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terça-feira, 1 de setembro de 2026

A transição energética e a aceleração da IA: os custos ocultos da mineração na biodiversidade global

Um estudo recente publicado na revista Nature Communications no passado mês de maio - e hoje destacado pela plataforma Greensavers - revelou que a exploração de minerais fundamentais para a produção e desenvolvimento de tecnologias limpas pode estar a causar “impactos negativos significativos” na biodiversidade à escala global. A investigação, conduzida por uma equipa da Universidade de Tohoku sob a liderança de Keiichiro Kanemoto, mapeou cerca de 70 mil locais de mineração de 20 minerais essenciais. Ao cruzar este mapeamento com dados públicos de desflorestação e de risco de extinção de espécies entre 2001 e 2022, os investigadores contabilizaram a perda de 16.268 quilómetros quadrados de floresta - com maior incidência nas florestas húmidas da Amazónia, do sudeste asiático e da Bacia do Congo.

Contudo, o trabalho faz sobressair uma “mudança crítica” no padrão do extrativismo mundial: enquanto a mineração tradicional de ouro continua a figurar como o principal motor da desflorestação direta e visível, a extração dos minerais da transição energética obedece a uma dinâmica diferente. Elementos vitais como o lítio, o cobalto e o níquel exercem pressões mais subtis, mas com riscos desproporcionalmente elevados para a biodiversidade em ecossistemas ecologicamente sensíveis. A extração de lítio em salinas e zonas húmidas, por exemplo, provoca uma perda de coberto florestal praticamente impercetível, mas desregula drasticamente os recursos hídricos de ecossistemas frágeis e coloca em risco espécies endémicas vulneráveis. Como alertam os autores, o caminho para a descarbonização traz consigo custos ambientais ocultos que exigem um reequilíbrio urgente entre as metas climáticas e a proteção da biodiversidade.

Embora este artigo científico não aborde de forma explícita o fenómeno da inteligência artificial, o seu diagnóstico valida de forma direta a reflexão que venho a consolidar no BioTerra. A infraestrutura material que viabiliza o boom da IA - desde os data centers de alta densidade até às redes de supercomputação - é profundamente intensiva em recursos minerais. Na prática, o setor tecnológico concorre diretamente com a transição energética pelas mesmas cadeias de suprimento de lítio, níquel, cobre e terras raras, sobrecarregando ainda mais esses ecossistemas vulneráveis.

Esta confluência entre o avanço sociotécnico e a degradação ambiental tem sido um eixo central nas publicações recentes do blogue:

As conclusões agora trazidas a público confirmam o alerta: quer se fale de veículos elétricos, de painéis solares ou de redes neuronais de IA, o modelo de expansão contínua assenta sobre a mesma base extrativa frágil. Sem uma viragem em direção à soberania metabólica e à redução do uso de matérias-primas, a promessa de uma transição verde continuará a transferir o seu custo para o silêncio e a degradação dos ecossistemas planetários.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

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sábado, 11 de julho de 2026

Por detrás da sua imagem amiga do ambiente, a IKEA - o maior consumidor de madeira do mundo - esconde práticas bastante pouco escrupulosas


O documentário "IKEA, o Caçador de Árvores" (originalmente IKEA, le seigneur des forêts ou How IKEA Plunders the Planet, 2024 ), realizado por Xavier Deleu e Marianne Kerfriden com base numa investigação jornalística de Alexander Abdelilah e Robert Schmidt, expõe o contraste dramático entre a imagem pública ecológica do gigante sueco do mobiliário e o impacto ambiental real da sua cadeia global de abastecimento de madeira. Consumindo cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira por ano - o equivalente ao abate de uma árvore a cada um ou dois segundos -, a multinacional transformou-se num predador florestal global, cuja procura implacável por matéria-prima barata impulsiona crimes ambientais e a destruição de ecossistemas preciosos em múltiplos continentes.

A investigação percorre vários países, revelando que a exploração intensiva começa na própria Suécia. Ali, ativistas locais e representantes do povo indígena Sámi denunciam a prática sistemática de cortes rasos (abates totais de parcelas florestais) nas últimas florestas boreais antigas. Estas áreas ricas em biodiversidade são sistematicamente substituídas por monoculturas industriais de árvores alinhadas que funcionam como autênticos "desertos verdes", destruindo os líquenes de que as renas locais dependem para sobreviver e alterando permanentemente a paisagem escandinava.

O cenário agrava-se na Roménia e na Ucrânia, onde o documentário acompanha o rasto da madeira que alimenta as fábricas de fornecedores da IKEA. Na cordilheira dos Cárpatos romenos, lar de algumas das últimas florestas virgens da Europa, ativistas de organizações não-governamentais como a Agent Green expõem o abate ilegal e abusivo dentro de parques nacionais e áreas teoricamente protegidas pela rede Natura 2000. Cientistas e investigadores demonstram como o sistema de rastreabilidade é contornado através do branqueamento de madeira, misturando troncos extraídos ilegalmente com lotes autorizados. O impacto estende-se à Ucrânia, onde investigações anteriores já tinham sinalizado a entrada de madeira extraída de forma irregular nas cadeias de produção de produtos icónicos da marca.

A nível global, a reportagem viaja até à Rússia (região da Sibéria), expondo ligações a fornecedores locais envolvidos no desflorestamento de florestas protegidas de Taiga antes das restrições geopolíticas, e até à Nova Zelândia. Neste último país, o documentário foca-se nas consequências catastróficas das plantações intensivas de pinheiros exóticos que substituíram a vegetação nativa. Quando ocorrem tempestades violentas, os resíduos de madeira deixados pelas empresas de exploração florestal nas encostas deslizam em massa, gerando violentas enxurradas de detritos que destroem rios, praias e infraestruturas, afetando diretamente as comunidades locais e as terras ancestrais do povo Māori, que lamentam a perda da harmonia ecológica original. Representantes do povo Māori declararam na ONU que tal prática corporativa representa uma nova forma de colonização, retirando poder às comunidades nativas em favor do lucro estrangeiro e degradando a ligação sagrada que mantêm com a terra (Papatūānuku).

Um dos pontos centrais da crítica do documentário foca-se no papel do FSC (Forest Stewardship Council). Criado originalmente na década de 1990 com o apoio de organizações de prestígio como a WWF e a Friends of the Earth para garantir uma gestão florestal sustentável, o selo verde é apontado pelos realizadores e por antigos fundadores como tendo sido instrumentalizado. O FSC acabou por se transformar num escudo de greenwashing (lavagem verde) para as grandes corporações. Ao certificar áreas onde se praticam cortes rasos ou onde a madeira provém de origens controversas, o sistema falha em proteger as florestas que restam no planeta, permitindo que o consumidor compre mobiliário de massa sob uma falsa premissa de sustentabilidade.

Em janeiro de 2024, o documentário IKEA Loves Wood (IKEA elsker træ) já denunciava más práticas na Roménia.

Dinheiro a circular por paraísos fiscais e fundações suspeitas, graças à IKEA
Este artigo do portal de jornalismo independente Basta! esmiuça um relatório da organização Attac Alemanha sobre o intrincado labirinto financeiro que a IKEA utiliza para praticar a otimização fiscal em larga escala e minimizar as suas obrigações tributárias. A investigação desconstrói a imagem pública puramente filantrópica da empresa, demonstrando como as receitas geradas nas lojas físicas são canalizadas por uma complexa rede de holdings e fundações que se estende por várias jurisdições. 

No cerne desta estrutura está uma rede de fundações ostensivamente sem fins lucrativos, desenhada para fragmentar a propriedade legal e blindar o capital contra a tributação. Na Holanda, a fundação Stichting Ingka fica no topo da pirâmide como proprietária do Ingka Group, que opera a maioria das lojas globais. Pelo facto de o fisco holandês a reconhecer como uma entidade de caridade, os seus vastos rendimentos de investimentos e ativos líquidos desfrutam de massivas isenções fiscais. Além disso, a legislação holandesa protege este arranjo ao não exigir que a fundação publique relatórios financeiros anuais. 

Enquanto isso, o conceito da marca em si é controlado por outro braço através da Fundação Interogo, localizada no paraíso fiscal de Liechtenstein. Uma investigação da televisão sueca revelou que esta única entidade permitiu ao fundador da empresa, Ingvar Kamprad, evitar o pagamento de algo entre 2,3 e 3,2 mil milhões de euros em impostos ao longo de um período de vinte anos. 

Um terceiro grande tentáculo corporativo, o Ikano Group, está sediado em Luxemburgo e pertence aos três filhos de Kamprad. Esse braço supervisiona a gestão financeira, serviços bancários, imobiliários e de seguros, utilizando subsidiárias adicionais ocultas em paraísos fiscais como a Suíça e a ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. 

Ao movimentar continuamente dinheiro entre a Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein e Curaçao, a multinacional sueca paga taxas efetivas de imposto muito abaixo das médias corporativas europeias padrão. A empresa de retalho controladora historicamente enfrentou uma taxa efetiva de imposto sobre o rendimento de apenas 17,8%, enquanto o Inter IKEA Group, detentor da marca, pagou no máximo 11,6%. 

O sigilo que envolve estes arranjos é uma escolha deliberada. Quando a comissão de informação da Assembleia Nacional Francesa intimou grandes multinacionais a depor sobre otimização fiscal corporativa, a IKEA recusou-se categoricamente a participar, oferecendo a desculpa de que, infelizmente, carecia de conhecimento técnico num campo tão complexo, uma justificativa que os parlamentares rotularam como altamente improvável e perturbadora para uma organização do seu porte. 
O artigo, em última análise, destaca uma contradição gritante entre as mensagens corporativas e as práticas financeiras, observando que, embora a IKEA Foundation proclame publicamente uma dedicação ao bem-estar das crianças, a corporação como um todo minimiza agressivamente as próprias receitas fiscais necessárias para financiar os sistemas públicos de educação e saúde nas comunidades onde opera.

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Lítio travado - tribunal trava Savannah e impõe paragem imediata na mina do Barroso

𝗔 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗮𝗼 𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗼 𝗻𝗼 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗹𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝗕𝗼𝘁𝗶𝗰𝗮𝘀 𝘀𝗼𝗳𝗿𝗲𝘂 𝘂𝗺 𝗻𝗼𝘃𝗼 𝗿𝗲𝘃𝗲́𝘀. 𝗔 𝗦𝗮𝘃𝗮𝗻𝗻𝗮𝗵 𝗥𝗲𝘀𝗼𝘂𝗿𝗰𝗲𝘀 𝗳𝗼𝗶 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗹𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗻𝗼𝘁𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗰̧𝗮-𝗳𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗧𝗿𝗶𝗯𝘂𝗻𝗮𝗹 𝗔𝗱𝗺𝗶𝗻𝗶𝘀𝘁𝗿𝗮𝘁𝗶𝘃𝗼 𝗲 𝗙𝗶𝘀𝗰𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗠𝗶𝗿𝗮𝗻𝗱𝗲𝗹𝗮, 𝘃𝗲𝗻𝗱𝗼-𝘀𝗲 𝗳𝗼𝗿𝗰̧𝗮𝗱𝗮 𝗮 𝘀𝘂𝘀𝗽𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗱𝗲 𝗶𝗺𝗲𝗱𝗶𝗮𝘁𝗼 𝗼𝘀 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗴𝗲𝗼𝘁𝗲𝗰𝗻𝗶𝗮 𝗻𝗼 𝗽𝗿𝗼𝗷𝗲𝘁𝗼 𝗱𝗮 𝗠𝗶𝗻𝗮 𝗱𝗼 𝗕𝗮𝗿𝗿𝗼𝘀𝗼. 𝗘𝘀𝘁𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮𝗹𝗶𝘀𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝘀𝘂𝗿𝗴𝗲 𝗻𝗼 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗽𝗿𝗼𝘃𝗶𝗱𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗰𝗮𝘂𝘁𝗲𝗹𝗮𝗿 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗽𝗼𝘀𝘁𝗮 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗹𝗼𝗰𝗮𝗹, 𝗮𝗰𝗲𝗻𝘁𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗼 𝗯𝗿𝗮𝗰̧𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗼 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗰𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲𝗺 𝗺𝗮𝗿𝗰𝗮𝗱𝗼 𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮 𝗿𝗲𝗴𝗶𝗮̃𝗼.

A empresa britânica sublinha que o acatamento desta ordem judicial tem efeitos apenas a partir do momento em que foi notificada. Para a Savannah, este detalhe jurídico comprova que as ações de bloqueio promovidas por populares durante a semana passada careciam de enquadramento legal.

Em comunicado, a concessionária não poupou críticas à Direção do Baldio de Covas do Barroso e à UDCB (Unidos em Defesa de Covas do Barroso), acusando as entidades de recorrerem aos tribunais pela terceira vez numa tentativa deliberada de boicotar o desenvolvimento do projeto.

​Apesar deste obstáculo, a administração da mina demonstra "tranquilidade" perante o processo, aguardando que o tribunal decida sobre o mérito da causa para voltar a colocar as máquinas no terreno. O objetivo da Savannah permanece inalterado: iniciar a construção do complexo mineiro em 2027 e arrancar com a primeira produção de lítio no ano seguinte.

𝗢 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝘁𝗿𝗶𝗺𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗠𝘂𝗻𝗱𝗶𝗮𝗹 𝗲 𝗮𝘀 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗮𝘀 𝗲𝗺 𝗱𝗶𝘀𝗽𝘂𝘁𝗮
Para compreendermos a verdadeira dimensão deste conflito, é necessário olhar para o cerne da ação judicial submetida a 27 de maio contra o Ministério do Ambiente e da Energia. O grande alvo da contestação popular é a atribuição de uma "servidão administrativa", um mecanismo imposto pelo Estado que permite à Savannah ocupar cerca de 228 hectares de terrenos baldios e privados, muitas vezes à revelia da vontade expressa dos proprietários locais. A comunidade denuncia esta medida como um padrão de expropriação coerciva, lembrando um episódio idêntico que já havia forçado a suspensão das sondagens durante 15 dias, em fevereiro de 2025.

​No entanto, o contexto desta disputa ultrapassa largamente os limites de propriedade. É fundamental recordar que a região do Barroso ostenta o prestigiado selo de Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (SIPAM), atribuído pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). O risco de descaracterização desta paisagem e do modo de vida tradicional tem levantado sérias dúvidas jurídicas. Recorde-se que, devido a esta mesma classificação da ONU, o próprio Ministério Público já havia alertado para graves incongruências no processo, chegando mesmo a pedir a anulação da Declaração de Impacte Ambiental (DIA) que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu favoravelmente, com condicionantes, em 2023.

Enquanto a justiça avalia a legalidade da ocupação destas terras e o peso da servidão administrativa, as encostas de Covas do Barroso regressam ao silêncio. A Vila TV continuará no terreno, acompanhando de perto um processo que divide os defensores da transição energética e os guardiões de uma herança agrícola única no mundo.

Vila Real, 09 de Junho 2026
VILA TV - INFO

sábado, 23 de maio de 2026

Dia Mundial da Biodiversidade: "É a teia viva que sustenta a humanidade"


Esta sexta-feira, assinalou-se mais um Dia Mundial da Biodiversidade, data oficializada pelas Nações Unidas para comemorar a adoção o texto da Convenção da Diversidade Biológica (CBD), neste mesmo dia em 1992.

A primeira cimeira mundial da biodiversidade aconteceu dois anos depois, nas Bahamas, e, desde então, contam-se já 16, com a número 17 já programada para o próximo mês de outubro, na capital arménia de Yerevan. Ao longo desses 34 anos, a comunidade internacional construiu uma arquitetura de governação global da biodiversidade tendo a CBD como coluna-mestra, estabelecendo várias estratégias, objetivos e metas com os quais os signatários se foram comprometendo.

Contudo, tal como em muitas outras convenções e agendas internacionais, a realidade acaba, no final de contas, por ficar sempre aquém da ambição. Por exemplo, nenhuma das metas de biodiversidade de Aichi para 2020 (algumas com o horizonte mais curto de 2015), que a CBD tinha estabelecido uma década antes, foi alcançada. E isso naquela que deveria ter sido a Década das Nações Unidas para a Biodiversidade.

Agora, estamos, até 2030, na Década das Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas, assim declarada pela Assembleia Geral dessa organização internacional. Apesar de décadas de negociações, de promessas, e de alguns avanços significativos, como o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que entre os principais objetivos tem proteger 30% dos habitats e restaurar 30% dos ecossistemas degradados até 2030 e travar as extinções causadas pelos humanos, a diversidade da vida na Terra está cada vez mais ameaçada.

“A biodiversidade é a teia viva que sustenta a humanidade”, disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, a propósito do Dia Mundial da Biodiversidade. Contudo, deixa claro o estado atual em que nos encontramos: “o caos climático, a poluição e a incansável exploração da terra, do oceano e da água doce estão a empurrar o mundo natural para o colapso, com consequências devastadoras para pessoas, modos de subsistência e desenvolvimento sustentável”.

Biodiversidade em perigo
Apesar de décadas de cimeiras mundiais sobre esse tema, e de discursos enfáticos de líderes globais, responsáveis regionais e políticos nacionais sobre como é indispensável para a sustentabilidade e, em última análise, sobrevivência da espécie humana na Terra, a biodiversidade continua em perigo e a sua perda mantém-se como uma das três grandes crises planetárias, a par das alterações climáticas e da poluição.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, criada e mantida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), é um barómetro do estado de saúde da biodiversidade a nível global, classificando as várias espécies não-humanas consoante o grau de ameaça que enfrentam. Estima-se que, a nível global, sejam conhecidas cerca de 2,5 milhões de espécies atualmente, embora tal possa ser uma mera porção da biodiversidade real da Terra, onde alguns calculam que existam mais de oito milhões.

De ano para ano, o número de espécies na categoria “Criticamente ameaçada”, somente uma abaixo de “Extinta”, tem vindo a aumentar continuamente de ano para ano. Os cientistas dizem que esses números não devem ser interpretados como tendências do estado da biodiversidade, pois o aumento do número de espécies nessa categoria reflete mais o fortalecimento dos esforços de avaliação da UICN e entidades parceiras do que reais mudanças no número de espécies ameaçadas que existem no mundo.

No entanto, o facto de todos os anos, sem exceção, se descobrir que mais e mais espécies entram nessa categoria que marca o precipício da extinção certamente que não é uma boa notícia para a biodiversidade.

O mesmo se passa nas categorias “Em Perigo” e “Vulnerável”, que, conjuntamente com a de “Criticamente em perigo”, formam a tríade de categorias que integram as espécies que se consideram ameaçadas.

Em 2025, 26% das espécies de mamíferos estavam ameaçadas, 11% das aves, 21% dos répteis e 41% dos anfíbios. Para os restantes grupos, não há ainda dados suficientemente amplos que permitam calcular percentagens, dizem os cientistas. A falta de conhecimento sobre o verdadeiro estado de conservação das espécies – por falta de recursos humanos, técnicos e financeiros ou por falta de priorização política e social – é uma das grandes ameaças ao futuro de muitas espécies, que não são tão conhecidas do público ou que não são por ele tão admiradas quanto outras. É muito difícil, senão mesmo impossível, proteger o que não se conhece, e mesmo o que não se conhece ou o que se acaba de descobrir pode enfrentar já em risco de desaparecer.

Os fatores humanos
Um estudo publicado na ‘Nature’, em março de 2025, com o título “O impacto humano global sobre a biodiversidade” (tradução literal para português), determinou que a forma como a nossa espécie tem lidado com o planeta está claramente a reduzir a diversidade de formas de vida que nele habitam.

Através da compilação de dados de 2.133 estudos sobre os impactos humanos na biodiversidade terrestre, marinha e de água doce dos quatro cantos da Terra, e abrangendo todos os grupos de organismos – dos microrganismos aos mamíferos, passando pelos fungos, plantas, invertebrados, peixes e aves –, esta equipa liderada pela Universidade de Zurique criou “uma das maiores sínteses dos impactos humanos sobre a biodiversidade alguma vez realizada a nível mundial”, como explica Florian Altermatt, principal coautor.

De forma resumida, o estudo olhou para os cinco grandes fatores de pressão humanos sobre a biodiversidade – alteração de habitats, exploração direta (como caça e pesca), alterações climáticas, poluição e espécies invasoras – e concluiu que todos eles têm impactos significativos à escala global, em todos os grupos de organismos e em todos os ecossistemas.

Estimam os investigadores, com base nos dados analisados, que em média o número de espécies em locais impactados era quase 20% inferior ao de locais não afetados por fatores de pressão humanos. Perdas “particularmente graves” de espécies, salientam, foram encontradas nos répteis, anfíbios e mamíferos, pois as suas populações tendem a ser mais pequenas do que as dos invertebrados, o que aumenta a probabilidade de extinção.

Além disso, os investigadores dizem que os impactos humanos estão não só a reduzir o número de espécies, mas também a alterar a composição das comunidades, o que pode ter efeitos negativos e perigosos no funcionamento dos ecossistemas. A poluição e as alterações nos habitats são dos impactos humanos que mais afetam a diversidade e a composição das comunidades de vida não-humana.

Também em 2025, um outro estudo dizia que ao longo do último século o ritmo de extinção de espécies de plantas, artrópodes e vertebrados terrestres tem vindo a desacelerar, especialmente devido a esforços de conservação. Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, cientistas analisaram os ritmos e padrões de extinção de 912 espécies de plantas e animais que desapareceram nos últimos 500 anos. Além de apontarem para essa desaceleração no ritmo atual de extinção, uma afirmação que poderá gerar alguma controvérsia, apontam também as causas humanas como os principais fatores que estão a fazer desaparecer as espécies não-humanas.

Uma “teia viva” a desfiar-se
Em outubro de 2025, uma atualização da Lista Vermelha anunciou o agravamento do estatuto de ameaça de três focas do Ártico, que 61% de todas as espécies de aves a nível mundial estão em declínio e 11,5% ameaçadas por causa da desflorestação, e que o maçarico-de-bico-fino está oficialmente extinto, tornando-se a primeira ave da Europa continental declarada como extinta em 500 anos.

Na atualização mais recente, do passado mês de abril, o pinguim-imperador, com um declínio de 10% da sua população entre 2009 e 2018, e o lobo-marinho-antártico, com uma redução populacional de mais de 50% entre 1999 e 2025, viram os seus estatutos agravar-se para “Em perigo”.

Algumas estimativas apontam para que, dos cerca de oito milhões de espécies que existem na Terra, pelo menos 15 mil estejam ameaçadas de extinção. Desde 1500 que 881 espécies desapareceram para sempre, um número que, admitem os próprios cientistas, pode ser muito inferior à realidade. Dessas, 322 eram vertebrados terrestres e 37 anfíbios, embora, no que toca a esses animais amantes de água, os especialistas acreditem que mais de 100 outras terão desaparecido nas últimas décadas, ainda que não o consigam comprovar com certeza.

Numa entrevista dada recentemente à Green Savers, Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), dizia, a respeito da a biodiversidade em Portugal, que “estamos muito longe de uma situação ideal” e que “falta visão aos nossos decisores e aos nossos políticos”.

Disse-nos o catedrático que para proteger a biodiversidade não basta desenhar linhas num mapa e chamar-lhes “áreas protegidas” sem os meios necessários para a sua efetiva proteção e conservação.

“Para mim, é absolutamente incompreensível que todos os governos, desde há muito tempo, tratem assim a gestão e a conservação da biodiversidade num dos países da Europa que mais biodiversidade tem e que mais responsabilidade tem nessa área”, declarou.

Seja qual for o ritmo a que a biodiversidade está a desaparecer, o simples facto de isso estar a acontecer deve ser motivo de alarme para toda a humanidade. Não se trata de proteger uma Natureza distante, que é bonita e interessante, mas sim de zelar pelo nosso próprio habitat e pelos ecossistemas que nos fornecem serviços indispensáveis, e de assegurar, das profundezas mais escuras dos oceanos, aos topos das montanhas mais altas, passando pelas mais luxuriantes florestas tropicais húmidas, pelos desertos ilusoriamente desprovidos de vida e pelos jardins das nossas casas e cidades, que as maravilhas do mundo natural não se desvanecem para sempre, roubando à Terra parte da sua força vital que a torna tão única.

sábado, 21 de março de 2026

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

Visualizar melhor aqui

Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Acordo UE-Mercosul foi aprovado. Preocupações ambientais mantêm-se


Os países que votaram contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul justificaram a sua posição sobretudo com preocupações económicas e ambientais, fortemente ligadas à agricultura. França, Irlanda, Polónia, Áustria e Hungria consideram que o acordo expõe os agricultores europeus a uma concorrência considerada desleal, em especial nos sectores da carne bovina, aves, açúcar e cereais, uma vez que os produtores do Mercosul operam com custos mais baixos e regras ambientais e sanitárias menos exigentes do que as da UE. Para estes países, isso pode provocar uma queda dos preços, perda de rendimentos e dificuldades acrescidas para a agricultura familiar. 

Além disso, França e Áustria têm sublinhado que as salvaguardas ambientais incluídas no acordo são insuficientes, nomeadamente no que diz respeito ao combate à desflorestação na Amazónia e ao cumprimento dos compromissos climáticos. Em vários destes Estados-membros, a oposição ao acordo é também alimentada por forte pressão política interna do sector agrícola e por posições já assumidas anteriormente pelos respetivos parlamentos ou governos, tornando o voto contra uma decisão tanto económica e ambiental como politicamente estratégica.

Os defensores do acordo afirmam que este ajudará a aprofundar a cooperação económica da UE com o Sul Global, onde a China já procura alianças em consequência da rutura provocada por Donald Trump na ordem comercial internacional.

O acordo ajudará também a UE a libertar-se da dependência da China em relação aos minerais críticos e às terras raras vitais para os sectores automóvel e tecnológico, uma vez que estes elementos são abundantes nos países do Mercosul.

O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de grafite, níquel, manganês e terras raras. Mas também detém 94% das reservas globais de nióbio, um metal utilizado na indústria aeroespacial, enquanto a Argentina é o terceiro maior produtor de lítio, um material utilizado nas baterias de veículos elétricos.

“O acordo não se resume apenas a questões económicas. A América Latina é uma região de intensa competição por influência entre os países ocidentais e a China. A não assinatura do acordo de comércio livre UE-Mercosul representava o risco de aproximar ainda mais as economias latino-americanas da órbita de Pequim.

“A conclusão do acordo sinaliza também que os europeus estão empenhados em diversificar os seus mercados de exportação, reduzindo a dependência dos EUA”, afirmou Agathe Demarais, investigadora sénior do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, um dos principais thinktank da UE.

Bélgica optou por abster-se na votação.

Preocupações ambientais mantêm-se

1.No final do ano passado, um conjunto de organizações agrícolas acusava o acordo de representar “graves riscos” para a segurança alimentar europeia, para os objetivos ambientais, para o bem-estar animal, para os padrões de condições de trabalho e para a subsistência dos agricultores.

2. Em abril passado, a organização não-governamental CAN Europe publicou uma análise na qual se dizia que o acordo UE-Mercosul provavelmente faria aumentar a contribuição do bloco para a crise climática, ao aumentar o comércio de produtos de elevada intensidade em termos de emissões. Na mesma análise, são levantadas preocupações relativamente à influência do acordo no aumento da desflorestação, com um aumento esperado nas importações europeias de carne de bovino e de soja, no enfraquecimento dos compromissos ambientais dos Estados-membros e no aumento do comércio de pesticidas proibidos no bloco europeu.

3. Mais de 450 organizações europeias e sul-americanas (incluindo redes ambientais, sindicatos, movimentos sociais e associações indígenas) têm criticado o acordo por “ser ruim para o planeta e para as pessoas”, denunciando negociações opacas e exclusão da sociedade civil.

4. Ambientalistas também criticam a falta de cláusulas vinculativas e mecanismos de sanção ambiental. As disposições actuais são vistas como insuficientes para garantir que padrões ambientais sejam realmente respeitados.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

UE: derrube a proibição contra os «hambúrgueres vegetais»

Uma estranha disputa está em curso na Europa – e tem a ver com o futuro da nossa alimentação. Dezoito governos estão empenhados em proibir termos como «hambúrguer vegetal» e «salsicha à base de plantas» – censurando alimentos sustentáveis para agradar ao lobby da carne.

Ao menos desta vez, a Alemanha decidiu defender o bom senso pelo futuro da nossa alimentação. Mas mesmo o poderoso governo alemão enfrenta uma batalha difícil: a oposição de um grande bloco de outros países e uma forte pressão por parte de grupos de lobby corporativos.

Nós podemos ajudar. Se a opinião popular mostrar seu apoio aos "hambúrgueres vegetais", isso pode ajudar as autoridades a se manterem firmes nas negociações e a convencerem outros países a aderirem à causa.

Vamos invadir Berlim e outras grandes capitais com um apelo urgente: barrar essa proibição e manter os hambúrgueres vegetais no menu. Assine agora e vamos entregar o nosso apelo diretamente aos negociadores da UE e aos deputados do Parlamento Europeu antes de eles se reunirem. Não vamos deixar que o lobby da carne dite as regras do nosso planeta ou do que comemos.

Assine e partilhe a petição

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

UE afasta alterações ao regulamento que proíbe produtos que causem desflorestação



Os negociadores do Parlamento e do Conselho chegaram a um acordo político provisório para adiar a aplicação do Regulamento Europeu de Desflorestação (EUDR), para ser aplicado pelos Estados-membros a partir de dezembro de 2025. Porém, afastam as alterações de atenuação do mesmo propostas pelos legisladores da União Europeia (UE).

O EUDR estabelece a proibição de comercialização na UE de produtos que causem desflorestação no mundo e que impactam produtos como óleo de palma, gado, madeira, café, cacau e soja.

Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações deste regulamento a partir de 30 de dezembro de 2025, e as micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. Este tempo adicional destina-se a ajudar as empresas de todo o mundo a implementar as regras de forma mais suave desde o início, explica o PE em comunicado.

"Prometemos e cumprimos. Este adiamento significa que as empresas, os silvicultores, os agricultores e as autoridades terão mais um ano para se prepararem. Garantimos que a Comissão irá concluir a plataforma online e a categorização dos riscos no prazo de seis meses, garantindo mais previsibilidade em toda a cadeia de abastecimento", refere a relatora do Parlamento, Christine Schneider, em comunicado. E acrescenta: "Uma avaliação de impacto e uma maior simplificação deverão seguir-se na fase de revisão para os países ou regiões de baixo risco, proporcionando aos países um incentivo para melhorarem as suas práticas de conservação florestal".

A votação do acordo informal entre os colegisladores será incluída na ordem de trabalhos da próxima sessão plenária do Parlamento (16-19 de dezembro). Para que o adiamento entre em vigor, o texto acordado terá de ser aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho e publicado no Jornal Oficial da UE antes do final do ano.

Recorde-se que a Comissão apresentou a sua proposta de adiamento da data de aplicação do regulamento relativo à desflorestação em resposta às preocupações manifestadas pelos Estados-membros, países terceiros, comerciantes e operadores de que existia o risco de não poderem cumprir plenamente as regras até 31 de dezembro de 2024.

No decorrer do ano de 2024, foram várias as vozes que se levantaram contra as novas normas. A indústria de café, por exemplo, manifestou que teria dificuldades em cumprir os prazos. Também os ministros da Agricultura de 20 dos 27 países-membros da UE apoiaram um apelo da Áustria para rever o regulamento. Os países produtores de café também criticaram o regulamento, afirmando que era discriminatório e que poderia acabar por vedar o acesso dos pequenos agricultores ao lucrativo mercado da UE. Também os secretários do Comércio e da Agricultura dos Estados Unidos tinham pedido à UE um adiamento da proibição de importação de produtos ligados à desflorestação, argumentando que colocava desafios críticos aos produtores norte-americanos.

sábado, 8 de novembro de 2025

Novo relatório: o mundo precisa de cortar 60% de desflorestação até 2030 - ou meta global pode fracassar


O alerta é do novo relatório da Forest Declaration Assessment, lançado nas vésperas da COP30, em Belém (PA). O relatório mostra que, só em 2024, o planeta perdeu 8,1 milhões de hectares de florestas — uma área equivalente à Áustria —, o que representa um nível 63% acima do necessário para zerar o desmatamento até o fim da década.

Além do corte raso, a degradação florestal também preocupa: atingiu 8,8 milhões de hectares, impulsionada por incêndios e eventos climáticos extremos. O impacto climático é gigantesco — as emissões associadas à destruição de florestas tropicais somaram 3,1 biliões de toneladas de CO₂ em 2024, o mesmo que 700 milhões de carros a gasolina rodando por um ano. 

As florestas tropicais úmidas, como a Amazônia, seguem como epicentros da perda florestal global. O relatório cita Brasil, Colômbia e Indonésia como países-chave tanto pelo risco quanto pelo potencial de liderar uma viragem na proteção florestal. No caso brasileiro, o desmatamento na Amazônia caiu 11% entre 2024 e 2025, alcançando o menor nível em 11 anos — mas a degradação por incêndios, secas e extração seletiva continua em alta.

Agropecuária segue como o principal motor da destruição, respondendo por nove em cada dez hectares desmatados na última década. Já a restauração de florestas, embora positiva, ainda é tímida: projetos em curso cobrem 11 milhões de hectares, número insuficiente diante da escala das perdas.

O relatório também denuncia o desequilíbrio financeiro: enquanto US$ 5,7 biliões foram investidos anualmente na proteção florestal entre 2022 e 2024, o valor representa apenas 1,4% dos US$ 409 biliões em subsídios agrícolas que favorecem o desmate. E apenas 3% das empresas analisadas têm compromissos sólidos e verificáveis contra o desmatamento.

A Forest Declaration Assessment conclui que o sistema financeiro global ainda ignora os riscos florestais e que, sem rastreabilidade, segurança fundiária e eliminação de subsídios perversos, o mundo dificilmente cumprirá a promessa de zerar o desmate até 2030.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Duas Leis, Um Planeta e um Tribunal Silencioso


Será possível proteger o planeta com leis que não podem ser aplicadas?

Este episódio explora o frágil equilíbrio entre o Direito Vinculativo — como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) — e o Direito Não Vinculativo, as estruturas voluntárias que moldam a governação climática global.

Enquanto os oceanos são regidos por tratados vinculativos, a terra e a atmosfera permanecem sob discricionariedade nacional — e o planeta paga o preço.

Da desflorestação à perfuração em águas profundas, vemos repetir-se o mesmo paradoxo: leis vinculativas sem aplicação e acordos voluntários sem resultados.

Nesta perspetiva, o vídeo apresenta a ideia de uma Autoridade Global para o Clima (AGC) — uma ponte entre o que é vinculativo e o que é meramente prometido, capaz de transformar os compromissos globais em leis planetárias aplicáveis.

Porque a nossa crise não é a ausência de leis — é a ausência de autoridade.

Para aprofundar esta temática nada como ver os vídeos e webseminários do Center for Earth Jurisprudence

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Áreas protegidas em risco na Europa. Trezentos hectares em Melides perdidos para grupo americano



A Europa está a perder áreas verdes a um ritmo de 600 campos de futebol por dia. Esses espaços, que antes abrigavam vida selvagem, capturavam carbono e forneciam alimentos, estão a desaparecer para darem lugar a novas construções, incluindo em Portugal. Uma investigação do jornal britânico The Guardian destaca o caso de Melides, onde um grupo norte-americano comprou quase três centenas de hectares para erguer um resort de luxo no qual várias personalidades estrangeiras já terão adquirido propriedades milionárias.

Pela primeira vez, replicando o que já acontece para medir a desflorestação na Amazónia, investigadores usaram imagens de satélite para avaliar a perda de áreas verdes na Europa ao longo de um período de cinco anos. O que antes era verde é agora cinzento devido à construção de estradas e edifícios, revelou o projeto Green to Grey, uma iniciativa do Guardian que contou com a colaboração de vários parceiros europeus.

Em Portugal, quase 300 hectares de área protegida em Melides, no município de Grândola, foram comprados pelo grupo imobiliário norte-americano Discovery Land Company para construir um resort e um campo de golfe.

O projeto CostaTerra Golf and Ocean Club, cujas propriedades rondam os 6,4 milhões de euros, ainda está em construção mas já terá casas vendidas a algumas celebridades estrangeiras, entre as quais a atriz Nicole Kidman, a duquesa de Sussex, Meghan Markle, e o seu marido príncipe Harry.

O grupo norte-americano que adquiriu os hectares de terreno decidiu, em 2021, encerrar o parque de campismo da Galé, que dava acesso à praia da Galé, em Melides, originando vários protestos ao longo dos últimos anos pelos antigos utilizadores do parque, que estava em funcionamento há várias décadas.

Toda essa área de Melides integra a Rede Natura 2000, uma iniciativa europeia que pretende assegurar a biodiversidade e conservar a natureza em zonas protegidas.

Os regulamentos europeus apenas preveem exceções ao desenvolvimento de projetos em áreas da Rede Natura 2000 em caso de interesse público superior. As autoridades portuguesas, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), aprovaram a construção do resort, com algumas entidades a destacarem os benefícios económicos que este trará.

No entanto, Ioannis Agapakis, advogado da ONG de direito ambiental ClientEarth, afirmou que um campo de golfe não preenche os requisitos ambientais. "É óbvio que não se trata de um interesse público superior", afirmou, já que "o simples facto de se encontrarem benefícios económicos num projeto não o torna de interesse público superior".

No seu site oficial, o resort CostaTerra promete “o luxo simples da vida europeia” na “última costa atlântica intocada do sul da Europa”.

Em comunicado, o grupo Discovery Land Company garantiu estar a desenvolver o CostaTerra “para ser um modelo de gestão ambiental e de sustentabilidade na região”, prometendo ser a “propriedade mais responsável do seu género”.

Segundo o Guardian, só a manutenção do campo de golfe, que ocupa 75 hectares, implica o consumo de cerca de 800 mil litros de água por dia.

“Todos os aspetos da propriedade, desde a conceção do campo de golfe, passando pelas práticas de gestão das águas pluviais e dos resíduos, até ao desenvolvimento e preservação do habitat e dos corredores de vida selvagem, foram concebidos para satisfazer ou exceder as normas da UE, incluindo as da Rede Natura 2000”, assegurou o grupo.

O projeto Green to Grey conclui que, em toda a Europa, cerca de 9.000 quilómetros quadrados de terreno - uma área equivalente à do Chipre - passaram da cor verde à cinzenta entre 2018 e 2023. Este número traduz-se em quase 30 quilómetros quadrados por semana, ou 600 campos de futebol por dia.

A análise abrangeu 30 países, cobrindo 96 por cento da área do Espaço Económico Europeu (EEE). Os cinco países com as maiores perdas de vegetação entre 2018 e 2023 foram a Turquia, Polónia, França, Alemanha e Reino Unido.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Nosso Planeta, Nosso Legado - Yann Arthus-Bertrand 2020


"Nosso Planeta, Nosso Legado" (Legacy - Notre Héritage), lançado em 2020, é um documentário dirigido por Yann Arthus-Bertrand que explora a relação entre a humanidade e o planeta, com um foco especial na crise ambiental. O filme apresenta uma visão sensível e radical do mundo, destacando a beleza da natureza e os danos causados pela ação humana, ao mesmo tempo em que oferece esperança e soluções para um futuro mais sustentável. 

Em "Nosso Planeta, Nosso Legado", Arthus-Bertrand compartilha suas próprias experiências e reflexões sobre a natureza e a humanidade, buscando despertar a consciência sobre a urgência da crise ambiental e a necessidade de ações individuais e coletivas para proteger o planeta. O filme aborda temas como o desmatamento, as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a importância da água doce, utilizando imagens impactantes e uma narrativa envolvente. 

O documentário também apresenta soluções e caminhos para a reconciliação com a natureza, mostrando exemplos de práticas sustentáveis e iniciativas de conservação. Arthus-Bertrand enfatiza que a mudança é possível e que cada indivíduo pode fazer a diferença por meio de escolhas conscientes e ações responsáveis. 

"Nosso Planeta, Nosso Legado" não é apenas um filme sobre a crise ambiental, mas também um apelo à ação e um convite à esperança, mostrando que um futuro mais sustentável e equilibrado é possível se a humanidade se unir para proteger o planeta

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A consciência dos Povos da Floresta


As representações das comunidades indígenas e extrativistas da Amazônia se organizam para ter voz forte na COP30. Afinal, são esses territórios que apresentam os menores índices de desmatamento e devastação.

Então, não é só uma questão, que já seria fundamental, dos direitos dessas comunidades, mas também o efeito climático da conservação da floresta por esses povos.

Entre os pontos que vão levar para a COP em Belém está a aceleração da demarcação e conservação desses territórios, que anda travada pelo Congresso reacionário; a prevenção de incêndios; a garantia de terem acesso direto aos fundos internacionais.

De toda ajuda internacional que chega aos países do Sul global, só 1% vai para essas comunidades. Por quê? Porque tem muitos intermediários, e, claro, o dinheiro fica pelo caminho.

E com esses recursos, eles podem melhorar a sua qualidade de vida, e como no caso dos extrativistas, diminuir o êxodo para as cidades e também melhorar a própria fiscalização contra invasões e incêndios florestais.

Eles querem também o direito de serem ouvidos em relação ao desenvolvimento da região, deixando de ser considerados apenas um “zoológico” de exposição – “olha, aqui estão os indígenas”. Não, eles são parte da solução do problema e querem ter voz ativa nisso.

Parabéns a essa consciência dos povos indígenas, dos extrativistas e quilombolas.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Colónia japonesa cria 'florestas de comida' no Pará e vira referência contra desmatamento


A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.   

As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações. 

Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração". 

Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas. 

Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.  

Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo. 

sábado, 24 de maio de 2025

Fabrício Carpinejar na despedida de Sebastião Salgado


Os olhos azuis oceânicos, debaixo de tufos de sobrancelhas grisalhas, quase ruivas, caracterizavam a lente humana mais majestosa e universal que já existiu na fotografia mundial.
O mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado, fez o mundo piscar de modo distinto depois de suas pálpebras.
Ele se despede, aos 81 anos, com um trabalho documental que conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, transgressor e clássico.
Trouxe à fotografia o projeto coletivo dos murais de Candido Portinari.
Na essência, era um Caravaggio da gelatina de prata, do papel fotográfico, mestre do claro-escuro, instaurando o barroco na captação crua das cenas.
Assim como em Caravaggio, a luz recai sobre os invisíveis — os pobres, os errantes, os exilados — com uma expressividade humanista e dramática.
Sua única professora foi a realidade, com seus contrastes e exuberâncias, suas misérias e rostos impregnados de compaixão. Formado em Economia, mas autodidata na arte, começou a fotografar em 1973, aos 29 anos, misturando-se em unha e carne aos seus fotografados.
Seu olhar não era de fora, mas de dentro. Não agia como um observador distante, que clica e desaparece. Daí a explicação para seus registos íntimos, como se fossem autorretratos dos excluídos. Sua aflição existencial tornou-se sua estética. Não explorava o outro, fundia-se ao outro. Não se resumia a um fantasma entre os vivos, e sim a um vivo que mandava notícias do reino dos fantasmas da sociedade.
Abordou as migrações, a dizimação dos povos originários, a devastação das florestas, o colapso climático, a escalada desenfreada do processo industrial.
Não procurava apontar as diferenças folclóricas entre as mais remotas culturas, mas identificar o que havia de comum entre todas elas: a dignidade apesar da desolação.
Ele converteu as cores gritantes da dor na suavidade bíblica do preto e branco. Denunciou o apocalipse e a extinção da nossa espécie pela ganância.
Percorreu mais de 130 países, criando exposições que marcaram a história: Trabalhadores, Gênesis e Êxodos.
Deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas. Sangue de nosso sangue, água de nossas águas.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Fornecedoras de algodão para fabricantes de peças vendidas por Zara e H&M, fazendas no oeste da Bahia têm histórico de desmatamento e grilagem, aponta investigação da ONG Earthsight.

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado nesta quinta-feira (11/04). Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.

Crimes no Cerrado
O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, numa entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

"Grilagem verde"
Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Rota até as marcas europeias
Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnam, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

Mais controle das cadeias
À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora partilhe o resultado da sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Nesta quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de incumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.