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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Lacunas nos estudos sobre alterações climáticas sugerem que os seus impactos são ainda maiores do que se julgava

                             

Um grupo de cientistas que utilizou inteligência artificial para analisar mais de 100 mil estudos sobre o clima descobriu que existe uma desiguladade gigantesca na investigação - as zonas mais pobres do mundo não são tão estudadas como as mais ricas. Os efeitos das alterações climáticas estão a afetar muito mais gente do que se julgava, concluem

O objetivo era perceber quantas pessoas no mundo estão já a sofrer com o impacto das alterações climáticas. Surpreendentemente, um grupo de cientistas que utilizou inteligência artificial para analisar mais de 100 mil estudos sobre o clima descobriu, também, que existe uma desiguladade gigantesca no que diz respeito a esta área.

O problema, revelaram os cientistas num estudo publicado esta segunda-feira, é que a grande maioria das investigações relacionadas com as alterações climáticas são realizadas nas áreas mais desenvolvidas do planeta, principamente nos países mais ricos da Europa e da América do Norte, deixando zonas menos favorecidas fora da equação.

No meio de tantos estudos e investigações realizados nesta área, é difícil para os especialistas analisarem o real impacto das alterações climáticas e, por isso, a equipa utilizou aprendizagem automática para tentar perceber que zonas do mundo é que não tinham sido abrangidas por estes estudos. À CNN, Max Callaghan, principal autor do estudo e investigador no Mercator Research Institute on Global Commons and Climate Change, deu a resposta: “A maioria delas.”

“O que descobrimos é que as evidências são distribuídas de forma desigual entre os países”, explicou Callaghan. “E isso é muito importante porque, muitas vezes, quando tentamos fazer um mapa ou descobrir onde estão a acontecer os impactos das mudanças climáticas, muitas vezes encontramos poucos trabalhos científicos em países menos desenvolvidos”, acrescentou – sublinhando que “a ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Ao compilarem e analisarem os resultados que obtiveram, os autores do estudo, publicado na revista Nature Climate Change, deram conta de que 85% da população mundial já está a sentir os efeitos das alterações climáticas, mas referiram que a escassez de evidências científicas nos países mais pobres, que são as zonas menos estudadas, pode limitar as mudanças que poderiam ser propostas ou implementadas aí mesmo.

Limitações do estudo

De acordo com os autores do estudo, esta lacuna nas investigações em países mais pobres faz com que não se perceba se nessas áreas as alterações climáticas têm ou não impacto, mas os próprios autores e investigadores não envolvidos acreditam que a percentagem de população que está a sentir os seus efeitos possa ser ainda superior aos 85%. “O estudo concentrou-se em mudanças na temperatura média e precipitação, e não em extremos [de temperatura], mas sabemos que os extremos de calor estão a mudar mais rapidamente do que as temperaturas médias e que estão a acontecer em quase todos os lugares”, diz à CNN Friederike Otto, um dos líderes da iniciativa World Weather Attribution, que não esteve envolvido no estudo.

A investigação teve em conta apenas alguns eventos climáticos, deixando de fora, por exemplo, a subida do nível do mar. Os próprios autores do estudo admitem que a aprendizagem automática “não substitui a avaliação cuidadosa realizada por especialistas”. No entanto, os seus resultados são importantes porque reúnem uma série de dados importantes relativamente às lacunas existentes entre diferentes regiões.

Esta terça-feira, a Organização Mundial da Saúde afirmou que as alterações climáticas são “a maior ameaça à saúde da Humanidade”, divulgando um relatório com dez prioridades e pedindo aos países signatários do Acordo de Paris que coloquem “a saúde e a justiça social no centro das conversações” da 26ª conferência do clima das Nações Unidas (COP26), que se realiza no princípio de novembro em Glasgow, na Escócia.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Apenas 5% da População Portuguesa tem o Hábito de Comprar Produtos Biológicos

2011-05-25 15:45:37
Ana Luísa Oliveira
 

Os produtos biológicos ainda não entraram na alimentação dos portugueses. Só 500 mil consomem, regularmente, estes produtos. Em média, gastam apenas 2,20 euros nos produtos da agricultura biológica. O sector movimenta 20 milhões de euros anualmente em Portugal e cresce 28% ao ano.

Dados resultantes de dois trabalhos académicos da autoria de um docente do IPAM.

São amigos do ambiente, são cultivados sem recurso a produtos químicos e, por isso, muitas vezes, considerados alimentos mais saudáveis. Mas ainda são pouco apetecíveis para os portugueses e escasseiam ainda nos carrinhos de compras e nos lares das famílias.
Apenas 5% da população portuguesa, isto é, 500 mil consumidores, têm o hábito de comprar produtos biológicos. Do orçamento das famílias portuguesas reservado à alimentação, só 8,3% destina-se aos produtos provenientes da agricultura biológica.
Em média, cada consumidor gasta apenas 2,20 euros por ano nestes produtos, o que coloca Portugal bastante abaixo de países como a Dinamarca, França, Suécia, Itália ou Holanda. Nestes países, os consumidores reservam, em média, 104 euros para a compra de produtos biológicos, o que representa 50% do orçamento.
As contas são de Rui Rosa Dias, docente do IPAM de Matosinhos, que se tem dedicado ao estudo sobre a agricultura biológica – já defendeu duas teses sobre o tema, primeiro no mestrado em marketing agro-alimentar, em Saragoça, e depois no doutoramento em economia agrária, pela Universidade Politécnica de Madrid.
O agricultor, que trabalha no sector do leite biológico, acredita que a falta de informação é um dos motivos da baixa procura dos portugueses por estes produtos. “A grande maioria não sabe o que é um produto biológico, não faz ideia dos benefícios que estes têm tanto para a saúde, com maior riqueza de nutrientes, como na questão ambiental”, sublinha.
O outro problema é o preço. “É um mito que estes produtos sejam mais caros”, continua Rui Rosa Dias, que defende uma mudança de mentalidades dos consumidores em matéria de alimentação. “Não faz sentido discutirmos dois cêntimos de diferença na alface e não questionarmos o preço de 25 euros de uns sapatos. Os consumidores têm de apostar numa alimentação de qualidade, associada à adopção de um estilo de vida saudável”.

Mulheres consomem mais produtos biológicos
Tem entre 20 e 49 anos, é do sexo feminino e reside na cidade. É este o perfil do consumidor regular de produtos biológicos. Regra geral, são pessoas com níveis elevados de conhecimento e níveis médios de rendimento. Preferem os produtos da agricultura biológica por questões de saúde e ambientais. Rui Rosa Dias dá outro exemplo de um novo tipo de consumidor. “Cada vez mais, os pais reconhecem os benefícios do consumo de produtos biológicos para a saúde e optam por comprar para os filhos. É indiscutível que estes produtos são mais ricos em nutrientes”.
Sector movimenta 20 milhões ao ano
Atendendo aos números que apontam para 200 mil consumidores portugueses “assíduos” de produtos biológicos, o agricultor acredita que há um potencial de mercado a rondar os 10%, correspondente aos que nunca experimentaram.
O sector movimenta 20 milhões de euros por ano em Portugal - 67 mil milhões em todo o mundo - e regista um crescimento de 28% ao ano no país. Graças à procura crescente de hortícolas, frutas e lacticínios. Os produtos biológicos transformados como as bolachas, os sumos e os vinhos têm atraído também cada vez mais consumidores. “O sector tem crescido de forma assinalável. É uma reacção à crescente procura e fruto também dos incentivos da União Europeia, que tem apoios para a agricultura biológica e tem atraído muitos produtores”, sublinha Rui Rosa Dias.
Em 10 anos, o número de produtores passou dos 765 para os 1.650 - actualmente são 2.200. O que obriga, naturalmente, ao crescimento da área de cultivo dos produtos biológicos que, na última década, triplicou. Actualmente, representa uma área total de 160 mil hectares.
Apesar de registar uma tendência francamente positiva, a agricultura biológica ainda tem uma representatividade “diminuta” no sector agro-alimentar no nosso país. Portugal tem uma balança comercial desfavorável no que toca aos produtos biológicos, porque importa mais do que exporta. Em 2015, o cenário não se deverá inverter, acredita Rui Rosa Dias. “Nessa altura, prevê-se que Portugal ainda não seja auto-suficiente na produção de produtos biológicos”, acredita o agricultor, acrescentando: “Temos de ser capazes de produzir em quantidade, mas sobretudo em qualidade, primando pela diferença e atendendo às necessidades de saúde e ambientais”.
Rui Rosa Dias, acredita que uma das formas de incentivar o consumo destes produtos passa pela criação de espaços de venda com o apoio das autarquias, que permitam ao consumidor comprar directamente ao produtor.