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domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sisão está em risco de extinção em Portugal



"Se o Governo não implementar medidas urgentes, Portugal irá assistir em breve à extinção desta ave", afirmaram, em comunicado conjunto, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), a WWF-Portugal, a Palombar, a FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) e a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, com base nos resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, publicados esta sexta-feira.

No estudo, a população foi estimada em 1736 machos. "Os resultados deste censo são alarmantes, mas infelizmente não são inesperados. Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo", referem a organizações ambientalistas no documento.

Para as sete organizações, é incompreensível que o Estado português "continue sem implementar" medidas de conservação eficazes, "falhando claramente as suas obrigações ao abrigo da Diretiva Aves da Comissão Europeia".

A espécie, que já foi abundante nas planícies alentejanas, é hoje cada vez mais rara e difícil de observar, sublinharam.

"Dependente de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos, nidifica no solo, tornando-se especialmente vulnerável à intensificação agrícola", especificaram os subscritores do apelo para que sejam adotadas medidas urgentes de proteção do sisão.´

Hectares e hectares de painéis solares em zona de proteção de aves estepárias. Central solar fotovoltaica das Santas, concelho de Monforte é exemplo, com aval da APA e município.

Olivais em sebe apoiadas por fundos da PAC em zonas de tradição de cultura cerealífera. Apoios da PAC à criação de vacas em terras com aptidão para culturas arvenses. Nos poucos locais onde se semeia são feitos cortes para feno nas épocas de nidificação. Nem ninhos, nem sementes.

De acordo com as organizações do ambiente, a substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal ou olival, o aumento da intensidade do pastoreio e a redução das áreas de pousio, contribuem igualmente para a degradação dos locais de nidificação, o que tem causado "o colapso da população de sisão".

"Outras aves estepárias prioritárias, a abetarda e o tartaranhão-caçador, apresentam também declínios muito acentuados devido a estas ameaças", acrescentaram.

As linhas elétricas representam fatores de mortalidade acrescidos para a espécie.

"São aves frágeis que dependem de um ecossistema agrícola e da própria comunidade que o mantém, também sujeitos a inúmeras pressões que permanecem órfãs da atenção", criticaram as organizações.

Os autores do trabalho assinalaram uma perda de quase 80% da área de cereal desde o final da década de 1980, passando de cerca de 900 mil hectares para aproximadamente 190 mil, em 2023.

As organizações defendem a criação de um plano de emergência interministerial, em que estejam representados agricultores, universidades e outros agentes locais e sugerem a proteção das áreas de reprodução, a promoção das áreas cerealíferas e pousios, com uma melhoria das medidas agroambientais e valorização da produção nacional, ordenamento de infraestruturas energéticas, limitação do regadio em áreas críticas e a criação de uma rede de reservas e de um programa de reprodução em cativeiro para posterior devolução à natureza.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Painéis solares em turfeiras podem ser uma dupla vantagem para o clima e para a natureza

Investigadores na Alemanha descobriram que a instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas proporciona um habitat único para espécies de aves, além de gerar energia verde e, potencialmente, reter carbono.

A instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas (rewetted) representa um novo tipo de uso da terra, oferecendo uma forma de gerar energia verde e de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Agora, uma investigação da Universidade de Greifswald descobriu que este uso inovador do solo também pode beneficiar a natureza.

No estudo, publicado na revista Ecological Solutions and Evidence, os investigadores compararam a diversidade de aves num parque solar situado numa turfeira novamente alagada no norte da Alemanha. O local estava rodeado por turfeiras drenadas e exploradas de forma agrícola intensiva.

Os autores descobriram que o parque solar servia de habitat para várias espécies de aves ameaçadas e apresentava uma mistura invulgar de espécies associadas a ecossistemas agrícolas, zonas húmidas e até zonas florestais.

Hanna Rae Martens, ecologista de turfeiras na Universidade de Greifswald e autora principal do estudo, afirmou:

"A presença de espécies de zonas húmidas, como a escrevedeira-dos-caniços e o ameaçado petinha-dos-prados, mostra que o parque solar está realmente alagado e que as espécies típicas de turfeiras estão a regressar."

"No entanto, também registámos espécies como o pardal-montez e o petinha-das-árvores, que normalmente não se encontram em turfeiras. Todas parecem utilizar a estrutura dos painéis solares. Quando estou no terreno, vejo muitos petinhas-dos-prados pousados nos painéis, que voam para apanhar insetos e depois regressam ao seu poiso."

Cerca de 80% das turfeiras no Reino Unido estão degradadas. Na Alemanha, este número é ainda mais elevado, atingindo os 95%, devido principalmente à drenagem e à utilização agrícola. A nível global, as turfeiras drenadas são responsáveis por 5% das emissões de gases com efeito de estufa.

O alagamento de turfeiras drenadas poderia reduzir drasticamente estas emissões e restaurar a biodiversidade, mas existem dois problemas fundamentais. O primeiro é que, uma vez alagadas, a maioria das culturas agrícolas comuns já não pode ser produzida nestes terrenos. O segundo é que a restauração de turfeiras profundamente degradadas até um estado saudável e funcional pode demorar várias décadas.

O local do estudo é um dos primeiros a instalar painéis solares em turfeiras novamente alagadas. Ao abrigo de um programa do governo alemão, os proprietários de terras recebem incentivos financeiros para instalar painéis solares e alagar o terreno, proporcionando-lhes uma fonte alternativa de rendimento. As conclusões do estudo sugerem que, pelo menos a curto prazo, esta medida poderá também estar a impulsionar a biodiversidade.

"Nos casos em que a alternativa seria uma turfeira drenada e gerida de forma intensiva, a nossa investigação demonstra que os painéis solares em turfeiras novamente alagadas podem beneficiar a diversidade de aves", afirmou Hanna Rae Martens. "Mas não estamos a sugerir que se transformem todas as turfeiras da Alemanha, do Reino Unido ou de qualquer outro país em parques solares. As turfeiras saudáveis ou aquelas que têm um elevado potencial de restauração devem ser evitadas. Os parques solares são apenas mais uma ferramenta possível para apoiar o alagamento das turfeiras."

No estudo, que decorreu entre março e outubro de 2024, os investigadores utilizaram gravadores de áudio e inteligência artificial (machine learning) para comparar a diversidade de aves num parque solar em turfeira alagada com a de turfeiras drenadas vizinhas, utilizadas para a produção de pasto para gado.

Os investigadores alertam, contudo, que o seu estudo representa apenas um caso prático deste novo tipo de uso da terra. Hanna Rae Martens referiu:

"Até à data, existem cerca de cinco parques solares instalados em turfeiras novamente alagadas. São necessárias mais investigações para tirar conclusões sólidas sobre se estes resultados se repetem noutros locais e quais os fatores que contribuem para a composição das espécies."

Os investigadores pretendem agora expandir o seu estudo a mais locais, monitorizar outras espécies — como morcegos e insetos — e identificar quais os elementos das estruturas dos parques solares que podem ser otimizados para favorecer a biodiversidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Onde estão os Pirilampos?


Quem tem mais de cinquenta anos lembra-se deles. Nas noites quentes de Verão, os campos piscavam como se pequenas estrelas tivessem descido à Terra. Havia luzes verdes a pairar sobre a erva, junto aos muros, nos caminhos rurais.
Hoje, em muitos locais, desapareceram. E quase ninguém parece dar por isso.
A explicação não é um mistério. Durante anos fizemos guerra aos caracóis e às lesmas. Espalhámos moluscicidas pelos campos, jardins e quintais. Considerámo-los inimigos a exterminar.
Mas esquecemo-nos de uma coisa.
As larvas dos pirilampos são predadoras especializadas de caracóis e lesmas. Alimentam-se deles. Dependem deles. Sem caracóis e sem lesmas, não há alimento. Sem alimento, não há novas gerações de pirilampos.
É mais uma lição que insistimos em não aprender: na Natureza, quase nada existe isoladamente.
Quando eliminamos uma espécie, afectamos muitas outras. Quando destruímos uma presa, condenamos um predador. Quando quebramos uma ligação, enfraquecemos toda a rede.
E depois admiramo-nos.
Admiramo-nos de os nossos filhos e netos conhecerem estas criaturas apenas através de fotografias ou documentários.
Mas talvez a pergunta correcta seja outra:
Quantas luzes tivemos de apagar para acreditarmos que estávamos a resolver um problema?
Os pirilampos não iluminavam apenas as noites de Verão.
Iluminavam também uma verdade simples: a vida é feita de relações invisíveis. E quando destruímos essas relações, a escuridão acaba sempre por chegar.
E este tema toca-me particularmente. O desaparecimento dos pirilampos é daqueles fenómenos discretos que não fazem manchetes, mas que contam uma história profunda sobre a transformação dos nossos campos. É uma perda ecológica, mas também uma perda poética. Uma paisagem sem pirilampos é, de certo modo, uma paisagem mais pobre de imaginação.

O "apocalipse" silencioso - o declínio dos insetos 


omo a agricultura intensiva elimina os insetos?
Os dados científicos mostram que a biomassa global de insetos está a diminuir cerca de 2,5% ao ano. Se olharmos para o gráfico acima, percebemos que grupos vitais como as abelhas (Bees, com 46% de declínio) e as borboletas (Butterflies, com 53%) estão a desaparecer a um ritmo alarmante.

A grande e recente decisão (tomada no final de maio de 2026) que toca diretamente no coração do modelo da agricultura intensiva foi a aprovação da suspensão, por um ano, dos direitos aduaneiros (tarifas) sobre as importações dos principais fertilizantes à base de azoto e das suas matérias-primas (como a ureia e a amoníaca).

A medida, proposta pela Comissão Europeia e formalizada pelo Conselho Europeu, reflete precisamente essa corda bamba entre as metas ambientais e as exigências da produção em larga escala.

Os Dois Lados da Moeda
Esta decisão ilustra bem o choque de realidades e as críticas à insistência no modelo intensivo:
  • O argumento económico/produtivo: Com o fecho do Estreito de Ormuz e a escalada de conflitos no Médio Oriente, os preços dos adubos dispararam, ameaçando as colheitas, a tesouraria dos agricultores e prevendo uma forte inflação alimentar. Para Bruxelas, aliviar estas taxas (uma poupança estimada em 60 milhões de euros) e apresentar um Plano de Ação para os Fertilizantes foi a forma encontrada para garantir que a produção de alimentos não colapsa a curto prazo.

  • O argumento ambiental (a crítica à agricultura intensiva): Para os críticos e ambientalistas, esta medida representa um passo atrás na transição ecológica. Os fertilizantes químicos azotados são um dos pilares da agricultura intensiva e estão diretamente ligados à degradação dos solos, à poluição da água e às emissões de gases com efeito de estufa. Facilitar o seu acesso, em vez de acelerar a transição para alternativas orgânicas e sustentáveis, é visto como um "balão de oxigénio" para um modelo poluente.

Outro recuo recente na Política Agrícola Comum (PAC)
Vale a pena lembrar que isto surge no seguimento de uma tendência recente de Bruxelas em "suavizar" as exigências ecológicas. Sob forte pressão dos protestos dos agricultores em toda a Europa, a UE já tinha aprovado a flexibilização de várias regras ambientais da PAC, como a dispensa da obrigatoriedade de deixar uma percentagem de terras em pousio (terras paradas para recuperação do ecossistema) e a redução das exigências de rotação de culturas.

Resumo: A aprovação recente da isenção de taxas para a importação de fertilizantes químicos visa travar uma crise de preços nos alimentos, mas acaba por subsidiar e manter a dependência do modelo de agricultura intensiva que a própria UE prometeu combater no "Pacto Ecológico Europeu".

Os pirilampos
Os pirilampos são, talvez, a face mais poética e trágica deste "apocalipse silencioso" dos insetos. O seu desaparecimento dos campos e quintais europeus nas últimas décadas não é uma impressão romântica; é um facto científico alarmante.

Sendo predadores na fase de larva (alimentam-se de caracóis e lesmas) e dependentes da sua luz na fase adulta para a reprodução, os pirilampos são considerados excelentes bioindicadores — ou seja, a sua ausência é o primeiro sinal de que um ecossistema está gravemente doente.

O modelo de agricultura intensiva e as recentes desregulações atacam os pirilampos em três frentes fatais:

1. Poluição Luminosa: o curto-circuito no amor
Os pirilampos dependem da bioluminescência (a luz que produzem no abdómen) para se encontrarem e acasalarem no escuro.

A expansão das estufas industriais iluminadas durante a noite, a maquinaria pesada a trabalhar 24 horas e a urbanização associada ao agro-negócio criam um brilho artificial constante no céu.

Com tanta luz artificial, os machos não conseguem ver os sinais luminosos das fêmeas (que muitas vezes nem sequer voam). Se não se encontram, não há acasalamento, e a população daquela zona colapsa numa única geração.

2. A destruição do solo e do pousio (onde as larvas vivem)
A recente decisão da União Europeia de flexibilizar as regras da PAC e dispensar a obrigatoriedade do pousio (terras em descanso) é um golpe duro para esta espécie.

Os pirilampos passam até dois ou três anos na fase de larva, a viver na terra húmida, na folhagem seca e nas margens de sebes e caminhos.

Quando a agricultura intensiva revira o solo constantemente, elimina as sebes para aumentar a área de cultivo e aplica fertilizantes sintéticos agressivos, destrói o habitat húmido e sombrio de que as larvas precisam para sobreviver e caçar.

3. Falta de alimento (o efeito colateral dos pesticidas)
Como as larvas de pirilampo se alimentam quase exclusivamente de caracóis e lesmas, o uso massivo de pesticidas e moluscicidas nas monoculturas elimina a sua fonte de alimento. Sem presas, as larvas morrem de fome antes sequer de chegarem à idade adulta de poderem brilhar.

O diagnóstico: o pirilampo precisa de três coisas que a agricultura intensiva destrói ativamente: escuridão total, solo intocado e biodiversidade. Ver cada vez menos pirilampos no verão é o aviso visual de que estamos a transformar os nossos campos agrícolas num ecossistema estéril e artificializado.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Climate Extremes - Agriculture (Extremos Climáticos - Agricultura)


De onde vem a sua alimentação?
Como é que os alimentos de todo o mundo chegam à sua mesa?
Como são os sistemas alimentares globais afectados pelas alterações climáticas?
Aprenda sobre o sistema alimentar global e as suas complexas relações com as alterações climáticas com cientistas de renome e executivos do agronegócio!

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Legendas disponíveis em: inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, turco, português, português do Brasil, chinês e russo.

Porque é que a produtividade agrícola está a diminuir com o aquecimento global?
O sistema alimentar global é a maior fonte de emissão de gases com efeito de estufa. Por isso, fazer alterações no sistema alimentar pode ser a nossa principal ferramenta para combater as alterações climáticas.
Ao mesmo tempo, a agricultura global é uma das áreas mais vulneráveis ​​às alterações climáticas. A perda de produtividade agrícola significa menos disponibilidade de alimentos para a humanidade.
O futuro do nosso planeta depende da forma como lidamos com estes desafios agrícolas.

"Extremos Climáticos: Agricultura" explora estas questões, apresentando perspetivas de especialistas, investigação científica recente e desenvolvimentos tecnológicos.

O filme conta com informações de cientistas e especialistas pioneiros, incluindo Johan Rockstrom, Daniel Swain, Shely Aronov, Paul Behrens, Matthias Berninger, Benjamin Bodirsky, Sir Charles Godfray, Monika Zurek e Jamie Basillie, de instituições como o Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, a Escola Oxford Martin da Universidade de Oxford, a Bayer AG, a Universidade da Califórnia (Agricultura e Recursos Naturais), a InnerPlant e a Hedgehog Foods.

O documentário intitulado "Climate Extremes: Agriculture" aborda a profunda e complexa relação entre as alterações climáticas e o sistema alimentar global, explorando como o aumento das temperaturas e os eventos climáticos extremos, como secas e cheias, estão a prejudicar a produtividade agrícola mundial e a ameaçar a segurança alimentar. No que diz respeito aos principais temas abordados, a obra divide-se na análise dos impactos, das vulnerabilidades e do mosaico de soluções necessárias para o futuro.

No âmbito do impacto da agricultura no planeta, o documentário evidencia que o sistema alimentar atual é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa, sendo o principal motor por trás do desrespeito pelas fronteiras planetárias, como a perda de biodiversidade e o consumo excessivo de água potável. Adicionalmente, analisa-se a vulnerabilidade das monoculturas, demonstrando que a falta de diversidade genética nas colheitas modernas torna o sistema frágil perante pragas e doenças, que se propagam mais rapidamente com o aquecimento global. Outro ponto crítico discutido é o risco de falhas simultâneas nos celeiros do mundo, alertando para o perigo real de secas ou ondas de calor atingirem simultaneamente várias das regiões produtoras de alimentos mais importantes do planeta, como os Estados Unidos e o Brasil, o que inviabilizaria o comércio internacional para compensar a escassez.

Como resposta a estes desafios, o documentário apresenta um mosaico de soluções que combina práticas ancestrais e alta tecnologia. Entre elas, destaca-se a agricultura de conservação, que propõe abandonar o arado tradicional e adotar o plantio direto para manter o carbono e a humidade no solo. Sugere-se também uma mudança na dieta através do flexitarianismo, reduzindo o consumo de carne industrializada e de derivados de ruminantes para libertar vastas áreas de terra para a conservação e diminuir as emissões de metano. A bio-revolução e a inteligência artificial surgem como ferramentas essenciais para compreender proteínas, acelerar o melhoramento genético de sementes mais resilientes e criar plantas que emitem sinais óticos quando atacadas por fungos. Por fim, apontam-se as fontes alternativas de proteína, com foco no cultivo de fungos e cogumelos em grande escala, utilizando resíduos agrícolas e quase sem gastar água ou solo.

Relativamente aos painelistas e especialistas presentes, embora o documentário não apresente letreiros com os nomes completos ao longo de todo o vídeo, as intervenções dividem-se de forma clara entre grandes cientistas do sistema terrestre, decisores do setor agrícola corporativo e inovadores tecnológicos. Os cientistas do clima e sistemas terrestres, como Johan Rockström e outros investigadores seniores, lideram a explicação sobre as fronteiras planetárias e os pontos de não retorno (tipping points), como o risco de savanização da Amazónia e a urgência de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 °C. Por sua vez, os representantes da indústria agrícola, nomeadamente da Bayer, discutem o papel do investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D) privado no melhoramento de sementes, a estagnação recente da produtividade devido ao clima e a criação de ferramentas digitais ou seguros para apoiar os pequenos agricultores no Sul Global. A encerrar o painel, os inovadores e empreendedores de biotecnologia, como a equipa da Hedgehog, explicam o desenvolvimento de novas tecnologias agroalimentares, com particular destaque para o cultivo vertical e otimizado de micélio e fungos, capaz de criar proteínas altamente eficientes sem exercer pressão adicional sobre a terra.

A substituição da proteína animal por fungos é apresentada como uma solução essencial para os sistemas alimentares sob pressão climática, focando-se na eficiência biológica deste reino. De acordo com os especialistas do filme, enquanto a pecuária tradicional exige grandes extensões de terra, gera emissões elevadas e é altamente vulnerável a secas e quebras de colheita de ração, os fungos podem ser cultivados em ambientes fechados e controlados, totalmente protegidos de eventos meteorológicos extremos. A grande vantagem está na capacidade do micélio (a estrutura fibrosa dos fungos) de realizar uma bioconversão eficiente, transformando resíduos e subprodutos agrícolas de baixo valor biológico numa proteína altamente nutritiva e rica em fibras, com uma fração minúscula do uso de água e solo exigido pelos animais. Além disso, o documentário detalha que o uso de automação, robótica e inteligência artificial permite otimizar as condições atmosféricas e de substrato para acelerar o crescimento dos fungos, reduzindo drasticamente os custos de produção e tornando esta alternativa economicamente viável para o consumo em massa.

Em relação à autoria e liderança destas iniciativas no documentário, vale a pena notar que o principal porta-voz e especialista responsável por apresentar esta tecnologia específica de quintas robóticas de cogumelos é um investigador e trata-se de Jamie Balsillie, CEO e cofundador da startup de tecnologia climática Hedgehog. É ele o especialista encarregado de explicar como transformar os fungos numa fonte de proteína acessível e de baixo impacto ambiental a partir do reaproveitamento de resíduos. Se estiver a pensar na liderança feminina principal presente no segmento de inovação agrícola desse mesmo documentário, o filme destaca a investigadora e empreendedora Shely Aronov, que é CEO e cofundadora da InnerPlant, uma startup focada em engenharia de sementes que faz com que as plantas emitam sinais óticos detetáveis por satélite quando sofrem de stresse climático.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Países em desenvolvimento lideram culturas geneticamente modificadas no mundo

Fonte: aqui

De 2012 a 2024, os países em desenvolvimento ultrapassaram os países industrializados em hectares de culturas biotecnológicas (OGM), segundo o relatório do ISAAA. A estratégia foca estabilidade económica, resiliência climática e segurança alimentar.

Entre 1996 e 2011, os países industrializados foram pioneiros na adoção de culturas GM (geneticamente modificadas). A partir de 2012, porém, o cenário global mudou: os 26 países em desenvolvimento passaram a deter a maioria da área plantada, com 57%, enquanto cinco países industrializados representaram 43%.

O relatório Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops in 2024 (ISAAA Brief 57) destaca que esta mudança é motivada por políticas que privilegiam estabilidade económica, adaptação às alterações climáticas e segurança alimentar a longo prazo. Além disso, agricultores em países em desenvolvimento obtêm maior retorno financeiro por cada dólar investido do que os seus homólogos nos países industrializados.

Também há um artigo científico de livre acesso, que aborda a mesma problemática Global trends in the commercialization of genetically modified crops in 2024

O lado B da Agricultura Intensiva

segunda-feira, 16 de março de 2026

A campanha “Salvar o tartaranhão-caçador” já arrancou em Portugal e no oeste de Espanha e uma aplicação de ciência cidadã pode ajudar a salvá-lo da extinção



Os utilizadores da aplicação eBird podem ter um papel importante na conservação do tartaranhão-caçador (Circus pygargus), ave de rapina migradora que está Em Perigo em Portugal. O apelo é feito pelo projeto LIFE SOS Pygargus, que incentiva observadores de aves e cidadãos em geral a registar e partilhar dados sobre a espécie.

Segundo os responsáveis pelo projeto, a participação pública é fundamental para recolher informação atualizada sobre a distribuição da ave e apoiar a campanha anual “Salvar o Tartaranhão-caçador”, que procura melhorar a proteção dos ninhos e compreender as ameaças que afetam esta espécie.
Uma população em forte declínio

A situação do tartaranhão-caçador na Península Ibérica é preocupante. Em Portugal, a população diminuiu cerca de 80% entre 2012 e 2022.

Esta ave de rapina passa o inverno na África subsaariana e regressa à Península Ibérica na primavera para se reproduzir, permanecendo aqui entre março e setembro.

Nesta altura do ano, os primeiros indivíduos já começaram a chegar aos territórios de nidificação, sobretudo em áreas agrícolas e paisagens abertas.

Para os investigadores, recolher dados sobre locais de reprodução, áreas de alimentação e potenciais ameaças é hoje uma prioridade para travar a tendência negativa da espécie.

Como os cidadãos podem ajudar
Os observadores de aves que encontrem um tartaranhão-caçador, um casal ou um ninho podem registar a sua observação na aplicação eBird, considerada a maior plataforma mundial de ciência cidadã dedicada à observação de aves e gerida pelo Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

Além do registo na aplicação, os participantes podem enviar informações adicionais à equipa do projeto, como coordenadas GPS, fotografias, vídeos ou notas de campo. Estes dados ajudam os investigadores a localizar ninhos e a planear medidas de proteção durante a época de reprodução.

Durante este período, que decorre entre março e agosto, é também importante reportar anilhas coloridas de identificação, usadas em programas de monitorização da espécie.

Esta ave de rapina nidifica no solo, sobretudo em campos agrícolas com cereais ou forragens, e depende também desse habitat para se alimentar. Dada esta dependência, uma ameaça importante a esta espécie é a perda de habitat, devido ao declínio acentuado da área semeada com cereais e passagem para outras culturas permanentes, ou outros tipos de uso do solo. A substituição das áreas de cereal para grão por forragens e as alterações climáticas aumentaram significativamente as atividades de ceifa durante o período de nidificação desta espécie, com forte impacto nos casais reprodutores por destruição involuntária dos ninhos e aumento das taxas de predação.[Fonte]

A colaboração dos agricultores com os conservacionistas e cientistas é, por isso, essencial para ajudar na identificação dos ninhos e permitir a implementação de medidas no terreno para os proteger e reduzir ameaças, como a instalação de vedações para garantir a sua salvaguarda durante as atividades agrícolas e evitar ataques de espécies predadoras, como a raposa, por exemplo.

Se forem encontrados ninhos ou situações de risco — como atividades agrícolas próximas, incêndios ou predadores - os responsáveis recomendam que a informação seja comunicada rapidamente à equipa do projeto.

No caso de uma ave ferida ou morta, a recomendação é não tocar no animal e contactar as autoridades ambientais, como o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da GNR.

Uma rede de “amigos” para proteger a espécie
Para reforçar a participação pública, o projeto criou ainda a rede “Amigos do Tartaranhão-caçador”, aberta a qualquer pessoa interessada em acompanhar e apoiar as ações de conservação desta ave.

O projeto LIFE SOS Pygargus é uma iniciativa ibérica financiada pelo programa LIFE da União Europeia e envolve várias organizações científicas e ambientais, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves SPEA, a Palombar, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) ou a Associação BIOPOLIS-CIBIO.

Para os investigadores, cada registo conta. E, neste caso, um simples registo numa aplicação pode ajudar a garantir o futuro de uma das aves de rapina mais ameaçadas da Península Ibérica.

sábado, 7 de março de 2026

Birds Aren’t Just Declining. They’re Declining Faster, a New Study Finds



Bird populations are in free fall across North America. And in some hotspots their decline is accelerating, a new study reveals.

Wild bird numbers declined at an accelerating rate in California, the Midwest and the Mid-Atlantic between 1987 and 2021. Across these hotspots, losses were associated with high-intensity agriculture, according to the study.

Although the study, published Feb. 26 in the journal Science, shows a correlation between declining bird populations and intense agriculture, it doesn't definitively prove that agriculture is driving the increased decline or identify which agricultural activities might be responsible.

However, signs of intense agricultural activity consistently proved to be the best predictor of increased bird decline, which mirrors similar research conducted in Europe. The researchers also found that declines were stronger in warming areas, suggesting that rising temperatures due to climate change were driving some bird disappearances.

Birds perform important roles in the ecosystem, including spreading plant seeds and keeping insect populations under control. For decades, scientists have been concerned that bird populations are falling due to human activities, both in North America and globally — a plight shared by many other animals. What's special about the new research is that it reveals how the decline in North America has accelerated since the late 1980s.

"We are not talking about the decline but the acceleration of the decline," study lead author François Leroy, a postdoctoral researcher in macroecology at The Ohio State University, told Live Science. "We see that this decline is getting faster and faster with the intensification of human activities."

Leroy and his colleagues mapped bird decline by studying data from the North American Breeding Bird Survey, which is an annual surveying effort by professional biologists and skilled amateurs to monitor bird populations across North America. As a part of the survey, participants walk along specific routes and record the birds they find.

The researchers focused on specific routes with enough data to measure the rate of decline over 35 years. These routes were primarily in the U.S. and included 261 bird species. Across all of the species surveyed, the overall abundance of birds fell by at least 15%, with significant drops documented in about half (122) of the species and accelerating declines reported in about a quarter (63) of the species. Common birds ‪—‬ like red-winged blackbirds (Agelaius phoeniceus), house finches (Haemorhous mexicanus) and American crows (Corvus brachyrhynchos) ‪—‬ were among the native species found to have suffered an accelerated decline.

The study focused on the rate of decline in specific routes, so it's unclear how many individual birds were lost across the entire continent during the study period. However, previous research has found that billions of birds have disappeared in recent decades.

A 2019 study published in the journal Science estimated that the North American bird population decreased by 2.9 billion individual birds between 1970 and 2017. That estimate equated to a drop of 29%, which is almost double the 15% decline documented in the new study. However, the 2019 study also covered an earlier and longer time period when there may have been more severe losses.
People only started surveying North American birds in the second half of the 20th century, but we've been killing them directly and indirectly for much longer than that. For example, commercial hunting by humans forced passenger pigeons (Ectopistes migratorius), a species estimated to have once had a population of 3 billion to 5 billion, to extinction in 1914.

What caused the "birdemic"?
The new study demonstrated that birds were incurring losses not just at the species level but across whole families of species and across different habitats. To better understand the worrying trend, the researchers compared the bird data to potential contributing factors, such as temperature change, rainfall and land-cover changes.

The acceleration of bird decline coincided with large areas of croplands and high usage of fertilizers and pesticides, which are signs of intense agriculture. This tracks with research in Europe that has found that agricultural intensification has negatively impacted bird diversity.

Intense agriculture can destroy, change and break up traditional bird habitat. The amount of land used for farming in the U.S. hasn't changed that much since the 1980s. Agriculture has become more consolidated in that time, with a decline in midsize farms and a shift to larger farming operations, but there's slightly less land being used for farming overall. Thus, the bird losses can't be blamed solely on the amount of farmland. However, they could be the result of changes in farming practices.

Leroy said that from the new study, it's not really possible to say which specific practice in agriculture is the worst for bird losses. However, he noted that from previously published studies, it seems like pesticide use is one of the main suspects.

A 2023 study published in the journal PNAS found that the use of pesticides and fertilizers was the key to agricultural intensification being the main pressure behind most bird population drops, particularly in birds that feed on invertebrates. Most disappearing bird species depend on insects for food, and insects are in steep decline as they are killed through the use of pesticides. Birds also consume pesticides directly.

Leroy said he would like to see what farmers think about the correlation between agricultural intensification and bird losses. He and his co-authors also noted in the study that agriculture warms landscapes by reducing the amount of vegetation and altering its properties, which may then amplify warming impacts on birds.

While the findings were mostly bad news for birds, there were some bright spots. For example, the researchers found some local increases in forest bird populations, which likely benefited from the reforesting of old farmland. There was also a small pocket of land just north of the U.S.-Canada border where the overall abundance of birds increased — the only region in which this occurred. However, Leroy said he had "no clue" why this was the case.

"It doesn't mean that Canada is doing better because if you look at other regions in Canada, there were also some significant declines," he added.

terça-feira, 3 de março de 2026

O olival Português transformado num activo financeiro

Greenpeace Portugal exige “moratória imediata à expansão do olival superintensivo”


Um relatório de investigação internacional divulgado pela Greenpeace, intitulado "O Campo como Ativo", expõe a face oculta da expansão do olival superintensivo em Portugal. O documento revela que o país se tornou o "porto seguro" para fundos de investimento canadianos e britânicos, que utilizam o Alqueva e milhões de euros em fundos públicos portugueses para substituir a agricultura tradicional por um modelo industrial de lucro rápido e elevado risco ambiental. 
Ao contrário de Espanha, onde o olival tradicional ainda resiste, a expansão em Portugal (liderada por empresas como a Innoliva) foca-se quase exclusivamente no modelo superintensivo. Dos 4.800 hectares geridas pelo grupo na última década, mais de 65% (3.168 hectares) estão em solo português. 
O relatório detalha como o Estado Português, através do IFAP, financiou diretamente esta transição. Um único projeto de um fundo estrangeiro recebeu 6,5 milhões de euros a fundo perdido, a que se somaram mais 3 milhões para lagares industriais de alta capacidade (como o de Carapetal). 
A investigação confirma o impacto devastador na biodiversidade. As colheitas noturnas com máquinas cavadeiras, fundamentais para a rentabilidade destes fundos, provocam a mortalidade em massa de aves, o que forçou as autoridades a suspender a prática, embora o modelo económico destes grupos continue a depender da mecanização extrema. 
O relatório alerta que o modelo superintensivo, embora eficiente "por árvore", consome volumes totais de água por hectare muito superiores ao tradicional, colocando em causa a resiliência hídrica do Alentejo em períodos de seca extrema. 
Para o Diretor da Greenpeace Portugal, "Estamos a trocar pessoas por máquinas e comunidades por folhas de Excel. O Governo gasta milhões em subsídios para um modelo que não fixa um único jovem no Alentejo. 
O que vemos hoje é uma forma de extrativismo moderno: os fundos de investimento a sugar a nossa água e o nosso solo, pagos com os nossos impostos, deixando para trás um território vazio, biologicamente devastador e socialmente abandonado. 
O Alqueva não pode ser o cemitério das nossas aldeias." Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “não é agricultura, é extração de valor. Transformaram a nossa oliveira numa franquia industrial onde tudo é uniformizado e mecanizado, controlado à distância a partir de um escritório em Toronto ou Londres. O resultado é um Alentejo mais frágil; ´água sob pressão, território a esvaziar-se e o azeite português tratado como um ativo financeiro, em vez de ser parte da nossa terra.” 
Parte da riqueza produzida no regadio de Alqueva é encaminhada para fundos de pensões de funcionários públicos, Forças Armadas e Polícia Montada do Canadá, bem como da Igreja Mormón.
Perante este cenário, a Greenpeace Portugal exige uma moratória imediata à expansão do olival superintensivo. O governo português tem de escolher: ou continua a ser o facilitador dos fundos de investimento, ou assume o seu papel de protetor do território e da soberania alimentar de Portugal. O campo não é um banco. O campo é a nossa vida.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Rãs galáxia em risco de extinção devido a práticas fotográficas antiéticas


Cientistas da Sociedade Zoológica de Londres alertam para o possível desaparecimento das rãs galáxia de Querala, na Índia. Os resultados constam de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Herpetology Notes.

As Melanobatrachus indicus, nome científico das rãs galáxia, são endémicas das florestas do sul da Cordelheira dos Gates Ocidentais, da Índia, mais concretamente da floresta tropical de Querala. Trata-se de pequenos anfíbios, do tamanho da ponta de um dedo e que se caracterizam pelas suas manchas reluzentes, usadas como forma de comunicação entre os espécimes.

É a “única representante” da sua subfamília no reino animal e está classificada como “vulnerável” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, desde 2020.

O seu habitat a ser conquistado por explorações agrícolas de café e chá.
Se uma investigação feita pelos autores do estudo em 2020 dava conta da existência de sete espécimes debaixo de “troncos caídos incrustados na serapilheira”, as buscas efetuadas em 2021 e 2022 não detectaram a presença de rãs galáxia na floresta.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador Rajkumar KP alerta para a destruição do micro-habitat destes animais. Um dos troncos estava “completamente destruído e fora do lugar” e a vegetação estava “pisada”.

Alerta para os perigos da prática fotográfica desregulada
De acordo com vigilantes locais, “grupos de quatro a seis fotógrafos visitaram o local” em várias ocasiões, entre junho de 2020 e abril de 2021. Tiraram fotografias com flash e tocaram nos espécimes encontrados para serem levados para locais mais “fotogénicos, como musgos e troncos”.

Numa das ocasiões, juntaram cinco espécimes, sendo que as visitas podem ter resultado na morte de dois deles, algo não confirmado pelo estudo. Cada sessão fotográfica durava cerca de quatro horas.

Apesar de tentarem impedir a entrada destes grupos, os fotógrafos utilizavam autorizações oficiais para terem acesso aos habitats protegidos.

Tendo em conta que estes animais respiram pela pele, que é ultrassensível, o estudo aponta para o perigo de dessecação dos corpos dos espécimes decorrente do uso de flashs e de transmissão de doenças provocado pela ausência de uso de luvas na captura dos animais.

O incidente chama a atenção para os riscos do turismo fotográfico desregulado, de acordo com Rajkumar, que coloca em causa espécies vulneráveis e a preservação dos seus habitats, assim como provoca alterações de comportamento dos animais e até a sua morte.

O estudo propõe medidas para “promover” práticas de fotografia de natureza “mais éticas”, como a inclusão de “conhecimento das práticas éticas na fotografia de vida selvagem para o procedimento de seleção de guias licenciados” pelo Ministério do Turismo e a elaboração de um código de ética que inclua “restringir a captura, manuseamento e perseguição” dos espécimes, assim como a minimização do uso de “luzes de alta intensidade”.

Também é proposta a penalização dos fotógrafos que não cumpram as medidas.

As restrições à fotografia na Índia não são inéditas, existindo já proibições na fotografia durante as épocas de acasalamento e de ninhos durantes competições fotográficas.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Quercus alerta para proposta da Comissão Europeia de desregulação dos pesticidas e apela à mobilização dos cidadãos


A Quercus manifesta profunda apreensão à proposta de alteração do Regulamento Omnibus sobre Alimentos e Rações, que será considerada para votação oficial no próximo dia 16 de Dezembro pela Comissão Europeia. A proposta, liderada pela Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG SANTE), sob o pretexto da “simplificação”, “representa na realidade um ataque sem precedentes aos pilares do Regulamento (CE) 1107/2009, relativo à colocação de pesticidas no mercado, que visa proteger os cidadãos e o ambiente dos riscos dos pesticidas”, sublinha em comunicado.

Segundo a mesma fonte, tratam-se de “três alterações gravíssimas da proposta de alteração do Regulamento Omnibus":
1. Aprovações de Pesticidas por Prazo Ilimitado: Elimina as revisões periódicas obrigatórias (a cada 10-15 anos), que são o mecanismo crucial para reavaliar substâncias à luz do conhecimento científico mais atual. Sem este incentivo, pesticidas perigosos podem permanecer no mercado indefinidamente, ignorando novos dados sobre a sua toxicidade.
2. Abandono da Ciência Independente nas Autorizações Nacionais: Remove a obrigação legal dos Estados-Membros, recentemente reforçada pelo Tribunal da UE, de considerarem as evidências científicas independentes mais recentes ao autorizarem produtos pesticidas. Isto desarma a capacidade nacional de tomar decisões informadas e protetoras.
3. Duplicação dos Prazos de Carência para Pesticidas Proibidos: Permite que pesticidas já considerados demasiado perigosos e oficialmente proibidos continuem a ser vendidos e utilizados por mais três anos. Significa uma exposição prolongada e injustificada da população e dos ecossistemas a substâncias cancerígenas, disruptoras endócrinas e neurotóxicas.

Alexandra Azevedo, Presidente da Quercus, alerta: “Esta proposta representa um grave retrocesso, ameaçando a ciência e colocando em risco o Princípio da Precaução e o propósito de proteger a saúde pública e a biodiversidade”.

Tal como frisou Angeliki Lyssimachou, Diretora de Ciência e Política da PAN Europe, no comunicado inicial da PAN : “Pesticidas altamente tóxicos como o clorpirifós, que afeta o desenvolvimento cerebral em crianças, ou o mancozebe e o tiaclopride, que prejudicam a reprodução, ou ainda o PFAS flufenacet, que atua como disruptor endócrino, nunca teriam sido proibidos sob um sistema tão enfraquecido. Da mesma forma, os neonicotinóides que matam abelhas ainda estariam em uso hoje. Foi a ciência independente, e não os estudos da indústria, que revelou a sua toxicidade excessiva.”

“É inaceitável que, perante as exigências de redução de uso de pesticidas por parte dos cidadãos europeus, através de consultas públicas, de barómetros, da Conferência sobre o Futuro da Europa, de duas Iniciativas de Cidadania Europeia bem-sucedidas e um inquérito de opinião da IPSOS, a Comissão Europeia prepare um retrocesso legislativo que coloca os interesses da indústria à frente da saúde pública, da biodiversidade e da qualidade da água e dos solos”, lê-se na nota.

A Quercus junta-se ao apelo da Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), da qual é membro, exigindo que a Comissão Europeia rejeite categoricamente estas alterações e apelando a todos os cidadãos que se juntem a esta iniciativa, através do envio de um email para a comissária portuguesa, Maria Luís Albuquerque, instando-a a rejeitar a proposta. Este envio pode ser realizado de uma forma simplificada, através do acesso à página da Pesticide Action Network, onde, após aceder ao link disponibilizado, deverá preencher as suas informações e clicar em “Send an Email”: 

Para a Quercus, a urgência é “transitar para territórios livres de pesticidas, através de uma agricultura verdadeiramente sustentável, práticas florestais mais próximas da Natureza e gestão das áreas urbanas e vias de comunicação sem herbicidas ( e outros pesticidas)”.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Over a pint in Oxford, we may have stumbled upon the holy grail of agriculture

I knew that a revolution in our understanding of soil could change the world. Then came a eureka moment – and the birth of the Earth Rover Program

It felt like walking up a mountain during a temperature inversion. You struggle through fog so dense you can scarcely see where you’re going. Suddenly, you break through the top of the cloud, and the world is laid out before you. It was that rare and remarkable thing: a eureka moment.

For the past three years, I’d been struggling with a big and frustrating problem. In researching my book Regenesis, I’d been working closely with Iain Tolhurst (Tolly), a pioneering farmer who had pulled off something extraordinary. Almost everywhere, high-yield farming means major environmental harm, due to the amount of fertiliser, pesticides and (sometimes) irrigation water and deep ploughing required. Most farms with apparently small environmental impacts produce low yields. This, in reality, means high impacts, as more land is needed to produce a given amount of food. But Tolly has found the holy grail of agriculture: high and rising yields with minimal environmental harm.

He uses no fertiliser, no animal manure and no pesticides. His techniques, the result of decades of experiment and observation, appear to enrich the crucial relationships between crops and microbes in the soil, through which soil nutrients must pass. It seems that Tolly has, in effect, “trained” his soil bacteria to release nutrients when his crops require them (a process called mineralisation), and lock them up when his crops aren’t growing (immobilisation), ensuring they don’t leach from the soil.

So why the frustration? Well, Tolly has inspired many other growers to attempt the same techniques. Some have succeeded, with excellent results. Others have not. And no one can work out why. It’s likely to have something to do with soil properties. But what?

Not for the first time, I had stumbled into a knowledge gap so wide that humanity could fall through it. Soil is a fantastically complex biological structure, like a coral reef, built and sustained by the creatures that inhabit it. It supplies 99% of our calories. Yet we know less about it than any other identified ecosystem. It’s almost a black box.

Many brilliant scientists have devoted their lives to its study. But there are major barriers. Most soil properties cannot be seen without digging, and if you dig a hole, you damage the structures you’re trying to investigate. As a result, studying even basic properties is cumbersome, time-consuming and either very expensive or simply impossible at scale. To measure the volume of soil in a field, for example, you need to take hundreds of core samples. But as soil depths can vary greatly from one metre to the next, your figure relies on extrapolation. This makes it very hard to tell whether you’re losing soil or gaining it. Measuring bulk density (the amount of soil in a given volume, which shows how compacted it might be), or connected porosity (the tiny catacombs created by lifeforms, a crucial measure of soil health), or soil carbon – at scale – is even harder.

So farmers must guess. Partly because they cannot see exactly what the soil needs, many of their inputs – fertilisers, irrigation, deep ploughing – are wasted. Roughly two-thirds of the nitrogen fertiliser they apply, and between 50% and 80% of their phosphorus, is lost. These lost minerals cause algal blooms in rivers, dead zones at sea, costs for water users and global heating. Huge amounts of irrigation water are also wasted. Farmers sometimes “subsoil” their fields – ploughing that is deep and damaging – because they suspect compaction. The suspicion is often wrong.

Our lack of knowledge also inhibits the development of a new agriculture, which may, as Tolly has done, allow farmers to replace chemical augmentation with biological enhancement.

So when I came to write the book, I made a statement so vague that it reads like an admission of defeat: we needed to spend heavily on “an advanced science of the soil”, and use it to deliver a “greener revolution”. While we know almost nothing about the surface of our own planet, billions are spent on the Mars Rover programme, exploring the barren regolith there. What we needed, I argued, is an Earth Rover programme, mapping the world’s agricultural soils at much finer resolution.

I might as well have written “something must be done!” The necessary technologies simply did not exist. I sank into a stygian gloom.

At the same time, Tarje Nissen-Meyer, then a professor of geophysics at the University of Oxford, was grappling with a different challenge. Seismology is the study of waves passing through a solid medium. Thanks to billions from the oil and gas industry, it has become highly sophisticated. Tarje wanted to use this powerful tool for the opposite purpose – ecological improvement. Already, with colleagues, he had deployed seismology to study elephant behaviour in Kenya. Not only was it highly effective, but his team also discovered it could identify animal species walking through the savannah by their signature footfall.

By luck we were both attached, in different ways, to Wolfson College, Oxford, where we met in February 2022. I saw immediately that he was a thoughtful man – a visionary. I suggested a pint in The Magdalen Arms.

I explained my problem, and we talked about the limits of existing technologies. Was seismology being used to study soil, I asked. He’d never heard of it. “I guess it’s not a suitable technology then?” No, he told me, “soil should be a good medium for seismology. In fact, we need to filter out the soil noise when we look at the rocks.” “So if it’s noise, it could be signal?” “Definitely.”

We stared at each other. Time seemed to stall. Could this really be true?

Over the next three days, Tarje conducted a literature search. Nothing came up. I wrote to Prof Simon Jeffery, an eminent soil scientist at Harper Adams University, whose advice I’d found invaluable when researching the book. I set up a Zoom call. He would surely explain that we were barking up the wrong tree.

Simon is usually a reserved man. But when he had finished questioning Tarje, he became quite animated. “All my life I’ve wanted to ‘see’ into the soil,” he said. “Maybe now we can.” I was introduced to a brilliant operations specialist, Katie Bradford, who helped us build an organisation. We set up a non-profit called the Earth Rover Program, to develop what we call “soilsmology”; to build open-source hardware and software cheap enough to be of use to farmers everywhere; and to create, with farmers, a global, self-improving database. This, we hope, might one day incorporate every soil ecosystem: a kind of Human Genome Project for the soil.

We later found that some scientists had in fact sought to apply seismology to soil, but it had not been developed into a programme, partly because the approaches used were not easily scalable.

My role was mostly fixer, finding money and other help. We received $4m (£3m) in start-up money from the Bezos Earth Fund. This may cause some discomfort, but our experience has been entirely positive: the fund has helped us do exactly what we want. We also got a lot of pro-bono help from the law firm Hogan Lovells.

Tarje, now at the University of Exeter, and Simon began assembling their teams. They would need to develop an ultra-high-frequency variant of seismology. A big obstacle was cost. In 2022, suitable sensors cost $10,000 (£7,500) apiece. They managed to repurpose other kit: Tarje found that a geophone developed by a Slovakian experimental music outfit worked just as well, and cost only $100. Now one of our scientists, Jiayao Meng, is developing a sensor for about $10. In time, we should be able to use the accelerometers in mobile phones, reducing the cost to zero. As for generating seismic waves, we get all the signal we need by hitting a small metal plate with a welder’s hammer.

On its first deployment, our team measured the volume of a peat bog that had been studied by scientists for 50 years. After 45 minutes in the field, they produced a preliminary estimate suggesting that previous measurements were out by 20%. Instead of extrapolating the peat depth from point samples, they could see the wavy line where the peat met the subsoil. The implications for estimating carbon stocks are enormous.

We’ve also been able to measure bulk density at a very fine scale; to track soil moisture (as part of a wider team); to start building the AI and machine learning tools we need; and to see the varying impacts of different agricultural crops and treatments. Next we’ll work on measuring connected porosity, soil texture and soil carbon; scaling up to the hectare level and beyond; and on testing the use of phones as seismometers. We now have further funding, from the UBS Optimus Foundation, hubs on three continents and a big international team.

Eventually, we hope, any farmer anywhere, rich or poor, will be able to get an almost instant readout from their soil. As more people use the tools, building the global database, we hope these readouts will translate into immediate useful advice. The tools should also revolutionise soil protection: the EU has issued a soil-monitoring law, but how can it be implemented? Farmers are paid for their contributions “to improve soil health and soil resilience”, but what this means in practice is ticking a box on a subsidy form: there’s no sensible way of checking.

We’re not replacing the great work of other soil scientists but, developing our methods alongside theirs, we believe we can fill part of the massive knowledge gap. As one of the farmers we’re working with, Roddy Hall, remarks, the Earth Rover Program could “take the guesswork out of farming”. One day it might help everyone arrive at that happy point: high yields with low impacts. Seismology promises to shake things up.

E-Livro: Regenesis, by George Monbiot

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Novo livro de Nancy Fraser denuncia o capitalismo que devora as condições que o sustentam


A filósofa norte-americana Nancy Fraser defende que o capitalismo contemporâneo está a “devorar as próprias condições que o sustentam” e propõe repensar as bases do sistema, no livro intitulado “Capitalismo Canibal”, que chega este mês às livrarias portuguesas.

Com o subtítulo “O capitalismo está a devorar a democracia, os cuidados sociais e o planeta”, o ensaio de Nancy Fraser, publicado originalmente em 2022 e editado agora pela Antígona, alerta para a forma como o capitalismo atual, que descreve como “omnívoro e alarve”, é capaz de canibalizar todas as esferas da vida.

Segundo a autora, trata-se de um sistema que devora as bases que o sustentam, desde a natureza às instituições democráticas, passando pelo que chama de “reprodução social”, ou seja a sustentação material, emocional e relacional da vida humana.

Essa dinâmica manifesta-se na exploração intensiva dos recursos naturais, nas desigualdades de classe e etnia, na precarização do trabalho e no esvaziamento das práticas políticas, como se lê num excerto da obra.

Nancy Fraser defende que as múltiplas crises contemporâneas, sejam económicas, sociais, ambientais ou democráticas, têm como origem comum o apetite insaciável de um modelo económico que consome as próprias condições que o tornam possível.

No livro, a autora parte de uma releitura crítica de Marx para propor uma conceção alargada de capitalismo, que ultrapassa o domínio estritamente económico.

No primeiro capítulo da obra – “Omnívoro: Porque Precisamos de Alargar a Nossa Concepção do Capitalismo” -, sustenta que o sistema não se limita à exploração do trabalho assalariado, apoiando-se também em “fenómenos ‘não-económicos’ como o aquecimento global, o ‘défice das prestações de cuidados’ e o esvaziamento a todos os níveis do poder público”, que são simultaneamente indispensáveis e sistematicamente degradados.

“O capital expande‑se apropriando-se do excedente do tempo de trabalho dos assalariados explorados e igualmente expropriando a riqueza não-capitalizada e subcapitalizada dos prestadores de cuidados, das populações racializadas e da natureza. Por outras palavras, não se expande por si mesmo, mas canibalizando-nos”, apropriando-se do excedente humano e natural, sem reabastecer o que destrói, escreve Nancy Fraser no livro.

Numa entrevista dada em 2022 à revista The New Republic, a filósofa explicou que a metáfora do canibalismo procura inverter o uso colonial e racista original do termo: “Quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal”.

E acrescenta que o capitalismo destrói as próprias infraestruturas que o sustentam, entre as quais os sistemas políticos, jurídicos e sociais que garantem o funcionamento económico.

Nancy Fraser identifica uma crise global da reprodução social, resultante do neoliberalismo e do “capitalismo financeirizado”, de que são exemplo as mulheres, incluindo com filhos pequenos, que nas últimas décadas foram massivamente integradas na força de trabalho, enquanto os Estados reduziram os apoios públicos, criando uma “tempestade perfeita” de sobrecarga e falta de tempo.

Simultaneamente, o endividamento crescente – por via de hipotecas, cartões de crédito e empréstimos – desvia o rendimento familiar, “que poderia ser dedicado à construção de uma espécie de infraestrutura de cuidado”, para os bancos e para a ‘indústria de crédito’, numa nova forma de expropriação.

Na mesma entrevista, a autora alerta também para uma crise de “hegemonia”, conceito herdado de Antonio Gramsci, segundo o qual uma classe dominante mantém o seu poder não apenas pela força, mas também pelo consentimento.

Esta crise manifesta-se em dissidências e numa polarização, decorrente do “surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia”, que “substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado”.

Para a filósofa, a perda de confiança nas instituições e nas elites políticas está a abrir espaço tanto a movimentos emancipatórios, como o socialismo democrático e novas plataformas mediáticas de esquerda, como a forças reacionárias, incluindo o ‘trumpismo’, os movimentos antivacina e os discursos xenófobos.

A dimensão ecológica ocupa igualmente um lugar central na análise de Nancy Fraser, segundo a qual “o capitalismo separou brutalmente os seres humanos dos ritmos naturais e sazonais”, transformando a agricultura e a indústria em sistemas subordinados ao lucro e sustentados por combustíveis fósseis e fertilizantes químicos, descreve a sinopse do livro.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo promete fazer desaparecer a fronteira entre o humano e a natureza, com técnicas reprodutivas e tecnologias ciborgue, que em vez de reconciliar, intensificam a canibalização da natureza pelo capital.

Na entrevista à Common Wealth , a autora reconhece que o sistema capitalista demonstrou grande capacidade de reinvenção, mas considera que a mudança climática representa “um limite objetivo”, podendo tornar “a vida literalmente impossível para um número cada vez maior de populações”.

A filósofa defende a necessidade de imaginar novos sistemas para substituir o modelo atual, reduzindo as emissões, evitando que os custos recaiam sobre as populações mais vulneráveis e reconstruindo as bases da democracia e do cuidado.

Nancy Fraser desafia leitores e decisores a repensarem as estruturas fundamentais da vida social e económica antes que o sistema consuma tudo o que o sustenta.