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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Aves associadas aos meios agrícolas em declínio há duas décadas

Tão fofos, o chapim-carvoeiro!
O chapim-carvoeiro (Periparus ater) é absolutamente adorável com aquela "cabeça grande", as bochechas brancas e a mancha branca bem destacada na nuca!
Eles são super pequeninos, cheios de energia e encantadores de observar. Sabiam que são dos poucos chapins que adoram florestas de coníferas (como pinhais) e têm o hábito extraordinário de esconder sementes nas cascas das árvores para comer mais tarde no inverno? Além desta incrível capacidade de armazenar alimento nas ranhuras da casca para os dias mais frios, estas aves são famosas em Portugal por serem grandes aliadas no controlo biológico de pragas como a lagarta-do-pinheiro nos nossos pinhais.
Preservemos o nosso campo e floresta. Hoje foi publicado o relatório do censos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. E as notícias não são optimistas.

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

As aves nos meios florestais e urbanos têm uma evolução positiva, mas as associadas aos meios agrícolas estão em declínio desde 2004, indica um relatório divulgado hoje pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

O relatório do censo das aves (SPEA/BirdLife) combinou as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat e deixou “um alerta claro”, o do que “a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, diz no comunicado Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e técnico superior de ciência da SPEA.

“A evolução positiva dos indicadores florestal e urbano é um bom sinal, mas não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas e os declínios de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco”, acrescentou.

Nos meios agrícolas, 10 das 23 espécies avaliadas regularmente apresentam um declínio moderado no período (2004-2025), entre elas a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, a par de espécies como o peneireiro, o cartaxo e o pardal.

Nos meios florestais, cinco das 20 espécies analisadas estão em declínio moderado: o picanço-barreteiro, o cuco, a rola-brava, a cotovia-dos-bosques e o chapim-real.

Segundo o censo, a laverca e a águia-caçadeira apresentam declínios acentuados, e a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços mostram tendências negativas.

Outras espécies como a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta apresentam declínios moderados.

Os resultados mostram, segundo a SPEA/BirdLife, que o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e a diferentes grupos funcionais (insetívoras, granívoras, carnívoras), mas que é nos meios agrícolas que o declínio é mais expressivo, afetando tanto espécies residentes como migradoras.

Os autores do trabalho salientam que houve recentemente maior participação nos censos, o que reforça o conhecimento sobre as aves

Nos Açores o censo abrangeu as nove ilhas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, com destaque para o aumento acentuado da rola-turca e para as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.

Para a Madeira, não se estimaram tendências. As espécies mais abundantes dos últimos censos são o canário-da-terra, o melro-preto e a toutinegra.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

A natureza cura-se quando deixamos de a envenenar


Notícias fantásticas! Desde 2018, após a proibição na França dos pesticidas neonicotinoides - aqueles infames produtos químicos que matam abelhas —, as populações de aves insetívoras, como chapins, pisco-de-peito-ruivo e melros, aumentaram de 2% a 3% em todo o país. Isso é o que mostra um novo estudo publicado em 15 de novembro de 2025 na revista Environmental Pollution.


Mas essa notícia merece uma pequena explicação. Primeiro, deixe-me lembrar que 19% - quase um quinto - das aves da Europa desapareceram em 40 anos. E isso acompanha logicamente o declínio dos insetos visados pelos pesticidas.

Mas, novamente, precisamos evitar a supersimplificação do problema. Nem todas as populações de aves são afetadas da mesma forma. Enquanto o número total de aves caiu 19%, as aves de áreas agrícolas diminuíram impressionantes 60%. A principal causa desse declínio é a agricultura intensiva. E você não precisa de mim para te dizer isso. É a agricultura que usa cada vez mais herbicidas, fungicidas e pesticidas, levando à destruição massiva de insetos, plantas e fungos.

Além disso, a expansão das lavouras e a destruição de áreas húmidas também tornam mais difícil para as aves fazerem ninhos e encontrarem alimento suficiente. As alterações climáticas também são um fator importante. A BirdLife afirma que uma em cada oito espécies de aves no mundo está atualmente ameaçada de extinção. Uma em cada oito!

Tudo isso para dizer que a melhora de 2% a 3% observada neste novo estudo que mencionei no início pode parecer minúscula, mas ainda assim demonstra o impacto imediato e mensurável de mesmo um pequeno esforço para causar um pouco menos de dano ao mundo vivo ao nosso redor.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Caçadores - Predadores ou eco-delinquentes

Caçador exibindo sem remorso o abate de coelhos bravos e de codorniz (Crex crex

Muitos caçadores têm comportamentos desviantes, exibindo friamente os troféus da caça. 
Quando a caça prejudica a natureza
1. Redução de populações e perda de espécies
Quando a caça é intensa ou mal regulada, pode levar a quedas drásticas nas populações animais. Em Portugal, o coelho-bravo é um exemplo clássico. Esta espécie, fundamental para o ecossistema mediterrânico, sofreu fortes declínios devido à caça excessiva e a doenças como a mixomatose. A redução dos coelhos afetou predadores como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, mostrando que um desequilíbrio numa espécie pode ter efeitos em toda a cadeia alimentar.

2. Desequilíbrios nos ecossistemas
A caça excessiva de certas espécies altera a dinâmica natural. Por exemplo, a escassez de predadores deixou alguns herbívoros, como javalis e veados, aumentarem muito em número. Este crescimento pode causar danos às florestas, prejudicar a regeneração das árvores e até provocar acidentes rodoviários.
Em resumo: menos predadores → mais herbívoros → vegetação prejudicada → impacto no ecossistema.

3. Seleção artificial
Quando caçam sempre os maiores ou com melhores troféus, estamos a “selecionar” a população de forma artificial. Em veados e corços, por exemplo, isso pode reduzir o tamanho das hastes ao longo do tempo, alterando a diversidade genética e as características naturais da espécie.

Dois caçadores furtivos exibindo como troféus o abate de codornizão (Crex egregia) 

Dois parentes discretos dos campos: o cordonizão africano e o codornizão-europeu
Quando pensamos em aves agrícolas, raramente imaginamos espécies quase invisíveis, que vivem escondidas na vegetação e anunciam a sua presença mais pelo som do que pela visão. É o caso do codornizão (Crex egregia) e da codorniz (Crex crex), duas aves aparentadas que desempenham papéis ecológicos importantes em continentes diferentes.

Apesar de pertencerem ao mesmo género, estas espécies revelam como a biodiversidade responde de forma distinta aos usos da terra em África e na Europa.

Vidas paralelas em paisagens herbáceas
O cordonizão, típico da África subsaariana, habita pradarias húmidas, savanas e campos agrícolas tradicionais. A sua presença está intimamente ligada a áreas com vegetação herbácea densa, especialmente durante a estação das chuvas, quando encontra alimento e locais de nidificação.

Já o codornizão-europeu é um visitante de verão na Europa. Reproduz-se em prados de feno, pastagens extensivas e searas tradicionais, migrando para África no inverno. Extremamente discreto, é mais facilmente detetado pelo seu canto noturno repetitivo — o famoso “crex-crex” — do que pela observação direta.

Pequenos insetívoros, grandes reguladores
Ambas as espécies alimentam-se sobretudo de insetos e outros invertebrados, prestando um serviço ecossistémico essencial: o controlo biológico natural. Ao reduzirem populações de insetos herbívoros, contribuem para o equilíbrio dos agroecossistemas e diminuem a dependência de pesticidas.

Além disso, fazem parte das cadeias tróficas, servindo de alimento a aves de rapina e pequenos carnívoros, ajudando a manter a estabilidade ecológica das paisagens agrícolas e naturais.

Indicadores silenciosos da qualidade da paisagem
Tanto o cordonizão como o codornizão-europeu funcionam como espécies indicadoras. A sua presença sugere:
  1. Baixa intensificação agrícola
  2. Estrutura vegetal diversificada
  3. Práticas tradicionais compatíveis com a biodiversidade
No entanto, é na Europa que este papel ganha maior visibilidade. O codornizão-europeu tornou-se um verdadeiro símbolo da conservação dos prados agrícolas, sendo frequentemente usado como espécie-bandeira em programas agroambientais e na Rede Natura 2000.

Destinos diferentes, desafios comuns
Apesar de ambos estarem atualmente classificados como Pouco Preocupantes à escala global, enfrentam ameaças semelhantes:
  1. Intensificação agrícola
  2. Uso de pesticidas
  3. Perda de habitats herbáceos
No caso europeu, a ceifa mecanizada precoce representa uma das principais causas de mortalidade do codornizão, afetando diretamente o sucesso reprodutor. Em África, a conversão de pradarias naturais em agricultura intensiva pode comprometer as populações de cordonizão.

Conservar aves é conservar paisagens
A comparação entre Crex egregia e Crex crex mostra que proteger estas aves não é apenas uma questão de espécies, mas de modelos de uso do território. Onde subsistem práticas agrícolas extensivas e mosaicos de habitats, estas aves continuam a cumprir os seus serviços ecossistémicos de forma silenciosa, mas essencial.

Conservar o cordonizão e o codornizão-europeu é, em última análise, conservar paisagens vivas, produtivas e biodiversas — em África e na Europa.

Predadores ou eco-delinquentes
  1. Exploração deliberada da fauna sem consideração ecológica
  2. Indivíduos que causam dano ambiental intencional e recorrente
  3. O indivíduo justifica o acto ilegal (“é tradição”, “o Estado não protege”, “os animais são meus recursos”)
  4. Reduz a percepção de culpa
Referências bibliográficas 
  1. Benton, T. G., Vickery, J. A. & Wilson, J. D. (2003). Farmland biodiversity: is habitat heterogeneity the key? Trends in Ecology & Evolution, 18, 182–188.
  2. BirdLife International (2024). Species factsheet: Crex egregia.
  3. BirdLife International (2024b). Species factsheet: Crex crex.
  4. del Hoyo, J. et al. (2014). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions.
  5. Donald, P. F. et al. (2001).  Agricultural intensification and farmland bird declines. Proceedings of the Royal Society B, 268, 25–29.
  6. Begon, M., Townsend, C. R., & Harper, J. L. (2006). Ecology: From individuals to ecosystems. Blackwell Publishing.
  7. Cabral, M. J. et al. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza.
  8. Green, R. E. et al. (1997). A simulation model of the effect of mowing of agricultural grassland on the breeding success of the corncrake (Crex crex).Journal of Zoology 243.1 (1997): 81-115
  9. ICNF (vários anos). Relatórios de gestão cinegética e conservação da fauna.
  10. Krebs, C. J. (2009). Ecology: The experimental analysis of distribution and abundance. Pearson.
  11. Primack, R. B. (2014). Essentials of Conservation Biology. Sinauer Associates.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Sabe quantas aves são mortas pela pesca na Europa? O número vai chocá-lo


Cerca de 200 mil aves marinhas morrem todos os anos por captura acidental na pesca em águas europeias, incluindo seis espécies em risco de extinção na região, indica um estudo hoje divulgado.

Da responsabilidade da organização internacional de defesa das aves “BirdLife International” com a colaboração da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o estudo alerta que os números podem ser só “a ponta do iceberg”, porque muitos países costeiros não têm estimativas e quando existem raramente incluem toda a frota pesqueira do país.

Das 200.000 aves marinhas, 150.000 são mortas em águas da União Europeia, nota-se no documento.

“Este estudo vem reforçar, não só a importância, mas também a urgência de criar o Plano Nacional de Ação para a minimização das capturas acidentais na pesca”, diz Ana Almeida, técnica de conservação marinha na SPEA, citada num comunicado da associação portuguesa.

E acrescenta: “Estamos a colaborar com as entidades governamentais responsáveis no desenvolvimento deste plano que deve estar pronto até ao final do ano. A monitorização deste problema tem sido muito importante, mas é insuficiente. Encontrar e aplicar soluções que mitiguem este problema é determinante para garantir que a atividade de pesca seja sustentável e que os recursos marinhos se mantenham disponíveis para as gerações futuras.”

Também num comunicado sobre o estudo, a “BirdLife International” alerta que as aves marinhas são dos grupos de aves mais ameaçados na Europa, com mais de um terço das espécies a sofrerem declínios populacionais.

Entre as ameaças às colónias de reprodução em terra, a organização fala das espécies invasoras e perturbações no ‘habitat’, e dá como exemplos de outras ameaças, no mar, a sobrepesca e as infraestruturas de energia renovável (como as eólicas).

As alterações climáticas, acrescenta, estão a “aumentar a pressão ao longo do ciclo de vida” das aves.

A organização nota que as ameaças são fáceis de gerir e que em muitos casos “alterações relativamente simples nas práticas de pesca ou modificações nas artes de pesca podem reduzir significativamente o número de aves” que morrem.

“Esperamos que esta análise possa ajudar os investigadores, os gestores das pescas, os governos e muitas outras partes interessadas no setor marinho a compreender a escala das capturas acidentais de aves marinhas na Europa. Os números são alarmantes e confirmam que as capturas acidentais são uma das principais ameaças para as aves marinhas migratórias que se reproduzem ou visitam as águas europeias”, diz a “BirdLife International”.

Segundo a organização, os números mais alarmantes de capturas acidentais são registados nas redes de emalhar no mar Báltico e no Atlântico Nordeste e nos palangres (arte de pesca à linha) no Atlântico Nordeste e no Mediterrâneo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Ações humanas estão a eliminar “ramos inteiros da árvore da vida”

Um par de lobos-da-tasmânia no Zoológico de Hobart antes de 1921

A extinção em massa provocada pelo ser humano está a eliminar espécies, mas também “ramos inteiros da árvore da vida”, alertam os autores de um estudo da Universidade norte-americana de Stanford.

Uma análise feita em conjunto com a Universidade Nacional Autónoma do México, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que os humanos estão a fazer desaparecer espécies, mas também géneros, a categoria superior em que os taxonomistas classificam os seres vivos.

Os cientistas dão como exemplo três vítimas recentes do que muitos consideram ser a sexta extinção, uma vez que as ações humanas estão a eliminar espécies de animais vertebrados centenas de vezes mais depressa do que se não existissem essas ações.

Falam do pombo-passageiro, uma espécie extinta no início do século passado e que era endémica da América do Norte, falam do lobo da Tasmânia, um marsupial da Austrália também extinto no século passado, e falam do Baiji, o golfinho do rio Yang-tze, na China, uma das espécies de golfinho de água doce e também extinto. Cada uma destas espécies foi também o último membro do seu género.

Até agora, o interesse público e científico tem incidido na extinção das espécies. Mas no estudo agora divulgado, Gerardo Ceballos, da universidade mexicana, e Paul Ehrlich, de Stanford, descobriram que géneros inteiros também estão a desaparecer, naquilo a que chamam uma “mutilação da árvore da vida”.

“A longo prazo, estamos a fazer uma grande mossa na evolução da vida no planeta”, diz Gerardo Ceballos, alertando que por isso, neste século, se vai causar “muito sofrimento à humanidade”.

Paul Ehrlich, noutra abordagem, salienta que as ações do Homem estão a fazer com que este perca os únicos companheiros vivos conhecidos em todo o universo.

Os dois investigadores usaram bases de dados de entidades como a União Internacional para a Conservação da Natureza ou a “Birdlife International” e examinaram 5.400 géneros de animais vertebrados terrestres, abrangendo 34.600 espécies.

E concluíram que desde o século XV foram extintos 73 géneros de vertebrados terrestres, com as aves a sofrerem as maiores perdas, com 44 géneros extintos, seguindo-se os mamíferos e depois os anfíbios e depois os répteis.

Com base na taxa histórica de extinção de géneros entre os mamíferos, estimam os responsáveis que a atual taxa de extinção de géneros de vertebrados exceda em 35 vezes a do último milhão de anos.

Ou seja, sem a influência humana, a Terra teria perdido apenas dois géneros nesse período. Em cinco séculos as ações humanas extinguiram géneros que sem elas levariam 18.000 anos a desaparecer.

“Como cientistas, temos de ter cuidado para não sermos alarmistas”, afirma Gerardo Ceballos, acrescentando que a gravidade das descobertas exige “uma linguagem mais forte do que o habitual”.

“Não seria ético não explicar a magnitude do problema, uma vez que nós e outros cientistas estamos alarmados”.

O responsável explica que a muitos níveis as extinções de géneros são mais graves do que as extinções de espécies, porque quando uma espécie se extingue outra do mesmo género pode preencher esse papel no ecossistema. Em termos de árvore da vida é como se um único galho caísse e à sua volta outros se ramificassem.

O pior, acrescenta, é quando ramos inteiros (géneros) caem, o que “deixa um enorme buraco na copa das árvores” que pode demorar milhões de anos a ser tapado.

“A humanidade não pode esperar tanto tempo pela recuperação dos seus sistemas de suporte de vida”, já que “a estabilidade da nossa civilização depende dos serviços prestados pela biodiversidade da Terra”, frisa.

Gerardo Ceballos dá o exemplo da doença de Lime (transmitida por carrapatos), que está a aumentar: os ratos de patas brancas, principais portadores da doença, costumavam competir com os pombos-passageiros por alimentos e com o desaparecimento destes as populações de ratos aumentaram e com eles os casos da doença.

Neste caso, está envolvido o desaparecimento de um único género, mas uma extinção em massa de géneros pode significar uma explosão proporcional de desastres para a humanidade, avisa o responsável.

Para se evitarem novas extinções e consequentes crises sociais, os dois investigadores apelam a uma ação política, económica e social imediata e a uma escala sem precedentes.

Os esforços de conservação, dizem, devem ser prioritários nas regiões tropicais, uma vez que estas apresentam a maior concentração de extinções de géneros e de géneros com apenas uma espécie remanescente.

De acordo com o sistema que organiza os seres vivos, a espécie é definida como um grupo de organismos que se podem reproduzir e originar novos seres e o género é um conjunto de espécies.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Diversas espécies de aves em Portugal estão em declínio


Relatório mostra que várias aves estão numa situação preocupante, mas é possível reverter esta tendência se houver vontade política, diz o director da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

O declínio de várias espécies de aves é destacado no relatório divulgado esta quinta-feira sobre O Estado das Aves em Portugal 2022, no qual se apela a que se faça mais pela sua conservação e habitats.

O relatório da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) reúne os resultados recentes de 11 programas de monitorização, “das populações nidificantes, migradoras e invernantes de aves”, e de dez censos dirigidos, além de dar a conhecer “duas plataformas para registo de observações de aves, que são também ferramentas de monitorização”.

No caso das aves associadas a ambientes agro-florestais, estão a diminuir em Portugal as populações de picanço-barreteiro e da rola-brava. Entre as espécies típicas de ambientes agrícolas, a andorinha-das-chaminés, a milheirinha, o pintassilgo e o pardal apresentam uma tendência decrescente.

O picanço-barreteiro está em declínio

Em relação às aves nocturnas, estão em declínio algumas espécies comuns e também associadas aos habitats agrícolas, como a coruja-das-torres e o mocho-galego, “espécies que vivem próximo das pessoas nos meios rurais e que têm um papel ecológico fundamental no controlo de ratos e insectos”, adianta o relatório.

“No período invernal, é substancial o declínio de espécies habituais nas pastagens e campos de agricultura extensiva, como é o caso do sisão, do abibe e da gralha-de-nuca-cinzenta, mas também de espécies mais comuns ou de distribuição mais generalizada, como a perdiz ou o peneireiro”, indica o relatório. Dentro do grupo das aves associadas aos ambientes agrícolas, 30% das espécies estão em declínio, um terço apresenta uma tendência estável e 17% revelam uma tendência positiva.

Das florestas aos estuários

Em declínio estão igualmente algumas das espécies que fazem ninho nos ambientes florestais, como o chapim-real e o cuco, enquanto no caso das populações de aves que se estabelecem em Portugal durante o Inverno verifica-se uma tendência negativa na população da toutinegra-de-barrete e do tordo-comum. Em sentido inverso, o relatório refere que a tendência é positiva para o pombo-torcaz, no primeiro caso, e para as populações de cegonha e de pega, no segundo.

“Nas zonas húmidas, algumas espécies nidificantes têm tido crescimentos populacionais substanciais, como a íbis-preta e o corvo-marinho, mas espécies como o carraceiro (ou garça-boieira) tiveram um declínio acentuado”, adianta. A garça-boieira é a espécie mais abundante nas colónias de aves aquáticas, mas o seu número diminuiu cerca de 75% em sete anos (2014-2021), segundo o programa de monitorização das aves aquáticas. As “populações invernantes nacionais de pato-colhereiro e borrelho-grande-de-coleira” têm uma tendência demográfica positiva.

A coruja-das-torres é uma ave predadora que ajuda a controlar mamíferos roedores.  

De acordo com o relatório, “no estuário do Tejo, as contagens de aves aquáticas apontam para o declínio do alfaiate e da marrequinha, enquanto os números de flamingos e íbis-preta têm tido uma tendência de crescimento”.

Na orla costeira do Continente e das ilhas registou-se “um enorme aumento da população nidificante de gaivotas”, mas no caso do borrelho “há um preocupante decréscimo da sua população nidificante a nível nacional”. A diminuir estão igualmente as rolas-do-mar e os borrelhos-de-coleira-interrompida, enquanto se mantêm estáveis os números relativos ao pilrito-das-praias e ao maçarico-galego.

“No ambiente marinho, o alcaide, a gaivota-de-cabeça-preta ou o garajau-de-bico-preto apresentam tendências negativas, assim como a pardela-balear, uma espécie criticamente ameaçada”, mas o crescimento da população nidificante de gaivota-de-audouin na ria Formosa tem sido positivo e este “é actualmente o maior núcleo reprodutor desta espécie globalmente ameaçada”, adianta o documento.

A situação das populações dos grifos e dos britangos, espécies que costumam fazer os ninhos em rochas, também é distinta, enquanto “o britango apresenta um decréscimo de 10% da população nidificante, o grifo aumentou os seus números cinco vezes, relativamente aos censos nacionais realizados há cerca de 20 anos”.

As populações de íbis-preta estão a aumentar Luiz Lapa/SPEA

“Para muitas espécies, o estado das suas populações em Portugal é preocupante, mas em muitos casos ainda reversível”, diz Domingos Leitão, director executivo da SPEA, num comunicado desta entidade. “Temos provas de que a conservação resulta, e ainda vamos a tempo, se houver vontade política para passar da exploração desmesurada à gestão sustentável.”

Tendência europeia

A SPEA considera que Portugal pode e deve fazer mais pela conservação das aves e dos seus habitats, incluindo a sua monitorização. “Temos a responsabilidade de ser a casa de muitas espécies únicas (por exemplo, o priolo, a freira-da-madeira, o painho-de-monteiro)” e é nas águas portuguesas que “a ave marinha mais ameaçada da Europa, a pardela-balear, vem procurar alimento durante a migração e pós-reprodução”, assinala o relatório, adiantando que nas ilhas de Portugal se podem “encontrar populações nidificantes de espécies ameaçadas na Europa, como o calca-mar ou a gaivota-de-audouin”.

De acordo com a Lista Vermelha das Aves da Europa 2021, divulgada em Outubro do ano passado, uma em cada cinco espécies de aves do continente está ameaçada de extinção. O relatório, que foi publicado pela associação internacional de defesa das aves BirdLife International, que junta associações de todo o mundo, incluindo a SPEA, avalia o risco de extinção de 544 espécies de aves em mais de 50 países e territórios da Europa.

O garçote também está em decrescimento Joaquim Grave/SPEA

As “avaliações do risco de extinção e de tendências populacionais à escala europeia”, importantes para se compreender “a situação das espécies a uma escala de maior dimensão, não eram possíveis sem a monitorização das espécies que ocorre em cada país”, lembra a SPEA no estudo divulgado agora.

Em Portugal, esta vigilância e acompanhamento “depende do esforço e dedicação de inúmeros voluntários e colaboradores”, contributo que a organização não-governamental de ambiente classifica de “inestimável”, sem esquecer o das “entidades que organizam os censos e programas de monitorização”, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, Universidades e várias organizações não-governamentais, além da SPEA.


Saber mais:
Relatório: 49% de todas as espécies de aves estão em declínio [aqui]

sábado, 8 de outubro de 2022

Uma em cada oito espécies de aves está ameaçada de extinção em todo o mundo. Situação em Portugal “é igualmente preocupante”, alerta SPEA


Este sábado, dia 8 de outubro, assinala-se o Dia Mundial das Aves Migratórias, uma efeméride que tem como propósito alertar para a necessidade de conservação dessas espécies e dos habitats de que elas dependem. Contudo, apesar dos esforços até aqui empreendidos, é preciso fazer mais para proteger as aves, todas elas, das ameaças criadas pela ação humana sobre o planeta.

De acordo com o mais recente estudo da associação BirdLife International, divulgado no final de setembro, “quase metade de todas as espécies de aves estão em declínio, com mais de uma em cada oito em risco de extinção”.

Os especialistas apontam que “as pressões que causam essas diminuições são bem conhecidas, e a grande maioria são impulsionadas pela ação humana” e que “os desafios para a conservação estão a escalar e o tempo está a esgotar-se”. Publicado a cada quatro anos, o estudo de 2022 indica que a conservação de locais que sejam importantes para as aves através da gestão comunitária e a proteção e a gestão eficientes desses mesmos locais são ações fundamentais para ajudar a travar a perda dessas espécies.

Destacando que “a situação no nosso país é igualmente preocupante”, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) adianta que, em Portugal, dados relativos ao período entre 2007 e 2018 revelam que “há 53 espécies em declínio, enquanto 38 estarão a aumentar e 32 estão estáveis”. No entanto, os especialistas afirmam que “para 63 espécies no nosso país não há informação sobre o estado das suas populações, e outras 52 têm tendência incerta – uma situação preocupante que demonstra a necessidade de maior monitorização para serem recolhidos dados que permitam uma boa avaliação o estado das espécies”.

Voltando de novo o olhar para o plano global, o relatório da BirdLife International identifica que as perdas de aves se devem, essencialmente, à expansão e intensificação da agricultura, com a SPEA a afirmar que essa “é também a maior ameaça às aves em Portugal, causando declínios acentuados de espécies como o sisão, a águia-caçadeira (ou tartaranhão-caçador), e os picanços”.

A exploração madeireira é apontada como outro dos principais motores da diminuição das populações de aves em todo o mundo, a par de uma gestão insustentável da floresta, do uso de produtos químicos e da conversão de prados e pastagens em áreas de cultivo.

A somar a tudo isso, as alterações climáticas, aceleradas pela atividade humana, estão também a pressionar cada vez mais as populações de aves a nível global, estimando-se que, atualmente, “34% das espécies ameaçadas já estão a ser afetadas, e prevê-se que o nosso clima em mudança venha rapidamente a tornar-se um problema ainda maior”, relata a SPEA.

Patrícia Zurita, CEO da BirdLife International, alerta que “a Natureza está em declínio em todo o mundo, com o desenvolvimento insustentável a degradar habitats naturais e a empurrar espécies para a extinção”. A responsável salienta que “a expansão e a intensificação agrícola, a atividade madeireira, espécies invasoras e a sobre-exploração continuam a alimentar esta tendência”.

“O que é necessário é vontade política e compromissos financeiros”, defende Zurita, para ser possível implementar soluções adequadas, e atempadas, para travar e reverter a perda de populações de aves e da biodiversidade no geral.

E acrescenta que “a Estrutura Global pós-2020 para a Biodiversidade que está atualmente a ser negociada [e que se espera que venha a ser aprovada na COP15 de dezembro] é a melhor, e talvez última, hipótese do mundo para travar a perda de natureza e para orientar-nos para a conservação e recuperação do planeta”.

“Desta vez, os governos têm de ser bem-sucedidos onde anteriormente falharam, traduzindo as suas promessas em ação substantiva”, frisa a responsável.

Por sua vez, a SPEA declara que “apesar do estado preocupante do mundo natural, as aves dão-nos motivos de esperança” e que “com ações efetivas, as espécies podem ser salvas e a natureza pode recuperar”.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Mais de 5.000 espécies de aves estão em declínio ou em perigo de extinção no planeta

Pilrito-colhereiro (Calidris pygmaea). Foto: Alexander Lees


Mais de 5.000 espécies de aves estão em declínio (com perda continuada de populações) ou em perigo de extinção em todo o mundo. No total, estima-se que 48% das 11.000 espécies de aves conhecidas para a Ciência estão a passar por uma redução da população, de acordo com um novo relatório.

O documento revela ainda que 39% (4.295 espécies) mantêm tendências estáveis e apenas 6% (676) mostram tendências de população em aumento. Sobre 7% (778) não existem dados suficientes para definir o seu estado de conservação.

Estes são alguns dos dados da actualização de 2022 do relatório sobre o Estado das Aves do Mundo (State of the World’s Birds), publicado na revista Annual Review of Environment and Resources (edição provisória online a 5 de Maio, edição definitiva prevista para Outubro de 2022).

A investigação actualizou alterações na biodiversidade do mundo das aves usando dados da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para revelar as alterações populacionais das 11.000 espécies de aves do mundo.

Os autores do relatório resumem a situação afirmando que “estão a produzir-se descidas assombrosas nas populações de aves em todo o mundo”. Os investigadores identificaram a perda e degradação de habitats naturais, a sobreexploração directa de muitas espécies e as alterações climáticas como as maiores ameaças.

“Estamos hoje a presenciar os primeiros sinais de uma nova vaga de extinções de espécies de aves com distribuição continental, depois da perda histórica das espécies das ilhas, como o Dodo”, disse o principal autor do relatório, Alexander Lees, da Universidade Metropolitana de Manchester e investigador associado no Laboratório de Ornitologia de Cornell. “A diversidade de aves alcança o seu ponto máximo a nível mundial nos trópicos e é ali onde também encontramos a maior quantidade de espécies ameaçadas”, acrescentou.

Estima-se que 90% das espécies de aves que se extinguiram desde 1500 até hoje, num total de 187 espécies, são espécies insulares, ou seja, que viviam em ilhas. Essas extinções aconteceram em regiões como o Havai, Austrália, Nova Zelândia e Polinésia Francesa. A principal causa foi a introdução de mamíferos nessas ilhas, como os ratos (que estão ligados à extinção de 52 espécies de aves) e os gatos (40 espécies).

Os autores mostram a preocupante situação actual mas deixam lugar à esperança, ainda que sublinhem que para recuperar populações e salvar espécies da extinção é preciso mudanças realmente transformadoras na relação dos humanos com a natureza.

Entre os seis exemplos de espécies de aves que foram alvo de projectos de conservação de sucesso está o priolo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha açoriana de São Miguel. Em tempos já foi a ave mais ameaçada da Europa; hoje a sua população está estável. “A população começou a recuperar graças ao restauro da floresta Laurissilva nativa, controlo de plantas invasoras e a criação de pomares”, explicam os autores.

“O destino das populações de aves depende, em grande medida, de conseguirmos travar a perda e degradação dos habitats. Isto é, frequentemente, causado pela procura por recursos, incluindo alimentação”, detalha Lees.

“As decisões que tomamos sobre o que vamos almoçar, onde e como foi produzido reverberam por todo o planeta e no futuro. Precisamos considerar melhor como os fluxos de produtos básicos podem contribuir para a perda de biodiversidade e precisamos tentar mitigá-los.”

O relatório é assinado por nove autores da Universidade Metropolitana de Manchester, do Laboratório de Ornitologia de Cornell, Birdlife Internacional, Universidade de Joanesburgo, Pontificia Universidad Xavierian e da Fundação para a Conservação da Natureza.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

1 em Cada 5 Espécies de Aves Está Ameaçada. “As Eólicas São Autênticos Picadores De Carne”

A atualização da Lista Vermelha das Aves da Europa 2021, lançada em outubro deste ano, conclui que 1 em cada 5 espécies de aves na Europa está ameaçada de extinção. Algumas das razões apontadas pela BirdLife International, associação que realizou o estudo, são a agricultura intensiva, a sobrexploração dos recursos marinhos e a poluição das águas. O relatório avaliou o risco de extinção de 544 espécies de aves em mais de 50 países do continente europeu.
Em entrevista à Escola de Ciências, Pedro Gomes, professor do Departamento de Biologia, reflete sobre alguns dos maiores problemas que assombram os diferentes tipos de aves e a tendência de extinção das espécies. A falta de apoio financeiro para os estudos, os biocidas, a crescente urbanização, a destruição de habitat e a sua simplificação são outros destaques da entrevista.

Pedro Gomes é licenciado em Biologia pela Universidade do Porto e doutorado em Ciências pela Universidade do Minho. A sua carreira académica tem estado sempre ligada às áreas da Ecologia e da Zoologia. Parte do seu percurso esteve ligado à ecologia terrestre e à conservação da natureza, com ligações fortes às áreas montanhosas do norte de Portugal. Nos últimos anos, a sua atividade tem-se centrado na zona costeira e no domínio da ecologia e biologia marinha. Em todo o seu percurso, a educação ambiental e a divulgação científica foram sempre uma forte componente da sua atividade, para além da docência em cursos de graduação e pós-graduação.

A Lista Vermelha das Aves da Europa 2021 afirma que 1 em cada 5 espécies de aves está ameaçada. Este número é preocupante?


É um número preocupante. Quando nós falamos das aves, pensamos nas aves em geral, mas há grupos muito mais sensíveis do que outros. Ainda não tive oportunidade de ler o estudo, mas imagino que aquelas que acabam por ser as mais ameaçadas são as aves insetívoras, as aves de rapina e as aves aquáticas. Acabam por ser aquelas que são mais sensíveis ao tipo de ações que nós vamos fazendo, como a introdução de substâncias no meio – substâncias que lhe são perigosas –, destruição de habitats e outras coisas que, aparentemente, são mais inocentes, como por exemplo as torres eólicas, urbanização muito à base de vidros, os nossos gatinhos domésticos... Portanto, tudo isso, aliado à simplificação dos sistemas, é catastrófico.

Essas são algumas das ameaças, mas existem mais...


Sim, isso tem a ver, mais uma vez, com a questão do grupo das aves. Quando falamos de insetos e dizemos que estamos muito preocupados com as abelhas, também temos de perceber que temos de nos preocupar com todos os outros insetos, que são tão ou mais importantes que as abelhas e que são a base alimentar de muitas aves. Portanto, tudo aquilo que afeta os insetos, afeta em cascata as aves insetívoras que se alimentam deles.

Depois temos a questão de alteração de habitat. Falo desta simplificação que nós fazemos – e que não tem apenas a ver com os incêndios, que são a causa subjacente à alteração primária – que é a alteração do coberto vegetal espontâneo para coisas uniformes e diria quase industriais, que não é só o eucalipto: são as exóticas, os pinheiros... Portanto, toda esta simplificação que nós estamos a fazer acaba por afetá-las. Outro exemplo de que se tem falado muito é a industrialização da cultura de oliveira no Alentejo e a intensificação do montado de sobro. Tudo isso é catastrófico para este tipo de organismos. As aves migratórias sofrem muito com a urbanização e destruição de zonas que elas utilizavam tradicionalmente, como as zonas húmidas. Falo da urbanização não no sentido de construir casas, mas por exemplo fazer condomínios fechados em espaços naturais e campos de golfe... Tudo isso acaba por ter consequências por estamos a ocupar espaços a que nós não damos valor, mas que são fundamentais para as aves migratórias.

A nível do impacto nas aves de rapina, temos todas estas torres eólicas que nós estamos a espalhar por todo o lado. Seja em terra e agora no mar, são autênticos picadores de carne, porque as aves durante a noite não veem. Infelizmente os estudos no mar são quase impossíveis de fazer, porque o que cai no mar desaparece. Já em terra vai havendo alguma informação. Mas devemos assumir que no mar está a acontecer, senão o mesmo, pior, porque muitas dessas aves são aves costeiras que se deslocam sobre o mar.

Outro dado importante deste estudo é que não existem informações sobre um quarto das tendências populacionais das espécies. Faz falta mais investimento neste tipo de censos?


Vai havendo informação, só que não é fácil. As equipas não são grandes e, mais uma vez, há sítios onde não temos grande possibilidade de ter acesso, como o mar. Acontece também uma outra questão: as metodologias que nos permitem quantificar são complicadas, em termos logísticos, financeiros e de pessoal. Muitas vezes, esses estudos são dirigidos a determinadas espécies e é muito difícil abranger todas. Há muita coisa que nos escapa. Aquilo que é cinegético e que se caça ainda se vai vendo, o que não é cinegético é mais complicado.

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves afirma, no entanto, que também existiu um impacto positivo nestes últimos anos nos trabalhos de conservação, sendo o priolo dos Açores um desses exemplos. O público em geral está consciente sobre o impacto humano na biodiversidade? Como o caso das eólicas, por exemplo.


As eólicas são sempre apontadas como exemplo de uma energia amiga do ambiente mas a realidade é bastante diferente. Essas questões ecológicas acabam por ter impacto, não só na avifauna, mas também a nível dos insetos e as pessoas não têm essa consciência. Tirando aquilo que se come ou que faz companhia, o público em geral pouco conhece do nosso património natural. É um bocado cultural. Veja o exemplo das pessoas que têm gatos. É muito difícil levar essas pessoas a compreender o impacto que o gatinho que anda a passear tem sobre a fauna selvagem. Mas quando nós temos num bairro 50 ou 60 gatos, é óbvio que só podemos ter pardais e melros... Mesmo assim, os pardais já começam a entrar em declínio e, muitas vezes, os responsáveis são os nossos gatinhos, que são máquinas de matar extremamente eficazes. O impacto é bastante grande.

Não é por acaso que o panda tem o sucesso que tem, porque geralmente é um bichinho mediático e dá bons peluches. Se tivermos uma ave que seja bonita e que dê nas vistas, aí poderá, eventualmente, gerar alguma empatia por parte do público. Mas, na maior parte das vezes, isso não acontece e até sucede o contrário: muitas delas são consideradas aves a abater, como rapinas noturnas e diurnas, por vários motivos, nomeadamente superstição. Não são reconhecidos os benefícios que essas aves nos trazem. Isto para já não falar do antigo costume da captura de pequenas aves insectívoras com armadilhas, que é praticada em algumas regiões do país. É um autêntico tiro no pé do agricultor, pois captura às centenas numa manhã só um dos seus mais preciosos auxiliares no combate às pragas. Mas infelizmente são hábitos difíceis de eliminar, apesar de serem ilegais. E a legislação não ajuda, pois recentemente não foi aprovada uma lei que proíba a comercialização e fabrico desse tipo de armadilhas. Ou seja, a consciencialização também tem que chegar às forças políticas, infelizmente.

E o estudo das aves é um bom indicador para percebermos o estado do planeta?


Como tudo. As aves têm vantagem de se ver e de se criar facilmente empatia com elas. Qualquer que seja a categoria taxonómica que se use como indicador, se se acompanhar por tempo suficiente, verificamos que há variações quer nos efetivos, quer no número de espécies presentes numa dada região e isso são sempre bons indicadores. Infelizmente, estudos quantitativos a longo prazo não são fáceis de implementar.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Documentário da Semana - Bioenergy: The Ugly Truth


It was supposed to be the best of all worlds: renewable, clean energy from organic matter and residues. But it also became land grabbing, nonsensical forest destruction and a festival of national subsidies that have caused more distortions that what you can think of. 
From Russia to Italy, through Germany and Romania, follow our cameramen as they document abuses, malpractice and paradoxes in the production of bioenergy. 

In this documentary co-produced by BirdLife Europe and Central Asia, and Transport & Environment, we expose some of the distortions that have turned a solution... into a problem.

Leia mais:
EU Bioenergy Blog 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Charcos aumentam a biodiversidade dos jardins

Os lagos representam um ponto de atração suplementar nos espaços ajardinados mas implicam cuidados de construção específicos para não os prejudicar. Saiba porquê e aprenda a construir um.


Já reparou que sempre que entra num jardim ou parque ou passeia por uma qualquer paragem natural e encontra um pequeno espelho de água, quase sempre para para o apreciar melhor? Para além de ser absolutamente fundamental para a vida na terra, a água tem esse dom. Atrai! A atenção do homem e uma panóplia de bichos e plantas que nela vivem... Se quiser criar mais um ponto de atração no seu jardim e contribuir para a biodiversidade, então considere fazer um pequeno charco. De todas as ações que pode fazer em prol da fauna e da flora, esta é porventura a mais importante. 

Se o charco for bem desenhado e feito, cedo se tornará um pequeno paraíso para uma miríade de animais e plantas, um microcosmos do mundo natural, com predadores e decompositores, herbívoros, algas e plantas, que irão proporcionar muitas horas de observação e descoberta para toda a família, mesmo à saída de casa. Sejam os girinos em desenvolvimento, os diferentes e estranhos insectos que vivem na água, ou os movimentos cómicos dos pássaros que se vão banhar num quente dia de verão.

Como fazer um charco

Primeiro, terá de escolher um local no seu jardim. O ideal é um canto solarengo, afastado de árvores grandes (por causa das folhas mortas e das raízes, que poderão perfurar o plástico impermeabilizador). E, se possível, com uma linha de visão boa desde a sua janela, para poder observar o que lá se vai passando de dentro de sua casa.

Uma vez escolhida a área do charco, retire toda a manta morta, e marque a forma e dimensões finais, com uma corda atada a pedaços de madeira espetados no chão. Escave depois um buraco. Lembre-se que este terá de ser ligeiramente maior do que a forma final do seu charco. Ponha a terra num canto do jardim. Poderá utilizar alguma dela para refazer as margens, ou uma pequena ilha, caso o seu charco tenha dimensões razoáveis.

Quando estiver a escavar, não se esqueça de criar um perfil de profundidade que garanta margens com zonas de pouca profundidade. Deposite depois uma camada de jornais velhos, areia ou uma carpete velha sobre a cova, para proteger o plástico impermeabilizador. Deve evitar que seja perfurado por baixo. Sobre os jornais, areia ou carpete, ponha uma camada de folha de plástico (polietileno) impermeabilizadora e prenda a mesma nas margens com pesos (pedras).

A fórmula que deve usar para determinar as dimensões do charco

Para calcular a quantidade de plástico que precisa, utilize a seguinte fórmula:

comprimento – (comprimento do charco mais o dobro da profundidade) + 10%; largura – (largura do charco + dobro da profundidade) + 10%

Por exemplo, se quiser fazer um charco de 2x3 m, e 0,50 cm de profundidade, precisará de uma folha de plástico de 3,30 m por 4,40 m. O plástico deverá ultrapassar um pouco as margens projectadas do seu charco. Não estique demasiado o plástico impermeabilizador quando o colocar.

Deposite logo depois uma fina camada de areia ou terra sobre este, para evitar estragos devido à exposição solar direta. Mantenha os pesos nas margens para que o plástico estabilize. Encha o seu charco com água ou, melhor ainda, deixe que a chuva do inverno o vá preenchendo aos poucos. Assim que este estiver cheio e o plástico estabilizado, pode retirar os pesos e tapar as margens do plástico com terra, para fazer as tais margens suaves. 

Regras a observar

Quanto maior for o seu charco, mais rico será em fauna e flora. As rãs podem viver num charco com apenas um metro quadrado, mas outras espécies de anfíbios requerem pelo menos 15 metros quadrados de habitat para o fazer, dimensão já suficiente para atrair um casal de galinhas de água, se à volta do charco existir habitat palustre adequado.

A forma do charco e o que existe à sua volta também irão influenciar o tipo de animais e plantas que nele poderão viver. Em geral, quanto mais extensas e variadas forem as margens, melhor será este para a biodiversidade. Por isso, tente construir o seu charco com forma irregular e com margens com pequena inclinação para que os animais possam chegar à água sem cair ao charco.

É nessas margens com pequena profundidade que as aves irão beber, e que as rãs irão pôr os seus ovos (a uma profundidade de 10 cm, entre plantas subaquáticas). Para além das zonas pouco profundas na margem, o ideal seria fazer um charco com cerca de meio metro de profundidade.

Assim, muitos insetos e anfíbios poderão esconder-se dos predadores e aumentar a diversidade de habitats (e consequentemente de fauna) existentes. Os tritões, por exemplo, geralmente precisam de 30 centímetros de profundidade para pôr ovos. Mas, atenção, tal como as piscinas, os charcos podem ser muito perigosos para crianças pequenas e bebés. Tenha isto em consideração quando estiver a planear construir um!

Texto: José Pedro Tavares (Royal Society for the Protection of Birds, BirdLife no Reino Unido, organização parceira da SPEA)



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Deputados recusam projectos de lei para proibir diclofenac

Uma decisão politica lamentável em prejuízo das nossas aves de rapina necrófagas.
Foto e notícia aqui


Os dois Projectos de Lei debatidos ontem no Plenário da Assembleia da República, iniciativas do PAN e do PEV, foram rejeitados hoje durante a votação. A Spea diz-se desiludida.

Ambos os Projecto de Lei – que visavam a proibição da comercialização e a utilização de medicamentos veterinários, de uso pecuário, contendo diclofenac – tiveram os votos contra do PS, PSD e CDS-PP.

Em causa está um pedido de comercialização de um medicamento com diclofenac, em apreciação pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) há mais de dois anos. Segundo os conservacionistas, os medicamentos que utilizam na sua formulação o diclofenac – usado como anti-inflamatório e analgésico em animais de gado – são fatais para aves necrófagas.

O problema é que o diclofenac pode persistir em concentrações letais numa carcaça até sete dias depois da morte do animal. Quando abutres, águias ou outros animais necrófagos se alimentam dessa carcaça, ingerem também o diclofenac.

Ontem, a deputada Eloísa Apolónia (Partido Ecologista Os Verdes, PEV) tinha defendido esta proibição como “um contributo muito concreto para a preservação da biodiversidade” e lembrou a importância do princípio da prevenção e de uma “posição vinculativa da Assembleia da República”.

Por seu lado, André Silva, do PAN, sublinhou que existem “alternativas comprovadas” e seguras.

Os argumentos não convenceram os deputados da Assembleia da República. A deputada socialista Ana Passos defendeu que Portugal já “tem sistemas eficazes de recolha de animais mortos nas explorações pecuárias”, impedindo assim as aves necrófagas de se alimentar deles, e que esta é uma avaliação que deve ser feita pelos técnicos da DGAV, não pelos deputados.

O deputado António Ventura (PSD) foi mais longe e disse que as iniciativas apresentadas eram um exemplo da “agenda demagógica e populista do PAN e do PEV”. Isto porque, sublinhou, há menos de um ano a Assembleia da República deliberou que o Governo estudasse esse medicamento. “E agora querem que esta câmara diga que não se use. Não se pode ter duas coisas ao mesmo tempo.”

O outro voto contra veio da bancada do CDS-PP. A deputada Ilda Araújo Novo, em representação do grupo parlamentar, lembrou que o medicamento em causa “não está autorizado para uso em Portugal” e que “em Abril esta câmara aprovou uma recomendação ao Governo que não autorizasse o diclofenac”. Por isso, acrescentou, “não se entende a necessidade dos projectos lei”.

“Desiludidos”

Hoje, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (Spea) disse, em comunicado, que “Portugal perdeu uma oportunidade de dar o exemplo em matéria de conservação da natureza e salvaguarda da saúde pública”.

“Não se percebe como é que não é proibida uma substância que é perigosa e para a qual existem alternativas seguras” comentou Joaquim Teodósio, coordenador do Departamento de Conservação Terrestre da Spea.

Segundo a Spea, “ao não proibir o diclofenac, os deputados falharam nas suas obrigações para com o povo português e descuraram os compromissos assumidos a nível internacional, de conservação da natureza. Ao não proibir este fármaco perigoso, Portugal arrisca-se – caso a DGAV autorize medicamentos contendo diclofenac – a deixar de ser um refúgio para espécies protegidas como o abutre-preto, o britango e a águia-imperial-ibérica, que estão ameaçadas a nível europeu e mundial, e das quais existem populações importantes no nosso país”.

“O resultado da votação de hoje deixa-nos perplexos e muito entristecidos”, comentou Iván Ramírez, director de Conservação da BirdLife Europe & Central Asia. “Portugal acabou de perder uma excelente oportunidade para dar um exemplo a toda a Europa.”

O próximo passo será dado pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, entidade a quem a Spea exige “que, tendo em consideração o melhor conhecimento científico existente, e respeitando o princípio da precaução, não aprove este pedido de comercialização”.

“Estamos desiludidos com esta decisão, que não serve nem as aves nem as pessoas, e pela qual podemos todos vir a pagar caro”, acrescentou Joaquim Teodósio. “Os abutres têm um papel importantíssimo no controlo de doenças nos nossos campos, sem eles, corremos o risco de enfrentar graves problemas de saúde pública. Resta-nos agora esperar que a DGAV decida a favor da saúde dos nossos campos.”

sexta-feira, 12 de junho de 2009

quarta-feira, 5 de maio de 2004

Sabor Livre- Porque somos contra a barragem?

Ao longo do rio Sabor ocorre uma importante comunidade de aves rupícolas, donde se destaca a presença de espécies como a águia de Bonelli, a águia-real, o abutre do Egipto e a cegonha-preta, facto que motivou a sua inclusão numa Zona de Protecção Especial (ZPE) e numa IBA (Important Bird Area, BirdLife International).O Vale do Sabor constitui um importante refúgio e corredor ecológico para uma comunidade faunística muito diversificada, onde se salientam espécies como o lobo, o corço, o gato-bravo, a toupeira-de-água e a lontra, e representa o principal local de desova e alevinagem da comunidade piscícola de uma vasta área (desde o Sabor até à albufeira da Valeira no Douro). O rio Sabor é um dos últimos rios não represados e é provavelmente aquele que se encontra mais próximo do estado natural em Portugal, constituindo o último reduto de um território outrora fértil em rios e paisagens notáveis.

Deve ser urgentemente definido e implementado um plano energético nacional que identifique as necessidades do país e proponha um conjunto abrangente de alternativas de produção e gestão energética a médio prazo, abandonando de vez a opção por obras de carácter pontual e pouco relevantes no contexto nacional (a energia produzida por esta barragem contribuiria, na melhor das expectativas, apenas com 0,6% da energia consumida em Portugal!). Deve ser dada prioridade total à implantação de políticas de incentivo à eficiência energética (Portugal é um dos países com menor eficiência energética de toda a União Europeia!) e às energias renováveis que não contemplem grandes obras hidroeléctricas. 

É também necessário começar a actuar ao nível da gestão procura de energia, abandonando-se a denominada gestão da oferta, uma vez que aquela é reconhecidamente a que melhor se enquadra numa lógica de desenvolvimento sustentável.

Com os 500 milhões de euros que Portugal vai gastar na construção desta barragem, diminuirá pouco significativamente as emissões de CO2 (0.14%). Sem referir o aumento das emissões indirectas na construção dos paredões!
Estamos a condenar um terço deste território que já é Rede Natura.
Com 500 milhões de euros serão melhor geridos em projectos de educação ambiental, preservação de espaços selvagens
É urgente medidas transversais de eficiência energética no nosso País! Deixemos o Rio Sabor e o Alto Côa livres!!