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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Zonas protegidas ardem duas vezes menos, indica análise da WWF

As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 arderam duas vezes menos entre 2021 e 2025 do que o restante território, segundo uma análise da WWF Portugal, sugerindo uma abordagem integrada de prevenção e conservação da natureza.

“Os resultados desta análise sugerem a necessidade de uma abordagem integrada de políticas públicas que articule prevenção de incêndios, conservação da natureza e gestão ativa do território”, defendeu a associação ambientalista num comunicado hoje divulgado.

A análise da WWF Portugal, ao indicar que nas ZEC há menor proporção de área ardida, contraria estudos que indicam que estas áreas ardem mais. A organização cruzou dados de incêndios com informação sobre o uso do solo e habitats naturais em Portugal continental.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, Catarina Grilo, disse, citada no comunicado, que os resultados da análise mostram que a conservação da natureza “não é incompatível” com a prevenção de incêndios.

“Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, sublinhou.

Por isso, concluiu, integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza “não é apenas possível, é indispensável”.

De acordo com os dados divulgados no trabalho, com o título “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal”, entre 2021 e 2025 ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC, face a 2,9 dentro dessas áreas.

A associação notou que cerca de um quarto da área ardida no período em causa ocorreu no interior das zonas protegidas e os incêndios afetam sobretudo matos e formações arbustivas, um tipo de vegetação que desempenha um “papel ecológico relevante”, mas que “continua a não ser tido em conta na gestão do território”.

A WWF Portugal salientou também que alguns habitats classificados exigem atenção redobrada, como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais, que apresentam “níveis relevantes de afetação pelo fogo”, e que por isso precisam de medidas de gestão e conservação específicas.

O estudo apontou para a importância não só de gerir de forma estratégica áreas de matos e mosaicos agroflorestais, como também considerar a distribuição de habitats na definição de medidas de prevenção, e integrar melhor o conhecimento científico nas políticas públicas.

Indicou ainda que as causas intencionais de incêndio têm maior expressão nas ZEC do que fora delas, algo que “merece aprofundamento”, inclusive “procurando explorar fatores de ordem social”.

domingo, 7 de junho de 2026

Portugal deixa arder à vontade, o que é errado e perigoso

Grandes incêndios em julho de 2025

Em Portugal, os bombeiros não têm um plano estratégico de controlo de incêndios. Correm a salvar edifícios à medida que o incêndio se aproxima, enquanto deixam o fogo florestal arder para onde quiser, o que é imprudente». A denúncia é de Gary Morgan, perito mundial que melhor conhece o caso português. Foi contratado pelo Governo de António Costa para auditar o nosso dispositivo.

Depois da carnificina de 2017, que matou 116 civis e 13 operacionais, o anterior Governo deu instruções à Proteção Civil para se concentrar na salvaguarda da vida humana. A floresta pode arder à vontade, desde que não atinja aldeias e casas isoladas. O património edificado também pode ser destruído, desde que não tenha gente lá dentro. As evacuações tornaram-se banais.

Os Governos de Luís Montenegro conformaram-se com o mesmo objetivo. Os resultados desta política são catastróficos. No ano passado, Portugal sofreu o maior e o terceiro maior incêndios florestais da história. No dia 13 de agosto, deflagrou um em Piódão, concelho de Arganil, que alastrou aos concelhos vizinhos de Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital, ainda no distrito de Coimbra. Manteve-se ativo durante dez dias. Invadiu os municípios de Seia, distrito da Guarda, Covilhã, Fundão e Castelo Branco, no distrito de Castelo Branco. Arderam 645 quilómetros quadrados, uma área superior à dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra. No final desse mês, deflagrou em Trancoso um incêndio que consumiu 320 quilómetros quadrados, área semelhante à soma dos concelhos do Porto, Matosinhos, Maia, Valongo e São João da Madeira.

«Os incêndios grandes, múltiplos e complexos continuam difíceis de conter», lamenta a OCDE, em relatório publicado há dois meses sobre o caso português. O nosso dispositivo tem um desempenho vexatório, quando analisado no plano internacional. A OCDE denuncia que «a coordenação e a tomada de decisão operacional continuam a ser dificultadas pela ausência de qualificações uniformes». Há muitos chefes no terreno, grande parte deles incompetentes. «A hierarquia tem sido priorizada em detrimento da especialização técnica, reduzindo, em última análise, a eficácia operacional», conclui o relatório.

Como mostra a experiência da Austrália, a força de braços é mais importante do que os aviões e os autotanques para travar a progressão dos fogos rurais. «Usar apenas água para apagar um incêndio florestal é assumir um risco inaceitável de propagação do incêndio», ensina Gary Morgan. Na Austrália, a opinião pública associa o combate aos fogos a sapadores florestais, de machado e sachola na mão, a abrir clareiras no terreno. «A intensidade do fogo determina como a barreira de terra mineral é criada, seja por maquinaria ou ferramentas manuais», descreve o homem que comandou essas forças durante dez anos, no estado de Victoria.

Os bombeiros tradicionais merecem o reconhecimento da sociedade, mas precisam de ser qualificados. «Devido ao grande respeito do público pelos bombeiros, muitas pessoas pensam que qualquer bombeiro pode suprimir todos os incêndios. Isso é um mito», escreve o perito australiano. Portugal já dispõe de forças especializadas em criar barreiras aos incêndios, para os travar no sítio e no momento adequados, mas precisam de ser reforçadas.

O pior é que o comando das operações no terreno está entregue às personalidades erradas. «Portugal tem pessoas com competências para evitar que os incêndios florestais não atinjam níveis catastróficos», garante Gary Morgan. Mas também denuncia que, muitas vezes, «a pessoa que assume a responsabilidade como Controlador de Incidentes não é competente nem capaz de tomar decisões estratégicas, nem tem uma abordagem voltada para a supressão de incêndios».

É preciso pôr os mais qualificados no comando. E, no terreno, corpos especializados no uso de máquinas de rasto, ferramentas manuais e fogo tático. «Uma parte do dispositivo não pode estar preocupada com casas, nem com pessoas. Se ninguém lhe tirar o alimento, o fogo agradece, passa por aldeias e destrói tudo», lamenta Akli Benali.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Testemunho impactante de Richard Zimmler em defesa do SNS

Há duas semanas, passei por um grande susto de saúde. Agora que a situação se acalmou e me sinto bem, quero escrever sobre isso para agradecer a todas as pessoas que me ajudaram. Eis o que aconteceu: 
Tive uma consulta com um novo médico porque tenho um problema com o meu intestino há alguns meses.  Ele receitou-me alguns suplementos. Tomei o primeiro, o Movicol, nessa tarde, e tive uma reação alérgica grave – choque anafilático. Um minuto depois de tomar o medicamento, comecei a sentir comichão na boca, nas costas, na barriga e nos pés. Sabia que a situação poderia piorar, por isso liguei imediatamente para o consultório do médico. A sua esposa (também médica) disse-me para tomar um anti-histamínico. Não tínhamos nenhum em casa, por isso o Alex e eu fomos à farmácia local. Foi uma sorte imensa…Enquanto estávamos lá, a minha pressão arterial baixou drasticamente e fiquei muito fraco e tonto. As farmacêuticas tentaram medir a minha pressão arterial, mas estava demasiado baixa para conseguir uma leitura!  As farmacêuticas foram maravilhosas e ajudaram-me a tomar o anti-histamínico. Sentaram-me numa cadeira, levanvaram-me as pernas e deram-me sal para colocar debaixo da língua.  A tontura fez com que a minha visão ficasse turva e eu estava tão fraco que não conseguia levantar-me. As farmacêuticas ligaram para o 112 e a ambulância chegou cerca de quinze minutos depois. 
Os paramédicos foram extremamente gentis comigo, tal como as farmacêuticas. Nessa altura, a minha pressão arterial tinha voltado a subir para cerca de 9/5. Já me sentia menos fraco. Os paramédicos colocaram-me numa cadeira de rodas e levaram-me para as urgências do Hospital de S. António, onde tenho todos os meus médicos. Foi a minha estreia mundial numa ambulância! O Alexandre veio comigo. Na sala onde acabei por ficar (não sei bem onde era), os médicos administraram-me soro intravenoso, cortisona e um anti-histamínico. A minha pressão arterial subiu lentamente depois disso. Três horas depois, às 20h, a pressão estava em cerca de 11/7 e mandaram-me para casa (depois de comer uma maçã assada e uma sopa diluida!). A médica disse para tomar o anti-histamínico durante três dias e, depois, começar a tomar os outros suplementos recomendados. Mas falei com a minha terapeuta francesa e ela disse para esperar uma semana porque o meu corpo precisava de descansar. 
É óbvio que nunca mais vou tomar Movicol.
Agora estou bem. Felizmente, não estou a sentir quaisquer consequências do choque anafilático. Tenho uma consulta marcada para 6 de maio com um alergologista para identificar qual o ingrediente do Movicol que causou o choque.
Escrevo agora para expressar os meus agradecimentos aos enfermeiros, médicos e as minhas queridas farmacêuticas pelo sua ajuda maravilhosa e eficiente. Estou extremamente grato, tal como o Alexandre. No dia seguinte ao meu incidente, levei 7 exemplares dos meus livros à farmácia (do Mercado da Foz) e dediquei um a cada um das farmacêuticas que me ajudaram.
Um grande obrigado ao Laurentino e ao Rui, os paramédicos. E à Inês e ao Pedro, os médicos do serviço de urgências. E a todos no SNS.  
Um pequeno pedido: por favor, lutem para manter o elevado nível de cuidados do SNS. Como sou dos EUA, sei o que é viver sem um sistema nacional de saúde. Isso significa que as pessoas vivem com um nível constante de stress, preocupadas com o que lhes acontecerá se adoecerem e se perderão todas as suas poupanças caso precisem de hospitalização. Um exemplo: após o grave AVC da minha mãe, ela ficou em estado vegetativo e passou duas semanas num hospital em Nova Iorque. Praticamente não recebeu cuidados. A conta de duas semanas foi de 120 000 euros. Sim, leu bem: 120 000 euros por duas semanas numa cama. Isso é completamente normal nos EUA. Quer isso em Portugal? Espero que não! Felizmente, o seguro privado da minha mãe pagou 119 000 euros da conta, mas os seguros privados são extremamente caros nos EUA.  É uma situação terrível que espero que nunca venhamos a viver em Portugal. E podem ter a certeza de que lutarei para manter a elevada qualidade dos cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Marque na sua agenda - Participe amanhã na Manifestação "Deseucaliptar, Descarbonizar e Democratizar", em várias regiões do País


Toda a informação aqui

Este sábado, dia 20 de Setembro, haverá manifestações em 15 localidades do país, sob o mote de "que outra floresta é possível" e também "outra vida é possível para quem persiste em habitar em zonas rurais". Organizada por um grupo de cidadãos, a iniciativa terá lugar em Águeda, Arganil, Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Lousã, Odemira, Oliveira do Hospital, Pedrógão Grande e no Porto. 

Os mobilizadores defendem que "há várias propostas e reflexões a fazer", bem como "exigências e demandas imediatas e para os próximos anos". A iniciativa acontece a dois dias do começo do Outono, escolha que não terá sido aleatória. "O Verão finda e as televisões, os jornais, as rádios, as conversas nos cafés estão já concentradas noutros temas", reflectem os cidadãos, nas redes sociais, defendendo que a floresta e os incêndios rurais são temas para todo o ano.

Mobilização popular é "necessária"
Já em Setembro de 2024, a rede cidadã havia organizado o protesto "Pela Floresta do Futuro" e afirmou, em Agosto passado, que estava a iniciar um "processo de mobilização, contactando organizações nacionais e na Galiza". O objectivo primeiro é "lutar pela vida das pessoas que vivem nas áreas rurais, mas não só, é necessária uma crescente mobilização popular que travem os planos catastróficos que resultam da combinação dos interesses da indústria dos fósseis e das celuloses, apoiados pelos governos ibéricos durante as últimas décadas", acusam.

Este Verão, Portugal foi o país com a maior percentagem de área ardida da União Europeia. Foram destruídos mais de 3% do território nacional, com o incêndio de Arganil a assumir-se como o maior de sempre.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Pedro Sánchez propõe pacto climático conjunto com Portugal e França


O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou esta segunda-feira que vai sugerir a Portugal e França um trabalho conjunto para criar um pacto de Estado contra a emergência climática, na sequência dos incêndios que atingiram a Península Ibérica durante o verão, noticiou a agência Lusa.

“O Governo de Espanha não se vai deter apenas nas nossas fronteiras para desenhar este pacto de Estado face à emergência climática”, disse Sánchez, citado pela Lusa, acrescentando que Portugal também sofreu com os fogos este ano. O líder espanhol explicou que a proposta pretende reforçar a cooperação entre países vizinhos frente às alterações climáticas.

Sánchez atribuiu a gravidade dos incêndios não só às alterações climáticas – “as alterações climáticas matam” – mas também a problemas na gestão do território, como florestas com excesso de biomassa, ausência de corta-fogos e falta de espécies resistentes ao fogo. Criticou ainda a prevenção insuficiente, apontando carências de planos, bombeiros e sapadores florestais, cuja responsabilidade compete às regiões autónomas.

Os incêndios de 2025 causaram quatro mortos e destruíram cerca de 400 mil hectares, segundo dados provisórios do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), um recorde anual em Espanha. O Governo declarou recentemente zonas de catástrofe em 113 áreas afetadas e enfrentou uma onda de calor intensa e prolongada entre 2 e 18 de agosto, considerada das mais severas desde 1975, de acordo com a agência meteorológica espanhola Aemet.

Para responder aos riscos climáticos, o Conselho de Ministros aprovou um plano de ação com dez medidas, incluindo reforço dos meios de combate a incêndios durante todo o ano, criação de um fundo permanente para recuperação das áreas afetadas, constituição de uma agência estatal de proteção civil, desenvolvimento de uma estratégia de resiliência hidráulica, construção de refúgios climáticos e adaptação da legislação às altas temperaturas.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

domingo, 17 de agosto de 2025

"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios


Decisão de não responder a perguntas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas num sistema crucial para os bombeiros (e não só). E há "muita coisa por explicar", está a ser "demasiado mau"
A declaração ao país da ministra da Administração Interna deste domingo durou menos de cinco minutos. Nela, Maria Lúcia Amaral comunicou que o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios - que já consumiram mais de 170 mil hectares e que, durante os últimos dias, levaram à morte de pelo menos duas pessoas, além de terem provocado destruição e consumido habitações e explorações agrícolas. No final, os jornalistas na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil tentaram fazer perguntas à ministra, mas a Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder. "Vamos embora", disse - e depois foi mesmo.

A CNN Portugal questionou a razão por trás desta decisão, mas não obteve resposta. 

A decisão do Ministério da Administração Interna de não responder às perguntas dos jornalistas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas no sistema SIRESP, a rede de comunicações do Estado para comando e coordenação de comunicações em situações de emergência. Um problema que tem sido recorrente de cada vez que o país enfrenta uma crise - aconteceu, por exemplo durante o apagão geral de abril deste ano - e que levou o comandante dos bombeiros Luís Martins a descrever o assunto desta forma à CNN Portugal: "A rede de SIRESP muitas vezes falha e todos os anos falamos disto. É mais do mesmo, é de lamentar que uma das ferramentas importantes dos bombeiros não esteja disponível para o combate." 

Não houve, no entanto, qualquer referência da parte da ministra ao SIRESP, sistema o Governo pretende substituir - depois de em julho ter anunciado uma prorrogação de um estudo técnico com "o objetivo de encontrar uma solução que assegure um sistema de comunicações robusto, fiável, resiliente, tecnologicamente adequado e plenamente interoperável". De resto, as explicações dadas pela ministra abordaram também os fatores naturais que têm prejudicado o combate operacional aos incêndios, como o "agravamento dos ventos" e o "fumo intenso". 

O comandante Jorge Mendes refere à CNN Portugal que há "muita coisa ainda por explicar". "Sabemos neste momento que há bombeiros parados à espera de indicações para combater incêndios. Há zonas de combate que estão sem rede de comunicação. Há um certo desnorte em algumas zonas. Depois de isto tudo ter terminado, espero que as pessoas responsáveis façam uma avaliação e retirem consequências. Isto é demasiado mau, temos Sabugal completamente rodeado de chamas, temos Seia com o mesmo problema. Alguém terá de tirar as suas consequências."

A comunicação da ministra foi feita ao país num momento particularmente difícil no combate às chamas no Sabugal, onde quatro aviões Canadair deram este domingo apoio no incêndio que afeta o concelho raiano da Guarda desde sexta-feira, o que acabou por evitar que as chamas atingissem a aldeia de Rapoula do Côa, que esteve cercada. Os fogos, no entanto, continuam em polos opostos - o que tem dificultado a resposta das autoridades.

Também em Seia, a frente que nasceu em Teixeira passou as Pedras Lavradas, no Parque Natural da Serra da Estrela, e progride “com grande violência” na direção da freguesia da Erada, na Covilhã. Foi também neste município que foi registada a segunda vítima mortal desta vaga de incêndios: tratou-se de um bombeiro que morreu num acidente de viação enquanto se deslocava para um incêndio no Fundão. Em comunicado, a Proteção Civil indicou que o acidente ocorreu pelas 19:10 e que existiram ainda “quatro bombeiros feridos, que estavam a ser resgatados/assistidos pelas equipas de emergência no local”.

Já em Pampilhosa da Serra, a situação tornou-se mais dramática nas últimas horas, com o presidente do município a explicar que o vento "mudou", avançou a "grande velocidade" e que o fogo ficou "completamente descontrolado". “Neste momento a dimensão está de tal maneira... está de tal maneira descontrolado que já não há carros suficientes até para proteger as povoações”, avisou o autarca. 

A situação mantém-se portanto "desfavorável" - nas palavras do Ministério da Administração Interna - dois dias depois de Portugal ter pedido ajuda europeia para responder aos incêndios. O Governo acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil na sexta-feira após ter rejeitado, num primeiro momento, essa possibilidade. A 7 de agosto, o MAI justificava que o país não precisava de ajuda externa por ter meios suficientes para responder ao avançar dos fogos. "Ainda não chegámos, felizmente, e esperamos e contamos não ter de chegar, à verificação de que já não somos capazes de debelar um problema com os nossos próprios meios", referia, na altura, a ministra. 

Essa decisão criticada pela oposição. No início do mês, o Chega disse que iria questionar o Governo sobre o atraso na ativação do mecanismo e o PS garantiu na altura que o apoio deveria ter sido pedido antes de forma a pré-posicionar meios aéreos para o combate aos incêndios. "O tempo deu-me razão", disse este domingo José Luís Carneiro à CNN Portugal, acrescentando que "há falhas graves de coordenação e essa coordenação precisa urgentemente de um comando político".

sábado, 2 de agosto de 2025

A máfia do eucalipto

Fogo no parque da Peneda-Gerês já consumiu cerca de seis mil hectares (dados de 31 de Julho)

Por Nuno Gomes
Todos os anos, alguns com extrema gravidade, observamos a calamidade dos fogos florestais em Portugal. Portugal é o país da Europa que mais arde, tanto em termos absolutos como relativos, ultrapassando Espanha e Roménia por largos ha, com uma média anual de 155.000 ha ardidos. 
A tragédia de Pedrógão, em 2017, quando arderam mais de 500.000 ha, mais que em toda a Comunidade Europeia, lançou o alerta e foram identificados vários problemas no território, como o abandono florestal, o descontrolo urbanístico, o aumento da temperatura no Verão que torna a floresta mais inflamável e, claro, a expansão do eucalipto. A IA diz, com uma elevada carga de humor, que não é fácil plantar eucaliptos em Portugal. De facto foram estabelecidas regras e hoje não deveria ser possível plantar ou rearborizar eucaliptos sem autorização do ICNF, não se devia plantar em área de Rede Natura 2000, mas como se viu no Gerês é o que mais há por lá, a menos de 5 m do vizinho florestal ou de linhas de água temporárias (na prática as linhas de água de escorrência das encostas deviam ter faixas de 10 m sem eucaliptos), a 10 m dos terrenos agrícolas e linhas de água permanentes, e a 30 a 50 m das linhas de água navegáveis. 
E não se pode plantar onde não tenham existido eucaliptos nos últimos 10 anos. Contudo, o que se observa na prática é uma eucaliptação progressiva de Portugal, ultrapassando o eucalipto os 1,2 milhões de ha, a maior área florestal, que já pertenceu ao pinheiro-bravo, seguido do sobreiro. Qualquer pessoa pode na prática plantar eucaliptos nas suas propriedades sem regras porque o ICNF não fiscaliza, ou porque não tem meios ou porque os votos dos proprietários são importantes para os partidos no poder. 
Em breve, teremos um país totalmente eucaliptado, escarrando em todas as normas legais e do bom senso. E todos os anos teremos o drama de 2017 e deste ano, que só agora começou e ameaça tornar-se no pior de todos, com maior ou menor intensidade. 
Bastava que os eucaliptais que continuam a nascer ilegalmente tivessem mão pesada nas multas, que as celuloses fossem responsáveis e fizessem pedagogia nas suas próprias plantações e cumprissem as regras mínimas a que estão sujeitas, plantando, por exemplo, folhosas em todas as faixas onde os seus eucaliptos não podem estar, etc. 
Mas não, vivemos numa república das bananas onde as regras não são para cumprir mas para contornar. 
E não se pense que a máfia do eucalipto são as celuloses, são todos os que contornam as regras e aqueles que o permitem, ou seja, todos ou quase todos nós!

terça-feira, 17 de junho de 2025

Pedrógão Grande? Não esquecemos, nem perdoamos...


Começou precisamente neste dia, há 8 anos, um dos incêndios mais devastadores do nosso País.

O balanço oficial contabilizou 66 mortos (65 civis e 1 bombeiro voluntário de Castanheira de Pera) e 254 feridos (241 civis, 12 bombeiros e 1 militar da Guarda Nacional Republicana), dos quais 7 em estado grave (4 bombeiros, 2 civis e 1 criança). Entre as vítimas mortais, 47 foram encontradas nas estradas do concelho de Pedrógão Grande, tendo 30 morrido nos automóveis e 17 nas suas imediações durante a fuga ao incêndio. Uma outra vítima, morreu na sequência de um atropelamento ao fugir do incêndio. O incêndio também arrasou dezenas de lugares.

Mais de metade da região do Pinhal Interior Norte, que abrange Pedrógão Grande, estava ocupada por plantações de eucaliptos (Eucalyptus), cujo óleo é altamente inflamável, e de pinheiro-bravo (Pinus pinaster). O Jornal de Leiria escreveu: "a ajudar a violência do fogo pode ter estado a natureza do coberto vegetal da região, composto por mais de 90% de eucalipto, o baixo teor de humidade do dia de ontem e as altas temperaturas que, mesmo durante a noite, ainda se mantêm"

Os tempos não

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço....no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

in Todas as palavras - Poesia reunida (2012) - Manuel António Pina

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Monoculturas em colapso: a urgência de um novo futuro florestal


O esforço de limpeza das florestas, aliado à relativa calma dos últimos anos, criou a ilusão de que o problema dos incêndios estava resolvido e que a devastação de 2017 não se repetiria. Essa confiança desviou a atenção da verdadeira prioridade: a reforma estrutural da floresta portuguesa. Os acontecimentos recentes expuseram a fragilidade das alterações implementadas, as quais são obviamente insuficientes para a magnitude do problema. A reforma é hoje ainda mais crítica e é preciso determinação e ousadia para a intervenção estrutural que a floresta portuguesa exige.

No centro do atual fracasso estão décadas de negligência na gestão florestal. Planeamento deficiente, reflorestação inadequada e falta de manutenção, criaram as condições perfeitas para os incêndios devastadores que enfrentamos. Embora a limpeza da vegetação em torno das habitações possa retardar o avanço das chamas, não resolve os problemas estruturais subjacentes. A crescente dependência das monoculturas de eucalipto, altamente inflamáveis, só agravou a situação. Para reverter este cenário, Portugal deve adotar um novo paradigma florestal, baseado na reflorestação biodiversa e em políticas agroflorestais, que possam criar ecossistemas mais resilientes.

Do ponto de vista económico, o quadro é preocupante. São investidos milhões de euros em ações de combate a incêndios, enquanto a prevenção recebe apenas uma pequena fração desse financiamento. Todos os estudos demonstram que investir na prevenção não só poupa recursos, como também salva vidas. Os custos ambientais são igualmente alarmantes: incêndios sucessivos empobrecem os solos, destroem a biodiversidade e aumentam as emissões de carbono. Em vez de sumidouros de carbono, as nossas florestas estão a comprometer os objetivos climáticos do país.

As alterações climáticas vêm intensificar os riscos. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e os padrões climáticos irregulares, ampliaram a probabilidade de incêndios devastadores. A estratégia dominante, centrada na limpeza das florestas, é insuficiente para enfrentar essas novas ameaças. Precisamos de soluções mais robustas e resilientes às alterações climáticas, como a introdução de espécies de árvores resistentes ao fogo, o uso inteligente do solo e um planeamento ambiental proativo.

Portugal pode olhar para países que mudaram o foco do combate reativo a incêndios para a resiliência proativa das comunidades e o planeamento estratégico do uso do solo. Esses países perceberam que confiar apenas no combate a incêndios é um beco sem saída. As queimadas controladas, por exemplo, são rotineiramente usadas para remover material inflamável, enquanto a educação da comunidade sobre prevenção de incêndios florestais tornou-se parte integrante de sua estratégia.

Igualmente relevante é a falta de coordenação entre o governo nacional e as autoridades locais. As operações de combate a incêndios de grande visibilidade, como as missões aéreas, recebem destaque e financiamento, enquanto as medidas de prevenção a longo prazo são subfinanciadas e ignoradas. É urgente estabelecer políticas claras e criar incentivos nacionais que promovam a silvicultura sustentável, a reflorestação biodiversa, os sistemas agroflorestais e infraestruturas resistentes ao fogo. Sem isso, será difícil envolver os principais atores no esforço para reduzir o risco de incêndios florestais.

Finalmente, há barreiras culturais e psicológicas profundamente enraizadas e difíceis ultrapassar. O combate a incêndios é muitas vezes exaltado como heroico, enquanto a prevenção – apesar da sua eficácia comprovada a longo prazo – é tratada como secundária. A educação pública deve desempenhar um papel central na mudança desta mentalidade.  A prevenção não é inação, mas a escolha inteligente que deve ser priorizada.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Incêndios: o país é o mesmo enquanto o clima piora


«A tragédia não foi maior porque estamos, no que toca ao combate aos fogos, melhores do que em 2017, quando houve um sobressalto nacional que permitiu que algumas medidas, muito menos do que as necessárias, avançassem. Apesar do que melhorou nos últimos anos, continuamos a ver falhas inaceitáveis, bem evidentes em tantos vídeos de pessoas a atravessar o fogo em estadas fundamentais e autoestradas. Não se repetiram algumas desgraças de 2017 por milagre. A comunicação preventiva à população também foi muito fraca, apesar dos avisos prévios, com dias, do IPMA e da Proteção Civil.

Estes fogos não chegaram a ser um tema propriamente político. De tal forma, que o governo se deu ao luxo de fazer um briefing do Conselho de Ministros sem direito a perguntas – um estilo que parece agradar a uma comunicação social anestesiada por um dever de “estado de graça” – e a ministra da Administração Interna desapareceu. Ao contrário do que vimos em 2017, a cobertura do Presidente foi total, ao ponto de ter presidido a um Conselho de Ministros, coisa que costuma ser reservada a momentos meramente simbólicos.

Talvez a ausência de aproveitamento político, no meio dos fogos, deva ser o normal. Mas ela só não se repete porque o ambiente político é muito diferente do dos quatro anos da “geringonça”, em que tivemos uma oposição de uma agressividade poucas vezes vista na nossa democracia constitucional. Que contrasta, aliás, com as exigências de moderação e sensatez que os seus principais atores fazem ao Partido Socialista.

Do abandono ao eucalipto
Voltando ao que interessa, o que ficou por fazer nestes anos é o essencial: a gestão florestal. Somos um país com grande parte do território abandonado e envelhecido, onde não é possível cuidar da floresta, dar-lhe rendimento e garantir a prevenção. Onde pessoas que detêm pequenas parcelas de terra vivem no local e outras não, sabem que as têm e outras não. Onde o Estado quase não tem floresta e a que tem é mal gerida. Onde não há ordenamento território e, portanto, não há ordenamento florestal. E a floresta, como é hoje gerida, não garante financiamento à sua preservação e à gestão de combustíveis finos.

Para além do minifúndio e da ausência de gestão florestal, sobra o eucalipto por todo o lado. Uma árvore que não fazia parte da nossa tradição e clima é hoje a prevalecente. A área plantada de eucalipto é superior à de todos os outros países europeus juntos. 81% da área reflorestada depois de 2017, ano em que se disse que iríamos ter de aprender com os erros, são desta espécie. Se fizermos a justaposição dos mapas dos incêndios destes dois dias e da área de eucaliptal veremos uma coincidência quase absoluta.

É verdade que os eucaliptos são dos produtos economicamente mais sustentáveis na nossa floresta. Mas também são dos piores para incêndios. Com ventos 30 quilómetros hora, as folhas incineradas desta árvore são autênticas bolas de fogo que atravessam autoestradas e causam novas ignições e novas frentes.

Aparentemente, ainda não chega. O CEO da Navigator, António Redondo, defendeu, há muito pouco tempo, o aumento da área para a plantação de eucalipto em Portugal, de forma a garantir a sustentabilidade da empresa. Tratou-se de uma crítica às alterações à lei que tinha liberalizado a plantação de eucaliptos. Lei que fora da autoria do ex-secretário de Estado das Florestas, Francisco Gomes da Silva, que posteriormente se tornou diretor-geral da CELPA, que reúne os gigantes das celuloses em Portugal.

As alterações climáticas são agora
Nos cursos mediáticos intensivos destes períodos – e sobre fogos temos tido, infelizmente, muitas oportunidades para os frequentar –, aprendemos a regra dos três 30: temperatura superior a 30º, humidade inferior a 30% e vento superior a 30km/hora, a que podemos acrescentar 30 dias sem chover, é receita para o desastre. E a verdade é que esta combinação atingiu, em várias regiões do país, o primeiro lugar desde 2001. Não é preciso muito para verificar os efeitos das alterações climáticas. Um relatório conjunto da Organização Meteorológica Mundial e do Serviço de Alterações Climáticas da União Europeia concluiu que o verão de 2023 foi o mais quente de que há registo na Europa. O centro da Europa está a viver das cheias mais brutais deste século. Uma semana antes, tivemos cheias dignas das monções no deserto do Sahara.

A Europa aqueceu mais rapidamente do que qualquer outra região nos últimos 30 anos. O relatório mostra que as temperaturas aumentaram, no continente, mais do dobro da média global nos últimos 30 anos – a um ritmo de cerca de 0,5 graus celsius por década. Pior: o que está a conduzir essa subida é o sul, como se percebe pela falta de água que se pode tornar comum no Algarve ou o anunciado fim da pastorícia na Sicília.

Como já escrevi várias vezes, nada disto é uma herança que deixaremos aos nossos netos. Já está a acontecer. São campos agrícolas destruídos, populações perdem casas e haveres, migrações forçadas, mortes prematuras, sistemas de saúde sobrecarregados.

Podemos reduzir risco da perda de vidas e de bens materiais, em condições cada vez piores. Não há como preparar territórios e forças de combate para este novo tempo. Algumas das florestas mais bem cuidadas do mundo, nos parques nacionais da Califórnia, já perderam, este ano, 4046 quilómetros quadrados em consequência dos fogos florestais. É isto todos os anos, nos EUA ou Austrália, com fogos que ficam ativos semanas a fio.

O crime não explica
De tantos temas, o que o primeiro-ministro preferiu tratar, por saber que é o mais popular e desvia do governo qualquer responsabilidade, foi o do crime de fogo posto. E fê-lo da forma mais populista possível, falando de interesses que sobrevoam o crime, com insinuações não concretizadas, impensáveis em quem lidera o governo. E dizendo que ia perseguir os criminosos, tarefa que cabe às forças policiais e à justiça. Confirma-se: Montenegro está sempre em campanha.

Claro que há fogo posto. Sempre houve. Mas Portugal reduziu em três quartos o número de ignições (temos um número de ignições semelhantes ao de Inglaterra). Apenas 1% das ignições são responsáveis por 90% da área ardida. Como disse o arquiteto paisagista Henrique Pereira dos Santos, na SIC Notícias, “o problema não é como o incêndio começa, é porque é que ele não para”.

O que é desesperante nestes debates é o empenho de tanta gente em desligar a causa da consequência. Lembro-me de, em 2017, ser trucidado por falar de alterações climáticas, como se fosse uma desculpabilização do governo. Se não falamos delas quando sentimos de forma mais dramática os seus efeitos, falamos quando? São, aliás, os mesmos que recusam a causa a serem mais vocais na responsabilização política pelas consequências.

Acontece o mesmo nos debates sobre a imigração: ela irá aumentar por causa das alterações climáticas e os que maior partido político tiram deste fenómeno são os que negam uma das suas causas. A razão para resistência é simples: é mais fácil responsabilizar os poderes públicos por não estarem preparados para as consequências do que participar numa mobilização geral para reduzir a pressão das causas.»

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Curta-metragem: Life after fire (Vida após incêndios)


Animated short of the article "What is the value of biotic seed dispersal in post-fire forest regeneration?", published in Conservation Letters.  
This research results from work developed with the "Life After Fire" project, which was created after the 2017 fires in Portugal with the aim of understanding the importance of seed dispersal in the recovery of forests after a fire.

quarta-feira, 27 de março de 2024

A pandemia dos eucaliptos


Portugal, um país de curiosos recordes mundiais. A maior feijoada, o maior pão com chouriço ou os maiores chifres de um bode são alguns dos feitos registados no Guinness. O país é igualmente recordista mundial no uso de uma planta que vem do lado oposto do globo terrestre. Eucalyptus globulus. São perto de um milhão de hectares cobertos somente por esta espécie. Quase 30% daquilo a que chamamos floresta portuguesa.

“Se viajarmos de norte a sul do país, são assustadoras as áreas de monocultura de eucalipto pegadas umas às outras. A paisagem está completamente destruída. Daí se chamarem desertos verdes”, observa o biólogo e especialista em agrofloresta José Mateus.

“Ter um distrito inteiro em que a única floresta que existe são plantações, seja aqui, seja as palmeiras para óleo de palma, é desastroso”, anui Paulo Pereira, biólogo e co-autor da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental. Publicada no início do outono, este projeto avaliou perto de 400 espécies de árvores e plantas nativas que estão hoje ameaçadas de extinção em Portugal, devido sobretudo à intensificação agrícola, às barragens, aos incêndios e às espécies invasoras.

Em 2017, um estudo internacional em que participou a Universidade de Coimbra concluíra: "os eucaliptais geram autênticos 'desertos' à sua volta, provocando uma dramática redução da biodiversidade do território". Em 2019, outro estudo realizado por investigadores de seis instituições de ensino superior e coordenado por Ernesto de Deus mostrou várias evidências do potencial invasor do eucalipto.

No verão passado, investigadores da Universidade Técnica de Munique e da Universidade de Zurique detetaram através de imagens de satélite 15 territórios da rede Natura 2000 afetados por eucaliptos, nove dos quais “fortemente afetados”. “Estes ecossistemas são únicos e albergam várias espécies ameaçadas”, lembraram ao jornal Público. Consideraram os eucaliptos uma das maiores ameaças ambientais, pois “substituem a vegetação existente e atuam como combustível para potenciais incêndios florestais futuros”. Um ciclo que, face às alterações climáticas, preveem cada vez mais recorrente em Portugal.

Monchique é um exemplo revelador. Há 17 anos que é considerado Zona de Proteção Especial da rede Natura 2000, com 50 espécies naturais entre as mais valiosas e ameaçadas do continente europeu. Já então o ICNF, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, identificara as principais ameaças: a atividade de florestação intensiva com espécies exóticas, os incêndios florestais e a destruição da vegetação autóctone. Em 2018, Monchique ardeu brutalmente. Quem habita a serra tem visto com incredulidade e revolta o regressar dos eucaliptais industriais sobre as áreas ardidas, e o brotar descontrolado de eucaliptos no pós-fogo, espalhando-se para novos terrenos.

Após os trágicos incêndios de 2017, o governo alterou a famigerada “Lei do Eucalipto Livre”. Hoje, é apenas permitido plantar eucaliptos em áreas de eucaliptal já existentes, ou numa nova área se se arrancar uma área de eucalipto equivalente. Entretanto, nos meses entre o anúncio da nova lei e a sua entrada em vigor, a ganância que mora na sombra dos eucaliptais teve o seu apogeu. Os viveiros industriais, de onde nas últimas décadas saíram mais de um bilião destas árvores, esgotaram para responder à frenética corrida ao eucalipto. Números facultados pelo ICNF revelam a cumplicidade do instituto: as autorizações para alastrar eucalipto a novas áreas tiveram nesse ano de 2017 o seu pico, com mais de 2200 hectares aprovados.

De acordo com o Público, em 2009 o ICNF elaborara uma proposta para classificar o eucalipto como espécie invasora – proposta que terá desaparecido sem explicação.

Procurámos saber a posição do instituto hoje. Sediado na aparentemente impenetrável floresta de betão da Avenida da República, em Lisboa, o ICNF responde apenas por email. E a resposta é taxativa. “Facilmente se infere que o eucalipto não é uma espécie invasora”, lê-se, “porque não é suscetível de ocupar naturalmente o território de uma forma excessiva, provocando uma modificação significativa nos ecossistemas.” O instituto explica: o raio de dispersão das sementes é limitado, o vigor dos eucaliptos que brotam espontaneamente é inferior ao dos obtidos em viveiro, sendo eliminados precocemente e dominados pelos arbustos e árvores pré-existentes.

No mesmo email, defende que a análise dos incêndios não faz “qualquer referência a situações de ‘elevada inflamabilidade’ relacionados com qualquer espécie”. E aprova a reflorestação pós-fogo com novos eucaliptos. “A reflorestação com qualquer espécie florestal não provoca o seu aumento territorial e é fundamental como medida de contenção e minimização dos impactos no solo e biodiversidade após os incêndios florestais.”

O instituto cuja missão é a proteção da nossa floresta não avista qualquer relação entre eucaliptais e incêndios, nem o perigo de esta espécie se tornar dominante. Uma visão que, se não cola propriamente com a das populações ou da academia, cola perfeitamente com a da indústria do papel, de empresas como a Altri e a Navigator. De resto, recorda o ICNF, “a Estratégia Nacional para as Florestas em Portugal reconhece a necessidade de garantir resposta à procura de matérias-primas das principais fileiras silvo-industriais”.

Uma floresta ligada à máquina
Em apenas duas gerações, a floresta em Portugal passou de ser o sustento da vida nas aldeias, com base numa convivência quotidiana e ancestral, a um cobiçado recurso para a indústria. Primeiro com a intervenção autoritária do Estado Novo, e o Fundo de Fomento Florestal nos anos 50, depois com a intervenção autoritária do mercado, marcada pela entrada na CEE e pelo Projeto Florestal Português financiado pelo Banco Mundial, nos anos 80. E o interior do país, enquanto se encheu de monoculturas florestais de pinhal e o eucalipto, esvaziou-se de pessoas.

“Houve um grande crescimento de tudo o que é floresta artificial, por vezes completamente estranha à ecologia de cada lugar”, observa Paulo Pereira. Para o biólogo, o advento da engenharia agronómica trouxe consigo uma certa presunção do ser humano achar que controla todos os processos. “Em qualquer tipo de sistema agrícola intensivo, há aquela ideia de que a única coisa que nos interessa é o que temos a produzir. Tudo o resto é concorrência a eliminar. Isto é como ligar a nossa produção à máquina. Como se tivéssemos um doente de Covid ligado ao respirador. Só com a água a pingar, adubos, tratores, pulverização de inseticidas e herbicidas todo o ano se consegue manter a cultura. Estamos a criar um zombie, que não tem qualquer autonomia fora do cuidado humano.”

domingo, 27 de agosto de 2023

Incêndio em veículos eléctricos - atenção


Em 2020 , a Ford teve que recolher todos os híbridos recarregáveis Kuga vendidos. As baterias do Kuga  aqueciam e pegavam fogo. Não importa se o carro está dirigindo, carregando ou estacionado. A recolha aplicou-se a 28.000 Kuga. Carros elétricos pegando fogo é um grande problema porque a extinção normal não suprime o fogo. O fogo pode reacender depois de muitas horas. A temperatura de combustão em carros elétricos pode subir até +1000 graus. Na Finlândia, alguns departamentos de bombeiros têm de ter contentores de água móveis, onde um carro elétrico em chamas é levantado durante dois dias para arrefecer. Também não deve rebocá-lo para o lago, porque um carro elétrico em chamas é uma verdadeira bomba ecológica.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

As suas roupas estão a pô-lo doente? O mundo opaco dos químicos na moda


A primeira coisa que aconteceu quando Mary, hospedeira-de-bordo da Alaska Airlines, recebeu um novo uniforme sintético de alto desempenho na primavera de 2011 foi uma tosse seca. Então uma erupção floresceu no seu peito. Em seguida, vieram enxaquecas, nevoeiro cerebral, coração acelerado e visão embaçada.

Mary (cujo nome omiti para proteger seu emprego) foi uma das centenas de hospedeiras da Alaska Airlines relatando naquele ano que os uniformes estavam a causar erupções cutâneas com bolhas, pálpebras inchadas com crostas de pus, urticária e, no caso mais grave, problemas respiratórios e reações alérgicas tão graves que um hospedeiro-de-bordo, John, teve que ser retirado do avião e levado pelo pronto-socorro várias vezes.

Testes encomendados pela Alaska Airlines e pelo sindicato dos comissários de bordo revelaram fosfato de tributil, chumbo, arsénico, cobalto, antimónio, corantes dispersos restritos conhecidos por causar reações alérgicas, tolueno, cromo hexavalente e fumarato de dimetila, um antifúngico recentemente banido em a União Europeia. Mas o fabricante de uniformes, Twin Hill, evitou a culpa no tribunal, dizendo que nenhum desses muitos produtos químicos misturados, por conta própria, estava presente em níveis altos o suficiente para causar todas as diferentes reações. A Alaska Airlines anunciou em 2013 que compraria novos uniformes, sem admitir que os uniformes causaram problemas de saúde. Um processo de hospedeiros-de-bordo contra Twin Hill foi arquivado em 2016 por falta de provas.

Mas um estudo de Harvard de 2018 descobriu que, após a introdução dos uniformes , o número de hospedeiros-de-bordo com sensibilidade química múltipla, dor de garganta, tosse, falta de ar, coceira na pele, erupções cutâneas e urticária, coceira nos olhos, perda de voz e visão turva aumentou. tudo mais ou menos em dobro. “Este estudo encontrou uma relação entre queixas de saúde e a introdução de novos uniformes”, concluíram os autores do estudo.

Em 2021, John, que gozava de perfeita saúde antes da introdução dos uniformes, morreu aos 66 anos, após anos a procurar e a não conseguir tratamento para os seus sintomas. A causa oficial de sua morte foi paragem cardiorrespiratória, asma secundária. Mary, que continuou com alguma dificuldade a trabalhar para a Alaska Airlines, foi diagnosticada no ano passado com três doenças autoimunes: doença mista do tecido conjuntivo, lúpus e Sjögren. O parceiro sobrevivente de Mary e John dizem que os uniformes foram os culpados.

Esta história dos hospedeiros-de-bordo doentes repetiu-se várias vezes, já que a American Airlines, a Delta e a Southwest introduziram novos uniformes , que eram de poliéster de cores vivas em vez do antigo modo de espera, lã, e foram revestidos com camadas anti-rugas, resistentes a manchas e tecnologia têxtil retardante de chama.

Mary e John estão longe de estar sozinhos. O impacto da exposição a produtos químicos nocivos em trabalhadores têxteis, muitos dos quais trabalham em países em desenvolvimento, foi bem documentado e inclui problemas respiratórios, erupções cutâneas e até morte, mas eu estava menos ciente de que tantos nos EUA estavam a relatar efeitos nocivos simplesmente de vestir roupas. Em vez disso, como descobri enquanto pesquisava para o meu livro To Dye For: How Toxic Fashion is Making us Sick – and How We Can Fight Back , eles fazem parte de um grupo diverso e díspar de pessoas que acreditam ter sofrido com os efeitos de drogas tóxicas na saúde e moda.

“Os comissários de bordo são o canário na mina de carvão por causa da duração e consistência da sua exposição”, disse a Dra. Irina Mordukhovich, uma das autoras do estudo de Harvard. “Isso não significa que outras pessoas da população não estejam sendo afetadas de alguma forma. Digamos que alguém tenha roupas com os mesmos componentes – eles podem nem perceber; eles simplesmente não usam tanto.

Karly Hiser é enfermeira pediátrica em Grand Rapids, Michigan. O seu filho mais velho era um bebé quando o seu eczema piorou, disse ela. Ela trocou a sua família por sabonetes sem fragrância e produtos de limpeza não tóxicos, e o lambuzou com loção, vaselina e creme esteróide prescrito após longos banhos. “Tudo o que tentamos não ajudou”, disse ela. Feridas abertas desenvolveram-se nas suas mãos e atrás dos joelhos, e elas foram infectadas.

Como qualquer pai com orçamento limitado, Hiser comprava roupas baratas de marcas do mercado de massa, incluindo roupas desportivas de poliéster, mas recusava-se a vestir as roupas. “Ele é um garoto muito doce, bem comportado e discreto. E todas as manhãs para se vestir era um pesadelo, apenas ataques de raiva”, disse ela. O que finalmente tornou o eczema do seu filho administrável, disse ela, foi pegar a máquina de costura de sua avó, comprar tecidos não tóxicos numa loja online e costurar todas as roupas sozinha.

Apesar de seu trabalho como enfermeira, Hiser levou mais de um ano para descobrir o que ela agora acredita firmemente: que as roupas eram o problema. “Sabe, como a rotulagem nutricional para alimentos, eu preferiria que houvesse uma rotulagem melhor para roupas”, disse ela. “Nem todos os produtos químicos são ruins ou prejudiciais, mas eu gostaria de pelo menos estar ciente do que está nas roupas das crianças.”

Jaclyn é ex-gerente de produção de moda na cidade de Nova York. Ela me contou sobre a sua experiência abrindo caixas de amostras da Ásia e da América do Sul todos os dias e sendo atingida no rosto pelo cheiro pungente de produtos químicos sintéticos. Depois de anos tocando nessas roupas recém-feitas, ela desenvolveu erupções cutâneas nas mãos e nos braços. Quando o seu dermatologista a testou para alergias, ela descobriu que era alérgica a vários produtos químicos normalmente usados ​​na produção de moda, incluindo um corante disperso azul usado para tingir poliéster. Infelizmente, não havia nada que ela pudesse fazer para se proteger – todos esses alérgenos são perfeitamente legais para vestir. Mesmo que ela deixe o emprego, ela tem que usar roupas para viver. A sua saúde piorou depois disso, ela acredita,

Produtos químicos em roupas são uma área complexa, opaca e pouco pesquisada. “Não há necessariamente muitas evidências para decidir o que é um limite seguro de um produto químico”, disse Mordukhovich. “Mesmo que cada produto químico esteja abaixo dos limites que seriam considerados um problema de segurança direto, o que não sabemos é se você tem centenas de produtos químicos interagindo juntos, quais efeitos isso tem?”

Para seu doutorado no departamento de toxicologia integrada e saúde ambiental da Duke, a Dra. Kirsten Overdahl passou anos destilando e catalogando corantes dispersos num esforço para provar, em artigo submetido para revisão por pares, que eles são sensibilizadores da pele. A maioria nem mesmo é rotulada ou catalogada na literatura, muito menos testada quanto à segurança. “Eu vejo todos os dias, apenas em nossos dados brutos que os instrumentos produzem, que muitas vezes existem milhares de produtos químicos em uma amostra que não podem ser comparados a um produto químico conhecido. Isso é absolutamente aterrorizante”, disse ela. “Isso não significa que todo produto químico é ruim. Talvez seja inofensivo. Mas se não conseguirmos associar um nome a uma estrutura química, isso significa que os dados não estão disponíveis. Então você não pode dizer que não é seguro, mas também não pode dizer que é seguro.”

Recentemente, pesquisadores e defensores intensificaram a prática de comprar e testar roupas comuns e os resultados são esclarecedores. O Centro de Saúde Ambiental da Califórnia encontrou altos níveis do BPA, produto químico que desregula as hormonas, em meias de poliéster e elastano e sutiãs desportivos de dezenas de grandes marcas, incluindo Nike, Athleta, Hanes, Champion, New Balance e Fruit of the Loom, em até 19 vezes o limite de segurança da Califórnia.

Quando a Canadian Broadcasting Corporation testou 38 peças de roupas infantis das marcas de moda ultrarápidas Zaful, AliExpress e Shein, descobriu que uma em cada cinco tinha níveis elevados de produtos químicos tóxicos, como chumbo, PFAS e ftalatos. Este ano, a marca de calcinhas de época Thinx resolveu um processo decorrente de um teste feito por um professor da Notre Dame mostrando altos níveis de flúor, indicando a presença de PFAS, uma classe altamente tóxica de “produtos químicos eternos” que fornecem repelência à água e manchas.

Alguns dos produtos químicos que os cientistas descobriram nas roupas - como fosfato de tributil , fumarato de dimetila e corantes dispersos - podem ser extremamente tóxicos ou perigosos, causando reações na pele ou asma. Foi comprovado que outros, além de seu uso em roupas, têm ligações com câncer, toxicidade reprodutiva, alergias e sensibilização da pele.

Um estudo de 2022 da professora Miriam Diamond, da Universidade de Toronto, e do professor Graham Peaslee, da Notre Dame, estimou, entretanto, que, em média, as crianças que usam uniformes escolares resistentes a manchas seriam expostas a 1,03 partes por bilião de PFAS por quilograma de seu corpo. peso por dia através da pele. Os PFAS têm sido associados a vários tipos de cancro, anormalidades fetais, distúrbios reprodutivos, obesidade e redução da função do sistema imunológico. Quando se acumula no sangue, os PFAS são considerados tóxicos no nível de partes por bilhão. Mais pesquisas são necessárias sobre a rapidez com que o PFAS derramado da roupa pode ser absorvido pela pele e pela corrente sanguínea, mas os resultados são alarmantes o suficiente para estimular os bombeiros a se revoltarem contra seus equipamentos de proteção carregados com PFAS .

Alguns produtos químicos encontrados em roupas, como BPA, PFAS e ftalatos, foram encontrados em experimentos com prazo determinado e estudos longitudinais para imitar hormônios e interferir em nosso sistema endócrino, causando uma cascata pouco compreendida de efeitos à saúde que variam de flutuações extremas de peso e fadiga para infertilidade e doença crônica.

Uma vez que a exposição cessa, alguns produtos químicos, como o BPA, podem ser metabolizados e eliminados pelo corpo, acabando por se decompor e desaparecer. Outros, como os metais pesados, se acumulam no organismo e no meio ambiente, durando décadas ou, no caso do PFAS, para sempre.

Quando testadas em contextos diferentes da moda, descobriu-se que muitas dessas substâncias, como pesticidas e solventes, danificam o corpo ao longo de anos de exposição crónica, ainda que infinitamente pequena. A presença deles na moda preocupa alguns especialistas. Como Diamond, da Universidade de Toronto, me disse: “Sabemos que os produtos químicos são continuamente perdidos de qualquer material ao longo do tempo. É uma realidade física que os produtos químicos migram para a sua pele a partir de suas roupas, com e sem suor.”

“Vemos as tendências, mas não podemos identificar as tendências para este e aquele produto químico”, disse-me em 2021 o Dr. Åke Bergman, um toxicologista ambiental sueco especializado em desreguladores endócrinos, sobre o aumento de distúrbios reprodutivos e infertilidade. Ele fez parte de uma força-tarefa convocada em 2020 para aconselhar a Suécia sobre a tributação de produtos químicos tóxicos usados ​​na moda. “Há um uso enorme de um grande número de produtos químicos. Sentimos fortemente que existe uma ligação entre as exposições a esses produtos químicos e os efeitos observados”.

Apesar de todas as evidências, no entanto – os resultados dos testes tóxicos que estão se acumulando, os pesquisadores e advogados na América do Norte e na Europa tocando o alarme , os relatos de queimaduras na pele causadas por sapatos, meias e sutiãs no site da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo – este é um assunto extremamente difícil de fazer declarações conclusivas e uma área impopular de pesquisa científica. Não há estudos relacionando as experiências dos funcionários da moda e das companhias aéreas com as experiências da população em geral, nem estudos examinando os efeitos da exposição diária crônica por meio do uso de tecidos com esses contaminantes e acabamentos perigosos próximos à nossa pele. Enquanto isso, a própria complexidade da moda se presta ao ofuscamento e à confusão.

Nos Estados Unidos, não há padrões federais para o que pode ser colocado em roupas e vendido para adultos. A UE proibiu mais de 30 substâncias para uso na moda e rejeitará algumas remessas na fronteira, mas seu programa de testes é pequeno e facilmente contornado.

Além da moda, está claro que muitos americanos estão preocupados com o fato de o governo estar a falhar em seu trabalho de nos proteger de substâncias nocivas. Alimentos orgânicos que prometem ser livres de resíduos de pesticidas são o setor que mais cresce no mercado de alimentos, com vendas atingindo US$ 57,5 ​​biliões em 2021. A beleza vem logo atrás, com milhões de mulheres reformando todos os armários de banheiro na última década, deitando fora o legado marcas com ingredientes tóxicos como ftalatos e parabenos. Influenciadores, blogueiros e marcas de beleza alimentaram esse medo e desconfiança para angariar engajamento e vender produtos – enquanto muitas vezes vão longe demais ao demonizar substâncias perfeitamente seguras.

No entanto, a moda, uma indústria global de US$ 2,5 triliões, de alguma forma escapou completamente do mesmo escrutínio.

Uma razão é que nem os consumidores nem os profissionais sabem quais, ou mesmo quantas, substâncias químicas são usadas para fabricar, processar, tecer, tingir, finalizar e montar roupas e acessórios.

“Está ficando mais difícil evitar esses produtos químicos”, diz a Dra. Elizabeth Seymour, do Centro de Saúde Ambiental de Dallas, sobre aditivos como solventes e metais pesados. “Existem vários produtos químicos que são colocados em tudo. E suas roupas estão incluídas nisso.” Mas enquanto produtos de beleza, limpeza e alimentos embalados vêm com uma lista de ingredientes, a moda não, embora os testes revelem que ele possui alguns dos perfis químicos mais complicados e multicamadas de qualquer produto, chegando a 50 produtos químicos ou mais.

Depois de pesquisar isso durante dois anos, agora tenho mais cuidado com minhas próprias roupas. Evito marcas de moda baratas, falsificadas ou ultrarrápidas. Eu compro a empresas em quem confio, que se preocupam com a sua reputação e têm um programa de gestão dos produtos químicos ou rótulos como bluesign, Oeko-Tex ou GOTS. Escolho fibras naturais sempre que possível e evito promessas extravagantes como repelência a manchas, acabamentos antiodores, tecidos fáceis de cuidar e antirrugas. Eu lavo qualquer roupa nova antes de usá-la, com sabão em pó não tóxico e sem perfume. E eu confio no meu nariz – se algo cheira mal, eu devolvo.

Mas o que eu realmente quero ver é a ação dos nossos governos. Alguns estados têm requisitos de rotulagem ou proibições futuras de PFAS em roupas, mas o governo federal não regulamenta quais produtos químicos podem ser colocados em roupas e vendidos a consumidores adultos. Precisamos de uma revisão total de como gerenciamos produtos químicos em produtos de consumo neste país.

Eu gostaria de ver o governo federal alcançar o bom trabalho que está sendo feito pela União Européia – e ir além. Deve implementar impostos e tarifas sobre produtos químicos não testados para financiar pesquisas desesperadamente necessárias, exigir que as empresas químicas registrem todos os produtos químicos em uso e compartilhem qualquer pesquisa associada, banir certas classes de produtos químicos para uso na moda e expandir a capacidade da Consumer Product Safety Commission de testar e lembre-se da moda tóxica.

Estas podem parecer grandes perguntas. Então, talvez possamos começar simples. Vamos exigir que a moda venha com uma lista de ingredientes – uma lista de ingredientes realmente completa. Porque se os consumidores realmente soubessem o que há em suas roupas, bem, eles poderiam não querer usá-las.