Mostrar mensagens com a etiqueta Intergerações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Intergerações. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de julho de 2026

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.


Also recall the episode of a tweet by George Bush's brother in 2016. The tweet was published by Jeb Bush on February 16, 2016, during his campaign for the Republican Party presidential primaries. The post is extremely minimalist and consists of just one image: a photograph of a .45 caliber semiautomatic pistol (an FNX-45) with the inscription "Gov. Jeb Bush" engraved on the barrel. The caption simply read "America." The tweet immediately went viral and generated a massive wave of criticism, memes, and parodies on a global scale. Users from all over the world began responding with photos of typical objects from their own countries using the same monotonic caption. In 2020, Anja Thaler made a homonymous music video "America is a Gun", based on this story.

domingo, 28 de junho de 2026

Esther Abrami - Transmission

“My grandmother was a violinist but stopped her career when she got married. I know she never imagined that her only granddaughter would take up the instrument she had left behind one day. This piece is my way of continuing her story, whilst also telling my own. ‘Transmission’ is about the passing of music through generations. This is the first time I’ve ever recorded one of my own compositions. Merci Mamie de m’avoir mis ton violon dans les mains.”

“Ma grand-mère était violoniste mais elle a arrêté sa carrière quand elle s’est mariée. Je sais qu’elle n’aurait jamais imaginé que sa seule petite fille, des années plus tard, reprenne l’instrument qu’elle avait elle-même délaissé. Cette pièce est ma manière de continuer son histoire, tout en inscrivant la mienne. Transmission parle de la passation de la musique entre les générations. C’est la première fois que j’enregistre l’une de mes compositions. Merci, Mamie, de m’avoir mis ton violon dans les mains.”


A avó de Esther, Françoise Abrami era uma violinista muito talentosa, mas, seguindo os costumes rígidos da sua época, abandonou totalmente a prática e a perspectiva de uma carreira musical assim que casou. A ligação entre as duas começou muito cedo: quando Esther tinha apenas três anos, a avó Françoise deu-lhe o seu próprio violino, que conservava com todo o carinho. Embora Esther só tenha começado a estudar o instrumento a sério por volta dos dez anos, o impacto de ter recebido aquele objeto tão cheio de história moldou o seu destino. 
Infelizmente, a avó Françoise já faleceu, mas a sua memória e o seu sonho continuam bem vivos a cada nota de "Transmission".

Biografia de Ilse Weber

Página Oficial

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




Veja mais

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Já ouviu falar do Síndrome da Referência Móvel - Shifting Baseline Syndrome?



Do you suffer from Shifting Baseline Syndrome (SBS)? Well, the answer is that everyone probably does. While SBS is not an actual medical condition, it has been gaining traction across environmental disciplines, as well as featuring in modern environmental literature, as seen in Isabella Tree’s Wilding: The Return of Nature to a British Farm and George Monbiot’s Feral.

What is Shifting Baseline Syndrome?

Coined by Daniel Pauly in 1995, while speaking of increasing tolerance to fish stock declines over generations, SBS also has roots in psychology, where it is referred to as ‘environmental generational amnesia’. Simply put, Shifting Baseline Syndrome is ‘a gradual change in the accepted norms for the condition of the natural environment due to a lack of experience, memory and/or knowledge of its past condition’. In this sense, what we consider to be a healthy environment now, past generations would consider to be degraded, and what we judge to be degraded now, the next generation will consider to be healthy or ‘normal’. As Soga and Gaston (2018) argue, without memory, knowledge, or experience of past environmental conditions, current generations cannot perceive how much their environment has changed because they are comparing it to their own ‘normal’ baseline and not to historical baselines.

Evidence for Shifting Baseline Syndrome in Conservation
While Shifting Baseline Syndrome is acknowledged by environmental scientists, particularly by conservationists, there is little research to support its existence that is beyond anecdotal, yet this evidence occurs globally; for example, in Eastern Indonesia, where biodiversity has declined rapidly over 30 years, younger fishers were found to recall a lower abundance of wildlife in the past, meaning they were perceiving less of a decline in the wildlife population, compared to older fishers. Similarly, in the Bolivian Amazonia, it was found that younger generations perceived the number of locally-extinct tree and fish species as lower compared to older generations. Again, a study in the Seward Peninsula in Alaska, USA, an area that is facing rapid hydrological environmental change as a result of climate change, found that younger people were less aware of changes in the quality and availability of five local water resources. While these studies are not directly about SBS, they have each recorded a difference in how older and younger generations perceive environmental change locally, which draws back to Soga and Gaston’s framework, which emphasises the importance of differences in memory, knowledge, and experience.

Despite the lack of empirical evidence, Shifting Baseline Syndrome is being given attention, perhaps because it has implications for individuals and environmental policy in fighting against climate change.

On an individual level, SBS has increased our tolerance to environmental degradation, including wildlife population decline, increased pollution and loss of natural habitats. This is because people will evaluate the severity of environmental degradation by referencing it back to their own cognitive baseline. In the UK, George Monbiot summarises the state of conservation, saying, “conservation in this country has become indistinguishable from destruction because what we’re conserving is an ecocidal system of sheep ranching. Sheep eat everything, and as a result, there’s no birds, no insects. We’ve lost almost everything, and yet we regard that as normal and natural.” In the UK people are actively conserving ecologically desolate ecosystems as they have no reference to past British wilderness.

At a societal level, this unawareness of past environmental conditions or current rates of degradation has implications for policymakers. For example, in the UK, the Environment Act of 1995 (the original legislation for National Parks was introduced in 1949) revised the legislation stating the statutory purpose for National Parks. Their main goal is to ‘conserve and enhance the natural beauty, wildlife and cultural heritage’. Those who introduced this legislation originally had a perception of ‘natural beauty, wildlife, and cultural heritage’, and so current National Park conservation practise is driven by a static perception, despite itself studying a subject of constant dynamism. When National Parks were originally established they were characterised by traditional agriculture. While this may seem insignificant the inclusion of ‘cultural heritage’ protects agriculture as part of the landscape, despite its environmental impact. Therefore the conservation approach in these areas can be described as unambitious as they maintain what is simply there or set targets that are not inclusive of historical data and trends. However, people are satisfied because the landscape looks the same as when the legislation was introduced.

Thus, our conservation and policy efforts are becoming less effective with each generation, while we become more satisfied with our diminishing actions because our targets are weaker in terms of biodiversity and habitat heterogeneity. The result is a feedback loop, where every generation’s increasing tolerance for environmental decline results in insufficient conservation efforts that inevitably cannot forestall degradation which next generations will tolerate because they have no preconception of the state of the environment.

Despite the ‘doom and gloom’, Soga and Gaston have designed theoretical response frameworks that could help mitigate the effects of SBS. They argue that solutions to minimise the impact of SBS lie in environmental restoration, increased data collection, reducing the ‘extinction of experience’ (the decline of people interacting with nature) and education.

Environmental restoration, mainly in the form of rewilding, will be able to demonstrate historical baselines to those who are potentially affected by SBS. Data collection will help to better inform current and future generations how the environment is changing and has changed from past conditions. Soga and Gaston suggest that citizen science could play a huge role in creating ‘large-scale, long-term data sets’ as well as increasing people’s interactions with nature to reduce this extinction of experience. In addition to this, reducing the extinction of experience through the promotion of positive experiences with nature will help to increase interaction with the environment. Finally, education will help individuals to better assess the state of the environment and to accurately communicate its past and present condition.

Thus, even while we wait for the scientific study of Shifting Baseline Syndrome to begin, the acknowledgement of this concept in environmental science means that leaders in the field could take steps to help mitigate its potential effects. Soga and Gatson’s solutions, specifically rewilding and education, could increase people’s interactions with nature and promote the importance of effective conservation.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Este é o livro do século segundo os utilizadores do Goodreads


Atualmente, o Goodreads é a maior plataforma digital dedicada aos livros e aos leitores. Com milhões de utilizadores em todo o Mundo. Esta é uma aplicação que permite registar leituras, dar classificações aos livros, escrever críticas e acompanhar a atividade de outros leitores, tornando-se numa rede social para amantes de livros.

Assim, regularmente, o Goodreads promove interações com os utilizadores. Em que os leitores podem escolher os seus livros favoritos, ou os mais esperados do ano. Neste caso, os utilizadores escolheram qual é, pelo menos até então, o livro do século.

Qual foi a escolha dos leitores do Goodreads?

“Cloud Atlas” saiu em 2004 e é uma obra de David Mitchell. A popularidade ou a distinção deste livro, é o facto de ser estruturalmente complexo, cruzando várias histórias ao longo de diferentes épocas.

São, então, seis narrativas distintas, em que cada uma é interrompida a meio e retomada mais tarde em ordem inversa. Ao longo do livro, temos histórias e géneros completamente diferentes. O autor aborda, por exemplo, o diário de um advogado no século XIX, rapidamente passa para um thriller contemporânea. Não esquece a comédia, mas também tem tempo para uma distopia futurista.

Apesar destas diferenças de estilo, todas as narrativas estão ligadas por temas comuns, como o poder, a exploração, a reincidência histórica e as consequências das ações individuais. A primeira história acompanha Adam Ewing, um notário americano que viaja pelo Pacífico e testemunha a exploração colonial e a escravatura.

O sucesso de Cloud Atlas
O que fascinou os leitores neste livro foi o facto de, apesar de ter histórias muito diferentes e em épocas distintas, elas acabarem por se cruzar em determinada altura, através de diários, cartas, livros ou filmes. Nesse sentido, há uma sensação de continuidade que agrada aos leitores.

Além disso, a forma como mistura géneros literários que não imaginávamos que se pudessem juntar. Conseguindo sempre explorar temas que são universais a todas as décadas.

Assim, “Cloud Atlas” é um livro que já ganhou vários prémios, além da sua popularidade com o público. Incluindo o British Book Awards Literary Fiction Award, o Richard & Judy Book of the Year Award e uma nomeação para o Nebula and Arthur C. Clarke awards.

A adaptação ao cinema
No Goodreads, “Cloud Atlas” conta com uma avaliação de 4.1 em 5. Uma avaliação quase perfeita dos leitores do Goodreads. Esta popularidade, deu origem a uma adaptação ao grande ecrã.

Para um filme com esta complexidade, não bastou um, mas três realizadores para o concretizar. Lana Wachowski, Tom Tykwer e Lilly Wachowski são os realizadores da adaptação de “Cloud Atlas”, que saiu em 2012.

Ao contrário do livro, o filme opta por uma montagem paralela em que as seis narrativas decorrem em simultâneo, com cortes constantes entre elas. Esta decisão torna a experiência mais dinâmica e acessível, mas também altera o ritmo e o impacto estrutural da obra original.

Nesse sentido, as reações ao filme foram divididas. Muitos elogiaram a ambição, a edição e a banda sonora, enquanto outros criticaram a complexidade e alguma irregularidade narrativa. Ainda assim, não lhe faltam grandes atores no elenco. Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant e Susan Sarandon são apenas alguns dos protagonistas do filme.

sábado, 21 de março de 2026

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

terça-feira, 3 de março de 2026

Shifting baseline syndrome key to growing nature disconnect


Not long ago, summer in the Pacific Northwest felt seasonal. Campfires were the norm, free from bans and fears of sparking catastrophic blazes. Windshield fluid had to be replenished after a long road trip — especially on rural highways or backcountry roads. We were lucky to get a week or two of hot weather.

Now, with drought alerts, heat and fire warnings and eerily fewer insects buzzing around the road, summer feels terminal. Many of us are old enough to be amazed at how quickly “normal” environmental conditions can change. Many of us are young enough to have never known anything different.

This latter inability to recognize the true scope of environmental change is a widespread phenomenon, called “shifting baseline syndrome.” Shifting baseline syndrome is “a socio-psychological phenomenon in which historical environmental information is lost over time and people do not notice changes in biological systems.” This concept was first coined by Daniel Pauly, a marine biologist at the University of British Columbia. In 1995, he observed that fisheries scientists evaluated changes in fish stock size and composition using the quantities at the beginning of their careers as a reference. With the next generation of fishers, fish stocks typically declined. However, each generation of scientists saw this degraded state as the new baseline, as there was, and still is, a lack of knowledge transfer between fishers. Without the passage of knowledge of environmental conditions, understanding of the magnitude of environmental change is lost. This ultimately shifts the condition’s “baseline,” which continues with each generation.

Shifting baseline syndrome is mainly linked to a lack of experience, memory and knowledge of historic conditions, typically caused by a lack of intergenerational communication about past environmental conditions and historical information. Studies have shown that older generations more readily recall accurate past environmental conditions compared to younger generations, indicating a “generational amnesia.” This gap between generations is happening through three avenues: lack of awareness or difficulties in accessing historical environmental data, lack of familiarity and knowledge of natural history and declining interactions between people and the environment. This last avenue is partly caused by increased urbanization, with fewer opportunities to interact with the environment, and partly because people are more inclined to go on social media or the internet instead of spending time in nature.

Why does it matter? 
Shifting baseline syndrome is increasingly recognized as a significant barrier to implementing policies and actions that could address some of today’s environmental challenges, because we misinterpret the scale and impact of change over time. When more experienced, older fishers fail to share their expertise and stories, newer fishers often accept the present ecosystem state without question. This can lead to less-effective measures being taken to address collapsing fish stocks because the resource decline was not recognized. This tolerance of degraded environments is one of many consequences of shifting baseline syndrome. When society gets used to a degraded environment as the baseline, further degradation will not be seen as something to be concerned about. With this generational amnesia and society’s decreasing contact with nature, we may see inappropriate conservation, restoration and management targets by policy-makers and stakeholders, and pushback against necessary conservation and restoration efforts. Even more concerning is the loss of public support for conservation measures such as the establishment of terrestrial and marine protected areas, which would go some way to halting environmental loss.

Shifting baseline syndrome is difficult to combat because it acts as an accelerating feedback loop. Trying to reduce its effects would take four strategies, suggested by researchers. The most direct action would be environmental restoration, specifically through rewilding efforts. As environmental degradation accelerates, this is of utmost importance to protect biodiversity. Second is to gather more high quality and consistent environmental data. This gives future researchers and scientists an actual, holistic baseline and makes them more informed regarding environmental conservation efforts they partake in. Furthermore, the broader public should be encouraged to increase interactions with nature to gain a better understanding and relationship with the environment. Finally, through public education, we can increase people’s familiarity with nature while also providing more accurate information on historic and current environmental conditions. Indigenous knowledge is crucial to limiting the syndrome’s effects, as it pushes forward the lived experiences of communities that recognize historic baseline conditions. In this way, sharing Indigenous knowledge is a remedy against generational amnesia.

Shifting baseline syndrome has been fuelled by the lack of connection that people have with one another and between people and the environment. In the article “Integrating historical sources for long-term ecological knowledge and biodiversity conservation,” the researchers highlight the value of historical data sources for providing a baseline for species and ecosystem change over time. Since beginning this initiative, we have pored over historical images and maps and read accounts of voyages from the 1800s describing vast schools of dolphins and porpoises playing about ships and a sea that abounds with fish. How much we have lost! Over the month of March, we will compare historical records with present-day imagery and historical storytelling to represent generational change. We hope that through our exploration of shifting baseline syndrome, we can encourage communities to reflect on changes they’ve observed and encourage action and advocacy for increased environmental protection, so that we can begin to halt biodiversity decline.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Jovens portugueses apresentam pior saúde mental que adultos acima dos 55 anos


A saúde mental dos portugueses é pior entre os jovens adultos face à população acima dos 55 anos, apesar dos laços familiares fortes e hábitos alimentares saudáveis, fatores socioculturais habitualmente associados a essa diferença geracional.

É assim em todos os 84 países analisados no relatório Global Mind Health (Saúde Mental Global) 2025 e Portugal não é exceção: os níveis de saúde mental dos jovens são tendencialmente mais baixos em comparação com as faixas etárias mais velhas.

O relatório, da organização Sapien Labs, mede a saúde mental das populações com acesso à Internet e na edição mais recente, divulgada esta quinta-feira, apresenta dados de perto de um milhão de pessoas em 84 países, incluindo Portugal.

À semelhança da tendência global, também os jovens portugueses, entre os 18 e 34 anos, experienciam mais desafios de saúde mental clinicamente significativos, quando comparados com a faixa etária acima dos 55 anos.

Ligeiramente acima da média global de 36 (numa escala de -100 a 200), o quociente de saúde mental médio dos jovens portugueses aproxima-se de 40.

Portugal surge em 46.º lugar
No 'ranking' dos 84 países participantes, Portugal surge assim em 46.º lugar, melhor posicionado do que a população portuguesa acima dos 55 anos de idade que, ainda assim, apresenta melhores níveis de saúde mental do que os jovens.

Com perto de 90 pontos no quociente de saúde mental, os portugueses nesta faixa etária conseguem, de acordo com a escala, ser plenamente produtivos, 70% do tempo, em todos os aspetos da vida.

No contexto global, as diferenças geracionais são tendencialmente maiores nos países mais ricos e, pelo contrário, menos acentuadas nos países da África subsaariana.

A influência dos alimentos ultraprocessados
Os autores apontam quatro aspetos socioculturais que explicam os níveis de saúde mental mais baixos entre os jovens, mas nem todos explicam os dados referentes a Portugal, desde logo no que respeita aos hábitos alimentares.

De acordo com estudos citados no relatório, o consumo de alimentos ultraprocessados -- "cujo consumo está a aumentar entre as gerações mais jovens" - contribui entre 15 a 30% para o agravamento da saúde mental e está associado ao aumento da depressão e diminuição do controlo emocional e cognitivo.

Os jovens portugueses, no entanto, destacam-se por serem dos que menos consomem este tipo de alimentos, ainda que o façam mais do que os adultos acima dos 55 anos.

Portugal é um dos 25 países em que os jovens da "geração Z", entre os 18 e 24 anos, começaram a utilizar 'smartphone' mais cedo, entre os 12 e os 13 anos, sendo que o acesso precoce a 'smartphones' está associado ao aumento de ideação suicida, agressão e outros problemas na vida adulta.

Outro dos aspetos em que Portugal surge destacado diz respeito aos laços familiares fortes, associados a sintomas depressivos "significativamente mais baixos".

Em 18.º lugar no 'ranking', Portugal é dos países em que a percentagem de jovens adultos com laços familiares fortes é mais próxima da registada entre os adultos acima dos 55 anos, a par de Itália, França, Bélgica.

Quanto à espiritualidade, outro dos aspetos socioculturais analisados e associado a "vários benefícios de saúde mental", a percentagem é ligeiramente mais elevada entre os mais jovens, uma tendência que se verifica, ainda que em maior proporção, sobretudo em países da África subsariana e Israel.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Max Richter e Mari Samuelsen - Mercy


Um filme de Yulia Mahr.
Violino solo: Mari Samuelsen
Piano: Max Richter

Mercy, composta em 2010 para Hilary Hahn e aqui interpretada com tanta beleza por Mari Samuelsen, foi o ponto de partida para todo o projeto VOICES. Ao longo dos anos de trabalho, a música assumiu muitas formas, quase todas postas de lado, mas a música de Mercy foi sempre uma espécie de estrela-guia, orientando o resto da obra. O belo filme de Yulia coloca a questão da misericórdia e da compaixão firmemente no nosso mundo quotidiano. Estamos todos juntos nisto.

sábado, 1 de novembro de 2025

Ninguém devia ter mil milhões de euros

Vamos começar por aqui. E não, isto não é inveja, é matemática. É uma quantia absurda. A maior parte destas fortunas gigantescas é herdada. E a outra parte? Foi acumulada à custa do que não foi pago a quem realmente ajudou a construí-la. Por outro lado a tecnologia permite lucros globais com poucos custos; o valor das ações aumenta fortunas rapidamente; os impostos baixos e influência política protegem os ricos e finalmente a globalização, que concentra lucros nas grandes empresas.

Antigamente, alguns magnatas construíam bibliotecas, ou fundavam universidades, pelo menos sentiam a obrigação de devolver algo estrutural à sociedade.

Hoje? A ambição é ir ao espaço, ter o iate maior, o relógio mais caro e 50 carros na garagem. Não se importam de pagar valores absurdos por caprichos, só lhes custa pagar pelo trabalho. E o trabalho, a produção, o esforço humano, é a única coisa que realmente gera riqueza.

Mas para perceber o quão doentio isto é, temos de sair dos milhões e ir para o tempo de vida.
A nossa medida vai ser o Salário Mínimo em Portugal, €870 por mês. Com subsídios, são €12.180 por ano. Este é o valor de um ano inteiro da nossa vida de trabalho.

À escala de Portugal, a Família Amorim tem €5,4 mil milhões.
Para eles gastarem isto, ao ritmo de um ano inteiro do nosso trabalho, demorariam 443 000 ANOS.

A nossa espécie, o Homo Sapiens, existe há 300 000 anos. A totalidade da nossa história não chega.
À escala do Mundo, o homem mais rico, Elon Musk, tem €426 mil milhões. Demoraria 35 MILHÕES DE ANOS a gastar tudo.

Os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos. Isto não é tempo de vida. É tempo geológico.

Quem resumiu isto na perfeição foi a Billie Eilish esta semana. 
Billie Eilish pertence à Geração Z.

Num evento com bilionários na audiência, depois de anunciar que ia doar 11.5 milhões de dólares, confrontou-os diretamente: "És bilionário, porquê?"

Ela não está a falar de culpa pessoal. Está a falar desta distorção completa da escala humana.
O problema é um sistema que permite que um indivíduo acumule o equivalente a 35 milhões de anos de trabalho de outra pessoa, enquanto essa outra pessoa mal consegue sobreviver com o salário de um ano.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ensaio - Contra a boçalidade, polarização, ódio, desinformação e reforço positivo nos jovens


Bom dia, amigos. Um dia de resistência. Uma greve geral!                            
Lembrei-me deste tema que se tronou um ícone da música gótica nos anos 80 e é muito actual.
Há músicas que falam de paisagens interiores — desertos de emoção, mares contidos, ventos que nos atravessam sem deixar rasto. “No Time to Cry”, dos Sisters of Mercy, é uma dessas paisagens sonoras: fria à superfície, mas pulsante por dentro.
Lançada em 1985, é uma confissão disfarçada de resistência. O narrador ergue-se entre ruínas afectivas e declara: “não há tempo para chorar”. Não por falta de sentimento, mas porque a dor já se tornou parte do caminho.
A voz grave de Andrew Eldritch ecoa como um mantra urbano — o cântico de uma humanidade que aprendeu a conter o pranto para sobreviver num mundo acelerado e distraído.
"I've got no time to cry" — sugere que o narrador tenta fugir das emoções, mantendo-se ocupado ou emocionalmente desligado.

Acontecimentos recentes daquele jovem de 14 anos que matou a mãe, ou ainda a filha que esfaqueou o pai. Chocou o País. Já foram ditas muitas opiniões. Na minha opinião a falta de barreiras na educação nos anos iniciais leva a que filhos pensem que podem tudo, que têm direito a tudo sem perceberem que têm igualmente deveres. Incapacidade de aceitarem o "não" às suas vontades, leva a comportamentos destes. Porém há que dizer sempre aos filhos que tal como a natureza, também o ser humano alterna entre ciclos de retraimento e renascimento. Há que dizer aos filhos o Não com convicção, para lhes fornecer ferramentas de integração social.  Há épocas em que o inverno domina a alma, e o gelo emocional é a única defesa possível. Nessa altura cabe à família a escuta e dizer-lhes sempre acreditar no Amor, porque na Natureza também há que sobreviver e as espécies, mesmo nesse silêncio, progridem e reinventam-se. Adaptam-se e avançam com novas estratégias.   

Claro que hoje em dia a tarefa dos pais é muito mais desafiante.. As redes sociais criam dependência, espalham violência, das mais variadas formas. A extrema direita está a alimentar o lado mais fraco que todos temos, está-se a banalizar o ódio, afectando a saúde mental de pais e filhos. Estas situações curam-se com pedagogia, da presença, dos bons exemplos, na família, amigos e até em comunidades. A comunicação social podia e devia ajudar. Porém o que se vê é explorar a violência até ao infinito (Correio da Manhã, p.ex.), dar palco à extrema-direita,  que alimentam o tal lado mau da humanidade. A média perdeu todo o seu sentido pedagógico: não fornece exemplos de altruísmo, de educação ambiental.  E também não podemos esquecer o espectáculo de boçalidade que ocorre com cada vez maior frequência e maior intensidade na AR. Porém, chegar a casa e conversar. Sem net, sem  TV. Ouvir os filhos, netos. 

Aos pais, avós e jovens, estou sempre a dizer: confiem, inspirem-se, leiam mais, adiram a alguma associação ambiental e ou de solidariedade. E façam actividades comuns junto da Natureza. Não adiem o Amor universal.

"No Time to Cry” é, assim, um espelho do nosso tempo: uma elegia à contenção, um hino à resistência emocional e, quem sabe, um lembrete de que até o mais frio dos corações espera pela primavera. É um processo individual e de escuta. E isso faz-se com activismo pró-activo, afectos, cooperação e gregarismo 🌿

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O papel cívico das tascas


O papel cívico das tascas é um tema fascinante, porque estas pequenas instituições populares vão muito além da função de servir comida e bebida — são verdadeiros centros de sociabilidade, cultura e cidadania informal. Eis algumas dimensões importantes desse papel:

1. Espaço de convivência e debate
As tascas sempre foram lugares onde as pessoas se encontram para conversar, partilhar opiniões e discutir assuntos do dia — da política à bola, da aldeia ao mundo.
Nelas, as ideias circulam livremente, o que favorece o exercício do pensamento crítico e da expressão pública.
Num certo sentido, são micro-espaços democráticos, onde todos têm voz, independentemente da classe social ou nível de instrução.

2. Igualdade e pertença
A tasca é um dos poucos espaços onde a convivência é horizontal: o trabalhador, o agricultor, o artista, o professor, o reformado — todos se encontram à mesma mesa.
Esse ambiente reforça laços comunitários e combate o isolamento social.
Através da partilha (um copo de vinho, um petisco), a tasca reafirma a identidade coletiva de um bairro, aldeia ou freguesia.

3. Preservação da cultura popular
Muitas tascas funcionam como arquivos vivos da memória local: guardam histórias, tradições orais, expressões idiomáticas e saberes práticos.
São escolas informais de cidadania e cultura, onde se aprende pelo convívio.
Também desempenham um papel importante na transmissão intergeracional — os mais velhos contam histórias e ensinam valores aos mais novos.

4. Solidariedade e redes de apoio
As tascas muitas vezes são refúgios de proximidade, onde se organizam ajudas discretas: uma vaquinha para quem está em dificuldades, um aviso sobre alguém que precisa de apoio, um contacto que resolve um problema.
Assim, cumprem uma função solidária e comunitária, especialmente em tempos de crise.

5. Resistência e identidade local
Num mundo cada vez mais uniformizado, as tascas representam uma forma de resistência cultural.
Mantêm o carácter local, autêntico e humano das comunidades.
Funcionam como símbolos de identidade territorial — um contraponto às cadeias globais e à cultura de consumo rápido.

Em suma, o papel cívico das tascas reside na sua capacidade de gerar comunidade, diálogo e identidade, servindo como espaços de cidadania quotidiana onde se pratica a convivência, a empatia e o sentido de pertença.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

A Conexão Humana com a Natureza Está a Diminuir Drasticamente — O Que Isso Significa?


Um estudo recente liderado pelo professor Miles Richardson, da Universidade de Derby, revela que a ligação das pessoas à natureza diminuiu mais de 60% desde 1800. Esta queda dramática reflete-se, por exemplo, na forma como palavras como “rio”, “musgo” e “flor” praticamente desapareceram dos livros ao longo dos últimos 200 anos.
O estudo, publicado na revista científica Earth, utilizou um modelo computacional para analisar dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e a falta de transmissão intergeracional do contacto com a natureza.
Nos últimos dois séculos, o mundo mudou profundamente. A industrialização, o crescimento das cidades, a digitalização e o ritmo acelerado da vida moderna têm afastado cada vez mais as pessoas da natureza. Menos tempo passado ao ar livre e um quotidiano dominado por ecrãs levam a que as novas gerações cresçam com menos contacto com ambientes naturais.
Esta desconexão tem consequências importantes para a saúde física e mental, para o nosso bem-estar e para a forma como encaramos a proteção ambiental. Estudos mostram que passar tempo na natureza ajuda a reduzir o stress, melhora a concentração e fortalece o sistema imunitário. Além disso, quem conhece e valoriza a natureza está mais propenso a agir para a preservar.
O declínio no uso de palavras ligadas à natureza em livros não é apenas uma curiosidade linguística — é um sinal cultural de que a nossa relação com o mundo natural está a enfraquecer. Se não formos capazes de recuperar este contacto, corremos o risco de perder a empatia e o cuidado necessários para proteger o ambiente que sustenta a vida.
Para reverter esta tendência, é essencial que políticas públicas e iniciativas educativas incentivem a aproximação das pessoas à natureza, valorizando o património natural e promovendo experiências ao ar livre. O estudo de Richardson sugere que intervenções eficazes incluem a introdução das crianças à natureza desde cedo, como em escolas do bosque, e a expansão significativa dos espaços verdes urbanos — até 1.000% em algumas áreas. Estas mudanças podem ajudar a restaurar a ligação das pessoas à natureza e promover um futuro mais sustentável.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Fred again - Cmon


To a place that′s only ours
I will rest my head on your shoulder for a moment
Please make it

Please make it
Come on, come on

Please make it count
Come on, come on

Please make it count
Come on, come on

Qualidade de Brian Eno, mas as nuances electrónicas da voz de Fred Again, emocionam e não nos deixam indiferentes. Há uma linguagem transversal e que denuncia estes tempos de ódio. Diz a grande Clarisse Lispector o seguinte "A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente."

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Smartphones na escola: entre o vício e a inteligência



Por José Afonso Baptista
Durante décadas, a escola foi vista como um espaço protegido — lugar de concentração, convivência e construção de conhecimento. Hoje, esse refúgio está ameaçado por um pequeno objeto que habita discretamente os bolsos dos alunos: o smartphone.
O documentário britânico Swiped: The School That Banned Smartphones retrata uma realidade inquietante: jovens que recebem milhares de notificações diárias, dormem mal, sentem ansiedade, isolam-se e perdem o foco. Quando afastados dos aparelhos por três semanas, melhoram o sono, comunicam mais e sentem-se emocionalmente mais estáveis. A escola transforma-se. E os alunos também.
Esta transformação evoca as grandes epidemias da história, da peste negra à toxicodependência. A dependência digital é a nova peste: invisível, socialmente aceite, mas profundamente desequilibrante. Como em La Peste, de Camus, há quem negue, relativize ou se conforme. Mas há também quem enfrente, não com o interdito, mas com inteligência.
A interdição total, agora proposta em vários países, é tentadora. Mas proibir não é educar. Impedir o uso de uma ferramenta não ensina a usá-la bem. A escola deve, sim, estabelecer regras, mas por via do diálogo, da negociação e da criação de contextos de uso responsável. Proibir é mais fácil do que educar — mas também é mais pobre.
Primeiro argumento: se proíbo, não ensino. A escola deve formar para o uso crítico e consciente da tecnologia, ensinar a resistir à dispersão e a valorizar o silêncio e a atenção.
Segundo: eliminar os telemóveis é afastar um recurso poderoso. São biblioteca, caderno, lupa, gravador e muito mais. Integrados de forma criativa e pedagógica, enriquecem a aprendizagem.
Terceiro: a proibição nega autonomia ao aluno. Educar é ajudar a escolher, não a fugir das escolhas. Literacia digital inclui saber usar, regular e avaliar criticamente os meios tecnológicos.
Quarto: proibir alimenta a desconfiança. Uma escola que regula tudo por decreto diz, sem dizer: “não confiamos em vós”. A boa educação exige confiança - nos alunos, nos professores e nas famílias.
A solução não está na fuga, mas na formação. Ambientes regulados, com momentos definidos para o uso e para a pausa, são essenciais. Projetos colaborativos, trabalho por problemas, uso de plataformas digitais para monitorizar a participação e promover a autonomia, tudo isto é mais eficaz do que o interdito.
O smartphone não é apenas um aparelho: é a porta de entrada para o mundo digital e o corpo que acolhe a alma da inteligência artificial. Retirá-lo sem mais é como ter uma fonte de água pura e não poder matar a sede. A escola do futuro não se faz contra a tecnologia, mas com ela, de forma crítica, ética e criativa. É esse o desafio. E é esse o nosso dever.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Dia Mundial da Paz - Mensagem do Papa Francisco


Todos os anos é publicado em primeiro de janeiro a mensagem do Santo Padre o Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz. No primeiro dia do ano, além de ser para nós católicos o dia de Santa Maria Mãe de Deus, o mundo inteiro celebra o Dia da Confraternização Universal ou Dia Mundial da Paz. Na mensagem, o Papa Francisco pede que todos busquem a paz, pois somente ela é capaz de unir a todos os povos.

Além da mensagem, que é publicada nesse dia 1º de janeiro, o Papa Francisco profere diretamente de Roma a benção “Urbi et Orbi”, ou seja, a cidade de Roma e ao mundo. Essa benção que o sucessor de Pedro profere em Roma é a benção da paz que vem do Senhor, conforme o que ouvimos na liturgia da Palavra desse dia: “Que Deus nos dê a sua graça e a sua benção” (Sl 66/67). Independente de raça ou religião, a benção que o Papa profere nesse dia é para todos os povos do mundo e todos devem acolher a benção e a mensagem proferida pelo Papa Francisco.

Este é o 58º Dia Mundial da Paz e o tema da mensagem deste ano é: “Perdoai-nos as nossas ofensas: dai-nos a vossa Paz”, as mensagens para esse dia sempre têm como motivação animar todos os povos e encorajá-los para se unirem na construção de um mundo melhor para todos. A mensagem sempre tem cunho humanitário e independe de religião, tornando-a universal. Todos os povos são chamados a edificarem um mundo melhor e se unirem por construir a paz.

O desejo de Deus é que todos os povos fossem um, por isso rezamos “Pai-Nosso”, no plural. É obrigação de todos os povos se unirem na construção da paz. O desejo de Deus é que os povos do mundo inteiro se unissem e promovessem a paz e não as guerras.

Todas as mensagens já publicadas têm como tema central a paz, mas em especial a desde ano devido ao momento atual que o mundo atravessa com duas grandes guerras, que inclusive o Papa Francisco mencionou na benção “Urbi et orbi” do Natal. Quando o Papa Francisco usa o tema “Perdoai-nos as nossas ofensas”, ele pede que Deus perdoe as ofensas de toda a humanidade que infelizmente é incapaz de dialogar e promover a paz, e ao invés disso preferem as armas.

O Papa Francisco faz uma súplica ao Senhor, que perdoe as ofensas de todos nós quando, infelizmente, não conseguimos construir a paz em nossa casa, em nosso ambiente de trabalho, na escola, enfim, em nosso convívio social. O caminho para a edificação da paz deve começar, em primeiro lugar, de cada um de nós, a partir disso é possível pedir ao Senhor a paz para todo o mundo, pois se não conseguirmos manter a paz no ambiente em que vivemos, não podemos pedir ao Senhor a paz para restante do mundo.

Por isso, em primeiro lugar devemos pedir o perdão ao Senhor por todas as vezes que não conseguimos manter a paz e depois pedir ao Senhor a paz tão necessária. Infelizmente, através das guerras, muitos inocentes acabam morrendo, pessoas que não têm nada a ver com as guerras, sobretudo as crianças, enfermos e idosos, conforme afirmou o papa na benção de Natal. As guerras acontecem por causa da dureza do coração do ser humano e pela ganância do ter e do poder. O coração humano se afasta de Deus e não há espaço para amar ao próximo, mas somente para guerras e para o ódio.

Neste ano de 2025 a Igreja vive o Jubileu da Esperança: que essa esperança invada o coração de todos para que a situação das guerras melhore e tenhamos a paz. Peçamos ao Senhor o fim de todas as guerras e que as novas gerações que estão nascendo agora tenham no coração o desejo da paz e de um mundo melhor. Os conceitos esperança e perdão são o coração de todo o jubileu. Pois, ao longo de todo o jubileu poderemos obter de Deus o perdão para os nossos pecados, e cada fiel é convidado a esperar com todo amor nesse Deus misericordioso.

Deus chama a cada um para confiar em sua misericórdia, Deus não condena ninguém, não olha a quantidade de nossos pecados, mas sempre está pronto para nos dar o seu perdão. Tenhamos a esperança na reconciliação e no amor de Deus por nós, tendo esperança na misericórdia do Senhor é possível se abrir ao perdão do próximo e amá-lo com toda confiança. Cabe a cada pessoa pacificar, conversar, dialogar, e não guerrear e disseminar o ódio.

É missão de todos os governos e autoridades das nações promoverem condições de vida digna para a população, desde saneamento básico, saúde, educação e moradia, mas também é missão das autoridades promoverem a paz e não as guerras. E ainda, cuidarem da segurança pública das cidades, municípios e país, pois conforme já sabemos, temos algumas guerras em curso no mundo, mas infelizmente vivemos uma guerra civil em muitos estados e cidades do Brasil, por causa da violência urbana.

Rezemos pela paz mundial e pela paz em nosso país, cidade e estado. Rezemos antes de tudo pela conversão daqueles que só tem o desejo de ódio e violência no coração, para que se convertam e optem pelo caminho da paz e justiça. Unamo-nos ao Papa Francisco nesse dia e rezemos junto com o tema dessa mensagem: “Perdoai-nos as nossas ofensas: dai-nos a vossa Paz” 

"A paz é a única luta que vale a pena travar" - Albert Camus

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Brain rot, conheces?


Generative AI masculine medical figure with sinus and headache

Brain rot foi eleita palavra do ano. Junta-se ao leque de expressões com que vamos fingindo abordar seriamente os efeitos das redes sociais nas sociedades contemporâneas, como já em 2020 tinha acontecido com doomscrolling.

Durante a semana passada, ainda que possa ter passado despercebido no meio de tanto acontecimento, foi notícia o facto de a expressão brain rot ter sido considerada palavra do ano. Numa votação online em que participaram 37 mil internautas promovida pela Oxford University Press, editora do famoso dicionário Oxford, a expressão levou a melhor sobre uma série de outros termos de calão da internet que compunham a lista. E rapidamente correu o mundo, num movimento habitual que já se vai tornando ritual sempre que chega esta altura do ano. Tops, listas, nomeações e eleições online do outro lado do mundo invadem os nossos alinhamentos noticiosos, especialmente quando confirmam vieses ou servem para marcar posições. E neste caso não é excepção.

Com a notícia sobre a palavra do ano, jornais por todo o mundo estrearam a expressão nas suas páginas, repetindo dezenas de vezes o alinhamento da peça: palavra do ano, shortlist completa, dados sobre crescimento da utilização, facto sobre o surgimento da expressão referido originalmente no comunicado, conclusão vaga sobre os perigos para que esta expressão aponta. A eleição de uma palavra entre outras numa votação online sugere o apodrecimento cerebral promovido pelo consumo excessivo de redes sociais e, simultaneamente, revela-nos como a toxina já se espalhou por todo o corpo social.

O viral como crítica do viral
Entre as linhas ténues das conclusões vagas, brain rot junta-se ao leque de expressões com que vamos fingindo abordar seriamente os efeitos das redes sociais nas sociedades contemporâneas, com honras de palavra do ano, como em 2020 tinha acontecido com doomscrolling. Paradoxalmente, a constatação dos efeitos nocivos das redes sociais e da deterioração do valor do conteúdo a que estas obrigam, não serve de pretexto para interromper por instantes este ciclo. Serve-lhe antes como reforço: gerando centenas de artigos de valor duvidoso que reforçam as dinâmicas de poder online, nos embrulham nesta cultura sem tempo e sem local, onde o viral se confunde com global, e a crítica se assemelha a um reflexo do objeto criticado.

Esta circularidade pode ser vista como uma demonstração cultural da nossa condição póstuma, como apelidou Marina Garcés no seu livro Novo Iluminismo Radical. “O problema é que quando a cultura se reduz à crítica da cultura, a sua autonomia fica condenada à auto-referencialidade: a filosofia como crítica da filosofia, a arte como crítica da instituição arte, a literatura como crítica das formas literárias, etc” — escreve a filósofa, e, a propósito deste exemplo específico, podemos acrescentar algo como o viral como crítica do viral. Se por um lado se estabelece uma crítica sobre um modo de estar online, essa crítica é mais uma constatação (ou uma contemplação?) do que um questionamento — retomando Garcés, “um exercício de crítica que só consegue mover-se no espaço existente entre o que já foi e a impossibilidade de ser outra coisa”.

Constatar como as redes sociais se tornaram tóxicas, que têm efeitos nocivos na saúde mental e que quase todos passamos tempo demais agarrados aos telemóveis tornou-se quase um ritual nas próprias redes sociais, mas à medida que o tempo passa, esses momentos tornam-se cada vez mais coreográficos. Cada um purga os seus vícios ou exprime as suas virtudes, na partilha de mais um viral, sem que se conquiste nem um centímetro ao fantasma da impossibilidade. Apropriando Mark Fisher, “o cancelamento do futuro é acompanhada de uma diminuição das expectativas”, e estes momentos de constatação, mais do que criticar as raízes do problema, normalizam-no, como se não houvesse alternativa.

Se no seu texto Fisher utiliza a música como exemplo, as palavras que escreve encaixam na perfeição quando pensamos no panorama mediático e cultural: “Nos últimos dez a quinze anos, a Internet e a tecnologia das telecomunicações móveis alteraram a textura da experiência quotidiana de forma irreconhecível. No entanto, talvez por causa de tudo isto, há uma sensação crescente de que a cultura perdeu a capacidade de apreender e articular o presente. Ou pode ser que, num sentido muito importante, já não haja presente para apreender e articular”. Em vez de uma crítica com valor emancipatório, nas palavras de Garcés, “que nos devolva a capacidade de elaborar o sentido e o valor da experiência humana a partir da afirmação da sua liberdade e da sua dignidade”, o que é servido é uma espécie de meme, mascarado de reflexão com uma referência histórica ou intelectual, neste caso a alusão a Thoreau que terá usado a expressão pela primeira vez em 1854 no livro Walden.

Não é que fosse expectável que os conteúdos em torno da palavra do ano desencadeassem um momento revolucionário de reflexão global em torno do sentido das nossas vidas neste mundo digital. Mas a escolha desta palavra em específico, em mais um ano marcado por guerras e uma discussão em torno do genocídio, pela amplificação do entusiasmo desmedido da Inteligência Artificial ou a ausência de respostas perante alguns dos maiores problemas da humanidade, é sintomática. Mostra-nos que estamos a passar demasiado tempo online e a limitar com isso a nossa visão do mundo, mas também as diferentes escalas em que hoje nos movemos, e a forma como continuamos a olhar para a tecnologia: numa perspectiva despolitizada, como se fosse uma inevitabilidade que nos é imposta e não o resultado de um conjunto de processos dos quais, mais ou menos, todos fazemos parte. Individualista, retomando à dimensão do comportamento individual um fenómeno social com características sistémicas evidentes, desde a ausência de regulação adequada até à implicação das empresas que desenvolvem as grandes plataformas tecnológicas nas grandes questões do presente. E como uma espécie de caixote para os males do mundo, onde pela indefinição tudo acaba por caber, servindo como bode expiatório para a podridão dos cérebros, neste caso.

A escolha de uma palavra popularizada pelas gerações mais novas, e as próprias palavras do comunicado que apontam estas gerações como os principais responsáveis pelo uso e criação do conteúdo digital a que o termo se refere, fazem outro desvio importante. Dando a esta questão uma patine geracional, reforça-se o preconceito em torno do mau uso das redes sociais como sendo uma característica exclusiva dos mais jovens — quando basta passar 10 minutos no Facebook para percebermos que atravessa todas as gerações. Mas mais do que isso: a tendência para a infantilização e despolitização do debate em torno deste tipo de questões faz com que raramente se unam os pontos que traçam o mapa da economia do espaço digital de forma coerente. Por outras palavras, raramente se expõe que o nosso cérebro não apodrece por uma espécie de depressão colectiva, mas porque o modelo económico vigente em grande parte da internet que compõe o nosso quotidiano passa, em parte, por apodrecê-lo, tirando-nos a capacidade de decidir livremente com complexos esquemas de persuasão detalhadamente pensados; e não só, roubando o horizonte fora das redes sociais.

Em 2018, o artista James Bridle denunciava num ensaio e numa TedTalk como a proliferação de vídeos viciantes no YouTube não era um sinal do acaso, nem fruto de uma intenção de quem concebe os algoritmos de recomendação, mas antes uma intricada relação de interdependência entre infraestrutura tecnológica (que quer maximizar o tempo na plataforma) e incentivos económicos (é barato fazer conteúdos online e fácil monetizá-los). Desde então, o contraste acentuou-se ainda mais e, hoje, o que vemos como virais e fenómenos da internet (e que muitas vezes começam como tal) são alguns dos conteúdos melhor remunerados online. Desde os canais de YouTube como Mr. Beast, ou o famoso entre os mais novos Skibidi Toilet, ao gigante mercado da influência que já faz circular milhões. A internet tornou-se num gigante mercado de entretenimento, mas ao longo dos anos, por muito que constatamos que este facto alterou diferentes circunstâncias da vida social (proliferação de fake news, polarização do espaço público, perda de valor do jornalismo, e podíamos continuar) continuamos sem ter uma solução à medida. Talvez porque estejamos a ver mal o problema.

Num texto publicado no seu substack em 2021, Kevin Munger, professor de Ciência da Computação num departamento de Ciência Política partilhava, a propósito da deterioração do Facebook, um ponto de vista que parte de uma premissa provocadora para expandir a reflexão: o Facebook são os outros. O mesmo racional podemos aplicar à internet no geral, aos sucessivos formatos de qualidade duvidosa e à nossa querida palavra do ano: brain rot são os outros.

Nesse texto, Munger sugere que a nossa constatação sobre a fraca qualidade dos conteúdos é, de certa forma, uma confronto com pessoas, grupos e comunidades a que não acedemos nas nossas bolhas. Ao contrário dos meios de comunicação em massa, dos media estabelecidos, onde apenas alguns conseguem aceder, por capacidade ou conhecimentos, Munger sustenta que as redes sociais são uma forma de democracia passiva com efeitos algo perversos. Os algoritmos e as redes sociais têm um papel aparentemente inclusivo, integrando todos no espaço digital, mas ao mesmo tempo deixam os mais desprotegidos à mercê das lógicas predatórias, de estratégias altamente aditivas e da capacidade de persuasão dos algoritmos. O que faz com que, em última análise, a deterioração da internet seja um sintoma da nossa incapacidade de tomar conta uns dos outros — no sentido de os equipar com as ferramentas necessárias para uma utilização crítica e benéfica das tecnologias. “A democratização da comunicação online demonstrou a hipocrisia deste ponto de vista. Sempre houve um imperativo moral para sermos mais atenciosos e inclusivos; agora é uma necessidade política. Todos nós odiamos o Facebook, e o Facebook (a empresa) é, reconhecidamente, terrível. Mas, em grande medida, odiamos o Facebook porque o Facebook são outras pessoas” – escreve, apontando aos efeitos sistémicos e prevalentes desta marginalização digital.

Nietzsche não é um hamburguer
O brain rot está longe de ser circunscrito a uma experiência individual e essa é outra característica que a eleição da palavra do ano falha em abordar. Não são só os nossos cérebros que estão podres, mas muitos dos sistemas em que vários cérebros se interligam. E a diferença entre um conteúdo sem valor do TikTok, que consumimos enquanto estamos na casa de banho, e uma notícia num bloco informativo num canal mainstream sobre um viral, um hype tecnológico desmedido ou enquadrando de forma errada conteúdos que surgem online, continuam a ser centenas de milhares de visualizações. O mesmo sistema que apodrece os cérebros através de investimentos avultados em investigação de padrões de design de interfaces e algoritmos que fomentem a adição, e renega a responsabilidade sobre os efeitos causados em discursos bonitos e pseudo-ciência publicada em blogs, é retro-alimentado por uma sociedade que, como dizia Fisher, não tem revelado a capacidade de compreender e articular o presente. Que baixou as expectativas e se deixa fascinar por qualquer viral.

Noutro escrito famoso, Fisher diz que os estudantes hoje em dia querem ler Nietzsche como quem come um hamburguer, e que estes não se apercebem que a complexidade e a indigestibilidade de Nietzsche é, em parte, o que lhe confere o valor que tem. O mesmo racional se pode mais uma vez expandir e aplicar à nossa apreciação dos fenómenos contemporâneos e do foro tecnológico. Queremos explicá-los e nomeá-los com a mesma simplicidade que partilhamos um viral, sem percebermos que essa constante simplificação é parte do problema e não da solução. Não precisamos de mais um termo engraçado que descreva vagamente o que nos acontece quando nos perdemos no TikTok, precisamos de perceber o que nos falta e procuramos nesta espiral, e que forças estão em jogo nesta interação.

Um caso paradigmático desta décalage entre a mediatização dos fenómenos e a sua compreensão, e a forma como alimenta e reforça para um brain rot generalizado, é a Inteligência Artificial e todo o discurso mainstream que se tem gerado. Artigos a afirmar que a Inteligência Artificial pensa, a propaganda desmedida das qualidades da tecnologia em segmentos críticos onde escasseiam os testes ou a simples incompreensão da diferença entre os setups científicos e a aplicabilidade prática das soluções — que geram promessas como “a IA pode resolver a crise climática”, “a IA consegue ler mentes” ou “a IA agora pode prever crimes” — denunciam outro sintoma característico da tal condição póstuma: a delegação da inteligência (como lhe chama Garcés). E como a nossa relação com a tecnologia nos envolve nesta espiral de apodrecimento não só quando estamos no TikTok.

A tecnologia ou é o nosso fim, ou a solução. “Do que se trata é de delegar a própria inteligência, num gesto de pessimismo antropológico sem precedentes” afirma Marina Garcés, continuando mais à frente: “a credulidade do nosso tempo entrega-nos a um dogma de duas faces: ou o apocalipse ou o solucionismo. Ou a irreversibilidade da destruição, até da extinção, ou a inquestionabilidade de soluções técnicas que nunca está nas nossas mãos encontrar”. Ou a estupidez da nossa utilização das redes sociais, ou a magnificência das máquinas na demonstração de inteligência. “Humanos estúpidos, num mundo inteligente: é a utopia perfeita” — assim descreve a ideologia dominante que ecoa por todo o nosso edifício mediático.

Numa internet que se edificou sobre a promessa do acesso universal ao saber, “o problema do acesso não é, portanto, o da disponibilidade, mas o do caminho” como escreve Garcés. Não é que na internet não haja bom conteúdo, não se produza conhecimento de valor, ou que toda a internet seja necessariamente construída de forma a manter-nos viciados; é que toda a cultura mainstream, ecoando a ideologia de Silicon Valley, gerou mecanismos de neutralização da crítica, como a saturação da atenção, a segmentação de públicos, a uniformização das linguagens e a hegemonia do solucionismo, sugere a filósofa.

No espaço de opinião que ocupa na revista Sábado, José Pacheco Pereira escreve uma curta nota sobre a escolha da palavra do ano. Elogia a escolha, diz que “é por isto que em muitas coisas os ingleses são muito melhores do que nós”, e termina com um “a podridão já por cá anda”, em reflexão sobre as palavras do ano na lista portuguesa. Concedendo que a escolha é interessante pelo factor novidade, não deixa de me assaltar a questão: qual o valor percebido nesta escolha resultante de uma votação online? E o que se espera que daí venha, ou o que significa no esquema geral das coisas? A resposta é nenhum e nada.Já não temos qualquer expectativa da mudança, contentamo-nos com qualquer neologismo que nos ajude a expressar o espanto com que assistimos aos fenómenos que não compreendemos. Sem que nos habituemos à sua complexidade e contribuindo muitas vezes para o ruído que queríamos calar e que nos distrai da discussão da política e da economia da internet. De viral em viral, de promessa em promessa, o vírus infiltra todos os corpos e transforma-nos numa espécie de exército de zombies que normaliza e essencializa a tecnologia, como se fosse uma inevitabilidade do futuro, vinda de um mundo paralelo, e não fosse o resultado concreto de muitos anos da história do capitalismo, e da interação de sistemas sociais.

Se o conceito de fim da história sugerida por Fukuyama já foi por muitos refutada, incluindo pelo próprio, não seria descabido recuperá-la para ilustrar o discurso em torno da tecnologia e da internet. A maioria do discurso que se gera em torno da internet desliga-a do curso da história, quer no que toca ao seu passado e a forma como chegámos onde chegámos, quer no que toca o seu presente e as soluções que têm sido procuradas. A especificidade de algumas das componentes técnicas, e a complexidade das hipotéticas soluções políticas não nos mobilizaram em torno de debates necessários mas praticamente afastaram esses debates do nosso quotidiano. E enquanto passamos atestados à podridão dos cérebros de cada um, convivemos com um mercado global da venda de dados que servem de base para a criação de estratégias que nos mantém viciados nas redes, com uma crescente normalização da vigilância e propostas dos reguladores para aceder ao conteúdo de comunicações privadas, com um aparelho mediático viciado nas redes de conteúdo duvidoso, e com um sistema de incentivos económicos onde é mais apetecível fazer anúncios da Prozis do que bom jornalismo, para dar um exemplo.

Os cérebros podem estar a apodrecer mas não devemos continuar a vê-lo como o princípio de um fenómeno: a putridão só se apodera de corpos mortos ou indefesos.