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sábado, 4 de abril de 2026

Paraísos fiscais globais "alimentam a desigualdade" enquanto os países ricos bloqueiam reformas da ONU

Uma década depois do Panama Papers, os 0,1% mais ricos da Terra escondem mais de 2,8 biliões de dólares em contas offshore para evitar o pagamento de impostos, concluiu um relatório da Oxfam International. Só esse dinheiro representa mais riqueza do que a detida por toda a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de 4,1 mil milhões de pessoas.

Ilhas Caimão

De acordo com o relatório publicado na terça-feira, a economia global continua a perder centenas de milhares de milhões de dólares todos os anos devido ao abuso fiscal transfronteiriço — uma perda de receitas que os especialistas afirmam estar a alimentar a desigualdade extrema e a privar os governos de recursos necessários para combater a crise climática e financiar serviços públicos.

Em conjunto com o relatório The State of Tax Justice 2024, publicado pela Tax Justice Network (TJN), estima que os países perderão 4,8 biliões de dólares em receitas fiscais nos próximos dez anos se as tendências atuais se mantiverem.

"O abuso fiscal global não é um desastre natural, mas uma escolha política", afirmou Liz Nelson, diretora da TJN. "Os governos têm o poder de acabar com esta injustiça, mas os países ricos continuam a proteger os interesses dos abusadores fiscais em vez dos seus próprios cidadãos."

O relatório destaca que os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — frequentemente descrita como o "clube dos países ricos" — são responsáveis pela maior parte das perdas fiscais mundiais. Segundo a análise, os países da OCDE e as suas dependências facilitam a maioria do abuso fiscal corporativo global, enquanto os países de baixo rendimento continuam a ser os mais afetados proporcionalmente.

Durante décadas, a OCDE liderou as negociações sobre as regras fiscais globais. No entanto, o relatório da TJN argumenta que estas regras foram concebidas para beneficiar as multinacionais e os países ricos, deixando o resto do mundo de fora.

O relatório surge num momento em que cresce o impulso para a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Cooperação Fiscal Internacional. No ano passado, os países votaram esmagadoramente a favor de levar as negociações fiscais para a ONU, desafiando a oposição de grandes economias como os EUA e o Reino Unido.

"A transferência da liderança das regras fiscais da OCDE para a ONU é o passo mais importante que podemos dar para acabar com a era dos paraísos fiscais", disse Alex Cobham, diretor executivo da Tax Justice Network.

A Common Dreams reportou que a erosão da base tributária obriga os governos a depender de impostos sobre o consumo, que prejudicam desproporcionalmente os pobres, enquanto as multinacionais ganham uma vantagem competitiva injusta sobre os negócios locais. O relatório conclui com um apelo urgente para que os países apoiem o processo da ONU para garantir que os impostos sejam pagos onde a atividade económica real ocorre.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Relembrar alguns dos apoios do Chega - a 18 de Maio vamos retirá-lo do Parlamento


Num relatório publicado pela ONG norte-americana GPAHE contra ódio e extremismo, o Ergue-te foi classificado, juntamente com o ADN e o Chega, como um grupo de ódio e extrema-direita.

Aliás, o líder racista Mário Machado que votou sempre no PSD até 2000, passou depois a votar PNR e , quando apareceram os cheganos fez um vídeo na net a apelar ao voto nos cheganos. Não esquecer nem ignorar ainda a enorme quantidade trolls e bots cheganos que campeiam na rede X.

Partilha. Dia 18 vota para erradicar esta escumalha destruidora do bem estar social e democrático e violadora da Constituição da nossa República. Fascistas nunca mais.

Fonte 7 Março 2024
Quem apoia e financia o Chega merece ser nomeado. Não que o mesmo não deva ser feito com todos os demais partidos, mas a capa de virtude saneadora com que se cobre o dr. Ventura é, na situação presente, um logro que tem de ser revelado. Sabe-se, por exemplo, das formas enviesadas como o CDS chegou a ser financiado, sabe-se que os grandes grupos empresariais repetem abundantes e regulares donativos ao PSD e ao PS. A marca dos interesses de classe que se perfilam por trás destes apoios é clara, mesmo se pouco divulgados.

No caso do Chega, que se apresenta como cavaleiro da luta contra a corrupção, querendo parecer que joga por fora e contra “o sistema”, importa mostrar como, também neste aspecto, faz parte plena do sistema e dele beneficia. O seu propósito é apenas o de ganhar um lugar ao sol. Empresários variados, juristas, salazaristas, neonazis, ex-militares e ex-diplomatas – o leque fala por si.

Ver também o artigo do jornalista Miguel Carvalho no Público de 25 de fevereiro de 2024 «A grande ‘família’ do Chega».

Chega, Ventura e amigos

Quem são os ditos “portugueses de bem” que estão no Chega:

João Maria Bravo – Dono da Helibravo. Omitiu informação ao Estado e às Forças Armadas para ganhar o concurso público dos meios aéreos de combate aos fogos (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Subcontratou as empresas Pegasus e Elittelina. Ambas são investigadas por [terem organizado] cartéis do fogo [negócio do combate aos fogos], a primeira em Portugal, no âmbito da operação “Crossfire”, em que é suspeita de concertação de preços. (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Dono do Grupo Sodarca. Lidera o fornecimento de armas, munições, tecnologia e equipamento militar ao Estado, Forças Armadas e Segurança. (Fonte: https://bit.ly/39LdObv)

Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente. O processo de insolvência envolveu 51 credores e dívidas no valor de 86 milhões de euros. (Fonte: https://bit.ly/3p07Av1)

Francisco Sá Nogueira – Gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as atividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens. (Fonte: https://bit.ly/2LFvMo5)

Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers. (Fonte: https://bit.ly/35Vrv6M)

Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers. Aparece também associado aos escândalos do BANIF, BES, Vale do Lobo e à elite angolana. Foi acusado pelo Estado angolano de desviar dinheiro adiantado para comprar ações do Banif. (Fonte: https://bit.ly/38ZwxkB)

Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espirito Santo, e administrador da Coporgest. Usou os seus contactos para ajudar Ventura, nomeadamente a angariar dinheiro para o partido. (Fonte: https://bit.ly/2KtKRIv)

Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti). (Fonte: https://bit.ly/3qznbBZ)

Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real. (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

César do Paço – Multimilionário radicado nos EUA. Suposto apartidário doou dinheiro ao CDS e agora ao CHEGA. Viaja num jato de 55 milhões de dólares mas só declara um volume de negócios de 900 mil dólares. Na sua fundação fantasma reúne figuras do PSD, CDS-PP, Chega (José Lourenço e Diogo Pacheco de Amorim). Sócio maioritário do Clube Futebol Canelas e amigo de Fernando Madureira, líder dos Super Dragões. Financiador da equipa de Boxe do FCP que já serviu de guarda costas de A[ndré] V[entura] em acções no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bZ1EhZ)

Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP). (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

José Lourenço – Consultor de César do Paço e administrador da sua fundação fantasma. Presidente da distrital do Porto do Chega. Mandato e eleição no Porto envoltos em escândalos, ameaças e jogos de poder dentro do Chega. Acusado pelo ex-dirigente nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal.

Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.

Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bUcO7z)

Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – Detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”. (Fonte: https://bit.ly/3itfRoE)

Luis Filipe Graça – Sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Presidente da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Foi dirigente e fundador da organização neonazi ‘NOS’, cujo dirigente máximo foi Mário Machado, o mais conhecido skinhead português. Fundador da organização neofascista ‘Portugueses Primeiro’, em que figura o conhecido assassino de Alcindo Monteiro, João Martins, e colaborou com o ‘Escudo Identitário’. Na última Convenção Nacional do Chega encabeçou a lista da Mesa da Convenção Nacional. Apareceu em vídeos com skinheads em protestos. (Fonte: https://bit.ly/2KB26rC e https://bit.ly/3o01Jo2)

Nelson Dias da Silva – Secretário da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Porta-voz da organização “Portugueses Primeiro”, fortemente influenciada por João Martins, condenado pelo assassinato do jovem negro Alcindo Monteiro e fundador da secção portuguesa do grupo nazi ‘Misanthropic Division’, liderado internacionalmente pelos nazis ucranianos do batalhão Azov. Na última Convenção Nacional do Chega integrou a lista da Mesa da Convenção Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Tiago Monteiro – Dirigente nacional e líder do Chega em Mafra. Foi dirigente da organização ‘NOS’, liderada pelo skinhead Mário Machado, onde era responsável pelo concelho de Sintra. Atualmente, é responsável pela atividade do Chega em Mafra e membro do Conselho Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga diretora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado cerca de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide. (Fonte: https://bit.ly/3p2hmMW)

António Tânger Correia – Ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a várias irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais. (Fonte: https://bit.ly/39POZer)

Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangue. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspetor Tributário.(https://bit.ly/38ZkHH1, https://bit.ly/3p0hDQL, https://bit.ly/39QYxG2 e https://bit.ly/391F7PT )

Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega. (Fonte: https://bit.ly/3p4rEMD)

Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declarado insolvente por dívidas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo. (Fonte: https://bit.ly/39M2ax7)

Lucinda Ribeiro Alves – Fanática Religiosa. Adepta do Sionismo Cristão que impõe, para o regresso de Jesus à Terra, a expulsão de todos os muçulmanos de Jerusalém. Jair Bolsonaro e Mike Pompeo, por exemplo, são outros destacados sionistas cristãos.(Fonte: https://cutt.ly/1jFTVXM)

Diogo Pacheco de Amorim – Membro do gabinete político da rede armada de extrema-direita (MDLP), responsável por atentados bombistas e outros ataques terroristas que levaram à morte de várias pessoas. Confesso admirador de Jean-Marie Le Pen, patriarca da extrema-direita francesa, e do primeiro-ministro húngaro de viés totalitário Viktor Orbán. Autor da última versão do programa do Chega, onde se apontam grandes semelhanças com o programa do partido de extrema-direita PNR. (Fonte: https://cutt.ly/cjFRgtj)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O farsante André Ventura, que critica a nova lei da emigração


Antes de chegar ao Parlamento, André Ventura saltou da Autoridade Tributária (AT) para a Finpartner, uma empresa de contabilidade e assessoria fiscal com intensa actividade nas áreas da engenharia fiscal via offshore e vistos gold, o que não deixa de ser engraçado, à luz da narrativa em torno da “pátria” e das posições anti-emigração que agora defende. Porque isto da pátria não é para qualquer gajo que chegue de barco de borracha em fuga da miséria. Isso seria cristão demais para um farsante como Ventura. Tratando-se de um oligarca russo, angolano ou chinês, que aterre em Lisboa no seu jacto privado, então já somos capazes de ter aqui alguma coisa para lhe vender. Nacionalidade portuguesa pelo preço certo em euros.

Isto do trabalho, na óptica do André Ventura, tem muito que se lhe diga. É que eu ainda sou do tempo em que, em 2019, o líder do Chega deu uma entrevista a uma estação televisiva de uma igreja qualquer, onde afirmou, com a convicção a que nos habituou, que, mal fosse eleito, deixaria todas as suas outras ocupações para se dedicar a tempo inteiro a servir o país. Porque defendia, convictamente, que os deputados o deviam ser em exclusividade de funções. Claro que, uma vez eleito, Ventura continuou a servir os interesses da Finpartner, durante quase mais dois anos, durante os quais teve acesso a informação privilegiada resultante da sua posição no Parlamento, que pode ou não ter entregue ao seu principal empregador. E desengane-se quem achar que Ventura saiu da Finpartner por imperativo de consciência. Saiu, isso sim, porque a contradição se tornou insustentável. E porque os próprios militantes do Chega começaram a ficar indignados. Tivessem deixado Ventura tranquilo na sua vida, e ainda hoje lá estaria.

Indo um pouco mais atrás, até 2014, recorde-se que André Ventura assinou um parecer, enquanto inspector tributário ao serviço da AT, que contribuiu para isentar uma empresa de Lalanda de Castro, ex-patrão de José Sócrates, do pagamento de 1,8 milhões de euros de IVA. Este caso foi investigado no âmbito do processo dos Vistos Gold, por suspeita de favorecimento de Lalanda e Castro, que também está referenciado na Operação Marquês, Panama Papers e é acusado de corrupção no processo Máfia do Sangue. E sim, este Ventura que serviu de peão na manobra de evasão fiscal de Lalanda e Castro, que prejudicou todos os portugueses, é o mesmo Ventura que demoniza todos os beneficiários do RSI, incluindo crianças.

Em 2021, as contribuições dos imigrantes subiram para um valor recorde: 1293 milhões de euros. Paralelamente, as prestações sociais de que beneficiaram ficaram-se pelos 325 milhões, o que significou um saldo positivo de 968 milhões para os cofres da Segurança Social.
Em 2022, novo recorde. Desta vez, as contribuições ascenderam a 1861 milhões, as prestações sociais caíram para 257 milhões e o saldo disparou para os 1604 milhões.
Mais um ano, mais uma chapada na retórica desonesta da extrema-direita xenófoba e racista.
Mais uma chapada na narrativa canalha que faz dos imigrantes o bode expiatório da agenda do ódio.
Mais uma chapada na instrumentalização do medo e da ignorância, da demagogia da divisão, do cheio nauseabundo do isolacionismo nacionalista.
A verdade, digam o que disserem os descendentes de Salazar, é que precisamos destas pessoas. Porque são eles quem aceita os trabalhos precários e mal pagos na construção civil, no turismo, na restauração e no serviço doméstico. Sem eles, estes sectores colapsariam, ou ficaram perto do colapso.
Porque falta mão-de-obra, e porque os portugueses não querem esses trabalhos. Preferem emigrar.
Portanto, sim, estes imigrantes, sejam brasileiros, paquistaneses, indianos ou nepaleses, fazem falta à economia portuguesa.
E contribuem para contas públicas mais saudáveis. Muito mais saudáveis.
Portugal precisa deles.
O resto é conversa de populistas que não têm mais do que ódio e ditadura para oferecer ao país.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Quem são os grandes patrocinadores do Chega?


A extrema-direita não está contra o sistema. A extrema-direita é o pior que o sistema tem.

Além disso é incrível ouvir uma grande mentira por parte do André Ventura. É mesmo racista. André Ventura defende a teoria racista da substituição que inspirou massacres nos EUA, Europa e Nova Zelândia, apesar da Europa ter apenas 5% de imigrantes, que muito jeito dão para trabalhos que ninguém quer fazer.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Shinzo Abe: o que é a Igreja da Unificação, do reverendo Moon, citada por assassino de ex-primeiro ministro do Japão para cometer crime

Tetsuya Yamagami, assassino confesso de Abe, disse que agiu movido pelo rancor contra uma organização religiosa



Controvérsia e escândalo assombram há décadas a Igreja da Unificação, um grupo religioso com negócios milionários fundado pelo reverendo Sun Myung Moon que agora está sendo ligado ao assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, na última sexta-feira (08/07).

Segundo a imprensa japonesa, Tetsuya Yamagami, o assassino confesso de Abe, disse à polícia que agiu movido pelo rancor contra uma organização religiosa que havia pressionado sua mãe a doar grandes quantias de dinheiro, arruinando assim sua família.

Ele acreditava que Abe havia favorecido esta instituição religiosa no Japão.

Embora a polícia não tenha revelado o nome da organização religiosa, a Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação (nome usado atualmente pela Igreja da Unificação) confirmou que a mãe de Yamagami era membro da mesma.

Tomihiro Tanaka, responsável pela organização no Japão, confirmou que ela ingressou em 1998, depois saiu e retornou neste ano.

Segundo a imprensa japonesa, a mãe de Yamagami vendeu a sua casa e terrenos há mais de duas décadas para fazer uma doação de cerca de US$ 700 mil.

A Igreja da Unificação afirma que todas as doações são voluntárias.

Embora as razões pelas quais Yamagami considerasse que Abe favorecia a Igreja da Unificação não sejam totalmente claras, sabe-se que o falecido ex-primeiro ministro chegou a participar como palestrante pago num dos muitos eventos organizados por esse grupo religioso.

Além disso, em junho passado, Akihiko Kurokawa, líder do partido NHK do Japão, chamou a Igreja da Unificação de "culto antijaponês" e culpou o avô materno de Abe, o ex-primeiro-ministro Nobusuke Kishi, por ter permitido a chegada dessa organização ao país em 1958.

Mas qual é a origem desta instituição e por que ela causa polémica?

Da Coreia para o mundo
O reverendo Moon e a esposa oficializando um casamento coletivo em Seul em 2000

A Igreja da Unificação foi criada em 1954 na Coreia do Sul por Sun Myung Moon.

É uma variação da teologia cristã baseada na ideia de que, ao pecar, Adão e Eva falharam no plano divino — e que o mundo precisa de um novo messias que seria o próprio Moon.

Segundo suas crenças, a perda da graça divina se deveu ao fato de Eva ter tido relações sexuais ilícitas com o diabo no plano espiritual, o que levou à posterior queda de Adão, e toda a humanidade acabou replicando a linhagem do demónio.

O fundador da Igreja da Unificação, Sun Myung Moon, faleceu em 2012 aos 92 anos

A Igreja da Unificação considera a família como a pedra fundamental da sociedade e do desenvolvimento espiritual, razão pela qual atribui grande importância ao matrimónio — e, de fato, é conhecida mundialmente por organizar grandes casamentos coletivos.

Da Coreia do Sul, esta instituição passou para o Japão e, no final da década de 1950, começou a se deslocar para o Ocidente, onde por décadas foi tachada como uma "seita".

Conseguiu-se estabelecer nos Estados Unidos, onde Moon morou na década de 1970, e desde os anos 1980 está presente em vários países da América Latina, especialmente no Brasil.

Moon visitou a Argentina várias vezes, onde se encontrou com políticos proeminentes, incluindo o ex-presidente Carlos Menem.

Fé e negócios

A Igreja da Unificação é conhecida por sua capacidade de captar recursos financeiros, tarefa na qual tem sido muito bem-sucedida no Japão, onde, segundo especialistas, originam-se cerca de 70% dos fundos que administra, estimados em centenas de milhões de dólares.

Na verdade, um ex-membro do alto escalão da instituição chegou a dizer ao jornal americano The Washington Post que, entre as décadas de 1970 e 1980, Moon levou cerca de US$ 800 milhões do Japão para os Estados Unidos.

Parte desses recursos seriam provenientes da venda de objetos religiosos com supostos poderes espirituais fabricados por empresas que pertenciam à família Moon, mas sobretudo das chamadas "vendas espirituais".

Por meio deste mecanismo, pediam-se aos fiéis doações financeiras para "ajudar a elevar o espírito" de seus entes queridos falecidos.

Segundo pessoas que pertenciam à organização, seus membros no Japão revisam os obituários e depois visitam as casas dos enlutados para dizer a eles que a pessoa falecida entrou em contato com a Igreja e pediu à família que pegasse dinheiro no banco para doar, no intuito de alcançar assim sua elevação espiritual.

Esse mecanismo de arrecadação de fundos gerou vários processos no Japão, nos quais centenas de pessoas afetadas foram recompensadas nos tribunais.

Elgen Strait, ex-membro desta organização, falou ao jornal britânico The Telegraph sobre a pressão que existe para fazer doações.

"Há uma ideia presente em toda a organização de que sua posição espiritual é diretamente afetada pela quantidade de dinheiro que você dá. Nos Estados Unidos, espera-se que você doe 10% da sua renda bruta a cada mês. No Japão, é 30%. Mas isso é só para começar", declarou.

Moon, que em 1982 foi preso nos EUA por evasão fiscal, também se tornou um homem de negócios que, segundo estimativas, tinha uma fortuna de cerca de US$ 900 milhões quando faleceu em 2012, aos 92 anos.

Na época, ele possuía investimentos em um clube de futebol, uma fábrica de automóveis, uma fábrica de armas e no jornal The Washington Times, entre outros negócios.

No Brasil, Moon era dono de grandes extensões de terra na fronteira com o Paraguai. Pela localização estratégica, o Exército brasileiro chegou a manifestar preocupação em 2002, segundo reportagem publicada na época pela revista Istoé.

Poder que atrai

Durante décadas, Moon e a Igreja da Unificação procuraram se relacionar com políticos e figuras conhecidas, e os convidavam como palestrantes pagos nos vários eventos que organizavam.

Segundo especialistas, isso fazia parte de uma estratégia para obter maior credibilidade, por meio da associação com figuras conhecidas.

Assim, por exemplo, na mesma conferência de 2021 da qual Abe participou, chamada "Rally of Hope", também estiveram presentes o ex-presidente americano Donald Trump e o ex-primeiro ministro canadiano Stephen Harper.

Ex-presidentes dos EUA, como Gerald Ford e George H.W. Bush, participaram das conferências dessa organização em meados da década de 1990, assim como o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev e o humorista Bill Cosby.

Como o investigador Larry Zilliox, que passou anos investigando Moon, disse ao jornal americano The Washington Post, essa iniciativa tem um objetivo claro.

"Eles vão pagar a quem der a eles legitimidade. Os grandes nomes atraem os nomes menores, que são as pessoas que podem ajudá-los com suas iniciativas locais", afirmou.

Desde a morte de Moon, sua viúva, Hak Ja Han Moon, está à frente da Igreja da Unificação, enquanto dois dos seus filhos estão no comando de organizações menores.

Embora em 2012, a organização tenha dito que contava com cerca de 3 milhões de fiéis em todo o mundo, especialistas acreditam que esse número é superestimado.

O número real varia entre 50 mil e 600 mil membros, segundo diferentes estimativas.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Treespiracy


The world’s forests are being destroyed against a background of corruption, illegality and apathy.

A complex web of financial instruments allowing crime, corruption and wrong-doing, hidden behind shell corporations and offshore companies was exposed with the release of the Panama Papers.

This shadow network is being used by individuals and companies behind the destruction of our planet’s forests.

Indonesia has lost vast amounts of primary rainforest, behind only Brazil in scale for these losses. Some of the largest palm oil and timber companies operating in the country have disguised the extent of their operations through “shadow companies”. This means that who truly benefits from their activities is deliberately made harder or impossible to trace.

Indigenous

The Indonesian part of the island of Papua is a “new frontier” of palm oil deforestation in the country. This is against the express wishes of local Indigenous peoples. Previous deforestation went ahead despite Indonesian government officials claiming that the permits to do so in the region were falsified.

Companies were then given permission to continue clearing the forest as long as they “fix their permits”. In other words, as long as they retrospectively got the permits they needed from the start.

However, the forests of Papua may have been handed a lifeline: the Indonesian government has just cancelled 192 deforestation permits. For the sake of people, wildlife and the climate, they need to stay cancelled.

Forests will keep being cleared with impunity without financial transparency, accountability and enforcement.

The “clear forests first, apply for permits later” approach is not limited to Indonesia. In Paraguay, a government whistleblower provided evidence that the same problem was happening there. In that case, the deforestation included the lands of the Ayoreo Totobiegosode Indigenous peoples.

Deforestation

Where voluntary pledges have led to environmental successes they have been partial. The Amazon soy moratorium was designed to stop companies clearing Amazonia for the crop, and it has had some impact.

The rate of soy-related deforestation in Amazonia fell by 84 percent between 2004 and 2012, as a result of the moratorium and connected policy efforts.

However, this is arguably because companies have simply been able to shift to another, less protected biome; the neighbouring Cerrado, a precious ecosystem in its own right, which is now the frontier of deforestation in South America.

Data on corporate deforestation from the supply chain mapping initiative Trase show that companies who have pledged not to cause deforestation for soy cause as much as those who have made no such commitment.

Felled

The New York Declaration on Forests from 2014 pledged to halve deforestation by 2020 and end it by 2030, yet rates of forest loss have been 41 percent higher in the years since the agreement was signed.

The impact of pledges made at COP26 to reverse and end deforestation in a decade is yet to be seen, but it is noteworthy that the Brazilian Amazon started 2022 with the fastest rate of deforestation in 14 years.

Certification schemes purporting to ensure wood and timber products also have weaknesses. The assessment bodies responsible for conferring prized sustainability certification like the Forest Stewardship Council ecolabel are paid for by the companies they audit, competing with one another for this income. This creates a “race to the bottom” as it incentivises weak auditing in order to win more business.

These certification schemes have also been found to accredit illegally felled wood, including trees from protected forests in Siberia, some of which ended up in childrens’ furniture from IKEA.

Time-bound

No wonder, then, that many timber firms are lobbying to be exempt from upcoming EU laws to keep the products of environmental destruction and human rights abuses out of European supply chains. They claim that certified status – demonstrated to be flawed – should be enough to allow them this exemption.

While a great deal of forestry is not connected to crime, corruption, human rights abuses and the destruction of irreplaceable nature, far too much is. All our most basic human rights depend on a sustainable environment. We cannot let it be destroyed for a handful of people to profit.

Without financial transparency, accountability, and enforcement of strong laws to protect forests, they will keep being cleared with impunity.

States must step in and pass legislation which requires robust, transparent and time-bound reductions in deforestation for companies wishing to be part of their supply chains. The future of people and the planet depends on it.

domingo, 6 de março de 2022

A esquerda no séc. XXI


Para a esquerda nacional e europeia, acredito que é consensual o pensamento de Rosa de Luxemburgo. O comunismo e socialismo do séc. XXI deve ser, a meu ver, claro e não deixar normalizar a extrema-direita. A extrema-direita é camaleónica e apenas tem um único objectivo- ditaduras nacionalistas e anti-democráticas. Está tudo espelhado no Wikileaks (agradeço imenso a Julian Assange) e no Panama-Papers. Sou um cidadão de esquerda, europeu e global, anti-putinista e anti-venturas deste mundo.

Consultar mais:
Documentário:

Debate:
The War in Ukraine Could Change Everything | Yuval Noah Harari

Cinco municípios PCP e PS, votam claramente contra a Invasão Russa da Ucrânia, em contraciclo com a Direção Nacional do PCP, que insiste na "ocupação territorial" e acusa a NATO e UE.

sábado, 5 de março de 2022

Putin's Revenge (part 1 and part 2)



Documentários relacionados:


Documentário - Putin's Way


Neste documentário de 2015, FRONTLINE traça a ascensão de Vladimir Putin de espião desempregado a czar moderno e investiga as acusações de criminalidade e corrupção que cercaram seu reinado na Rússia. 

Neste filme de 2015, uma coprodução com a Canadian Broadcasting Corporation, o produtor Neil Docherty e a correspondente Gillian Findlay traçam a carreira de Putin duas décadas antes de seu início político em São Petersburgo, onde as alegações de corrupção começaram quase imediatamente. Com base em relatos em primeira mão de magnatas dos negócios russos exilados, escritores e políticos, bem como a pesquisa exaustiva de Karen Dawisha, autora do best-seller “Putin's Kleptocracy”, o filme examinou episódios preocupantes no passado de Putin, de supostas atividades de lavagem de dinheiro e laços com o crime organizado, com uma fortuna pessoal secreta que se diz estar na casa dos biliões.

Mais documentários relacionados:

1. Como é que chegámos aqui? Dois documentários para perceber a Guerra na Ucrânia

sexta-feira, 4 de março de 2022

Documentário: The Putin Files

Quem dá crédito aos argumentos esquizofrénicos do PCP para defender o regime russo dos últimos 40 anos e atacar a esfera de influência da NATO, precisa duma dose urgente de realidade. Pode começar por aqui.


Consultar ainda um vasto dossier

FRONTLINE passou meses reportando para o documentário  Putin's Revenge, speaking with the heads of U.S. intelligence agencies, diplomats, journalists, scholars and political insiders from Russia and the United States. In all, 56 sources spoke to us on camera. Now, in the inaugural installment of our Transparency Project, we're publishing the complete collection of these extended conversations. In "The Putin Files," explore the interviews using interactive features that enable you to navigate by theme or person, select and share any excerpt on social media, and dig deeper into annotated content about this still unfolding history.

Saber mais:
Examining Putin: As Russia’s President Wages War on Ukraine, Revisit Our In-Depth Reporting

Documentários relacionados:

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Como é que chegámos aqui? Dois documentários para perceber a Guerra na Ucrânia

A invasão russa à Ucrânia começou esta quinta-feira, 24 de fevereiro, depois de semanas de tensão e ameaças por parte do governo liderado por Vladimir Putin. A Ucrânia, antiga república da União Soviética, é um estado independente desde 1991. No entanto, o território que conhecemos atualmente como Ucrânia tem sido ponto de disputa de poder ao longo de vários séculos.
Em 2014, após os protestos denominados Euromaidan, que culminaram na deposição do presidente Vikor Yanukovych, as tensões entre a Ucrânia e a Rússia ressurgiram, com o apoio de Moscovo a vários territórios autoproclamados independentes (entre os quais a Crimeia, Donetsk e Luhansk). Para melhor compreender não só os acontecimentos atuais, mas também para perceber qual a importância atual dos dois países no panorama geopolítico internacional, sugerimos dois documentários.

1- Ukraine On Fire - Oliver Stone

Não disponível em Portugal. Terá que o ver no Youtube. 
"Será que estamos a assistir ao início da Guerra Fria 2.0 ?", questiona o realizador Oliver Stone no documentário lançado em 2017. O filme apresenta uma perspetiva completamente diferente dos acontecimentos de 2014, que conduziram à deposição de Vikor Yanukovych.

Stone entrevista não só o então presidente deposto da Ucrânia, mas também Vladimir Putin, que acusam os Estados Unidos e também a NATO de espalharem propaganda anti-Rússia e de terem ajudado a planear o golpe de Estado. Oliver Stone tem manifestado, ao longo dos anos, uma opinião crítica em relação à estratégia norte-americana no que toca a conflitos internacionais.


Atualização: Já possível ver o Ukraine on Fire em Português. Encontrei-o no Youtube


2- Poutine - Le retour de l'ours dans la danse



Oportunística e sem escrúpulos, a política externa de Vladimir Putin colocou a Rússia de volta no centro das questões geoestratégicas globais. Como muitos especialistas, o documentarista Frédéric Tonolli questiona as motivações profundas desta nova guerra fria.

Em fevereiro de 2007, durante a Conferência de Segurança Global de Munique, Vladimir Putin ficou com raiva – com frio. No pódio, ele denuncia o unilateralismo dos Estados Unidos e anuncia o fim de um mundo unipolar. Embora virulento, seu discurso não é realmente ouvido. Sete anos depois que o obscuro oficial da KGB tomou o poder de surpresa, os ocidentais ainda subestimam sua obsessão em colocar a Rússia de volta no centro do cenário mundial. No entanto, quando Putin vê a NATO se aproximando gradualmente das fronteiras russas graças à adesão de países do antigo bloco oriental, sentindo-se ameaçado e traído, ele ataca com força e rapidez. Atua na Geórgia, Ucrânia ou Crimeia, defende seus interesses na Síria ou na Líbia, estende sua influência no continente africano, particularmente na República Centro-Africana. Estrategista e oportunista, o autocrata fez da política externa sua arma fatal, instrumento de orgulho renovado e de coesão nacional. Até onde ele irá?

O martelo e a bagunça
Um país arruinado no início dos anos 2000, desprezado e isolado, a Rússia é hoje respeitada, temida e fantasiada. A caminho de bater o recorde de longevidade de Stalin, o "tsar" Putin está construindo passo a passo, mas de forma violenta, seu sonho do retorno de um grande império não alinhado e autónomo. Este documentário do experiente Frédéric Tonolli (prémio Albert-Londres em 1996) vasculha as profundas motivações do homem que é descrito como um "realista pragmático" e não um ideólogo. Entre a "diplomacia do martelo" e a "estratégia da desordem", diplomatas, opositores e observadores, incluindo o ex-ministro Hubert Védrine, jornalistas russos independentes, mas ameaçados, como Dmitri Mouratov, vencedor do Prémio Nobel da Paz, ou o palestrante Kevin Limonier analisam a capacidade inigualável de Putin de interferir nas falhas da geopolítica global. É inegável, o urso russo lidera a dança de uma nova guerra fria.



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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dos impostos sobre lucros e da forma de terminar com quatro décadas de regabofe


Hoje o Jornal de Negócios traz-nos uma notícia que parece ter sido escrita pelo departamento de marketing de uma federação patronal e que tem um título que dispensaria a leitura do resto do artigo: Mercado pede um OE com mais PRR e menos impostos. 
Não vou maçar-vos com comentários ao ‘pedido’ do ‘mercado’ de mais PRR. O Nuno Serra, por exemplo, já tratou convenientemente o enviesamento implícito desta converseta. 

Também vou poupar-vos a comentários acerca das confusões teóricas ali abundantemente servidas a propósito do conceito de poupança, confusões essas com convenientes implicações práticas de curto prazo para o setores financeiro e segurador, porque já o fizemos, por exemplo, aqui. 

Quero antes começar por recordar, como faz David Fickling nas páginas da Bloomberg, que se passaram oito anos desde que os governos da OCDE se comprometeram com uma ação coordenada de repressão da utilização de paraísos fiscais com o objetivo de minimizar os impostos sobre as empresas e subtrair aos Estados receitas que lhes pertencem. 

Um compromisso que não podia ser mais meritório. Só assim se podem impedir as políticas fiscais do tipo beggar thy neighbour, ou seja, de empobrecimento do vizinho, numa tradução pobre porque não captura a falácia de composição que estas políticas encerram, políticas que minam a soberania nacional, desequilibram as contas públicas, as contas externas e a distribuição do rendimento nacional, prejudicando, no fim do jogo,  todos os países envolvidos e, neles, sobretudo, quem vive não de lucros, mas do seu trabalho presente ou passado. 

No entanto, como sói dizer-se, de compromissos e piedosas intenções está o inferno cheio. Se alguma coisa mudou no regabofe que dura há 4 décadas, o que é hoje diferente é ainda pior. Fazendo fé na caixa de Pandora que se abriu recentemente ao sempre maçador escrutínio público, os espertalhões facilitadores deste mundo, entre eles, o Morais Sarmento, o Vitalino Canas e o Manuel Pinho, continuam, impunemente, a colocar o carcanhol ao fresco enquanto, substantivamente, os países que se comprometeram a tomar medidas para impedir esta fuga à tributação nacional mais não fizeram do que descer a taxa de impostos sobre os lucros. 


É a fotografia da corrida para o fundo onde todos, menos os que fogem aos impostos, perdem. É um quadro com caixilho neoliberal de onde os tais mercados, com lugar sempre garantido na opinião publicada, vão deixando claro que, se as ‘distorções’ não forem removidas, se as políticas não forem ‘amigas da poupança’, se os impostos não baixarem, se o país não for ‘fiscalmente competitivo’, dizem-nos veladamente, a massa acaba num qualquer paraíso fiscal, ou seja, no inferno da soberania nacional, do Estado Social e de quem, vivendo do cheque ao fim do mês, não pode, evidentemente, pagar de modo chorudo a um qualquer ‘consultor’ para que este lhe coloque o salário nas Bahamas. 

Consequentemente, como bem se pode compreender, com impostos cada vez mais baixos, as empresas retêm cada vez mais lucros e com lucros a pesar cada vez mais no rendimento nacional, os salários pesam cada vez menos. 


Sucintamente, como chegámos a esta bandalheira? Como também afirma, bem, David Fickling “as pessoas encarregadas de redigir as leis e tratados [os tais Sarmentos, Canas e Pinhos deste mundo, digo eu] que sustentam os fluxos internacionais de capital têm muito a ganhar com a atual configuração. Enquanto uma quantidade irracional de riqueza e poder estiver concentrada nas mãos de alguns indivíduos e empresas, eles procurarão formas de transferir bens para qualquer lugar que prometa tratá-los de forma mais clemente” (...) “[e]m última análise, o problema reside nos fluxos desenfreados de capital que se deslocam pelo globo desde o fim, nos anos 70, do sistema de Bretton Woods” e, assim sendo, “[s]e os governos quiserem abordar a causa da evasão fiscal em vez de aplicarem infindáveis pensos rápidos aos sintomas, essa decisão [a livre circulação internacional de capitais] deve, em última análise, ser revista”. 

Um comunista lunático, este tipo da Bloomberg, só pode. E no entanto, obviamente, para mudar este irracional e imoral estado de coisas não basta reconhecer que "a natureza de curto prazo e a volatilidade inerente dos fluxos globais de capital são problemáticos” e cruzar os braços; de facto, para além da evasão fiscal e das suas consequências distributivas, as razões para abandonar a livre circulação de capitais são muitas e, parece-nos, claras. 

Para finalizar, e para agrado de alguns dos nossos estimados leitores e desagrado de outros, cá estamos novamente perante a questão das vestes do monarca, ou seja, da questão da União Europeia, onde a pertença depende da aceitação da livre circulação de capitais, uma das 'quatro liberdades' que obrigam os seus membros. Liberdades para uns, servidão para outros, como se vê.

Fonte: aqui