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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Diary of Dreams - Flood of Tears

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Os Diary of Dreams são uma referência incontornável no ecossistema da música alternativa europeia. A banda foi formada em Düsseldorf, na Alemanha, em 1989, pelo vocalista e compositor Adrian Hates. O seu estilo musical enquadra-se no Darkwave, Synth Gothic e Electro-Goth, caracterizando-se por uma sonoridade que combina batidas eletrónicas industriais e EBM, síntese melancólica de sintetizadores, arranjos orquestrais neoclássicos e vocais profundos e graves. O elemento "diferente" que se destaca na sua música vem precisamente do equilíbrio entre a frieza eletrónica e uma sensibilidade clássica, unindo densidade atmosférica a melodias marcantes.

Embora não pertençam ao género Neofolk, partilham com ele uma atmosfera solene, sombria e ritualesca, evidenciada no tom vocal declamado de Adrian Hates e em trabalhos acústicos como o álbum The Anatomy of Silence.

A faixa "Flood of Tears" - lançada originalmente em 1997 no álbum Bird Without Wings e relançada em 2000 na compilação One of 18 Angels - capta perfeitamente a estética soturna, teatral e introspetiva que marca o projeto. A canção explora temas de vulnerabilidade, desespero emocional e isolamento psicológico. A "inundação de lágrimas" funciona como uma metáfora para o momento em que a dor acumulada transborda e sobrecarrega a mente, abordando o conflito interior entre conter o sofrimento para manter o controlo ou ceder ao colapso para encontrar alívio, no âmbito de uma reflexão sobre a natureza cíclica da dor humana.

Não existe um videoclipe oficial produzido pela banda para "Flood of Tears". A versão amplamente divulgada no YouTube trata-se de um vídeo criado por fãs (fan-made), construído não a partir de excertos de um filme de ficção, mas sim através de uma montagem de fotografias estáticas, retratos góticos em alta definição e arte digital conceitual. O visual recorre a uma iluminação em chiaroscuro para refletir a divisão interna entre esperança e desespero, cenários claustrofóbicos que simulam o aprisionamento mental e elementos de decadência que reforçam a passagem do tempo.

A escrita e a estética dos Diary of Dreams inspiram-se profundamente na literatura e filosofia europeias, abordando o Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche através do isolamento e da busca de sentido, o Romantismo Sombrio de Edgar Allan Poe e Lord Byron na fascinação pela melancolia e pela decadência, e a Psicanálise e o Simbolismo de Carl Jung e Rainer Maria Rilke na exploração do inconsciente, dos sonhos e das sombras da psique.

A banda continua em plena atividade, mantendo presença regular nos principais festivais de música alternativa europeus, como o Wave-Gotik-Treffen e o Amphi Festival. O seu álbum de estúdio mais recente, Melancholin, foi lançado em 2023 (seguido pelo projeto orquestral Under a Timeless Spell em 2024).

Página Oficial
Diary of Dreams

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Birds Are Indie - Black (or the art of letting go)

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A canção "Black (or the art of letting go)", integrada no álbum On a Tempo (2020), aborda a vulnerabilidade emocional, o luto e a libertação do passado. O significado da composição gira em torno da aceitação da dor como parte inevitável da condição humana - o "preto" (black) surge não apenas como ausência de luz ou luto, mas como a metáfora do espaço em branco necessário para a transformação interior. O tema reflete sobre a arte de desapegar e "deixar ir" (letting go) memórias, expetativas e pesos emocionais para abrir caminho ao recomeço.

Esta narrativa visual ganha corpo no videoclipe da canção, onde a linguagem estética minimalista serve de espelho para o estado de espírito do tema. O significado do videoclipe reside na representação simbólica do isolamento e da catarse: através do jogo de luzes e sombras, movimentos contidos e ambientes despojados, encena-se o processo interno de libertação, onde as personagens enfrentam a escuridão interior para finalmente alcançarem a serenidade do desapego.

No plano conceptual, a canção carrega fortes influências literárias e filosóficas ligadas ao existencialismo e ao estoicismo. O subtítulo "the art of letting go" dialoga diretamente com correntes filosóficas estoicas - que defendem a aceitação da impermanência e daquilo que não podemos controlar -, assim como com a tradição literária do romantismo e do simbolismo, em que o luto e a melancolia não são encarados como fins destrutivos, mas como catalisadores para a contemplação e o amadurecimento do eu.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

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Letra
Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

The Unbroken Thread


Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) @ José Morgado Martins

"The bird is not on the branch, but of it—
A momentary flowering of the wood,
A pulse of warm blood singing the sky’s own blue.

She does not stand apart to name the world;
She is the world’s own throat,
Translating the deep, silent sap of the cherry tree
Into a language of air and light.

There is no "I" that watches and no "it" that sings,
Only the single, shimmering web of being
Where the frost of the bark and the heat of the heart
Are one slow-burning fire.

To hear her is to feel the weight of centuries
Of starlight and soil rising through those tiny claws,
A testimony that we are not masters of this place,
But plain members of its magnificent, grieving,
And wildly living body.

When she opens her beak, the universe exhales—
Not for us, but because the song is the only way
For the earth to know the depth of its own belonging."

João Soares, 09.04.2026


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

O interior, a solidão e as caravanas que por aqui não passam




No fim de semana passado vi pela primeira vez, no renovado Teatro Municipal da Covilhã, um concerto da Orquestra Sem Fronteiras, um projeto de valorização cultural no interior de Portugal, sob direção musical de Martim Sousa Tavares.

Com a sala cheia – nos limites da contingência atual – comecei a pensar na ideia de fronteira interior: de interior emocional e de interior geográfico. Se o primeiro nos leva a viajar pelas cartas de Rilke e nos induz uma dolorosa solidão interior, o segundo, que não tem uma fronteira fisicamente definida, é o limite entre a proximidade e o distanciamento, entre a presença e a ausência, entre uma espécie de abundância e uma espécie de escassez.

Viver no interior é, nas duas perspetivas que aqui trago, incomensuravelmente mais difícil do que viver no resto do país. Não porque não tenhamos acesso aos bens digitais que as populações não-interiores têm, mas porque os que cá estão desesperam e os que para cá vêm dificilmente encontram certezas para além da qualidade do ar.

Eu faço parte destes últimos. Sem certezas, com vontades, e sem grandes possibilidades. O cenário é pouco animador, mesmo que todas/os nos esforcemos para o contrariar, mesmo que, contra os ventos e as marés do outro lado da fronteira, nos continuemos a (re)erguer a cada safanão decretado pelos gabinetes do clube de cavalheiros extraordinários de Lisboa.

Este interior geográfico, lembrado em tempos de neve, mas esquecido no resto do ano, altura em que a fronteira volta a fechar, não vão as espécies misturar-se…

Ainda o concerto decorria e o meu pensamento seguiu para as caravanas eleitorais e as promessas dos vários partidos, mais ou menos entusiasmantes: “Será que as candidaturas se atrevem a dizer que vão derrubar o muro que segrega habitantes de um lado e de outro?”. Até imaginei as reuniões dos petit comité dos partidos lá na capital: “Vamos apoiar o interior, está supé in!”.

Numa noite de insónia, lá decidi ler com atenção os programas eleitorais e as referências ao interior. Resumo: ou coisa nenhuma (venda-se tudo!) ou coisa alguma (do tipo esmolas a pobres).

Isto é, uma parte muito significativa do país merece politicamente, quando muito, uma migalhinha do pão fresco e abundante que segue diretamente para a parte populosa da fronteira. Afinal, claro está, quem vota? Quem decide? Os círculos eleitorais que os média identificam como “grandes”. Nenhum mais longe do mar do que três dezenas de quilómetros.

Este sítio onde me encontro é, de facto, prisioneiro de si mesmo, tolhido pelas suas fronteiras, dolorido pelas fustigadas que, parlamento atrás de parlamento, governo atrás de governo, lhe têm sido infligidas. Esperança? A mim não me foi entregue. Sigo a sentir esta solidão interior do interior esquecido, maltratado e desrespeitado politicamente.

Talvez Rainer Maria Rilke por aqui tenha passado quando, no século XIX, dizia sobre a solidão interior: “por essência grande, pesada e difícil de suportar”.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Poema- Reiner Maria Reike

Parque Nacional Peneda-Gerês

“Se nos rendêssemos à inteligência da Terra poderíamos erguer-nos enraizados, como árvores”~ Rainer Maria Rilke.

"If we surrendered to Earth's intelligence, we would rise up rooted, like trees."~ Rainer Maria Rilke.