Mostrar mensagens com a etiqueta Conferência Bilderberg. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conferência Bilderberg. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Francisco Pinto Balsemão: um protector dos ricos


Francisco Pinto Balsemão foi membro do núcleo director do Bilderberg e representou Portugal no grupo durante 33 anos. Mais que político foi um empresário e da elite global, infuenciando a política económica e social em todo o Mundo e, sobretudo, Portugal.  Ele participou em praticamente todas as reuniões anuais desde 1988. Em 2015, Balsemão deu o seu lugar no "comité de direção" do Bilderberg a José Manuel Barroso. Em 2018, Balsemão criou um grupo semelhante ao Bilderberg em Cascais, onde foram convidados empresários e outras figuras importantes da sociedade portuguesa. Balsemão criou um grupo de Bilderberg à portuguesa em Cascais - "Encontros de Cascais". A direcção contava além dele com onze personalidades, entre empresários, banqueiros, gestores de topo e milionários, como Paula Amorim, Leonor Beleza, Carlos Carreiras, António Ramalho e Carlos Gomes da Silva.
Fundou com 19 deputados a Ala Liberal. A Ala Liberal era um grupo de deputados do partido fascista no poder.
Os «liberais» pertenciam às elites do Estado Novo e, no seu seio, exerceram aquilo que Tiago Fernandes designa, na esteira de Juan Linz, uma «semioposição» ao Estado Novo, estando em parte dentro e em parte fora do regime da ditadura.
Com o passar do tempo e o avolumar das desilusões, começaram a estar cada vez mais fora, sobretudo à medida em que se apercebiam de que as iniciativas que levavam a cabo no plano da legalidade – na revisão constitucional, nas leis de liberdade religiosa e de imprensa, em defesa dos presos políticos – eram sistematicamente votadas ao insucesso.
Em momento algum, porém, trilharam caminhos revolucionários ou romperam com o modelo de oposição legal, ou legalista, em que sempre se moveram.
Foi, até à sua morte, membro do Conselho de Estado, órgão de consulta do Presidente da República.
Portanto Balsemão nunca foi um social democrata, antes pelo contrário, foi defensor da elite neoliberal e protegeu os milionários.

Ler mais:

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Europa em crise de relevância


Expresso
A evolução para um sistema multipolar assimétrico tem sido marcada pelo aparecimento de inúmeros centros de poder. Para a Europa, está a tornar-se cada vez mais difícil posicionar-se como um protagonista de primeira linha, em grande parte devido às suas normas restritivas de tomada de decisão, mas não só.

No início do século XX, o geógrafo britânico Halford Mackinder conjeturava que o vasto interior da Eurásia continha a chave definitiva para a geopolítica global. A “Teoria da Terra Central” lembrava como o controlo daquela região crucial moldou a dinâmica do poder mundial durante séculos. 

O surgimento do Ocidente moderno apontou a agulha para os territórios ocidentais, que tiveram uma liderança de cerca de 200 anos. Nas últimas duas décadas, porém, a perda de influência europeia tem sido gradual, e, com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, esse enfraquecimento da autoridade tornou-se ainda mais evidente: os países europeus têm sido deixados de fora de quaisquer negociações sobre a Ucrânia, a primeira viagem do Presidente dos EUA ao estrangeiro foi ao Médio Oriente, e há algum tempo que a figura do mediador se deslocou para protagonistas mais inesperados — a Turquia, o Catar e a Arábia Saudita.

Minha reflexão
O problema não é a dificuldade na tomada de decisão mas sim as decisões que vêm sendo tomadas, nomeadamente face à Rússia, à China e a Israel. E também a posição subalterna face à política externa Norte-americana e do Reino Unido. A UE devia estar pelo menos como observador nos BRICS. Devia ter uma posição menos "neocolonial" face a África e à dita Maioria Global (a estória do Jardim e da Selva do Borrell foi imensamente destrutiva). Devia ser o maior promotor da paz e não da guerra; a dualidade de critérios em relação à Ucrânia e à Palestina só a diminuem como entidade credível. E devia funcionar como uma entidade coesa e não a França e a Alemanha a fazerem como querem e a posicionarem-se sempre como um duo, em desrespeito dos seus parceiros na UE. Enfim! O comentário geopolítico do Expresso continua a atirar só lado.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O suficiente para uma vida digna


Quase todos os dias assistimos ao drama associado à migração de pessoas em busca de melhores condições de vida. Bem perto de nós, sucedem-se os naufrágios no Mediterrâneo, e apesar de interpelados pela tragédia e pelo desespero de homens, mulheres e crianças, não conseguimos pôr termo a tanto sofrimento e consensualizar uma solução. Por outro lado, numa contradição em que a humanidade parece ser pródiga, nunca a economia mundial gerou tanta riqueza, mas a sua distribuição não é uniforme e a desigualdade continua a prosperar. De acordo com a informação publicada por organismos internacionais dedicados, cerca de metade da riqueza mundial está na posse de cerca de 1.1% dos mais ricos, enquanto os 55% mais pobres do mundo – mais de 4 mil milhões de pessoas – detêm apenas 1,3% da riqueza global. Esta disparidade não seria tão chocante se aqueles que ficam com uma pequena parte tivessem o suficiente para viver uma vida digna. Infelizmente, sabemos que não é assim; cerca de 10% da população mundial vive em condições de extrema pobreza. 

À pobreza e carência de recursos que esta condição significa, acrescenta-se a falta de poder e influência. Invariavelmente e à escala universal, as taxas de pobreza são mais elevadas entre os jovens ou idosos, não brancos, mulheres, e aqueles que têm níveis mais baixos de educação. Por outro lado, muita riqueza garante a influência sobre a maioria das decisões, o que se traduz numa situação em que, por exemplo, os principais partidos políticos de um país são financiados pelos mais ricos e pelas empresas que existem para gerar lucros para distribuir por indivíduos maioritariamente ricos. 

É neste contexto de profunda desigualdade económica e social, que o mundo enfrenta agora uma crise planetária, destacando-se o impacto das alterações climáticas, da desflorestação, da perda de biodiversidade ou da escassez de água doce. A crise social agrava a crise planetária. Quando analisamos a problemática das alterações climáticas, verificamos que 10% das economias mais ricas emitem cerca de 50% das emissões de gases com efeito de estufa, enquanto os 50% mais pobres geram apenas 7% das emissões. Ou seja, os países mais afetados pelas alterações climáticas são os que menos fizeram para as causar. Importa ter consciência que as alterações climáticas estão já a matar pessoas, desde logo, pelo impacto na saúde e pela perda da produtividade agrícola e menor acesso a bens alimentares. 

É tempo de afrontar um sistema económico absurdo e injusto, baseado no crescimento medido em Produto Interno Bruto (PIB). Quando nos concentramos no PIB, omitimos o essencial: a construção de uma economia que funciona para as pessoas e para o planeta. Como Robert F. Kennedy muito bem expressou em 1968, o PIB “mede tudo (...) exceto o que faz a vida valer a pena”. 

Continuar a fazer crescer a economia através de uma insana delapidação de recursos, esperando que a riqueza verta para os cidadãos mais pobres, não alivia a pobreza e convida ao colapso ambiental. Se estamos a transgredir as fronteiras planetárias agora, como pode o planeta sustentar uma economia que será quatro vezes maior em menos de 5 décadas? Precisamos de uma economia capaz de dar resposta às pessoas e respeitar os limites do planeta, reduzindo a pegada material. Precisamos de abandonar o PIB como a principal medida de prosperidade e começar a medir as coisas que importam, construindo um mundo sem pobreza e sem indústrias nocivas para o planeta e para as pessoas. Para resolver a crise planetária, temos que priorizar as pessoas e criar uma sociedade mais igual e mais justa, e não permitir que o excesso de riqueza resulte num poder absurdo e desproporcionado. 

domingo, 12 de novembro de 2023

Menina - Pássaro


Hoje deu-me para fazer mais uma arte digital. Pensei nos jovens e crianças que estamos a hipotecar o seu futuro com as nossas acções. Não somos todos os culpados. Há apenas 1% da humanidade, juntando-se c. de 1 milhão de bilionários, cujas atitudes são ignóbeis, infantis, ecologicamente reprováveis e mexem com as escolhas individuais e de milhentas de ONG, pequenas comunidades que se esforçam para reduzir a pegada ecológica. O semblante da menina é enigmático.

Notícias relacionadas:

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Musica do BioTerra: Motörhead - Breaking the Law


There I was completely wasting, out of work and down
All inside it's so frustrating, drift from town to town
Feel as though nobody cares if I live or die
So I might as well begin to put some action in my life

Breaking the law, breaking the law [4x]

So much for the golden future, I can't even start
I've had every promise broken, anger in my heart
You don't know what it's like, you don't have a clue
If you did you'd find yourselves doing the same thing too

Breaking the law, breaking the law [4x]

You don't know what it's like
Breaking the law, breaking the law [8x]

Biografia e Discografia

Página Oficial

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

We the People Are All in This Together


The purpose of human institutions is to secure the well-being of people and Earth. Despite our differences, all of Earth’s people share a common destiny that depends on our learning to live together with mutual commitment to a foundational truth recognized by our early ancestors: “I am because you are.” South Africans call it ubuntu.

Now, however, we get near-daily reminders of the failure of our institutions to uphold that truth. Ignoring ubuntu, they pit us against each other in a deadly competition to dominate and exploit both the planet and our neighbors.

Our future depends on cooperating to create new institutions that support us in caring for and living within the means of a finite living Earth. But competition presents a terminal barrier to progress on two defining fronts: the growing number of billionaires, and the growing dominance of the world’s largest economies. The United States currently leads in both fronts. China is in second place but is positioned to soon take the lead.

Two current examples stand out in revealing the profound institutional failure that imperils our common future. Each underscores the need for the deep transformation we have only begun to envision.

The U.S. has long presented itself as the model of prosperity and democracy for other nations to emulate—a conceit that is fast losing its luster. In addition, between 2019 and 2021, life expectancy in the United States dropped from 79 years to 76 years—the sharpest two-year decline in a century.
The U.S. and China are confronting each other over many issues, most recently the status of Taiwan. If we are to move toward peace, equality, and a sustainable climate on which a viable human future depends, our two countries must join in common cause to create a world in which the very concept of a global superpower is a relic of history.
Alarming statistics on the dramatic fall in U.S. life expectancy come from a New York Times news story on a report by the U.S. National Center for Health Statistics. COVID-19 was the major driver.

Dr. Steven Woolf, director emeritus of the Center on Society and Health at Virginia Commonwealth University, observed that while other high-income countries were also hard hit by COVID-19 in 2020, most had begun to recover by 2021. “None of them experienced a continuing fall in life expectancy like the U.S. did, and a good number of them saw life expectancy start inching back to normal,” Woolf told the Times. U.S. life expectancy is now the lowest it has been since 1995. Among the world’s high-income nations, the United States is leading—in the wrong direction.

According to Dr. Woolf, compared with other high-income countries, we in the U.S. are handicapped by a fragmented, profit-driven health care system, poor diet, lack of physical activity, smoking, widespread access to guns, and high levels of poverty and pollution. Break it down, and much of our loss traces to the failures of an economic system captive to the power of profit-maximizing corporations.

We bear the consequences not just in our health industry. We also bear them in our food and agriculture, gun, automobile, and other industries that put financial returns to their richest shareholders above the well-being of their own workers and the communities in which they do business.

If we evaluate these industries based on the flow of profits to the rich, they are exemplary. If, however, we evaluate them based on their contributions to the well-being of people and Earth, they are literally killing us—revealing the U.S. as a model the rest of the world best avoid at all costs. Here are basics of the billionaire problem:

On Jan. 17, 2022, Oxfam International reported that the wealth of the world’s 10 richest billionaires had doubled since the beginning of the pandemic. Incomes of 99% of the world’s people had fallen while corporate profits soared as those companies raised their prices faster than their costs rose—the automobile industry being but one example.

In March 2022, Forbes identified a global total of 2,668 billionaires with a combined wealth of $12.7 trillion, up significantly from the 2,096 billionaires it had identified in 2020 before COVID became a global pandemic. The U.S. leads the world, with 735 billionaires holding a collective $4.7 trillion in financial assets. China is a close second, with 607 billionaires holding $2.3 trillion in assets. Together, the two countries account for 56% of the total assets of all the world’s billionaires.

The more inequality grows, the more power shifts to those the current system enriches, thus increasing their ability to further shape the system to their advantage. Those competing for the top spot on the Forbes billionaires list have chosen to ignore the obvious reality that there will be no winners on a dead Earth.

On the global superpower front, the U.S. and China compete for global economic and military dominance. The U.S. military budget dwarfs that of all other nations, but here, too, China is in second place and growing rapidly.

An obvious place to start in eliminating human environmental damage to Earth is with things that provide us with no real benefit. War is an obvious example. As Indian Prime Minister Narendra Modi recently pointed out to Russian President Vladimir Putin, “this is not an era of war.”

So true. It is an era for eliminating war and moving forward a long overdue process of disarmament.

Achieving the well-being of both people and Earth will require a radical sharing of power to facilitate the cooperative learning and equitable resource sharing essential if humanity is to achieve the future most people seek. A key part of the process is transforming our society into an ecological civilization, which I outlined in my Club of Rome paper, “Ecological Civilization: From Emergency to Emergence.

The U.S. has presented itself as a model of democracy and prosperity for the world to emulate. China has led the world in reducing extreme poverty and has written a commitment to an ecological civilization into its constitution. Yet both nations stand out as the primary drivers of militarism, extreme inequality, and environmental devastation, pushing humanity toward social and environmental collapse. If our two countries continue competing to be the last global superpower on a dying Earth, we will fail to meet the minimum targets that science tells us are essential to avoid triggering environmental tipping points from which there will be no recovery. This existential crisis presents an opportunity for unprecedented cooperation between China and the U.S., along with other nations everywhere, in which we apply our proven creative potential to build a world of peace, equality, and a thriving Earth.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Adrienne Buller: "A crise ecológica não pode ser submetida aos mecanismos de mercado"

Adrienne Buller [Fonte: The Guardian]

Adrienne Buller é diretora de pesquisa do think tank britânico Common Wealth , onde lidera projetos sobre a construção de uma economia democrática, autora de "The Value of a Whale: On the Illusions of Green Capitalism" , e coautora, com Mathew Lawrence, de Owning o Futuro: Poder e Propriedade em uma Era de Crise .

Numa época em que o capitalismo verde exige que filtremos a nossa resposta à crise climática por meio do mercado, a autora analisa tudo o que há de errado com essa abordagem.

Nesta entrevista realizada como parte de um projeto sobre populismo climático de direita no Centro para o Avanço da Imaginação Infraestrutural (CAII), Buller aponta que tudo se resume à política: o greenwashing não impedirá que o financiamento climático minimize os riscos, maximize os retornos e negligencie o bem comum. É fundamental que lutemos para governar democraticamente nossos sistemas económicos.

O que é capitalismo verde e quais são seus objetivos? Quem são suas líderes de torcida, tanto em termos de instituições quanto de indivíduos reais?
Em essência, o capitalismo verde tenta encontrar uma maneira de gerenciar a complexidade de abordar a crise climática e ecológica através do prisma do mercado. Isso requer encontrar preços para as coisas, seja carbono ou outras formas de capital natural, e encaixá-los em nosso modelo financeiro.
O mercado busca promover a arbitragem neutra entre atores que buscam lucro e, então, a entende como algo inerentemente alinhado com resultados positivos, como redução de emissões ou combate à perda de biodiversidade.
Minha primeira experiência com o capitalismo verde foi trabalhar na numa organização sem fins lucrativos que ajudava empresas financeiras a otimizar seu papel na transição verde.
A indústria financeira sustentável foi uma janela para essa mentalidade sobre como enfrentar a crise climática e ecológica fazendo pequenos ajustes impulsionados pelo mercado e resistindo à suposta confusão da política.
Seus defensores estão por toda parte. A própria indústria financeira está, na minha opinião, na vanguarda dessa ideia. Você tem campeões como Larry Fink, CEO da BlackRock, como emblemas desse movimento. Mas também está presente em todos os tipos de fóruns de governança climática europeia.
O European Green New Deal é um programa político arquetípico do capitalismo verde. Assim como o Inflation Reduction Act [IRA] nos EUA, que tenta atrair agentes do mercado e encontrar maneiras de tornar os investimentos climáticos desejáveis ​​para o setor privado e seus clientes. É realmente a estrutura predominante com a qual a maioria dos formuladores de políticas, pelo menos no norte global, está trabalhando.

Qual é o principal fator por trás de sua aparência? As empresas não querem enriquecer com esta tragédia?
Sem ficar muito do lado da conspiração, eu diria que este é um casamento feliz de uma série de interesses do capital. Há o reconhecimento da ameaça de que a crescente crise climática representa um alerta sem precedentes para o capitalismo, especialmente em termos de sua capacidade de se reproduzir.
Mas, ao mesmo tempo, também há um entendimento de que essa é uma esfera totalmente nova de lucro com esse problema. Voltando aos chefões financeiros, Larry Fink publica uma carta anual apresentando a crise climática como uma oportunidade sem precedentes para os investidores.
O outro lado está mais perto dos palcos de Davos. Há reconhecimento da ameaça, mas também da necessidade de manter o capitalismo e os sistemas baseados no mercado.
Isso muitas vezes me parece um compromisso mais ideológico, motivado pela crença de que este é o único – e último – sistema econômico que poderíamos ter. A chave para o capitalismo verde é que é um casamento feliz de todos esses interesses.

Quem interpreta o antagonista do capitalismo verde? Quem representa essa figura da oposição?
Se existe um inimigo imaginário, é aquele que resiste aos sistemas de mercado existentes, ou questiona os fundamentos do capitalismo diante da crise climática e ecológica. É uma descrição bastante nebulosa do inimigo no capitalismo verde.
Aqueles que se encaixam com ela podem ser as partes mais anarquistas da frente climática, grupos como Extinction Rebellion, o ambientalista que resiste a colocar um preço na natureza em qualquer sentido romântico ou de princípios.
Dito isto, nem tenho certeza se há necessidade de um "inimigo" em sentido estrito. Tudo o que consigo lendo o trabalho ou entrevistas de pessoas que considero líderes do movimento capitalista verde é a convicção absoluta de que a sua posição é inevitável e correta. Eles têm aquela crença thatcheriana estridente de que não há alternativa ao sistema existente.
Na minha opinião, é menos sobre ter um "inimigo" e mais sobre uma convicção genuína de que o capitalismo verde e seus defensores são os adultos na sala. Eles acham que todo mundo está a jogar um jogo, sem entender como o mundo funciona e como ele deve continuar a funcionar.

Em seu livro, ele desmonta a ideia dos mercados de carbono, um dos métodos que o capitalismo tem usado para enfrentar a crise climática. O que já sabemos sobre sua eficácia?
Eu me apoio no trabalho de duas pessoas, Jessica Green, uma académica canadiana, e Cédric Durand, que escreveu artigos brilhantes sobre as falácias lógicas dos mercados de carbono.
Olhando para os sistemas atualmente em vigor e a sua eficácia comprovada, Green publicou uma das únicas meta-análises para analisar os resultados reais de todos os sistemas de precificação de carbono que foram implementados, como o esquema de comércio de emissões na União Europeia. Ela conclui que apesar de muitas reclamações sobre a incrível eficácia desses programas, em média, eles estão a gerar reduções entre 0 e 2% ao ano.
A sua eficácia é limitada, em parte porque cobre apenas uma parcela relativamente pequena das emissões reais da UE, mas também porque muito do que realmente consegue é a mudança de emissões.
Embora mudanças como as do carvão para o gás pareçam temporárias, não é exatamente um resultado notável em termos da capacidade dos sistemas de precificação de carbono de fazer o que eles dizem que fazem. Ele refuta as habituais alegações pomposas feitas por economistas sobre a rapidez e a justiça com que podem cortar.
A razão para isso acontecer se resume principalmente a questões políticas. A precificação do carbono pretende ser um mecanismo apolítico baseado no mercado para enfrentar a crise climática. A ideia é que o que ela emitir a mais terá um preço mais alto e, portanto, será expulso do mercado; então, a motivação do lucro garantirá a sua substituição por soluções inovadoras que possam ser oferecidas a um custo menor.
Mas, paradoxalmente, todos os tipos de questões políticas rapidamente entram em jogo. Até mesmo estabelecer os limites do que o preço do carbono cobre requer política. Os combustíveis fósseis e as emissões de carbono estão tão profundamente enraizados em todos os aspectos das nossas vidas, desde a energia até o transporte e a alimentação, que é impossível inovar tão cedo.
Para que os mecanismos de precificação do carbono sejam realmente eficazes, eles teriam que entrar em vigor num nível politicamente tóxico. É por isso que nunca aconteceu. Imediatamente, você está a enfrentar enormes injustiças e desigualdades que muitas vezes recaem sobre aqueles que menos podem pagar pelo preço do carbono.
É por isso que vimos surgir rapidamente muita resistência política aos mercados de carbono. Seja no Canadá , em torno dos esforços de Trudeau para impor um preço ao carbono; ou mais recentemente na Holanda , com a oposição dos trabalhadores rurais às metas climáticas. Há boas razões para essa resistência.

Onde a China se encaixa nessa narrativa? Como você explica o fato de eles terem optado pelos mercados de carbono e parecerem estar indo bem?
Indiscutivelmente, é necessário haver formas mais autoritárias de governo para que esse tipo de mecanismo de mercado funcione. A menos que sejam cuidadosamente articulados ou aplicados num nível tão baixo que sejam muito lentos ou ineficazes na redução de emissões, esses sistemas têm o potencial de causar injustiças e desigualdades económicas significativas.
Portanto, acho justo presumir que na China a ausência de caminhos reais para a dissidência democrática desempenhou um papel significativo no sucesso político percebido de seu sistema de comércio de carbono.

Outro tema que se seguiu é a ascensão da agenda ambiental, social e de governança (ESG). Como você vê a política deles, ou a falta dela?
Há um primeiro ponto muito óbvio. Quer a sua perspectiva da economia seja capitalista ou não, nesta transição precisa haver uma realocação massiva de capital para longe das tecnologias marrons e poluentes e para as verdes. E os ESGs têm sido a principal resposta do financiamento privado e do setor corporativo a essa necessidade óbvia.
O E significa "ambiente", as outras duas letras significam "social" e "governança". Os critérios ESG oferecem uma estrutura clara para os investidores avaliarem o destino de seu capital. Você pode indicar se uma empresa na qual deseja investir atende a uma série de critérios, que podem estar relacionados ao clima ou a questões como paridade de gênero nos conselhos. Mas isso também substitui o planeamento.
Isso nos impede de ter metas mais exatas de como queremos realocar o capital. O ESG tem se mostrado uma maneira eficaz de reduzir a pressão por regulamentações mais rígidas que proíbem a alocação de capital para certas coisas, ou exigem que mais material seja alocado para investimentos verdes, criando a impressão de que algo está sendo feito sem exigir muito, ou nada , de empresas.
Também tem tido enorme sucesso como ferramenta de marketing. Por muito tempo, a área financeira entendeu que tinha um problema de imagem quando se tratava de clima e meio ambiente.
O ESG tem sido um produto incrivelmente popular tanto para investidores de retalho quanto para fundos de pensão, todos os quais colocam seus ativos no sistema acreditando que você ainda pode ser verde e fazer o bem ganhando dinheiro, que você pode maximizar o retorno financeiro. e leve em consideração o critério ESG.
Se isso é verdade ou não, é outra questão, mas é assim que foi vendido. E há muito triunfalismo no setor financeiro sobre como está funcionando bem, sobre como os retornos dos investidores se alinham perfeitamente com questões de sustentabilidade, direitos humanos ou leis trabalhistas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Governo deverá aprovar proposta do PAN para aplicar taxa de carbono aos jatos privados


Medida foi apresentada pelo PAN, como proposta de alteração ao Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), e deverá ser acolhida pelo Governo.

Os jatos privados deverão passar a pagar taxa de carbono a partir de 2023, tal como já acontece com os aviões. A medida foi apresentada pelo PAN, como proposta de alteração ao Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), e deverá ser acolhida pelo Governo, adiantou o ministro das Finanças.

“É uma boa política que seguiremos”, disse Fernando Medina esta sexta-feira, durante uma audição no Parlamento, referindo, contudo, que o Governo tem ainda de ver a proposta “na sua relação concreta”.

Ainda assim, disse tratar-se de uma “boa medida, que colmata uma falha” que existe “no sistema” e “que tem uma importância em regular uma parte, que se sabe hoje, que tem responsabilidade significativa nas emissões e aquecimento global”.

Esta taxa de carbono tem um valor de dois euros por passageiro e já se aplica atualmente nos voos comerciais. A ideia do PAN é que passe também a ser aplicada aos aviões privados. “É importante corrigir a aplicação desta taxa à aviação executiva, que é geradora de injustiça ambiental, social e económica”, refere a proposta do partido.

O objetivo é que esta taxa de carbono se aplique a “cada voo comercial e não comercial, com partida dos aeroportos e aeródromos situados em território português em aeronaves com capacidade máxima para passageiros de até 19 lugares, inclusive”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Cristina Martín Jiménez - livro e tese de doutoramento sobre o Clube Bilderberg



A jornalista espanhola Cristina Martín Jiménez, que investiga o secreto clube Bilderberg há 10 anos, conclui que a crise actual não é uma mera “casualidade”, mas o resultado de um plano em benefício dos ricos.

Uma ideia que Cristina Martín Jiménez defende em entrevista à TSF, onde foi falar do seu livro “O Clube Secreto dos Poderosos – Os Planos Ocultos de Bilderberg”.

“A casualidade, tal como ela nos tem sido apresentada, que chegou uma crise de um dia para o outro, a casualidade não existe, o que existe é uma inteligência, um cérebro que pensa como é possível subtrair as soberanias nacionais e como fazer com que todo o dinheiro fique em suas mãos”, assegura Cristina Martín Jiménez.

“Quem saiu beneficiado da crise? Os ricos“, diz a jornalista, que investiga o clube Bilderberg há cerca de 10 anos, e que constata que este grupo secreto pretende “criar um governo mundial único, em mãos privadas”.

“Governaram Portugal, Espanha e Grécia através da Troika“, diz Jiménez. Notando que é formado por “elites”, a jornalista salienta que os “membros do clube conspiram, afastam e colocam presidentes” com o objectivo de “dirigir o planeta como se fosse um tabuleiro de xadrez”.

As reuniões Bilderberg já contaram com a presença de figuras como Barack Obama, Bill Clinton, Tony Blair, José Sócrates, Durão Barroso e Cavaco Silva.

E Cristina Martín Jiménez fala em particular do caso português, considerando que “o que é diferente em relação a outros países é a quantidade de políticos convidados que houve”.

“José Sócrates foi eleito primeiro-ministro de Portugal um ano depois de ter participado da reunião Bilderberg. Tal como Durão Barroso, mesmo que, nas primeiras eleições nacionais a que se apresenta, diz: sei que vou ganhar, só não sei quando”.

“Barroso também já tinha estado no Bilderberg em 1994”, salienta Cristina Martín Jiménez..

A jornalista fala também da participação de Francisco Pinto Balsemão, ex-primeiro-ministro do PSD e proprietário do Grupo Impresa, que detém a SIC e o Expresso, entre outros órgãos de informação, concluindo que “é algo muito importante controlar a imprensa, a opinião pública”.

Balsemão é o único português que é membro permanente do clube Bilderberg. As restantes personalidades portuguesas têm participado nas reuniões como convidados.

Rui Rio e António Costa participaram na reunião Bilderberg de 2008. Pedro Passos Coelho foi convidado para a reunião de 2013.

.

Doutoramento a investigar o clube dos poderosos

Cristina Martín Jiménez nasceu em El Viso del Alcor (Sevilha), em 1974. Escritora e conferencista, doutorou-se em Comunicação e Jornalismo com uma tese dedicada ao Clube Bilderberg. Tem trabalhado e colaborado com vários órgãos de comunicação social, como os canais de televisão Telecinco e Cuatro Televisión, a revista e os jornais Público (Espanha) e El Informador. 

sábado, 6 de agosto de 2022

Boaventura: As transições opostas do século 21

Ambas ocorrem simultaneamente. A democracia cede a “novas” ditaduras. Mas em vez da ideia positivista de “progresso” surge a de justiça social e ambiental. Só uma destas transformações perdurará. Quem quer a segunda precisa frear a primeira.


Ao longo dos últimos cem anos falou-se muito de transições entre tipos de sociedade e entre civilizações, e construíram-se muitas teorias da transição. Segundo o antropólogo francês Maurice Godelier, a transição é a fase particular de uma sociedade que encontra cada vez mais dificuldades em reproduzir o sistema económico e social sobre o qual se funda e começa a reorganizar-se sobre a base de outro sistema que se transforma na forma geral das novas condições de existência. As transições mais estudadas nas ciências sociais foram as seguintes: da idade medieval para a idade moderna, do feudalismo para o capitalismo, do capitalismo para o socialismo, da ditadura para a democracia. Nas últimas décadas, com o colapso da União Soviética, têm sido muito estudadas as transições do socialismo de tipo soviético para o capitalismo.

Os sinais dos tempos obrigam-nos a pensar em dois tipos de transição ainda pouco estudados: a transição da democracia para ditaduras de tipo novo; e a transição epocal do paradigma moderno da exploração sem limites dos recursos naturais (a natureza nos pertence) para um paradigma que promova a justiça social e ecológica, tanto entre os humanos como entre os humanos e a natureza (pertencemos à natureza). A primeira transição aponta para uma profunda crise da democracia, enquanto a segunda aponta para a crise profunda dos modelos de desenvolvimento económico-social que têm dominado nos últimos cinco séculos. São transições de sinal contrário porque, se a primeira transição se consumar, é difícil imaginar que a segunda possa ocorrer. É bom ter isto presente, uma vez que, quem quiser que a segunda transição ocorra, tem de lutar para que a primeira não ocorra. Explicarei por quê.

A crise da democracia
O modelo de capitalismo que hoje domina é cada vez mais incompatível com a democracia, mesmo com a democracia de baixa intensidade em que vivemos, uma democracia centrada em democratizar as relações políticas e deixando que continuem a imperar os despotismos nas relações econômicas, sociais, raciais, etnoculturais e de gênero. Refiro-me à prioridade dos mercados sobre os Estados na regulação económica e social; à transformação em mercadoria de tudo o que puder gerar lucro, incluindo o nosso corpo e a nossa mente, as nossas emoções e sentimentos, as nossas amizades e os nossos gostos; relações internacionais dominadas pelo capital financeiro e pelos super-ricos.

O crescimento global das forças de extrema direita é o mais visível sintoma da crise profunda da democracia. Mas há outros: a facilidade com que a guerra de informação impede o pensamento e excita as emoções que incitam ao conformismo ou à revolta contra os falsos agressores; a recorrente eleição de governantes medíocres incapazes de governar e de pensar estrategicamente; o contra-reformismo conservador dos tribunais e a impunidade dos poderosos; a criação artificial de um ambiente de crise permanente cujos custos são sempre suportados pelas classes sociais mais vulneráveis; é o comportamento dos partidos de extrema direita que quanto mais antidemocrático e violento mais lhes permite subir nas sondagens. Não se pode excluir a possibilidade de o agravamento da crise socioeconómica levar ao colapso das instituições democráticas. O que aconteceu no Sri Lanka no passado dia 9 de julho é um aviso perturbador: inconformados com a carestia de vida e o colapso da economia, a multidão invadiu o palácio presidencial e o presidente, incapaz de resolver os problemas do país, fugiu para o estrangeiro.

A desfiguração da democracia é cada vez mais patente. Tendo como original objetivo garantir o governo das maiorias para benefício das maiorias, a democracia está a ser convertida num governo de minorias para benefício das minorias. Se no início da invasão da Ucrânia se fizesse um inquérito à opinião pública europeia sobre a continuidade da guerra ou a imediata negociação da paz, estou certo que a resposta a favor da paz seria avassaladoramente maioritária. No entanto, aí está a continuidade da guerra com a sua incontestável e, até agora, única certeza: os grandes derrotados são o povo ucraniano e os restantes povos europeus. Nada disto vai ocorrer em vão. Será bom tomar nota desde já que foram os governos mais autoritários (Hungria, Turquia) e os partidos de extrema-direita os que menos entusiasmo mostraram pela vertigem bélica e antirrussa que os neoconservadores norte-americanos conseguiram impor na Europa através de uma guerra de informação sem precedentes. É assim que, em nome da democracia, se promove a autocracia.

As novas ditaduras que se vão anunciando no horizonte não proíbem a diversidade política partidária; eliminam antes a diversidade ideológica entre as diferenças partidárias. Não eliminam a liberdade; reduzem esta a um menu de liberdades autorizadas. Não hostilizam o exercício da cidadania; induzem os cidadãos a hostilizá-lo ou a ser-lhe indiferente. Não reduzem a informação; aumentam-na até à exaustão pela repetição sempre igual e sempre diferente do mesmo. Não eliminam a deliberação política; fazem com que ela seja tanto mais dramática quanto mais irrelevante for a deliberação, deixando para entidades não democráticas as “verdadeiras” decisões, sejam tais entidades Bilderberg, Google, Facebook, Twitter, BlackRock, Citigroup, deep state, etc.

A crise ecológica e o extrativismo
As regiões do mundo que mais intensamente sofrem com a crise ecológica são a África, algumas ilhas do Pacífico e alguns países do sul da Ásia (Bangladesh), mas onde ela tem sido mais vivamente discutida é na Europa e na América Latina. Perante a atual onda de calor e suas consequências, o Secretário-Geral da ONU declarou recentemente que a humanidade está perante uma escolha existencial: “ou ação coletiva ou suicídio coletivo”. Já em fins de maio de 2020, a temperatura no norte do Círculo Polar Ártico chegou aos 26ºC. Um pouco mais ao sul, na Sibéria – aquela região do mundo que se usa como referência de algo muito frio – as temperaturas atingiram 30°C. O gelo do Oceano Glacial Ártico conheceu em 2020 o maior declínio já registado em apenas um mês.

Entretanto, está em construção um novo continente, o continente dos plásticos em pleno Oceano Pacífico, estendendo-se da Califórnia ao arquipélago do Havaí. Ao longo de muitos milhares de anos, os seres humanos têm-se concentrado nas regiões tropicais e temperadas da Terra. A manter-se o atual ritmo de aquecimento global, entre 1 e 3 biliões de pessoas estarão nos próximos 50 anos fora do nicho climático onde se concentra atualmente a maioria da população mundial – a zona sul-oriental do continente asiático. Um dos países mais gravemente atingidos pelas cheias associadas às monções é Bangladesh, com cerca de um quarto do seu território inundado, uma situação que afeta mais de 4 milhões de pessoas.

A injustiça ambiental é hoje uma das mais sérias e talvez a menos discutida. O dióxido de carbono (CO2) responsável pelo aquecimento global permanece na atmosfera por muitos milhares de anos. Calcula-se que 40% do CO2 emitido pelos humanos desde 1850 continua na atmosfera. Assim, embora a China seja hoje o maior emissor de CO2, a verdade é que, se tomarmos como referência o período 1750-2019, a Europa é responsável por 32,6% das emissões, os EUA, 25,5%, a China, 13,7%, a África 2,8% e a América Latina, 2,6%. Torna-se cada vez mais evidente que a ação coletiva pedida por António Guterres não pode deixar de ter em conta esta dimensão da injustiça histórica (quase sempre sobreposta à injustiça colonial).

Os modelos de desenvolvimento industrial em vigor desde o final do século XVIII assentam na exploração sem limites dos recursos naturais. As suas duas versões históricas – o capitalismo e o socialismo soviético (entre 1917 e 1991) – foram muito semelhantes na sua relação com a natureza. O produtivismo foi o outro lado do consumismo, e ambos assentaram no crescimento económico infinito. A Europa recorreu ao colonialismo e ao neocolonialismo para se apropriar dos recursos naturais de que carecia e que abundavam noutras regiões do mundo. Nestas, as elites económicas e os Estados encontraram na intermediação da exploração nos recursos naturais uma das principais fontes do seu poder económico. Até hoje.

Na América Latina, este modelo económico é atualmente designado por neoextrativismo para o distinguir do extrativismo que dominou durante o período do colonialismo histórico. Neste continente, está aberto o debate sobre a transição deste modelo de desenvolvimento para outro, ecologicamente sustentável, designado por bem viver, uma expressão trazida ao debate pelo movimento indígena. É ele que mais se tem distinguido na luta por uma outra concepção de natureza assente na ideia de que a natureza é a fonte de toda a vida, incluindo a vida humana, devendo, por isso, ser respeitada, sob pena de cometermos o “suicídio coletivo” de que fala Guterres. Uma das principais linhas de fratura no interior das forças políticas de esquerda é entre aqueles que querem manter o modelo neoextrativista para gerar recursos que melhorem as condições de vida da maioria da população empobrecida, e aqueles para quem este modelo não só destrói a já precária sobrevivência das populações das regiões onde são explorados os recursos, como também perpetua o poder das elites rentistas, agrava ainda mais a desigualdade social e produz o desastre ecológico.

Na Europa, o debate parece limitar-se às modalidades da transição energética. Não está no horizonte a alteração dos modelos consumo. É uma ecologia dos ricos que se satisfaz com carros elétricos, desde que cada família de classe média continue a ter dois carros, esquecendo, aliás, que as baterias dos carros elétricos usam recursos minerais não renováveis (lítio). Para a perspectiva dominante, é anátema diminuir o consumo não essencial ou propor uma economia de não-crescimento.

Referi acima que a crise da democracia e a crise ecológica estão ligadas. A guerra da Ucrânia, ao implicar o aprofundamento da crise da democracia, implica também o aprofundamento da crise ecológica. Basta ter presente como a crise da energia fóssil provocada pela guerra fez evaporar todos os bons propósitos da transição energética e das energias renováveis. O carvão regressou do exílio e o petróleo e a energia nuclear estão a ser reabilitados. Por que é que perpetuar a guerra é mais importante do que avançar na transição energética? Que maioria democrática decidiu nesse sentido?

terça-feira, 1 de março de 2022

Guerre en Ukraine : pourquoi les menaces nucléaires de Poutine ne sont pas à prendre à la légère

Russian ICBM missile launchers move during a military parade in 2016. Russia has the largest stockpile of nuclear warheads in the world. 


Dimanche soir, la présidence russe a franchi un cap stratégique : elle a annoncé qu’elle plaçait ses forces nucléaires en alerte. Les opinions européennes sont soit pétrifiées soit incrédules face à cette menace atomique. Assiste-t-on à un gigantesque coup de bluff ou à un changement majeur de l’approche russe, susceptible d’aboutir à cette perspective qui a longtemps paru inenvisageable qu’est l’emploi de l’arme nucléaire sur le sol européen ? Ce qui est certain, c’est que cette escalade reflète deux tendances profondes de la vision militaire de Moscou : d’une part, la Russie rappelle au monde son statut de puissance nucléaire au moment où de multiples mesures – y compris militaires – sont prises par les Occidentaux pour soutenir l’Ukraine ; d’autre part, elle fait ainsi le constat des limites de sa puissance politique.

Incapable de se faire écouter des Occidentaux et impuissant à convaincre les Ukrainiens de se détourner de leur gouvernement et de se rallier au « grand frère » russe, le Kremlin se porte aux extrêmes en menaçant le continent du feu nucléaire. Loin d’être un signe de puissance, cette menace réitérée est l’aveu d’un échec politique irrémédiable – et cela, même si la Russie finit par obtenir une victoire militaire sur le terrain ukrainien en n’employant que les forces conventionnelles.

Menace implicite et incapacité politique
Lorsque, dimanche 27 février au soir, après quatre jours de combats en Ukraine, la présidence russe a explicitement annoncé la mise en alerte de ses unités nucléaires, elle a surpris l’Europe et inquiété le monde. Elle avait pourtant déjà proféré cette menace, de façon à peine voilée, dès le début de l’« opération militaire spéciale », jeudi matin à l’aube, à la fin du message présidentiel qui tentait de justifier la guerre en invoquant le risque de « génocide » des russophones en Ukraine et le besoin (supposé) de « dénazifier » le pays. En effet, la déclaration de guerre comportait, dans sa dernière phrase, une menace implicitement nucléaire contre les États qui tenteraient de s’opposer à l’intervention militaire russe. Vladimir Poutine l’avait formulée ainsi : quiconque s’opposerait à l’action russe en subirait des conséquences « inconnues dans votre histoire ».

Rares furent les lecteurs de ce texte qui, comme Josep Borrell dès le lendemain, avaient relevé le maximalisme de cette déclaration. Lorsque j’avais le matin même partagé cette analyse , je m’étais heurté à une incrédulité éloquente. Pour quiconque est familier de la prose poutinienne et des doctrines nucléaires russes, la réalité de la menace était pourtant évidente.

Cette situation illustre l’incapacité politique de la présidence russe à se faire entendre en dehors de son propre système. Depuis plus de vingt ans maintenant, les autorités de Moscou ne parviennent pas à faire réellement porter leur voix dans les enceintes internationales. Chaque année ou presque, elles publient leur doctrine de défense nationale en rappelant que Moscou considère l’OTAN et l’Union européenne comme des rivaux stratégiques, qu’elle perçoit leurs élargissements respectifs comme des menaces… et que la puissance nucléaire russe n’obéit pas nécessairement à une posture de « dissuasion à la française », du faible au fort.


On peut blâmer l’aveuglement et la surdité des Occidentaux, comme le fait régulièrement Hubert Védrine quand il analyse les relations avec la Russie. Mais il faut en revenir à l’essentiel : la force militaire russe, en reconstruction rapide depuis la guerre en Géorgie de 2008, ne se double pas d’une puissance politique capable de se faire entendre au-delà des cercles nationaux et de certains mouvements nationalistes à l’étranger.

Agiter la menace nucléaire au début de l’opération en Ukraine pouvait passer pour un signe de force : ce message était conçu pour tétaniser le soutien européen à Kiev. Mais une fois encore, la Russie ne s’est pas fait entendre… sa brutalité militaire se double d’une profonde faiblesse politique. En matière nucléaire, la capacité à communiquer sur ses moyens et sur ses doctrines est pourtant essentielle pour assurer une posture stratégique efficace.

Menace explicite et frustration stratégique
Dimanche soir, la Russie a franchi un jalon décisif dans la gradation rhétorique qui régit la posture stratégique des puissances nucléaires : en annonçant qu’elle mettait en alerte ses unités nucléaires, elle a en effet explicité la menace de jeudi 24 au matin qui, selon elle, était suffisamment terrifiante dans sa formulation implicite. Mettre en alerte les unités de l’armée russe qui opèrent les armes militaires, c’est, pour la présidence russe, passer un cran dans l’échelle nucléaire : les têtes et les vecteurs seront activés, les pas de tir préparés ou déployés s’ils sont mobiles, etc. De même, des cibles potentielles seront identifiées sur les théâtres ukrainiens : stocks de l’armée ukrainienne, infrastructures vitales, etc.

Aujourd’hui, l’opération militaire en Ukraine expose la Russie à plusieurs retours de balancier. C’est ce qui la pousse à la surenchère. Sur le terrain militaire conventionnel, les forces armées russes n’ont pas su remporter la victoire décisive attendue dans la guerre éclair en prenant Kiev en quelques jours. Sur tous les autres terrains – diplomatique, financier, sportif, médiatique ou encore économique –, la Russie est l’objet de sanctions massives de la part des Occidentaux. Elle se trouve aujourd’hui dans une situation critique car elle encourt déjà tous les inconvénients de son intervention en Ukraine sans en engranger le principal bénéfice attendu : le contrôle de ce pays.


C’est sans doute la raison de la surenchère nucléaire du Kremlin : forcé de remporter une victoire militaire qui tarde, le pouvoir russe s’est lui-même placé dans l’alternative entre vaincre ou se soumettre. Comme la Russie se retrouve désormais au ban de la communauté internationale, elle abordera toute négociation politique en position de faiblesse. Dès lors, la combinaison de l’hypertrophie de sa puissance militaire et de la frustration que suscite chez elle son impuissance politique l’engage dans une course nucléaire particulièrement dangereuse.

Après le retour de la guerre, le retour du nucléaire ?
Le risque nucléaire en Europe est aujourd’hui élevé. Loin d’être une rodomontade ou un bluff, les messages répétés de la présidence russe sur le nucléaire constituent une menace à prendre au sérieux. La doctrine russe sur le nucléaire est en effet bien différente de l’approche française. Pour les pouvoirs publics français, l’arme nucléaire est essentiellement dissuasive : la possession de l’arme ultime doit empêcher un agresseur, même nucléaire, d’envisager une attaque sur la France car il s’exposerait à une réplique nucléaire. De même, pour la France, l’usage de l’arme nucléaire est exclusivement défensif : elle ne peut être engagée que si l’existence même de la nation est en péril.

Pour les autorités russes, en revanche, la latitude de l’usage de l’arme nucléaire est plus étendue. En effet, elles laissent depuis longtemps planer plusieurs doutes : d’une part, l’arme nucléaire pourrait être utilisée non pas pour frapper massivement des villes comme à Hiroshima et à Nagasaki, mais pour cibler des moyens militaires essentiels de l’ennemi. En d’autres termes, la Russie n’exclut pas l’usage tactique de l’arme nucléaire sur les théâtres d’opérations. En outre, elle ne rejette pas non plus par principe l’emploi de l’arme nucléaire dans le cadre d’une offensive destinée à mettre fin plus rapidement à un conflit. La menace atomique russe est d’autant plus crédible que depuis plusieurs années, Moscou a largement communiqué sur la modernisation de son arsenal nucléaire.

De l’intimidation à l’action
Les autorités russes sont aujourd’hui prises dans une spirale maximaliste. Elles jouent en effet leur crédibilité dans cette guerre. Remporter la victoire est devenu pour elles un enjeu vital. Or elles semblent aujourd’hui incapables de prendre Kiev rapidement, d’attirer à elles une large partie de la population ukrainienne et de se faire entendre des Occidentaux. La menace nucléaire doit en conséquence être prise réellement au sérieux aujourd’hui.

Cela ne signifie pas que les Européens doivent être paralysés et doivent cesser de prendre les mesures et sanctions nécessaires concernant la crise ukrainienne. En revanche, ils doivent également rappeler avec la plus grande fermeté à la Russie leur propre posture nucléaire et la mettre en garde contre tout usage tactique de cette arme.

Cet article est republié à partir de The Conversation sous licence Creative Commons. Lire l’article original.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Davos e a conspiração da carta roubada


– A classe dominante mundial pretende uma Grande Reinicialização para tentar ultrapassar a crise do capitalismo
– Utiliza para isso o Covid-19, um pretexto tão bom como outro qualquer
– A conspiração está em pleno andamento, através dos quadros formados no WEF

O famoso conto de Edgar Allen Poe, A carta roubada (The Purloined Letter), é adequado para descrever a agenda de Klaus Schwab, fundador há cerca de 50 anos do que é hoje o influente Fórum Económico Mundial de Davos (WEF) – Escondido à vista de todos.

Schwab publicou em 2020 um livro intitulado Covid-19: A grande reinicialização (Covid-19: The Great Reset ), que apela aos líderes mundiais para usarem a "oportunidade" da pandemia da COVID-19 a fim de reorganizar fundamentalmente a economia global numa versão distópica de cima para baixo da agenda tecnocrática da ONU para 2030. Para aqueles dispostos a fazer investigação paciente, o WEF de Schwab revela um grau surpreendente da actual agenda globalista para um totalitarismo tecnocrático. Mais ainda, tem vindo a desenvolver quadros escolhidos a dedo para implementar esta agenda ao longo de três décadas, com uma seleccionada "escola de quadros" global para "futuros líderes globais". Com efeito, é o que poderíamos chamar a Conspiração Davos, agentes promovidos em todo o mundo para se infiltrarem nos círculos políticos de topo e pressionarem a sinistra agenda Davos Reset.

Uma das características mais espantosas da histeria do medo pandémico da COVID é o grau em que os políticos de todo o mundo têm seguido em fileiras cerradas, juntamente com os media globais e figuras-chave da saúde, a abraçar uma agenda sem precedentes de destruição económica e humana, em nome do combate a um vírus. Acontece que a maioria de todos os intervenientes-chave têm algo em comum. São licenciados escolhidos a dedo ou "ex-alunos" como ele lhes chama, da escola de quadros de Klaus Schwab em Davos, do seu programa anual chamado Jovens Líderes Globais e, antes de 2004, chamado Líderes Globais para o Amanhã.

Desde que o primeiro grupo de quadros da Davos foi seleccionado em 1993, mais de 1.400 "futuros líderes globais" foram treinados num processo altamente secreto que raramente é mencionado na biografia dos graduados da Davos. Com a paciência de uma aranha tecendo uma vasta teia, Klaus Schwab e os seus ricos apoiantes no Fórum Económico Mundial criaram a rede mais influente de actores políticos da história moderna, ou talvez de sempre.

Num vídeo de 2017 com David Gergen em Harvard, Schwab orgulha-se de, "penetramos nos gabinetes" com o quadro do Davos Young Global Leader. Schwab afirma: "Devo dizer então que menciono nomes como a Sra. Merkel...e assim por diante, todos eles foram Jovens Líderes Globais do Fórum Económico Mundial". Mas o que realmente nos orgulha agora com a jovem geração como o Primeiro Ministro Trudeau, Presidente da Argentina e assim por diante, é que penetramos nos gabinetes... É verdade na Argentina e é verdade em França agora..."

Grande reinicialização

A Grande Reinicialização, tal como explicada por Schwab no seu livro co-autorado de Junho de 2020 com o mesmo título, e elaborado na íntegra no sítio web do Fórum Económico Mundial, está à disposição de qualquer curioso disposto a descobrir. Apresenta um programa para reorganizar a economia global de cima para baixo, utilizando as perturbações da COVID para impulsionar, entre outras coisas, uma agenda verde de carbono zero, a eliminação da proteína de carne e da agricultura tradicional, a eliminação dos combustíveis fósseis, a contracção das viagens aéreas, a eliminação de papel-moeda (cash) por moedas digitais de bancos centrais e um sistema médico totalitário de vacinações obrigatórias.

Na cimeira virtual dos líderes mundiais de Davos de Junho de 2020, apropriadamente intitulada The Great Reset, Schwab declarou: "Todos os países, dos Estados Unidos à China, devem participar, e todas as indústrias, do petróleo e gás à tecnologia, devem ser transformadas. Em suma, precisamos de uma "Grande Reinicialização" do capitalismo... Há muitas razões para prosseguir uma Grande Reinicialização, mas a mais urgente é a COVID-19". A Grande Reinicialização, continua ele, exige que, "os governos implementem reformas há muito necessárias que promovam resultados mais equitativos". Dependendo do país, estas podem incluir mudanças nos impostos sobre a riqueza, a retirada dos subsídios aos combustíveis fósseis... A segunda componente de uma agenda de Grande Reinicialização asseguraria que os investimentos avançassem objectivos comuns, tais como a igualdade e a sustentabilidade".

O que Schwab não menciona é que a sua rede de "líderes globais" de Davos tem estado no centro do avanço da agenda draconiana da COVID, desde confinamentos desnecessários a vacinações forçadas até à máscara obrigatória. A pandemia tem sido a primeira fase necessária da Grande Reinicialização. Sem ela não seria possível falar de mudanças globais fundamentais.

Aqui a agenda de Schwab é a redistribuição global da riqueza para a criação da infame economia "sustentável" da Agenda 2030 das Nações Unidas: "Os EUA, a China e o Japão também têm planos ambiciosos de estímulo económico. Em vez de utilizar estes fundos... para preencher fendas no antigo sistema, deveríamos utilizá-los para criar um novo que seja mais resiliente, equitativo e sustentável a longo prazo. Isto significa, por exemplo, construir infraestruturas urbanas "verdes" e criar incentivos para que as indústrias melhorem o seu historial em termos de métricas ambientais, sociais e de governação (environmental, social, and governance, ESG)". Acrescenta, "A terceira e última prioridade de uma agenda de Grande Reinicialização é aproveitar as inovações da Quarta Revolução Industrial para apoiar o bem público, especialmente através da abordagem dos desafios sociais e da saúde".

Carta roubada

O conto de 1844 do autor americano Edgar Allen Poe, A carta roubada (The Purloined Letter), conta que uma carta roubada da rainha francesa foi utilizada para chantageá-la por um ministro sem escrúpulos. Quando a polícia parisiense faz uma busca meticulosa sem resultado na casa do suspeito ladrão, um amigo do inspector chefe consegue encontrar o documento roubado, "escondido à vista de todos".

Assim acontece com aquilo que é sem dúvida a mais descarada e criminosa conspiração dos tempos modernos, a Grande Reinicialização de Davos. Tudo está lá, aberto a qualquer pessoa com paciência para percorrer as páginas dos comunicados de imprensa e páginas web do WEF. É notável que os actores globais, o "quadro" de Davos cuidadosamente escolhido ao longo dos últimos trinta anos para ser preparado para posições de poder para implementar a agenda do Grande Reinicialização, são abertamente nomeados no sítio web de Davos, encontrados com uma pequena pesquisa paciente. Apareceram listas parciais nomeando um pequeno punhado dos "Jovens Líderes Globais" de Davos. Uma pesquisa mais exaustiva de cerca de 1400 nomes nas aulas anuais do quadro escolar desde 1992 revela uma espantosa e detalhada conspiração. O sítio web do WEF afirma que os líderes globais são "treinados para estarem alinhados com a missão do Fórum Económico Mundial", para "impulsionar a cooperação público-privada no interesse público global".

O que se segue é o resultado da revisão de cada classe de futuros líderes globais do FEM desde 1993.

O que é mais notável é que os principais actores ligados a Schwab estão envolvidos nas medidas decisivas que tornaram a COVID-19 "pandemia" no processo económica e fisicamente destrutivo que é. Os ex-alunos do WEF estão no meio de tudo o que se refere ao Covid.

Davos, Gates e vacinas mRNA

No centro da agenda COVID-19 está claramente o lançamento em "velocidade vertiginosa" (“warp speed”) de misturas experimentais não testadas de genes mRNA editados, mal chamadas de vacinas, por duas empresas farmacêuticas – a Pfizer (com a BioNTech da Alemanha) e a Moderna dos EUA.

Bill Gates (WEF 1993) e a sua Fundação Gates estão no centro do lançamento das injecções de genes mRNA editados, juntamente com Tony Fauci do NIAID dos EUA. Gates foi seleccionado por Schwab antes mesmo de ele ter criado a Fundação Bill e Melinda Gates, em 1993, para o primeiro grupo de quadros do WEF juntamente com Angela Merkel, Tony Blair, Gordon Brown e outros. Será que Schwab influenciou Gates a criar a fundação?

O dinheiro da Fundação Gates, centenas de milhões, comprou efectivamente o controlo da corrupta Organização Mundial de Saúde da ONU, segundo a denunciante da OMS, a epidemiologista suíça Astrid Stuckelberger, a qual numa entrevista recente declarou: "A OMS mudou desde que lá estive... Houve uma mudança em 2016... Foi especial: Organizações não-governamentais – tais como a GAVI, Global Alliance for Vaccine Immunization, liderada por Bill Gates – juntaram-se à OMS em 2006 com um fundo. Desde então, a OMS evoluiu para um novo tipo de organização internacional. A GAVI ganhou cada vez mais influência, e imunidade total, mais do que os diplomatas na ONU".

A fundação de Gates, juntamente com o WEF de Schwab, criaram a GAVI global –The Vaccine Alliance em 2000. Outro infame ex-aluno da classe dos Líderes Globais do WEF Gates, José Manuel Barroso (WEF 1993), –Presidente da Comissão Europeia de 2004-2014, ex-chefe da Goldman Sachs International, membro do Comité Director da Bilderberg – foi nomeado CEO da aliança de vacinas GAVI financiada por Gates em Janeiro de 2021, quando foram lançadas as injecções mRNA. Barroso agora supervisiona os gastos globais com as vacinas do mRNA para Gates e a OMS.

Albert Bourla, director executivo da Pfizer, é um Contribuinte da Agenda do WEF. O seu vice-presidente da Pfizer, Vasudha Vats (WEF 2021), é um "líder global" recruta do WEF.

O outro principal fabricante de injecções mRNA é a Moderna, cujo CEO, Stéphane Bancel (WEF 2009) é outro ex-aluno de Davos. Logo no ano seguinte, 2010, Bancel foi seleccionado para ser CEO de uma nova empresa, Moderna, em Massachusetts. Em 2016, sem nenhum produto mRNA bem sucedido ainda aprovado, a Moderna da Bancel assinou um acordo-quadro global de projectos de saúde com a Fundação Bill & Melinda Gates para avançar com projectos de desenvolvimento baseados no mRNA para várias doenças infecciosas. No mesmo ano, a Bancel assinou um acordo-quadro de projecto global de saúde com Tony Fauci e o NIAID. Num discurso proferido em Janeiro de 2018 na Conferência do JP Morgan Healthcare, mais de um ano antes de o mundo ter ouvido falar da COVID-19 vinda de Wuhan China, Gates declarou: "Estamos a apoiar empresas como a CureVac e a Moderna nas abordagens mRNA para o desenvolvimento de vacinas e drogas...". Presciência?

domingo, 19 de setembro de 2021

Foi você que pediu uma teoria da conspiração negacionista?

por Filipe Santos Costa

A imagem de Eduardo Ferro Rodrigues acossado por uma manifestação de negacionistas, que o insultavam enquanto o presidente da Assembleia da República almoçava com a mulher num restaurante em frente ao Parlamento, marcaram um novo momento de visibilidade para os grupos mais radicais na negação dos perigos da covid e na recusa da vacinação.
A fúria com que umas dezenas de pessoas insultavam a segunda figura do Estado - chamando-lhe “assassino” e “bandido” -, e bateram no carro em que Ferro abandonou o local coincidiu com as notícias do excelente progresso da campanha de vacinação em Portugal, que esta semana se destacou como país do mundo com mais população vacinada com as duas doses.




Os estudiosos das teorias da conspiração apontam a frustração e o ressentimento como combustíveis de propagação deste pensamento. Em Portugal, as campanhas negacionistas pouco impacto tiveram na recusa vacinal, incluindo uma enorme adesão dos jovens entre os 12 e os 15 anos - o mote da pequena multidão que se manifestava era “proteger as crianças” da vacina. “Não toca nas crianças”, berrava uma das manifestantes filmadas de megafone em punho, enquanto ao seu lado alguém caluniava Ferro Rodrigues como “pedófilo”, repisando uma das mais ignóbeis teorias da conspiração lançadas em Portugal.

Para além de ter coincidido com a marca de 80% da população portuguesa completamente vacinada, o ataque a Ferro Rodrigues regista outra coincidência: aconteceu a 11 de setembro. Ora, esta data, para sempre associada aos ataques terroristas de 2001, marca o início do enorme boom de teorias da conspiração, alimentadas primeiro pela internet, e mais tarde pelas redes sociais, e que se tornaram um dos elementos incontornáveis da nossa discussão pública, da vida política e da paisagem mediática.

A grande era das teorias da conspiração começou após o 11 de setembro de 2001. Desde então, tem sido um corrupio de teorias da globais, e outras localizadas - mas mesmo essas, mimetizando as grandes construções internacionais. Não sabemos quando, nem como, esta era acabará. Sabemos que a pandemia deu um novo impulso a todo o tipo de especulação conspirativa, desde os que acreditam que o vírus não existe aos que juram que as vacinas estão ligadas ao 5G e a um plano maléfico de controlo mental da população do mundo. O céu é o limite.

Rumores e teorias da conspiração circulam desde o início dos tempos. Mas neste século, as possibilidades tecnológicas permitidas pela internet e pelas redes sociais deram-lhes um impacto nunca antes visto. E conhecemos os seus efeitos. Exemplos óbvios: um presidente dos Estados Unidos foi eleito à boleia de várias teorias da conspiração, todas demonstradamente falsas. Uma turba enfurecida atacou o Capitólio dos EUA alimentada por teorias da conspiração propagadas por esse presidente americano. Agora, por cá, outra turba, mais pequenina - mas bastante ruidosa, igualmente enfurecida, e com potencial para a violência - cercou, insultou e ameaçou a integridade física da segunda figura do Estado Português.

Não, não podemos continuar a olhar para os negacionistas e conspiracionistas como meros chalupas que propagam ideias malucas. António Nunes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, está convicto de que “este movimento está para durar e agravar a forma de expressão pública sem qualquer respeito pela opinião de outros” e avisa que “o Estado, a polícia, as informações têm de se preparar para atividades ilegais mais frequentes e violentas por parte de grupos radicais que em alguns momentos tocam ou a subversão ou ‘o terrorismo de contestação por causas indiferenciadas’."

Segundo a TVI, este caso desencadeou na unidade de contraterrorismo da PJ uma investigação à lupa aos negacionistas e às suas eventuais ligações à extrema-direita; e o Expresso noticiou que as autoridades irão reforçar a segurança dos principais protagonistas políticos e dar mais atenção aos movimentos destes grupos radicais.
Também no Expresso desta semana, Cátia de Carvalho, investigadora em psicologia do terrorismo na Universidade do Porto, mostra-se menos preocupada com a eventual escalada de violência, pois este parece-lhe “ser mais um fenómeno com forte expressão na realidade virtual e não tanto na realidade física”. Para além de que a taxa de vacinação em Portugal é alta e a pandemia vai aos poucos saindo das manchetes. Porém, a mesma investigadora reconhece que “mesmo não havendo violência, estamos perante uma situação de extremismo e que revela, seguramente, vários casos de problemas e de ausência de saúde mental."


Joseph E. Uscinski, académico norte-americano que se especializou no estudo destes fenómenos, chama a atenção para o facto de que “as teorias da conspiração não são ideias marginais, cuidadosamente escondidas nos cantos escuros da sociedade. São política, económica e socialmente relevantes para todos nós. Estão interligadas com nossa vida quotidiana de inúmeras maneiras. Assim como outras ideias, têm consequências, que às vezes podem ser mortais.”

Em fevereiro passado, o think tank Global Network on Extremism & Technology (um projeto do King’s College, de Londres) divulgou um estudo sobre a ligação entre teorias da conspiração, fenómenos de radicalização e media digitais. Pode lê-lo aqui. Nas últimas duas décadas foi publicada muita literatura sobre o assunto, mas este relatório, em apenas 48 páginas, condensa o essencial do que se sabe e do que é preciso saber sobre o assunto.

O documento analisa 6 factos que se podem considerar indisputáveis sobre as teorias da conspiração:

  • atualmente são sobretudo disseminadas através das redes sociais e plataformas de partilha de conteúdos mediáticos;
  • historicamente as teorias da conspiração têm desempenhado um papel importante em casos de radicalização, terrorismo, perseguição e genocídio;
  • a crença em teorias da conspiração está psicologicamente associada a intolerância, extremismo e vontade de infringir a lei;
  • os autores e supostos autores de muitos massacres recentes em várias partes do mundo foram motivados pela crença em teorias da conspiração;
  • estas teorias têm desempenhado um papel fundamental na violência política a que se tem assistido nos EUA, incluindo a insurreição de 6 de janeiro de 2021;
  • as atitudes tomadas pelas redes sociais e pelas plataformas de partilha de vídeos e “informação” são inadequadas para resolver os problemas associados a teorias da conspiração, em parte porque as próprias plataformas estão concebidas de uma forma que alimenta e protege o pensamento conspirativo.

Brevíssima história das teorias da conspiração

Não há História nem poder sem conspiração. O mesmo se pode dizer das teorias da conspiração, sobretudo a partir do período medieval na Europa. “As raízes do pensamento conspiracionista podem ser encontradas na época medieval, em superstições que se tornaram secularizadas após o período da Revolução Francesa. (...) Na Europa pré-moderna, os judeus eram amplamente vistos como ‘uma liga de feiticeiros usados por Satanás para a ruína espiritual e física da cristandade’, e, desde os séculos XVIII e XIX, foram reinventados como ‘um corpo conspiratório decidido a arruinar e depois dominar o resto da humanidade', com a alegação de feitiçaria substituída pela alegação superficialmente mais racional de ‘controle mental tecnológico e económico’ por meio de ‘bancos, mass media, governo, [e] educação”, conforme é resumido aqui.

A “conspiração global” dos judeus foi, em diferentes épocas e geografias, substituída pela conspiração global dos maçons, dos illuminati, dos comunistas, dos grupos de Bilderberg e de Davos. Noutra versão, mais recente, Bill Gates, sozinho, é o próprio Satã. Nas versões mais modernas, o “controlo mental” não é exercido através de feitiços, mas de chips injetados com as vacinas contra a covid, ou por sinais emitidos pelas antenas de 5G (ou ambos, em simultâneo, para garantir que a coisa não falha). E os velhos bebedores de sangue de crianças passaram a ser... pedófilos.

O que são, então, as teorias da conspiração? O primeiro a cunhar a expressão foi o filósofo Karl Popper. No final dos anos 40, ainda à sombra do Holocausto, Popper descreveu aquilo a que chamou de “teoria da conspiração da sociedade” como uma forma totalmente simplista - e, pormenor importante, não científica - de compreender as relações sociais, que surgiu como uma reação, e em oposição, ao Iluminismo, após o terramoto cultural e social que foi a Revolução Francesa.

O assunto interessou muitos académicos, sobretudo focados na II Guerra Mundial e na emergência dos autoritarismos europeus. Mas em 1964 foi publicano na Harper’s Magazine um texto seminal sobre a influência das teorias da conspiração na política. “O estilo paranóico na política americana”, de Richard Hofstadter, está aqui, para leitura livre.

Segundo Hofstadter, o conspirador olha para “a história [como] uma conspiração, posta em movimento por forças demoníacas de poder quase transcendente”. É tal a dimensão e a influência dessas forças, que o teórico da conspiração acredita que apenas uma luta apocalíptica - no fundo, uma cruzada - é capaz de travar um desfecho nefasto. O conspirador sente-se como um dos eleitos, um dos poucos que veem a verdade e o poder da conspiração que precisa de denunciar e combater. Por isso, conclui Hofstadter, para os teóricos da conspiração “o tempo está sempre a esgotar-se”.

O texto da Harper’s foi um marco, e tem as marcas do tempo em que foi escrito. O timing não foi um acaso. Os EUA ainda não tinha superado o choque do assassinato do presidente Kennedy, no ano anterior, que alimentou inúmeras teorias da conspiração - muitas delas contraditórias entre si (a coerência nunca foi um forte deste tipo de pensamento: os nazis tanto acusavam os judeus de serem capitalistas gananciosos como comunistas subversivos… os exemplos de incoerência abundam por essas bandas). E o ambiente de Guerra Fria era uma estufa que alimentava a paranoia, tão bem personificada no senador Joe McCarthy, o grande caçador de comunistas, à semelhança dos inquisidores que caçavam bruxas.

Uma das definições mais interessantes de teoria da conspiração que encontrei foi esta, do livro “Conspiracy Theories and the People Who Believe Them”, publicado pela Universidade de Miami, e coordenado por Uscinski, que reúne cerca de 40 especialistas no assunto. “A teoria da conspiração refere-se a uma explicação de eventos ou circunstâncias passadas, em curso ou futuras, que cita como principal fator causal um pequeno grupo de pessoas poderosas - os conspiradores -, agindo em segredo para seu próprio benefício e contra o bem comum. Os conspiradores podem ser governos estrangeiros ou nacionais, atores não governamentais, cientistas, organizações religiosas, fraternais ou qualquer outro grupo considerado poderoso e pérfido. As teorias da conspiração são, no seu âmago, sobre o poder: quem o tem e o que fazem com ele quando ninguém está a ver.”

A pandemia conspirativa da pandemia

Sendo, na sua essência, uma forma de contrariar e combater o poder instituído - numa luta, precisamente, pelo poder de controlar as narrativas políticas e sociais - as teorias da conspiração minam o establishment, apresentando factos alternativos, mas também realidades alternativas e formas alternativas de chegar ao “conhecimento”. “Está na internet” costuma ser a explicação que garante fiabilidade a “factos” e narrativas que contrariam o discurso oficial do poder político, o cânone da academia ou as demonstrações da ciência.

“Investigue você mesmo” é o novo mantra. Tudo vale, menos os especialistas. “As pessoas deste país estão fartas de experts”, proclamou Michael Gove, então ministro do governo conservador britânico, e um dos porta-estandartes da campanha pelo Brexit, como forma de desqualificar os especialistas remainers, que insistiam em desmontar com factos as “realidades alternativas” prometidas pelos partidários da saída do Reino Unido da UE.

O que valeu para o Brexit (com a vitória dos factos alternativos contra os factos dos especialistas) vale para tudo, como se viu na campanha de Trump e se tem visto há mais de um ano com a pandemia de covid-19. No último ano e meio a ciência tem sido um dos alvos dos teóricos da conspiração, aqui em versão negacionista: negam a existência do vírus, ou a sua perigosidade, negam a existência da pandemia, ou a sua dimensão, negam a necessidade das vacinas, ou a sua eficácia, ou o seu propósito. Ou, mais uma vez, tudo junto.

A variedade, a amplitude imaginativa e o impacto das teorias da conspiração sobre a covid é um caso de estudo. Os especialistas asseguram que momentos ou acontecimentos traumáticos costumam ser um catalisador de teorias da conspiração - foi assim na Alemanha pós-I Guerra Mundial e pós-crise financeira; foi assim na América após o assassinato de Kennedy e na ressaca dos 11 de setembro (lá iremos); foi assim em Portugal por muitos anos após a morte de Francisco Sá Carneiro e Amaro da Costa em Camarate, para dar apenas três exemplos óbvios. Assim tem sido também com a pandemia que parou o mundo.

O think tank Aliança para a Ciência, ligado à Universidade de Cornell (e financiada, entre outros… por Bill Gates... portanto… continue a leitura por sua conta e risco), fez aqui um levantamento do Top 10 das teorias da conspiração sobre o SARS-Cov2. Ei-las:

1. A culpa é do 5G: o vírus teria sido disseminado à boleia das antenas de 5G. A “prova”? A pandemia alastrou pelo mundo ao mesmo tempo que os vários países iam adotando a tecnologia 5G… coincidência?... A teoria é confusa e vaga, como convém, mas parte da ideia de que as comunicações de radiofrequência 5G têm um impacto prejudicial sobre saúde. A partir daqui há três versões: a) a covid-19 não existe e as pessoas estão a adoecer por causa dos efeitos do 5G; b) a covid existe, mas é a radiação que está a deprimir o sistema imunitário das pessoas, tornando-as mais propensas a sofrer com o vírus; c) a covid existe e é transmitida pelo espetro eletromagnético do 5G (embora num caso estejamos a falar de ondas, e noutro, de proteínas e ácidos nucleicos… - e não, os vírus não podem ser transmitidos pelas redes móveis).

2. A culpa é do Bill Gates: depois de criticar a administração Trump pela gestão da pandemia e por cortar o financiamento à OMS, Gates foi visado por setores negacionistas e de extrema-direita como o mastermind da pandemia, numa série de teorias da conspiração. O New York Times conta aqui boa parte dessa história. A “prova” era um vídeo de 2015 em que o milionário e filantropo alertava que podia vir aí uma nova pandemia, depois de alguns surtos de ébola que causaram alarme. E qual o objetivo de Gates? Forçar uma gigantesca campanha de “vacinação” através da qual a humanidade seria injetada com um microchip capaz de rastrear e controlar as pessoas…

3. O vírus escapou de um laboratório chinês: existe um instituto de virologia na cidade de Wuhan, onde há muito tempo é feita investigação sobre coronavírus, nomeadamente associados a morcegos. A teoria da falha de segurança tornou-se popular na direita americana, e Donald Trump sempre lhe deu gás. A OMS tem investigado essa hipótese e Joe Biden tentou tirá-la a limpo. Até agora, não existe qualquer prova que a valide, e a sequenciação genética do novo coronavírus não coincide com nenhuma das amostras existentes nesse laboratório. Mas esta é, de todas as teorias de conspiração sobre a pandemia, a mais plausível - o que lhe dá uma enorme vantagem sobre todas as restantes. Segundo um estudo do Pew Research, um terço dos americanos acredita que o vírus foi criado em laboratório - de forma intencional ou não.

4. A covid-19 é uma arma biológica: na indecisão sobre se o vírus existe ou não existe, uma parte dos conspiracionistas acredita que o SARS-Cov2 existe e foi intencionalmente criado como arma biológica pela China. Tom Cotton, senador do Partido Republicano, amplificou esta tese. Mais uma vez: a sequenciação genética aponta para um vírus de origem natural, oriundo dos morcegos, sem manipulação humana.

5. Foram os EUA que criaram o vírus e o levaram para a China: é a resposta chinesa à teoria anterior. O vírus teria sido introduzido na China por pessoal militar norte-americano que participou na edição de 2019 dos Jogos Militares Mundiais (sim, isso existe), que se realizaram… em Wuhan.

6. A culpa é dos OGM: há anos que o cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM) está envolto em inúmeras teorias da conspiração. Naturalmente, essas acabaram por se cruzar com a pandemia. Os contornos são pouco claros, e oscilam entre a ideia de “contaminação genética” por parte dos OGM e a de experiências genéticas que correram mal. Em todo o caso, fica por explicar de que forma vírus de origem animal que migram para os humanos podem ter origem na agricultura.

7. A covid não existe: a conspiração das conspirações foi lançada por Alex Jones, um dos maiores propagadores de fake news nos Estados Unidos. O SARS-Cov2 não existe (quanto muito, será uma constipação) e não passa de uma ficção lançada por gente poderosa que nos quer tirar as liberdades.

8. A pandemia é manipulada pelo Deep State: a crença de que existe um Estado oculto que controla o Estado tornou-se muito popular nos EUA sobretudo após o 11 de setembro. Há uma elite puxa os cordelinhos do país e que se terá tornado ainda mais ativa com Donald Trump, para sabotar o seu trabalho. Anthony Fauci, o homem que mais fez frente à desinformação lançada por Trump, seria, claro, membro desse “Estado profundo”. Trump chegou a referir essa teoria numa das suas conferências de imprensa, causando uma reação de Fauci que ficou para a posteridade.



9. É uma conspiração das farmacêuticas: seja real (numas versões), ou ficcional (noutras), a covid é uma forma da Big Farma ganhar milhões com vacinas “feitas à pressa” (sim, foi em tempo recorde, mas com base numa tecnologia que estava a ser desenvolvida há 20 anos).

10. Os dados estão manipulados: segundo esta teoria, um conjunto de organizações do Estado - por todo o mundo - e mais umas quantas organizações internacionais e universidades e ONG estariam mancomunadas para empolar os dados de casos, internamentos e mortes - tudo para justificar um clima de medo e a restrição de liberdades. Há sempre alguém que conhece o primo do cunhado de alguém que sabe que… Esta teoria choca de frente com outra, segundo a qual os verdadeiros números de casos e de mortos seriam muito mais altos e os governos estariam a esconder a dimensão da tragédia para não se ver sua incompetência. Também neste caso o vizinho da sogra conhece alguém num hospital que jura que… Em Itália, circulou um vídeo em que duas mulheres “demonstravam” que o serviço de urgência de um hospital de Milão que alegadamente estaria a rebentar pelas costuras com pacientes covid estava, afinal, tranquilo, e sem ambulâncias à porta. Os políticos, os médicos e os jornalistas estariam a mentir sobre o caos nos hospitais. “São terroristas”, diziam elas. O vídeo, claro, era falso - não foi filmado no serviço de urgência do hospital, mas noutra ala.

Com mais ou menos alterações, estas são no essencial as grandes teorias da conspiração que alastraram pelo mundo fora sobre a pandemia. No verão passado, em França, estas eram as teorias de conspiração mais populares sobre a covid-19 entre aqueles que disseminavam mensagens anti-máscara:

Ligação ao 5G (81%)
Microchip de Bill Gates (8%)
A pandemia não existe (4%)
O vírus foi criado em laboratório (2%)
A segunda vaga não existiu (2%)
O alho cura a covid (2%)
A vitamina C cura a covid (2%)

Uma velha luta contra a ciência
Não é nova a luta dos negacionistas contra a evidência científica. Pelo contrário, a contestação ao saber científico é um dos traços mais persistentes na sua luta contra as narrativas do poder.

A contestação à ciência começa, desde logo, com aqueles que contestam a teoria da evolução - tendem a ser os setores mais ultra-religiosos, que lêem a Bíblia e a descrição do Génesis literalmente. A crença na Terra plana vai pelo mesmo caminho.

Mas não faltam outros exemplos de contestação à ciência. O surgimento do HIV deu rédea solta a teorias da conspiração. Em muitas sociedades africanas, o medo da ciência e dos medicamentos era superior ao medo da SIDA. Um antigo ministro da saúde sul-africano, Manto Tshabalala-Msimang, dizia que e epidemia de SIDA no país tinha sido causada por “uma conspiração global com o objetivo de reduzir a população do continente”. O seu governo recomendava massagens e vitaminas para curar a doença, pois alegava que os medicamentos disponibilizados contra o HIV faziam parte da conspiração do Ocidente. Calcula-se que 300 mil pessoas terão morrido em consequência destas teorias.

A contestação às alterações climáticas é outro caso clássico da mentalidade conspirativa vs ciência. Há umas décadas, as teorias da conspiração alegavam que as alterações climáticas eram um “embuste” de alguns cientistas que tinham evidências escassas. Trinta anos depois, as evidências apenas se fortaleceram e cerca de 97% dos cientistas que estudam o clima concordam que este está a mudar devido à atividade humana. Os teóricos da conspiração das alterações climáticas, que no início alegavam que não havia acordo científico sobre o assunto, agora - perante o enorme consenso científico -, garantem que esse consenso está empolado. E, perante os estudos que demonstram a mão humana nas alterações climáticas, a resposta é que os estudos são manipulados. Mais uma vez, encontramos Donald Trump como um dos propagadores do pensamento conspirativo, rotulando as alterações climáticas como “embuste”.

E há, claro, a velha luta dos negacionistas e teóricos da conspiração contra as vacinas. A contestação às vacinas tem uma história tão longa como as vacinas. Vem do século XVIII, portanto. Mais de dois séculos a acumular medos e a apontar gente poderosa com intuitos sinistros. Até na gripe espanhola - para a qual a ciência não conseguiu criar uma vacina - houve debates inflamados contra a vacina, com visões conspirativas. Este artigo publicado em março pela Fast Company conta essa história, de um ponto de vista americano, sendo certo que os EUA foram sempre um dos epicentros da hesitação vacinal e das teorias da conspiração sobre o assunto.


O momento-chave da contestação moderna contra as vacinas foi a publicação de um artigo, em 1998, na prestigiada publicação científica Lancet, segundo o qual a vacina contra sarampo, papeira e rubéola estaria ligada ao aumento de crianças diagnosticadas com autismo. o gastroenterologista Andrew Wakefield foi o principal responsável pelo estudo, que lançou uma enorme polémica, e seria desmentido, pelos anos seguintes, em inúmeros estudos de outros investigadores, divulgados em publicações igualmente de referência, como The New England Journal of Medicine e a própria Lancet. Por fim, dez dos investigadores da equipa de Wakefield acabaram por se retratar, e a Lancet admitiu que não devia ter divulgado o estudo original. Em 2010, o UK General Medical Council concluiu que Wakefield agiu de forma “desonesta e irresponsável” e a Lancet reconheceu que alguns dos dados essenciais da pesquisa original haviam sido manipulados, para confirmar a conclusão.

Mas nada disto travou a propagação da crença de que a vacina contra o sarampo aumentava os riscos de autismo. Estrelas como a modelo Jenny McCarthy, o ator Jim Carrey ou a cantora Toni Braxton deram grande visibilidade a essa teoria na televisão americana, naquele que foi o maior impulso de sempre às teses dos anti-vaxers. Os inúmeros desmentidos da comunidade científica, e a retratação final da Lancet, foram apenas olhados como mais uma prova de uma “conspiração” de poderosos para impedir que se saiba “a verdade”.

Consequência: surtos de doenças antes consideradas erradicadas ressurgiram recentemente. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros locais, o sarampo voltou - e as mortes também. A vacina contra o HPV, ou papiloma vírus humano tem sido igualmente visada por teorias de conspiração infundadas. Até a vacina contra o vírus zika, que ainda não existe, faz parte de uma conspiração negra, para encher os bolsos da big pharma, ou fazer experiências em humanos, ou envenenar o público...

O século das teorias da conspiração
As teorias da conspiração não são uma novidade do século XXI, mas são “um marco do início do século XXI”, escreve Joseph E. Uscinski. “As teorias da conspiração dominaram o discurso das elites em muitas partes do mundo e tornaram-se o grito de guerra dos principais movimentos políticos. (…) Os desenvolvimentos mais alarmantes na política mundial estão intimamente ligados às teorias da conspiração. Demonstrações recentes de populismo, nacionalismo, xenofobia e racismo são todas acompanhadas por narrativas de conspiração. Muitos líderes mundiais justificaram o autoritarismo e a consolidação do poder com bodes expiatórios e acusações de conspiração. A internet, que foi apontada como um instrumento de democracia, tem sido usada para manipular as massas - por lucro ou poder - com notícias falsas que consistem principalmente em teorias da conspiração construídas sem qualquer ligação com a realidade.”

Quando falamos do século XXI, estamos mesmo a falar do início do século XXI. Houve um prelúdio destes novos tempos com a traumática disputa eleitoral entre George W. Bush e Al Gore, com o democrata a perder a Casa Branca por causa de poucos milhares de votos. A derrota dos democratas, ditada pelo Supremo Tribunal no meio de uma enorme controvérsia, convenceu-os de que a eleição fora fraudulenta. Segundo as sondagens de opinião, metade dos democratas pensava que o processo havia sido viciado contra Al Gore. George W. Bush entrou com o pé esquerdo, cercado por teorias da conspiração lançadas pela esquerda americana. O que se agravaria logo no ano seguinte com o acontecimento que marca o grande boom moderno das teorias da conspiração: o 11 de setembro.

“O resultado foi uma lesão psíquica duradoura, tão prejudicial quanto os próprios ataques. O fumo mal havia se dissipado quando uma nova nuvem se formou, trazendo com ela uma desconfiança em relação às respostas oficiais e uma vontade de acreditar em conspirações muito mais bizarras do que a que a Al Qaeda havia levado a cabo. Tal como aconteceu com o assassinato de John F. Kennedy, ao 11 de setembro seguiu-se uma onda de incredulidade, pois milhões simplesmente recusaram-se a acreditar na história oficial e, em vez disso, procuraram conforto na história alternativa”, lia-se há poucos dias no Wall Street Journal, num texto sobre os 20 anos desse acontecimento.

A tese principal desse artigo, em linha com o pensamento de muitos estudiosos, é que o 11 de setembro abriu “uma nova era de teorias da conspiração”, com a internet a “deitar gasolina na fogueira”.

Parece haver uma regra, segundo a qual as teorias da conspiração surgem à proporção da cobertura mediática que um evento recebe. A ser assim, não admira o impacto do 11 de setembro nos recantos obscuros do conspiracionismo. A BBC elencou aqui as principais teorias que, duas décadas depois, continuam a circular sobre esse dia trágico - não falta o “Governo mundial”, a “conspiração judaica”, e a “cumplicidade dos media”.

É hoje claro que a Administração Bush deu um forte empurrão à desconfiança e às teorias de conspiração quando - após uma primeira resposta militar contra a Al Qaeda e o Afeganistão - aproveitou o embalo para atacar o Iraque com base em alegações totalmente falsas sobre a existência de armas de destruição massiva. Esse é o argumento de David Corn neste texto do Mother Jones.

As teorias da conspiração não esperaram por esse desvio para o Iraque; começaram logo após os atentados. Mas uma das peças centrais das construções fantasistas em torno do ataque às Torres Gémeas, ao Pentágono e ao avião que caiu na Pensilvânia foi este filme, "Loose Change", lançado em 2005. É um dos primeiros casos de vídeos virais com teorias da conspiração na era da internet (e ainda sem redes sociais]. Passados tantos anos, o New York Times escreveu que este filme amador foi a peça que “deu força ao movimento truether [que exigia ‘saber a verdade’ sobre os atentados] e deu o template para a atual era de desinformação”.



“O seu DNA está por toda a internet - de vídeos do TikTok sobre tráfico sexual infantil a tópicos no Facebook sobre curas milagrosas da Covid-19 - e muitas das suas falsas alegações ainda conseguem uma quantidade surpreendente de tempo de antena”, escreve o jornalista do NYT que reviu agora esse filme. O trabalho teve a colaboração de Alex Jones, o guru da desinformação de extrema-direita no site Infowars.

“A mensagem do filme de que as pessoas poderiam descobrir a verdade sobre os ataques por si mesmas também se tornou uma tática central para grupos como o QAnon e a multidão anti vacinas, que exortam os seus seguidores a ignorar os especialistas e ‘fazer sua própria pesquisa’ online.” Para além do artigo que cito acima, recomendo a escuta deste episódio do podcast do NYT The Daily, sobre como este documentário amador acabou, de certa forma, por dominar o mundo - está ali o guia para a desinformação e as teorias da conspiração que se tornaram o nosso dia a dia.

Se “Loose Change” começou por ser partilhado por email, o surgimento das redes sociais e plataformas de partilha de conteúdos abriu a autoestrada que faltava para o acesso livre a todo o tipo de teoria de conspiração. As redes sociais e plataformas de partilha como YouTube, Facebook, Twitter e Instagram tornaram-se propagadores de crenças conspiratórias e todo o tipo de desinformação. E existem outras plataformas online quase só dedicadas à circulação dessas teorias, dos grupos de Whattsapp às seções de comentários dos grandes jornais mainstream. E muitos dos principais influenciadores online acabam por dar palco a essas teorias.

Este ensaio é um bom resumo sobre como as teorias da conspiração se espalham online. Tem a ver com os algoritmos, mas não só, argumentam os autores. Este processo está bem identificado por abundante literatura, mas tem sido difícil quebrá-lo.

Para início de conversa, há um modelo de negócio destas redes e plataformas que alimenta um loop infinito de exposição a determinado tipo de conteúdos. “Os principais sites de redes sociais e partilha de media foram projetados para alcançar um resultado que é quase o inverso exato [do que deveria acontecer]: o Facebook traz pessoas com interesses semelhantes; YouTube recomenda vídeos que são considerados semelhantes aos que o visualizador já respondeu positivamente; e o Twitter e o Instagram recomendam seguir utilizadores com narrativas semelhantes às que já estão a ser seguidas. Essa funcionalidade carrega um risco inerente, devido ao seu potencial óbvio para levar indivíduos suscetíveis a visões cada vez mais extremas”, conforme se lê aqui.

Ora, segundo os estudiosos da ligação entre teorias da conspiração, radicalização e redes sociais, o que deve acontecer é exatamente o contrário: deixar de alimentar a mentalidade conspirativa com mais teorias da conspiração. Viver numa bolha em que toda a interação acontece apenas com gente que pensa da mesma forma só aumenta as convicções conspirativas e extremistas.

“Para evitar que crenças conspiratórias se instalem, será necessário envolver os indivíduos com argumentos racionais antes de serem expostos às teorias da conspiração, e numa fase em que suas conexões sociais ainda não chegaram a ser dominadas por crentes em conspiração. Isso não é compatível com a facilitação da disseminação de teorias da conspiração e a formação de grupos dedicados ao pensamento conspirativo. Abordar verdadeiramente o problema pode, portanto, exigir uma abordagem fundamental de redesenho das plataformas”, defende o Global Network on Extremism and Technology.

Mesmo que não existissem redes sociais, as teorias da conspiração continuariam a fazer o seu caminho, argumentam os autores deste texto do site The Conversation. Que detetam uma deliciosa ironia: “as acusações dirigidas às redes sociais tendem a assumir a mesma forma narrativa de muitas teorias da conspiração. Pode ser o relato de um pequeno episódio, talvez o testemunho de uma fonte credível, como um médico alegando que as empresas de media sociais ‘têm mesmo sangue nas mãos’. Ou pode ser o retrato do público como a vítima inocente nas mãos de exploradores maliciosos da Internet - tudo projetado para atrair pessoas já dispostas a desconfiar de corporações e empresas de tecnologia. O problema com essas acusações é que as evidências mostram um quadro mais matizado.”

Nos media tradicionais, as teorias da conspiração, que eram tratadas como algo esotérico e de nicho, passaram a ocupar cada vez mais espaço. Em novembro de 2017, o New York Times publicou um artigo com a expressão “teorias da conspiração” quase todos os dias. Em comparação, o Times publicou zero desses artigos no mesmo mês, quarenta anos antes. Nada de espantar se tivermos em conta que em 2016 os EUA elegeram como presidente o propagador in chief de teorias da conspiração.

O fator Trump
Donald Trump era um promotor imobiliário de Nova Iorque, rico, bon vivant, frequentador das revistas de social e dono da marca Miss USA, até começar a dar nas vistas como media personality, enquanto apresentador do reality show The Apprentice, em 2004. A sua invenção como influenciador político acontece em 2008, com a eleição de Barak Obama.

Num recanto da internet nasce a teoria de que Obama é um presidente ilegítimo, porque não seria cidadão americano - teria nascido no Quénia, e não no estado americano do Havai. Apesar de Obama ter disponibilizado o seu certificado de nascimento, os birthers (como ficaram conhecidos os que exigiam “a verdade” sobre o local de nascimento do presidente) alegavam que se tratava de uma falsificação. Trump descatou-se como um dos grandes divulgadores dessa conspiração - e tornou-se um dos porta-estandartes de uma certa direita radical.

Daí em diante, foi uma cavalgada de conspirações, antes, durante e após as eleições que o levaram à Casa Branca. Ao longo de todo o processo, desde as primárias estaduais até ao dia das eleições gerais, Trump afirmou que o processo estava viciado e seria fraudulento. Mesmo meses após sua improvável vitória, Trump continuou a afirmar que, apesar de ter vencido, o resultado fora manipulado - sem qualquer prova, insistiu que três milhões de votos em Hillary Clinton eram de eleitores ilegais. Todas as investigações demonstraram o contrário, mas nunca os factos travaram uma boa teoria da conspiração.

Entre as teorias da conspiração mais notórias de Donald Trump conta-se sua acusação de que o pai do senador Ted Cruz (seu adversário nas primárias) participou do assassinato de Kennedy. Em circunstâncias normais, uma acusação tão descabelada seria suficiente para desqualificar um candidato, mas não com Trump. O seu apoio às teorias da conspiração nunca o prejudicou. Garantiu que os refugiados sírios eram agentes do ISIS, que o México enviava “bad hombres”, assassinos e violadores, para atacar americanos inocentes e até que Obama (o “queniano”) era muçulmano e simpatizava com terroristas. Esta sopa da pedra tinha sempre o mesmo sabor: as elites políticas não são de confiança, e venderam os interesses dos americanos a obscuras entidades - e era preciso “drenar o pântano” de Washington.

Trump e os seus apoiantes alimentaram todas as teorias sobre a sua principal adversária, Hillary Clinton, incluindo a mais absurda de todas, que ficou conhecida por “Pizzagate”.


A coisa é tão louca, que o New York Times fez esta infografia, como ilustração deste artigo, a tentar ligar as várias peças. Note nas palavras Hillary, Obama, democrata, Wikileaks, canibalismo, pedofilia, satanismo… Resumindo: Hillary, Obama e boa parte do establishment do Partido Democrata estariam ligados a uma rede de pedofilia, pornografia infantil, canibalismo, tráfico humano e satanismo, incluindo túneis secretos em Washington. O centro dessa trama alucinada seria a popular pizzaria Comet Ping Pong, na capital americana. É como se séculos de teorias da conspiração tivessem sido metidos numa Bimby e saísse uma pasta de aspeto repugnante.

Houve muito quem acreditasse. Em dezembro de 2016, Edgar Maddison Welch disparou uma arma para dentro da pizzaria de Washington, para castigar os envolvidos no “Pizzagate”. Os relatos deste caso dão conta de que Welsh, que se assumiu culpado de acusações de porte de arma e tentativa de homicídio, ficou surpreendido ao perceber que não existem evidências que sustentassem sua teoria.

O “Pizzagate” ainda hoje alimenta o imaginário de legiões de alucinados da extrema-direita americana. Tanto que está na base do que viria a ser uma peça essencial da propagação de desinformação nos anos da presidência Trump: o movimento QAnon, lançado de forma anónima nas redes sociais, que denunciava uma conspiração global (claro, com o deep state, pedófilos, canibais e bebedores de sangue) contra a qual Donald Trump era a única esperança da humanidade. O tal cavaleiro branco liderando a cruzada contra o mal.

É possível argumentar, como faz Uscinski, que a verdadeira base que apoiou Trump foi uma coligação de conspirações. “Trump construiu uma coligação apelando mais para a teoria da conspiração do que para o partidarismo; portanto, os seus partidários estão naturalmente usando teorias da conspiração para lutar contra o que vêem como uma conspiração contra eles. Cada nova teoria da conspiração gera outras espontaneamente. O número crescente de teorias de conspiração opostas acumulou-se e obscureceu a verdade. (...) Como se estivessem num loop de feedback, os acusados ​​de conspiração voltam-se para as teorias da conspiração como mecanismo de defesa. Isso torna difícil julgar a veracidade de qualquer afirmação.”

Democracias sob pressão
Este texto já vai (muito) longo, mas deixo uma última nota para a evidente pressão que este ambiente coloca sobre a democracia e as instituições democráticas. Vimo-lo no cerco a Ferro Rodrigues, a segunda figura do Estado. Vimo-lo na invasão do Capitólio, acicatada por um discurso em que Trump insistiu na conspiração de uma fraude eleitoral que lhe teria roubado a vitória - tese que inundou as redes sociais com “provas” e o submundo da internet com apelos à sublevação.


Há uns meses, o L’Obs publicou um grande dossiê sobre teorias da conspiração. Reuniu um painel de cidadãos comuns, com os quais testou várias teorias que circulam por aí - nomeadamente, sobre covid, máscaras e vacinas. A maioria do painel acreditava em teorias da conspiração, mas todos rejeitavam fazer parte desse grupo e recusavam o rótulo de negacionistas. Nas últimas eleições autárquicas em França, surgiram inúmeros candidatos com a oposição ao 5G como grande bandeira - vários tiveram resultados bem acima do que seria expectável. Uma das teorias da conspiração que ganhou alguma popularidade em França tem a ver com o massacre do Charlie Hebdo: há quem acredite que é o governo que está por detrás da matança...

É um fenómeno global. Na Alemanha há uma teoria oposta: em vez de estar por detrás de ataques terroristas, o Governo alegadamente esconde ataques perpetrados por refugiados muçulmanos sobre alemães inocentes, de forma a proteger a política de concessão de asilo assumida por Angela Merkel.

A imigração e a integração de refugiados muçulmanos tem sido pasto para teorias conspirativas no centro e no norte da Europa. Viktor Orban defende a pureza do povo húngaro contra uma invasão muçulmana que nunca aconteceu nem nunca esteve perto de acontecer. O mesmo na Polónia. Os novos líderes autoritários não dispensam uma boa conspiração com inimigos internos e externos, seja Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, Maduro na Venezuela, ou Duterte nas Filipinas.

O Brexit foi insuflado por teorias conspirativas de que a UE daria livre passagem a milhões de refugiados árabes para que chegassem às Ilhas Britânicas. Também houve a teoria de que essa votação seria viciada, de que a UE estaria a esconder planos para uma maior integração, ou que estaria secretamente em preparação um exército europeu. Os defensores da saída afirmavam que as contas dos peritos sobre o impacto económico eram manipuladas.

Timothy Snyder, historiador e autor do ótimo livro “The road to unfreedom”, tem escrito muito sobre o poder da desinformação e das teorias da conspiração, e a forma como esses fenómenos estão a pressionar a democracia e a permitir novas formas de autoritarismo. Após a invasão do Capitólio assinou este magnífico ensaio sobre as “grandes mentiras” que enformam a realidade alternativa em que muitos vivem. Destaco este parágrafo:

“Pós-verdade é pré-fascismo, e Trump tem sido o nosso presidente pós-verdade. Quando desistimos da verdade, concedemos poder para criar um espetáculo no seu lugar àqueles que têm o dinheiro e o carisma. Sem um acordo sobre alguns fatos básicos, os cidadãos não podem formar a sociedade civil que lhes permitiria defenderem-se. Se perdermos as instituições que produzem os factos que são pertinentes para nós, tendemos a chafurdar em abstrações e ficções atraentes. A verdade defende-se particularmente mal quando não há muita por aí, e a era de Trump - como a era de Vladimir Putin na Rússia - é uma época do declínio dos noticiários. Os media sociais não são substitutos: sobrecarregam os hábitos mentais pelos quais procuramos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que parece verdadeiro e o que realmente é verdadeiro.”