - nas diversas línguas - encerram em si profundas informações para o estudo filosófico do homem. Para além do eventual formalismo vazio em que o uso diário tende a arremessá-las, essas expressões - à primeira vista, tão inofensivas - incidem, originariamente, sobre importantes dimensões da realidade humana.
A partir da discussão metodológico-temática sobre a linguagem e a antropologia filosófica (guiados pelo clássico S. Tomás de Aquino), essas fórmulas de convivência mostram-se autênticas mensagens cifradas, por vezes infinitamente surpreendentes e sábias... Como diz Isidoro de Sevilha, sem a etimologia não se conhece a realidade e com ela mais rapidamente atinamos com a força expressiva das palavras (1).
Na verdade, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que nós - tão familiar e quase automático é o uso que delas fazemos - possamos imaginar. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as subtilezas da linguagem comum, em sua própria língua ou em outras.
Quando a filosofia se volta para a linguagem comum, não está praticando um procedimento periférico, mas atingindo algo de muito essencial, pertencente ao próprio núcleo da reflexão filosófica.
Tal apropriação, dizíamos, não é fácil nem imediata. Nossa tendência é antes a de embotamento e esquecimento do profundo sentido originário que acabou por se consubstanciar nesta ou naquela formulação. Pois, sempre vige aquela verdade fundamental, ressaltada tanto pela antropologia ocidental quanto pela oriental: o homem é, essencialmente, um ser que esquece!(2) E, assim, a linguagem, a língua viva do povo, acaba por ser em muitos casos a depositária das grandes experiências esquecidas. E se quisermos resgatar o sentido do humano que elas encerram, devemos voltar-nos, criticamente, para esse depósito... Não é de estranhar, pois, que num clássico como Tomás de Aquino encontremos uma filosofia altamente comprometida com a linguagem. Nesse sentido, é oportuno recordar alguns de seus princípios metodológicos.
1) Nossas palavras, frequentemente, só alcançam fragmentariamente - Tomás usa o advérbio divisim - a realidade, que é complexa, que supera, de muito, a capacidade intelectual humana. Aliás, é de Tomás a aguda observação de que "filósofo algum jamais chegou a esgotar sequer a essência de uma mosca". Ao contrário de Deus, que expressa tudo num único Verbo, "nós temos de expressar fragmentariamente os conhecimentos em muitas e imperfeitas palavras"(3).
2) Outro fenómeno interessante, também ele ligado à limitação de nosso conhecimento/linguagem, é o que poderíamos denominar: efeito girassol, assim explicado por Tomás: "Já que os princípios essenciais das coisas são por nós ignorados, frequentemente, para significar o essencial (que não atingimos) nossas definições incidem sobre um aspecto acidental"(4). Assim, por exemplo, todo o ser da planta que chamamos girassol é designado por um fenómeno-gancho, acidental e periférico, no caso o do heliotropismo.
3) Daí, também, que não escape ao Aquinate o fato de que, freqüentemente, é diferente o gancho, o aspecto, o caminho pelo qual cada língua acessa uma determinada realidade: o mesmo objeto que me protege contra a água (guarda-chuva) produz uma sombrinha (umbrella). Daí, diz Tomás, que "línguas diferentes expressem a mesma realidade de modo diverso"(5).

"Muito obrigado" - os três níveis da gratidão
Dizíamos que a limitação do conhecimento humano reflete-se na linguagem: não podemos expressar o que as coisas são, na medida em que não sabemos completamente o que elas são. Além do mais, muitas vezes, uma palavra acentua originariamente só um dentre os muitos aspectos que a realidade designada oferece. E pode ocorrer que, com o passar do tempo, essa realidade mude, evolua substancialmente a ponto de perder a conexão com o étimo da palavra, que permanece a mesma. Isto não nos choca, pois, no uso quotidiano, as palavras vão perdendo transparência: falamos em salada de frutas porque envolve mistura e nem notamos que salada deriva de sal. Do mesmo modo, o barbeiro, hoje em dia, quase já não faz barbas, mas cortes de cabelo; como também o tintureiro já não tinge, mas só lava; o garrafeiro compra jornais velhos e muito poucas garrafas; o chauffeur não aquece, mas dirige o carro; e nem nos lembraríamos de associar funileiro a funil.
Se essas incompatibilidades não nos causam estranheza é porque a linguagem tornou-se opaca para nós: dizemos colar, colarinho, coleira, torcicolo e tiracolo e não reparamos em que derivam de colo, pescoço (daí que seja incompreensível, à primeira vista, a expressão "sentar no colo").
Essas considerações são importantes preliminares ao estudo da gratidão e das formulações que ela recebe nas diversas línguas. Tomás ensina que a gratidão é uma realidade humana complexa (e daí também o fato de que sua expressão verbal seja, em cada língua, fragmentária: este ou aquele aspecto-gancho é o acentuado): "A gratidão se compõe de diversos graus. O primeiro consiste em reconhecer (ut recognoscat) o benefício recebido; o segundo, em louvar e dar graças (ut gratias agat); o terceiro, em retribuir (ut retribuat) de acordo com suas possibilidades e segundo as circunstâncias mais oportunas de tempo e lugar" (II-II, 107, 2, c).
Este ensinamento, aparentemente tão simples, pode ser reencontrado nos diferentes modos de que as diversas línguas se valem para agradecer: cada uma acentuando um aspecto da multifacética realidade da gratidão. Algumas línguas expressam a gratidão, tomando-a no primeiro nível: expressando mais nitidamente o reconhecimento do agraciado. Aliás reconhecimento (como reconnaissance em francês) é mesmo um sinónimo de gratidão. Neste sentido, é interessantíssimo verificar a etimologia: na sabedoria da língua inglesa to thank (agradecer) e to think (pensar) são, em sua origem, e não por acaso, a mesma palavra. Ao definir a etimologia de thank o Oxford English Dictionnary é claro: "The primary sense was therefore thought"(6). E, do mesmo modo, em alemão, zu danken (agradecer) é originariamente zu denken (pensar). Tudo isto, afinal, é muito compreensível, pois, como todo mundo sabe, só está verdadeiramente agradecido quem pensa no favor que recebeu como tal. Só é agradecido quem pensa, pondera, considera a liberalidade do benfeitor. Quando isto não acontece, surge a justíssima queixa: "Que falta de consideração!"(7). Daí que S. Tomás - fazendo notar que o máximo negativo é a negação do grau ínfimo positivo (a última à direita de quem sobe é a primeira à esquerda de quem desce...) - afirme que a falta de reconhecimento, o ignorar é a suprema ingratidão(8): "o doente que não se dá conta da doença não quer se curar"(9).
A expressão árabe de agradecimento shukran, shukran jazylan situa-se diretamente naquele segundo nível: o de louvor do benfeitor e do benefício recebido. Já a formulação latina de gratidão, gratias ago, que se projetou no italiano, no castelhano (grazie, gracias) e no francês (merci, mercê)(10) é relativamente complexa. Tomás diz (I-II, 110, 1) que seu núcleo, graça comporta três dimensões: 1) obter graça, cair na graça, no favor, no amor de alguém que, portanto, nos faz um benefício; 2) graça indica também dom, algo não devido, gratuitamente dado, sem mérito por parte do beneficiado; 3) a retribuição, "fazer graças", por parte do beneficiado. No tratado De Malo (9,1), acrescenta-se um quarto significado de gratias agere: o de louvor; quem considera que o bem recebido procede de outro, deve louvar.
No amplo quadro que expusemos - o das expressões de gratidão em inglês, alemão, francês, castelhano, italiano, latim e árabe - ressalta o caráter profundíssimo de nossa forma: "obrigado"(11). A formulação portuguesa, tão encantadora e singular, é a única a situarse, claramente, naquele mais profundo nível de gratidão de que fala Tomás, o terceiro (que, naturalmente, engloba os dois anteriores): o do vínculo (ob-ligatus), da obrigação, do dever de retribuir. Podemos, agora, analisar a riqueza de sugestões que se encerra também na forma japonesa de agradecimento(12). Arigatô remete aos seguintes significados primitivos: "a existência é difícil", "é difícil viver", "raridade", "excelência (excelência da raridade)". Os dois últimos sentidos acima são compreensíveis: num mundo em que a tendência geral é a de cada um pensar em si, e, quando muito, regularem-se as relações humanas pela estrita e fria justiça, a excelência e a raridade salientam-se como característica do favor. Mas, "dificuldade de existir" e "dificuldade de viver", à primeira vista, nada teriam que ver com o agradecimento. No entanto, S. Tomás ensina (II-II, 106, 6) que a gratidão deve - ao menos na intenção - superar o favor recebido. E que há dívidas por natureza insaldáveis: de um homem em relação a outro, seu benfeitor, e sobretudo em relação a Deus: "Como poderei retribuir ao Senhor - diz o Sl. 115 - por tudo o que Ele me tem dado?". Nessas situações de dívida impagável - tão freqüentes para a sensibilidade de quem é justo - o homem agradecido sente-se embaraçado e faz tudo o que está a seu alcance (quid-quid potest), tendendo a transbordar-se num excessum que se sabe sempre insuficiente(13) (cfr. III, 85, 3 ad 2). Arigatô aponta assim para o terceiro grau de gratidão, significando a consciência de quão difícil se torna a existência (a partir do momento em que se recebeu tal favor, imerecido e, portanto, se ficou no dever de retribuir, sempre impossível de cumprir...).

Sinónimos?
Tomás é muito estrito no uso da palavra "sinónimo": para ele, são sinónimas somente palavras de significados absolutamente equivalentes, isto é, que não só indicam a mesma realidade (res), mas também o mesmo aspecto, a mesma ratio. Diz, por exemplo: "Embora essas palavras signifiquem a mesma realidade, não são sinônimas porque não a enfocam sob o mesmo aspecto"(14).
Assim, para Tomás, duas (ou mais) palavras são sinônimas se (e somente se...) em quaisquer contextos puderem ser comutadas sem real alteração de sentido: o exemplo que dá, no Comentário às Sentenças, é tunica, vestis e indumentum. O que quer que se afirme (ou negue) de tunica, será afirmado (ou negado...) também de vestis(15). É como trocar "meia-dúzia" por "seis"... Nós, hoje, com menos precisão, admitimos como sinônimas justamente palavras que - embora com diferentes títulos ou ênfases - apontam para a mesma realidade. Assim, de "sinônimo", diz o Aurélio: "palavra que tem quase (sic) a mesma significação que outra". Já o Larousse, explicita melhor: "mots qui se présentent dans la langue avec des sens très proches et qui se différencient entre eux par une nuance (trait particulier)". Já o Oxford distingue e registra dois sentidos, o estrito e o lato: "Synonym - 1. Strictly, a word having the same sense as another (in the same language); but more usually (grifo nosso), either or any of two or more words (in the same language) having the same general sense, but possessing each of them meanings which are not shared by the other or others, or having different shades of meaning (grifo nosso) or implications appropriate to different contexts: e.g. serpent, snake; ship, vessel etc.".
Para Tomás, pelo contrário, como dizíamos, duas palavras podem referir-se à mesma e única realidade e, no entanto, não serem sinônimas: porque diferentes são suas rationes. É o caso, por exemplo, dos diversos nomes pelos quais designamos a Deus ou seus atributos (Criador, Onipotente, a Bondade, a Justiça etc.): todos incidem sobre a mesma realidade, mas não são sinônimos(16). Seja como for, do ponto de vista metodológico, são de especial interesse para o filósofo, dois pontos: 1) a busca de contextos da linguagem comum em que uma palavra não pode - sem alteração de sentido - ser substituída por nenhum "sinônimo": este é um fecundo procedimento para atinar com a realidade antropológica significada pelo vocábulo e 2) O segundo ponto a destacar é o fato de que cada "sinônimo" tem sua ratio, aponta para um determinado aspecto diferente da mesma e única realidade: tal como quando falamos em "casa", "lar", "domicílio" ou "residência". Em si, a realidade a que se referem estas palavras é a mesma e única edificação - na Rua Tal, número tal -, mas ninguém diz "domicílio, doce domicílio", nem a Prefeitura cobra impostos sobre meu lar, etc.(17). Essa multiplicidade de formas de linguagem para a mesma res tem importância na análise que Tomás faz do amor.

"Meu caro"
A riqueza (e a precisão) de vocabulário vivo para determinado assunto em uma língua denota o interesse vital dos falantes por aquele tema. Nesse sentido, note-se, por exemplo, o incrível detalhamento a que chegou o léxico futebolístico no Brasil, em que a resolução da linguagem chega a distinguir: bicicleta, meia-bicicleta, puxeta e voleio! Do mesmo modo, S. Tomás apresenta distinções entre diversos "sinónimos" de amor em latim, interessantes do ponto de vista da antropologia filosófica. Assim, ao afirmar (em I Sent. d.10, q.1, a. 5, ex) que o Espírito Santo é amor ou caritas ou dilectio do Pai e do Filho, precisa que amor indica a simples inclinação de afeto para o amado, enquanto dilectio ("como a própria etimologia indica") pressupõe escolha e é, portanto, racional. Já caritas, objeto de particular estudo neste tópico, enfatiza a veemência do amor (dilectio) enquanto se tem o amado por inestimável preço ("inquantum dilectum sub inaestimabili pretio habetur"), no mesmo sentido em que dizemos que as coisas (o custo de vida, as compras) estão caras ("secundum quod res multi pretii carae dicuntur").
Há aqui um fato surpreendente e muito sugestivo. Não é por acaso que, também em outras línguas, se use a mesma e única palavra para dizer: "meu caro amigo" e "o feijão está caro" ("my dear friend", "beans are too dear"; "mon cher ami" e "haricots sont trop cher"). Para o realismo medieval, não há nenhum choque em que a palavra "caridade", escolhida para designar o amor de Deus (e o amor ao próximo por Deus) seja a palavra, pré-cristã, ligada a dinheiro, preço: caridade, o amor pelo amado, insiste Tomás, indica aquilo (uma coisa, um objeto) que consideramos de inestimável preço, como caríssimo: "Caritas dicitur, eo quod sub inaestimabili pretio, quasi carissimam rem, ponat amatum caritas" (In III Sent. d.27, q.2, a.1, ag7). Assim, quando dizemos "meu caro amigo" ou "caríssimo Fulano", estamos valendo-nos de metáforas de preço (daí, também, a-preço, prezado, menos-prezo, des-prezo etc.), de estima, de estimativa.
Nesta mesmíssima linha, situa-se a fórmula de cortesia árabe, ante um amigo que diz que vai pedir algo: "Anta gally wa talibuka rakhiz" ("você é caro e seu pedido é barato"). E quando nos lembramos que Cristo compara o Reino dos Céus a um tesouro que um homem encontra num campo ou a um mercador que procura pedras preciosas e que a obtenção desse bem requer a venda de todo o resto, não nos surpreenderá que "caridade" seja a palavra para designar o bem apreciado.
Voltemo-nos agora para uma outra situação de nossa vida quotidiana, a de felicitação, procurando resgatar o sentido originário dos votos de congratulação. Seguindo o procedimento medieval, estaremos atentos à etimologia.

"Parabéns"
Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "Parabéns!" (e seus irmãos: o espanhol Enhorabuena!, o inglês Congratulations!, o italiano Auguri!), vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e o do coração humano. O que significam exatamente essas formulações? O que realmente queremos dizer, quando dizemos "parabéns" ou "congratulations" etc.? Todas essas expressões trazem em si um profundo significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".
Comecemos pela fórmula castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Enhorabuena indica que um determinado caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, o árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura etc.) chega, nesta hora, em que se dão as felicitações, a seu termo: esta é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quam principium" (Ecl. 7,8), diz a própria Sabedoria divina.
Já a formulação inglesa, também presente no alemão e em outras línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos congratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão na alegria é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente está a indicar que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: mas uma ação que, exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.
O árabe mabruk lembra o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém.
Com a encantadora forma nossa, "Parabéns!", estamos expressando precisamente isto: que o bem conquistado, que a meta atingida seja usada "para bens". Pois, qualquer bem obtido (o dom da vida, dinheiro ou a conquista de um diploma) pode, como todo mundo sabe, ser empregado para o bem ou para o mal.
O italiano, auguri, auguri tanti!, anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir.

"Meus pêsames"
"Carregava uma tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é - evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E para carregar o peso da dor, da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos: "porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para carregar, quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja tão apreciada nos momentos de dor"(18).
Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências ("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te ajudo a carregar o peso desta tua tristeza").

"Perdoe-me"
"Perdonare" é uma forma tardia que não se encontra em Tomás. A palavra correspondente e usual, por ele empregada, é parcere. No entanto, encontramos em S. Tomás as razões filosóficas que justificam a grandiosa etimologia das formas modernas: "perdoar", "perdão", "perdonar", "pardon", "pardonner" etc.
O prefixo per acumula os sentidos de "por" ("através de") e de plenitude, grau máximo: como em perlavar (lavar completamente) perfulgente (brilhantíssimo), perfeito, permanganato etc. E, assim, o perdão aparece como o superlativo da doação. O mesmo se dá com as formas inglesa e alemã: for-give, vor-geben.
Como o Aquinate pensa o tema do perdão e como o relaciona com o máximo da doação? Há aí influências bíblicas e litúrgicas. Na liturgia, Tomás impressiona-se com a oração, por ele frequentemente citada(19), da missa do X domingo depois de Pentecostes (e, ainda hoje, preservada no XXVI domingo do tempo comum), que diz: "Deus qui omnipotentiam tuam parcendo maxime manifestas" ("Deus, que manifestais vossa onipotência, principalmente perdoando..."). E afirma que o perdão de Deus é poder superior ao de criar os céus e a terra (II-II, 113, 9, sc).
Por outro lado, ele lê na tradução latina da epístola aos efésios: "sede benignos e 'doai-vos' uns aos outros, tal como Deus, em Cristo, vos 'doou'" (Ef 4,32)(20). E em II Cor 2:10 "A quem vós 'doeis' eu também 'dôo' e o que eu 'doei' etc."(21). Tomás não tem dúvidas: o doar, por excelência, não é doar dinheiro ou tempo ou qualquer outra coisa, mas sim perdoar(22).
E conclui, com sua habitual sobriedade, com sugestivos id est: "Donate, id est parcite" (Super II ad Cor. cp 12, lc 4) e "Donantes, id est parcentes" (Super ad coloss. cp 3 lc 3).

Site oficial

 Sobre S. Tomás de Aquino

1. "Nisi enim nomen scieris, cognitio rerum perit" (Et. I, 7,1) e "Nam dum videris unde ortum est nomen, citius vim eis intellegis" (Et. I, 29,2).
2. Veja-se, a propósito, o capítulo "Educação e Memória" in Lauand, Medievália, São Paulo, Hottopos, 1996.
3. "Quia enim nos non possumus omnes nostras conceptiones uno verbo ex-primere, ideo oportet quod plura verba imperfecta formemus, per quae divisim exprimamus omnia, quae in scientia nostra sunt (Super Ev. Io. Cp 1, lc1).
4. "Et quia essentialia principia sunt nobis ignota, frequenter ponimus in defini-tionibus aliquid accidentale, ad significandum aliquid essentiale" (In ISent. ds25 q 1, a 1, r 8).
5. "Diversae linguae habent diversum modum loquendi" (I, 39, 3 ad 2).
6. Cito pela edição em hipertexto-Cd-ROM: OED 2nd. ed. on CD-ROM, 1994.
7. Já Séneca - citado por S. Tomás, II-II, 106, 3 ad 4 - fala de que não pode haver gratidão, senão pelo que ultrapassa o estritamente devido, "ultra debitum". Ministerium tuum est ("Você não fez mais que sua obrigação") e outras do mesmo teor são, como se vê, fórmulas já bastante antigas.
8. "Est gravissimum inter species ingratitudinis, cum scilicet homo beneficium non recognoscit" (In II Sent. d.22 q.2 a.2 r.1).
9. "Quia dum morbum non cognoscit, medicinam non quaerit", ibidem.
10. Merci é derivado de merces (salário), que tomou no latim popular o sentido de preço, do qual derivou o de "favor" e o de "graça".
11. Infelizmente, nestes últimos anos, no Brasil, "obrigado" vem sendo substituído pelo insosso "valeu!".
12. Devo à Profa. Chie Hirose as observações sobre a expressão Arigatô na língua japonesa.
13. Dessa insuficiência de quem sabe não dispor de moeda forte, nasce o recurso a Deus, consignado na expressão "Deus lhe pague", que, naturalmente, deixa subentendido que um pobre homem, como eu, não pode fazê-lo...
14. "Quamvis nomina dicta eandem rem significent, non tamen sunt synonyma: quia non significant rationem eandem" (CG I, 35, 1).
15. "Sicut patet etiam in synonimis; tunica enim et vestis eamdem rem significant, tamen nomina sunt diversa; et similiter indumentum. Unde affirmationes et negationes quae pertinent ad rem, non possunt verificari, ut dicatur: tunica est alba, indumentum non est album" (In I Sent. d. 34, q.1, a.1, r.2)
16."Ostenditur etiam ex dictis quod, quamvis nomina de Deo dicta eandem rem significent, non tamen sunt synonyma: quia non significant rationem eandem" CG I, 35, 1. Ou "Cum non secundum eandem rationem attribuantur, constat ea non esse synonyma, quamvis rem omnino unam significent: non enim est eadem nominis significatio, cum nomen per prius conceptionem intellectus quam rem intellectam significet" CG I, 35, 2.
17. Ainda que, naturalmente, há casos em que é legítima a substituição de uma dessas palavras por outra, ou indiferente o uso desta ou daquela: afinal são "sinónimas"!
18. "Quod tristitia est sicut onus grave quod quanto plures transsumunt fit levius ad portandum et sic presentia amici delectabilis" (Tabula libri Ethicorum, cpt).
19. Por exemplo em II-II, 113 9, sc e In IV Sent. d.46, q.2, a.1, cag1.
20. "Estote autem invicem benigni misericordes donantes invicem sicut et Deus in Christo donavit nobis".
21. "Cui autem aliquid donatis et ego nam et ego quod donavi si quid donavi propter vos in persona Christi".
22."Doar aqui é usado no sentido de perdoar" Super II ad Cor. cp 12, lc 4.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Superstição do diploma e “empregomania”, por António Nóvoa

Superstição do diploma e “empregomania”. Há sempre estudantes a mais?

O excesso de diplomados é uma das queixas mais frequentes desde finais do século XIX. Pode estranhar-se esta lamentação se tivermos em conta as baixíssimas qualificações escolares da população portuguesa. Mas o caso tem duas hipóteses de explicação: por um lado, a crítica social à “pedantice” dos titulares de um grau académico; por outro lado, a vontade de assegurar um “emprego adequado” para os que possuem determinadas habilitações académicas.

A pedantice dos bacharéis, nas suas “fatiotas de doutor” e nas suas “cabeças ignorantes”, inspira muitas páginas da nossa melhor literatura. A desconfiança é clara: nem sempre a posse de um diploma significa a posse de um mínimo de inteligência e de um cabedal suficiente de conhecimentos. Oliveira Martins insurge-se contra o industrialismo no ensino e António Sérgio (1918) denuncia os processos burocráticos que favorecem o diploma em detrimento do saber: “A escola exprime a sociedade, dá o que lhe pedem: e ninguém lhe pede educação, mas diplomas – sendo certo, no entanto, que os que pedem diplomas para seus filhos, e só diplomas, foram educados no seu tempo pelas escolas portuguesas”.

A segunda dimensão do problema remete para a manutenção de uma estrutura social, que reserva para os titulares de um diploma escolar os poucos empregos de prestígio disponíveis. Em 1939, Manuel Rodrigues escandaliza-se com a “inflação” a que se assiste nas profissões liberais e que pode originar a revolta daquele “que não encontra na sociedade a posição equivalente ao seu diploma”, concluindo que “é nos diplomados sem colocação que se recruta a quase totalidade dos chefes e propagandistas da destruição da ordem social”. 

Um outro exemplo, entre milhares de citações possíveis, é-nos fornecido pelo ministro Pires de Lima, em discurso de 1949 contra o excesso de estudantes: “O que seria, se, de um momento para o outro, saíssem dos nossos estabelecimentos de ensino superior mais algumas centenas de médicos ou de advogados, sem clientes, de engenheiros ou arquitectos, sem obras para realizarem, de professores sem alunos, de licenciados sem empregos remunerados? Além do fatal rebaixamento dessas classes e dessas profissões, teríamos um mal estar social de consequências sérias e graves”.
Num curioso texto de 1921, J. Santa Rita junta os dois aspectos anteriores, dizendo que “o vício da empregomania liga-se muito estreitamente à superstição do diploma”. São duas faces de uma mesma moeda, que traduzem uma dupla resistência à cultura escolar. Há quem julgue que estamos perante um discurso recente, motivado pela expansão escolar das últimas décadas. Nada mais falso! É um discurso recorrente na sociedade portuguesa. A crítica ao excesso de diplomados esquece que Portugal foi, e continua a ser, o país menos escolarizado da Europa. Seguimos prisioneiros de um sistema de ensino pensado para formar cada um à medida do lugar profissional que lhe está destinado, em vez de adoptarmos uma política de valorização pessoal e de qualificação escolar de todos.

António Nóvoa (2005). Evidentemente. Porto: ASA

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Superstição do diploma e “empregomania”. Há sempre estudantes a mais?


O excesso de diplomados é uma das queixas mais frequentes desde finais do século XIX. Pode estranhar-se esta lamentação se tivermos em conta as baixíssimas qualificações escolares da população portuguesa. Mas o caso tem duas hipóteses de explicação: por um lado, a crítica social à “pedantice” dos titulares de um grau académico; por outro lado, a vontade de assegurar um “emprego adequado” para os que possuem determinadas habilitações académicas.
A pedantice dos bacharéis, nas suas “fatiotas de doutor” e nas suas “cabeças ignorantes”, inspira muitas páginas da nossa melhor literatura. A desconfiança é clara: nem sempre a posse de um diploma significa a posse de um mínimo de inteligência e de um cabedal suficiente de conhecimentos. Oliveira Martins insurge-se contra o industrialismo no ensino e António Sérgio (1918) denuncia os processos burocráticos que favorecem o diploma em detrimento do saber: “A escola exprime a sociedade, dá o que lhe pedem: e ninguém lhe pede educação, mas diplomas – sendo certo, no entanto, que os que pedem diplomas para seus filhos, e só diplomas, foram educados no seu tempo pelas escolas portuguesas”.
A segunda dimensão do problema remete para a manutenção de uma estrutura social, que reserva para os titulares de um diploma escolar os poucos empregos de prestígio disponíveis. Em 1939, Manuel Rodrigues escandaliza-se com a “inflação” a que se assiste nas profissões liberais e que pode originar a revolta daquele “que não encontra na sociedade a posição equivalente ao seu diploma”, concluindo que “é nos diplomados sem colocação que se recruta a quase totalidade dos chefes e propagandistas da destruição da ordem social”. 
Um outro exemplo, entre milhares de citações possíveis, é-nos fornecido pelo ministro Pires de Lima, em discurso de 1949 contra o excesso de estudantes: “O que seria, se, de um momento para o outro, saíssem dos nossos estabelecimentos de ensino superior mais algumas centenas de médicos ou de advogados, sem clientes, de engenheiros ou arquitectos, sem obras para realizarem, de professores sem alunos, de licenciados sem empregos remunerados? Além do fatal rebaixamento dessas classes e dessas profissões, teríamos um mal estar social de consequências sérias e graves”.
Num curioso texto de 1921, J. Santa Rita junta os dois aspectos anteriores, dizendo que “o vício da empregomania liga-se muito estreitamente à superstição do diploma”. São duas faces de uma mesma moeda, que traduzem uma dupla resistência à cultura escolar. Há quem julgue que estamos perante um discurso recente, motivado pela expansão escolar das últimas décadas. Nada mais falso! É um discurso recorrente na sociedade portuguesa. A crítica ao excesso de diplomados esquece que Portugal foi, e continua a ser, o país menos escolarizado da Europa. Seguimos prisioneiros de um sistema de ensino pensado para formar cada um à medida do lugar profissional que lhe está destinado, em vez de adoptarmos uma política de valorização pessoal e de qualificação escolar de todos.
António Nóvoa (2005). Evidentemente. Porto: ASA