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sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica



Se andas no TikTok, de certeza que já esbarraste neles: vídeos estranhos, meio absurdos, com vozes robóticas e imagens claramente feitas por inteligência artificial, publicados às dezenas por contas que não fazem mais nada. Pois a própria plataforma está farta e acaba de anunciar que vai começar a caçá-los.

O que o TikTok vai fazer em relação à IA
Esta sexta-feira, o TikTok anunciou que vai reforçar os sistemas de deteção para identificar contas dedicadas exclusivamente a publicar aquilo a que chama “spam gerado por IA”. Nas próximas semanas, a plataforma vai testar melhorias que apontam sobretudo às contas que despejam conteúdo automático sobre temas sensíveis.


TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica
E quais são esses temas? Precisamente os mais perigosos quando a informação é falsa ou de baixa qualidade: política, atualidade, saúde e conselhos financeiros. Ou seja, as áreas onde um vídeo enganador feito por IA pode fazer estragos reais, desde desinformação política a maus conselhos de dinheiro ou saúde.

Afinal, o que é o “AI slop”?
O fenómeno tem nome e tudo: chama-se “AI slop”, algo como “lixo de IA”. Descreve aquele conteúdo produzido em massa por inteligência artificial, de baixíssima qualidade e muitas vezes sem pés nem cabeça, cujo único objetivo é gerar visualizações a custo quase zero.

A lógica de quem faz isto é simples e cínica. Com ferramentas de IA generativa, uma pessoa consegue produzir dezenas de vídeos por dia sem esforço, atirá-los ao algoritmo e ver o que “cola”. O problema é que este dilúvio de conteúdo automático rouba visibilidade aos criadores reais. Aqueles que passam horas a fazer vídeos genuínos ficam soterrados por baixo da enxurrada de lixo.

Como o TikTok identifica uma conta “de spam”
Segundo a plataforma, uma conta entra na mira quando junta vários destes sinais: produz conteúdos de IA “de baixa qualidade e muito padronizados”, concentra-se em temas de alto risco que podem abalar a confiança pública, e detalhe revelador compra ou vende seguidores. É o retrato-robô da fábrica de conteúdo automático montada só para explorar o algoritmo.

O TikTok não deu pormenores técnicos sobre como vai detetar estas contas, o que é normal, revelar o método seria dar o mapa a quem tenta contorná-lo.

Não é só o TikTok
Vale a pena notar que isto não é um caso isolado. O TikTok anunciou também uma funcionalidade de denúncia automática de conteúdo gerado por IA. Entretanto não está sozinho nesta luta: outras redes, como o Pinterest, já estão a implementar medidas parecidas para filtrar o dilúvio de conteúdo artificial.

No fundo, estamos a assistir ao início de uma batalha que vai marcar os próximos anos: as redes sociais construíram-se a incentivar quem publica mais, e agora veem-se obrigadas a distinguir o que é feito por pessoas do que é cuspido por máquinas.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Aguiar-Branco com 31 cargos ocultos



“Não bastava declarar os rendimentos, era preciso declarar publicamente se a mulher ou o marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário, se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa”, lamentou o presidente do Parlamento, na sessão solene do 25 de Abril. “Tornamos tantas vezes a vida política num reality-show. E fomos aceitando a ideia de que os políticos estão a esconder qualquer coisa”.

Tem piada, porque Aguiar-Branco está mesmo a esconder qualquer coisa. 31 coisas, para ser preciso.

A realidade, sem show, é que as obrigações de transparência que o presidente da Assembleia da República caricaturou no seu discurso do 25 de Abril não existem. Não, nenhuma lei ou prática obriga a listar casas de banho ou elevadores particulares, nem o património do primo, do enteado ou do periquito. Na lista dos truques de retórica desonesta, chama-se a isto a falácia do espantalho: expõe-se uma falsa realidade, para insurgir o público contra o espantalho que se apresentou. Aguiar-Branco inventou muitas regras de transparência que não existem para poder combater as poucas que, de facto, existem.

O que é irónico nisto, soubemos esta semana, é que José Pedro Aguiar-Branco, fiel ao seu repúdio pela prestação de contas, reservou para si próprio um patamar especial de opacidade e ocultação. Quando o Correio da Manhã consultou o seu registo de interesses e património, percebeu que 31 cargos exercidos pelo presidente do Parlamento em empresas ou outras entidades estão inacessíveis à consulta pública. Questionado, Aguiar-Branco explicou que “as funções em causa foram declaradas com indicação de que eram exercidas no âmbito da atividade de advogado, sujeita a deveres legais e deontológicos de sigilo profissional”. E, de facto, a lei prevê que não seja objeto de consulta pública “a discriminação dos serviços prestados no exercício de atividades sujeitas a sigilo profissional”.

Qual é então o problema? É que a mesma lei dita que publicitação do registo de transparência de cada político “deve permitir visualizar autonomamente os cargos, as funções e as atividades exercidos em acumulação com o mandato e aqueles exercidos nos três anos anteriores”. Faz sentido. Conhecer estas ligações é crucial para identificar potenciais conflitos de interesses. Não se trata de voyeurismo sobre as casas de banho de um servidor público; trata-se de identificar relações que podem colidir com o exercício do cargo. Daí que a lei explicite que estes cargos têm mesmo de ser consultáveis.

Aguiar-Branco esclarece ao Correio da Manhã que não a pediu a ninguém para ocultar nada. Como é que a informação aparece então oculta? “O que foi feito foi o preenchimento da declaração nos termos legalmente previstos, com indicação de que determinadas funções foram exercidas no âmbito da atividade de advogado e estavam sujeitas a sigilo profissional”. Na prática, ao preencher o formulário eletrónico, o presidente da Assembleia clicou num botãozinho mágico que, por defeito, oculta a informação prestada, alegando que está sujeita a sigilo. Cabe depois à Entidade para a Transparência verificar a declaração e decidir se esse sigilo se aplica ou não. Como a verificação da declaração da segunda figura do Estado ainda não está feita, por enquanto, triunfa a opacidade.

Luís Montenegro tem muito a aprender com a tranquila desfaçatez de Aguiar-Branco. O primeiro-ministro a penar tanto tempo com a Entidade para a Transparência, litigando até ao Tribunal Constitucional por causa da lista dos seus clientes na Spinumviva, e o presidente do Parlamento só teve de clicar num botão. Assim se distinguem os amadores dos profissionais.

É óbvio que a lei tem de preservar o sigilo de profissões sensíveis, como médicos ou advogados. É igualmente óbvio que, frequentemente, os advogados criam ou extinguem empresas para os seus clientes. É normal. Exercer cargos sociais nessas empresas, no entanto, é toda uma outra conversa, não é ato próprio de advogado, sujeito a sigilo nos termos da lei. Que não se possa saber ao serviço de quem assumiu essas funções é inaceitável – até porque esta interpretação da lei daria aos políticos advogados um privilégio especial de opacidade a que mais ninguém tem direito. Um político que seja empresário, ou professor, não tem como esconder os cargos que exerce ou exerceu debaixo do manto confortável do “sigilo profissional”. Acresce que os órgãos sociais de uma empresa ou organização, por definição, não são secretos. Estão registados publicamente, são consultáveis no registo da empresa. Aguiar-Branco não está a respeitar o recato dos seus clientes, está a proteger o seu.

O presidente do Parlamento argumenta ainda que os cargos em causa, que exemplificou como sendo (ou tendo sido) presidente de assembleias-gerais, não tinham “qualquer remuneração associada”. Não que seja isso o mais importante, mas se decorrem da sua atividade profissional, sujeita a sigilo, então é óbvio que são remunerados! Mesmo que não ganhe como presidente da Assembleia-Geral, ganha como o advogado que aceitou ser presidente da Assembleia-Geral. Não vale a pena tentar fazer de nós tolos, caro José Pedro.

É no entanto esclarecedor que, para Aguiar-Branco, desempenhar cargos em empresas dos clientes seja um banal serviço prestado. Ato próprio de um advogado de negócios, espécie de testa-de-ferro à venda para cargos honoríficos e de simpatia que, como bem sabemos, são muito mais do que isso. Um distinto presidente de uma Assembleia-Geral, de um “Conselho Consultivo” ou de um “Conselho Estratégico”, com um pé na política e outro na advocacia de negócios,

É alguém disponível para fazer um telefonema aqui e ali, esclarecer uma dúvida, abrir uma porta – ou escancarar uma janela. Que esses cargos, nos últimos três anos, ultrapassem as três dezenas diz tudo sobre a carreira de Aguiar-Branco como advogado – e político – de negócios.

A Entidade para a Transparência, que percebeu bem o que estava em causa nas ligações privadas do primeiro-ministro na Spinumviva, não pode caucionar esta interpretação esdrúxula da lei, que cria um privilégio especial de opacidade para políticos-advogados, fora do alcance de outros titulares de cargos públicos. Se ainda não o fez, tem de apressar a verificação da declaração de transparência de Aguiar-Branco – e pôr na ordem os desmandos da segunda figura do Estado.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Faleceu António Lobo Antunes

Morreu António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"

António Lobo Antunes - o Escritor maior e grande contador de histórias
“Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.”
Figura maior da literatura portuguesa tinha 83 anos. Entre crónicas e romances, deixa-nos uma vasta obra, com mais de 40 livros escritos entre 1979 e 2024. Venceu o Prémio Camões em 2007.
Especializou-sem em Psiquiatria na Faculdade de Medicina em Lisboa. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, período que foi central na sua obra, começando pelos primeiros livros, “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas” e “Conhecimento do Inferno”.
A sua obra foi traduzida em várias línguas, e o escritor foi, durante décadas, apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

António Lobo Antunes e actividade Política
António Lobo Antunes manteve, ao longo da sua vida, uma relação complexa e frequentemente crítica com a política, caracterizando-se por uma postura de independência e um ceticismo profundo em relação às instituições partidárias. Embora tenha tido momentos de aproximação, como quando integrou as listas da Aliança Povo Unido (APU) nas legislativas de 1980, o escritor rapidamente se afastou, justificando que a sua natureza individualista e rebelde era incompatível com a disciplina de qualquer partido. Mais tarde, em 1985, manifestou um apoio público à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, movido por uma convicção íntima nos seus valores. Em anos posteriores, chegou a admitir que, na falta de alternativas, o seu voto tenderia para o Partido Socialista, embora notasse com nostalgia que a força política já não era a mesma dos tempos de Mário Soares.

Para Lobo Antunes, a política era vista através de uma lente quase irracional; ele defendia que as opções políticas eram tão afetivas como as escolhas de clubes de futebol, argumentando que as ideologias tradicionais se estavam a dissolver em fórmulas caducas. Esta visão era acompanhada por uma indisfarçável antipatia pela classe política, moldada em grande parte pelo trauma da Guerra Colonial. O autor nunca perdoou os líderes que enviavam homens para o combate sem nunca terem vivido o horror da guerra. No plano social, as suas posições foram igualmente marcantes: causou polémica ao defender o Iberismo — a ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só país — e utilizou frequentemente a sua voz para denunciar a pobreza, a desigualdade social e o abandono da classe média, que considerava serem as verdadeiras raízes da violência na sociedade. 

Recordo-me bem destas entrevistas: Por Outro Lado: 2001 e 2006

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Artigo da Nature mostra como o feed algorítmico da rede X direciona a visão das pessoas para a direita e extrema-direita


O estudo demonstra que, ao contrário do feed cronológico (onde vês tudo o que as pessoas que segues publicam), o algoritmo filtra e prioriza. Se o utilizador interage com uma publicação de teor radical, o sistema passa a mostrar-lhe mais conteúdo semelhante, o que pode levar a um processo de radicalização gradual por falta de contraditório.

Um ponto implícito no debate atual (e tocado lateralmente no artigo) é a mudança de diretrizes da plataforma sob a gestão de Elon Musk. O estudo sugere que as alterações no código e nas políticas de moderação desde 2022 facilitaram a circulação de discursos que anteriormente seriam filtrados ou banidos, beneficiando desproporcionalmente movimentos de extrema-direita que testam os limites da liberdade de expressão.

A investigação demonstra que o algoritmo do X não é neutro e acaba por beneficiar desproporcionalmente as vozes da direita e da extrema-direita. Isto acontece porque o sistema está programado para maximizar o tempo de utilização e a interação, e os conteúdos típicos destes movimentos — que utilizam frequentemente retórica de indignação, teorias da conspiração ou ataques diretos ao "sistema" e aos adversários — geram níveis de resposta emocional muito elevados. O algoritmo interpreta este conflito como "relevância" e, por consequência, impulsiona essas publicações para um público muito mais vasto do que aquele que as segue originalmente.

Além disso, o artigo destaca que esta amplificação cria um desequilíbrio no ecossistema de informação. Ao comparar o feed cronológico com o algorítmico, os investigadores perceberam que o algoritmo atua como um megafone para narrativas que promovem a polarização afetiva. Ou seja, ele não se limita a mostrar o que o utilizador gosta, mas expõe os utilizadores de direita a conteúdos cada vez mais radicais, enquanto mostra aos utilizadores de esquerda conteúdos que os deixam indignados com a direita, aprofundando o fosso entre os dois grupos. No caso específico da extrema-direita, o estudo sugere que as mudanças nas políticas de moderação da plataforma desde 2022 permitiram que discursos antes considerados marginais ou tóxicos passassem a circular livremente, sendo frequentemente "premiados" pelo algoritmo com alcances multimilionários que as vozes moderadas ou de esquerda raramente conseguem atingir com a mesma eficácia orgânica. Fonte


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis



Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump, responsável por redesenhar a política de imigração do país.

Nas redes sociais, Miller não demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita que Pretti fosse um assassino.

No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.

Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o “czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.

Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey.

“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, co-fundador do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.

Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação de Donald Trump.

“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando, ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.

Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.

Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro “arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.

“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal. Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.

Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.

“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso, sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem, que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a morte” de Pretti.

Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não o vai atirar borda fora precipitadamente.”

“Stephen Miller é demasiado dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer, para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”, corrobora Rick Wilson.

Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão. É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma “organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo “governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Seriously, what is a human being?


Friends,
It seems appropriate right now to try to clarify one of the most basic questions America is (or should be) struggling with: What does it mean to be a human being?
The confusion is mounting.

Three illustrations:

1. Corporations
Corporations are not human beings. That should be self-evident.

But in 2010, the Supreme Court ruled (in its Citizens United case) that corporations are the equivalent of “people” under the First Amendment to the Constitution, with rights to free speech.

This ruling has made it nearly impossible for the government to restrict the flow of money from giant corporations into politics. As a result, the political voices — and First Amendment rights — of most real human beings in America are being effectively drowned out.

But in coming years, states will have an opportunity to circumvent Citizens United by redefining what a “corporation” is in the first place. Absent state charters that empower them to become “corporations,” business organizations are nothing more than collections of contracts — between investors and managers, managers and employees, and consumers and sellers.

In the 1819 Supreme Court case Trustees of Dartmouth College v. Woodward, Chief Justice John Marshall established that:
“A corporation is an artificial being, invisible, intangible [that] possesses only those properties which the charter of its creation confers upon it …. The objects for which a corporation is created are universally such as the government wishes to promote.”

Montana is now readying a proposition for its 2026 ballot that would empower organizations that sought to be corporations there to do many things — except to fund elections. (I’ve written more on this, here.)

2. Artificial Intelligence
AI is not human, although it’s becoming increasingly difficult for many real people to tell the difference between “artificial general intelligence” and a real person.

As a result, some real people have lost touch with reality — becoming emotionally attached to AI chat boxes, or fooled into believing that AI “deepfake” videos are real, or attributing higher credibility to AI than is justified — sometimes with tragic results.

In his typically ass-backward pro-billionaire way, Trump has issued an executive order aimed at stopping states from regulating AI. But some governors — most interestingly, Florida’s Ron DeSantis — have decided to establish guardrails nonetheless.

DeSantis is calling on Florida’s lawmakers to require tech companies to notify consumers when they are interacting with AI, not to use AI for therapy or mental health counseling, and to give parents more controls over how their children use AI. DeSantis also wants to restrict the growth of AI data centers by eliminating state subsidies to tech companies for such centers and preventing such facilities from drying up local water resources.

In a recent speech, DeSantis said:
“We as individual human beings are the ones that were endowed by God with certain inalienable rights. That’s what our country was founded upon — they did not endow machines or these computers for this.”

I never thought I’d be agreeing with Ron DeSantis, but on this one he’s right.

Corporations are legal fictions. Human AI is a technological fiction. Neither has human rights. Both should be regulated for the benefit of human beings.

3. Non-Americans and suspected enemies
The third illustration of our current confusion over what is a human being is endemic in Trump’s policies toward immigrants and many inhabitants of other nations, now especially in and around Venezuela.

Yesterday, a federal agent shot and killed a 37-year-old woman during an immigration raid in Minneapolis. Despite what Trump and Kristi Noem say, a video at the scene makes clear that the shooting was not in self-defense. Minnesota Gov. Tim Walz said: “We have been warning for weeks that the Trump administration’s dangerous, sensationalized operations are a threat to our public safety,” adding that it cost a person her life.

ICE agents are arresting and detaining people on mere suspicion that they are not in the United States legally — sometimes deporting them to foreign nations where they’re brutalized — without any independent findings of fact (a minimum of “due process”).

Meanwhile, Trump and Stephen Miller, his assistant for bigotry and nativism, are busy dehumanizing immigrants. For example, Trump describes Somalian-Americans as “garbage.”

Last weekend, the U.S. killed an estimated 75 people in its attack on Venezuela, as it abducted Venezuelan president Nicolás Maduro and his wife. The U.S. has been bombing and killing sailors on small vessels in the Caribbean and off the coast of Venezuela on the suspicion they’re smuggling drugs into the United States — on the vague pretext that they’re “enemy combatants,” although Congress has not declared war.

Trump’s justification for all such killings has shifted from preventing drug smuggling to “regaining control” over oil reserves that Venezuela nationalized 50 years ago.

In all these cases, the Trump regime is violating fundamental universal human rights considered essential to human dignity.

Corporations and AI are not human beings, but people who come to the United States seeking asylum indubitably are human. So too are undocumented people who arrived in the United States when they were small children and have been here ever since. As are our neighbors and friends who, although undocumented, are valued members of our communities.

As are the Venezuelans who have been murdered by the Trump regime. So, what does it mean to be a human being?

It means the right to be protected from the big-money depredations of giant corporations, and from the emotional lure of AI disguised as a human.

And it means to be treated respectfully — as a member of the human race possessing inherent, inalienable rights.

These are moral imperatives. But America is doing exactly the reverse.

Tempos de escalamento de guerra

Esta pintora Alemã fascina-me bastante.

Esta pintura e uma breve ausência do ruído das redes sociais e de notícias da praxis de políticos medíocres que nos sobressaltam como colectivo, levou-me a esta reflexão.

"Tempos de escalamento de guerra revelam uma tensão central do pensamento político moderno: a contradição entre o progresso técnico e a fragilidade ética. Nunca a humanidade dispôs de tantos instrumentos para cooperar globalmente, e nunca foi tão evidente a facilidade com que o medo, o nacionalismo e a lógica de poder se sobrepõem à razão política. O escalamento não nasce apenas de armas, mas de discursos que normalizam a excepção, a desumanização do outro e a ideia de que a violência é inevitável.

Ainda assim, o pensamento político moderno não se esgota no realismo cínico. Da tradição iluminista aos movimentos democráticos contemporâneos, persiste a noção de que a política pode ser um espaço de contenção da barbárie, e não o seu motor. A esperança, neste contexto, não é ingenuidade: é uma práctica consciente. Ela manifesta-se na defesa do direito internacional, na diplomacia, na sociedade civil activa e na recusa em aceitar a guerra como destino.
Agir em tempo de medo exige, antes de tudo, resistir à sua naturalização política. O medo não é apenas uma emoção individual, mas um dispositivo colectivo que pode ser mobilizado para justificar a suspensão do juízo crítico, a concentração de poder e a erosão do espaço público. Reconhecer esta dimensão é um primeiro gesto de acção: tornar o medo objecto de reflexão, e não princípio de decisão.

Pensar politicamente no contexto contemporâneo implica, em última instância, uma escolha normativa fundamental: ou a reprodução de lógicas securitárias que intensificam o medo, a polarização e o conflito, ou o compromisso crítico com a construção de horizontes políticos partilhados, capazes de sustentar a possibilidade de um futuro comum, mesmo em contextos marcados pela incerteza e pela escalada da violência."

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ja,Panik - Apocalypse Or Revolution


wenn die sprache von dir lässt
und die nacht bis in den tag reicht
wenn die dinge dich erschrecken
und das dunkel um dich schleicht
wenn die türen sich verschließen
und die worte sich zurückziehen
wenn der schlaf nicht kommen will
aber die tage vor dir fliehen

wenn du keine zuhause hast 
doch vor die tür gehen tust du nicht
wenn du wartest auf die nacht
aber das licht niemals erlischt
wenn du dich fühlst 
wie ein tschick
der sich von selber raucht
wie ein ich das plötzlich wir schreit
und ein wir das jetzt ein ich braucht

it is the past that will return
from the future this time
hier ist so lang nichts passiert
hier kann nur eines passiert sein
es hat sich so lang versteckt
jetzt ist es da und stellt fragen 
du wirst die antwort verfluchen
apocalypse or revolution

wenn du merkst was du anfasst
es verdoppelt sich im nichts
wenn um dich alles kopie nur
und du selber bist kopist
wenn du spürst die zeit vergeht
aber noch entflieht sie nicht
wenn du wartest auf die nacht
aber das licht niemals erlischt
wenn du wartest auf die nacht
aber das licht niemals erlischt
wenn du wartest auf die nacht
aber das licht niemals erlischt

it is the past that will return
from the future this time
hier ist so lang nichts passiert
hier kann nur eines passiert sein
es hat sich ewig versteckt
jetzt ist es da und stellt fragen
du wirst die antwort verfluchen
apocalypse or revolution

dystopian dreams
ein monster heilig und scheu
so alt ist die zeit
nur der morgen der ist neu
du wachst auf
du gehst raus
wer hat gerufen
apocalypse or revolution?

du sagst 
no program that vanishes
before the system crashes
and you insist
das ist doch ein hirngespinst
naja
es braucht dich auch nicht
nur du 
du kannst nicht ohne
apocalisse o rivoluzione

a future rerouted
die verdopplung der welt
ein untoter lover
der dich im arm hält
du willst dich losreißen
doch du weißt es geht nicht ohne:
apocalisse o rivoluzione
apocalisse o rivoluzione

A canção “Apocalypse or Revolution” dos Ja, Panik foi lançada como single no dia 1 de janeiro de 2021, marcando o regresso da banda após vários anos sem novas músicas. 

Essa faixa também faz parte do álbum Die Gruppe, o sexto álbum de estúdio da banda, que foi lançado mais tarde em 30 de abril de 2021

A canção “Apocalypse or Revolution”  expressa uma sensação profunda de impasse histórico e existencial, típica do pensamento crítico pós-punk. A letra coloca o ouvinte perante uma escolha simbólica entre dois destinos extremos: o apocalipse, entendido como colapso social, político e humano resultante da passividade, da alienação e da repetição de sistemas falidos; e a revolução, não romantizada, mas apresentada como a única possibilidade de rutura consciente com essa inércia. A música transmite desilusão com a política institucional, com ideologias esvaziadas de sentido e com uma sociedade que parece incapaz de imaginar alternativas reais ao presente. O tom frio, quase mecânico, reforça a ideia de estagnação e urgência, como se o tempo estivesse a esgotar-se. Mais do que oferecer respostas, a canção funciona como provocação intelectual: questiona se a humanidade continuará a assistir passivamente à sua própria decadência ou se ainda existe energia coletiva para uma transformação radical, mesmo que incerta.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Jan-Werner Müller on Democracy, Populism, and the Perils of Copying the Far Right


Author of What Is Populism? — often described as a “bible” for students and scholars of political science — and of several acclaimed monographs on democracy, populism, and the relationship between leadership and the electorate, the German political philosopher Jan-Werner Müller is among the world’s most incisive and measured voices in the field of democratic theory and the study of populism.

In our conversation — conducted in the aftermath of the assassination of ultra-conservative activist Charlie Kirk — Müller stresses that political polarization in the United States, despite the peculiarities surrounding Donald Trump, is hardly a new phenomenon. At the same time, he dismisses the notion of an inevitable “populist wave,” insisting instead that today’s challenges can and must be met through coherent, programmatic politics.

For Müller, the imitation of far-right rhetoric and priorities represents a mortal danger for Europe’s institutional center-right. The growing strength of extremist forces, he argues, should not be treated as an unavoidable historical trend driven by external factors, but as the outcome of each country’s own political traditions — and of how effectively democratic actors manage to articulate a credible alternative.

Tovima: The assassination of Charlie Kirk comes with the fear that Trump and the Alt-Right will weaponize the incident to impose their agenda against the liberals and Left generally. You claim that populism is about excluding others. Do you fear that today, a line can be crossed in USA, when it comes to political tolerance?
 
JWM:It has been crossed in rhetoric for a long time to already.  In the 1990s, Newt Gingrich, then the speaker of the House and de facto the leader of the Republican Party, demonized his political adversaries as “traitors.”  What we see today was not inevitable, but we also should not pretend that, before Trump, everything had been normal. What is new today is the use of state power to intimidate and even outright suppress free speech at private institutions.
We see a prevalence of right-wing populism, following by the retreat of its left version. Is that related with the Trump phenomenon and what role the establishment conservative elites have played?
It is one of the few robust results of political science that, when center-right elites imitate the far right, the far right wins.  Their rhetoric is legitimated and citizens very often end up choosing the original, rather than the pale copy (plus many of these far right parties have never been in power, so appear as the best vehicle for expressing protest).  Yet the center-right keeps making the same mistake again and again – most recently Friedrich Merz in the run-up to the federal elections in Germany.
 
Tovima: We recently saw a big anti-migration rally in London rally in London. In Japan a far-right party made big election gains. Meloni is in power in Italy and on France National Rally is the biggest party by popular vote in France. The rise of popularity of alt-Right parties how can be stopped politically?

JWM: Everything you mention amounts to a serious challenge, but we should also not assume that somehow there is an inevitable “populist wave.”  Meloni won, but what happened to Salvini?  On the whole, the right-wing bloc in Italy is actually weaker than before.  But that’s just a pedantic point on the side.  The main point is that politicians opposing the far right have to talk with them, but not like them, that is to say: take on policy challenges, of course, but not uncritically adopt the framings of the far right.
 
Tovima: What are the deeper causes for the popularity of those parties? Some analysts tend to emphasize to the abandonment of the working class and their concerns from the Left, others tend to emphasize to the division the identity politics intensify. What’s your opinion on the issue? 

JWM: Very complex question.  Different national contexts matter; there is not one global cause necessarily.  I agree that many working-class voters have abandoned social democratic parties, but, contrary to what you hear very often, it is not the case that a large number of workers has moved over to the far right; rather, they stopped voting altogether.  But it’s not just structural: the far right has become very skillful at waging culture war, all the while making many citizens believe that it is the left who is sowing divisions.  Again: there are structural factors – such as globalization, obviously – but the tactical and strategic choices of elites also matter a great deal.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Investigação: são falsas 58% das contas no X que promovem o Chega



A CNN Portugal divulga esta sexta-feira uma investigação à manipulação da extrema-direita nas redes sociais, em concreto na rede social X, o antigo Twitter, onde o Chega conta com um exército de perfis falsos para amplificar a sua narrativa xenófoba e fazer elogios às suas propostas.

O autor do estudo é a empresa israelita Cyabra, que elaborou trabalhos semelhantes na recente campanha nas Filipinas e na análise ao cancelamento das presidenciais romenas após se descobrir uma rede de manipulação a favorecer o candidato da extrema-direita no algoritmo do TikTok.

Segundo o estudo, um total de 58% dos perfis que comentaram na conta oficial do Chega no X foram identificados como perfis falsos. Mas a utilização de contas falsas não se restringe ao apoio ao Chega, sendo igualmente usadas para atacar os adversários políticos.

O estudo analisou os comentários feitos nos perfis do PS e PSD e dos respectivos líderes, concluindo que quase metade (49%) dos perfis eram falsos e comentavam para desacreditar os candidatos, “usando linguagem emocional para questionar a sua liderança e credibilidade”. Muitos destes perfis falsos que atacavam Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos surgiam a promover Ventura e o Chega, às vezes nas mesmas discussões.

“Embora a desinformação esteja presente em todo o espectro político, o ecossistema do Chega mostrou a maior concentração de perfis falsos, particularmente em torno de André Ventura. No entanto, um volume substancial de atividade inautêntica também foi observado nas contas oficiais dos partidos Socialista e Social-Democrata, sugerindo que nenhum partido está isento de ser alvo ou beneficiário da desinformação”, conclui o estudo que analisou as contas dos três partidos.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Historian Timothy Snyder on the future of American Democracy & the Rule of Law


O historiador Timothy Snyder e autor dos livros "Sobre a Tirania" e "Sobre a Liberdade" é um dos principais especialistas em fascismo e na ameaça que os autoritários representam para o futuro da democracia americana e do Estado de Direito. Neste vídeo, discute o futuro da democracia americana e a ascensão alarmante do autoritarismo.

O que precede a política, fundamenta a nossa constituição e nos dá a hipótese de sermos prósperos e livres? O Estado de Direito. Podemos compreender melhor as ameaças contemporâneas a esta liberdade e prosperidade ao recordarmos os fundamentos morais e intelectuais da nossa ordem política.

Timothy Snyder é historiador na Universidade de Yale, especializado em Europa de Leste, totalitarismo e Holocausto. Os seus livros receberam ampla aclamação. O seu mais recente livro, "The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America" ​​​​(O Caminho para a Não-Liberdade: Rússia, Europa, América), conta toda a história da Rússia, do início ao fim, de uma forma coerente e que revela o panorama geral. É também autor de "On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century" (Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX), que explora as formas quotidianas como um cidadão pode resistir ao autoritarismo atual. As suas outras obras incluem "Black Earth: The Holocaust as History and Warning" (Terra Negra: O Holocausto como História e Advertência) e "Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin" (Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Estaline)

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O Programa do Chega para as Legislativas de 2019 e que foi removido do seu site


Em Novembro de 2019 fui ler o programa do Chega, o vídeo onde analisei o mesmo alcançou rapidamente em várias plataformas 1 milhão de visualizações e o programa do Chega foi retirado da página do Partido. Mas guardei-o, aqui está em pdf, fim do SNS, da escola pública, das carreiras (incluindo na polícia), e até vejam a venda de escolas aos professores. Aqui em link o programa (retirado pelo partido online em 2019) e o vídeo onde o analiso.

Raquel Varela, 6 de Dezembro de 2019
Quando tornei público no Último Apaga a Luz o programa do Chega este foi partilhado e visto por mais de 400 mil pessoas, previ de imediato que o iam tirar do site, o que aconteceu já esta semana. Fiz download antes, aqui em link têm as barbaridades onde se propõe acabar com o Estado Social, acabar com as escolas e os hospitais onde estão os filhos dos polícias e GNRs, acabar com as carreiras e os salários. Mas Ventura surpreendeu-me. É que eu já tinha visto políticos dar o dito pelo não dito, mas destas forma é inédito, trata-se do grau zero da ética e da moralidade política. Ventura fez algo inédito na história da vida portuguesa, com uma linguagem que jamais tinha sido usada pelo pior dos políticos – o Chega anunciou esta semana “uma clarificação em sentido inverso”, ou seja, ser eleito com um programa e mudá-lo totalmente um mês depois. Um pequeno Estaline que em vez de fotografias apaga as ideias com que foi eleito, ideias que fazem de Passos Coelho e do PSD, que o pariu, um menino doce. Os portugueses têm suportado políticos ignóbeis em anos de Governação, o PS governa o declínio, sem oposição infelizmente. Mas nunca vimos nada tão baixo como este troca tintas do Ventura, este senhor que hoje vive de ser deputado, do orçamento público, e ao sabor do vento muda o programa no sentido “totalmente inverso”. É bom que quem votou nele e o aplaudiu na manifestação corrija rapidamente o erro (podemos errar, mas não persistir nos erros), e deixe de pensar como se tivesse 5 anos – “dizer umas verdades” não faz de ninguém uma pessoa séria.
Em Link o Programa do Chega – uma demonstração nunca vista do mais baixo que uma sociedade pode descer.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Saudades do Pedro Baptista

«O Oriente!
Haverá nome que melhor tenha soado aos ouvidos dos portugueses?
Não há, e com razão». Jaime do Inso (1932)

Hoje deu-me saudades do grande amigo meu, Pedro Baptista. Conhecemo-nos como colegas na Escola Secundária Garcia de Orta, no Porto. A empatia foi natural. Professor e doutorado em filosofia, cedo me contou a sua juventude. Antigo militante da extrema-esquerda, foi dirigente estudantil no Porto entre 1968 e 1971, cofundador do jornal “Grito do Povo” de oposição ao Estado Novo, preso político em 1973 e deportado para Angola, regressando a 1 de maio de 1974.
o Pedro fundou o único partido político que a cidade do Porto viu nascer até hoje. Chamou-o O Grito do Povo, marca que gravava em título de jornal a indignação de milhões de portugueses, esgotados de um regime ditatorial que esmagou o país.
Além de autor de obras como "Pessoas, Animais e Outros que Tais", "O Cavaleiro Azul" e "Ao Encontro do Halley", foi sempre politicamente ativo. Foi deputado à Assembleia da República, eleito pelo Porto, entre 1995 e 1999, pelo PS. Foi candidato do Partido Democrático do Atlântico (PDA), em 2011, pelo círculo do Porto. Ultimamente era deputado da Assembleia Municipal, eleito pelo movimento independente do presidente Rui Moreira.
Estudou profundamente um filósofo português antifascista e que se exilou no Brasil: Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos (1889-1950), apresentado à Europa pelo filósofo e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Foi o fundador da ritmanálise. O ritmo é a própria energia de existência em todas as escalas e assim o princípio unificador da física, da biologia e da psicologia. Tanto o universo como a própria vida assentam em sistemas rítmicos interactivos, desde as frequências regulares da radiação, passando pelo pulsar vital, até às oscilações do psiquismo humano, que esta nova forma de actividade criadora procura compreender e orientar. Entre 1923-26 Luís Pinheiro foi o Chefe dos Serviços de Educação da Índia Portuguesa. 
Amava a China. Muito falava da sua paixão por este País. Longas conversas tivemos sobre o orientalismo Português: Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Camilo Pessanha, Marina Ondina Braga, os Jesuítas e o Japão. Creio que viveu um ou dois anos em Macau. Felizmente em vida concretizou o seu sonho de visitar a China. Fiquei muito feliz, por ele. Era um prazer estar com ele. Muito reservado em sua vida privada, não sei se deixou filhos.
Admirava-o muito também em como ele era um defensor acérrimo do património urbanístico e paisagístico onde (quase) sempre viveu, Nevogilde. Caramba, fazes falta!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Livro da Semana: "Fátima - Milagre ou Construção?", de Patrícia Carvalho

Numa altura em que soubemos que o altar-palco onde o Papa Francisco vai celebrar missa final da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) vai custar 4,2 milhões de euros, sabendo que há muitos agnósticos no País e isto é um luxo, num País que contabiliza mais de 2 milhões de pobres e 600.000 em pobreza severa, é indigno. A cegueira fanática católica é conhecida. Só o canal youtube da JMJ já contabiliza 17, 3 mil subscritores.  A organização apela ao voluntariado. Que lata.
Falam em requalificação urbana de Loures. Para a construtora civil raínha de Portugal, Mota-Engil, um pódio para lavagem verde.
Empreitada de construção do Altar-Palco no Parque Tejo-Trancão, no âmbito do evento Jornada Mundial da Juventude 2023 [contracto]
Em reunião privada do executivo camarário, a proposta de contratação de um empréstimo para financiamento de obras relacionadas com a preparação da JMJ foi viabilizada entre os 17 eleitos, com um voto contra do BE, nove abstenções — quatro do PS, duas do PCP, duas do Cidadãos por Lisboa (eleitos pela coligação PS/Livre) e uma do Livre — e sete votos a favor da coligação “Novos Tempos” (PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança).

Uma Igreja Católica com um património imobiliário enorme e um "Santuário" que recebe milhões de euros por ano. Um livro a rever.



Entrevista no Programa Praça da Alegria

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Poesia da Semana: "Estão podres, as palavras" de Jorge de Sena

Yves Tanguy - The Hand in the Clouds. La Main dans les nuages, 1927

Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.

E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.

Usá-las puras - como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?

Estão podres: e com elas apodrece a mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.

Poema incluído na antologia Poesia-III, Moraes Editores, Lisboa. O poema "Estão podres as palavras" foi publicado pela primeira vez no livro "Conheço o sal... e outros poemas" em 1974.
Jorge de Sena, (1919-1978) ficcionista, poeta, dramaturgo, crítico e ensaísta português, nasceu em Lisboa e faleceu em Santa Barbara, Califórnia, nos EUA.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Ciberrisco no topo das preocupações de empresas... além da volatilidade económica e energética

Exposição a eventuais ataques cibernéticos continua a ser a principal insegurança apontada pelas empresas portuguesas, que agora juntam os receios sobre o arrefecimento económico e o risco energético resultante da guerra na Ucrânia às grandes incógnitas que ameaçam 2023, revela o Barómetro Allianz para 2023.


A crise de energia é um fator de aumento de risco expresso no Allianz Risk Barometer para 2023, aparecendo pela primeira vez em 3.º lugar, mas as causas de maior apreensão dos empresários e gestores portugueses encontram-se mesmo nas fragilidades provocadas pela digitalização e no crescimento. Pelo segundo ano consecutivo, mais de um terço das respostas de empresas nacionais ao Allianz Risk Barometer apontam os riscos cibernéticos e a interrupção de negócios como maior preocupação (34%), mas é no comportamento económico que há mais apreensão recente.

Os problemas macroeconómicos que podem surgir neste ano - entre inflação, volatilidade do mercado financeiro e uma recessão iminente - estão agora no top 3 dos maiores riscos identificados (subiram da 10.ª para a 3.ª posição) no barómetro. E são consistentes, independentemente da dimensão da empresa em causa.

Com estes temas a necessitar de um olhar imediato, outros perderam, neste ano, relevância na lista de preocupações das companhias, incluindo as catástrofes naturais (de 3ª posição para 6ª posição), as alterações climáticas (de 6ª para 7ª posição) e, naturalmente, o surto de pandemia (do 4º lugar para 13ª), dado que as vacinas puseram fim aos bloqueios e restrições dos últimos anos.

Outra entrada assinalável no top 10 são os riscos políticos e a violência, que são agora apontados no ranking global, mas também a escassez de força de trabalho qualificada, que sobe para a oitava posição de fatores de instabilidade apontados. As mudanças na legislação e regulamentação mantêm-se como um risco importante, em 5º lugar.



"Pelo segundo ano consecutivo, o Allianz Risk Barometer mostra que as empresas estão mais preocupadas com o aumento dos riscos cibernéticos e a interrupção dos negócios, mas ao mesmo tempo veem a inflação, uma recessão iminente e a crise energética como ameaças imediatas aos seus negócios", comenta o CEO da Allianz Global Corporate & Specialty (AGCS), falando numa apreensão generalizada na Europa e EUA com a atual "permacrise", resultado das consequências da pandemia e do impacto económico e político da guerra na Ucrânia. "É um teste de stress para a resiliência de todas as empresas", diz o responsável, que apesar de tudo identifica fatores positivos garantidos pela atividade seguradora, "particularmente em relação a tornar as cadeias de fornecimento mais à prova de falhas, melhorando o planeamento contínuo dos negócios e fortalecendo os controlos cibernéticos".

"Agir para aumentar a resiliência e reduzir o risco é neste momento uma prioridade para as empresas, dados os eventos dos últimos anos" é por isso uma prioridade para a Allianz, que publica este relatório pela 12.ª vez, contando para a sua elaboração com um grupo de mais de 2700 especialistas em gestão de risco de 94 países.

Perigos da disrupção digital

Incidentes e ataques cibernéticos, ransomware ou violações de dados são uma vez mais classificados como o risco mais importante a nível global, uma repetição inédita e que revela também uma consistência notável, com 19 países diferentes, entre eles Portugal, Canadá, França, Japão, Índia e Reino Unido, a apontar este como o maior perigo identificado (e o que mais preocupa as pequenas empresas.

De acordo com a seguradora, o custo médio de uma violação de dados está num recorde histórico de 4,35 milhões de dólares e deve ultrapassar 5 milhões em 2023, com a escassez de recursos humanos especializados neste tipo de segurança a dificultar a capacidade de proteção.

"Para muitas, a ameaça no espaço cibernético é maior do que nunca e os sinistros de seguro cibernético permanecem num nível alto", explica Shanil Williams, membro do conselho da AGCS e diretor de subscrição corporativa. O responsável pela subscrição cibernética lembra que as grandes empresas habituaram-se a ser alvo de ataque e aquelas que têm segurança cibernética adequada são capazes de combater a maioria desses ataques com mais eficácia, mas "cada vez mais pequenas e médias empresas estão também a ser impactadas e estas tendem a subestimar a sua exposição - quando precisam de investir continuamente no fortalecimento da sua estrutura de controlo cibernético".

Este fator é o principal na lista de razões que as empresas temem que influenciem ou mesmo interrompam a sua capacidade de fazer negócios (ciberrisco: 45%), e que inclui ainda a crise energética (35%) e catástrofes naturais (31%). "Uma possível recessão global é outra fonte provável de disrupção em 2023, com potencial para falha e insolvência de fornecedores, o que é uma preocupação particular para empresas com fornecedores críticos únicos ou limitados." De acordo com a Allianz Trade, as insolvências empresariais globais provavelmente aumentarão quase 20% em 2023.

Economia a perder gás

Os desenvolvimentos macroeconómicos deste ano, com a inflação e a volatilidade do mercado económico e financeiro à cabeça, ocupam então o terceiro lugar no top de riscos para empresas de todo o mundo em 2023 (25%), subindo do 10º lugar que ocupavam há um ano e chegando ao "pódio da desgraça" pela primeira vez numa década. Com as três grandes potências económicas - Estados Unidos (EUA), China e Europa - em crise ao mesmo tempo, a Allianz Research prevê recessão na Europa e nos EUA em 2023 e aponta grande preocupação com a inflação, que está a afetar a estrutura de preços e as margens de lucro de muitas empresas. "Tal como a economia real, os mercados financeiros estão a enfrentar um ano difícil, pois os bancos centrais estão a drenar o excesso de liquidez em todo o sistema e os volumes de negociação, mesmo em mercados historicamente líquidos, estão a diminuir", adiantam os especialistas.

"2023 será um ano desafiante; em termos puramente económicos, é provável que seja um ano inesquecível para muitos lares e empresas. No entanto, não há motivo para desespero", conclui Ludovic Subran, economista-chefe da Allianz. "Por um lado, a reviravolta nas taxas de juros está a ajudar, principalmente para milhões de poupadores. As perspetivas de médio prazo também são muito mais otimistas, apesar - ou melhor, por causa - da crise energética. As consequências, para além da esperada recessão em 2023, já estão a tornar-se claras: uma transformação forçada da economia no sentido da descarbonização, bem como uma maior consciencialização do risco em todas as camadas da sociedade, reforçando a resiliência social e económica."

José Saramago - sobre História


"A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos."
José Saramago - in Diário de Notícias (2009)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Oxfam desafia líderes mundiais a tributar os “super-ricos” para reduzir desigualdades até 2030


As empresas alimentares que obtêm grandes lucros com o aumento da inflação devem pagar mais impostos para ajudar a reduzir a desigualdade global, disse o grupo de combate à pobreza Oxfam na segunda-feira, quando a reunião anual do Fórum Económico Mundial (WEF) começa na estação de esqui suíça de Davos.

Essa é uma das ideias de um relatório, Survival of the Richest  da Oxfam International, que há uma década procura destacar a desigualdade no WEF. O relatório, que visa provocar discussões em painéis com líderes corporativos e governamentais esta semana, disse que o mundo tem sido assolado por crises simultâneas, incluindo a mudança climática, o aumento do custo de vida, a guerra da Rússia na Ucrânia e a pandemia de Covid-19, mas os mais ricos do mundo ficaram mais ricos e os lucros corporativos estão aumentando. 

Nos últimos dois anos, os 1% super-ricos do mundo ganharam quase duas vezes mais riqueza do que os 99% restantes juntos, disse a Oxfam na segunda-feira. Enquanto isso, pelo menos 1,7 bilião de trabalhadores vivem em países onde a inflação supera o aumento dos salários. Para combater esses problemas, a Oxfam pediu um aumento dos impostos para os ricos através de uma combinação de medidas que incluem impostos únicos "solidários" e o aumento das alíquotas mínimas para os mais ricos. O grupo observou que a alícota real de imposto do bilionário e CEO da Tesla, Elon Musk, de 2014 a 2018 foi um pouco mais de 3%.