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domingo, 25 de janeiro de 2026

Simple Minds: Don't You Forget About Me - IMY2 Cover


Hey, hey, hey, hey
Ooh whoa

Won't you come see about me?
I'll be alone dancing, you know it, baby
Tell me your troubles and doubts
Giving me everything inside and out
And love's strange, so real in the dark
Think of the tender things
That we were working on
Slow change may pull us apart
When the light gets into your heart, baby

Don't you forget about me
Don't, don't, don't, don't
Don't you forget about me

Will you stand above me
Look my way, never love me
Rain keeps falling
Rain keeps falling
Down, down, down
Will you recognize me
Call my name or walk on by
Rain keeps falling
Rain keeps falling
Down, down, down, down

Hey, hey, hey, hey
Ooh whoa

Don't you try and pretend
It's my feeling
We'll win in the end
I won't harm you
Or touch your defenses
Vanity, insecurity

Don't you forget about me
I'll be alone dancing, you know it, baby
Going to take you apart
I'll build us back together at heart, baby

Don't you forget about me
Don't, don't, don't, don't
Don't you forget about me

As you walk on by
Will you call my name?
As you walk on by
Will you call my name?
When you walk away

Or will you walk away
Will you walk on by?
Come on, call my name
Will you call my name?

I say, la, la-la-la-la, la-la-la-la

É difícil acreditar que esta música tem 40 anos. Algumas nunca envelhecem. E depois voltam a ser novidade! Ótima versão IMY2. Obrigada pela viagem no tempo.

A canção foi lançada em 1985. Tornou-se um sucesso estrondoso, alcançando o primeiro lugar na Billboard Hot 100 em maio daquele ano.

Curiosamente, a música não foi lançada originalmente num álbum de estúdio da banda. Ela foi composta especificamente para a trilha sonora do filme The Breakfast Club (Clube dos Cinco).

A banda inicialmente hesitou em gravá-la por não ser uma composição própria (foi escrita por Keith Forsey e Steve Schiff).

Mais tarde, devido ao sucesso, ela foi incluída em diversas coletâneas de "Greatest Hits" e edições especiais do álbum Once Upon a Time.

Significado da Canção
O significado está profundamente ligado ao enredo do filme Clube dos Cinco:
  1. Conexões Efémeras: A letra fala sobre o medo de que uma conexão intensa e verdadeira, feita em um momento isolado (como o dia de castigo dos estudantes no filme), seja esquecida quando a rotina voltar ao normal.
  2. Vulnerabilidade Juvenil: Representa a ansiedade social dos adolescentes que, apesar das diferenças de "tribos" (o atleta, a esquisita, o nerd, etc.), encontram pontos em comum e temem tornar-se estranhos novamente na segunda-feira seguinte.
  3. O Apelo: O refrão "Don't you forget about me" (Não se esqueça de mim) é um pedido desesperado para ser reconhecido como indivíduo, além dos rótulos e estereótipos impostos pela sociedade ou pela escola.
Em resumo: a letra reflete o dilema de cinco estudantes de grupos sociais distintos que compartilham um dia de castigo e criam laços profundos, mas temem que, ao retornarem à rotina escolar, essas conexões desapareçam e eles voltem a ser estranhos. O apelo emocional do refrão é um pedido para que a essência humana de cada um seja lembrada acima dos rótulos e preconceitos sociais.

sábado, 2 de novembro de 2024

Trump não vai ser derrotado por uma mulher. Vai ser derrotado por milhões de mulheres


If anti-Trump Republicans like Mitt Romney and Mike Pence aren't courageous enough to endorse Kamala Harris, how can we expect an anti-Trump voter married to a trigger-happy MAGA bully to speak up? Well, in the voting booth she doesn't have to, says a new Lincoln Project ad called "Secret."

The ad begins with two couples who are friends with each other stepping out of their cars to vote. Out of earshot of the women, one of the men asks the other if he's still voting for Trump. "Hell yeah," his buddy replies.

"What about your wife?" the MAGA man asks. "She doesn't like him," the friend says with a heavy sigh. "But she's votin' for him," he insists. The first says his wife is doing the same. Or so he thinks.

What neither man realizes is that these women, when left alone in their voting booths, have other plans. They glance at each other with knowing looks. They smirk. One of them mouths out the word, "Kamala." Other women begin to look around, and it's soon clear they are all in on the "Secret" — the name of the ad — as they all fill in the Kamala Harris bubble. (See video above, posted by the Lincoln Project.)

"Only you need to know who you vote for. Just ask Melania," says the caption on the ad's YouTube page, poking fun at Melania Trump's obvious disdain for her husband. While a few comments found the ad to be offensive, most commenters, including a lot of men, applauded the message, which, sadly but most likely, targets a real demographic.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Violação de menor no metaverso investigada pela polícia britânica


A polícia britânica está a investigar uma violação “virtual” a uma jovem, menor de idade, que terá acontecido num jogo - Horizon Worlds – no metaverso. Apesar de haver registo de outros casos semelhantes, tanto no Reino Unido, como nos Estados Unidos, esta será a primeira vez que uma entidade policial abriu um inquérito. A notícia foi avançada pelo jornal britânico Daily Mail.

A jovem, com menos de 16 anos, ou melhor, o seu avatar, foi atacado durante o jogo e abusado sexualmente por um grupo de desconhecidos. Foi uma violação virtual em grupo. Apesar de fisicamente não haver qualquer dano, as autoridades britânicas consideram que ela ficou psicologicamente e emocionalmente afetada como alguém que tivesse sido violada no mundo real. O tema é polémico e nem todos concordam com a opção.

Elsa Veloso, advogada especialista em privacidade e proteção de dados e CEO, da DPO Consulting, conhece o caso e espera que este seja levado à justiça. “As pessoas e os menores ficam traumatizados, são efetivamente assediados e sentem-no fisicamente”, porque a sensação do metaverso, do mundo virtual, “é extremamente física e real”, explica a advogada.

Há quem defenda que não existem consequências no mundo real, “mas estamos a ver que existem consequências no mundo real”, acrescenta. Na sua opinião, seja no mundo virtual, seja online, “relativamente ao metaverso, as violações, os bullyings, todas as formas de chantagem ou de extorsão de dinheiro não estão devidamente reguladas”. Principalmente a garantia de “proteção das crianças e dos jovens” que considera essencial.

Neste caso concreto, Elsa Veloso diz que o primeiro passo é “ver a lei que se aplica, do ponto de vista do direito internacional. E qual é a lei aplicável? Em que território foi cometido, efetivamente, o crime? Quem são os intervenientes? Qual a idade dos intervenientes?”.

A Meta, criadora do metaverso, propriedade de Mark Zuckerberg, tem uma sede na Irlanda. “As empresas são obrigadas a cumprirem com a legislação do território onde estão a operar”, explica Elsa Veloso. Por isso, “em princípio, deve-se aplicar o RGPD, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, que prevê capítulos especiais de proteção das crianças. E essas leis têm de ser aplicadas”.

Como, por exemplo, perceber se no acesso “às redes foram cumpridos os princípios da idade. O que acontece é que cabe ao metaverso provar que tomou todas as medidas necessárias para garantir que quem acedeu tinha a idade necessária para aceder”.

É por isso que defende que “o metaverso existe uma necessidade imensa de regulamentação, porque a verdade é que, do ponto de vista emocional, as crianças e os adolescentes, os jovens, não estão protegidos”.

O caso desta jovem britânica não é o primeiro a ser notícia. Em 2022 foi também notícia outra situação que envolvia uma mulher. Esta foi revelada no relatório “Metaverse: outra fossa de conteúdo tóxico”, elaborado pela organização sem fins lucrativos SumOfUs, que se dedica a abordar questões como os direitos humanos e o poder corporativo.

A mulher garantiu que foi "violada" no metaverso do Facebook durante uma festa privada enquanto outros utilizadores assistiam. O relatório descreve o caso com algum pormenor, revelando a natureza sórdida da situação. A vítima diz que se sentiu completamente "desorientada".

E a ida desta vítima ao metaverso começou por ser um estudo sobre o comportamento dos utilizadores no Horizon Worlds, mas depressa culminou numa violação e numa experiência emocional tão confusa quanto traumática. A investigadora entrou no espaço virtual da Meta, mas nem uma hora depois o seu avatar já estava a ser violado.

“O metaverso abre caminhos para predadores cometerem crimes horrendos contra crianças”

Ian Critchley, o responsável máximo do Conselho Nacional da Polícia para a Proteção das Crianças contra o Abuso alertou mesmo, após o caso da violação da menor se ter tornado conhecido, que “o metaverso abre caminhos para predadores cometerem crimes horrendos contra crianças”, escreve o Daily Mail.

Elsa Veloso acredita que não é só no mundo virtual que o perigo é muito real. E aponta o dedo às redes sociais. “As redes sociais transmitirem esta política dos ‘likes’, em que as pessoas sabem nomes e marcas, mas esqueceram-se de aprender dos animais e as plantas. E, portanto, estão desligados do mundo real, do mundo concreto, do dia-a-dia, vive-se da dopamina constante”.

Além disso, “com a inteligência artificial, vamos assistir a um incremento substancial das deep fakes, fake news, que vão confundir por completo as crianças e os jovens, que não têm capacidade crítica, nem estão preparados para distinguir o que são notícias falsas e notícias verdadeiras”.

Uma das primeiras regras, para esta especialista, devia ser a garantia de que as redes ou as plataformas não são usadas por quem não tem a idade legal prevista para o fazer. Isto “não garante tudo, mas é uma primeira linha”.

O caso do Tik Tok, “que tem sido alvo de coimas altíssimas” é um exemplo dado pela advogada. “O TikTok está a ser proibido e banido, está a ter coimas altíssimas, porque existe uma invasão enorme da privacidade. Existe ainda uma transferência de dados para a China. Não existe proteção relativamente aos menores e existem técnicas para viciar, que é a palavra certa. Criar comportamentos aditivos relativamente a estas plataformas”.

Além disso, Elsa Veloso deixa outro alerta: “Existem redes organizadas de exploração sexual infantil, que fazem com que os mais novos comecem por dar o endereço e depois dão uma fotografia e depois a seguir já estão a fazer vídeos online”. “São redes organizadas que têm objetivos muito próprios de apanharem os mais vulneráveis e conseguirem atraí-los para fins menos próprios”.

O apelo final é para os pais. Para que estejam atentos. Os mais novos “não podem estar sozinhos, permanentemente, ligados aos computadores, às redes sociais. Sem falarem, sem brincarem, sem interagirem, sem ganharem capacidade crítica. Eles têm de ganhar capacidade crítica através do mundo real”.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Sobre os meus hábitos de leitura


Leio compulsivamente. Adoro ler. Seguramente já li cerca de 4.500 obras. Desde literatura gótica, russa, germânica, inglesa, nórdica, portuguesa, francesa, ibero-americana, contos, peças de teatro, ficção-científica, autobiografias (uma paixão), pedagogos, filosóficos, divulgação científica, infanto-juvenis, poetas então nem se fala. Leio autores anarquistas, de esquerda e de direita. Gosto de política e ver como e porquê eles pensam sobre as suas escolhas e doutrinas.
Fico com pena que certos autores tenham morrido cedo. Questiono que outras obras magníficas estariam eles disponíveis a escrever e avançar na Humanidade. Por exemplo Jaroslav Hašek, que nos deixou um livro incrível: Bom Soldado Švejk.
Por outro lado temos o filósofo esloveno Slavoj Žižek, que já conta com mais de 600 livros e é humanamente impossível lê-los todos.
Sou de mente aberta. Leio autores LGBTI. O amor não tem género nem orientação sexual ou o raio que isso é. Tive, ao longo da minha carreira docente, 4 casos de alunos que estavam na transição transexual. Vi o sofrimento deles e delas nesse questionamento e orientação sexual. Ajudei-os e à família a ultrapassar muitas barreiras e bullying. Mais uma vez a literatura ajudou-me bastante.
Hoje partilho convosco uma frase muito enigmática e tão actual do romance "O Bolor" de Augusto Abelaira. Diz ele a certa altura (estava a falar do trio amoroso, infidelidade):
"O nós é elástico, percebes?, como um balão, pode ganhar a amplitude que quisermos, que lhe soubermos dar, ser cheio de vento ou cheio de sentido, de riqueza concreta, efectiva, humana…É a medida da nossa generosidade, afinal. Ou do nosso egoísmo. Um nós em que cabem todos os deserdados da Terra é um nós onde eu não caibo."

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Perdoar e pedir perdão não é exclusivo do Catolicismo


Perdoar e pedir perdão não é exclusivo do Catolicismo, Cristianismo. Também existe no Islamismo, no Judaísmo,  na fé Baha´i, no Jainismo, no Hinduísmo e vejam só, no Budismo.
No budismo, o perdão evita que pensamentos nocivos causem estragos no bem-estar mental da pessoa. O budismo reconhece que sentimentos de ódio e má vontade deixam um efeito duradouro no nosso karma mental. O budismo encoraja o cultivo de pensamentos que deixam um efeito mais saudável. "Ao contemplar a lei do karma, percebemos que não se trata de buscar vingança, mas de praticar mettā e perdão, pois o vitimizador é, verdadeiramente, o mais infeliz de todos." Quando os ressentimentos já surgiram, a visão budista é proceder calmamente para libertá-los, voltando às suas raízes  O budismo concentra-se na libertação da ilusão e do sofrimento por meio da meditação e da percepção da natureza da realidade. O budismo questiona a realidade das paixões que tornam o perdão necessário, bem como a realidade dos objetos dessas paixões. "Se não perdoamos, continuamos criando uma identidade em torno de nossa dor, e é isso que renasce. Isso é o que sofre."
O budismo coloca muita ênfase nos conceitos de mettā (bondade amorosa), karuna (compaixão), mudita (alegria simpática) e upekkhā (equanimidade), como um meio de evitar ressentimentos em primeiro lugar. Essas reflexões são usadas para entender o contexto do sofrimento no mundo, tanto o nosso quanto o sofrimento dos outros.
"Ele abusou de mim, ele me bateu, ele me venceu, ele me roubou" — naqueles que abrigam tais pensamentos, o ódio nunca cessará. 
"Ele abusou de mim, ele me bateu, ele me venceu, ele me roubou" - naqueles que não abrigam tais pensamentos, o ódio cessará."
Dhammapada 1.3–4 (trad. Radhakrishnan)

Referências bibliográficas:
1.Ajahn Sumedho (October 1997). "Universal Loving Kindness". Forest Sangha  
2. O'Leary, Joseph S. (2006). "Buddhism and Forgiveness".  
3. Ajahn Pasanno (2004). "Preparing for Death". Abhayagiri Buddhist Monastery


Sugiro ainda a leitura de Carl Jung no volume 11 das suas obras reunidas, particularmente o capítulo 5  Psychotherapist or the clergy e o artigo The Value of Confession and Forgiveness According to Jung em que é retratado com argúcia o perdão.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Estudo liga preconceito a pessoas de baixo Q.I.

O estudo revela que crianças com baixo QI estão mais dispostas a realizar atitudes preconceituosas quando se tornarem adultas.


Um estudo feito pela Universidade de Ontario, no Canadá, parece ser bastante provocador. A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas menos inteligentes - sim, isso é um eufemismo - são mais conservadoras, preconceituosas e racistas.

O estudo revela que crianças com baixo QI estão mais dispostas a realizar atitudes preconceituosas quando se tornarem adultas. A pesquisa foi publicada na revista Psychological Science

A descoberta aponta para um ciclo vicioso, em que esses adultos com pouca inteligência ‘orbitam’ em torno de ideologias socialmente conservadoras, resistentes à mudança e que, por sua vez, geram o preconceito.  

As pessoas menos inteligentes seriam atraídas por ideologias conservadoras, segundo o estudo, porque oferecem ‘estrutura e ordem’, o que dá um  certo ‘conforto’ para entender um mundo cada vez mais complicado. 

"Infelizmente, muitos desses recursos também podem contribuir para o preconceito", disse Gordon Hodson, pesquisador chefe do estudo, ao site Live Science

 Ele salientou ainda que, apesar da conclusão, o resultado não significa que todos os liberais são ‘brilhantes’ e nem que todos os conservadores são ‘estúpidos’. A pesquisa é um estudo de médias de grandes grupos, disse Gordon Hodson. 

Gordon Hodson é professor de psicologia na Brock University, onde dirige o Brock Lab of Intergroup Processes. Ele é conhecido por suas pesquisas sobre ideologia política e sua relação com preconceito, inteligência e negação das mudanças climáticas. Escreve regularmente para a revista Psichology Today.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Petição - Viver o recreio escolar sem ecrãs de smartphones

ASSINAR Petição

Para: Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro Ministro, Senhor Ministro da Educação, Direções das Escolas

Petição pública a favor da revisão do atual estatuto do aluno quanto ao uso de telemóveis smartphones nas escolas, a partir do 2º ciclo, em prol da socialização das crianças nos recreios. Para que socializem, conversem cara-a-cara e brinquem. Para que os casos de cyberbulling e contacto com conteúdos impróprios para a sua idade, diminuam.

Numa altura em que vários países e algumas escolas em Portugal, já avançaram com a tomada de decisão de proibir a utilização de telemóveis nas escolas, quer em espaços letivos, como em espaços não letivos, os cidadãos abaixo assinados, apelam ao debate, com a finalidade de se rever o atual estatuto do aluno, onde nos parece faltar sensibilidade e coerência sobre o tema.
Na transição do 4º ano do 1º ciclo, para o 5º ano, do 2º ciclo (9 /10 anos), as crianças ainda precisam de brincar, querem correr e jogar à bola no recreio. Ao brincar, junta-se a questão da integração. Esta é uma fase em que a maioria das crianças irá para uma escola nova, vai ter muitos professores e todo um mundo novo para descobrir.

É nesta fase de mudança que se reforçam e criam novos laços de amizade, tão importantes na criação de relações de confiança entre pares. Deve ser prioridade estimular e fomentar a interação verdadeira, cara-a-cara, para que as crianças possam demonstrar as suas emoções através de expressões faciais e não através de um ecrã.
Consideramos que permitir a utilização de telemóveis nos recreios está a alterar os padrões de socialização das crianças e a sua integração de forma saudável.

Que solução propomos:
Que as escolas estejam equipadas com caixas, cacifos ou armário próprio onde, à primeira hora, os telemóveis sejam guardados e que no final da última hora, os alunos os recolham. Desta forma, os alunos continuam a poder contactar ou ser contactados pelos pais quando chegam à escola e passam a poder fazer atividades de recreio, mas sem utilizar o telemóvel.

Algumas considerações sobre este tema, que constam no atual estatuto do aluno:
r) “Não utilizar quaisquer equipamentos tecnológicos, designadamente, telemóveis, equipamentos, programas ou aplicações informáticas, nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas ou reuniões de órgãos ou estruturas da escola em que participe, exceto quando a utilização de qualquer dos meios acima referidos esteja diretamente relacionada com as atividades a desenvolver e seja expressamente autorizada pelo professor ou pelo responsável pela direção ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso”;
s) “Não captar sons ou imagens, designadamente, de atividades letivas e não letivas, sem autorização prévia dos professores, dos responsáveis pela direção da escola ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso, bem como, quando for o caso, de qualquer membro da comunidade escolar ou educativa cuja imagem possa, ainda que involuntariamente, ficar registada”;

t) “Não difundir, na escola ou fora dela, nomeadamente, via Internet ou através de outros meios de comunicação, sons ou imagens captados nos momentos letivos e não letivos, sem autorização do diretor da escola”;

Sobre a alínea r) consideramos que há uma falha ao excluir os locais onde não existem atividades não letivas, nomeadamente o recreio;
Por tudo o que já foi exposto, o recreio é o espaço onde as crianças devem socializar. Ao existir a possibilidade de utilização deste tipo de equipamentos no espaço não letivo, nomeadamente no recreio, a socialização saudável diminui drasticamente.

Sobre a alínea s) nesta alínea, já é abordado o local de atividades não letivas, onde achamos que se inclui o recreio, para se falar da captação de som e imagens. O texto diz: (…) não captar sons ou imagens de atividades não letivas
sem a autorização do professor (…). A pergunta que fazemos é: Mas quem vai pedir ao professor se pode fotografar ou filmar um colega no recreio?

Sobre a alínea t), seria mais fácil a total proibição de utilização do telemóvel no recreio. Até porque, considerando a falta de recursos humanos nas escolas, o mais provável é não haver possibilidade de monitorizar estes acontecimentos, pelo que consideramos esta alínea ineficaz.

Reflexões acerca da utilização do telemóvel no recinto escolar

Aos pais:
• Vamos potenciar o brincar ou o jogar online no recreio?
• Preferimos que falem presencialmente ou através de whatsapp, quando muitas vezes estão no mesmo espaço a conversar?
• O controlo parental serve para a nossa criança, na nossa casa, mas não para os telemóveis dos amigos, na escola, por isso, a verdade é que todos acabam por ver tudo, tendo acesso a conteúdos impróprios para a sua idade;
• Existem alternativas aos smartphones para podermos entrar em contacto com as crianças. Os telemóveis smartphones, no espaço escolar, dá-lhes um mundo enorme de possibilidades que acabam por ser viciantes e lhes retiram tempo para outras atividades de socialização.

Aos senhores governantes:
• Que debatam este tema em prol da saúde física e mental das crianças, para que os recreios sejam recreios e que as crianças não se isolem individualmente ou em pares à volta de um telemóvel;
• Que atualizem o estatuto do aluno, no que ao uso do telemóvel no recreio diz respeito;
• Que revejam se faz sentido que o estatuto permita aos professores pedirem telemóvel, sem ser feita uma distinção de ciclos escolares, para elaborar testes e pesquisas, quando há crianças que podem não ter este equipamento;
• Que disponibilizem equipamento mobiliário necessário para armazenar os telemóveis, caso as escolas assim o solicitem;
• Que sensibilizem as direções das escolas a usar os computadores portáteis que o Estado forneceu para os alunos efetuarem as suas pesquisas e não o telemóvel.

Às direções das escolas:
• Pensar em criar o seu próprio regulamento, quanto ao uso do telemóvel na sua escola, tal como fez a escola pública EB3 de Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira e tantas outras privadas;
• Pensar em ter um local próprio para a colocação dos telemóveis à primeira hora e onde os alunos possam recolher o telemóvel no final da última aula;
• Pensar em não incentivar o uso do telemóvel nas salas de aula (a pedido dos professores), quando há crianças que não têm, evidenciando uma diferença entre elas. Esta também é uma forma de exclusão;
• Pensar que os computadores fornecidos pelo Estado podem e devem ter utilidade na escola e não estar apenas em casa;
• Pensar se queremos crianças com vontade de terminar a brincadeira do recreio anterior, ou o nível do jogo online que deixaram a meio;
• Pensar que, mais dia menos dia, já ninguém sabe escrever em papel.

Opinião, Entrevista  e Livro

Escola de Santa Maria da Feira

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O impacto desproporcional da crise climática na comunidade LGBTQIA2S+


Não é segredo que aa alterações climáticas estão a afetar a todos neste planeta, mas o que muitas vezes é esquecido é o impacto desproporcional em grupos já marginalizados, incluindo LGBTQIA2S+, principalmente se eles também são membros de outros grupos marginalizados, como de baixa renda, negros, indígenas ou pessoas de cor. Isso ocorre porque esses grupos têm maior probabilidade de sofrer pobreza, discriminação e violência , o que, por sua vez, pode limitar sua capacidade de acessar recursos e se adaptar às mudanças nas condições ambientais e sociais em nosso planeta em aquecimento.

Agora, mais do que nunca, é fundamental entender a sobreposição entre o movimento climático e o movimento queer, para que possamos enfrentar essas lutas interconectadas como um movimento unido.

Indivíduos LGBTQIA2S+ são frequentemente forçados a deixar as suas casas devido a conflitos familiares, ameaças de abuso ou violência real, o que os faz experimentar taxas mais altas de falta de moradia. Eles também tendem a se mudar para locais segregados para reduzir o risco de discriminação e assédio de vizinhos e proprietários. Essas áreas costumam ser as mais poluídas, o que causa muitos problemas de saúde a longo prazo e também as torna muito mais vulneráveis ​​a desastres naturais.

Além disso, as alterações climáticas exacerbam as desigualdades pré-existentes encontradas na sociedade, como moradia e assistência médica, entre muitas outras, fazendo com que pessoas trans e queer sejam desproporcionalmente afetadas durante desastres climáticos e pelos efeitos mais amplos do colapso climático na sociedade.


Pessoas LGBTQIA2S+ excluídas da ajuda humanitária
Nos EUA, pesquisas mostraram que indivíduos LGBTQIA2S+ têm um risco 120% maior de ficar sem-teto . Apesar de apenas 9,5% dos jovens americanos se identificarem como LGBTQIA2S+, eles representam 40% dos jovens sem-teto. Embora essas estatísticas já sejam desproporcionais, os percentuais são ainda maiores para a população negra e indígena de cor (BIPOC) LGBTQIA2S+.

Pessoas em situação de rua e com moradia inadequada como a comunidade LGBTQIA2S+ sempre serão as mais afetadas por desastres naturais, aumento de temperatura e ar poluído. Eles não apenas estão frequentemente na linha de frente de desastres naturais, mas também frequentemente recebem ajuda e abrigo destinados a ajudar as comunidades afetadas pelo clima.

Por exemplo, durante o furacão Katrina, as pessoas trans foram afastadas dos abrigos de emergência e as que conseguiram entrar enfrentaram discriminação. Uma pessoa trans foi presa por tomar banho na casa-de-banho feminino, mesmo com a permissão de um voluntário .

Outro exemplo dessa discriminação é encontrado na Índia em 2004, quando ocorreu o tsunami no Oceano Índico. Os Aravanis, grupo de pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher, foram excluídos dos abrigos temporários e dos registos oficiais de óbitos . Isso os excluiu de muitas das agendas de socorro e reconstrução, dando-lhes menos oportunidade de se recuperar após a crise.

Outras situações são relatadas no artigo científico Climate Change and Migration: Considering the Gender Dimensions.

Em tempos de desastre, o privilégio funciona. Esses são apenas alguns exemplos de como indivíduos LGBTQIA2S+ são sistematicamente discriminados em tempos de crise climática. Eles mostram a interconexão do movimento queer e do movimento climático e por que precisamos trabalhar juntos para fazer o que é certo, para todas as pessoas e o planeta que chamamos de lar.

Estamos todos conectados na natureza
O Greenpeace pode ser mais conhecido pelas árvores e baleias, mas também nos concentramos na interconexão das pessoas e da natureza . Curiosamente, a bandeira do arco-íris foi feita com essa ideia em mente, já que o verde significa 'natureza' , algo de que todos fazemos parte. Lutamos pela natureza e lutamos por cada pessoa, independentemente de seu género ou etnia, ou a quem escolham amar.

domingo, 28 de maio de 2023

Há seis anos sem telemóveis, alunos de Lourosa já se esqueceram dos ecrãs no recreio


A diretora da Escola EB 2/3 António Alves Amorim, de Santa Maria da Feira, Mónica Almeida, não tem dúvidas em afirmar que restringir o uso dos referidos aparelhos ao contexto pedagógico, quando solicitado por um professor, foi "a melhor coisa" que aí se fez.

Situada na freguesia de Lourosa e frequentada por 630 alunos dessa região do distrito de Aveiro, a EB 2/3 em causa é apontada como exemplo na petição pública "Viver o recreio escolar sem ecrãs de smartphones", que reúne mais de 3.400 assinaturas apelando a que, a partir do 2.º ciclo, crianças e jovens sejam impedidos de usar telemóveis em ambiente escolar.
Os peticionários defendem que a proibição ajudará os alunos a desenvolverem as suas capacidades de socialização e comunicação oral, e também fará diminuir o 'bullying' 'online' e a difusão ilegal de imagens e vídeos com menores.

Mónica Almeida concorda. Diz que isso está demonstrado pelos últimos seis anos de experiência da escola e pela animação que se nota no recreio durante os intervalos: há grupos de alunos em altas gargalhadas, miúdas a caminhar juntas em torno de jardins bem cuidados, rapazes a jogar bola no relvado sintético e até pares românticos a beber sumo na esplanada do bar, sob as árvores.

"Implementámos esta medida há seis anos e o principal objetivo era que os nossos alunos pudessem socializar uns com os outros sem recurso ao telemóvel, porque achávamos que nestas idades, de formação do seu caráter, é muito importante a interação de uns com os outros e não por via dos ecrãs", explica Mónica Almeida.

Embora já em 2017 fosse tida como arriscada, a medida foi aprovada sem dificuldade no conselho pedagógico, pelos docentes, e depois validada também pelo conselho geral, em que pais e encarregados de educação também se mostraram "muito a favor" da mudança.

"O mais difícil foi implementá-la nos alunos que já cá estavam há algum tempo, nomeadamente aqueles que usavam de forma sistemática o telemóvel. Mas depois, em reuniões de delegados [de turma], eles foram os primeiros a assumir que foi uma boa medida, porque passaram a conhecer os seus colegas muito melhor", recorda a diretora.

Em termos práticos, os alunos da EB 2/3 de Lourosa podem levar o telemóvel para a escola, mas, na primeira aula, entregam os aparelhos ao professor, que os deposita numa caixa específica para cada turma, guardada num armário próprio da receção do edifício. Depois, independentemente da carga horária letiva de cada dia, só na última aula é que o professor em funções acede novamente à caixa, para devolver os telefones a seu dono.
Os estudantes mais cumpridores podem manter o telemóvel consigo, desde que esse nunca seja consultado. À primeira infração há um aviso; à segunda o aluno fica suspenso três dias -- "ou mais", como aconteceu durante uma semana com o estudante que gravou um professor e partilhou o vídeo nas redes sociais.

Urgências estão previstas: "Sempre que queiram dar um recado aos seus educandos, os pais ligam para a escola e nós fazemo-lo chegar ao aluno. Quando o educando quiser uma chamada para os encarregados de educação, pode sempre fazê-lo, sem nenhum custo".

É por isso que Inês Santos, que tem 11 anos e frequenta o 5.º C, nem leva o telefone para a escola. Está habituada a prescindir dele desde a escola primária e não tem reclamações sobre a medida: "Assim temos mais tempo nos intervalos para conviver uns com os outros. Dou voltas à escola com as minhas amigas, a caminhar; falamos de como correram os testes, das coisas que fazemos ao fim-de-semana".

Já com 14 anos, Frederico Ferreira acrescenta jogos de futebol, ténis de mesa e matrecos à lista de atividades com que substitui os ecrãs. Lamentando que noutras escolas haja "muita gente parada ao telemóvel a mandar mensagens em vez de falar com os colegas", esse aluno do 9.º F aprecia a política da EB 2/3 António Alves Amorim e diz que os pais até tiveram nela um dos principais fatores que os levaram a matriculá-lo aí.

Quando explica essa proibição a amigos de outros estabelecimentos de ensino é que a situação se complica: "As pessoas acham um bocado estranho e a primeira reação é que ficam espantadas. 'Como é possível uma pessoa nesta idade 'viver' sem o telemóvel?'. Porque, efetivamente, isto é uma realidade muito diferente da do resto das escolas".

A confirmá-lo está Camila Oliveira, professora de Matemática e Ciências que, lecionando na EB 2/3 de Lourosa apenas há cinco anos, mal conseguiu conter o entusiasmo ao saber que a proibição de uso de telemóveis nesse estabelecimento de ensino ia ser tema de notícia e dar-lhe oportunidade de traçar a comparação com o local onde trabalhava antes.

"Venho de uma escola onde os miúdos, mal saíam das aulas, escorregavam pela parede abaixo com o telemóvel e ficavam ali agarrados àquilo. Não havia convívio como há aqui e por isso é que achei isto magnífico. Todas as escolas deviam seguir este exemplo", declara.

Realçando "a coragem da direção" ao decidir que os telemóveis seriam proibidos em todo o recinto escolar e não apenas nas salas de aulas (como estipula o Estatuto do Aluno, ao proibir aparelhos informáticos "nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas"), Camila Oliveira acrescenta: "Estamos na era das comunicações, mas a nossa sociedade está a ficar doente por causa da falta de comunicação física, presencial. Acho esta medida importantíssima, pela saúde dos nossos filhos -- principalmente a mental".

Maior capacidade de socialização, desenvoltura argumentativa, segurança no discurso em público e empatia são algumas das competências que as duas professoras dizem favorecidas pelo menor contacto com telemóveis. Além disso, a proibição liberta a escola de "um sem-número de problemas, nomeadamente alguns crimes que se cometem nos estabelecimentos de ensino sem que os alunos tenham sequer consciência disso", refere.

Mónica Almeida dá apenas dois exemplos, entre os mais frequentes: a captação ilegal de imagens de alunos, na maioria dos casos em circunstâncias normais de socialização, mas, às vezes, também em situações de 'bullying', 'body shaming' e exposição sexual; e a filmagem de professores em contexto da sala de aula, num crime agravado pela difusão desses conteúdos nas redes sociais.

"Esses comportamentos são da responsabilidade dos pais e nós aqui não temos esse problema. Não usando telemóveis, não compete à escola supervisionar essas questões", conclui.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Dia Mundial do Gótico


O Dia Mundial do Gótico é comemorado anualmente em 22 de maio. O site Official World Goth Day o define como "um dia em que a cena gótica celebra seu próprio ser e uma oportunidade de tornar sua presença conhecida no resto do mundo".

O Dia Mundial do Gótico originou-se no Reino Unido em 2009 inicialmente como Dia Gótico, uma celebração em menor escala da subcultura gótica inspirada na transmissão de um conjunto especial de programas na BBC Radio 6.

O DJ gótico baseado no Reino Unido 'Lee Meadows', também conhecido como DJ 'Cruel Britannia' (agora conhecido como 'BatBoy Slim') escreveu um blog no MySpace sugerindo a ideia de iniciar um 'Dia Gótico' para uma recepção muito positiva. Em 2010, ele e o DJ gótico residente em Londres 'martin oldgoth' (minúsculas no nome intencional) decidiram levar o conceito globalmente, tanto 'como um pouco de diversão' quanto para criar um ambiente de positividade e unidade dentro da comunidade gótica. Um site oficial e presença na mídia social foram consequentemente criados com o objetivo de promover a ideia de um 'Dia Mundial do Gótico' e também fornecer uma lista abrangente de eventos internacionais que ocorreriam na data escolhida de 22 de maio. Também neste ponto, John Holley interveio para empreender e continua a administrar a página oficial do Facebook para o Dia Mundial do Gótico.

O Dia Mundial do Gótico celebra os aspectos subculturais da subcultura gótica. Aspectos da cultura como moda, música e arte são celebrados por desfiles de moda, exposições de arte e apresentações musicais. Muitos dos eventos apresentam bandas góticas locais, e alguns assumiram um aspecto de caridade com eventos no Reino Unido e na Austrália apoiando instituições de caridade favorecidas como a Fundação Sophie Lancaster do Reino Unido, uma instituição de caridade que tenta conter o preconceito e o ódio contra as subculturas.

domingo, 14 de maio de 2023

Sim, há racismo em Portugal

Dados do mais recente grande inquérito europeu do European Social Survey 2022, 62% dos portugueses manifestam racismo. O relatório  revela ainda que quanto mais velhos os inquiridos, mais fortes são os seus preconceitos. Jovens também mostram elevadas percentagens de crenças racistas. Escolaridade e rendimento não apagam racismo biológico e cultural. Quem discorda de todas as crenças racistas representa apenas 11% da população.

É urgente combater o discurso do ódio, o da discriminação de etnias, relembrar a História. Somos diversos. É essa a beleza da sociedade humana. E depois mesmo em família, casal de progenitores, a genética dá-nos a volta ao preconceito.


Na foto: Luís Carlos de Oliveira com os seus dois filhos gémeos- David e Nicolas. História aqui (com um video)

Saber mais:

Tese de Doutoramento

Ciganos

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Poesia da Semana - Poema de Agradecimento à Corja, por Joaquim Pessoa


Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 13 de março de 2023

CSW: maior evento global de mulheres debate tecnologia e inovação para alcançar a igualdade

Todos os anos, mulheres de todo o mundo se reúnem na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para debater o progresso relacionado à igualdade de gênero e ao empoderamento feminino.

A 67ª Sessão da Comissão da ONU sobre o Estatuto da Mulher, CSW, começa nesta segunda-feira e vai até o dia 17 de março.
A sul-africana Mathu Joyini preside a 66ª sessão da Comissão sobre a Condição da Mulher.

Número recorde de participantes

A presidente do Comitê sobre o Estatuto da Mulher, Mathu Joyini, disse que este ano haverá um número recorde de mulheres, vindas de diferentes partes do mundo.

Na última sessão totalmente presencial, em 2019, foram mais de 7 mil participantes, incluindo 2 mil representantes de Estados-membros, 5 mil da sociedade civil e 86 ministros.

Em 2023, o tema prioritário da CSW é a inovação, mudança tecnológica e educação na era digital para alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas.

Mathu Joyini, que também é representante permanente da África do Sul na ONU, lembra que entre os assuntos abordados também estarão problemas de segurança e proteção enfrentados por mulheres em diferentes plataformas.

Participantes da CSW 63 na sede da ONU em Nova Iorque

Longo caminho até a igualdade

Centenas de pessoas participam em plenárias ministeriais e eventos paralelos do que é considerado o maior evento global de mulheres. Entre os representantes estão delegações de Estados-membros, entidades das Nações Unidas e organizações não-governamentais.

De acordo com a ONU Mulheres, nas taxas atuais, levará quase mais três séculos para trazer igualdade para mulheres e meninas.

Prejudicadas por desigualdades persistentes, cerca de 383 milhões delas vivem em extrema pobreza. E a cada 11 minutos, uma mulher ou menina é morta por alguém de sua própria família.


Participantes na reunião da sociedade civil da Comissão sobre o Estatuto da Mulher, CSW63, com o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Ações e resoluções

Criada em 1946, a Comissão sobre o Estatuto da Mulher é o principal órgão intergovernamental global dedicado exclusivamente à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento feminino. Este é o segundo maior evento no calendário da organização, depois da Assembleia Geral.

Em duas semanas de sessões, a comissão adotará programas de trabalho, avaliará os progressos alcançados e fará recomendações para acelerar a implementação da Plataforma de Ação de Pequim para o empoderamento das mulheres.

Além de examinar e adotar uma resolução do tema prioritário, a reunião anual deve acompanhar as metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável para o avanço da igualdade de gênero.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Olhos nos olhos, sem violência, sem preconceito! Educar para a Cidadania com afetos


O Webinar vai centrar-se no tema do Bullying em particular do homofóbico, na prevenção da violência, e na eliminação de preconceitos. O debate vai passar por: entender conceitos (LGBTQI+), tipos bullying, consequências, o que fazer, como ajudar, partilhar recomendações.

Os objetivos deste webinar passam ainda por contribuir para a melhoria dos relacionamentos afetivo-sexuais dos jovens enquadrando-se em finalidades da Lei 60/2009 de 6 de agosto: a eliminação de comportamentos baseados na discriminação sexual ou na violência em função do sexo ou orientação sexual, o respeito pela diferença entre as pessoas e pelas diferentes orientações sexuais, a valorização da sexualidade e afetividade.

O público-alvo são pais, docentes e jovens do 3º ciclo do ensino básico e ensino secundário.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Uber: As revelações do mega-vazamento

Expor motoristas à violência, como estratégia de marketing. Subornar políticos e a mídia. Praticar crimes e apagar as provas. Reportagens evidenciam o lado ultra-arcaico das Big Techs e mostram: é preciso contê-las, ou destruirão a democracia.


O jornal londrino The Guardian começou a publicar ontem [10/7] uma série de textos devastadores contra a Uber. Denominou-a Uber files [Os Arquivos Uber]. Baseiam-se num conjunto de 124 mil documentos vazados por Mark MacGann, um ex-diretor que se diz arrependido pelos atos que ajudou a praticar. Entre as várias denúncias, a Uber é acusada de: oferecer dinheiro para os empresários da mídia na Europa e na Índia para obter cobertura favorável; agir deliberadamente para inibir aplicação da lei; ludibriar a polícia; pressionar políticos; fechar acordo secreto de favorecimento na França com o governo de Emmanuel Macron.
O conjunto das matérias pode ser acessado nesta página. No texto a seguir, a análise de seu significado.

Havia táxis antes de haver Uber, assim como havia livrarias antes da Amazon e amigos antes do Facebook. Uma grande parte da inovação consiste em novas maneiras de entregar ideias antigas. A tecnologia dá ao inovador uma vantagem ao reduzir os custos, permitindo entregas mais ágeis e superando os concorrentes presos a métodos obsoletos.

Esse é o mito fundacional do folclore do Vale do Silício. Foi a história que a Uber propagou sobre si mesma nos anos de seu crescimento mais explosivo, de um serviço de caronas em São Francisco a uma potência global de tecnologia. Aqui estava a ruptura digital arquetípica – um aplicativo para combinar demanda e oferta com uma capacidade que tirou a concorrência do caminho.

Quando esses concorrentes (taxistas licenciados) reclamaram, suas objeções foram descartadas pelo recém-chegado como o estertor da morte dos monopolistas e luditas [em referência aos trabalhadores ingleses que, no século XIX, quebravam as máquinas como forma de protesto contra a exploração trazida com a inovação tecnológica] que estavam atrapalhando o progresso.

Havia então, e ainda há, uma discussão sobre regulamentação que inibe a inovação e quando ela precisa mudar de acordo com os tempos de mudança. Esse debate parece um pouco diferente à luz das mensagens vazadas, datadas entre 2014 e 2017 e publicadas ontem pelo jornal britânico The Guardian, mostrando os métodos implacáveis ​​e agressivos que o Uber usou para forçar a entrada em vários mercados ao redor do mundo.

O ethos mercenário da empresa está sintetizado em uma conversa entre altos executivos que discutem a ameaça de os motoristas do Uber sofrerem um ataque em Paris, quando os taxistas da cidade entraram em greve. Travis Kalanick, cofundador da Uber e ex-presidente-executivo, queria que seus motoristas desafiassem a greve com desobediência civil em massa. Quando avisado de que isso poderia provocar uma retaliação violenta, Kalanick respondeu: “Acho que vale a pena. A violência garante o sucesso.” [Ver mais sobre esta denúncia]

A acusação, que o Uber nega, é que a empresa viu a ameaça a seus motoristas como parte de um conjunto de ferramentas de relações públicas, juntamente com suas múltiplas atividades de lobby, para pressionar por mudanças regulatórias. A escala dessa operação, recrutando os principais políticos e poderosos de todo o mundo para defender os interesses da empresa, é de tirar o fôlego. A Uber agora diz que está sob gestão diferente com um modus operandi diferente. Kalanick deixou a empresa em 2017.

Não é incomum que uma jovem e ambiciosa empresa busque interesses comerciais com força destruidora. A brutalidade é um motor histórico da evolução econômica. Alguns inovadores têm uma veia filantrópica, outros são vorazes. O padrão ao longo da história é que a tecnologia abre caminho na economia e só mais tarde, quando as consequências mais amplas tornam-se visíveis, a sociedade organiza uma resposta política para mitigar as desvantagens. A Revolução Industrial gerou uma riqueza fenomenal para os industriais antes que houvesse leis contra o trabalho infantil. Foi preciso que os trabalhadores se organizassem em sindicatos para contrabalançar as forças que tendiam naturalmente à exploração em massa e ao pagamento miserável. (Somente no ano passado, a Suprema Corte do Reino Unido manteve uma decisão do tribunal trabalhista contra a Uber, que alegou que não precisava fornecer a seus motoristas o salário mínimo, licença remunerada ou pensões porque eles não eram tecnicamente categorizados como trabalhadores.)

O sucesso da democracia liberal – o melhor modelo até agora concebido para organizar as pessoas em sociedades prósperas e livres – depende de um equilíbrio entre o ímpeto gerador de riqueza do mercado e as obrigações que a política deve impor às empresas para um bem maior. Hoje, a diferença entre a esquerda e a direita dominantes na política econômica se resume à questão de onde ajustar os níveis entre essas demandas concorrentes; onde a ênfase recai entre a liberdade individual de enriquecer e o dever coletivo de compartilhar.

Periodicamente, essa distinção é declarada irrelevante pelo avanço da história. Mas sempre retorna. O projeto marxista de eliminar completamente o capitalismo degenerou em tirania e falência onde quer que tenha sido tentado no século XX. Esse fracasso foi então tomado como defesa moral pelos fundamentalistas do livre mercado que viam qualquer regulação estatal da economia como um ataque à liberdade.

O momento triunfalista pós-guerra fria para o Ocidente coincidiu com a revolução digital, produzindo uma cultura de arrogância e complacência política em torno da economia das novas tecnologias. O ethos do Vale do Silício combinou o modelo da corrida do ouro da Califórnia de capitalismo sem lei com traços de evangelismo utópico que os hippies trouxeram para São Francisco. O resultado foi uma veneração culta da startup da internet como um novo tipo de negócio ao qual as velhas regras não se aplicavam e cujo objetivo era melhorar a humanidade, além de ganhar dinheiro.

Os arquivos do Uber são um instantâneo de um momento específico – o pico de credulidade política e negligência em torno do crescente poder das empresas de tecnologia. Mas as regras básicas da nova economia digital acabaram não sendo tão diferentes das antigas regras analógicas. O tipo de regulamentação que pode ser necessária para conter o excesso corporativo será diferente em setores que não existiam uma geração atrás. O padrão de política sendo capturado por lobistas corporativos é assustadoramente familiar.

A revelação das práticas agressivas da Uber mostra uma verdade simples sobre a revolução tecnológica. É a mesma verdade que aprendemos ao conhecer as árduas condições de trabalho em um armazém da Amazon e as bolhas envenenadas do debate público onde o Facebook descarrega ódio e desinformação. O custo da inovação pode ser invisível para o consumidor, mas isso não significa que não exista. E o trabalho dos políticos democráticos é ser guardiões do interesse público, não os lubrificantes do ganho privado.

sábado, 30 de julho de 2022

Áustria em choque com suicídio de médica alvo de ativistas antivacinas

Suicídio de média austríaca vítima de contínuas ameaças de morte de protestantes antivacinas está a chocar o país. O Presidente austríaco declarou que irá acabar com a intimidação e o medo. "O ódio e a intolerância não têm lugar na nossa Áustria".

Fotografia retirada da conta de Instagram de Lisa-Maria Kellermayr


Líderes austríacos apelaram à unidade nacional depois do recente caso chocante de uma médica ter tirado a própria vida na sequência de ameaças de morte de ativistas antivacinação e teóricos da conspiração da pandemia de coronavírus.

"Vamos acabar com essa intimidação e medo. O ódio e a intolerância não têm lugar na nossa Áustria", declarou o presidente Alexander Van der Bellen, saudando Lisa-Maria Kellermayr como uma médica que defendia a cura das pessoas, protegendo-as de doenças e levando uma abordagem cautelosa da pandemia.

E ainda acrescentou: "Mas algumas pessoas ficaram furiosas com isso. E essas pessoas assustaram-na, ameaçaram-na, primeiro na internet e depois também pessoalmente, diretamente no seu consultório."

De acordo com a Reuters, o corpo da médica - que costumava dar entrevistas aos media sobre o combate à pandemia de coronavírus e a promoção de vacinas - foi encontrado no seu consultório no norte da Áustria na sexta-feira. Alegadamente foi encontrado junto ao seu corpo uma nota de suicídio.

Recorde-se que no mês passado, a Áustria abandonou os planos de introduzir a vacinação obrigatória contra COVID-19 para adultos, dizendo que era improvável que a medida aumentasse uma das taxas de vacinação mais baixas da Europa Ocidental.

A morte desta médica austríaca - que a associação de médicos austríacos disse refletir uma tendência mais ampla de ameaças contra a equipe médica - está a chocar o país. "O ódio contra as pessoas é indesculpável. Esse ódio deve finalmente parar", disse o ministro da Saúde, Johannes Rauch.

terça-feira, 28 de junho de 2022

Dia Internacional do Orgulho LGBT


Origem do Dia do Orgulho LGBT

O Dia do Orgulho LGBT foi criado e é celebrado em 28 de junho em homenagem a um dos episódios mais marcantes na luta da comunidade gay pelos seus direitos: a Rebelião de Stonewall Inn.

Em 1969, esta data marcou a revolta da comunidade contra uma série de invasões da polícia de Nova York aos bares que eram frequentados por homossexuais, que eram presos e sofriam represálias por parte das autoridades.

A partir deste acontecimento foram organizados vários protestos em favor dos direitos dos homossexuais em várias cidades norte-americanas.

A 1ª Parada do Orgulho Gay foi organizada no ano seguinte (1970), para lembrar e fortalecer o movimento de luta contra o preconceito.

A Revolta de Stonewall Inn é tida como o “marco zero” do movimento de igualdade civil dos homossexuais no século XX.

O Dia Internacional do Orgulho LGBT ou simplesmente Dia do Orgulho Gay é por isso comemorado anualmente em 28 de junho em todo o mundo.

Esta data tem o principal objetivo de conscientizar a população sobre a importância do combate à homofobia para a construção de uma sociedade livre de preconceitos e igualitária, independente do gênero sexual.

Nos últimos anos, o movimento passou a utilizar a sigla reduzida LGBTQIA+, cujo termo completo é LGBTQQICAPF2K+ para os indivíduos que se identifiquem como:

L: Lésbicas
G: Gays
B: Bissexuais
T: Transexuais, Transgéneros, Travestis
Q: Queer
Q: Questionando
C: Curioso
I: Intersexo
A: Assexual
P: Pansexual
P: Polissexual
F: Familiares e amigos
2: 2-espíritos
K: Kink
+: Demais orientações sexuais e identidades de género

Ainda que não explícitos na sigla, Não-Binariedade e Drag Queen também são considerados.

O Dia do Orgulho LGBTQIA+ também é um reforço para lembrar as pessoas que todos devem se orgulhar de sua sexualidade e não sentir vergonha da sua orientação sexual.

Não importa a orientação sexual de uma pessoa, o importante é ser respeitada como um ser humano e ter todos os seus direitos garantidos.

Normalmente, são organizadas festas e desfiles nas grandes cidades para reunir os membros da comunidade e simpatizantes do movimento com o intuito de celebrar o amor e a igualdade entre todos os géneros.

Além disso, em algumas cidades, ainda acontece a tradicional Parada do Orgulho Gay, um gigantesco desfile que chega a reunir milhões de pessoas.

Página Oficial

Wikipedia

Revistas

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Dia do Índio é data 'folclórica e preconceituosa', diz escritor indígena Daniel Munduruku



"Ao longo da nossa conversa, como o senhor prefere ser chamado: Daniel ou Munduruku?", questionou a BBC News Brasil ao entrevistado. "Pode chamar de Daniel ou de Munduruku. Como preferir. Só não chama de índio", disse, dando risada, o escritor.


Doutor em educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, Daniel Munduruku defende que a palavra "índio" remonta a preconceitos - por exemplo, a ideia de que o indígena é selvagem e um ser do passado - além de "esconder toda a diversidade dos povos indígenas".

Por isso, "quando a gente comemora o Dia do Índio, estamos comemorando uma ficção", fala Munduruku, a respeito do 19 de abril. Reflexo disso são celebrações da data feitas por escolas, com uma "figura com duas pinturas no rosto e uma pena na cabeça, que mora em uma oca em forma de triângulo". "É uma ideia folclórica e preconceituosa."

"A palavra 'indígena' diz muito mais a nosso respeito do que a palavra 'índio'. Indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros", defende Munduruku, que pertence ao povo indígena de mesmo nome, hoje situado em regiões do Pará, Amazonas e Mato Grosso.

"Talvez o 19 de abril devesse ser chamado de Dia da Diversidade Indígena. As pessoas acham que é só uma questão de ser politicamente correto. Mas, para quem lida com palavra, sabe a força que a palavra tem", continua o escritor, autor de mais de 50 livros para crianças, jovens e educadores.

Leia abaixo a entrevista de Daniel Munduruku para a BBC News Brasil sobre o 19 de abril:

BBC News Brasil - Qual o problema da palavra "índio"?

Daniel Munduruku - Do meu ponto de vista, a palavra índio perdeu o seu sentido. É uma palavra que só desqualifica, remonta a preconceitos. É uma palavra genérica. Esse generalismo esconde toda a diversidade, riqueza, humanidade dos povos indígenas.

Quando a gente usa a palavra índio, estamos nos reportando a duas ideias.

Uma é a ideia romântica, folclórica. É isso que se comemora no dia 19 de abril. Aquela figura do desenho animado, com duas pinturas no rosto e uma pena na cabeça, que mora em uma oca em forma de triângulo. Há a percepção de que essa é uma figura que precisamos preservar, um ser do passado. Mas os indígenas não são seres do passado, são do presente.

A segunda ideia é ideologizada. A palavra índio está quase sempre ligada a preguiça, selvageria, atraso tecnológico, a uma visão de que o índio tem muita terra e não sabe o que fazer com ela. A ideia de que o índio acabou virando um empecilho para o desenvolvimento brasileiro.

BBC News Brasil - Então, deveríamos abandonar a palavra "índio" e usar "indígena"?

Munduruku - Uma palavra muda tudo? Sim, uma palavra muda muito. Nos meus vídeos e palestras, eu tenho sempre feito uma separação fundamental entre "índio" e "indígena". As pessoas ainda pensam que índio e indígena é a mesma coisa. Não é. O próprio dicionário diz isso.

A palavra indígena diz muito mais a nosso respeito do que a palavra índio. A palavra índio gera uma imagem distorcida. Já indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros.

Ah, então eu nasci em São Paulo, eu sou indígena? Não, você é nativo. Para ser originário precisa ter um pertencimento a um povo ancestral. O antônimo (contrário) de indígena é alienígena, aquele que vem de fora. Então, eu uso indígena para reforçar o fato de que somos originários.

Além disso, eu não sou um indígena qualquer. Eu tenho um lugar de pertencimento: Munduruku. É importante reforçar a identidade dos povos.

BBC News Brasil - No Brasil, ainda é muito raro tratarmos os povos pelo nome. Por quê?

Munduruku - É muito mais fácil usar uma palavra genérica do que efetivamente dar aos povos indígenas o peso da sua identidade. Identificar os diferentes povos indígenas significa garantir a eles direitos e políticas específicas, não políticas genéricas.

BBC News Brasil - Você já disse que o Dia do Índio, comemorado hoje, 19 de abril, é "uma farsa".

Munduruku - Quando a gente comemora o Dia do Índio, estamos comemorando uma ficção, uma ideia folclórica e preconceituosa.

Por isso, quase sempre as comemorações desta data feitas nas escolas reproduzem o estereótipo. Mas, se nós continuamos tratando isso como ficção, vamos continuar deseducando nossas crianças.

Talvez a data devesse ser chamada de Dia da Diversidade Indígena. As pessoas acham que é só uma questão de ser politicamente correto. Mas, para quem lida com palavra, sabe a força que a palavra tem. Tanto que apelido tem uma força destruidora - e "índio" é, de certa forma, um apelido.

Um Dia da Diversidade Indígena teria um impacto semelhante ao Dia da Consciência Negra, que gerou uma mudança absolutamente significativa.

BBC News Brasil - Então, como deveria ser lembrado o dia 19 de abril?

Munduruku - A sugestão que eu sempre faço para escolas é que a gente possa deixar de usar o 19 de abril como uma data comemorativa. É uma data para a gente refletir. Deve gerar nas pessoas um desejo de conhecer, de entrar em contato com essa diversidade dos povos indígenas.

BBC News Brasil - Ainda há muito estereótipo no 19 de abril, ou já houve uma mudança?

Munduruku - Houve um avanço muito grande na sociedade. Mas, sem dúvida nenhuma, hoje ainda se reproduz muito desse imaginário do "índio". E isso acontece por causa da escola. A escola é a última instituição a se atualizar.

O que acabou ajudando na atualização dos professores foi a lei 11.645, de 2008, que obrigou que a temática indígena saísse do 19 de abril e se tornasse parte de algumas disciplinas escolares. Isso criou condições para os professores se atualizarem, porque obrigou os governos a comprarem livros, oferecerem cursos…

BBC News Brasil - Como foi o seu processo de se reconhecer como indígena e Munduruku?

Munduruku - Eu nasci em 1964, ano do golpe. Em 1967, os militares criaram a Funai, que tinha entre suas prioridades nos tornar civilizados. Isso significava apagar nossa história, nossa identidade. É nesse momento que eu fui para escola. Eu sofri muito bullying, muita violência moral. E isso criou em mim uma espécie de ojeriza pela minha identidade Munduruku.

BBC News Brasil - Como era o bullying na escola?

Munduruku - O bullying é uma forma de criar na gente uma repulsa por aquilo que somos. Na escola, me chamavam de índio de uma forma pejorativa. Dizendo que índio é bicho, é selvagem. Não queriam fazer atividade comigo porque índio não é inteligente.

Parte do ano escolar eu vivia na cidade - essa era uma das estratégias da Funai naquela época, tirar a gente do convívio com a comunidade, para não falar a língua indígena, não conviver com rituais.

Já nas férias escolares, a gente voltava para a aldeia. Mas, algumas vezes, a gente nem queria mais ir para aldeia, com uma certa rejeição à nossa própria cultura. Quem abriu em mim outra perspectiva foi meu avô. Ele me fez aceitar minha identidade Munduruku e gostar de ser quem eu era.

BBC News Brasil - O mês de abril, por conta do Dia do Índio, costumava ser um momento em que o governo federal anunciava medidas ligadas aos povos indígenas - por exemplo, a demarcação de terras. Qual sua perspectiva para este ano? (Nota da redação: entrevista feita em abril de 2019)

Munduruku - O presidente Jair Bolsonaro já declarou que não entende absolutamente nada de povo indígena. A Força Nacional acaba de ser convocada para ir para Brasília e coibir qualquer tipo de manifestação do movimento indígena nos próximos dias - que é quando vai ocorrer o Acampamento Terra Livre (assembleia de povos indígenas do Brasil, convocada para 24 a 26 de abril, na capital federal).

Em uma de suas transmissões ao vivo (no Facebook), o presidente disse que quer saber de onde vem o dinheiro para reunir 10 mil indígenas no Acampamento Terra Livre, disse que essa farra vai acabar. Mas o próprio movimento indígena já respondeu que o governo não dá nenhum tostão para mobilização indígena.

Eu não quero ser profeta do caos. Mas minha perspectiva é que as coisas vão piorar para os povos indígenas nesse governo. Que o governo não vai fazer absolutamente nada favorável aos indígenas. Mas vai dizer que vai fazer, por exemplo, que vai abrir terra indígena para exploração mineral e que isso é positivo porque os indígenas querem ser iguais aos outros brasileiros. E uma parte da população vai acreditar nesse discurso vazio.

(Nota da redação: após a publicação original desta entrevista, o Acampamento Terra Livre em 2019 teve a presença de 4 mil representantes de diversos povos indígenas do país todo, que apresentaram suas reivindicações. Foram recebidos pelo Congresso e pelo STF. No Executivo, protocolaram suas exigências com um funcionário de baixo escalão do Ministério da Saúde. )

BBC News Brasil - Por quê?

Munduruku - Somos brasileiros como todos os outros e temos direito como todos os outros. Mas, no Brasil, quando se fala em direito, as pessoas quase sempre pensam em privilégios. Esse governo tem repetido que o índio precisa ser igual a todos os brasileiros. Quando diz isso, está falando em acabar com os direitos que os indígenas possuem e que foram conquistados legitimamente na Constituição brasileira.

BBC News Brasil -Em um debate no Congresso, a senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) questionou por que os índios "continuam miseráveis", se "têm em torno de 13% do território nacional, dinheiro destinado, política pública destinada". O que o senhor achou disso?

Munduruku - Uma coisa são as pessoas que realmente vivem na faixa da miséria. Outra coisa é chamar de miserável o indígena, que tem uma cultura milenar.

Quando a gente pensa que uma pessoa é miserável porque ela não é como a gente, porque ela não frequenta shopping center, a gente está sendo não apenas preconceituoso, mas racista. Essa senadora está julgando as culturas indígenas a partir dos parâmetros de riqueza que ela tem. Portanto, nem mereceria ser senadora.

BBC News Brasil - Qual o papel da literatura na mudança da visão do indígena pela sociedade?

Munduruku - A literatura é um instrumento superinteressante de construção de lugares de fala. Tem esse componente muito positivo de alimentar nas pessoas outros olhares, outras facetas da existência.

A literatura que eu faço é comprometida, minha forma de ser militante no movimento indígena. Eu tento usar a literatura para poder falar das nossas culturas. A literatura é fundamental para a gente ir desconstruindo esses estereótipos sobre os povos indígenas e ir construindo uma percepção diferente.


Biografia