sábado, 28 de dezembro de 2019

Os ultra ricos preparam um mundo pós-humano

Fonte: aqui

Por Douglas Rushkoff | Tradução: Inês Castilho
Publicado 19/11/2018 às 14:31 - Atualizado 24/12/2019 às 10:09
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.
Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.
Ao chegar, fui introduzido no que ma pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.
Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?
O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.
Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.
Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Musk colonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.
Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.
É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.
Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.
Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim aaprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.
A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?
Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.
Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…
Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.
Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.
Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.
Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.
Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.
A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.
Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.
Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.
Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.
Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.
Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.

domingo, 22 de dezembro de 2019

O encontro do saber indígena com a ciência para resolver a alteração climática




Para enfrentar um problema da dimensão da alteração climática é preciso unir o conhecimento científico e o indígena, defende a ativista ambientalista Hindou Oumarou Ibrahim. Nesta palestra, ela mostra como a sua comunidade nómada do Chade está a atuar em conjunto com cientistas para restaurar ecossistemas ameaçados de extinção, e ensina como criar comunidades mais resilientes.

sábado, 14 de dezembro de 2019

COP25 aconteceu em Santiago, Chile, entre 2 e 13 de dezembro



A COP 25 aconteceu em Santiago, Chile, entre 2 e 13 de dezembro. Com o tema "As ações do clima dependem de todos nós. A hora de agir é agora!", após o Brasil desistir de realizar o evento.

Página Oficial


Youtube

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Entrevista- Exploring the Amazing World of Lichens with Manuela Dal Forno


Os líquenes estão ao nosso redor – em árvores, rochas e até em alguns edifícios. Mas, o que é um líquen? E de que adiantam? A cientista de líquens Manuela Dal Forno ajudará os alunos a entender a relação simbiótica especial dentro de cada líquen. Ela mostrará aos alunos os diferentes passos que ela dá para estudar os líquenes: encontrá-los na natureza, observá-los ao microscópio e analisar seu DNA. Ela compartilhará por que nos preocupamos com os líquenes. Compreender a vida ao nosso redor é importante para entender a natureza e como os ambientes estão mudando. Por exemplo, muitos líquens são indicadores da qualidade do ar e outros fornecem habitats para insetos e material de ninho para beija-flores.
Este programa foi ao ar originalmente em 28 de março de 2019, como parte da série de webcast do Smithsonian Science How, projetada para levar pesquisas e cientistas de história natural para alunos do ensino fundamental e médio.

Saiba mais sobre o programa Science How e inscreva-se para uma transmissão ao vivo no canal Youtube do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Veja o discurso completo em português de Greta Thunberg na COP 25


Há um ano e meio, eu não falava com ninguém, a menos que realmente precisasse. Mas depois encontrei um motivo para falar. Desde então, dei muitos discursos e aprendi que, quando você fala em público, começa com algo pessoal ou emocional para atrair a atenção de todos.

Diga coisas como “nossa casa está pegando fogo”, “quero que você entre em pânico” e “como se atreve”. Mas hoje não vou fazer isso, porque as pessoas apenas se concentram nessas frases. Elas não se lembram dos fatos, o motivo pelo qual eu falo.

Não temos tempo para ignorar a ciência. No último ano, falei constantemente sobre o rápido declínio dos limites de emissão de carbono. Mas como continua sendo ignorado, continuarei repetindo.

No capítulo 2, na página 108, no relatório SR1.5 do Ipcc, publicado no ano passado, diz que, em 1º de janeiro de 2018, para termos uma chance de 67% de limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, tínhamos 420 Gigatons de CO2 restantes. Esse número, claro, é muito menor hoje, e emitimos 420 Gigatons todos os anos, incluindo o uso da terra.

O verdadeiro perigo é quando políticos e diretores de empresas fazem parecer que uma ação real está acontecendo quando, na verdade, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e propagandas criativas.

Com os níveis de emissões atuais, o limite será esgotado em cerca de 8 anos. Esses números não são opiniões de ninguém ou opiniões políticas, é a melhor ciência atualmente disponível. Embora muitos cientistas digam que esses números são demasiado moderados, são os que foram aceitos pelo Ipcc.

Por favor, observe que esses números são globais. Não há nada a dizer sobre o aspecto da igualdade, que é absolutamente essencial para fazer o Acordo de Paris funcionar em escala global.

Isso significa que os países mais ricos precisam fazer a sua parte, reduzir as emissões muito mais rapidamente e, em seguida, ajudar os países mais pobres a fazer o mesmo. Assim, as pessoas nas partes menos afortunadas do mundo podem elevar seus padrões de vida.

Esses números também não incluem a maioria dos loops de feedback, pontos não lineares ou aquecimento adicional oculto pela poluição tóxica do ar. A maioria dos modelos pressupõe, no entanto, que as gerações futuras serão capazes de eliminar centenas de biliões de toneladas de CO2 do ar com tecnologias que ainda não existem na escala necessária e talvez nunca venham a existir.

O limite de 67% é aquele com as maiores chances dadas pelo Ipcc. E agora temos menos de 340 giga toneladas de CO2 para emitir, que deve ser compartilhado de forma justa.

E por que é tão importante manter o aumento a 1,5ºC graus? Porque mesmo com 1ºC, as pessoas estão morrendo devido à crise climática. Porque é isso que os cientistas pedem para evitar desestabilizar o clima, para que tenhamos a melhor chance possível de evitar reações irreversíveis em cadeia, como geleiras derretidas e derretimento de zonas permanentemente geladas.

Cada fração de grau é importante. Então, aí está novamente. Esta é a minha mensagem. É nisso que eu quero me concentrar. Então, por favor, diga-me como reage a esses números sem sentir pelo menos algum nível de pânico? Como reage ao fato de que basicamente nada está sendo feito sem sentir o mínimo de raiva? E como falar sobre isso sem parecer alarmista? Eu realmente gostaria de saber.

Desde o Acordo de Paris, os bancos globais investiram US$ 1,9 trilião em combustíveis fósseis. 100 empresas são responsáveis ​​por 71% das emissões globais. Os países do G20 representam quase 80% do total de emissões. Os 10% mais ricos da população do mundo produzem metade de nossas emissões de CO2, enquanto os 50% mais pobres representam apenas um décimo.

De fato, temos algum trabalho a fazer, mas alguns mais que outros.

Recentemente, alguns países ricos se comprometeram a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em aproximadamente tantos porcento nessa ou naquela data. Ou tornar-se neutro em termos de clima e com emissão líquida zero em tantos e tantos anos.

Isso pode parecer impressionante à primeira vista, mas mesmo que as intenções possam ser boas, isso não é liderança. Isso não é liderar, isso é enganar. Porque a maioria dessas promessas não inclui aviação, transporte marítimo, importação e exportação de bens e consumo. No entanto, incluem a possibilidade dos países compensarem suas emissões em outros lugares.

Essas promessas não incluem as taxas de reduções imediatas anuais, nem para os países ricos, que são necessárias para permanecer dentro do limite existente. Zero em 2050 não significa nada se as altas emissões continuarem mesmo por poucos anos. Até lá, o limite restante se esgotará.

Sem ver o cenário completo, não resolveremos esta crise. Encontrar soluções holísticas é o objetivo da COP, mas, pelo contrário, parece ter dado algum tipo de oportunidade para os países negociarem brechas e evitarem aumentar sua ambição.

Os países estão encontrando maneiras inteligentes para não tomar medidas reais, como contar em dobro as reduções de emissões, mudar suas emissões para o exterior, voltar atrás em suas promessas de aumentar as ambições ou recusar-se a pagar por soluções, perdas e danos. Isso tem que parar.

O que precisamos é de cortes drásticos nas emissões na fonte. Mas é claro que apenas reduzir as emissões não é suficiente. Nossas emissões de gases de efeito estufa precisam parar. Para estabilizar em 1,5ºC, precisamos ser neutrais nas emissões de carbono. Apenas estabelecer datas distantes e dizer coisas que dão a impressão de que a ação está em andamento causará mais mal do que bem, porque as mudanças necessárias ainda não estão à vista. As políticas necessárias não existem hoje, apesar do que você possa ouvir dos líderes mundiais.

E ainda acredito que o maior perigo não é a inação. O verdadeiro perigo é quando políticos e diretores de empresas fazem parecer que uma ação real está acontecendo quando, na verdade, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e propagandas criativas.

Tive a sorte de poder viajar pelo mundo e, na minha experiência, a falta de consciência é a mesma em todos os lugares. Não menos presente entre os que foram eleitos para nos liderar. Nunca existe um senso de urgência. Nossos líderes não estão se comportando como se estivéssemos numa emergência.

Em caso de emergência, você muda seu comportamento.

Se houver uma criança parada no meio da estrada e os carros se aproximando com velocidade total, você não desviará o olhar porque é muito desconfortável. Você sai imediatamente e resgata a criança.

Sem esse senso de urgência, como podemos fazer as pessoas entender que estamos enfrentando uma crise real. E se as pessoas não estiverem totalmente conscientes do que está acontecendo, não pressionarão as pessoas no poder para agir.

E sem a pressão do povo, nossos líderes podem ficar impunes sem fazer basicamente nada, que é onde estamos agora. E isso acontece de novo e de novo.

Em apenas três semanas entraremos numa nova década. Uma década que definirá o nosso futuro. No momento, estamos desesperados por qualquer sinal de esperança.

Bem, estou lhe dizendo que há esperança. Eu já vi isso. Mas não vem dos governos ou corporações, vem do povo. As pessoas que desconheciam estão começando a acordar. E uma vez que tomamos consciência, mudamos. As pessoas podem mudar. E as pessoas estão prontas para a mudança. E essa é a esperança, porque temos democracia. E a democracia está acontecendo o tempo todo. Não apenas no dia das eleições, mas a cada segundo e a cada hora. É a opinião pública que governa o mundo livre. De fato, todas as grandes mudanças em nossa história vieram do povo. Não precisamos esperar. Podemos começar a mudança agora mesmo. Nós, as pessoas.

Obrigada.

Jørgen Randers - “Global development on a finite planet towards 2050”


Jorgen Randers (born 1945) is professor emeritus of climate strategy at the BI Norwegian Business School. He has always worked on issues of the future, especially related to sustainability, climate, and energy. Professor Randers lectures and provides advice all over the world, and increasingly in China.

He has spent one third of his life in academia, one third in business, and one third in the NGO world. He was president of BI Norwegian Business School 1981-89, and Deputy Director general of WWF International 1994-99. He has been the chair of three Norwegian banks, non-executive member of numerous corporate boards and the sustainability councils of three multi-nationals. He is a full member of the Club of Rome and is the founding chair of the Club of Rome China Association.

Professor Randers has written many papers and books, starting with co-authoring The Limits to Growth in 1972. His recent writings include 2052 – A Global Forecast for the Next Forty Years in 2012, Reinventing Prosperity with Graeme Maxton in 2016, and Transformation is feasible! with Johan Rockstrøm and others in 2018.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Video da semana : "Como os lobos mudam os rios" (Legendado)


A Natureza é um ser inconstante. Se uma coisa muda, pode afectar todo o ecossistema. Na verdade, não há lugar onde o efeito borboleta seja mais visível do que na Natureza.

Veja-se o Parque Nacional de Yellowstone nos Estados Unidos, por exemplo. Esta enorme reserva natural não foi o lar de lobos durante 70 anos, mas quando eles foram reintroduzidos, toda a paisagem do parque mudou radicalmente.

É incrível como uma matilha de lobos pode causar uma mudança tão drástica, mas isto é apenas a forma como a Natureza funciona. É exactamente por isso que precisamos pensar, criar e ter mais acções para explicar como as "nossas acções" afectam o meio ambiente. 

Uma pequena mudança é o suficiente para perturbar o equilíbrio de ecossistemas inteiros.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Madrid ou a vergonha de Prometeu



Oque está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Habitamos hoje numa sociedade desordenadamente global, que já não depende da política no sentido liberal clássico. A ideia de que o Estado democrático está revestido de um poder legítimo, que pode vencer ameaças existenciais e transformar a realidade para melhor, perde brilho em cada COP. Os grandes atores globais, o sistema financeiro mundial e as grandes multinacionais não estão sequer presentes à mesa das negociações. Limitam-se a passear pelos corredores. O motor do mundo contemporâneo reside numa inércia económica, autorizada pela capitulação cúmplice das políticas públicas, desde o início dos anos 1980. É esta inércia que constitui o novo e inexorável rosto do destino. Em Madrid, o imperativo da urgência face ao perigo ergue-se, para logo sucumbir à tragédia do inexorável fado do crescimento exponencial. Essa inércia que devora a Terra e todas as suas criaturas, tudo arrastando na sua voragem caudalosa.

A modernidade terminal em que estamos mergulhados nasceu sob o signo do humanismo confiante. Para alguns, a crença no homem tornou-se uma nova teologia. É verdade que tivemos alguns avisos. Pico della Mirandola alertava-nos em 1486: a liberdade humana tanto pode ascender à mais alta elevação do espírito como pode degradar-se abaixo das mais primitivas criaturas. Em 1881, Nietzsche advertia-nos para os enormes desafios deste tempo da "morte de Deus", temendo que acabássemos por sacrificar a liberdade recente à tutela de uma multidão de ídolos medíocres e cruéis. Acertou em cheio: o Prometeu emancipado cedo deu lugar ao Prometeu agrilhoado a novos ídolos: a nação, a raça, a história, o Estado, o mercado... Em 1945, com o Holocausto, pensávamos que o humanismo moderno havia batido no fundo. Contudo, o século XXI, dominado sem alternativa pelo ídolo do capital, o mais tenaz e virulento de todos, ameaça desaguar no colapso planetário, incluindo a extinção da nossa espécie. Se tal ocorrer, ninguém cá estará para testemunhar se algum deus verterá lágrimas pelo crepúsculo de Prometeu. Talvez o homem não seja mais do que um breve erro e uma frágil ilusão divina...

Do lixo à arte: 30 "animais" de Bordalo II que alertam sobre a poluição

"Big Trash Animals" de Artur Bordalo é uma série de obras de arte que visam chamar a atenção para a poluição através de obras criadas com lixo recolhido nas ruas.
Fonte aqui
O artista português teve tanto sucesso em transmitir a sua mensagem que se tornou num fenómeno global. O site Bored Panda reuniu alguns dos seus trabalhos mais recentes, variando de lugares tão diversos quanto os EUA, Estónia e, claro, Portugal. Bordalo II recolhe os seus materiais de resíduos que foram deixados na área e produz impressionantes esculturas de animais para simbolizar tanto a beleza da natureza quanto os resíduos que a ameaçam.

Artur Bordalo nasceu em 1987, em Lisboa, teve no avô, o pintor Real Bordalo, a grande fonte de inspiração para se transformar também ele em artista plástico (ou “artivista” como se define).

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Middle Earth: the fight to save the Amazon's soul

In the heart of the Amazon rainforest, an alternative climate conference is taking place that brings together youth activists, indigenous leaders, scientists and forest dwellers. In a region known as Middle Earth, they are building a new alliance and demonstrating that the rainforest is central to life on Earth, even though Brazil backed out of hosting this year's official UN climate talks after the election of Jair Bolsonaro as president

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Lovins: Nuclear Makes Climate Crisis Worse by Blocking Faster Uptake of Cheaper Options



Contrary to industry propaganda, nuclear power plants are not an essential tool in the fight against climate change, but an increasingly dangerous drag on the deployment of more practical renewables and energy efficiency, Rocky Mountain Institute Chair and Chief Scientist Amory Lovins declares in a recent post for Forbes.

Though the recent World Nuclear Industry Status Report 2019 shows the global nuclear industry clearly “dying of an incurable attack of market forces,” writes Lovins, American support for the technology remains tenacious, with proponents across the political spectrum promoting nuclear as indispensable in the effort to lower carbon emissions.

And yet, “building new reactors, or operating most existing ones, makes climate change worse compared with spending the same money on more climate-effective ways to deliver the same energy services,” Lovins says.

The critical mistake among climate-focused supporters of nuclear generation is to look solely at the matter of carbon, he explains. The problem with that approach is that, with so much ground to catch up in so little time, “we must save the most carbon at the least cost and in the least time, counting all three variables—carbon and cost and time. Costly options save less carbon per dollar than cheaper options. Slow options save less carbon per year than faster options. Thus even a low- or no-carbon option that is too costly or too slow will reduce and retard achievable climate protection.”

Lovins makes clear that nuclear fails resoundingly on both cost and turnaround time: “Being carbon-free does not establish climate-effectiveness,” he declares.

Well-intentioned nuclear proponents aside, Lovins writes scathingly of industry magnates who “milk” the system, taking “multi-billion-dollar bailouts from malleable state legislatures for about a tenth of the nuclear fleet so far, postponing the economic reckoning by shooting the market messenger.” He warns that “such replacement of market choices with political logrolling distorts prices, crowds out competitors, slows innovation, reduces transparency, rewards undue influence, introduces bias, picks winners, invites corruption, and even threatens to destroy the competitive regional power markets where renewables and efficiency win.”

Lovins cautions against accepting the findings of a late May report by the International Energy Agency, which claimed that abandoning nuclear power would make climate action “drastically harder and more costly,” as well as the still widely-held assumption that the climate emergency “demands every option, including preserving nuclear power at any cost”. Invoking the “bedrock economic principle of ‘opportunity cost’,” he notes that “you can’t spend the same money on two different things at the same time. Each purchase foregoes others. Buying nuclear power displaces buying some mixture of fossil-fueled generation, renewable generation, and efficient use.”

At an estimated cost of US$118 to $192 per megawatt-hour in 2019, he adds, nuclear stands no competitive chance whatsoever against utility-scale solar power at $32 to 42/MWh, onshore wind power at $28 to 54/MWh, or energy efficiency at $0 to $50, but typically around $25/MWh. “Efficiency, being already delivered to your meter, also avoids roughly $42/MWh of average delivery cost that all remote generators incur,” he adds.

With new U.S. nuclear development off the table, Lovins adds, “today’s hot question” concerns the fate of “the 96 existing reactors, already averaging about a decade beyond their nominal original design life.” Operating costs exceed $40/MWh for the costlier half of the grouping, and $50/MWh for the “costliest quartile”, while wind farm maintenance costs come in “as low as $11/MWh” in 2018.

All the operating cost data swirling around the energy marketplace points to “an important climate opportunity”, Lovins observes. “Customer efficiency costs utilities only $20 to 30/MWh on average—less if they shop carefully. Therefore, closing a top-quartile-cost nuclear plant and buying efficiency instead, as utilities could volunteer or regulators require, would save considerably more carbon than continuing to run the nuclear plant.”

Those calculations show that “while we close coal plants to save carbon directly, we should also close distressed nuclear plants and reinvest their large saved operating cost in cheaper options to save carbon indirectly. These two climate-protecting steps are not alternatives; they are complements.”

And that doesn’t even address the glacially slow pace at which conventional nuclear plants are sited, approved, and built.

Even as the World Nuclear Association touts its product as “the fast track to decarbonization”, real-life experience shows that “nuclear plants take many years to build, typically around a decade, while renewable projects can take a year or less—even months or weeks,” he writes. “Further, national nuclear power programs need three times as much lead time for institutional preparations as modern renewables need. For both reasons, renewables can start saving carbon many years sooner.”

None of which has stopped the U.S. nuclear industry from pushing a new federal tax subsidy on nuclear fuel and maintenance costs, in a bid to “help level the playing field with other clean energy sources”. The legislation would cost $22 to $26 billion in the first decade, or $33 billion “counting the crowding-out of cheaper competitors,” Lovins notes. And “every billion dollars thus bilked from taxpayers is unavailable to provide more electrical services and save more carbon by cheaper means.”

Meanwhile, “unlike renewable credits that have helped to mature important new technologies, the nuclear credit would elicit no new production, capacity, or innovation,” but rather “simply transfer tens of billions of dollars to the owners of uncompetitive nuclear assets bought decades ago.”

This kind of “anti-market monkey business cannot indefinitely forestall the victory of cheaper competitors,” Lovins concludes. “But it can delay and diminish climate protection, while transferring tens of billions of unearned dollars from taxpayers and customers to nuclear owners.”

Which means the climate emergency and market health both demands vigilant attention, “not only to carbon but also to cost and time,” in tandem with a vigorous defence of “markets’ ability to choose climate solutions that can save the most carbon per dollar and per year.” Ultimately, Lovins says, “our best climate strategy would be to start taking economics seriously.”

sábado, 30 de novembro de 2019

Time Might Not Exist Outside of Our Minds, Propose Scientists

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Experiencing time is one of the weird parts of our lives. Often, there's just not enough of it. Other days, there's way too much time on our hands. And no matter what, it keeps going forward, like an inexorable tugboat, pulling us through emotional experiences and physical transformations. We are left with memories of what has been, unable to change anything, unable to jump forward and see what'll happen next.
Yet, such a common experience of time may not be what it appears to be. A new paper published in the October issue of the Annalen der Physik, known for publishing Albert Einstein’s theories of special and general relativity, argues that time is not some force outside of us, but rather a phenomenon created by the observer. Basically, you make your own time.
The paper's co-authors, biologist Robert Lanza and physicist Dimitriy Podolskiy, point out the conundrum that despite how one-directional experiencing time feels to us, most physicists think that time should work the same way forward and backward. Unraveling this mystery leads us down the rabbit hole into the contradictions between general relativity and quantum mechanics.
One popular view in the physics community is that time itself is the product a quantum gravity-related  "decoherence" or "wave function collapse". This process is described through the Wheeler-DeWhitt equation, which is what Lanza and Podolskiy tested in their research and found that the gravity's effects are too slow to explain the emergence of the "arrow of time".  Instead, the researchers proposed that time's creation is dependent on the observer.
”In his papers on relativity, Einstein showed that time was relative to the observer,” says Lanza. “Our paper takes this one step further, arguing that the observer actually creates it.” 
Lanza sees the experience of time linked to the ability of the observer to create memories, writing that "the emergence of the arrow of time is related to the ability of observers to preserve information about experienced events."
Thus, the process of aging is related to our ability (or perhaps disability) to remember. A "brainless" observer, for example, would be able to not experience time or aging.
In an email exchange about his theory, Robert Lanza related this story about Einstein, who said after the death of his friend:
“Now Besso has departed from this strange world a little ahead of me. That means nothing. People like us, who believe in physics, know that the distinction between past, present and future is only a stubbornly persistent illusion.”
Robert Lanza is the head of Astellas Global Regenerative Medicine, and a professor at Wake Forest. He is also the founder of "BioCentrism," a biology-centric view of the world that asserts the pivotal role of consciousness in creating reality, with space and time being "not absolute realities but rather tools of the human and animal mind". Podolskiy is a theoretical physicist working on aging at Harvard.
Here's more about Lanza's BioCentrism Theory:

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Comunicação entre plantas permite alertar contra perigos

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Uma nova pesquisa de cientistas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, mostra que plantas conseguem se comunicar entre si quando são atacadas por pragas.

O estudo mostra que elas compartilham mensagens na forma de produtos químicos transportados pelo ar, conhecidos como compostos orgânicos voláteis (COVs), responsáveis por transferir informações entre as plantas.

A equipe de Andre Kessler, professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade Cornell, analisou a Solidago altissima, uma espécie botânica nativa do nordeste americano, e monitorou o impacto de um herbívoro específico: o besouro Trirhabda canadensis.

A grande descoberta é o que Kessler chama de “comunicação de canal aberto”. Quando as plantas estão sob ataque, seus cheiros — transportados por COVs — se tornam mais semelhantes.

“Então, elas meio que convergem para a mesma linguagem, ou para os mesmos sinais de alerta, a fim de compartilhar informações livremente”, diz Kessler. “A troca de informações se torna independente do nível de relação de uma planta com sua vizinha”.

A pesquisa constatou que plantas vizinhas recebem alertas de COVs e se preparam para a ameaça, que pode ser, por exemplo, uma praga de insetos.

“Vemos frequentemente que as plantas mudam seu metabolismo quando são atacadas por patógenos ou herbívoros”, diz Kessler. “Mas não é uma mudança aleatória — na verdade, essas mudanças químicas e metabólicas também as ajudam a lidar com esses agressores. É algo muito parecido com o nosso sistema imunológico: embora as plantas não possuam anticorpos como nós, elas podem se defender usando recursos químicos danosos.”

Esses recursos químicos incluem compostos defensivos. Alguns dos COVs, por exemplo, podem atrair insetos predadores, ou parasitóides, que matam os herbívoros agressores e salvam a planta.

As descobertas podem ter aplicações práticas em todo o mundo.

“Há muito tempo, aos humanos pensam em usar as interações planta-planta na agricultura orgânica para proteger as plantações, especialmente quando há mais de uma espécie plantada no mesmo local”, diz Kessler. “Estamos envolvidos em um trabalho de um sistema no Quénia — chamado ‘push-pull‘ e desenvolvido pelo Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos — que se baseia na manipulação do fluxo de informações para controlar pragas em campos de milho.”

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Pesquisa aponta que o ser humano está cada vez menos inteligente

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Pesquisadores noruegueses, após analisarem mais de 730 mil avaliações de QI (Quociente de Inteligência), chegaram à conclusão de que as pessoas estão cada vez menos inteligentes. O estudo verificou uma diminuição de praticamente 7 pontos de uma geração a outra, sendo a última a que apresentou menor inteligência.

O fenómeno é uma reversão do chamado Efeito Flynn. Este conceito diz respeito ao aumento constante do índice de acerto nos testes de QI verificado entre a população mundial durante o século XX. A partir de 1900, a humanidade registava um aumento médio de três pontos de QI a cada década. O efeito foi batizado em homenagem ao cientista James Flynn, que observou esses dados. 

A pesquisa norueguesa, realizada pelo Centro Ragnar Frisch de Pesquisa Económica, sugere que o ápice do Efeito Flynn foi registado entre pessoas nascidas no meio da década de 1970. Depois disso, verificou-se um declínio nos índices de QI. "Esta é a prova mais convincente de uma reversão do efeito Flynn", disse o psicólogo Stuart Ritchie, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que não participou da pesquisa. "Se você assumir que o modelo deles está correto, os resultados são impressionantes e preocupantes", completou.

O estudo sugere que mudanças no estilo de vida podem ser a causa da queda nos índices de QI. Isso inclui fatores como o tipo de educação oferecida às crianças de hoje em dia e as atividades exercidas por elas (menos tempo gasto com leitura, por exemplo). Outra possibilidade é que os testes de QI não se adaptaram para quantificar com precisão a inteligência das pessoas modernas. Essas avaliações favoreceriam formas de raciocínio que podem ser menos enfatizadas na educação contemporânea e no estilo de vida dos jovens.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Genes “emprestados” de bactérias permitiram que plantas migrassem da água para a terra

A chamada transferência horizontal de genes foi o que possibilitou o primeiro passo para o estabelecimento da vida terrestre, segundo novo estudo.

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Uma “engenharia genética” natural, efetuada através da troca de genes entre espécies, foi o que permitiu às plantas saírem do ambiente aquático para viver em terra firme, de acordo com um novo estudo de cientistas do Canadá, China, França, Alemanha e Rússia. O artigo foi publicado na revista Cell.

“Essa transição é um dos eventos mais importantes na história evolutiva da vida no planeta — sem o qual nós, humanos, não existiríamos como espécie”, diz Gane Ka-Shu Wong, professor da Faculdade de Ciências e Faculdade de Medicina e Odontologia na Universidade de Alberta, no Canadá. “O movimento da vida saindo da água para a terra, chamado terrestrialização, começou com plantas e foi seguido por animais, o que, obviamente, levou aos seres humanos. Este estudo explica como esse primeiro passo ocorreu.”

Essa passagem das plantas da água para a terra foi possível quando genes de bactérias do solo foram transferidos para algas através de um processo chamado transferência horizontal de genes. Ao contrário da transferência vertical, que ocorre quando o DNA é passado de pais para filhos, por exemplo, a transferência horizontal de genes ocorre entre espécies diferentes.

Vida terrestre

“Por centenas de milhões de anos, as algas verdes viveram em ambientes de água doce que periodicamente secavam, como pequenas poças, leitos de rios ou cachoeiras”, explica Michael Melkonian, professor da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha. “Essas algas se misturaram com bactérias terrestres e receberam delas alguns genes que as ajudaram a lidar com o hostil ambiente terrestre e, eventualmente, a evoluir para a flora de plantas terrestres que conhecemos hoje”.

O estudo faz parte de um projeto internacional focado no sequenciamento de genomas de mais de 10.000 espécies de plantas. A descoberta foi feita durante o processo de sequenciar duas algas em particular, sendo uma delas uma nova espécie descoberta por meio desse estudo (a Spirogloea muscicola). 

“A abordagem que usamos foi a filogenómica, um poderoso método para identificar mecanismos moleculares que estão por trás de novidades evolucionárias”, explica Shifeng Cheng, primeiro autor e principal pesquisador do Instituto de Genoma Agrícola de Shenzhen, da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas.

Universidade de Alberta

domingo, 24 de novembro de 2019

Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Fonte: aqui

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.
Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?
A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.
É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.
Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.
Então isso é novo?
Antigamente, você consultava o sol para para se orientar no tempo. No Brasil,
em cidades como Belém, ainda hoje nos encontramos “depois da chuva”.
Nesses padrões, seus relacionamentos são estabelecidos de acordo com um
ritmo temporal pontuado pelo sol. Mas o relógio de pulso, por exemplo, fez com
que o tempo abstrato substituísse o tempo natural. E o sistema de competição
e concorrência – que é o de nossa economia de mercado capitalista – significa
que, para a competição, o melhor desempenho é aquele que permite a maior
velocidade. A competição, portanto, se transformou em competitividade, o que
é uma perversão da concorrência.
Essa busca por velocidade não é uma ilusão?
De alguma forma. Não percebemos – embora pensemos que estamos fazendo
as coisas rapidamente – que estamos intoxicados pelo meio de transporte que
afirma ser rápido. O uso de meios de transporte cada vez mais eficientes, em
vez de acelerar o tempo de viagem, acaba – principalmente por causa de
engarrafamentos – desperdiçando tempo! Como já disse Ivan Illich (filósofo
austríaco nascido em 1926 e morto em 2002, ed): “O carro nos atrasa muito.
Até as pessoas, imobilizadas em seus carros, ouvem o rádio e sentem que
ainda estão usando o tempo de uma maneira útil. O mesmo vale para o
concurso de informações. Agora recorremos ao rádio ou a TV para não
esperar a publicação dos jornais. Todas essas múltiplas velocidades fazem
parte de uma grande aceleração do tempo, a da globalização. E tudo isso nos
leva ao desastre.
O progresso e o ritmo em que o construímos necessariamente nos destroem?
O desenvolvimento tecnoeconômico acelera todos os processos de produção
de bens e riquezas, os quais aceleram a degradação da biosfera e a poluição
generalizada. As armas nucleares estão se multiplicando e os técnicos estão
sendo solicitados a fazer as coisas mais rapidamente. Tudo isso, de fato, não
vai na direção de um desenvolvimento individual e coletivo!
Por que buscamos sistematicamente utilidade no decorrer do tempo?
Veja o exemplo do almoço. Tempo significa convívio e qualidade. Hoje, a idéia
de velocidade faz com que, assim que terminemos o prato, chamemos um
garçom que corre para recolher os pratos. Se você ficar entediado com seu
vizinho, tende a querer diminuir esse tempo.
Esse é o significado do movimento slow-food que deu origem à idéia de “vida
lenta”, “tempo lento” e até “ciência lenta”. Uma palavra sobre isso. Vejo que a
tendência dos jovens pesquisadores, assim que eles têm um campo de
trabalho, mesmo muito especializado, é que eles se apressem para obter
resultados e publiquem um “grande” artigo em uma “grande” revista científica
internacional, para que ninguém mais publique antes deles.
Esse espírito se desenvolve em detrimento da reflexão e do pensamento.
Nosso tempo rápido é, portanto, um tempo anti-reflexo. E não é por acaso que
existem várias instituições especializadas em nosso país que promovem o
tempo de meditação. O yoguismo, por exemplo, é uma maneira de interromper
o tempo rápido e obter um tempo silencioso de meditação. Dessa maneira,
evita-se a cronometria. As férias também permitem que você recupere seu
tempo natural e esse tempo de preguiça. O trabalho de Paul Lafargue O direito
à preguiça (que data de 1880, ed) permanece mais atual do que nunca, porque
não fazer nada significa tempo limite, perda de tempo, tempo sem fins
lucrativos.
Por quê?
Somos prisioneiros da ideia de rentabilidade, produtividade e competitividade.
Essas idéias foram exasperadas com a concorrência globalizada, nas
empresas, e depois se espalharam para outros lugares. O mesmo vale para o
mundo da escola e da universidade! O relacionamento entre o professor e o
aluno exige um relacionamento muito mais pessoal do que apenas as noções
de desempenho e resultados. Além disso, o cálculo acelera tudo isso. Vivemos
um tempo em que ele é privilegiado por tudo. Bem como saber tudo e dominar
tudo. Pesquisas que antecipam um ano de eleições fazem parte do mesmo
fenômeno. Chegamos a confundi-los com o anúncio do resultado. Tentamos
eliminar o efeito de surpresa sempre possível.
De quem é a culpa? Capitalismo? a Ciência?
Estamos presos em um processo espantoso em que o capitalismo, as trocas e
a ciência são levados a esse ritmo. Não se pode ser culpa de um homem.
Devemos acusar Newton por ter inventado o motor a vapor? Não. O
capitalismo é essencialmente responsável, de fato. Por sua fundação, que é
buscar lucro. Pelo seu motor, que é tentar, pela competição, avançar seu
oponente.
Pela incessante sede de “novo” que promove através da publicidade … O que
é essa sociedade que produz objetos cada vez mais obsoletos? Essa
sociedade de consumo que organiza a fabricação de geladeiras ou máquinas
de lavar não para a vida útil infinita, mas para se decompor após oito anos? O
mito do novo, como você pode ver – mesmo para detergentes – visa sempre
incentivar o consumo. O capitalismo, por sua lei natural – a concorrência –
empurra, assim, para uma aceleração permanente e por sua pressão
consumista, sempre para obter novos produtos que também contribuem para
esse processo.
Vemos isso através de múltiplos movimentos no mundo, esse capitalismo é
questionado. Em particular na sua dimensão financeira …
Entramos em uma crise profunda sem saber o que sairá dela. As forças de
resistência realmente se manifestam. A economia social e solidária é uma
delas. Ela representa uma maneira de lutar contra essa pressão. Se
observarmos um impulso para a agricultura orgânica com pequenas e médias
fazendas e um retorno à agricultura, é porque grande parte do público começa
a entender que galinhas e porcos industrializados são adulterados e
desnaturalizam solos e águas subterrâneas.
Uma busca por produtos artesanais indica que desejamos fugir dos
supermercados que, eles próprios, exercem pressão do preço mínimo sobre o
produtor e tentam repassar um preço máximo para o consumidor. O Comércio
Justo também está tentando ignorar os intermediários predatórios. O
capitalismo triunfa em certas partes do mundo, mas outra margem vê reações
que surgem não apenas de novas formas de produção (cooperativas, fazendas
orgânicas), mas também da união consciente dos consumidores.
É aos meus olhos uma força não utilizada e fraca porque ainda dispersa. Se
essa força tomar conhecimento de produtos de qualidade e de produtos
nocivos, superficiais, uma força de pressão incrível será aplicada e influenciará
a produção.
Os políticos e seus partidos parecem não estar cientes dessas forças
emergentes. Eles não carecem de análise de inteligência …
Mas você parte do pressuposto de que esses homens e mulheres políticos já
fizeram essa análise. Mas você tem mentes limitadas por certas obsessões,
certas estruturas.
Por obsessão, você quer dizer crescimento?
Sim Eles nem sabem que o crescimento – supondo que volte aos chamados
países desenvolvidos – não excederá 2%! Não é esse crescimento que
conseguirá resolver a questão do emprego! O crescimento que queremos
rápido e forte é um crescimento na competição. Isso leva as empresas a
colocar as máquinas no lugar dos homens e, assim, liquidar as pessoas e
aliená-las ainda mais. Parece-me assustador que os socialistas possam
defender e prometer mais crescimento. Eles ainda não fizeram um esforço
para pensar e buscar novos pensamentos.
Desaceleração significaria decadência?
O importante é saber o que deve crescer e o que deve diminuir. É claro que
cidades não poluentes, energias renováveis e obras públicas saudáveis devem
crescer. O pensamento binário é um erro. É a mesma coisa para globalizar e
desglobalizar: é necessário continuar a globalização no que cria solidariedades
entre as pessoas e com o planeta, mas deve ser condenada quando cria ou
não traz zonas de prosperidade, mas de corrupção ou desigualdade. Eu
defendo uma visão complexa das coisas.
A velocidade em si não tem culpa?
Não. Se eu pegar minha bicicleta para ir à farmácia e tentar fazer isso antes
dela fechar, vou pedalar o mais rápido possível. Velocidade é algo que
precisamos e podemos usar quando necessário. O verdadeiro problema é
diminuir com êxito nossas atividades. Retomar o tempo, natural, biológico,
artificial, cronológico e conseguir resistir.
Você está certo ao dizer que o que é velocidade e aceleração é um processo
extremamente complexo da civilização, no qual técnicas, capitalismo, ciência e
economia têm sua parte. Todas essas forças combinadas nos levam a acelerar
sem que tenhamos controle sobre elas. Porque a nossa grande tragédia é que
a humanidade é arrastada em uma corrida acelerada, sem nenhum piloto a
bordo. Não há controle ou regulamentação. A própria economia não é regulada.
O Fundo Monetário Internacional não é, nesse sentido, um sistema real de
regulamentação.
A política ainda não deveria “levar tempo para reflexão”?
Muitas vezes, temos a sensação de que, por sua pressa de agir, de se
expressar, ele vem trabalhar sem nossos filhos, mesmo contra eles … Você
sabe, os políticos estão embarcando nessa corrida para acelerar. Li
recentemente uma tese sobre gabinetes ministeriais. Às vezes, nos escritórios
dos conselheiros, havia anotações e registros rotulados como “U” para
“urgentes”. Depois veio o “MU” para “muito urgente” e depois o “MMU”. Os
gabinetes ministeriais agora estão invadidos, desatualizados.
A tragédia dessa velocidade é que ela cancela e mata o pensamento político
pela raiz. A classe política não fez nenhum investimento intelectual para
antecipar, enfrentar o futuro. Foi o que tentei fazer em meus livros como
Introdução a uma política do homem, Caminho, Terre-patrie … O futuro é incerto,
é preciso tentar navegar, encontrar um caminho, uma perspectiva. Sempre
houve ambições pessoais na história. Mas eles estavam relacionados a idéias.
De Gaulle sem dúvida teve uma ambição, mas teve uma ótima ideia. Churchill
tinha ambição a serviço de uma grande idéia, que era salvar a Inglaterra do
desastre. Agora, não há mais grandes idéias, mas grandes ambições com
homenzinhos ou mulheres.
Michel Rocard recentemente lamentou sobre “Terra eco” o desaparecimento da visão de longo prazo…
Ele tinha razão e não tinha. Uma política real não está posicionada no imediato,
mas no essencial. Por esquecer o essencial da urgência, acabamos
esquecendo a urgência do essencial. O que Michel Rocard chama de “longo
prazo”, eu chamo de “problema de substância”, “questão vital”. Pensar que
precisamos de uma política global para a salvaguarda da biosfera – com um
poder de decisão que distribua responsabilidades porque não podemos
atribuir as mesmas responsabilidades aos países ricos e aos países pobres – é
uma política essencial para longo prazo. Mas esse longo prazo deve ser rápido
o suficiente, porque a ameaça está se aproximando.
Edgar Morin, o estado de urgência perpétua de nossas sociedades o torna
pessimista?
Essa falta de visão me força a ficar na brecha. Há uma continuidade na descontinuidade. Eu fui da época da Resistência quando jovem, onde havia um inimigo, um ocupante e um perigo mortal, para outras formas de resistência que não carregavam o perigo da morte, mas o de permanecer incompreendido, caluniado ou desprezado.
Depois de ser comunista de guerra e depois de ter lutado com a Alemanha nazista com grandes esperanças, vi que essas esperanças eram enganosas e rompi com esse totalitarismo, que se tornou o inimigo da humanidade. Eu lutei contra isso e resisti. Eu, naturalmente – defendi a independência do Vietnã ou da Argélia, quando se tratava de liquidar um passado colonial. Pareceu-me muito lógico depois de ter lutado pela independência da França, ameaçada pelo nazismo. No final do dia, estamos sempre envolvidos na necessidade de resistir.
E hoje?
Hoje, percebo que estamos sob a ameaça de duas barbáries associadas. Antes de tudo, humano, que vem do fundo da história e que nunca foi liquidado: o campo americano de Guantánamo ou a expulsão de crianças e pais que estão separados, acontece hoje ! Essa barbárie é baseada no desprezo humano. E então o segundo, frio e gelado, com base em cálculo e lucro. Essas duas barbáries são aliadas e somos forçados a resistir em ambas as frentes. Por isso, continuo com as mesmas aspirações e revoltas que as da minha adolescência, com a consciência de ter perdido ilusões que poderiam me
animar quando, em 1931, eu tinha dez anos.
A combinação dessas duas barbáries nos colocaria em perigo mortal …
Sim, porque essas guerras podem a qualquer momento se desenvolver no fanatismo. O poder destrutivo das armas nucleares é imenso e o da degradação da biosfera para toda a humanidade é vertiginoso. Estamos indo, por essa combinação, em direção a cataclismos. No entanto, o provável, o pior, nunca está certo aos meus olhos, porque às vezes apenas alguns eventos são suficientes para que as evidências se revertam.
Mulheres e homens também podem ter esse poder?
Infelizmente, em nosso tempo, o sistema impede que espíritos se rompam. Quando a Inglaterra foi ameaçada de morte, um homem marginal foi levado ao poder, seu nome era Churchill. Quando a França foi ameaçada, foi De Gaulle. Durante a Revolução, muitas pessoas, sem treinamento militar, conseguiram se tornar generais formidáveis, como Hoche ou Bonaparte; avocaillons como Robespierre, grandes tribunos. Grandes momentos de crise terrível despertam homens capazes de resistir. Ainda não estamos suficientemente cientes do perigo. Ainda não entendemos que estamos caminhando para um desastre e estamos nos movendo a toda velocidade como sonâmbulos.
O filósofo Jean-Pierre Dupuy acredita que da catástrofe nasce a solução. Você compartilha a análise dele?
Não é dialético o suficiente. Ele nos diz que o desastre é inevitável, mas que é a única maneira de saber que pode ser evitado. Eu digo: é provável que haja um desastre, mas é improvável. Quero dizer com “provável” que, para nós, observadores, no tempo em que estamos e nos lugares em que estamos, com as melhores informações disponíveis, vemos que o curso das coisas está nos levando a desastres. No entanto, sabemos que é sempre o improvável que surgiu e que “fez” a transformação. Buda era improvável, Jesus era improvável, Muhammad, a ciência moderna com Descartes, Pierre Gassendi, Francis Bacon ou Galileu era improvável, o socialismo com Marx ou Proudhon era improvável, o capitalismo era improvável na Idade Média … Veja Atenas. Cinco séculos antes de nossa era, você tem uma pequena cidade grega diante de um
império gigantesco, a Pérsia. E duas vezes – embora destruída pela segunda vez – Atenas consegue expulsar esses persas graças ao golpe de gênio do estrategista Temístocles, em Salamina. Graças a essa incrível improbabilidade,
nasceu a democracia, que poderia fertilizar toda a história futura e depois a filosofia. Então, se você quiser, posso chegar às mesmas conclusões que Jean-Pierre Dupuy, mas meu caminho é bem diferente. Hoje, existem forças de resistência dispersas, aninhadas na sociedade civil e que não se conhecem.
Mas acredito no dia em que essas forças se reunirão, em feixes. Tudo começa com um desvio, que se transforma em uma tendência, que se torna uma força histórica.
Portanto, é possível reunir essas forças, engajar a grande metamorfose, do
indivíduo e depois da sociedade?
O que chamo de metamorfose é o termo de um processo no qual várias reformas, em todas as áreas, começam ao mesmo tempo.
Já estamos em processo de reformas …
Não, não. Não são essas pseudo-reformas. Estou falando de reformas profundas da vida, civilização, sociedade, economia. Essas reformas terão que começar simultaneamente e ser inter-solidárias.
Você chama essa abordagem de “viver bem”. A expressão parece fraca, tendo em vista a ambição que você lhe dá.
O ideal da sociedade ocidental – “bem-estar” – deteriorou-se em coisas puramente materiais, conforto e propriedade de objetos. E embora essa palavra “bem-estar” seja muito bonita, outra coisa teve que ser encontrada. E quando o presidente do Equador, Rafael Correa, encontrou essa fórmula de “boa vida”, retomada por Evo Morales (presidente boliviano, ed) significava florescimento humano, não apenas na sociedade, mas também na natureza.
A expressão “viver bem” é sem dúvida mais forte em espanhol do que em  francês. O termo é “ativo” na língua de Cervantes e passivo na de Molière. Mas essa ideia é a que melhor se relaciona com a qualidade de vida, com o que chamo de poesia da vida, amor, carinho, comunhão e alegria e, portanto, com a qualitativa, que a devemos nos opor à primazia do quantitativo e da acumulação. O bem-estar, a qualidade e a poesia da vida, inclusive em seu ritmo, são coisas que devem – juntas – nos guiar. É para a humanidade uma finalidade tão bonita. Implica também controlar simultaneamente coisas como especulação internacional … Se não conseguirmos nos salvar desses polvos
que nos ameaçam e cuja força é acentuada, acelera, não haverá nada de bom.