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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A mística e a educação ambiental na conservação da natureza


A mística e a educação ambiental na conservação da natureza

Resumo
A crise socioambiental contemporânea evidencia os limites de abordagens exclusivamente técnico-científicas na conservação da natureza. Neste contexto, a mística — entendida como uma experiência profunda de conexão, sentido e transcendência na relação ser humano–natureza — emerge como um elemento relevante para a educação ambiental. Este ensaio analisa o papel da mística na educação ambiental e sua contribuição para a conservação da natureza, defendendo que dimensões simbólicas, éticas, espirituais e afetivas são fundamentais para promover mudanças duradouras de valores, atitudes e práticas socioambientais.

Palavras-chave: mística; educação ambiental; conservação da natureza; ética ambiental; espiritualidade ecológica.

1. Introdução
A degradação ambiental, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas colocam desafios complexos à humanidade. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, observa-se uma persistente distância entre o conhecimento ambiental e a transformação efetiva dos comportamentos sociais. Tal cenário tem levado educadores e investigadores a questionar modelos de educação ambiental centrados apenas na transmissão de informação e no racionalismo instrumental.

Neste contexto, a mística surge como uma dimensão frequentemente marginalizada no campo académico, mas historicamente presente nas relações humanas com a natureza. Diferentes culturas, tradições espirituais e movimentos sociais reconhecem a experiência mística como fonte de sentido, compromisso ético e cuidado com o mundo natural. Este ensaio propõe reflectir sobre a articulação entre mística, educação ambiental e conservação da natureza, argumentando que a integração desta dimensão pode fortalecer processos educativos mais críticos, transformadores e emancipatórios.

2. Compreendendo a mística no contexto socioambiental
A mística pode ser compreendida como uma experiência de profundidade existencial caracterizada pela sensação de unidade, interconexão e pertença a uma totalidade maior. No contexto ambiental, essa experiência manifesta-se na relação sensível e ética com a natureza, percebida não apenas como recurso, mas como comunidade de vida.

Diferentemente de uma abordagem estritamente religiosa, a mística ecológica pode assumir formas laicas, interculturais e plurais. Ela expressa-se no encantamento diante da biodiversidade, no silêncio contemplativo, no cuidado com os ecossistemas e na reverência pela vida. Autores da ecologia profunda e da ética ambiental defendem que tal experiência é essencial para superar a lógica utilitarista que sustenta a crise ecológica.

Assim, a mística não se opõe à ciência, mas complementa-a, oferecendo uma base simbólica e afetiva para a construção de valores ecológicos e de uma ética do cuidado.

3. Educação ambiental: limites e possibilidades
A educação ambiental consolidou-se como um campo interdisciplinar voltado para a formação de sujeitos críticos e comprometidos com a sustentabilidade. No entanto, práticas educativas excessivamente normativas, informativas ou tecnocráticas tendem a produzir resultados limitados, sobretudo quando desconsideram as dimensões emocionais, culturais e espirituais dos educandos.

A incorporação da mística na educação ambiental amplia suas possibilidades pedagógicas, ao favorecer experiências vivenciais, sensoriais e reflexivas. Caminhadas interpretativas, atividades de imersão na natureza, narrativas simbólicas, arte, rituais ecológicos e momentos de silêncio são exemplos de práticas que podem despertar vínculos afetivos e sentido de responsabilidade ecológica.

Essa abordagem contribui para uma educação ambiental que não apenas informa, mas transforma, ao tocar dimensões profundas da subjetividade humana.

4. Mística e conservação da natureza
A conservação da natureza depende, em grande medida, de escolhas éticas e políticas fundamentadas em valores. A mística pode atuar como força mobilizadora, capaz de inspirar atitudes de respeito, cuidado e solidariedade interespécies. Comunidades tradicionais e povos indígenas, por exemplo, frequentemente articulam práticas de conservação a cosmovisões espirituais que reconhecem a sacralidade da natureza.

Ao integrar a mística à educação ambiental, promove-se uma mudança de paradigma: da dominação para a convivência, da exploração para o cuidado, da fragmentação para a interdependência. Tal mudança é crucial para sustentar estratégias de conservação que sejam socialmente justas, culturalmente sensíveis e ecologicamente eficazes.

5. Considerações finais
A mística, enquanto experiência de conexão profunda com a natureza, constitui um elemento potente para a educação ambiental e a conservação da natureza. Sua integração no campo educativo contribui para superar reducionismos racionalistas e fortalecer uma ética ecológica baseada no cuidado, na responsabilidade e na pertença à comunidade da vida.

Este ensaio defende que a educação ambiental deve reconhecer e valorizar a dimensão mística como parte legítima dos processos formativos, promovendo abordagens pedagógicas integradoras, críticas e sensíveis. Num contexto de crise civilizatória, a reconciliação entre conhecimento, sensibilidade e espiritualidade pode representar um caminho fecundo para a construção de sociedades mais sustentáveis.

Referências bibliográficas

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Ebulição Global


Está a ocorrer um aquecimento inesperado da Terra. A média geral de sua temperatura é de 15 º C. Estamos  chegar como se nota na Europa agora, até mais de 40 graus com mortes de muitas crianças e idosos.

Que cenários poderemos enfrentar? São todos sombrios, caso não ocorrer um salto da consciência coletiva que defina outro caminho e outro destino para o sistema-vida e o sistema-Terra. Não se pode negar que o planeta, dia após dia, está se aquecendo. Os órgãos da ONU que acompanham a evolução deste evento desastroso nos alertam que entre os anos 2025-2027 teremos ultrapassado o acréscimo de 1,5 º C, previstos para 2030 pelo acordo de Paris em 2015. Tudo se antecipou e nesta data, entre 2025-2027, chegaremos ao que está ocorrendo atualmente na Europa: um clima que poderá se estabilizar acima de 35 graus, chegando a 38-40 graus nalgumas regiões do planeta.

Milhões deverão emigrar por não poderem mais viver em suas pátrias queridas e safras serão totalmente perdidas. O Brasil, atualmente,um dos maiores exportadores de alimentos, verá a sua produção profundamente reduzida. Segundo James Lovelock, (Veja, Paginas Amarelas de 25 de outubro de 2006), o Brasil, por causa de sua vasta extensão ensolarada, será um dos mais atingidos pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas.

Os do agronegócio deveriam estar atentos a estas advertências, pois como escreveu o Papa Francisco na encíclica "Laudato Si: como cuidar da Casa Comum", dirigida a toda a humanidade e não apenas aos cristãos: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia; deixaríamos para as próximas gerações demasiadas ruínas, desertos e lixo”(n.161).

É o que ninguém quer para seus filhos e netos. Mas para isso devemos nos munir de coragem e de ousadia para mudar de rumo. Só uma radical mudança ecológica nos poderá salvar, equilibrando o clima suportável para nós e para os demais seres vivos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Entrevista a Leonardo Boff, muito recente


Maravilhosa a mais recente entrevista a Leonardo Boff. Para além de falar do seu último livro “O Casamento Entre O Céu e a Terra, Contos dos Povos Indígenas do Brasil”, é notório o seu elevado conhecimento enciclopédico de vários pedagogos e educadores ambientais. Além disso, continua firme na sua teoria de uma ecologia integral, mais universal que o próprio Laudato si' e como gostaria de um Vaticano menos conservador.
Em "O casamento entre o Céu e a Terra", o professor, teólogo, filósofo, escritor e grande defensor dos Direitos Humanos Leonardo Boff reúne histórias, relatos e mitos originários dos indígenas do Brasil. Recolhidas ao longo dos anos e vindas de diversas etnias, essas narrativas são prova da inestimável contribuição desses povos para a cultura no Brasil e não só. Cada uma delas é capaz de nos conectar à sabedoria ancestral desses povos e somá-la, enfim, à nossa sabedoria contemporânea.
O teólogo ainda fala sobre o que nós temos que aprender com os indígenas. “Eles são os nossos mestres e doutores na relação com a natureza, pede licença para entrar, se derruba uma árvore faz o rito de desculpa, porque diz vou ter que fazer um remo, uma porta, e planta outras duas. Nós perdemos essa intimidade e desrespeitamos a natureza”, diz Leonardo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A Ecodemocracia do Papa Francisco


O conceito de Ecodemocracia é ainda pouco explorado na reflexão contemporânea. Muitos autores acabam trabalhando o conceito indiretamente quando se preocupam com a ecologia integral, com a justiça socioambiental e com o futuro da democracia. Assim, a Ecodemocracia englobaria todos esses temas buscando articulá-los numa forma de compreensão da democracia na qual a opinião pública, a sociedade civil, as instituições e o Estado colocariam as preocupações ecológicas e sociais no mesmo patamar das preocupações econômicas. Na verdade, para a Ecodemocracia, essas três preocupações devem estar presentes em todas as decisões políticas das sociedades contemporâneas.

Apesar deste conceito ainda ser novo, a ampliação do mesmo nas discussões políticas tem sido um fator de esperança. No ano de 1998, Walter Moore apresentou um modelo de Ecodemocracia no livro EcoDemocracia: El modelo post-capitalista. Neste texto, o autor busca construir a ideia de comunidades de amparo. Ao contrário das sociedades industriais que seriam sociedades do desamparo (desigualdades, desempregos, lutas por reconhecimentos, etc.), as comunidades de amparo usariam os potenciais dos meios de produção pós-industrial para gerar e distribuir as riquezas equitativamente. Essa distribuição aconteceria porque elas seriam, e aí vai toda a argumentação do livro sobre a plausibilidade desta ideia, comunidades desmercatilizadas, desbancarizadas e desburocratizadas. Apesar da interessante argumentação do autor, um modelo pós-capitalista como o dele parece não ter muito futuro. Como afirmar Mark Fischer no título de um de seus livros: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Um trabalho interessante e atual sobre a Ecodemocracia é um artigo de vários autores organizados por Helen Kopnina intitulando Ecodemocracy in practices: exploration of debates on limits and possibilities of addressing environmental challenges within democratic systems (2022). Nesse texto discute-se a Ecodemocracia na prática, ou seja, em debates que exploram as possibilidades e os limites, em sistemas democráticos, dos desafios ambientais. Na mesma direção, mas mais preocupado com princípios e, por isso mesmo, de cunho mais filosófico, temos os trabalhos de Leonardo Boff publicados em 2022: Covid-19: A mãe Terra contra-ataca a humanidade e Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal?. Nesses dois textos, como os próprios títulos indicam, a questão ambiental é interpretada a partir da crise pandêmica em que vivemos e de um olhar orientado por uma fraternidade universal. Nas palavras de Leonardo Boff: “Uma fraternidade humana universal possível: outro tipo de presença no mundo”. Boff propõe, em seus textos, uma mudança paradigmática: do dominus ao frater.

Ao falarmos de Ecologia, Democracia, Casa Comum e Fraternidade Universal, não podemos deixar de mencionar dois textos importantes de Papa Francisco que podem fundar um Ecodemocracia plena, fraterna e possível. Os textos são: Laudato Sí (2015) e Fratelli Tutti (2020). Nesses textos, de forma crítica e sapiencial, encontramos os principais elementos para uma compreensão atenta da realidade atual, seus desafios e seus avanços, e uma direção possível para a Ecodemocracia. Papa Francisco não usa o termo Ecodemocracia, mas lança bases seguras para novos horizontes políticos, culturais e de transformação ecológica.

Na Encíclica Laudato Sí: sobre o cuidado com a casa comum, Para Francisco apresenta um panorama sobre a situação ecológica da nossa casa comum. Para ele vivemos uma crise socioambiental na qual a complexidade das questões sociais, ambientais, políticas, econômicas e culturais se entrelaçam o tempo todo. Tudo está interligado. A tônica do texto é a questão ecológica, por exemplo, presente na deterioração global do ambiente, no desenvolvimento irresponsável da desigualdade, nos modelos de produção e consumo das sociedades desenvolvidas e nas estruturas excludentes de poder. O apelo da encíclica é por um desenvolvimento sustentável e integral, por uma renovação do diálogo sobre a maneira como a humanidade está construindo o futuro do planeta e por uma educação integral. Educação que aponte para um outro estilo de vida, estilo atento, especialmente, para a vida do planeta e para os direitos dos pobres. O modelo paradigmático deste novo estilo de vida é Francisco de Assis: exemplo de cuidado pelo que é frágil, preocupação com a natureza, justiça para com os pobres, empenho público na sociedade e busca da paz interior.

Depois da Laudato Sí, o outro passo de Papa Francisco na construção de estruturas para uma Ecodemocracia encontra-se na Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Para Papa Francisco, a Fraternidade e a Amizade Social são importantes e fundamentais como caminhos para a construção de um mundo melhor, mais justo, mais pacífico e mais humano. Aqui, nesta encíclica, a argumentação se concentra na vida social, na política e nas instituições sociais. Partindo de um olhar atento às sombras do nosso mundo que produz uma cultura fechada, de muros, onde a desigualdade, o desemprego, o racismo, a xenofobia, a cultura do consumo e do descarte prevalecem apoiadas numa lógica de mercado baseada no lucro; Papa Francisco propõe uma outra cultura, a de construção de pontes, de fraternidade e de amizade social.

Construir pontes, aqui, será fazer da política não apenas um lugar de gestão da sociedade humana, mas especialmente um lugar onde democracia, liberdade, justiça e bem comum estejam a favor da construção de um mundo melhor. A política, assim entendida e buscada, pode ser uma das formas mais preciosas e fundamentais da caridade social porque a serviço do bem comum. O modelo paradigmático deste projeto é o Bom Samaritano presento no Evangelho de Lucas (Lc. 10,25-37): exemplo de atenção social, cuidado e compaixão. Exemplo que nos ensina que todos somos chamados a estar próximos, a nos fazer próximos, uns dos outros, superando preconceitos e interesses pessoais, na construção de políticas públicas e de sociedades mais justas. Portanto, a partir desses dois textos de Papa Francisco é possível pensar os fundamentos e os planos de ação para ampliar nossa consciência democrática em vista de um futuro ecodemocraticamente viável, ou seja, um futuro onde a Ecodemocracia seja o fundamento da sociedade.

Elton Vitoriano Ribeiro SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE

terça-feira, 22 de março de 2022

D. Jaquina, atira o soco

D. Jaquina, atira o soco

Era uma mulher truncada, muito alta (1.85 m ou mais) e algo disforme. Os braços e pernas muito musculadas e um peito estreito e pequenas mamas. Era mais alta que o marido e muito mais nova. Faziam uma diferença de 20 anos. Nazarena, vestia com rigor e usava sempre as sete saias. O marido, pescador, natural de Gaia, apaixonou-se pela D. Jaquina e vieram viver para a minha aldeia, Lamaçães (Gaia). Os pratos principais eram quase sempre peixe, que o Zé da Afurada, seu marido, trazia e vendia também para nós. Ambos eram ateus convictos. Não havia em sua casa retratos de Nossa Senhora de Fátima, Jesus Cristo nem estatuetas religiosas. As testemunhas de Jeová eram corridas `porta fora. Jaquina vivia e ficava feliz e menos ansiosa com limpezas. Ela adorava o que fazia. Ganhava o dinheiro como empregada de limpeza de algumas famílias ricas. Não podia ver uma nódoa em lugar algum. Um pouco de poeira e já a víamos atarefada a limpar o pó. Lavava a roupa num tanque comunitário e em Gaia transportava em cima da cabeça quilos de roupa dos ricos. Não se importava. Queria era limpar e lavar. Cortinados, lençóis, cobertores, toalhas, roupa… lavava com precisão e com toda a vontade.

D. Jaquina tinha um defeito: linguaruda, adorava cosquice e enfrentava como um toiro qualquer mulher que se lhe opunha. Peixeira, como se diz. Soltava merda e foda-se como o ar que respirava. Chamavam-lhe a atenção que a PIDE podia ouvi-la e ter chatices. “Eles que venham que eu lhes atiro um soco e espeto-o na tola deles”. E aí ficou o cognome D. Jaquina atira o soco. Eu e os rapazes da aldeia quando a víamos chegar, escondíamo-nos numa esquina e gritávamos “Jaquina atira o soco” e ríamo-nos despregados. Ela ficava confusa e ralhava connosco. Depois passou.

Isto tudo a propósito da religião. Até aos meus doze anos o meu mundo era católico. Estava preparado para receber o Crisma. Era estimado pelo padre da aldeia e pelos meus catequistas. Ia aos encontros católicos e era escuteiro. Mas já tinha as minhas dúvidas. Porque faleceu tão cedo o meu pai? Tinha apenas 70 anos. Porque fui tão doente na infância: 6 cirurgias, 6 hospitalizações, 6 doses de morfina, 12 doses de penicilina, vida quase entre escola, ambulâncias, hospitais e casa. Via a minha irmã mais velha a sofrer do coração e isso entristecia-me. Quando mudei de casa fui viver para o centro de Gaia e fui ao cinema pela primeira vez. O filme Apocalypse Now foi como um soco que me atiraram à cabeça. Tinha 13 anos. A partir daí questionei a religião e muitos anos fui estudando as várias religiões. Condeno os fundamentalismos, sou anti-fatimista, condeno os exércitos religiosos e o terrorismo baseado na religião. Sou ecofeminista, pelo empoderamento dos povos indígenas. Acredito profundamente num mundo sem armas, no pacifismo. Não aceito um plano inteligente de Deus na criação do Mundo. Sou pela despenalização do aborto desde muito cedo e sou a favor da eutanásia. Mas gosto muito dos textos de Leonardo Boff, aprecio imenso os cantos gregoriano e ortodoxo e bizantino. Gosto muito de S.Francisco de Assis, Santo António e Santo Agostinho. Falo com eles como se fossem irmãos. Vejo agora a religião mais do ponto de vista literário, filosófico (aprecio imenso Espinoza) e artístico. Completamente ateu não sou. Considero-me um cristão crítico.

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Artista médico revela como era Jesus Cristo usando ciência forense

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Entrevista a Leonardo Boff: Saber Cuidar - do Pensamento à Acção


A pandemia de COVID-19 trouxe desafios significativos para a humanidade, e destacou a importância de refletirmos sobre os impactos socioambientais da ação humana sobre o planeta. Como entender o mundo em que vivemos e os impactos que geramos? É possível construir caminhos de justiça social, equanimidade e sustentabilidade? 

Com Leonardo Boff, doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e autor de mais de 100 livros, dentre os quais “A Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca” (Editora Vozes, 2020). 

Mediação de Mara Rita Oriolo, mestra em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e gerente adjunta do Sesc Guarulhos, em São Paulo.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Hans Küng: O teólogo que ensinou a mensagem revolucionária de Cristo

Na Igreja Católica, ainda os há à imagem de Cristo. Dos que trazem na alma um instinto de ruptura, uma radicalidade em direção ao que significa ser um homem entre homens, e à luta que o amor impõe em todas as épocas. Hans Küng tinha a coragem das suas convicções, e uma inteligência que apontava claramente o que havia a fazer, sem receio de chocar com os elementos tradicionalistas daquela instituição, desafiando os valores e dogmas mais retrógrados.

Foi um dos que exigiram do Papa Bento XVI que assumisse responsabilidades pelo encobrimento dos casos de pedofilia na Igreja. Era há muito uma das figuras mais incómodas. Crítico da doutrina sobre a infalibilidade papal, viu, em 1979, ser-lhe revogada a licença para ensinar teologia católica. Küng morreu no dia 6 de abril, aos 93 anos, na sua residência em Tübingen, na Alemanha. Em 2013, anos depois de lhe ter sido diagnosticada a doença de Parkinson, vira-se forçado a abandonar a vida pública.

Nascido em Sursee, Suíça, a 19 de março de 1928, foi ordenado sacerdote em 1954. Seis anos mais tarde tornou-se professor titular da Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tübingen, tendo sido convidado pelo Papa João XXIII a participar do Concílio Vaticano II como especialista. Era um dos mais jovens, ele e o seu colega Joseph Ratzinger, o futuro Bento XVI, e estavam então mais próximos na proposta de um conjunto de reformas que prometiam abalar de forma decisiva as bases em que, até ali, assentava a Igreja Católica.

Além de defender um modelo mais colegial e descentralizado, o suíço punha em causa outros elementos da doutrina católica, como a obrigatoriedade do celibato sacerdotal, a interdição das mulheres no sacerdócio, a contracepção e até a proibição da eutanásia. Realizado entre 1962 e 1965, o concílio abriu uma perspetiva de modernização da Igreja, mas com o passar dos anos muitos dos que viram naquele um momento charneira acabaram por ficar desiludidos com a capacidade da instituição para se esquivar ao confronto.

Depois de a Congregação para a Doutrina da Fé lhe ter revogado a faculdade de ensinar como teólogo católico, Küng não abdicou de se manter fiel aos seus princípios, continuando a dar aulas como professor emérito de teologia ecuménica em Tübingen. Aprofundou o estudo da história das religiões, em particular as religiões Abraâmicas, e foi essa especialidade que acabou por definir a sua ligação ao grande projecto daquela Universidade, o Ethos Mundial, que partiu da sua proposta de encontrar os mínimos denominadores comuns a todas as culturas e religiões, «o contributo destas para a construção de uma base de princípios éticos mundiais que permitissem à humanidade entender-se pacificamente». O teólogo João Duque, pro-reitor da Universidade Católica Portuguesa e professor na Faculdade de Teologia, em Braga, adianta que não sendo uma fase especificamente teológica, talvez seja a fase pela qual ele é mais conhecido do público em geral.

Já o padre e professor de filosofia Anselmo Borges, enquadra Küng entre as vozes dissonantes numa altura em que João Paulo II protagonizava um regresso ao conservadorismo, e afastado da sua missão canónica, restou-lhe prosseguir na docência universitária, numa cátedra de diálogo inter-religioso «que o levou a aprofundar o seu projecto de uma ética global, restaurando o chamado ‘parlamento das religiões mundiais’, muito baseado no princípio segundo o qual não haverá paz entre as nações sem que haja também paz entre as religiões e que esta não é possível sem diálogo». Ao Público, Anselmo Borges referiu ainda que, colocado à margem da Igreja, o teólogo suíço foi um trabalhador incansável, deixando um legado gigantesco, destacando-se a trilogia sobre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão, que foi traduzida para português.

Em grande medida, o perfil de Küng traça-se num contraste decisivo com Ratzinger, tendo os dois sido professores na mesma universidade, e tendo sido o primeiro quem convenceu a instituição a nomear o futuro Papa para lecionar Teologia Dogmática. Quando foi afastado, um dos votos contra Küng terá sido o do seu ex-colega, então cardeal.
Já depois de ter sido eleito Papa, em 2005, Bento XVI tentou uma reaproximação, chamando-o para jantar na sua residência, em Castel Gandolfo.

Apesar de o Vaticano ter garantido que a reunião aconteceu «num clima amistoso», os dois tinham assumido de antemão que não havia forma de superarem o fosso que há muito os separava. Küng chegou a dizer que falar com Ratzinger tinha-se tornado semelhante a falar com um agente do KGB e manteve o seu repúdio à forma como os tradicionalistas bloquearam as reformas firmadas no Concílio Vaticano II, acusando-os de serem «ultra-conservadores e anti-democráticos». Assim, o encontro não foi verdadeiramente uma trégua, mas apenas um sinal de respeito de parte a parte, tendo a conversa contornado as divergências doutrinárias persistentes.

Numa tentativa de estender um ramo de oliveira, Bento XVI dizia ter apreciado «o esforço do Professor Küng em contribuir para um renovado reconhecimento dos valores morais essenciais da humanidade através do diálogo das religiões e no encontro com a razão secular». Mas o sinal de que não houve verdadeira reconciliação, e aquilo que permitiu ao suíço ensaiar a estocada final, foram os casos de pedofilia que a Igreja encobriu ao longo de décadas, tendo Küng atacado o pontífice emérito por se ter afastado, provando, no fundo, que sempre lhe faltou o carácter e a coragem para estar à altura dos desafios com que a Igreja se confrontava.

Assim, em 2013, Küng celebrou a eleição do Papa Francisco como «a melhor escolha possível». Nesse ano em que se afastou da vida pública, o teólogo suíço descreveu ainda o argentino como «um raio de esperança», mostrando-se reconciliado, por fim, com a instituição a que dedicou a sua vida.

sábado, 6 de março de 2021

É possível a fraternidade humana universal e com todas as criaturas? Parte 2




Por Leonardo Boff, 20/01/2021

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivêncis comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder
O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como a mais conhecida Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoriou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade
Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Ai se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo
Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo a pergunta como quem não está totalmente convencido: "Será que a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:
”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).
A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: "não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

A grande tentação de São Francisco
Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos a ponto que seu biógrafo São Boaventura o chamar de vir desideriorum (homem de desejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus. E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza
Francisco buscou incansavelmente a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não, levar a humanidade a oprimir-se a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999). Face às ameaças planetárias também afirmou: "A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano”.

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo
Francisco viveu em termos pessoais a fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de uma instância de direção social. Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria: dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma nova presença e como um modo ser que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo
Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise económico-financeira de 1929 e mesmo na de 2008. Ninguém colocava em questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este conceção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta
Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie:" As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundente: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal
Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o sentido de pertença fraterna, o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças que pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque então poderemos continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu: ”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).

É possível a fraternidade humana universal e com todas as criaturas? Parte 1



Por Leonardo Boff, 15/01/2021

Na encíclica social Fratelli tuttiI (2020) o Papa Francisco apresenta seu “sonho” de uma nova humanidade fundada na fraternidade universal e no amor social (n.6), inspirado na figura e no exemplo de São Francisco de Assis, o irmão universal.

Esse tema da fraternidade universal foi a insistente preocupação de um dos melhores conhecedores do espírito de Assis: Elói Leclerc em várias de suas obras ,especialmente, na Sabedoria de um Pobre (Paris 1959,Braga 1968) e no O Sol nasce em Assis (Pars 1999, Vozes 2000). Ele não fala teoricamente mas a partir de um aterradora experiência pessoal. Jovem frade francês, mesmo não sendo judeu, foi levado para a Alemanha e mergulhou no inferno dos campos de extermínio nazista de Buchenwald e de Dachau. Conheceu a banalidade do mal, as matanças feitas pela SS pelo simples gosto de matar, as torturas e as humilhações que marcaram sua alma como ferro em brasa.

Abalado na fé no ser humano e duvidando de todo o ideal de uma fraternidade humana, buscava desesperadamente um raio de luz que não lhe vinha de nenhum lugar, Mesmo depois de sua libertação pelos aliados em 1945 começou a ter medo de todo o ser humano. Confessa: "de noite, acordava sobressaltado, o suor escorrendo e a alma tomada de pavor; aquelas imagens de horror sempre voltavam e me perseguiam; eu não podia apagá-las”(p.33). E continua: "Que o Senhor me perdoe, se às vezes de noite, esse homem velho que me tornei, levante os olhos inquietos ao céu, à busca de um pouco de luz”(p.31).

Carregava dentro de si os carrascos nazistas que o perseguiam e lhe suscitavam questões terrificantes sobre o destino humano e sua capacidade de destruir vidas indefesas. Esse mesmo trauma, mais que psicológico, pois invade e destrói todo ser humano por dentro e por fora, foi vivenciado pelo dominicano brasileiro Frei Tito Alencar, barbaramente torturado pelo delegado Fleury. Internalizou sua imagem perversa de tal forma que se sentia sempre perseguido por ele até que, não aguentando mais, deu fim à sua vida, preferindo morrer do que viver uma permanente tortura. Essa experiência terrível foi vivenciada também por Frei Eloi Leclerc, que longa e sofridamente refletida, nos entregou uma trêmula luzinha apontando a possibilidade de uma fraternidade universal, inspirada no pobre de Assis.

Foi o encontro com essa figura e com seu exemplo que lhe fez nascer de novo o sol em sua alma obnubilada e conseguiu resgatar o sentido secreto de todo o sofrimento. Narra um fato misterioso que ocorreu no trem descoberto e carregado de prisioneiros que por 28 dias de Buchenwald viajava de um lugar ao outro ate parar em Dachau nos arredores de Munique. Eram três confrades, um deles agonizante. No meio do inferno, irrompeu algo do céu. Sem saber por quê, movidos por uma força superior, começaram a cantar com vozes quase inaudíveis o Cântico das Criaturas de São Francisco. As densas trevas não puderam impedir a luz do senhor e irmão Sol e a generosidade da mãe e senhora Terra. No Cântico se celebra o encontro da ecologia interior com a ecologia exterior e o esponsal do Céu com a Terra, do qual nascem todas as coisas. A pergunta que sempre lhe atravessava a garganta: será que a fraternidade entre os humanos e com os demais seres da criação é possível? Essa experiência entre agonia e deslumbramento, não poderia conter uma eventual resposta esperançadora? Abriu-se pelo menos um trêmulo clarão. Tal choque existencial o motivou a estudar e a aprofundar qual seria a singularidade desta figura absolutamente excepcional dentro do conjunto das agiografias.

Leclerc descreve, então, o processo de construção da fraternidade universal na trajetória de Francisco de Assis. Filho de um rico comerciante de tecidos, considerado o rei da jeneuse dorée da cidade que vivia em farras e algazarras, de repente começou a dar-se conta da futilidade daquela vida. Passava horas na capelinha de São Damião, contemplando o rosto doce e terno de um crucifixo bizantino. Algo semelhante fazia Dostoievsky que uma vez ao ano viajava até Dresden na Alemaha para na igreja contemplar, por horas, a beleza de um quadro de Maria extraordinariamente deslumbrante. Precisava desta contemplação para apaziguar sua alma atormentada. No romance Os Irmãos Karamasov deixou esta instigante frase: "é a beleza que salvará o mundo”.

Assim foi a doçura e o olhar misericordioso do Cristo bizantino, à semelhança com Dostoievsky, que conquistou aquele jovem em profunda crise existencial e lhe mudou o destino da vida. Convenceram-no a fé no Criador que criou uma fraternidade fundamental, fazendo que todos os seres, pequenos e grandes, também os humanos e o próprio Jesus de Nazaré, fossem todos tirados do pó, do húmus da Terra. Todos têm a mesma origem, formam uma fraternidade terrenal.

São Paulo aos Efésios lembrava aos seguidores: "Tende os mesmos sentimentos que Cristo teve. Sendo Deus, não fez caso de sua condição divina; fez-se um nada e assumiu a condição de servo por solidariedade com os seres humanos; apresentou-se como simples homem; humilhou-se- obedientemente até à morte e à morte de cruz”(o mais humilhante dos castigos impostos aos subversivos: Flp 2,5-8).

À luz destas matutações, Francisco esqueceu sua situação de filho de um rico mercador, descobriu a origem comum de todos os seres, do pó da Terra, de seu húmus e contemplou também a humildade de Cristo retratada no rosto sereno e doce do crucifixo bizantino. Como era prático e resoluto em tudo o que se propunha, tirou logo uma conclusão: vou solidariamente unir-me àqueles que mais próximos estão do Crucificado: os leprosos e com eles, vou viver aquilo que nos faz pela criação irmãos e irmãs e criar uma uma radical fraternidade com eles. Confessa em seu testamento: “aquilo que antes me parecia amargura agora emergia como doçura”. Conhecemos o resto da saga do Sol de Assis como o chama Dante na Divina Comédia.

Entretanto, Eloi Leclerc não se contentou com a experiência iluminadora do Cântico das Criaturas. A angustiante pergunta não lhe dava sossego: qual é o grande obstáculo que impede a fraternidade humana e com todas as criaturas e que cria espaço para os massacres e a eliminação sumária de pessoas, tidas inferiores ou sub-humanas como ocorreu nos campos de extermínio? Chegou à conclusão: é a vontade de poder.

Como C.G.Jung já havia percebido, a vontade de poder constitui o mais perigoso arquétipo do ser humano, pois lhe dá a ilusão de ser como Deus, dispondo como quiser da vida e da morte dos outros. E arrematava: "onde predomina o poder aí não há mais ternura nem amor”. Quando se torna absoluto, o poder se mostra assassino e elimina a todos os que fazem ouvir outra voz (p.30). Ora, nossas sociedades históricas (à exceção dos povos originários) se estruturam ao redor da vontade de poder e de dominar tudo o que se apresente: o outro, os povos, a natureza e a própria vida. Ela introduz a grande divisão entre aqueles que têm poder e aqueles que não têm poder.

Enquanto prevalecer o poder como eixo estruturador de tudo jamais haverá fraternidade entre os humanos e com a criação. Como este arquétipo é humano, ele está latente dentro de cada um de nós. Em nós se esconde um Hitler, um Stalin, um Pinochet e um Bolsonaro. O próprio Lclerc confessa: "Senti despertar em mim mesmo, a besta com sua sede de vingança”(p.32). Temos que colocar sob severo controle essa figura funesta que mora em nós, se quisermos manter a nossa humanidade. Se nos entregamos à sedução do poder, quebramos todos os laços e a indiferença, o ódio e a barbárie podem ocupar todo o espaço da consciência, como está ocorrendo em vários países no mundo, especialmente entre nós no Brasil. Emergem então as figuras sinistras e até necrófilas referidas.

Quem diria que num país da velha cristandade que nos deu tantos gênios como Mozart e Bethoven, Goethe, Freud, Einstein, Marx, Heidegger, Brecht e outros tantos pudessem ter liberado o inimus homo latente dentro deles?

Esse fato dramatiza ainda mais a questão ousadamente proposta pelo Papa Francisco na Fratelli tutti: uma fraternidade universal e um amor sem fronteiras. Talvez porque desta vez, como tem repetido várias vezes: "Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Pode ser que nos é oferecida pela própria Terra, quem sabe, pelo próprio universo, uma derradeira chance: ou mudamos ou a Terra seguirá girando ao redor do sol, mas sem nós. ( continua)


Leonardo Boff é ecotólogo e filósofo e escreveu: O Covid-19: um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade, Vozes 2.ed,2020/21.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cuidar da Mãe Terra e amar todos os seres, por Leonardo Boff


O amor é a força maior existente no universo, nos seres vivos e nos humanos. Porque o amor é uma força de atração, de união e de transformação. Já o antigo mito grego o formulava com elegância: “Eros, o deus do amor, ergueu-se para criar a Terra. Antes, tudo era silêncio, desprovido e imóvel. Agora tudo é vida, alegria, movimento”. O amor é a expressão mais alta da vida que sempre irradia e pede cuidado, porque sem cuidado ela definha, adoece e morre.
Humberto Maturana, chileno, um dos expoentes maiores da biologia contemporânea, mostrou em seus estudos sobre a autopoiesis, vale dizer, sobre a auto-organização da matéria da qual resulta a vida, como o amor surge de dentro do processo evolucionário. Na natureza, afirma Maturana, se verificam dois tipos de conexões (ele chama de acoplamentos) dos seres com o meio e entre si: uma necessária, ligado à própria subsistência e outro espontânea, vinculado a relações gratuitas, por afinidades eletivas e por puro prazer, no fluir do próprio viver.
Quando esta última ocorre, mesmo em estágios primitivos da evolução há biliões de anos, ai surge a primeira manifestação do amor como fenômeno cósmico e biológico. Na medida em que o universo se inflaciona e se complexifica, essa conexão espontânea e amorosa tende a incrementar-se. No nível humano, ganha força e se torna o móvel principal das ações humanas.
O amor se orienta sempre pelo outro. Significa uma aventura abraâmica, a de deixar a sua própria realidade e ir ao encontro do diferente e estabelecer uma relação de aliança, de amizade e de amor com ele.
O limite mais desastroso do paradigma ocidental tem a ver com o outro, pois o vê antes como obstáculo do que oportunidade de encontro. A estratégia foi e é esta: ou incorporá-lo, ou submete-lo ou eliminá-lo como fez com as culturas da África e da América Latina. Isso se aplica também para com a natureza. A relação não é de mútua pertença e de inclusão mas de exploração e de submetimento. Negando o outro, perde-se a chance da aliança, do diálogo e do mútuo aprendizado. Na cultura ocidental triunfou o paradigma da identidade com exclusão da diferença. Isso gerou arrogância e muita violência.
O outro goza de um privilégio: permite surgir o ethos que ama. Foi vivido pelo Jesus histórico e pelo paleocristianismo antes de se constituir em instituição com doutrinas e ritos. A ética cristã foi mais influenciada pelos mestres gregos do que pelo sermão da montanha e prática de Jesus. O paleocristianismo, ao contrário, dá absoluta centralidade ao amor ao outro que para Jesus, é idêntico ao amor a Deus. O amor é tão central que quem tem o amor tem tudo. Ele testemunha esta sagrada convicção de que Deus é amor(1 Jo 4,8), o amor vem de Deus (1 Jo 4,7) e o amor não morrerá jamais (1Cor 13,8). E esse amor incondicional e universal inclui também o inimigo (Lc 6,35). O ethos que ama se expressa na lei áurea, presente em todas as tradições da humanidade: “ame o próximo como a ti mesmo”; “não faça ao outro o que não queres que te façam a ti”. O Papa Francisco resgatou o Jesus histórico: para ele é mais importante o amor e a misericórdia do que a doutrina e a disciplina.
Para o cristianismo, Deus mesmo se fez outro pela encarnação. Sem passar pelo outro, sem o outro mais outro que é o faminto, o pobre, o peregrino e o nu, não se pode encontrar Deus nem alcançar a plenitude da vida (Mt 25,31-46). Essa saída de si para o outro a fim de amá-lo nele mesmo, amá-lo sem retorno, de forma incondicional, funda o ethos o mais inclusivo possível, o mais humanizador que se possa imaginar. Esse amor é um movimento só, vai ao outro, a todas as coisas e a Deus.
No Ocidente foi Francisco de Assis quem melhor expressou essa ética amorosa e cordial. Ele unia as duas ecologias, a interior, integrando suas emoções e os desejos, e a exterior, se irmanando com todos os seres. Comenta Eloi Leclerc, um dos melhores pensadores franciscanos de nosso tempo, sobrevivente dos campos de extermínio nazista de Buchenwald:
”Em vez de enrijercer-se e fechar-se num soberbo isolamento, Francisco deixou-se despojar de tudo, fez-se pequenino, colocou-se, com grande humildade, no meio das criaturas. Próximo e irmão das mais humildes dentre elas. Confraternizou-se com a própria Terra, como seu húmus original, com suas raízes obscuras. E eis que a “nossa irmã e Mãe-Terra” abriu diante de seus olhos maravilhados um caminho de uma irmandade sem limites, sem fronteiras. Uma irmandade que abrangia toda a criação. O humilde Francisco tornou-se o irmão do Sol, das estrelas, do vento, das nuvens, da água, do fogo e de tudo o que vive e até da morte”.
Esse é o resultado de um amor essencial que abraça todos os seres, vivos e inertes, com carinho, enternecimento e amor. O ethos que ama funda um novo sentido de viver. Amar o outro, seja o ser humano, seja cada representante da comunidade de vida, é dar-lhe razão de existir. Não há razão para existir. O existir é pura gratuidade. Amar o outro é querer que ele exista porque o amor torna o outro importante. "Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não poderás morrer jamais” (G.Marcel); “tu deves existir, tu não podes ir embora”.
Quando alguém ou alguma coisa se fazem importantes para o outro, nasce um valor que mobiliza todas as energias vitais. É por isso que quando alguém ama, rejuvenesce e tem a sensação de começar a vida de novo. O amor é fonte de suprema alegria.
Somente esse ethos que ama está à altura dos desafios face à Mãe Terra devastada e ameaçada em seu futuro. Esse amor nos poderá salvar a todos, porque abraça-os e faz dos distantes, próximos e dos próximos, irmãos e irmãs.
30/03/2014

Por Leonardo Boff é autor de O cuidado necessáro, Vozes 2013.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A ecologia integral de Leonardo Boff e as encíclicas do Papa Francisco


Na apresentação online do seu mais recente livro Una ecología integral – Por una eco-educación sostenible, em meados de dezembro do 2020, Leonardo Boff, teólogo e filosofo, confirmou o que já antes se tinha noticiado: as encíclicas do Papa Francisco, Louvado Sejas e Todos Irmãos, foram forjadas também com o contributo de Boff, que enviou ao Papa diversos textos. E de facto quem leu o seu livro Sustentabilidade, publicado no Brasil em 2012, sente ao ler aquelas encíclicas o tom quer desse livro, quer da Carta da Terra, de que Boff faz parte.

Doutorado em Filosofia e Teologia foi ordenado presbítero e era membro da Ordem dos Franciscanos Menores. Em 1985 foi reduzido ao silêncio pela Congregação da Doutrina da Fé, presidida pelo que viria a ser o papa Bento XVI.

Professor brilhante, em 1992 deixou o ministério sacerdotal e a ordem de que fazia parte, e com outros teólogos veio a ser um dos grandes impulsionadores da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base. Continuou o seu trabalho de evangelização e, agora, colaborou nas duas encíclicas do Papa Francisco, o que traduz duas certezas: uma, que foi reabilitado; outra, que as teses que defende não estão em desacordo com o pensamento da Igreja Católica romana. Daí, talvez, que as encíclicas, em Portugal, não têm sido escutadas.

O seu “livrinho” – como o refere Boff –, é uma edição de bolso, que contém o que sempre tem defendido sobre ecologia integral, e segue as linhas centrais das encíclicas referidas. Há a referir alguns dados importantes para a compreensão de todo o caminho seguido. Tem o cuidado de, no capítulo “Ecologia Ambiental”, salientar que “ecologia” deve ser definida como “o estudo das relações de todos os seres vivos e não vivos entre si e com o seu meio ambiente. Todos vivem na sua Casa Comum, que é a Terra, e juntos se ajudam mutuamente para se alimentar, reproduzir e evoluírem. O chamado meio ambiente que, na verdade, é o ambiente completo porque abarca todos os seres vivos e suas relações”. Sendo um diálogo, a ecologia abarca uma resposta à crise que se abate sobre a biosfera e é constituída pelo diálogo de todas as variáveis ambientais, económicas, sociais e culturais, diz.

Em semelhante sentido, o teólogo, ex-padre, refere aquilo que chama uma “Ecologia Mental”, onde defende o “cultivo da espiritualidade”, não como “um monopólio das religiões, mas sim como pertencendo a uma dimensão profunda do ser humano” e “cada vez que se pergunta donde venho, para onde vou, que posso esperar, cada vez que se sente que por trás de todas as coisas existe uma energia misteriosa e amorosa que une e reúne tudo em grande harmonia e dá sentido à vida, incluindo para além da morte, cada vez que se vive esta dimensão, estamos a alimentar a espiritualidade de cada um”, que se expressa através do amor, do cuidado, da compaixão, da aceitação do outro e da esperança”.

Porque a ecologia integral vai mais além da ecologia ambiental, política, social e mental, económica, social ou cultural, este pequeno livro deve constituir motivo da nossa leitura e reflexão, tando mais que estamos no tempo, de 18 a 25 de janeiro, da oração pela unidade dos cristãos. Ora, este livro é verdadeiramente ecuménico

terça-feira, 23 de junho de 2020

A transição ecológica para uma sociedade biocentrada

Por Leonardo Boff
O ataque do coronavírus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no vírus, no hospital, no paciente, no poder da ciência e da técnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social Tudo isso é indispensável.

Mas para apreendermos o significado do coronavírus, precisamos enquadrá-lo em seu devido contexto e não vê-lo isoladamente. Ele expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.

O capitalismo neoliberal gravemente ferido
O capitalismo se caracteriza pela exacerbada exploração da força de trabalho, pela utilização dos saberes produzidos pela tecnociência, pela pilhagem dos bens e serviços da natureza, pela colonização e ocupação de todos os territórios acessíveis. Por fim, pela mercantilização de todas as coisas. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado.

Nela, as coisas inalienáveis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua Miséria da Filosofia de 1874 profetizou: “Tudo o que os homens considerável inalienável, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas….tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência… tudo foi levado ao mercado e ganhou seu preço”. A isso ele denominou o “tempo da corrupção geral e da venalidade universal”(ed.Vozes 2019,p.54-55).É o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.

O capitalismo quebrou todos os laços com natureza, a transformou num baú de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em função de uma crescimento também tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta já velho e limitado não suporta um crescimento ilimitado.

Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado mínimo, às privatizações de bens públicos e uma exacerbação da concorrência e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade não existe, apenas indivíduos.

A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, começou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela erosão da biodiversidade, pela desertificação crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que são os vírus e bactérias (gripe suína, aviária, H1N1, zika, chikungunya, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invisível e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as potências militaristas cujas armas de destruição em massa (que poderiam destruir toda a vida, várias vezes) se mostraram totalmente supérfluas e ridículas. Agora passamos do capitalismo do desastre para o capitalismo do caos,como diz a crítica do sistema capitalista Naomi Klein.

Uma coisa ficou clara a propósito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ideário: o lucro, a acumulação privada, a concorrência, o individualismo, o consumismo, o estado mínimo e a privatização da coisa pública e dos commons. Ele foi gravemente ferido. O fato é que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecológica, a ponto de pôr em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.

Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?

Pelo ideário do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que é o que nos está salvando é aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a cooperação, a interdependência entre todos, a generosidade e o cuidado mútuo pela vida de uns e de outros.

Alternativas para o pós-coronavírus
O grande desafio colocado a todos, a grande interrogação especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais é: Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?

Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suicídio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com vírus mais violentos e mortais. Cientistas já advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso não tenhamos aprendido a lição de cuidar da natureza e de desenvolver uma relação amigável para com a Mãe Terra.

Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finanças estão numa furiosa articulação entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de pressão política.

A primeira seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, biliardários, que utilizariam a inteligência artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida íntima, privada e pública. Seria um despotismo de outra ordem, cibernético, sob a égide do total controle/dominação da vida das populações.

Este não aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecológico. Pela pressão geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-ecológica para não perder lucros e fregueses. Mas seguramente haverá grande resistência e até rebeliões provocadas pela fome e pelo desespero.

A segunda alternativa seria o capitalismo verde que tirou as lições do coronavírus e incorporou o fator ecológico: reflorestar o devastado e conservar ao máximo a natureza. Mas não mudaria o modo de produção e a busca do lucro. O capitalismo verde não discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasião de ganho. Exemplo: não apenas ganhar com o mel das abelhas, mas também sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A relação para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e não lhe reconheceria direitos, como declarou a ONU e seu valor intrínseco, independente do ser humano.

A terceira seria o comunismo de terceira geração que nada teria com as anteriores, colocando os bens e serviços do planeta sob a administração plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser possível, mas supõe uma nova consciência ecológica, além de dar centralidade à vida em todas as suas formas. Seria ainda antropocêntrico. É pouco representado, pelos filósofox Zizek e Badiou além da carga negativa das experiências anteriores e mal sucedidas.

A quarta, seria o eco-socialismo com maiores possibilidades. Supõe um contrato social mundial com um centro plural de governança para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e serviços naturais seriam equitativamente distribuídos a todos, num consumo decente e sóbrio que incluiria também toda a comunidade de vida. Ela também precisa de meios de vida e de reprodução como água, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmogénico,biogénico e antropogénico.

A quinta alternativa seria o bem viver e conviver ensaiada por séculos pelos andinos. Ela é profundamente ecológica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador é a harmonia que começa com a família, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia, Talvez, quando a humanidade se descobrir como espécie, habitando numa única Casa Comum, teria condições de realizar o bem-viver e o bem conviver.

Conclusão desta parte: ficou evidente que o centro de tudo é a vida, a saúde e os meios de vida e não o lucro e o desenvolvimento (in)sustentável. Vai se exigir mais Estado com mais segurança sanitária para todos, um Estado que satisfaça as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obedeça os ritmos e os limites da natureza. Não será a austeridade que vai resolver os problemas sociais que têm beneficiados ao já ricos, e penalizado os mais pobres. A solução se deriva da justiça social e distributiva, onde todos participam do ônus e do bônus da ordem social.

Como o problema do coronavírus foi global, torna-se necessário um contrato social global para implementar soluções globais. Tal transformação demandará uma descolonização de visões de muno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O pós-coronavírus nos obrigará conferir centralidade à natureza e à Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.

Como buscar uma transição ecológica, exigida pela ação mortífera do covid-19? Por onde começar?
Não podemos subestimar o poder do “gênio” do capitalismo neoliberal: ele é capaz de incorporar os dados novos, transformá-los em seu benefício privado e para isso usar todos os meios modernos da robotização, da inteligência artificial com seus bilhões de algoritmos e eventualmente as guerras híbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milhões e milhões de esfaimados e lançados na miséria.

Por outra parte os que buscam uma transição paradigmática, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma convivência respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro nível de consciência e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descolonização de visões de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.

Pressupostos para uma transição bem sucedida

Primeiro pressuposto: a vulnerabilidade da condição humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bactérias e vírus. dos ecossistemas e a alimentação humana.
Fundamentalmente dois outros fatores estão na origem da invasão de micro-organismos letais: a excessiva urbanização humana que avançou sobre os espaços da natureza, destruindo os habitats naturais dos vírus e bactérias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.
O segundo fator é a desflorestação sistemática devida à voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasol ou com a mineração e a produção de proteínas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regiões como é o caso da Amazônia.

Segundo pressuposto: a interdependência entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um nó de relação, voltado para todas as direções. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que é da essência específica do ser humano a cooperação e a relação de todos com todos. Não existe o gene egoísta, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das células. Todos os seres estão inter-retro-relacionados e ninguém está fora da relação. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é anti-natural e não possui nenhuma base biológica.

Terceiro pressuposto: a solidariedade como opção consciente. A solidariedade está na base de nossa humanidade. Os bio-antropólogos nos revelaram que este dado é essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, não os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos começando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Daí surgiu a comensalidade e o sentido de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale também para hoje.

A sociedade vive e subsiste porque os seus cidadãos comparecem como seres cooperativos e solidários, superando conflito de interesses para ter uma convivência minimamente humana e pacífica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade não vigora apenas entre os humanos. É uma constante cosmológica: todos os seres convivem, estão envolvidos em redes de de relações de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Também o mais fraco, com a colaboração dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes em função de uma maior acumulação e, se possível, estabelecer o monopólio de um produto ou de uma fórmula científica.

Hoje o maior problema da humanidade não é nem o econômico, nem o político nem o cultural, nem o religioso, mas é a falta de solidariedade para com outros seres humanos que estão ao nosso lado. No capitalismo ele é visto como um eventual consumidor, não como uma pessoa humana com suas preocupações, suas alegrias e padecimentos.

Foi a solidariedade que nos está salvando face ao ataque do coronavírus, a começar pelos operadores da saúde que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas não têm condições de fazerem o isolamento social e não possuem reservas de alimentação. Muitas famílias que recebiam as cestas básicas, as repartiam entre outros mais necessitados.

Referência especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimentação orgânica para os mais vulneráveis. Não dão o que lhes sobra, mas o que têm. Outras ONGs organizaram ações de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milhões que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.

Não basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma atitude básica, porque é um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma opção consciente para sermos solidários a partir dos últimos e invisíveis, para aqueles que não contam para o sistema imperante e são considerados prescindíveis e zeros econômicos. Só assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem laços objetivos de fraternidade.

Quarto pressuposto: o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence à essência do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. Nós estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas mães. Deixados no berço, não saberíamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morreríamos.

Ademais cuidado é além disso uma constante cosmológica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro forças que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre estas coisas.

O cuidado representa uma relação amiga da vida, protetora de todos os seres pois os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os vírus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando nossas células. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribuição à preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado é de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres

A transição para a uma civilização biocentrada
Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O coronavírus nos deu esta lição: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdependência, a cooperação e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civilização, se não quisermos ser mais atacados por vírus letais.

Parto da seguinte interpretação: não só nós agredimos por séculos a natureza e a Mãe Terra. Agora é a Terra ferida e a natureza devastada que estão nos contra-atacando e fazendo sua represália. São entes vivos e como vivos sentem e reagem às agressões.

A multiplicação de sinais que a Terra nos enviou, a começar pelo aquecimento global, a erosão da biodiversidade na ordem de 70-100 mil espécies por ano (estamos dentro da sexta extinção em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a sério e interpretados. Ou nós mudamos nossa relação para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode não nos mais querer sobre sua superfície. Desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua própria sepultura.

Quase todas as análises do covid-19 focaram a técnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de máscaras para nos proteger e não contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o vírus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a nós? Já o tentamos explicar anteriormente.

A transição de uma sociedade capitalista de superprodução bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaixão, a interdependência, a justa medida, o respeito e o cuidado e, não em último lugar, o o amor, não se fará de um dia para o outro.

Será um processo difícil que exige, nas palavras do Papa Francisco na encíclica “sobre o Cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Vale dizer, devemos introduzir relações de cuidado, de proteção e de cooperação. Um desenvolvimento feito com a naturezas e não contra a natureza.

O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas não terá futuro. Há uma grande acumulação de crítica e de práticas humanas que sempre resistiram à exploração capitalista. Segundo minha opinião, quem o vencerá definitivamente nem seremos só nós, mas a própria Terra, negando-lhe as condições de sua reprodução pelos limites dos bens e serviços da Terra superpovoada.

O novo paradigma cosmológico e biológico
Para uma sociedade pós-Covid-19 impõe-se a assunção das contribuições do novo paradigma cosmológico que já possui um século de existência. Lamentavelmente até agora não conseguiu conquistar a consciência coletiva nem a inteligência acadêmica, muito menos a cabeça dos “decisions makers” políticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido há 13,7 biliões de anos. De sua explosão surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explosão destas, as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e e nós mesmos. Somos todos feitos do pó cósmico.

A Terra que já tem 4,3 biliões de anos e a vida cerca de 3,8 biliões de anos são vivos. A Terra, isso é um dado de ciência já aceito pela comunidade científica, não só possui viva sobre ela mas é viva e produz toda sorte de vidas.

O ser humano que surgiu já há uns 10 milhões de anos há 100 mil ano como sapiens sapiens é a porção da Terra que num momento de alta complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de húmus, terra boa.

Inicialmente possuía uma relação de convivência com a natureza, depois passou de intervenção mediante a agricultura de irrigação e nos últimos séculos de agressão sistemática mediante a tecnociência. Essa agressão foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equilíbrio da Terra e até uma ameaça de auto-destruição da espécie humana com armas nucleares, químicas e biológicas.

Essa relação de agressão subjaz à atual crise sanitária. Levada avante, a agressão poderá nos trazer crises mais agudas até aquilo que os biólogos temem The Next Big One: aquele próximo e grande vírus, inatacável e fatal que poderá levar a espécie humana a desaparecer da face da Terra.

Para obviar este possível armagedom ecológico, urge renovar o contrato natural violado com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos, contratualmente, teríamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem é) que explora os bens e serviços, desfloresta, contamina as águas e os mares.

É decisivo renovar o contrato natural e articulá-lo com o contrato social: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preservação de toda vida, mantém em pé suas florestas que garante a água necessária para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que já é preservado.

A importância da região: o bioregionalismo
A ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecológica.

A vida será o farol orientador e a política e a economia estarão a serviço, não da acumulação e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, será sóbrio, frugal e solidário. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida.

O acento não se dará à planetização econômico-financeira que seguirá o seu curso, mas à região. A ponta mais avançada da reflexão ecológica atualmente se realiza em torno do bio-regionalismo.

Tomar a região, não como vem definida arbitrariamente pela administração geográfica mas com a configuração que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, planícies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que aí moram. Na bioregião poder-se-á verdadeiramente criar um desenvolvimento sustentável que não seja meramente retórico. As empresas serão preferentemente médias e pequenas, dar-se-á preferência à agroecologia, evitar-se-ão os transportes para regiões distantes, a cultura será o cimento de coesão: as festas, as tradições, a memória das pessoas notáveis, a presença das igrejas ou das religiões, os vários tipos de escolas e outros meios modernos de difusão de conhecimento e de encontros entre as pessoas.

A Terra será como um mosaico feito de distintas peças cm cores diferentes: são as distintas regiões e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um só mosaico, a Terra.

A transição se fará por processos que vão crescendo e se articulando a nível nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consciência de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.

A acumulação de nova consciência permitirá um salto para um outro nível em que seremos amigos da vida, abraçaremos cada ser pois todos possuímos o mesmo código genético de base, desde a bactéria originária, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e nós mesmo. Somos construídos por 20 aminoácidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal.

Será a civilização “da felicidade possível” e da “alegre celebração da vida”.

Brasil, nosso sonho bom: a sua refundação
O Brasil, por suas riquezas ecológicas, geográficas e populacionais, tem todas as condições de começar a colocar os fundamentos de uma civilização biocentrada.

Até hoje vivemos na dependências de outros centros hegemónicos. Está madurando, especialmente nas bases, a ideia da refundação de um outro Brasil.

Três pilastras podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”(Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:

A natureza, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas úmidas e em água. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

A cultura que configura a relação do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na música, na arquitetura, nas danças e em certos ramos da ciência, não obstante o racismo visceral e as ameaças às culturas originárias e outras exclusões sociais, reforçadas pela atual política de ultra-direita e de viés fascitóide.

O povo brasileiro ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 países diferentes. A cultura multiétnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso lúdico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade são características entre outras de nosso povo.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civilização dos trópicos. Para essa utopia viável, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnocídio indígena, da colonização, da escravidão e da dominação das oligarquias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com traços claros de despotismo que pretende conduzir o país a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizatórios que são já bens comuns das sociedades mundiais.

Para terminar, tomo como referência a proposta do Papa Francisco, quiçá o maior líder ético-político da humanidade. Na reunião com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bolívia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse: "Vocês têm que garantir os três Ts :Terra para morar nela e trabalhar. Teto para morar porque não são animais que vivem ao relento. Trabalho com o qual vocês se autorealizam e conquistam tudo o que precisam."

Em seguida continuou: “Não esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam vocês mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solidária, com uma agroecologia com produtos sãos e livres de transgênicos. Sejam os poetas da nova sociedade.

Lutem para que a ciência sirva à vida e não ao mercado. Empenhem-se pela justiça social sem a qual não há paz. Por fim, cuidem da Mãe Terra sem a qual nenhum projeto será possível.

Aqui estamos diante de um programa mínimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade.
O futuro nos assinala que não iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se impôr. Ele não deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas mãos à custa do sacrifício de milhões e milhões vivendo em condições sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emergência ecológica.

A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma política e economia compatíveis é a grande utopia viável da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.

Cremos e esperamos que esse sonho não seja uma fantasmagoria, mas uma realidade possível que se adequa à lógica do universo, feito não pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas relações dentro das quais nós também estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual não seja tão difícil o amor.

O Brasil, libertado de suas sombras históricas, pode ser um embrião da nova sociedade, una, diversa dentro da única Casa Comum, a Mãe Terra.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; esm espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996.