terça-feira, 16 de julho de 2019

The fossil fuel industry is quietly undermining global climate talks, report says

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Fossil fuel industry giants such as Exxon Mobil and Royal Dutch Shell are maintaining an outsize presence at global climate discussions, working to undermine scientific consensus and slow policy progress, according to findings released last week by an environmental monitoring organization.

The report from the Climate Investigations Center says fossil fuel trade associations have sent more than 6,400 delegates to climate talks since 1995, including delegates from Shell, BP and Exxon Mobil.

Exxon Mobil declined to comment. Royal Dutch Shell and BP did not respond to requests for comment.

The center’s findings add to an April report that accused the Global Climate Coalition, a fossil fuel-funded industry group, of working to discredit the United Nations’ Intergovernmental Panel on Climate Change and derail the Kyoto Protocol. Though the Global Climate Coalition disbanded in 2001, its members have continued to attend events representing different organizations, Climate Investigations Center data showed.

Former Global Climate Coalition members have attended events representing organizations that include the International Emissions Trading Assn. and the World Business Council for Sustainable Development. Since 2002, the two groups alone have combined to send 2,673 delegates, according to Climate Investigations Center data. Exxon Mobil, Shell and BP each belong to at least one of the groups, according to the trade groups’ websites. The companies have collectively contributed 5.2% of global industrial greenhouse gases from 1988 to 2015, according to the CDP’s Carbon Majors Database.

“While the [Global Climate Coalition] is gone, its influence may not be,” said Jesse Bragg, media director at Corporate Accountability, a global activist organization. The new report “connects the dots and bolsters the case for why governments need to actually take a look at the influence of fossil fuel trade associations at the international level,” he said.

The presence of the fossil fuel industry is, of course, required at such gatherings. Without its cooperation, it would be impossible to implement the large-scale changes needed to fight climate change.

But there is a fine line between participation and obstruction. Activists say it has been difficult to get global organizations such as the U.N. to reconsider how fossil fuel representatives are allowed to participate in the process.

“They not only do not want a policy, they don’t even want a record of them talking about it,” Bragg said. “That’s been one of the primary obstacles to getting this addressed in the first place.”

International Emissions Trading Assn. Chief Executive Dirk Forrister said his trade group does not do any negotiating.

“We abide by a Code of Conduct that supports the [United Nations Framework Convention on Climate Change’s] goals and respects the different points of view of the many stakeholders,” Forrister told Bloomberg in an email.

The World Business Council for Sustainable Development did not respond to a request for comment.

“The legacy of fossil fuel corporate impact on the [U.N. Framework Convention on Climate Change] process and the [U.N. Intergovernmental Panel on Climate Change] is both invisible and impossible to forget,” Climate Investigations Center Director Kert Davies said in a statement. “Fossil fuel interests have tried from the very beginning to undermine and infiltrate this difficult global agreement to make sure that it failed or faltered at each step. As they win, the planet loses.”

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Plasticrusts: novo tipo de poluição descoberta nas rochas

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Os estranhos tons de azul e cinzento chamam à atenção dos investigadores do MARE, do polo da Madeira, que encontraram, pela primeira vez, numa zona do intertidal rochoso na costa sul da ilha da Madeira, lixo marinho incrustado nas rochas. O estudo, que valeu inclusivamente um artigo publicado na revista científica Science of the Total Environment, pode concluir, até agora, que a ocorrência destas crostas de plástico (que os autores denominam de “Plasticrusts”) aumentou bastante desde 2016, ano em que a equipa detectou o fenómeno, durante uma campanha de amostragem. 

As análises de espectrofotometria confirmaram que as crostas são de polietileno (PE), um dos plásticos mais utilizados na indústria, um material comum especialmente nas embalagens de plástico para produtos alimentares, mas a origem concreta e o mecanismo de formação das mesmas ainda não são conclusivos. Investigadores deduzem que pode resultar da colisão de fragmentos de plástico de maior dimensão por acção das ondas e marés. 

“É difícil valorar o impacto. Verifica-se que este fenómeno está a ocorrer numa área concreta. No entanto, ainda não temos amostras de invertebrados para saber qual o impacto nas espécies marinhas, e na rede trófica em geral”, explica Ignacio Gestoso, líder da equipa de investigação, sobre as crostas de polietileno que foram detetadas nas rochas entremarés, que ficam submersas com a maré cheia e a descoberto durante a maré vazia. 

Os investigadores acreditam que esta nova descoberta tenha implicações em estratégias de gestão ambiental, uma vez que estas “Plasticrusts” poderão vir a ser consideradas uma nova categoria de lixo marinho. No entanto, são necessários estudos complementares. Estudos que a equipa pretende prosseguir, mediante financiamento, até para compreender que outros fatores poderão estar por trás destes fenómenos. “Existem outros factores ou processos que contribuam para este acontecimento – o tipo de pedra (na Madeira, por exemplo, a pedra é muito escura e se calhar porque fica muito quente o plástico cola-se mais facilmente com a força do mar)” entre outros, afirma Ignacio Gestoso.

Quando questionado acerca da limpeza das rochas, Ignacio Gestoso explica que poderia ser uma solução, mas que ia, certamente, ser vã, pois este lixo voltaria a infiltrar-se nas rochas. E, em muitos casos, seria bastante difícil retirar das rochas o plástico pois está bastante incrustado. Estes estudos, relembra o investigador, sevem, em primeira instância, para chamar à atenção das pessoas e sensibilizá-las para a questão dos plásticos. 

Mas o estudo promete: a equipa pondera inclusivamente estudar regiões como os Açores, o continente ou mesmo as Ilhas Canárias, portanto ecossistemas semelhantes aos da Madeira, locais onde se encontrem grandes concentrações de lixo, para verificar a ocorrência deste fenómeno.

domingo, 14 de julho de 2019

Flores silvestres melhoram produção agrícola e biodiversidade


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As áreas com maior densidade de flores silvestres têm até 70% mais artrópodes polinizadores e mais 40% daqueles que controlam as pragas de forma natural, revela um novo estudo científico.


O estudo, publicado a 7 de Abril na revista Ecology Letters, descobriu também que as zonas com mais flores do campo conseguem ter uma maior produtividade das colheitas agrícolas.

A equipa internacional de investigadores analisou dados de 49 estudos sobre 1.515 paisagens por toda a Europa.

O seu objectivo era saber como a organização das zonas de cultivo agrícola e outros habitats nas paisagens afecta a abundância de artrópodes e a qualidade dos serviços que estes prestam aos ecossistemas.

“Nas áreas onde há maior densidade de flores do campo comprovámos que a abundância de artrópodes polinizadores e os controladores naturais de pragas aumentou em 70% e em 44%, respectivamente”, explicou, em comunicado, Elena Concepción, investigadora do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid que participou no estudo.

“Descobrimos ainda que nas paisagens com mais de 50% de terrenos cultivados, a produtividade das colheitas aumentou com a densidade dos prados silvestres”, acrescentou.

Não obstante, “os efeitos nos diferentes tipos de paisagens não são lineares. As respostas variam através dos gradientes de composição e de configuração da paisagem”.

Impactos da produção intensiva

Os investigadores sublinham que “está provado que a agricultura e a criação de gado intensivas prejudicam a biodiversidade, uma vez que reduzem drasticamente o número de espécies animais e vegetais”.

Acontece que “as espécies que desaparecem com estas práticas são imprescindíveis também para a produção dos alimentos que consumimos”.

É o caso dos artrópodes que actuam como polinizadores e como controladores naturais das pragas que afectam as colheitas agrícolas.

Segundo Mario Díaz, também investigador daquele Museu, “este estudo corrobora a ideia de que favorecer a diversidade nos ecossistemas não apenas melhora a biodiversidade como também aumenta a produção agrícola e a torna mais sustentável”.

sábado, 13 de julho de 2019

68 pomares vão ser criados na Inglaterra e Gales para dar habitat a aves e insetos

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National Trust, uma organização que cuida dos lugares de interesse histórico e de beleza natural no Reino Unido, vai criar 68 pomares tradicionais na Inglaterra e no País de Gales até 2025.

As árvores plantadas – entre as quais se contam macieiras, ameixeiras e pereiras – providenciarão habitat a inúmeros polinizadores, como aves, morcegos e insetos

A medida também pretende combater o desaparecimento dos pequenos pomares tradicionais no Reino Unido. Na Inglaterra, 60% destes espaços desapareceram desde 1950, devido a um conjunto de razões que incluem as alterações das práticas agrícolas e a urbanização. 

David Bullock, diretor de conservação de espécies e habitats do National Trust, explicou que a atual estratégia da organização para a conservação da vida selvagem e da natureza inclui a “criação de 25 mil hectares de zonas de habitat prioritário até 2025”.

“Identificamos os pomares tradicionais como sendo de especial importância, já que providenciam a casa perfeita para vários pássaros, polinizadores e insetos”, disse. 

“Cada árvore é valiosa porque se pode tornar uma casa para aves como o pica-pau-galego, para morcegos e [até para a ameaçada] borboleta noturna Celypha woodiana. O fantástico número de maçãs e de outras variedades de fruta que podemos plantar reflete a maravilhosa diversidade da vida.” 

Com o programa, o National Trust também conta ajudar a preservar variedades tradicionais de fruta, conta o jornal britânico The Guardian

Os pomares também são vitais para as pessoas. Oferecem-nos alimentos e bebidas locais, sazonais e deliciosos, são lugares para serem desfrutados e neles se conviver, têm uma grande importância cultural e são espaços de indiscutível beleza”, contou David Bullock.
Foto: Steven Haywood/National Trust

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Ambiente vs Economia: um beco sem saída?

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No modelo que rejeita o crescimento contínuo, menos é mais. Os activistas do decrescimento propõem cortar no consumo e nas horas de trabalho para proteger o ambiente e alcançar maior bem-estar.

Uma vez por mês, no Atlas Hostel, em Leiria, as conversas Eco Descomplicar orientadas por Joana Cordeiro partilham dicas sobre reaproveitamento, reutilização e redução do desperdício que suportam decisões mais conscientes, inteligentes e sustentáveis, das compras de supermercado aos produtos de limpeza e higiene, do vestuário às festas de aniversário.

Ela sabe do que fala: simplificou a vida de todos os dias – “entreguei 10 sacos de roupa e da roupa com que fiquei mesmo assim não uso tudo” – e tornou- se auto-suficiente, ou quase, com uma alimentação vegetariana à base de produtos que cultiva na sua própria horta de agricultura biológica.

As escolhas de Joana Cordeiro, apesar de individuais, encaixam num movimento internacional em expansão, que, como alternativa ao modelo dominante, propõe o decrescimento – isto é, o regresso às origens através do emagrecimento da economia.

Com propostas que passam por cortar nas horas de trabalho, aprovar um rendimento básico incondicional, prolongar as férias, antecipar a idade da reforma, partilhar bens e infraestruturas, abandonar o automóvel, criar moedas locais e limitar a publicidade em espaços públicos.

Os grupos de trabalho, investigação e activismo espalhados pela Europa e resto do mundo, incluindo em Portugal, desde há um ano, na Rede para o Decrescimento, argumentam que o caminho político que tem como prioridade o crescimento contínuo e o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) é incompatível com os recursos materiais, que são finitos.

E garantem que a ambição de chegar mais longe, mais alto e mais rápido é a causa de graves problemas ambientais e sociais. Não há planeta B, mas há plano B: decrescer. Ou seja, diminuir a produção e o consumo, com o objectivo de alcançar maior bem-estar e igualdade entre seres humanos, em melhores condições ecológicas.

Desperdício zero 

Duas vezes por semana, a carrinha da Horta da Joaninha estaciona na Quinta do Taborda, em Leiria, para entregar os cabazes de hortaliças (e morangos) encomendados pelos clientes. O projecto de agricultura biológica dinamizado por Joana Cordeiro utiliza um terreno com meio hectare que estava abandonado e nasce da vontade de não depender de terceiros, nem de importações, para comer.

“Produzir para mim e vender o excesso, como se fazia antigamente”. A mudança na rotina de uma vegetariana “por razões ambientais” e de “ética”, mas sem fundamentalismos, fruto de “um despertar que foi acontecendo ao longo do tempo”, chega a todos os cantos do quotidiano, que é agora menos consumista e mais amigo do ambiente.

“Quando comecei, a primeira coisa que fiz foi contar os sacos plásticos que tinha em casa. E só daqueles pequenos para a fruta tinha 100”. Não frequenta centros comerciais porque não concorda com o trabalho ao fim- -de-semana, sempre que possível compra comida a granel ou não embalada, leva recipientes para trazer o queijo da mercearia, lava a louça com sabão azul e branco dissolvido e coseu o seu próprio esfregão, com corda de sisal.

Depois de ler dois clássicos do minimalismo – Desperdício Zero, de Bea Johnson, e Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida, de Marie Kondo – e perceber que acumulava tabuleiros de servir, varinhas mágicas e máquinas de sumos, entre outros objectos repetidos ou sem uso, pôs finalmente travão ao excesso. “Estão dentro de caixas no sótão, nós não precisámos daquilo e não comprámos novo”. E com vantagens: “Libertar-nos das coisas também liberta a nossa vida”.

Viciados em dívida

A funcionar desde o ano passado, em Portugal, a Rede para o Decrescimento “é um grupo informal” que procura colocar o tema no “espaço público”, explica um dos coordenadores, Álvaro Fonseca, enquanto rejeita “a dependência de um parâmetro, que é o PIB, para medir a performance da economia”.

A crítica está relacionada com “os limites ecológicos” e com “os sintomas” da insustentabilidade, que “já estão à vista”, tal como “o aumento das desigualdades”, considera o antigo professor universitário. “A ideia dos recursos finitos não é uma coisa nova. Durante o século XX criou-se a ilusão de que havia a possibilidade de continuarmos a crescer porque a nossa capacidade de inovação iria superar todos os desafios, só que os modelos económicos dominantes externalizaram todas as consequências”.

Álvaro Fonseca cita textos do Papa Francisco para estabelecer a ligação entre a crise ambiental e o modelo de desenvolvimento. “Não se trata de uma crise ideológica, trata-se de enfrentar uma realidade que está a ser camuflada por interesses políticos e económicos que beneficiam”.

Ao mesmo tempo que reconhece as “claras melhorias” na qualidade de vida das populações, ao longo das últimas décadas, lembra os impactos negativos e o “consenso na comunidade científica internacional relativamente a todas as consequências”.

Por um lado, “o crescimento à custa de combustíveis fósseis” e de “energia barata”, um contexto ultrapassado, que gera poluição e destruição de recursos. Por outro, “a riqueza muito desigualmente distribuída”. Se as necessidades básicas, para a maioria dos habitantes no chamado primeiro mundo, estão satisfeitas, outras necessidades são criadas todos os dias.

“Os bens são produzidos com tempo de vida curto para que sejam substituídos e haja necessidade de comprar coisas novas”, lembra o dirigente da Rede para o Decrescimento, apontando o papel da moda, do marketing e da publicidade na construção de tendências. E entretanto, acrescenta, “as pessoas estão a consumir com dinheiro que nem sequer têm”, numa economia “toda baseada em dívida” e em que parte do dinheiro criado “é fictício porque não está ligado a nada real”.

Álvaro Fonseca acredita que há uma “crise ambiental, social, cultural e psicológica” provocada pelo desejo de crescimento contínuo, que se traduz numa “insatisfação muito grande” e em doenças do primeiro mundo que vão da obesidade à depressão.

Por onde começar?

Para os activistas do decrescimento, o mais importante é garantir bem-estar e sustentabilidade. E também justiça intergeracional. “É uma questão fundamental e estamos a esquecê- la”, diz Álvaro Fonseca. Admite que “se vamos produzir menos", a economia “começa a entrar em colapso, em recessão” e são inevitáveis “impactos como o desemprego”.

Por isso propõe um processo faseado “em que há uma redução das horas de trabalho” e “o trabalho é redistribuído”.Na prática, um corte no nível de vida, aceite por todos, em contraste com medidas de austeridade impostas de cima para baixo.

Os desafios “são muito grandes”, reconhece, porque se trata de “um problema de vício” e “desintoxicação”. Mas necessários. “Todo este processo requer sacrifício, um bocadinho nesse sentido em que um toxicodependente precisa de passar por momentos de dificuldade para atingir algum bem-estar”.

O coordenador da Rede para o Decrescimento condena o “materialismo excessivo” e a aceleração que tira capacidade às pessoas “para pararem e pensarem o que é que as torna verdadeiramente felizes”. E, rejeitando acusações de alarmismo, catastrofismo ou miserabilismo, avisa: “Se continuamos só com o curto prazo a coisa vai correr mal”.

Fazer a própria roupa

Já lá vai o tempo em que a olhavam de lado por andar às compras com sacos de pano, para evitar o plástico, mas há outras opções que mantêm Ângela Quaresma numa espécie de compartimento à parte: faz o seu próprio desodorizante, livre de químicos, grande parte da roupa que usa é em segunda mão e dá prioridade ao comércio local. Tudo escolhas que têm por base a defesa do planeta e da comunidade que habita.

A investigadora do Instituto Politécnico de Leiria acredita que a mudança “realmente significativa”não vai acontecer “se não houver medidas ao nível global”, principalmente por parte “das grandes indústrias”, mas não abdica de contribuir, a uma escala individual. Designadamente, continuando a preferir a mercearia mais próxima. “Normalmente, produtos frescos, nem sempre biológicos, porque nem tudo o que é biológico é bom para o ambiente. Se vem de longe tem todo o transporte associado”.

Se entre tarefas e agendas carregadas faltam momentos para reflectir, Ângela Quaresma não esquece que “a economia têxtil é das que mais polui o planeta”, além de estar assente em salários baixos, o que a leva a evitar shoppings e multinacionais do pronto-a-vestir.

“Já compro roupa em segunda mão há muitos anos. Ou faço eu. Tenho peças desde o ensino secundário que ainda estão boas”. Cada compra “tem de fazer sentido” e o apoio ao comércio local significa “dar dinheiro a pequenos negócios”, logo, “é mais sustentável para as pessoas que nos rodeiam e para a região”.

Uma alternativa urgente

Jorge Leandro Rosa, outro dos coordenadores da Rede para o Decrescimento, explica que a meta da estrutura criada em 2018 é ir somando grupos locais, além dos que actualmente estão activos no Porto e em Lisboa. Diz que “as nossas sociedades estão viciadas no crescimento a todo o custo”, portanto, “como em toda a dependência, quando o crescimento falha, quando não é tão pujante como em épocas anteriores, as sociedade entram em crise não apenas económica mas social e política”.

Para este investigador da Universidade do Porto, o decrescimento é urgente “por razões estruturais”, de que a energia e as matérias-primas são os principais factores. “O decrescimento vai ser uma realidade a muito breve trecho e não sou eu apenas que o digo”, assegura.

“A nossa economia tornou-se abstracta e pensa o crescimento como uma realidade independente do mundo material. A economia virtual, as novas tecnologias, são muitas vezes vistas como factores sem base material, o que é um absurdo, evidentemente”.

Para Jorge Leandro Rosa, a decisão “é entre um decrescimento sofrido, passivamente, reactivamente, que tende sempre a transformar-se em austeridade” e “um decrescimento em que as sociedades têm consciência das situações e escolhem os caminhos”.

Neste sentido, a Rede para o Decrescimento pretende colocar a discussão na agenda mediática porque actualmente o debate “quase parece inconcebível dentro do quadro mental e de referenciação em que a vida política decorre”. Visa também “a criação de apoio mútuo e de esclarecimento entre pessoas que se aperceberam da importâncias destes conceitos e destas práticas”. Finalmente, quer ajudar “projectos que surjam na sociedade portuguesa e que tenham o cunho do decrescimento”, seja nas cidades ou no campo.

Os pensadores do decrescimento defendem formas de governação que o ensaísta e académico diz serem “mais participativas, mais descentralizadas”, em que o poder local, por exemplo, tende a ser “o nível superior de representatividade”, uma vez que “falar de uma sociedade em decrescimento é falar de uma sociedade descentralizada porque as energias e os recursos estão mais orientados para o local”.

Além da autosuficiência alimentar, Jorge Leandro Rosa idealiza comunidades com moedas locais, já experimentadas “em vários pontos da Europa”, como meio para “reforçar a vida do bairro” e defender o comércio de proximidade.

Ainda nas cidades, “o automóvel tornou-se uma praga”, conclui o dirigente da Rede para o Decrescimento, que alerta para a necessidade de explorar a tecnologia com mais inteligência, numa perspectiva de partilha, por oposição à propriedade. “A mim parece-me que a solução não está na publicidade constante da indústria, que nos diz que faz carros menos poluentes, a solução é repensar a nossa mobilidade”.

Inspirado pela Natureza

Para Jaime Páramo, um galego a viver no concelho de Alcobaça, especialista em agricultura regenerativa, o decrescimento, a que chama desconstrução, “passa por desmontar uma imposição social e um marketing extremamente agressivo”, que se aproveita “de vazios que existem dentro do ser humano" para montar “uma máquina doentia de consumo”.

Com consequências: egoísmo, competição, individualismo, conflito. Diz que vive em sentido contrário e serve-se da agricultura como exemplo: “Somos um ser vivo parte da Natureza, temos de ter em conta os outros intervenientes, tudo se resume a essa relação”. E se nada se perde, antes se transforma, também tudo o que vem da Natureza a ela tem de regressar, o que o leva a defender as teses da economia circular e da reciclagem.

Enquanto consumidor, as escolhas de Jaime Páramo pesam sempre que cada acção produz um resultado. “Consumir o essencial para a nossa satisfação pessoal, que parte de ter a barriga cheia, uma alimentação saudável, boa para mim e para o meio ambiente”.

E, tão importante como aquilo que comemos, a origem. “Como é que esse alimento veio parar ao meu prato”. É local? É da época? É embalado? Depois, seja um telemóvel, um carro ou uma ferramenta, procurar “bens de qualidade” e “duráveis”, para poupar recursos e energia. Mais uma vez, a inspiração está à nossa volta.

Jaime Páramo afirma que, numa floresta, “o saldo energético é positivo”, faltando “a compreensão e o entendimento por parte do consumidor e da sociedade em conjunto que o nosso saldo tem”, também, “de ser positivo”.

Em Portugal, nota “um grande egoísmo social quanto aos transportes públicos” e lamenta a escassez de serviços que permitam aluguer de bens, em vez de os adquirir. “Falta uma consciência de colectividade, de conjunto, de compreensão que todos estamos no mesmo planeta, podemos viver bem e em abundância”.

A partilha é um dos pilares do decrescimento e o agricultor nascido na Galiza dá como exemplo a casa que habita, que é de um amigo, a quem paga uma renda justa e amistosa numa ocupação com benefícios para ambos. “O que em biologia chamamos simbiose”.

Mais participação

No Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (Cense) da Universidade Nova de Lisboa, a investigadora Inês Cosme tem dedicado tempo a estudar ideias e experiências alinhadas com o decrescimento, o que lhe permitiu identificar 385 iniciativas em bases de dados nacionais e internacionais.

Quis “perceber se em Portugal pequenas iniciativas de sustentabilidade já estariam ou não a contribuir para a transição para o decrescimento” e concluiu que, mesmo quando não usam o conceito como chapéu, em muitos casos partilham o mesmo espírito. Que “tem a ver com redução do consumo, criar estruturas mais democráticas, mais horizontais, voltar ao espírito de comunidade, tornar os territórios mais resilientes e não tão dependentes do sistema”, explica.

“No fundo são tudo iniciativas criadas para tentar experimentar um tipo de actividade económica que respeite as pessoas e o planeta, não só virada para o lucro”. Por exemplo, cooperativas, eco-aldeias, lojas de produtos biológicos, cafés onde voluntários ensinam os clientes a reparar pequenos electrodomésticos. Neste cenário, a partilha é crucial. “Não é tão importante ter, é importante ter acesso aos recursos. A ideia de não termos todos um berbequim em casa e só alugarmos quando é preciso”.

Os estudos de Inês Cosme mostram que a maioria dos envolvidos procura autonomia e auto-suficiência. Demonstram “motivações ecológicas e também outro tipo de motivações, como querer estar mais de acordo com os seus valores”, além da “resistência ao modelo económico actual, por ser pouco inclusivo”.

A investigadora afirma que “as iniciativas” já identificadas revelam “que é possível mudar muitas coisas”, precisamente porque “não precisamos de ter tantas coisas como temos” e porque “a partir de um certo nível de conforto económico, a felicidade das pessoas não aumenta”.

Mas, dado a complexidade do sistema social, político e económico, impõe-se uma abordagem mais extensa. “Nenhuma medida pode ser posta em prática sozinha, tem de se pensar estruturalmente num pacote de medidas”, realça a especialista da Universidade Nova de Lisboa.

Ou seja, “a redução das horas de trabalho”, uma das bandeiras do decrescimento, “é uma medida importante mas teria de ser acompanhada de outras medidas que incentivassem as pessoas a participar mais na vida comum em sociedade, em vez de transformarem esse tempo livre em consumo”.

Inês Cosme defende medidas para “regular melhor a publicidade”e “encorajar modelos de negócio mais horizontais”, como as cooperativas, porque ajudam “na redistribuição da riqueza”. Objectivos? Voltarmos a sentir que somos autónomos, que temos responsabilidade face ao que acontece nas nossas cidades e regiões de residência, não sermos definidos só pelo trabalho, abraçar outras dimensões de vida.

A investigadora divide as propostas para o decrescimento em três grupos: redução dos impactes ambientais das actividades humanas, redistribuição do rendimento e riqueza dentro e entre países, transição de uma sociedade materialista para uma sociedade convivial e participativa.

E identifica três meios de transformação para o decrescimento: activismo oposicional (directamente feito pela sociedade, por exemplo, com protestos e boicotes), criação de alternativas (ou seja, as iniciativas de sustentabilidade que experimentam formas diferentes de nos relacionarmos com o sistema económico e com a sociedade); e o reformismo (reformas graduais das instituições existentes para divergirem para uma lógica de decrescimento).

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Painéis solares nos telhados poderiam reduzir até 75% do consumo de energia de escolas

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Um estudo publicado na revista científica “Environmental Research Letters” mostra que aproveitar todo o espaço disponível nos telhados para a instalação de painéis solares pode permitir que as escolas atendam a até 75% das suas necessidades de eletricidade e reduzir a pegada de carbono do setor educacional em cerca de 28%.

Esta análise incidiu na realidade norte-americana, mas a sua lógica é transponível para outros mercados como o nosso.

O estudo pode ser consultado aqui.

O estudo refere ainda que os painéis solares poderiam ajudar as escolas a colocarem de lado o abastecimento a redes alimentadas por fábricas de gás natural e carvão que produzem partículas, dióxido de enxofre e óxidos de azoto – poluentes atmosféricos que contribuem para a poluição e para as chuvas ácidas, além das graves consequências que induzem na saúde, designadamente em ataques cardíacos e na redução da função pulmonar.

Redirecionar verbas para outros fins

Nos EUA, os custos de energia gastos por muitas escolas em muitos distritos são substanciais, perdendo apenas para os salários.

O documento sugere que os investimentos em projetos solares adequados – com os incentivos certos dos Estados – poderiam libertar o dinheiro necessário nos orçamentos das escolas para outros fins.

O “paper” científico refere que no caso dos EUA, os Estados mais solarengos do Texas, Califórnia e Florida estão entre os que maior potencial têm de gerar eletricidade a partir de painéis fotovoltaicos montados nos telhados das escolas. Aponta o estudo: praticamente 90% das instituições de ensino têm espaço nos seus telhados para receber uma instalação solar.

Na opinião da especialista Inês Azevedo, uma das autoras do estudo e co-diretora do Centro de Clima e Energia da Carnegie Mellon e que, em julho, integrará a faculdade de Stanford, esta evidência trazida a lume deixa claro que “há um argumento para aumentar o nível de incentivos para reforçar a adoção de painéis solares por parte do setor educacional”.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

“Arquitectura orgânica” de Frank Lloyd Wright classificada como património mundial pela UNESCO

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Portugal conta desde domingo com mais dois monumentos classificados como património cultural mundial. No mesmo dia, a UNESCO incluía mais uma alínea nessa reputada lista: oito edifícios do arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright passam agora a estar equiparados ao Palácio Nacional de Mafra, ao Bom Jesus de Braga ou à Grande Muralha da China e à Antiga Babilónia. É a primeira vez que a UNESCO reconhece a arquitectura moderna norte-americana.

A obra de Frank Lloyd Wright (1867-1959) junta-se assim à do arquitecto Le Corbusier na lista de património mundial, que também já integra o impacto do movimento Bauhaus, por exemplo.

Nos últimos dias, dezenas de novos sítios foram classificados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, entre os quais a região brasileira de Paraty ou a cidade de Jaipur, na Índia. Uma das novas entradas é “a arquitectura do século XX de Frank Lloyd Wright”, materializada em oito edifícios sitos nos EUA e criados na primeira metade do século XX. 

Desse pacote constam as casas Fallingwater (construída sobre uma cascata na Pensilvânia entre 1936 e 39), Herbert and Katherine Jacobs House (Wisconsin), Hollyhock (onde hoje funciona um centro de artes em Los Angeles) ou Frederick C. Robie House (Chicago). À cabeça está o Unity Temple, em Oak Park, nos arredores de Chicago (estado do Illinois). Mas a lista inclui naturalmente o emblemático Museu Guggenheim de Nova Iorque (1959), uma das obras que simbolizam o estilo de Wright para o grande público mas que não revela a versatilidade da sua linguagem plástica dos seus anos modernos, e as duas casas-complexo Taliesin — a original, no Wisconsin, e Taliesin West, no Arizona.

Se cada país tivesse o tamanho da poluição que produz e o nome do seu produtor?

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Um dos mais sérios entraves à consciencialização sobre a crise climática que vivemos terá a ver com a dificuldade que enquanto indivíduos temos para perceber o impacto de cada acção, de cada pessoa ou de cada país. No meio das notícias diárias sobre plástico nos Oceanos, directivas europeias e promessas de transição energética, tudo se torna ambíguo e, portanto, mais difícil de compreender a sua relação directa com as consequências.
É verdade todas as nossas acções têm uma consequência no Planeta Terra, que o plástico é um dos resíduos mais poluentes do planeta levando à morte de animais marinhos, mas não é claro que seja essa a causa da crise climática. Para sermos precisos, entendamos que neste caso estamos perante dois problemas distintos: a poluição e a contaminação com plásticos de um lado, a crise climática e o aquecimento global de outro — podendo tocar-se no momento da produção, visto que o plástico pode ser produzido a partir de materiais como o carvão ou gás natural.
Portanto, por muita palhinha ou plástico do uso único que consigamos evitar nos próximos tempos graças à legislação que se avizinha, no global continuaremos com o outro problema por lidar, aquele cujas consequências se tornam visíveis a cada imagem viral de um urso polar desorientado, a cada desastre natural desproporcional, em momentos de seca ou em ondas de calor. Esse problema é o do aquecimento global que se caracteriza em grande parte pela acumulação de gases com efeito de estufa na atmosfera terrestre, provocando uma escalada da temperatura média do planeta — e nesse caso, os responsáveis são num número muito mais reduzido. Na realidade, desde 1988, apenas 100 empresas contribuíram para a emissão de mais de 70% de todos os gases com efeito de estufa (GEE).
Para nos dar uma ideia dessa realidade e mostrar a proveniência dos poluentes, Jordan Engel, criou um projecto cartográfico onde situa cada um dos donos das empresas no seu país de origem, redimensionando o país em função do seu impacto global na emissão de GEE. O resultado é um mapa com 100 nomes distribuídos por uma série de países que se confundem com a lista das pessoas mais ricas do mundo que, em conjunto, detém o monopólio da exploração de recursos naturais, beneficiando do estatuto para acumular fortunas difíceis de imaginar.
Pormenor americano
Pormenor europeu
Pormenor asiático
Engel defende, numa publicação no blogue Decolonial Atlas (onde primeiramente publicou o mapa), que estas deviam ser as pessoas realmente responsabilizadas pelo aquecimento global por continuarem a alimentar as suas fortunas e as suas empresas com modelos de negócios extractivos e penalizadores para o ambiente, sem usarem o seu poder para provocar qualquer mudança.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A água também se planta

Com as alterações climáticas a agricultura sintrópica praticada por Ernst Götsch parece fazer cada vez mais sentido. O suíço, radicado no Brasil, esteve em novembro em Mértola numa conferência onde explicou que o sistema de agrofloresta é o ideal para enfrentar estes desafios porque a consociação de culturas agrícolas e de floresta, de forma estruturada e adaptada ao local, alimenta o solo e dá-lhe a humidade necessária para as plantas crescerem sem necessidade de rega: “A água também se planta”, assegurou.

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Ernst Götsch, criador do conceito de Agricultura Sintrópica, defendeu que a agricultura do futuro, ou o futuro da agricultura, passa por “desenvolver formas mais próximas à mãe-terra, através de agroecossistemas parecidos aos ecossistemas naturais e originais de cada local, que no caso do Mediterrâneo é a Floresta de Quercus”. Para isso, “não podemos continuar a encarar a agricultura como uma ‘exploração’ da terra, o que temos de fazer é criar uma agricultura de processos, seguir um caminho, onde estejamos a trabalhar para sermos úteis para nós e para o local onde estamos. Porque somos parte de um sistema inteligente, não somos os inteligentes”.
Perante uma plateia essencialmente jovem, no Cineteatro Marques Duque de Mértola, numa conferência organizada pela Life in Syntropy, a Agenda Ernst Götsch, a Associação de Empresários do Vale do Guadiana e a Câmara Municipal de Mértola, o agricultor – que, no Brasil já recuperou cerca de 800 hectares de floresta atlântica – deixou o desafio: “se de facto somos homo sapiens devemos ser sábios e aprender com os erros que temos vindo a fazer repetidamente ao longo de séculos e que estão a esgotar os nossos recursos, senão mais vale mudarmos o nosso nome para homo destructor ignorantis”.
O sistema que o guru suíço tem vindo a aplicar no Brasil e noutros países onde já há várias experiências piloto como em Espanha, França e Portugal, associa ao objetivo do estabelecimento de áreas produtivas os objetivos do reforço da oferta de serviços ao ecossistema, com especial destaque para a formação de solo, a regulação do microclima e o favorecimento do ciclo da água.
Pôr as plantas a ‘criar’ água
Para isso mostrou vários exemplos concretos com valores de produção e de criação de matéria orgânica. Num dos exemplos, na entrelinha de uma cultura principal foram semeadas gramíneas que depois de cortadas foram incorporadas junto das raízes da cultura principal para fornecer matéria orgânica e ajudar a manter o solo mais húmido: “Não tenho nenhuma dúvida, a água também se planta”, assegurou, acrescentando que “em todos lugares onde já fiz intervenção, até em zonas extremamente secas, com 150 a 200mm de precipitação por ano, se plantarmos vegetação, a situação torna-se completamente diferente”.
O exemplo foi do Brasil mas Ernst Götsch tem estado também a testar a adaptabilidade do modelo e o seu contributo para a regeneração de áreas agrícolas de baixa produtividade e de elevada vulnerabilidade a problemas de erosão de solos, fraca precipitação, alterações climáticas e risco de desertificação, como é o caso do nosso Alentejo e da região de Mértola, onde deu a conferência.
Como exemplo de um sistema que já desenhou aqui em Portugal o criador da Agricultura Sintrópica falou de um projeto criado na Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo, aproveitando um olival antigo para plantar no meio várias outras espécies de árvores – nogueiras, figueiras, citrinos, etc. – bem como uma parte também de vinha.
Por isso, o ‘segredo’ é criarmos um sistema estratificado em que a floresta se mistura com a agricultura e o solo protegido pela sombra das árvores maiores permite o crescimento das diversas espécies, havendo, inclusivamente, a regeneração dos solos, que se tornam mais húmidos, bem como se promove a absorção de água da atmosfera.
Estimular a natureza
“Sou agricultor, trabalho no campo, e muito, vivo do que produzo e fico muito orgulhoso de ver o local onde vivo cada dia mais rico e próspero, até voltamos a ter riachos que tinham desaparecido há dezenas de anos” mas alertou: “Há uma parte muito grande de filosofia na base de tudo isto. A vida no Planeta é funcional, tudo existe para desempenhar uma função, a vida é instrumental na Terra e ela transformou o Planeta. Por exemplo, em relação ao sistema de água doce que circula entre a precipitação e a evaporação, se matamos a vida (plantas, animais…) reduzimos ou acabamos com a água, se plantamos vegetação estimulamos este sistema”, afirmou.
Ernst Götsch salientou de novo que o que é natural é termos uma floresta estratificada e junto ao solo termos também vegetação autóctone sempre verde e uma das nossas funções é, por exemplo, podar as árvores. “E há séculos atrás as árvores autóctones eram presença forte junto dos campos agrícolas. Com essa poda estamos a restituir ao solo matéria orgânica, para podermos produzir mais alimento”, sublinhando que também na parte agrícola há vantagens em semear algumas espécies em consociação, de forma organizada, porque promove o desenvolvimento de cada planta (ex: rúcula com alface) e ajuda a prevenir pragas e doenças.
Por isso, na Agricultura Sintrópica também não é necessário usar adubos externos, muito menos químicos, a terra é adubada pela matéria orgânica criada no próprio terreno através, nomeadamente da poda que é feita, seguindo os ciclos da natureza.
Falando, por exemplo, da proliferação dos eucaliptos em Portugal e do problema da incidência de fogos, o guru frisou que “99,9% dos eucaliptos foram plantados e plantá-los não tem nenhum mal, o problema é como foi feita essa plantação e a forma como eles têm vindo a ser tratados”, frisando que temos de “repensar os conceitos de proteção contra fogo. Proteção contra fogo não é matar árvores é plantar floresta estratificada e fazer bem a sua manutenção”. Ernst Götsch alertou ainda que as podas, por exemplo, “não são para fazer como se estão a fazer aqui em Portugal, em maio com medo que ardam, não, têm de ser feitas no início das chuvas para depois deixar no chão o que se corta para que as bactérias trabalhem e criem matéria orgânica e a última poda que se faz é antes da última chuva, seguindo o que a própria natureza faz”.
Sobre o uso de tecnologia, o agricultor salientou que tudo isto pode ser feito também com recurso a tecnologia, “sou fã de tecnologia e até ando a tentar construir um pequeno robot para fazer a poda das árvores”, por isso não tenho nada contra a mecanização, desde que seja integrada no agrossistema.

domingo, 7 de julho de 2019

8 Mitos sobre Refugiados que é Urgente Desconstruir

Fonte: Amnistia Internacional

Mito 1. OS REFUGIADOS ESTÃO TODOS A FUGIR PARA A EUROPA! FACTO: A maioria dos refugiados foge para países vizinhos. Os que mais acolhem refugiados são a Turquia (3,7 milhões), o Paquistão (1,4 milhões), o Uganda (1,2 milhões), o Sudão (1,1 milhões) e a Alemanha* (1,1 milhões). Os países considerados desenvolvidos acolhem apenas 16% dos refugiados.

Mito 2. NÃO É URGENTE. A CRISE JÁ PASSOU! FACTO: A população refugiada sob a proteção do ACNUR praticamente duplicou desde 2012 e a tendência tem sido para o aumento destes números. Registavam-se em junho de 2019: 70,8 milhões de deslocados; 25,9 milhões de refugiados (incluindo 5,5 milhões de palestinianos refugiados); 20,4 milhões de refugiados sob a proteção do ACNUR; 3,5 milhões de requerentes de asilo; 41,3 milhões de deslocados internos; 2,9 milhões de pessoas retornados aos seus países de origem; 138.600 crianças sem acompanhamento ou separadas das suas famílias; Quase metade dos refugiados são menores de 18 anos; 37 mil novos deslocados a cada dia de 2018; 67% dos refugiados são originários de 5 países: 6,7 milhões da Síria; 2,7 milhões do Afeganistão; 2,3 milhões do Sudão do Sul; 1,1 milhão do Myanmar; Quase 1 milhão da Somália. (Números do ACNUR de junho de 2019 – https://www.unhcr.org/globaltrends2018/)

Mito 3. JÁ HÁ TANTOS EM PORTUGAL! FACTO: No quadro do programa de recolocação e reinstalação do governo, que terminou em março de 2018, Portugal acolheu (de dezembro de 2015 a março de 2018) 1552 refugiados, distribuídos por 99 municípios. No entanto, 768 abandonaram o país e apenas 79 voltaram a Portugal. Ou seja, 45% dos refugiados que foram acolhidos já não se encontram no nosso território.

 Mito 4. ELES VÊM PARA USUFRUIR DOS NOSSOS BENEFÍCIOS E PARA ROUBAR OS NOSSOS EMPREGOS! FACTO: Os refugiados ao abrigo do programa de recolocação e reinstalação têm apoio de instituições que recebem, maioritariamente, financiamento europeu. Cada refugiado adulto recebe 150 euros por mês. Este programa de apoio do governo dura 18 meses, findos os quais os refugiados devem tornar-se autónomos e sem precisar de qualquer apoio do governo, o que aconteceu em 42% dos casos, em 2018. No final de 2018, 48% dos refugiados já estavam integrados em formação profissional, ensino superior ou emprego. Todos os estudos indicam benefícios económicos para os países de acolhimento: verifica-se um aumento das receitas fiscais líquidas, sobretudo quando os refugiados optam por ficar a residir no país de acolhimento, que compensa os gastos públicos aplicados no ano da chegada. © Amnesty International

 Mito 5. A EUROPA DEVE REFORÇAR AS SUAS FRONTEIRAS PARA EVITAR A IMIGRAÇÃO E AS MORTES! FACTO: Não está provado que a construção de muros e diminuição de meios de busca e salvamento contribuam para impedir a entrada de pessoas. Não é a existência de operações de busca e salvamento no mar que atrai mais pessoas. Pelo contrário, chegaram mais pessoas à Europa e registaram-se mais mortes nas alturas em que os programas de busca e salvamento tinham menos meios à sua disposição, documentaram académicos europeus.

Mito 6. OS REFUGIADOS FAZEM VIAGENS PERIGOSAS POR ESCOLHA PRÓPRIA E/OU POR INCONSCIÊNCIA! FACTO: Os refugiados fogem do terror, da miséria e de guerras. Ninguém colocaria a sua vida e a da sua família em risco se não fosse impossível ficar nos locais de onde fogem, especialmente sabendo o que poderão enfrentar na viagem: Travessias marítimas ou terrestres extremamente difíceis com risco de morte; Espancamentos, maus tratos, violações e assassinatos perpetrados por traficantes (a quem têm de pagar somas avultadas) e por algumas autoridades; Permanências longas (muitas das vezes duram anos) em campos sobrelotados, sem condições de acolhimento dignas (abrigos em tendas durante o Inverno, escassas condições de saneamento, de acesso a alimentação e cuidados de saúde, agressões e violações); Condições de acolhimento e integração nem sempre adequadas, com pouco dinheiro para usarem no quotidiano, barreiras linguísticas e culturais, burocracias a nível da documentação, falta de reconhecimento das qualificações (o que dificulta o emprego); Discriminação e xenofobia em alguns países de acolhimento que degeneram em ameaças e ofensas (muitas das vezes graves) físicas e psicológicas Muitos destes desafios e obstáculos acabam por incentivar muitos refugiados e requerentes de asilo a abandonarem o país de acolhimento. Em 2019, 559 pessoas tinham perdido a vida no Mediterrâneo ou estavam desaparecidas. 

Mito 7. NÃO QUERO APOIAR A INTEGRAÇÃO DE REFUGIADOS PORQUE ASSIM AS PESSOAS MAIS NECESSITADAS EM PORTUGAL FICARÃO SEM AJUDA! FACTO: Muitas das associações que prontamente se disponibilizaram para apoiar a chegada de refugiados são as mesmas que já ajudam outros grupos vulneráveis da sociedade portuguesa. Os fundos canalizados para esses fins não são divididos ou substituídos por outros destinados a outras necessidades. Na verdade, vêm de outras fontes de financiamento, especialmente da União Europeia. Na solidariedade não existe competitividade.

Mito 8. DE QUALQUER FORMA, NÃO POSSO FAZER NADA! FACTO: De facto, pode fazer alguma coisa: Assine e partilhe as nossas petições, especialmente o nosso Manifesto https://www.amnistia.pt/peticao/eu-acolho/ Participe na nossa ação Love not Walls, através da qual pretendemos ultrapassar o número de quilómetros do muro que está a ser construído entre os EUA e o México, em https://lovenotwalls.amnistia.pt * Por lapso, os dados da Alemanha não foram incluídos na primeira publicação. Atualização efetuada no dia 25 de junho de 2019.

sábado, 6 de julho de 2019

“Novo” Jardim Botânico do Porto vence International Architecture Award 2019

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O projeto de requalificação do Jardim Botânico do Porto – Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) foi um dos dois vencedores na categoria “Parques e Jardins” dos International Architecture Awards 2019, a maior e mais antiga celebração pública anual da arquitetura à escala global.

Coordenada pela equipa de Nuno Valentim, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), a intervenção no conjunto de obras que integram o Jardim Botânico do Porto arrancou em 2010 e teve a sua última fase em 2017 com a abertura da Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva na Casa Andresen. O projeto integrou igualmente a reabilitação da Casa Salabert para acolher o E-learning Café – Botânico (inaugurado em 2015), bem como o restauro das estufas concebidas por Franz Koepp nos anos 60 do século XX.

No total, a intervenção implicou a requalificação de uma área bruta de construção de cerca de 4 800 m2, numa área de jardim com 48 500 m2.
Da empreitada fez também parte a recuperação das estufas de Franz Koepp. (Foto: DR)


Para Nuno Valentim, coordenador do projeto, “a atribuição deste prémio a este conjunto de obras é-nos particularmente querida pois vem gratificar um enorme trabalho e esforço do conjunto de autores [Nuno Valentim, Frederico Eça, Maria Ana S. Coutinho, Margarida Carvalho], colaboradores e equipas projetistas envolvidas nos vários projetos”. O docente da FAUP elogia ainda o “envolvimento do Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida, e do atual Diretor do Jardim Botânico do Porto, Paulo Farinha Marques, que, no âmbito da componente de espaços exteriores colaborou também como projetista”.

Recorde-se que o projeto de requalificação do Jardim Botânico do Porto já tinha sido nomeado para o conceituado European Union Prize for Contemporary Architecture – Mies van der Rohe Award 2019. Já a obra de reabilitação da Casa Salabert, recebeu uma menção honrosa no Prémio João de Almada 2017 e conquistou o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2016.

A cerimónia de entrega dos International Architecture Awards 2019 terá lugar no próximo dia 13 de setembro, em Atenas, Grécia, e os projetos vencedores figurarão num catálogo – “Global Design + Urbanism XIX (“New International Architecture”) –, editado por Christian Narkiewicz-Laine e publicado pela Metropolitan Arts Press Ltd..
Sobre o prémio

Fundados em 2005, em resultado de uma iniciativa conjunta do The Chicago Athenaeum: Museum of Architecture and Design e do European Centre for Architecture Art Design and Urban Studies, os International Architecture Awards constituem a maior e mais antiga celebração pública anual da arquitetura à escala global, afirmando-se como o único programa de prémios públicos sem finalidades comerciais.

A edição deste ano premiou 350 projetos de 41 países, após uma avaliação que teve em conta critérios como a visão, inovação e originalidade, acessibilidade, sustentabilidade, sensação de conforto e usabilidade, adequação à finalidade e nível de satisfação dos clientes. Para além da equipa de Nuno Valentim, a lista de premiados inclui os também gabinetes portugueses PMC Arquitectos e Plano Humano Arquitectos.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Heike Freire: “Antes que “salvar” el planeta, debemos “amar” el planeta”

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Antes que “salvar” el planeta, vamos a “amar” el planeta… Esa es la lección primordial que ha aprendido Heike Freire al cabo de dos largas décadas como pedagoga y comunicadora y autora de Educar en verde (Grao) intentando transmitir a los profesores esa pasión contagiosa que llevan los niños en su propia naturaleza.

¿Qué es exactamente la pedagogía “verde”? ¿Es una nueva forma de enseñar centrada en la naturaleza o es algo más?

Se trata más bien de un enfoque educativo basado en la confianza, en la inteligencia innata con la que cada ser vivo está equipado. Los niños, niñas y jóvenes tienen dentro de sí todo lo que necesitan para crecer y desarrollarse plenamente. Las recompensas (pedagogía blanca) y los castigos (pedagogía negra) desorientan. La pedagogía “verde” propone a cambio un acompañamiento consciente de los procesos naturales de desarrollo, autoconcimiento y aprendizaje de los niños. El contacto con el entorno natural favorece ese reencuentro, la reconexión con nosotras mismas y con el planeta. La naturaleza es un espacio sabio y vivo del que nuestra especie emergió hace cientos de miles de años. Es a la vez madre y maestra. Nos ofrece experiencias que no tienen sustitutivo, especialmente en la infancia. Integrarla en la educación es empezar a construir esa transición ecológica que tanto necesitamos.

¿El medio ambiente debería ser pues una “nueva” asignatura?

Yo creo que debería ser una materia transversal, que empapara todos los demás conocimientos. Tendría que ser el eje de todo el edificio curricular. De un currículo mucho más concreto y flexible, donde cada cual pudiera construir su propia trayectoria. No tenemos mucha idea de lo que requerirá el mercado de trabajo dentro de diez o quince años, pero sabemos que necesitaremos buenas personas, buenos padres y madres, hermanos y vecinos atentos y solidarios… Que necesitaremos agricultores para producir alimentos locales, no contaminados. Biólogos capaces de reparar los ecosistemas que estamos dañando. Ingenieros que puedan desarrollar tecnologías limpias y sencillas imitando la sabiduría de la naturaleza… Artistas e intelectuales que puedan crear historias e imágenes que simbolicen una nueva cultura centrada en la vida y enraizada en la tierra. Sabemos que necesitaremos buenos ciudadanos y ciudadanas comprometidos con una ética del cuidado, que amen profundamente el planeta, que sepan cuidarlo, respetarlo, y en armonía con las todas las formas de vida humanas, no humanas y más que humanas.

Hablas de la necesidad de “renaturalizar” las escuelas, ¿acaso no tendríamos que empezar por renaturalizar las ciudades? Muchas escuelas no tienen siquiera un espacio verde cerca…

Desde luego. Y cada vez son más los ayuntamientos conscientes de esta necesidad, de la estrecha relación que existe entre el cuidado y la renaturalización de sus espacios y la salud y el bienestar de sus ciudadanos. Las familias y las escuelas pueden apoyar este impulso saliendo con frecuencia a los entornos verdes cercanos, reivindicando que se renaturalicen más espacios, ocupando solares abandonados para transformarlos en huertos y jardines gestionados por las propias comunidades educativas y vecinales, como ya es el caso en varios lugares. Además, al transformar los patios de cemento y hormigón en áreas donde se puede jugar con agua y tierra, en bosquecillos y vergeles, estamos dotando a las ciudades de nuevos espacios verdes, lo que redunda en beneficio de todos.

Se habla mucho de huertos escolares y de escuelas-bosque, pero la dura realidad siguen siendo los patios de recreo de hormigón y las dificultades con las que se encuentran padres y profesores. ¿Están realmente cambiando las cosas?

Yo diría que sí. El movimiento es imparable. En los últimos seis años, la semilla se ha extendido por todo el territorio y ya son cientos, por no decir miles de escuelas las que están implicadas en procesos de transformación de sus espacios exteriores. Hasta ese momento, la mayoría de las personas veían el cemento y el vacío como algo “normal”. Las maestras no los utilizaban más que par la media hora de rigor. Siempre con muchos conflictos ya sea por cuestiones de género o simplemente de convivencia, al no haber sido pensados ni trabajados desde el punto de vista educativo. Los arquitectos no tenían datos sobre los patios. Y, sin embargo, es frecuente que ocupen entre un 40 y un 60% de la superficie de las escuelas. Y si tienen algún elemento natural, árboles o incluso una pequeña charca, suele esta cerrada, inaccesible para los alumnos. Todo esto está cambiando gracias al enorme trabajo de sensibilización que estamos haciendo muchas personas. Como Carme i Pitu, dos maestros jubilados que desarrollan el proyecto Safareig y han recorrido y asesorado a centenares de centros. El interés es enorme. En un taller reciente que impartí sobre el tema en Alicante, para 80 personas, había 200 inscritos…

Háblanos de la influencia de Richard Louv y Quing Li en tu trabajo, del vínculo entre el bosque y la infancia, de tu experiencia personal en Madreselva…

Yo acompañaba a niños y niñas en esa escuela en el bosque, que estaba en la Vera cacereña, cuando escuché hablar Richard Louv. Cuando lo leí fue como si todas las piezas del puzzle encajaran y es una gran noticia que Los últimos niños en el bosque (Capitán Swing) haya sido publicado finalmente en España. Fue una gran inspiración para mí. No solo es un gran profesional del periodismo, serio y riguroso, con una sólida formación en muchos otros campos. También es una persona muy comprometida. Con Quing Li estuve en contacto hace tres años en Japón, cuando visité por todo el territorio varias áreas preparadas para practicar lo que los japoneses llaman Shinrin-Yoku, baños de bosque. Nadie transmite como él hasta que punto nuestra vida, nuestra salud y nuestro bienestar depende de los árboles. Creo que es un sentimiento muy vivo en ese país, debido a su historia: hace varios siglos los japoneses estuvieron a punto de perder toda su masa forestal, de convertirse en un desierto, como sucedió en la isla de Pascua. Pero fueron capaces de rectificar y ahora tienen algunos de los bosques más bellos del mundo.

Recalcas también la necesidad del contacto “cotidiano” del niño con la naturaleza, más allá de las “escapadas” periódicas al campo

Según los estudios, el vínculo entre el ser humano y la naturaleza se establece y se fortalece en una relación sostenida, cotidiana, continua. Esto no disminuye el valor de las salidas semanales, mensuales o incluso trimestrales, que también son muy beneficiosas. Pero si piensas en cualquier otra relación, con un amigo o con un familiar, es fundamental vivir la cotidianeidad, al menos durante un tiempo, para que se establezca ese vínculo. Cuando dos personas se aman, desean estar juntas, especialmente al principio. Después, a lo largo de los años, si ese lazo está fuerte, podrá soportar cualquier separación. La infancia es la etapa de la vida del ser humano en la que se construye su vínculo con el entorno natural. Por eso es fundamental que transformemos los entornos familiares, escolares y urbanos, para que niños, niñas y jóvenes puedan crecer en el amor por la tierra. También para que puedan estar sanos y vivir plenamente su infancia. Yo diría que es un derecho fundamental de toda criatura humana: cultivar una relación de cuidado y afecto no con su familia humana, sino también con su familia no humana o más que humana.

Naturaleza y Tecnología ¿hasta qué punto son incompatibles? ¿Cómo puede un niño recuperar el asombro ante la naturaleza en la era de Snapchat? 

Efectivamente hay mucho debate entre los especialistas. Y es un tema que me preocupa porque muchas familias están desbordadas, se sienten impotentes. Hace unos meses, durante un taller sobre este asunto, hubo un largo silencio a la pregunta: como os relacionáis con la tecnología. Después la gente empezó a decir que se sentía culpable, frustrada…En lo que casi todos estamos de acuerdo en que necesitamos un equilibrio. Y es probable que, en los primeros años de la vida, menos tecnología sea sinónimo de mayor salud y mejor desarrollo. Después, se puede ir introduciendo, pero siempre con criterio. Pensando en satisfacer primero necesidades más fundamentales como el juego espontáneo en la naturaleza. Un criterio básico para equilibrar naturaleza y tecnología es observar si esta última contribuye a ampliar o a reducir nuestra vida. En este último caso, es mejor intervenir lo antes posible. Y siempre, plantearnos las necesidades que tenemos.Utilizar los aparatos con consciencia, sin perder el control, sin dejar que ellos nos usen a nosotros, en lugar de nosotros a ellos. Esto sirve para cualquier edad, y los adultos, al ser más maduros, tenemos que dar ejemplo. Aunque admito que es muy difícil porque las pantallas son extremadamente adictivas.

Dedicaste un libro a la hipeactividad y el déficit de atención (¡Estate quieto y atiende!, editorial Herder).¿Hasta qué punto son una respuesta al “deficit de naturaleza” y a la vida antinatural en la que embarcamos a los niños hoy en día?

Los problemas de atención y excesivo movimiento de los niños y niñas están directamente relacionados con el déficit de naturaleza y los estilos de vida acelerados que tenemos. Esto lo sabemos porque cuando les damos la oportunidad de conectarse con la tierra y sus ritmos, de desacelerar, de abrirse a la estimulación suave y no invasiva que proporciona el mundo natural, ese tipo de síntomas desaparecen o se reducen bastante. También cuando creamos entornos escolares y urbanos donde niños y niñas pueden satisfacer sus necesidades naturales de movimiento, algo a lo que no se le suele dar importancia y, sin embargo, es fundamental para el desarrollo orgánico y neurológico, también para la regulación emocional. Siempre digo que la educación y la atención a la infancia es una gran oportunidad para nosotras. Las dificultades de niños, niñas y jóvenes nos están indicando que necesitamos un cambio de rumbo. Construir una sociedad más amable, más humana, más lenta… y más conectada con el mundo natural.

Háblanos finalmente del libro que tienes entre manos, de la Naturaleza como maestra para recuperar nuestra propia condición y ahondar en la naturaleza humana…

En los últimos diez u once años, he tenido oportunidad de recoger centenares de recuerdos de infancia, en diferentes países, con distintos orígenes sociales, géneros, profesiones… Cuando pregunto a las personas que vienen a mis talleres qué es lo que les aportó la naturaleza cuando eran niños y niñas, y qué es lo que les aporta ahora, la mayoría me dicen que les ayudó y les ayuda a conectarse consigo mismas. Muchas veces me he preguntado dónde estamos cuando no estamos con nosotras mismas. Pero, estemos donde estemos, creo que este retorno, este reencuentro con nosotras mismas es una de las principales enseñanzas del mundo natural. Y es fundamental para la educación. Porque ser una misma, conocerte, saber cuáles son tus deseos y necesidades, también tus límites o tus capacidades, aceptarte y valorarte en tu justa medida, es la base para poder crecer y aprender. Además, en esos recuerdos, se ve cómo la naturaleza acerca a las personas. Alimenta nuestro sentimiento de pertenencia a un grupo, estrecha nuestros lazos y estimula nuestra capacidad de ser solidarios. De modo que puede ayudarnos a recuperar valores que son esenciales para nuestra supervivencia.

Cómo explicamos a los niños el cambio climático

“Hasta los doce o catorce años, los niños y niñas aprenden principalmente a través de actividades y experiencias concretas. Por tanto, es mejor no hacer demasiados discursos y empezar apoyándose en sus propias vivencias. Hoy, las consecuencias del calentamiento global son tan evidentes que no es difícil encontrar hechos palpables y concretos, ya sea en el aumento de las temperaturas y la frecuencia de las olas de calor (de los que ellos mismos pueden hacer registros) o la pérdida de biodiversidad y el estado de desequilibrio en el quese encuentran la mayor parte de los ecosistemas (que también pueden constatar si les llevamos a entornos naturales). Por lo que se refiere a la contaminación, la mayoría de los niños y niñas urbanistas, desgraciadamente, la sienten y la padecen. Los estudios demuestran que afecta a su salud respiratoria, a su capacidad de atención, su memoria e incluso su estado de ánimo y su comportamiento. De modo que tampoco es difícil encontrar indicios de estas evidencias en su propia vida o en la de personas cercanas, para que puedan darse cuenta y reflexionar sobre ello”.

Si hacemos un repaso al estado del planeta, es fácil caer en el alarmismo. ¿Hasta qué punto conviene transmitir ese mensaje de urgencia a los niños?

“Lo más es importante es acompañarles en el desarrollo de su conciencia ecológica, partiendo de los sentimientos de amor y cuidado al planeta con los que todo niño y toda niña vienen al mundo. Si les ofrecemos entornos adecuados donde puedan estar en contacto con la naturaleza cada día, desarrollar su sensorialidad, su capacidad de movimiento, observar, explorar, descubrir, arriesgarse, correr aventuras y vivir experiencias mágicas, estaremos contribuyendo a fortalecer su vínculo, a ampliar su capacidad de empatizar con las demás formas de vida, de percibirlas como compañeras de viaje e incluso como parte de ellos mismos. Con el tiempo, integrarán y defenderán estos valores que habrán vivido y practicado: sentirán la tierra como una extensión de ellos mismos, la cuidarán y la defenderán. Si cargamos las tintas en la culpa por lo que nuestra especie está haciendo al planeta y el miedo a las previsibles consecuencias desastrosas para nosotros, les transmitiremos esos sentimientos, además de una sensación de impotencia, y tenderán a evitar la cuestión para no sentirlos. Hay que favorecer en ellos el amor al planeta, antes de pedirles que lo salven.”

Fuente: elcorreodelsol.com