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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A cidade, esse grande negócio!

Um quarteirão camarário (público) vendido a Mário Ferreira por Eduardo Vitor Rodrigues

Sobretudo depois da crise financeira de 2008, Porto e Lisboa (e não só), mais do que cidades onde se fazem negócios, passaram a ser elas mesmas um negócio.

O espaço público foi-nos roubado, para esplanadas ou filas de turistas, e há uma crescente importância dos investimentos de fundos imobiliários (isentos de IRC) e de empresas e indivíduos estrangeiros (alguns com vistos dourados ou isenção de IRS) a comprar e alugar casas a preços cada vez maiores. Ao mesmo tempo, o nosso dinheiro (europeu e nacional) ajuda à abertura de hotéis (em nome da criação de emprego!) em vez de casas e o rendimento do alojamento de curta duração (AL), sem as regras da Alemanha e de outros países, leva a uma das maiores intensidades de AirBnB do mundo. Por isso, o valor médio do m2 de construção é hoje cerca de 160% superior ao de 2010, com grande parte dos 60.000 devolutos de 2021 (com IMI ridículo) no Porto e em Lisboa vazios, a valorizar.

O negócio vai bem para quem anda no imobiliário ou o herdou. Mas é de lamentar que quem lidera as cidades e está no governo central se esteja a “esquecer” que há quem tenha um salário mínimo de €920, quando o valor médio de arrendamento de um T2 é de €1380 no Porto e de €1880 em Lisboa (e não é muito menor nos concelhos envolventes), nem dê importância aos que precisam de optar entre comprar remédios, colocar comida na mesa ou deixar de pagar o aluguer de uma casa, ou aos que vivem com os pais há demasiado tempo.

A cidade tem de ser o lugar de todos!

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Como os Grandes Arquitetos Portugueses Moldaram a Crise Habitacional


Da estética à gentrificação: como a arquitetura de autor acelerou a Crise da Habitação em Portugal

Fiz uma análise quais são os arquitetos portugueses mais requisitados em Portugal e em que cidades têm obra, o custo elevado das casas nas nossas cidades e a conexão com a crise habitacional. Eis os resultados (por ordem decrescente de impacto)
1. Álvaro Siza Vieira
O trabalho de Álvaro Siza Vieira encontra-se presente em Leça da Palmeira (Matosinhos) com a Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova, no Porto com o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Faculdade de Arquitectura da U.Porto (FAUP), em Lisboa com a Reconstrução do Chiado e o Pavilhão de Portugal, em Évora com o Bairro da Malagueira, no Marco de Canaveses com a Igreja de Santa Maria, em Viana do Castelo com a Biblioteca Municipal e em Arouca com o Edifício da Câmara Municipal.
2. Eduardo Souto de Moura
As intervenções de Eduardo Souto de Moura situam-se em Braga com o Estádio Municipal de Braga (Estádio da Pedreira) e o Mercado Cultural de Carandá, em Cascais com a Casa das Histórias Paula Rego, no Porto com as estações e linhas do Metro do Porto e a Casa das Artes, em Viana do Castelo com o Centro Cultural de Viana do Castelo, em Cantanhede com o Centro de Inovação e Tecnologias de Informação (ABIPLUG) e em Viseu com a Reconversão do Convento de São Francisco em Pousada.
3. Francisco e Manuel Aires Mateus (Atelier Aires Mateus)
A produção do atelier dos irmãos Aires Mateus distribui-se por Lisboa com a Sede da EDP na Av. 24 de Julho e a Reabilitação do Colégio da Trindade, por Alcácer do Sal com o Lar de Idosos de Alcácer do Sal, por Monsaraz (Reguengos de Monsaraz) com a Casa na Terra, por Leiria com a Casa em Leiria, por Sines com o Centro de Artes de Sines e por Ílhavo com a Reabilitação e ampliação do Museu Marítimo.
4. João Luís Carrilho da Graça
A obra de João Luís Carrilho da Graça destaca-se em Lisboa com o Terminal de Cruzeiros de Lisboa, o Pavilhão do Conhecimento dos Mares e a Musealização da Praça Nova do Castelo de São Jorge, em Évora com a Entrada do Templo Romano e recuperação do centro histórico, no Crato com a adaptação do Mosteiro da Flor da Rosa a Pousada, em Portalegre com a Escola Superior de Comunicação e Design e em Coimbra com a Ponte Pedonal Pedro e Inês.
5. Gonçalo Byrne
O percurso de Gonçalo Byrne inclui intervenções em Lisboa com a Sede da Ordem dos Arquitectos, a Reabilitação do Palácio do Muge e o Teatro Tália, em Estoi (Faro) com a Reconversão do Palácio de Estoi em Pousada de Portugal, em Coimbra com a Reabilitação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e em Viseu com as intervenções no centro histórico e espaço público.
6. Spaceworkers (Henrique Marques e Rui Dinis)
O trabalho do gabinete Spaceworkers desenvolve-se em Penafiel com a Casa de Sambade e o Centro de Interpretação do Românico, estendendo-se também a Paredes e Lousada.
7. João Mendes Ribeiro
As obras de João Mendes Ribeiro encontram-se em Coimbra com a Casa da Escrita e o Teatro Académico de Gil Vicente, e na Ribeira Grande (Açores) com o Centro de Artes Arquipélago.
8. AND-RE (Bruno André e Francisco Ré)
Os projetos do estúdio AND-RE situam-se em Águeda com o Centro de Artes de Águeda, expandindo a sua atuação às cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia.
9. Luís Pedro Silva
A intervenção de Luís Pedro Silva localiza-se em Matosinhos / Porto com o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões.
10. Diogo Aguiar Studio
O trabalho do Diogo Aguiar Studio marca presença no Porto com o Pavilhão do Museu de Serralves, bem como em Guimarães e Lisboa.
ANÁLISE e CONCLUSÃO
A proliferação de grandes obras de autor em Portugal revela o lado mais amargo e paradoxal da transformação urbana das últimas décadas. Quando observamos o mapa das intervenções assinadas pelos arquitetos mais celebrados do país - de Lisboa ao Porto, passando por Évora, Braga, Viseu ou pelas faixas costeiras -, torna-se evidente que o prestígio estético e a requalificação formal caminharam lado a lado com a proliferação da gentrificação, com a escalada da especulação imobiliária e com o agudizar de uma crise habitacional sem precedentes.
Em cidades como Lisboa e o Porto, as intervenções de grande escala no património e no centro histórico funcionaram, na prática, como o grande íman do capital imobiliário internacional. Onde Álvaro Siza Vieira desenhou a reconstrução do Chiado ou a dupla Aires Mateus ergueu grandes sedes corporativas e edifícios de linguagem minimalista, o valor do solo disparou a níveis incomportáveis para os salários nacionais. A "boa arquitetura" tornou-se uma chancela de valorização especulativa: os centros urbanos deixaram de ser lugares de vida comunitária para se transformarem em montras de luxo, condomínios exclusivos e fundos de investimento imobiliário encapuçados em reabilitação de charme.
Paralelamente, a proliferação de grandes infraestruturas vocacionadas para a atração de fluxos massivos - como os terminais de cruzeiros de Lisboa, por Carrilho da Graça, e de Leixões, por Luís Pedro Silva - atuou como um acelerador da turistificação. Bairros inteiros viram a sua população residente ser gradualmente substituída por Alojamento Local e o comércio tradicional por serviços direcionados ao consumo efémero. O custo de vida nestas zonas escalou rapidamente, tornando o simples ato de viver e consumir na própria cidade num privilégio inacessível para as famílias locais.
Mesmo fora das duas grandes metrópoles, a reconversão de edifícios históricos em hotéis e pousadas de luxo - seja pelas mãos de Eduardo Souto de Moura em Viseu, de Gonçalo Byrne em Faro ou de Carrilho da Graça no Crato - exemplifica a subtração de património público ao usufruto da comunidade. Espaços de memória e identidade coletiva foram devolvidos à sociedade na forma de enclaves privados de acesso reservado, onde o valor cultural é capitalizado em benefício da indústria turística de alto padrão.
O resultado desta dinâmica é a rutura moral que hoje empurra milhares de jovens para as ruas em protesto. A arquitetura portuguesa mais requisitada acabou por desenhar a moldura estética de um modelo urbano excluidor. Construiu-se uma cidade de fachada, cenográfica e altamente rentável para o turismo e para os fundos de investimento, mas profundamente hostil, inflacionada e inabitável para a população que dela necessita para construir a sua vida quotidiana.
Foto: Terminal de Cruzeiros de Lisboa - Carrilho da Graça

sábado, 24 de outubro de 2026

Ruas com escala humana: O abismo entre as cidades de cá e as de Amsterdão


Realidade Holandesa
Estive neste Verão em Amsterdão, a capital constitucional dos Países Baixos. Guardo em mim a distância a que estamos desse País. Cá não se constroem ruas assim.
Não me refiro aos paralelepípedos. Nem à arquitetura secular holandesa.
Refiro-me à escala. À sensação.
À ideia de que uma criança de 2 anos pode simplesmente andar de bicicleta de equilíbrio no meio da rua, em pé de igualdade com qualquer outra pessoa.
E convém lembrar que efes saem do berço para a bicicleta! Tb é de referir que andar de bicicleta na Holanda é mesmo seguro. Que levar as crianças à escola num atrelado da bicicleta na Holanda não constitui uma irresponsabilidade como acontece em Portugal!

Em Portugal estamos a anos-luz
Em Portugal não é impossível, mas na grande maioria das cidades e vilas portuguesas ainda estamos muito longe dessa realidade, devido a fatores estruturais, culturais e de planeamento urbano. A razão pela qual cenas como a da imagem parecem tão distantes em Portugal assenta em três grandes pilares.

O primeiro pilar prende-se com um desenho urbano profundamente centrado no automóvel. Durante décadas, as cidades portuguesas foram projetadas e adaptadas a pensar prioritariamente nos carros, promovendo faixas de rodagem largas, estacionamento sistemático em cima de passeios e travessias pensadas sobretudo para garantir a fluidez do trânsito motorizado. Como consequência, as ciclovias surgem frequentemente em troços isolados ou vocacionados para o lazer, em zonas costeiras ou parques, raramente constituindo uma rede integrada de transporte para as deslocações do dia a dia. Além disso, falta a consolidação da cultura da "rua partilhada" — o conceito holandês de woonerf ou zona de coexistência -, que garante por lei prioridade absoluta aos peões e às crianças, obrigando os veículos a circular a passo de homem. Em Portugal, embora essa sinalização exista na lei, a sua aplicação é escassa e o seu cumprimento raramente é respeitado.

O segundo pilar envolve a desmistificação do fator topográfico. É frequente ouvir-se o argumento de que "Portugal tem muitas colinas", em contraste com a geografia plana da Holanda. Embora isso seja verdade para áreas de cidades como Lisboa, Coimbra ou Porto, muitas outras zonas e cidades portuguesas - como Aveiro, Figueira da Foz, Évora ou vastas áreas metropolitanas em zonas de vale e planalto - são maioritariamente planas e reúnem todas as condições geográficas necessárias. Somado a isto, a rápida massificação das bicicletas elétricas veio demonstrar que o relevo deixou de ser uma barreira insuperável para a mobilidade suave.

Por fim, o terceiro pilar reside na mudança cultural e na vontade política. Hoje em dia, nenhum pai ou mãe em Portugal sente a segurança necessária para deixar uma criança de dois anos circular numa bicicleta de equilíbrio no meio da rua, dada a ausência de confiança no comportamento dos condutores e a falta de proteção física do próprio espaço urbano. Contudo, assiste-se a uma evolução MUITO lenta, mas em curso. Pequenas amostras de mudança começam a surgir por todo o país, visíveis na pedonalização de centros históricos, no teste de superblocos, na implementação de projetos de ruas escolares e no crescimento de redes transitáveis em concelhos como Matosinhos, Aveiro, Lisboa ou Torres Vedras.

Saber mais:

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Como o tordo-músico ajuda no controlo de caracóis sem pesticidas

Maravilha! Consegui fotografar mais um tordo-músico e desta vez em plena ação!

Acordo habitualmente muito cedo, como as aves . Ouvi o seu canto e avistei-o. Esperei um pouco a observá-lo, mesmo aqui, no Ecocaminho da Maia, e fiz o click no momento exato em que ele fazia o seu repasto matinal!

Sendo uma ave omnívora, esta espécie é uma verdadeira mestra no controlo de caracóis, usando pedras como autênticas bigornas para partir as conchas com uma eficácia incrível.

É verdade que os caracóis costumam ser os grandes tramados das nossas hortas e das couves, mas nada contra eles, atenção! Tudo faz parte de um equilíbrio ecossistémico fascinante, livre de pesticidas. A verdade é que os caracóis também desempenham um papel essencial na natureza. Ao alimentarem-se de matéria em decomposição, enriquecem o solo e ajudam a dispersar sementes. Além disso, a sua concha é uma fonte vital de cálcio para as próprias aves produzirem as cascas dos seus ovos, sem esquecer que servem de alimento a ouriços, anfíbios e até larvas de pirilampo.

Quando os predadores naturais têm espaço para agir, aquilo que parecia uma praga transforma-se simplesmente na vida a fluir em harmonia. Dá mesmo que pensar... Mais uma vez, fica provada a enorme importância de termos e preservarmos mais espaços verdes para todos, como hortas urbanas, parques urbanos e corredores ecológicos! 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

domingo, 21 de junho de 2026

Na China, algumas mulheres pagam 100 euros para passar algumas horas com um desconhecido


E se a companhia se tornasse apenas mais um serviço?
Na China, um conceito surpreendente está a ganhar terreno: contratar companhia humana. Por algumas horas ou um dia inteiro, algumas pessoas (geralmente mulheres) optam por pagar a um desconhecido para partilhar uma atividade, conversar ou simplesmente evitar a solidão. Este fenómeno diz muito sobre a evolução dos estilos de vida urbanos.

Quando a solidão cria novos serviços 
Nas principais cidades chinesas, a solidão tornou-se uma realidade cada vez mais visível. Entre carreiras exigentes, mobilidade profissional e a distância da família, muitos moradores vivenciam a falta de ligação social no seu quotidiano. Diante desta situação, surgiram novas plataformas com uma promessa simples: ligar pessoas que desejam partilhar um momento de convívio, sem qualquer compromisso. O objetivo não é criar um romance, mas sim oferecer companhia humana por algumas horas.

Uma plataforma que oferece a opção de "alugar" a companhia 
Um dos serviços mais conhecidos é o Zuwobo, nome que significa literalmente "aluga-me" em mandarim. O seu funcionamento é tão simples quanto original: o utilizador escolhe uma atividade e a plataforma encontra um acompanhante disponível. O conceito agrada a quem quer aproveitar um momento agradável sem precisar de organizar uma saída com o grupo de amigos de sempre. É uma fórmula que prioriza a simplicidade e a flexibilidade.

Caminhada, restaurante ou jogos de vídeo: há opções para todos os gostos 
Um dos motivos para o sucesso destas plataformas reside na variedade de atividades disponibilizadas. Alguns optam por um passeio pela cidade, outros por um trilho, uma refeição num restaurante ou até mesmo uma sessão de jogos de vídeo em casa. A ideia é adaptar-se aos desejos de cada um e oferecer uma presença que acompanhe diferentes momentos do quotidiano. Esta abordagem transforma a companhia num serviço personalizável.

Até 300 euros por dia 
Os preços variam dependendo da duração e do tipo de atividade escolhida. Para partilhar um café ou uma refeição, os valores geralmente variam entre 7 e 20 euros. No entanto, quando se trata de companhia durante um dia inteiro, a conta aumenta rapidamente. Alguns serviços podem ultrapassar os 100 euros e chegar a mais de 300 euros, dependendo dos pedidos. Um gasto único que alguns consideram "o preço de uma experiência social agradável".

Um sucesso particular durante o Ano Novo Chinês 
Todos os anos, o Ano Novo Chinês lembra-nos a importância dos laços familiares e dos reencontros. Fora aqueles que moram longe dos seus entes queridos ou sozinhos, este período pode, por vezes, exacerbar os sentimentos de isolamento. É por isso que as plataformas deste género costumam registar um aumento na procura durante as festividades. Para alguns utilizadores, partilhar estes momentos com alguém torna-se uma forma de vivenciar a época festiva num ambiente mais acolhedor.

Uma tendência que levanta questões 
O desenvolvimento destes serviços reflete as profundas transformações na sociedade chinesa. Por um lado, oferecem uma resposta concreta à necessidade de ligação humana e permitem que algumas pessoas se libertem do isolamento por algumas horas. Por outro lado, levantam uma questão fundamental: o que significa, numa sociedade, a presença de outras pessoas poder ser reservada como qualquer outro serviço? Entre uma solução prática e um símbolo da transformação dos laços sociais, o debate permanece em aberto.

Uma coisa é certa: o sucesso destas plataformas demonstra que a necessidade de partilhar, trocar ideias e estar presente continua a ser mais importante do que nunca.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Há papel que nunca deve colocar no ecoponto azul e quase toda a gente erra


Reciclar papel parece simples: jornais, caixas, folhas antigas… tudo para o ecoponto azul. Mas há um erro muito comum que continua a acontecer em milhares de casas e que pode contaminar todo o processo de reciclagem.

A verdade é que nem todo o papel é reciclável. E alguns dos objetos que usamos diariamente são precisamente aqueles que nunca deveriam ir para o contentor azul.

O maior “impostor” da reciclagem? Os talões de compras!
Os recibos do multibanco, talões de supermercado e faturas impressas parecem papel normal, mas não são.

Grande parte é feita de papel térmico, um material com componentes químicos que dificultam a reciclagem e podem contaminar outras fibras de papel reciclável. Este tipo de papel deve ir para o lixo indiferenciado.

É um detalhe que pouca gente conhece e um dos erros mais frequentes na separação de resíduos.

Guardanapos e papel de cozinha também não entram
Outro hábito comum: colocar guardanapos usados ou papel de cozinha no ecoponto azul. Mas quando o papel está sujo com gordura, comida ou produtos de limpeza, perde a capacidade de reciclagem.
Copos de papel revestido/impermeabilizado que utilizamos, por exemplo, para tomar café. Pelas características do seu revestimento (seja por plástico, verniz ou outro material impermeabilizante) o seu encaminhamento para reciclagem no fluxo papel e cartão é inviabilizado

O mesmo acontece com:
  1. caixas de pizza com gordura
  2. lenços de papel usados
  3. pratos e copos de papel sujos
  4. papel vegetal ou plastificado
  5. papel plastificado
  6. papel autocolante
  7. papel de alumínio
  8. papel de lustro
  9. Sacos de cimento;
  10. embalagens de produtos químicos
  11. toalhetes e fraldas. [informação aqui]
O truque simples que ajuda a não errar
Há uma regra rápida que os especialistas usam: se o papel estiver demasiado sujo, engordurado, plastificado ou brilhante, provavelmente não deve ir para o azul. 
Observar bem o rótulo de reciclagem das embalagens: muitas indicam o destino final (ecoponto amarelo, p.ex.)
Já revistas, caixas de cereais, folhas, envelopes e jornais continuam a ser recicláveis, desde que limpos e secos.

Porque é que isto importa?
Quando materiais errados entram na reciclagem do papel, podem comprometer lotes inteiros e dificultar o reaproveitamento das fibras. Ou seja, um pequeno erro doméstico pode reduzir a eficácia de todo o processo.

Separar corretamente continua a ser um dos gestos mais simples para reduzir desperdício mas, afinal, reciclar bem é tão importante quanto reciclar muito.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

sábado, 25 de abril de 2026

Cidade portuguesa entra no top das mais felizes do mundo


A Maia é a cidade portuguesa mais bem posicionada no Happy City Index 2026. Ocupa o 69.º lugar a nível mundial, com 6.273 pontos, destacando-se entre os municípios nacionais.

A capital dinamarquesa, Copenhaga, lidera o ranking, que resulta de uma avaliação feita a centenas de cidades em todo o mundo.

Como é avaliada a qualidade de vida no ranking
O índice, desenvolvido pelo Institute for Quality of Life, avalia onde se vive melhor ao analisar fatores como:
  1. a governação
  2. o ambiente
  3. a economia
  4. a saúde
  5. a sustentabilidade
  6. o envolvimento dos cidadãos
A edição de 2026 começou com a análise de 3.400 cidades em todo o mundo, sendo depois reduzida a uma seleção mais detalhada de mil, até chegar à lista final de 251 cidades.

O estudo envolveu centenas de investigadores e teve em conta milhares de registos validados.

As dez cidades mais felizes do mundo
Os investigadores destacam as cidades mais bem classificadas a nível mundial por pontuação:
1. Copenhaga, Dinamarca
2. Helsínquia, Finlândia
3. Genebra, Suiça
4. Uppsala, Suécia
5. Tóquio, Japão
6. Trondheim, Noruega
7. Berna, Suíça
8. Malmö, Suécia
9. Munique, Alemanha
10. Aarhus, Dinamarca

Cidades portuguesas em destaque
A posição da cidade da Maia ganha ainda mais relevância por surgir entre as 70 cidades mais bem classificadas do mundo, à frente de destinos internacionais como Bordéus e Adelaide. Este reconhecimento surge no mesmo ano em que a cidade foi eleita Capital Europeia do Voluntariado.

Portugal conta com várias cidades neste ranking. Depois da Maia, surgem Matosinhos (111.º lugar), Odivelas (114.º), Almada (124.º), Lisboa (159.º), Braga (166.º), Gondomar (199.º) e Funchal (225.º).

O estudo confirma a presença de cidades portuguesas na lista, mas destaca a Maia como o principal exemplo nacional em termos de qualidade de vida.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Actors - CTRL


Am I getting better?
Am I just getting better at acting?
I think you've got me figured out
With your tongue inside my mouth
I'm an asshole

Am I feeling better?
Am I just getting better at drinking?
And kissing every girl I meet
In hopes to build my self-esteem
I'm a taker

Well, it's not the right time
And it's not a good idea
Well, maybe I'm pretty biased
But that doesn't seem fair to me

But I lust after her and she's in love with me
Well, this is fucking out of control, man, seriously
Do you really think you'll be better off alone?
Yeah, you're the one to talk, never knowing what you want
And it just takes a toll on my heart, girl, honestly
For just this once, could you be straight up with me?

And if you knew me half as well as you think you do
I wouldn't waste all my time convincing you:
"I'm not who you think I am."
I probably don't give a damn about your band, man
I just hope you understand
That I'm rotten to the core
I'm a selfish attention whore
Don't expect optimism
I left it at the door

And there's a thousand nights like tonight
You look me in the eyes
It eats away at me
I'm running out of air to breathe
And you, you're pretty good for me
I'm all that you want and need
But I won't kiss you unless someone else is ignoring me
It's fucked up

Em "CTRL", a banda funde a agressividade rítmica com uma elegância eletrónica, criando o que muitos críticos chamam de "Nightdrive Music" — música ideal para conduzir à noite numa cidade iluminada por néons, com uma estética muito próxima do filme Drive.

A canção "CTRL" dos ACTORS explora temas de dominação, perda de agência e a natureza viciante de relações de poder, tudo isto envolto numa estética de ficção científica distópica.

1. A Luta pelo Controlo (Interpessoal e Tecnológico)
O título, uma abreviatura de "Control", funciona como um duplo sentido. Por um lado, refere-se ao controlo emocional que uma pessoa exerce sobre outra numa relação tóxica ou obsessiva. Por outro, alude ao controlo tecnológico (como a tecla "Ctrl" do teclado), sugerindo uma vida onde os nossos impulsos são programados ou manipulados por forças externas.

2. O Ciclo do Vício e da Submissão
A letra sugere uma dinâmica de "dar e tirar". Frases como "I give you what you want / I take it all away" evocam a ideia de um manipulador que mantém a outra pessoa dependente através de reforço intermitente. Há uma sensação de inevitabilidade: o narrador (ou o sujeito da canção) parece estar preso num ciclo onde o prazer e a dor são indistinguíveis.

3. Atmosfera "Cyberpunk" e Isolamento
O vocalista Jason Corbett utiliza uma entrega vocal fria e distante, o que reforça a ideia de alienação moderna. A canção descreve um estado de entorpecimento onde o indivíduo abdica da sua vontade própria em troca de uma segurança ilusória ou de uma "ligação" artificial. É a banda sonora de alguém que se sente como um passageiro na sua própria vida, sendo "conduzido" (daí a estética nightdrive) por desejos que já não controla.

4. Niilismo Dançável
Como é comum no Darkwave moderno, o significado profundo é muitas vezes um contraste: a música é vibrante e feita para a pista de dança, mas a mensagem é de aprisionamento. É como se a banda estivesse a dizer que, mesmo quando estamos a dançar e a sentir-nos "livres", estamos a ser controlados pelo ritmo e pelas expectativas sociais.

Resumo da mensagem: "CTRL" é um hino sobre a fragilidade da autonomia humana face à obsessão e à manipulação, seja ela vinda de um amante ou da própria estrutura da sociedade moderna.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Reiniciar

Ekaterina Ermilkina - "The Beginning" (O Início) foi pintada em 2023

Nem de propósito. Reiniciar. O início deste mês colocou à prova toda a minha resistência. Perder um amigo, uma tia e uma irmã num espaço de apenas sete dias é uma dor que não se explica. Decidi que a melhor forma de os honrar não é ficar estagnado no luto, mas sim viver com a intensidade que eles gostariam de ver em mim. Um obrigado sincero a todos pelo carinho que recebi.

Ekaterina Ermilkina é uma artista contemporânea cuja trajetória reflete uma fusão entre o rigor técnico europeu e a energia urbana americana. Nascida em 1975 em Saratov, na Rússia, iniciou o seu percurso sob a influência cultural da sua terra natal. A sua base académica é sólida, tendo-se licenciado na Academia Estatal de Arte e Indústria de São Petersburgo, uma instituição de prestígio onde dominou a forma e a perspetiva clássica. Esta formação foi fundamental para a sua evolução posterior rumo a uma linguagem mais expressiva.

Em 2005, a artista mudou-se para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Jersey, onde vive e mantém o seu atelier atualmente. Esta mudança foi decisiva, pois a proximidade com a arquitetura de Manhattan serviu como o principal catalisador para a maturidade do seu trabalho. O seu estilo é frequentemente descrito como uma intersecção entre o Impressionismo Moderno e o Expressionismo Abstrato.

A temática central da sua obra foca-se na metrópole, capturando o ritmo e a densidade das grandes cidades, especialmente os arranha-céus de Nova Iorque, através de interpretações emocionais da luz e do movimento. Visualmente, as suas composições possuem uma "pulsação" característica, onde as janelas e luzes urbanas se transformam em mosaicos vibrantes.

Tecnicamente, Ermilkina distingue-se pelo uso exclusivo da espátula em detrimento dos pincéis, aplicando a técnica de impasto com camadas generosas de tinta a óleo para criar superfícies tridimensionais. Ela utiliza a ponta da espátula para criar um efeito de pontilhismo, decompondo a luz em blocos de cor que formam um mosaico visual. Esta técnica, aliada a uma paleta vibrante e audaz, permite-lhe simular com mestria os reflexos solares e o brilho artificial das luzes citadinas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A graciosidade efémera nas nossas cidades


Foto do meu amigo Nuno Pimenta

Grace amidst the grind

"One gaze follows the path ahead,
Tracing the lines where the sunlight is shed.
The other lingers, a quiet surprise,
With the world’s hidden mischief caught in her eyes.

Between the stone walls and the crowd's muffled roar,
Is a secret shared, then a moment more.
Amidst the grind, two women remain in a soft, steady light
The heart of the city, looking back at you. " 
João Soares, 13.02.206

Sobre os efeitos negativos da gentrificação aqui e aqui

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Relatório aponta aumento da mortalidade pelo calor extremo na Galiza e norte de Portugal


Cidades da região espanhola da Galiza e do norte de Portugal têm registado um excesso de mortalidade, em alguns casos até 60%, como consequência do calor extremo, segundo um relatório do Eixo Atlântico divulgado na quarta-feira.

Esta investigação, apresentada pela organização em Pontevedra, revela que cidades como o Porto, Viana do Castelo, Ourense, Braga, Guimarães e Lugo registaram entre 50% e 60% de excesso de mortalidade durante períodos de altas temperaturas.

O estudo, liderado por Francesc Cárdenas, diretor da Agência de Ecologia Urbana do Eixo Atlântico, propõe que se preste “especial atenção” à conceção dos espaços públicos e à integração da saúde em todos os processos de planeamento urbano e territorial.

Cárdenas indicou que é necessário promover uma “cultura do calor”, que inclua a adaptação das cidades, a criação de refúgios climáticos e a elaboração de planos de ação para as ondas de calor, de forma a proteger os cidadãos.

Argumentou ainda que “padrões mais rigorosos” para a qualidade do ar e o controlo do ruído devem ser implementados para melhorar a saúde ambiental e humana nas cidades.

“Precisamos de uma mudança cultural”, enfatizou o diretor do relatório, que indicou que 80% dos fatores que influenciam a saúde humana dependem do planeamento urbano.

O documento salienta que o limite crítico de 1,5 graus Celsius de aquecimento global já foi ultrapassado em 2024, o que exige ações com “microcirurgia urbana”.

Neste sentido, o relatório inclui também boas práticas como os corredores ecológicos de A Coruña, as rotas escolares seguras e as zonas de baixas emissões de Pontevedra, a via verde de Vigo e as rotas termais de Ourense.

Vázquez Mao insistiu que as câmaras municipais devem decidir “como e onde construir” para garantir que as novas áreas residenciais não se tornam blocos habitacionais sem vida e insalubres.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Adrian Borland - We are the night


We were born in the barren day
Grew in the city like wild flowers
Between the concrete and through the clay
We saw a love and made it ours

You take me to my dreams
We leave the world behind
It's never understood
How we are the night

We're the life they'll never choose
We're the road they must refuse
We're the colours they'll never see

We're the moon and the stars
The moon and the stars
We are the night


"We Are the Night" é a 10ª faixa do quarto álbum solo de Adrian Borland, intitulado Cinematic (1996).

O Significado da Canção: Identidade e Refúgio
O título e a letra sugerem uma celebração (ou um lamento) sobre aqueles que não se encaixam na luz do dia, nas regras sociais ou na "normalidade" produtiva.

1. Solidariedade na Solidão
Quando Borland canta "Nós somos a noite", ele está criando uma conexão com os marginalizados, os sonhadores e os melancólicos. É uma declaração de pertencimento para quem se sente deslocado sob o sol. A noite não é vista como algo assustador, mas como um manto protetor.

2. A Luta Interna
É impossível separar a obra de Adrian Borland de sua saúde mental. Ele sofria de transtorno esquizoafetivo, e muitas de suas letras refletem a oscilação entre a clareza e a escuridão. "We Are the Night" pode ser interpretada como a aceitação de que a sombra faz parte da sua identidade.

3. Fuga da Realidade
A letra evoca a ideia de que a noite apaga as distinções e as pressões do mundo real. No escuro, as falhas são menos visíveis e a imaginação tem mais espaço para respirar. É um hino ao romantismo sombrio.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.