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quinta-feira, 6 de junho de 2024

A Democracia em risco: o discurso de Maria Ressa em Harvard e os desafios que nos deixa


Num discurso emotivo e clarividente proferido na formatura dos estudantes da Universidade de Harvard, Maria Angelita Ressa , a laureada jornalista, prémio Nobel da Paz em 2021 e cofundadora do site de notícias Rappler, ao denunciar as questões cruciais que afetam o mundo contemporâneo e que nos devem unir, partilhou com a instituição que a convidou, uma enorme coragem nos dias que correm ao clamar por essa união e ao propor defender a verdade como base da democracia, lutar pela agencia e não ter medo. 

No seu discurso passou o testemunho da luta pela democracia aos recém-formados, alertando-os sobre o estado frágil em que as nossas sociedades se encontram a nível global e a necessidade de uma ação imediata e concertada para a salvaguarda da democracia, contra os fascistas que estão, literalmente, a instalar-se. Porque me revejo no seu discurso e nos fazem falta pessoas de coragem como ela, capazes de nos voltar a guiar para o coletivo, deixo-vos aqui algumas ideias-chave da sua intervenção, para que possamos continuar a refletir sobre elas. 

Ressa, ao dar voz aos nossos silêncios e cumplicidades com sistemas vigentes deturpados coloca o dedo na ferida ao expressar que a democracia está sob ataque em várias partes do mundo. A crescente desinformação, a polarização política e a manipulação das redes sociais são apenas alguns dos fatores que contribuem para a erosão dos sistemas democráticos.

Para ela, vivemos em tempos de teste onde a tecnologia acelerou os processos, desumanizou-nos também. A incapacidade dos sistemas e das suas instituições para ouvir é um outro problema crítico apontado. A evocação das alterações climáticas enquanto uma das maiores ameaças à humanidade que exigem sistemas democráticos para a sua superação, uma vez que exigem soluções políticas e ações coordenadas. Em regimes autoritários, a falta de transparência e a repressão dificultam a implementação de políticas ambientais eficazes e inclusivas. 

Para Ressa, numa democracia saudável há maior possibilidade de implementar políticas que promovam a justiça social e ambiental. As vozes das comunidades marginalizadas podem ser ouvidas e as suas necessidades atendidas. 

Face a estes desafios, Ressa propõe-nos três eixos de ação: 
i) uma ação empenhada e comprometida connosco próprios: escolher o nosso melhor eu, sabendo quais são os valores pelos quais vivemos. A integridade da informação e dos factos é crucial. Sem factos, não há verdade, e sem verdade, não há confiança, que são a base da democracia. 
ii) Propõe ainda transformar a crise em oportunidade. O ecossistema informativo tornou-se pobre, a integridade das informações está comprometida, as notícias são cada vez menos confiáveis e a propaganda é cada vez maior. Precisamos de lutar mais fortemente pela agência e pelo pensamento independente. 
iii) O terceiro eixo é ser-se vulnerável para alcançar algo significativo e não ter medo disso.

O seu discurso evidencia a importância de proteger e fortalecer a democracia. Esta é, em última análise, a chave para um futuro mais sustentável e equitativo. Termino com as suas próprias palavras: “Temos de ter coragem para imaginar e criar o mundo como deve ser: mais solidário, mais sustentável e mais equitativo(…). O nosso mundo a arder precisa de ti. Bem-vindos ao campo de batalha; juntem-se a nós!”

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Transição ecológica e transição verde


1. Transição Verde (Green Transition)
Este termo é mais comum no mundo corporativo, financeiro e nas políticas institucionais (como o Green Deal da União Europeia).

Foco Económico: Concentra-se na adaptação do modelo econômico atual para reduzir o impacto ambiental sem necessariamente romper com a lógica de crescimento.

Tecnologia e Eficiência: Prioriza a descarbonização, o uso de energias renováveis, a eficiência energética e a criação de "empregos verdes".

Instrumentos: Utiliza ferramentas como taxas de carbono, créditos de emissão e investimentos em tecnologias limpas para tornar as empresas e indústrias mais sustentáveis.

2. Transição Ecológica
Este conceito tende a ser mais amplo e profundo, sendo muito utilizado em movimentos sociais e debates académicos.

Mudança Sistémica: Envolve não apenas a tecnologia, mas uma mudança radical nos hábitos de vida, produção e consumo. Questiona a base do nosso funcionamento social e a relação do ser humano com a biosfera.

Multidimensional: Vai além da energia e do carbono para incluir a regeneração da biodiversidade, o manejo da água, a soberania alimentar e a economia circular integral.

Justiça Social: Frequentemente está ligada ao conceito de Transição Justa, defendendo que a mudança não pode ser feita às custas das populações mais vulneráveis ou apenas para manter o lucro das grandes corporações.

Para aprofundar o seu estudo sobre as diferenças entre os conceitos, aqui estão as principais referências bibliográficas divididas por eixos temáticos. Elas cobrem desde a visão institucional (verde) até a visão crítica e sistémica (ecológica).

1. Transição Verde e Economia Verde (Foco Institucional e Económico)
Estas obras tratam da adaptação do capitalismo e da eficiência de recursos.

UNEP (PNUMA). Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza. (2011). É o documento base que popularizou o termo "Economia Verde" globalmente.

SANTOS, Sofia. Introdução à Economia Verde: No contexto da Política Europeia. (2016). Foca na implementação prática, finanças sustentáveis e no papel das empresas.

NEWTON, A. C. & CANTARELLO, E. An Introduction to the Green Economy: Science, Systems and Sustainability. (2014). Uma introdução académica aos sistemas de sustentabilidade dentro da lógica de mercado.

2. Transição Ecológica e Ecologia Política (Foco Sistémico e Crítico)
Estes autores discutem a mudança estrutural na relação sociedade-natureza.

LÖWY, Michael. O que é Ecossocialismo?. (2014). Uma das principais referências para entender a transição ecológica como uma ruptura com o modelo de crescimento infinito.

FOSTER, John Bellamy. A Ecologia de Marx: Materialismo e Natureza. (2000). Fundamental para entender a "falha metabólica" entre a sociedade humana e o meio ambiente.

ALVES, Fátima et al. Nature at the Heart of Ecological Transition. (2024). Obra recente que discute a cidadania ecológica e a necessidade de uma transição plural e intercultural.

GORZ, André. Ecology as Politics (Ecologia e Política). (1980). Um clássico que argumenta que a ecologia não é compatível com a lógica do lucro.

3. Transição Justa (O Elo entre o Social e o Ambiental)
Foca em como garantir que a mudança não prejudique as classes trabalhadoras.

OIT (Organização Internacional do Trabalho). Políticas setoriais da OIT para uma transição justa rumo a economias e sociedades sustentáveis. (2022). Documento técnico sobre empregos e justiça social.

FERDINAND, Malcolm. Uma Ecologia Decolonial: Pensar a partir do mundo caribenho. (2022). Uma referência essencial para entender como a transição ecológica deve considerar o histórico colonial e as desigualdades raciais.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Para a transição ecológica todas as vozes contam!


No momento presente, estejamos no Norte ou no Sul, no Este ou no Oeste, não podemos mais continuar a ignorar a necessidade de mudança transformadora das nossas formas de organização social face à crise global que vivemos, onde as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, as guerras e as migrações em massa são cada vez mais banais e tendem a ser invisibilizadas ao ponto de só quem as vive parecer ser afetado por estes fenómenos. A todos os outros apresenta-se como algo distante que parece não os afetar.

Reconhecendo essa situação e sendo pressionada a fazer algo, a União Europeia lança um novo pacto para facilitar e promover as mudanças necessárias. O Pacto Ecológico Europeu, conhecido por Green Deal, apresenta-se como uma estratégia que procura implementar a transição ecológica para uma Europa mais sustentável, mais verde e que proporcione e assegure futuros às gerações vindouras. Ou seja, pressupõe a transformação dos modos de vida que nos conduziram a esta insustentabilidade da vida humana na terra. Mas ao mesmo tempo e aparentemente em contradição, centra-se na missão de salvar as instituições que nos guiaram até aqui, salvar o capitalismo de uma morte anunciada, ao mesmo tempo que procura combater as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, as extinções em massa. Será possível articular movimentos em direções opostas? Como compatibilizar diferentes posições, diferentes interesses, diferentes atores?

Um dos grandes desafios é, simultaneamente, encontrar respostas e soluções para os problemas e as crises contemporâneas que, mais do que meramente ecológicas, são sociais no sentido amplo e até civilizacionais. Respostas essas que permitam articular o que está desarticulado e nos permitam desenvolver estratégias de reconciliação das sociedades com a natureza ou as naturezas expressas nos diversos territórios e geografias, com as suas diversidades biofísicas e culturais, as suas desigualdades, que nos exigem repensar os modelos sociais em que vivemos, numa forma interligada, interdependente e articulada. Não deixar ninguém para trás é o desafio.

Assumir esta responsabilidade maior de dar voz aos diversos atores onde se incluem os elementos da natureza. Fazê-los ouvir ou fazê-los presentes, colocá-los ao mesmo nível ou até acima dos humanos, lança-nos perante o desafio maior de todos: refundar as relações sociedades/naturezas e ressignificar os seus laços. Esta poderá ser a esperança que precisamos para nos lançar na utopia de sistemas de organização socio-ecológica verdadeiramente sustentáveis.

Estes e outros desafios socio-ecológicos contemporâneos só podem ser enfrentados por meio de novas formas de organização e participação social, o que alguns projetos já estão a desenvolver. Um desses projetos é o Phoenix que procura promover a análise aprofundada de diferentes tipologias de inovação democrática em 11 pilotos distribuídos por 7 países (Portugal, Espanha, França, Islândia, Itália, Hungria, Estónia).

Com o PHOENIX, a maior expectativa reside na possibilidade de mudar os moldes tradicionais de participação cidadã rumo à transição ecológica, implementando uma política transformadora baseada no conhecimento aprofundado das características biofísicas e sócio-economico-culturais dos territórios que articule/integre a pluralidade de saberes, poderes e posições locais. Só através desta combinação, com a participação plena e efetiva das populações e das suas diversidades, é que é possível assegurar uma transição justa e equitativa tendo em vista um planeta sustentável para todos os elementos que habitam a “casa comum”.

sábado, 15 de outubro de 2022

Porque não podemos ser cúmplices na transformação da emergência climática em fatalidade

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) macho

Enquanto assistimos à transformação da emergência climática em fatalidade, não podemos continuar sentados à espera que os Estados e as organizações consigam alcançar os compromissos necessários e/ou a poderem agir mais, fazer mais.

De facto, eles têm de fazer mais e agir mais e devemos exigir-lhes isso de todas as formas possíveis, falando mais neste tema, trazendo-o todos os dias à praça pública e privada e exigindo ações concretas e não intenções vãs, que se perdem em programas eleitorais, narrativas ilusórias, ou pactos que não se cumprem ou se manipulam com fins esconsos.

Enquanto isto ocorre todos os dias, temos de nos perguntar o que nós, individualmente e em grupo, nas nossas casas, na nossa vida quotidiana, entre o trabalho e toda a vida que se desenha no nosso dia-a-dia, podemos fazer? E de tudo daquilo que achamos que podemos fazer, o que verdadeiramente queremos fazer? Isto é, até onde estamos dispostos a mudar os nossos estilos de vida de modo a podermos assegurar futuro às gerações mais jovens e sobretudo às vindouras? E quiçá talvez mesmo à nossa?!

As Nações Unidas têm incorporado na sua missão esta luta pelo Clima, têm liderado as investigações, os estudos bem como desenhado e exigido compromissos sérios em praça pública. Apesar do discurso duro do seu Secretário Geral, ‘o nosso’ António Guterres, e das suas boas e esclarecidas intenções, a verdade é que a sua ação pouco ou nada tem mudado a forma como Estados e organizações têm lidado com as Alterações Climáticas. No entanto, e porque as Nações Unidas têm tentado abordar a complexidade deste problema nas suas múltiplas dimensões, quer a nível individual, quer a nível coletivo e organizacional, identifico aqui as 10 dicas que nos deixa na sua página, para combater a crise climática para que todos possamos refletir e agir mais:

1. Dissemine informações – identifique e junte-se a movimentos locais que procuram compreender o problema e encontrar soluções e discutir alternativas;

2. Faça pressão política – pressione os políticos a nível local, regional e nacional e as empresas e organizações, a reconhecerem o seu papel e a agirem, a fazerem parte da solução: faça ouvir a sua voz, exija responsabilidades;

3. Mude o seu meio de transporte – Sabemos que não basta vender o carro e comprar uma bicicleta ou andar a pé, mas enquanto não criam melhores serviços de transporte coletivos, podemos reduzir ao máximo o uso do automóvel e até a sua substituição, nos casos em que já temos as soluções de transportes alternativos:

4. Controle o seu consumo de energia –reduzir o consumo será a solução – reveja todos os sistemas em casa (para poupar energia e tornar a sua casa mais eficiente) e procure fontes alternativas.

5. Adapte a sua dieta – apesar das controvérsias e pela sua saúde reduza o consumo de carne e peixe, aumente o dos vegetais e leguminosas.

6. Consuma produtos sustentáveis e de origem local, da estação. Sempre que possível plante e consuma os seus próprios alimentos. Mesmo não tendo terreno ou varanda, pode pedir à junta de freguesia ajuda ou organizar hortas coletivas/comunitárias.

7. Não desperdice comida, não compre o que não vai consumir e se comprar reaproveite-os ao máximo.

8. Vista-se com inteligência (climática) – reduza o consumo, reaproveite e conserve as roupas e procure roupas feitas com materiais sustentáveis e recicláveis.

9. Plante árvores – use aquela terra que herdou e não sabe o que lhe fazer e plante árvores, conserve e mantenha as árvores da sua rua e se possível organize-se para plantar mais.

10. Faça investimentos favoráveis ao planeta – trabalhe apenas com empresas que respeitem o ambiente e invistam na sustentabilidade social e ambiental. Faça as suas pesquisas e cruze informações.

sábado, 17 de setembro de 2022

O que fazer para travar o aquecimento global?

Minha Arte Digital

Muito se tem falado dos novos modelos de organização social, mais sustentáveis ecologicamente, socialmente mais justos e economicamente solidários, necessários para a mudança transformadora que lidar com as alterações climáticas requer. Mas na verdade quase sempre estamos a falar em modelos económicos, quando a mudança tem de ser mais ampla e incluir as estruturas sociais como um todo (com os seus sistemas sociais, económicos, políticos e culturais) e simultaneamente os indivíduos com os seus estilos de vida. É da relação dinâmica e complexa entre estas duas dimensões (estruturas e sujeitos) do problema (aquecimento global) e da necessária ação para com ele lidar que se abre a possibilidade da mudança transformadora que permitirá atingir os níveis de emissões que não ponham em causa as possibilidades de vida futura, tal como hoje a conhecemos. A natureza da mudança que aqui se requer é tanto individual quanto coletiva. Exige por isso mudanças profundas nos sistemas socioeconómicos tanto quanto nas convenções culturais e que são por natureza lentas de fazer.

Neste contexto, as necessárias mudanças nos estilos de vida implicam a ação de reduzir o consumo (e que está na génese de outras ações) para lidar com o aquecimento global. Estas mudanças devem ser sustentadas, isto é, resultar de opções conscientes, voluntárias, ou até serem impostas através de políticas e sistemas de sanções. Na verdade, sabemos que as políticas atuais são insuficientes para atingir o almejado objetivo dos 1,5 graus. No entanto sabemos dos estudos que as pessoas se manifestam favoráveis a uma responsabilização pública maior dos Estados, e, portanto, favoráveis a uma intervenção maior neste domínio. Apesar disso, a participação e cooperação entre os diversos atores (individuais e coletivos, cidadãos, organizações e governo local ou nacional, europeu etc.) é imprescindível para proporcionar os cortes urgentes e necessários nas emissões de carbono e ao mesmo tempo garantir o bem-estar de todos/as.
Porque o tempo não para e os Estados demoram a fazer o que lhes cabe, e nunca é demais repetir, deixo aqui algumas das ações que todos/as nós podemos adotar a nível individual e que requerem mudanças e ajustes nos estilos de vida, para além da necessária redução do consumo em geral, como sejam as seguintes, entre outras, e que falaremos seguramente e com mais detalhe futuramente:
– Poupar energia em casa e mudar para fontes de energia renovável sempre que possível;
– Andar mais a pé, de bicicleta e transportes públicos;
– Comer mais vegetais oriundos de cadeias locais, e menos carne;
– Reutilizar e reparar mais, reciclar;
– Plantar árvores e proteger a natureza;
– Criar espaços verdes acessíveis a todos/as;
– Poupar água;
– Deixar de usar plásticos;
– Viajar menos de avião;
– Fazer ouvir a sua voz.

sábado, 23 de julho de 2022

Não deixar ninguém para trás


Chegamos ao limite dos limites e é preciso agir. Um dos desafios centrais da emergência do agir perante o aquecimento global, a degradação ambiental, a perda de biodiversidade, bem como de todas as manifestações que temos vindo a presenciar resultantes do nosso afastamento da natureza e dos seus ritmos, é a articulação de conhecimentos e saberes plurais.
As soluções não passam por estratégias de marketing e discursos ‘lavados pelo verde’ (greenwashing), nem apenas por mais legislação ou educação/aprendizagem.
As mudanças necessárias requerem uma mudança transformadora das relações natureza-sociedades/culturas – o que requer desde logo no longo prazo. E este pode ser tarde!
Essas mudanças podem ocorrer de diversas formas e em cada contexto adquirir características particulares, tendo em conta as especificidades locais. Da reforma à revolução, os níveis de mergulho na mudança transformadora vão exigir que convoquemos todos os atores a participar, os responsabilizemos – dos indivíduos às corporações, aos estados, aos grupos etc -todos os saberes – das diversas ciências aos saberes tradicionais, locais, indígenas – e todos os poderes que entre eles se estabelecem, seja a nível formal seja a nível informal.
Se o progresso das ciências é inegável, bem como das políticas que se têm vindo a desenvolver para enfrentar as alterações climáticas nas suas múltiplas dimensões, comprometer todos os atores neste enfrentamento exige compreender a sua visão, a partir do seu ponto de vista e da sua posição, dos seus universos simbólicos. Os diversos atores trazem saberes e conhecimentos plurais, únicos, que contribuem para conhecer, compreender e enfrentar as alterações climáticas a partir dos contextos e especificidades locais, as suas necessidades, suas vulnerabilidades e suas potencialidades. Esse é o motivo pelo qual não se pode avançar deixando-os ficar para trás. São estes conhecimentos das margens que devem vir para o Centro e devem informar as decisões políticas e a definição de estratégias de reforço da resiliência individual e coletiva/local. Só assim, em estratégias onde todos participamos, conseguiremos mudanças transformadoras.
Sabemos tudo isto, mas estamos paralisados.
Precisamos de um novo modelo civilizacional onde a vida seja possível. Uma mudança transformadora que deve ser local, a partir dos contextos locais. Se não o fizermos a marcha em relação ao abismo é inexorável.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O que fazer para mudar o rumo da ação e combater as Alterações Climáticas?

Barrancos de Loulé

O planeta Terra como está, não pode continuar! Muito se tem falado dos novos modelos de organização social necessários para a mudança, ambientalmente mais sustentáveis, socialmente mais justos e economicamente solidários. Na verdade, quase sempre o que estamos a falar é de modelos económicos que de alguma forma repetem a receita capitalista – como são os casos, por exemplo, da green economy ou da blue economy que não vão mudar o planeta! Não tenhamos falsas esperanças. A ciência vai falando, mas ninguém a ouve. Um sistema completamente contraditório na medida em que se financia a ciência e se espera que esta e as suas tecnologias encontrem soluções, mas depois não as ouvem, não as incorporam. As decisões não são científicas, são eminentemente políticas – e estas têm sido muito tímidas face às necessidades de mudar AGORA. Amanhã é tarde! Os mais afetados pelas consequências das alterações climáticas, os mais vulneráveis, não estão representados nos sectores onde se tomam as decisões: a política e a economia. Os seus saberes não são tidos em conta. É nesses setores que se tomam as decisões que podem mudar o mundo, e abrir focos de esperança no futuro da humanidade no planeta Terra. Sim, porque os ‘Bezos’ deste mundo, já têm um planeta B. Nós não! Que modelo de desenvolvimento nos serve para manter a vida humana na terra em respeito e equilíbrio com todos os outros elementos da natureza com quem partilhamos esta casa comum? Como elevar as vozes dos marginalizados e dos oprimidos, dos vulneráveis, os seus saberes e visões? Como fazê-las chegar lá, onde se decidem as mudanças e se tornam realidade? Que sistemas de participação, que sistemas de democracia, que formas de organização favorecem a atuação na emergência da ação? Nestes lugares de disputas e lutas pelo poder, temos de conseguir encontrar modelos revolucionários, no sentido de portadores das mudanças verdadeiramente transformadoras, que são necessárias para que haja esperança para as possibilidades de vida das gerações vindouras.
E o que cada um de nós (individualmente e coletivamente) pode fazer? Neste e em futuros artigos vou deter-me na resposta a esta pergunta, tentando com isso contribuir para uma das principais atividades que podemos desenvolver, até que a voz nos doa, como diz a letra da música, fazendo uso da liberdade de pensamento e de expressão consagradas na lei.
– Falar e pensar em conjunto sobre as alterações climáticas e o que podemos fazer. Fazer ouvir a nossa voz. Isso traduz-se em conversar com os amigos, vizinhos e colegas sobre as alterações climáticas, partilhar informações e conhecimentos e o que fazer para responder à emergência da ação. É este nível de discussão e envolvimento que poderá permitir ultrapassar a solidão ontológica do individual e da sua insignificância face à grandiosidade da ação requerida perante a emergência climática. É esta ação de partilha com os outros, os nossos próximos, que nos pode conduzir ao nível da ORGANIZAÇÃO, o que nos permitirá ultrapassar a solidão individual e nos fará caminhar lado a lado nesta busca de novas formas de organização que salvem o planeta, a nossa casa comum.

sábado, 30 de abril de 2022

Os impactos das alterações climáticas na saúde

Serra de Montemuro

A saúde e a doença são um setor crítico e avassaladoramente exposto aos impactos das Alterações Climáticas, ao qual só se dá atenção quando as ameaças já entraram na nossa casa, como aconteceu com a epidemia do coronavírus. Portugal, com um clima de tipo mediterrânico, é particularmente suscetível aos riscos para a saúde decorrentes das alterações climáticas, na medida em que estas interferem de múltiplas formas na nossa saúde e bem-estar físico e mental:
• dos alimentos que produzimos e consumimos;
• à qualidade do ar e da água;
• conforto térmico e adequação das casas às variações de temperatura cada vez mais extremadas;
• ao lixo que produzimos e que contamina o planeta e penetrou nas cadeias alimentares (os microplásticos);
• à destruição dos habitats naturais, num sistema que errada e sistematicamente os encara como recursos inesgotáveis e que contribui em larga escala para a perda de biodiversidade e para a aceleração das extinções, responsáveis pelo aumento da disseminação de doenças entre animais e humanos, como a do coronavírus;
• ao aumento das temperaturas que é responsável pela maior disseminação de doenças vetoriais em geografias cada vez mais alargadas e mais próximas de nós;
• ao aumento dos eventos extremos e consequentes movimentos humanos à procura de terra onde possam viver, que afetam cada vez mais a saúde mental e o bem-estar;
• dos efeitos do aumento dos desastres naturais, como incêndios, inundações e secas , pondo em evidência a responsabilidade que temos pelos papéis e relações que estabelecemos nos ecossistemas e suas consequências.
O perfil geográfico dominante dos concelhos rurais, envelhecidos e com baixa densidade populacional, onde se somam desvantagens demográficas como a continua redução da natalidade e o cada vez maior despovoamento do interior, a par de desvantagens económicas e sociais, o aumento das doenças crónicas e das desigualdades no acesso aos serviços e cuidados de saúde, constituem dos maiores problemas e desafios a que as políticas não podem ficar alheias e contribuem para explicar as vulnerabilidades crescentes e que exigem planeamento a médio/longo prazo que permita encontrar estratégias de mitigação e/ou adaptação viáveis e que não nos apanhem ‘desprevenidos’. A ciência está de acordo e é perentória! Os dados recolhidos no PIAAC , por exemplo, permitiram observar uma associação entre a temperatura e a mortalidade diária na Região de Coimbra. Esses dados apontam também para um aumento de morbilidade de determinadas doenças mais sensíveis ao clima, as relacionadas com a deterioração da qualidade do ar e poluição, como por exemplo as doenças infecciosas transmitidas por vetores, de que os mais conhecidos são os mosquitos, mas há outros como as carraças, as pulgas, etc…
Neste contexto é imperativo definir e operacionalizar medidas de adaptação da saúde que permitam reforçar e aumentar a resiliência das populações e ao mesmo tempo evitar o aumento das taxas de morbilidade e mortalidade geral e específicas. Num futuro muito próximo, a natureza e a escala destes impactos das alterações climáticas será diretamente proporcional à capacidade de adaptação das comunidades, dos sistemas de saúde, quer o nível de resposta instalada, quer a facilidade/dificuldade em ter acesso a essas respostas, bem como das ações implementadas nos outros setores.
A visão de que existe uma só saúde reforça a necessidade de reconhecimento da interconexão entre todos os elementos humanos e não humanos: dos humanos aos animais, às plantas e às redes de relações que implicam, nos diversos territórios onde coabitamos e onde partilhamos o desafio da vida e da morte de múltiplas formas. Esta visão de uma só saúde exigirá o desenvolvimento de políticas integradas adaptadas/adequadas aos contextos. Esta mudança sobejamente reconhecida pelas ciências, não tem tido a resposta desejada nem provocado as mudanças necessárias. Na verdade, é preciso reconhecer que esta é uma prorrogativa eminentemente política. Não é apenas individual e conjuntural. Este é o grande desafio!

sábado, 5 de março de 2022

As emergências do século XXI e a desorientação do Anthropos

Parque Natural das Arribas do Douro

O que liga estes três fenómenos – Alterações Climáticas, Guerra e Pandemia – é que todos são emergenciais. A questão é a de saber qual ou quais as razões que conduzem as sociedades a hierarquizarem as emergências, isto é, a qual responder primeiro? As Alterações Climáticas podem sempre esperar? Não vou aqui procurar responder à questão, pretendo apenas acicatar as nossas mentes e sublinhar a importância de termos tempo para refletir, caso contrário continuamos a responder às emergências, um tanto ou quanto alienados.
Em 2019 todos quisemos acreditar que a Covid 19 não chegaria a nós, portugueses – a própria Diretora Geral da Saúde o disse! Afinal a China é do outro lado do mundo! Pouco tempo foi preciso para se propagar mundialmente e pôr em causa as formas de organização social nas diversas escalas, expor as desigualdades que continuam a comandar o mundo e as suas lógicas e poderes: da indústria farmacêutica à lei do mais forte, económica e politicamente. As preocupações com as alterações climáticas foram/vão ocupando espaços pontuais neste panorama. Discutiu-se aqui e ali a importância de combater o Aquecimento Global para se poder evitar que cenários pandémicos como este, que põem em causa os modelos de organização vigentes, se repitam futuramente. Talvez por isso a COP de Glasgow foi um falhanço total nos compromissos para uma ação coletiva face às Alterações Climáticas.
Mal o ano – e mesmo antes disso – começou, vimos a Rússia a ir-se movimentando em direção à Ucrânia. Mas não, não nos devemos preocupar. O Sr. Putin disse que não ia atacar a Ucrânia! Acabámos por acordar em choque com a invasão da Ucrânia pela Rússia! Parece um pesadelo, uma qualquer ficção. Em pleno seculo XXI deflagra uma guerra – literalmente – na Europa? E desde esse dia a pandemia ‘acabou’?, é legitimo perguntarmos. E, com todas as emergências, as Alterações Climáticas, parecem ter ficado afastadas do centro da atenção internacional, apesar do IPCC alertar para o facto de que não se podem combatê-las com meios termos! Os mass media que divulgam as preocupações sociais e políticas hodiernas, seguiram o caminho dos Estados que já tinham decretado o fim da pandemia. Os jornais praticamente já não transmitem os números de infetados e de mortos e as opiniões de peritos em saúde pública, epidemiologia ou de outros assuntos que se relacionem com a pandemia. Novos peritos e novas geografias invadem as nossas casas, onde continuamos a ver camas, mas agora de refugiados de guerra, mulheres e crianças são os mais recentes sem-terra que se juntam àqueles que procuram fugir da degradação ambiental e de outras Guerras, aquelas não ocidentais, à mistura com bombas, explosões e ameaças nucleares que podem acabar com isto tudo rapidamente.
Fica o silêncio ensurdecedor da falta de norte para a humanidade! Fica o desafio à reflexão!

sábado, 22 de janeiro de 2022

Cabe-nos ter uma política global e local articulada


Nas últimas décadas é inegável e sobejamente documentado o aumento do número de pessoas em movimento e à procura de terra para viver. Também conhecidos como refugiados climáticos, fogem de situações socio-ecológicas extremas que põem em causa a sua sobrevivência com saúde, bem-estar e paz, num determinado território e por isso são forçadas a deslocarem-se em busca de territórios onde viver. Podemos imaginar-nos nessa situação? Os nossos filhos e netos provavelmente vão passar por isso em poucas décadas. Por isso está na hora de assumirmos este problema como algo que nos diz respeito a todos e todas e encontrar soluções estruturais – as respostas atuais não resolvem estas situações, antes pelo contrário!! E o problema é tanto mais importante quanto já sabemos que se nada for feito, cerca de 143 milhões de pessoas serão migrantes climáticos até 2050 .
Em primeiro lugar é preciso relembrar que são as pessoas que menos contribuíram para as alterações climáticas que tendem a ser as que mais sofrem com os seus impactos, por vezes chegando ao extremo de verem inviabilizado o seu modo de vida. As migrações (permanentes, temporárias ou cíclicas) surgem frequentemente como uma forma de gerir a adaptação a esses impactos e pressões socio-ecológicas e que se manifestam mais ou menos abruptamente (seja via eventos extremos – ondas de calor, furacões, tsunamis, entre outros – seja via degradação ambiental progressiva: perda de biodiversidade, insegurança alimentar, etc), e levam populações inteiras a sair de zonas expostas. Essa busca de terra para viver tem o duplo intuito da sobrevivência de quem parte e de quem fica, contribuindo com recursos para que a comunidade de origem tenha mais possibilidades nas suas respostas de adaptação. No entanto, e é preciso sublinhar, a migração não é uma resposta disponível para todos os indivíduos, agregados familiares e comunidades – frequentemente os impactos das Alterações Climáticas ou degradação ambiental, afetam a disponibilidade dos recursos necessários para embarcar num processo migratório. É importante também realçar que a migração interna e regional é o fenómeno mais frequente em termos de mobilidade humana, e não a migração internacional de longas distâncias.
Face às circunstâncias atuais e que tenderão a degradar-se no futuro muito próximo, cabe aos diversos países que mais contribuíram para o agravar das Alterações Climáticas no planeta, agir! Cabe-nos a todos nós! Já é tempo de termos uma política global e local articulada e que efetivamente responda às diversas dimensões político jurídicas, sociais, económicas e culturais que o problema coloca e que seja implementada na prática. É fundamental divulgar a informação disponível sobre o modo como as alterações climáticas estão a influenciar processos migratórios, para podermos delinear ações individuais e coletivas e compreender melhor as vivências das populações e assegurar respostas adequadas aos contextos locais. Essas respostas devem mobilizar as comunidades na sua elaboração e implementação em respeito pelos direitos humanos e dignidade humana de quem luta pela sobrevivência, independentemente de cada individuo optar pela migração ou não.

sábado, 16 de outubro de 2021

O CineEco e a crise socio-ecológica

Chapim-real / Great Tit (Parus major) macho / male

A primeira sessão do CineEco ocorreu em Seia em 1995, três anos depois de Severn Cullis-Suzuki em 1992 ter discursado na cimeira Rio-92, a conferência da ONU sobre o desenvolvimento sustentável, apelando, em nome das gerações vindouras e de todos os animais e seres que povoam o planeta Terra, à mudança de paradigma e reclamando um direito fundamental para essas gerações: a vida. Mais de 3 décadas passaram e é inevitável que nos questionemos sobre o que aconteceu neste tempo, o que (não) mudou e porquê, e o que podemos fazer? O discurso está alinhado com o conhecimento que se tem da gravidade da situação, mas as ações não: nem as dos estados, nem as das suas instituições, nem das empresas ou dos indivíduos. Aparentemente não é suficiente saber e conhecer, é preciso mais do que isso para mudar o curso da ação para que sejam possíveis mudanças transformadoras. Articular diferentes perspetivas e diferentes saberes, envolver diferentes atores em ações concertadas. Hoje, quero sublinhar o papel das Artes, nomeadamente do cinema, no combate à crise socioecológica cujo expoente máximo são as Alterações Climáticas e a perda de biodiversidade, dando voz às preocupações sociais, culturais e ambientais locais. O CineEco constitui-se como um desafio à transformação dos modos de vida e das formas de organização social em torno dos problemas socioecológicos globais, e constitui-se como uma estratégia para dar visibilidade à interioridade, dar voz aos territórios do interior despovoados e abandonados.
O CineEco traduz um movimento socio-cultural-ecológico único no país, atraindo anualmente filmes-documentários que refletem múltiplas culturas, que veiculam múltiplas narrativas e soluções para a construção de futuros socioecológicos mais sustentáveis, mais justos e menos desiguais. O cinema tem a potencialidade de convocar múltiplos agentes individuais e coletivos, múltiplos setores e múltiplas disciplinas, múltiplos saberes para o diálogo e a articulação de posições. A mudança social passa necessariamente por esta capacidade de articulações múltiplas e simultâneas, ao proporcionar uma análise reflexiva sobre os limites dos modelos de organização social vigentes e sobre as suas alternativas. O cinema tem essa possibilidade de apresentar a vida e a morte vistas de outras formas, implicando-nos nas narrativas pelas emoções, pelas poéticas da vida, pela imagem, o imaginário, a criatividade, e, como diria o Prof. Agostinho da Silva, abrindo-nos à possibilidade da utopia, de fazer o que ainda não foi feito.
A ficção cinematográfica ambiental, que é cada vez mais realista e nem tem de criar cenários improváveis para nos desafiar a pensar para além das fronteiras do possível, a meu ver é um instrumento privilegiado de mediação e de conexão emocional através do qual é possível conectar diferentes visões, diferentes saberes e diferentes poderes num diálogo maior em torno da multiplicidade e complexidade de formas que assume a relação da humanidade com a natureza.
Os 26 anos de CineEco permitiram a aproximação dos Senenses de todas as idades, em particular das escolas que estão envolvidas, às múltiplas questões ecológicas centrais para a região e para o mundo, através da democratização do conhecimento científico, da articulação de saberes, traduzido na tela pelas emoções que desencadeiam. Esta é a via de aprofundar diálogos e articular poderes e saberes na transformação da organização social insustentável que vivemos abrindo assim a possibilidade de construir futuros socio-ecológicos mais sustentáveis e de vidas melhores.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

As Alterações Climáticas


No momento em que as evidencias científicas inequivocamente atestam que as Alterações Climáticas são reais e a influência da ação humana no aquecimento do planeta indiscutível, temos de alargar o debate sobre a rapidez com que as alterações climáticas têm vindo a ocorrer em todas as geografias e a condicionar e desestabilizar os modos de vida e, consequentemente, as práticas coletivas do dia-a-dia, de forma reiterada e cada vez mais impactante. O seu potencial catastrófico para a vida planetária, exige a reflexão sobre o que mantém e reproduz este modelo sócio-ecológico dominante, ocidental, moderno e capitalista de relação com a natureza, que tem obstaculizado os necessários processos de transformação societal, ecológica e epistémica, com evidentes consequências ambientais e climáticas, políticas, sociais, económicas e éticas. Por serem um problema complexo e multidimensional, o debate impõe-se, pois o caminho é longo.
Falar sobre as Alterações Climáticas é falar sobre as possibilidades da vida na Terra, tal como a conhecemos. A Terra vista do espaço em suspensão parece-nos pequena e frágil e avassaladoramente bela. No entanto, ela abriga um número incalculável de seres que cumprem as mais diversas funções e autorizam a vida e a morte acontecer. Cruzamo-nos com essa vida e morte a cada instante, participamos dela, ainda que nem sempre tenhamos consciência disso. São inegáveis as relações de interdependência e interinfluência entre natureza e sociedade/cultura, mas a coexistência humanos/natureza não tem sido pacifica. Nós, humanos, afastámo-nos da natureza de tal forma que esta é vista, não como parte integrante de uma vida/morte comum, de um destino comum, mas como o reservatório de recursos dos humanos. Assim, ainda que os seres humanos sejam parte integrante da biodiversidade inerente ao sistema ecológico global e a cada um dos ecossistemas, têm vindo a exercer sobre eles uma violência crescente em termos de ritmo e de escala. Neste contexto, muitas espécies se foram extinguindo a cada dia e milhares se encontram ameaçadas pelo aquecimento global. O equilíbrio ecológico é algo dinâmico e frágil, e cada dia novos equilíbrios/desequilíbrios acontecem resultado deste turbilhão dinâmico, provocando mudanças por vezes impercetíveis, outras vezes não.
A redução da biodiversidade tem vindo a colocar o ser humano na lista das espécies ameaçadas pela extinção. Estamos confrontados com essa reflexão. Dela dependerá o nosso futuro na Terra. A Terra encontrará outras formas de se manter, de se revigorar, à semelhança do que já aconteceu em outros momentos da história geológica do planeta. Nós, humanos, não!
Atualmente temos mais de 1400 mil milhões de toneladas de CO2, emitidas desde o início da revolução industrial, retidas no nosso planeta. O progresso, o crescimento, a ciência, a tecnologia, proporcionaram-nos melhores condições de vida, mas também alteraram os equilíbrios na nossa ‘casa comum’ . A colonização conduziu à exploração de outros continentes para alimentar e permitir a manutenção desta industrialização e com ela a manutenção das desigualdades geográficas e das desigualdades sociais. O mundo em que vivemos é muito desigual.
A comunidade científica intensificou a pesquisa e os alertas. Os políticos parecem não chegar a acordo e, apesar das cimeiras, as decisões não acompanham a emergência do agir, nem as ações dirigidas para o cumprimento dos compromissos assumidos, e de marcos como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), no horizonte 2030.
Esta relação com a natureza trouxe e continua a trazer desequilíbrios que exigem a nossa atenção e reflexão: todos somos derrotados se não conseguirmos encontrar formas de relação com a natureza e entre sociedades que permitam alterar o curso vertiginoso que nos anuncia um futuro devastador para a humanidade. Todos devemos colaborar nesta luta por assegurar um futuro às gerações vindouras, como preconizava o Relatório Brundtland há mais de três décadas. Que planeta, que casa, que vida vamos deixar aos nossos filhos e netos? Que alternativas e que mudanças dispomos? Por onde queremos e podemos ir? A reflexão e o compromisso de todos/as impõe-se!