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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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Plataformas e base de dados

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Delek Group, uma empresa israelita incluída na lista negra da ONU, arrecadou mais de mil milhões de dólares com o petróleo e o gás do Mar do Norte em apenas seis anos



An Israeli firm blacklisted by the UN for its West Bank activities has raked in over $1bn from North Sea oil and gas in just six years – and could be set to earn even more if the Rosebank field is approved.

Analysis by The Ferret shows Aberdeen oil company Ithaca Energy has paid over $1bn in dividends to its largest shareholder, Delek Group, since 2020.

Delek, an Israeli energy conglomerate, has been named on a United Nations database of firms whose activities in the occupied West Bank raise “particular human rights concerns”.

Ithaca owns a stake in the Rosebank oil field off the coast of Shetland, which the UK energy minister Ed Miliband is under pressure to green light. It also now owns 100 per cent of the Cambo field, which was at the centre of controversy in 2021.

Lawyers for the campaign group Uplift have claimed that Ithaca’s connection to Delek means approving Rosebank could risk the UK breaching the Geneva convention, and alleged that the Israeli company’s activities could be seen as “ancillary” to war crimes.

Environmental campaigners told The Ferret that “not one penny of profit should flow from the North Sea towards Delek” and that choosing to approve Rosebank would be “morally reprehensible” because it could “bolster" its activities in the West Bank.

Both Ithaca and Delek were approached for comment.

Delek has been Ithaca’s largest shareholder since 2017, but its pay-outs from the firm have accelerated in recent years as Ithaca expanded its presence in UK fossil fuels. Ithaca says it now holds stakes in six of the UK’s ten largest oil and gas fields.

Our analysis shows Ithaca paid $569m in dividends to Delek across 2024 and 2025, with a further $101m distributed on 16 April this year. That takes total payments since 2020 to more than $1bn.

Delek has previously described Ithaca’s operations in the North Sea as part of the “growth engine” for its wider business. 

As The Ferret first reported when Ithaca bought Cambo back in 2022, Delek was included in a 2020 list of companies whose activities in the occupied West Bank “raised particular human rights concerns” after a UN fact finding mission. It remained on updated versions of the list published in 2023 and 2025.

Delek was included because it was deemed to be providing services and utilities to support the maintenance of the settlements and was using natural resources in the West bank for “business purposes”. Israeli settlements in the West Bank are widely regarded as illegal under international law.

We also previously found that another firm in which Delek holds a significant stake – Delek Israel – has held contracts to provide refueling services to the Israel Defense Forces (IDF).

Rosebank is at the centre of a political row over whether the UK should continue to expand oil and gas production in the North Sea.

It is the UK’s largest untapped oil field and is estimated to contain 300 million barrels of oil. Backers of the project argue it could create thousands of jobs and support the country’s energy security in an increasingly unstable world.

Opponents claim it is incompatible with the UK’s climate targets and would do little to lower bills because most of the oil extracted from it would be exported.

The field was initially approved by the Conservative government in 2023, but Scotland’s court of session later found that decision unlawful, deeming that its full environmental impact had not been considered.

A revised application has since been submitted and the final decision will rest with Ed Miliband, who has faced pressure from politicians and industry to approve the project.

Analysis by WWF Norway previously estimated a further $300m (£222m) could flow to Delek if Rosebank goes ahead. Ithaca is expected to make a final decision on whether to try and develop the Cambo field either this year or in 2027.

“If the UK Government chooses to green light Rosebank, it would be a morally reprehensible decision that turns a blind eye to the fact that the project could bolster Delek’s activities in the Occupied Palestinian Territories,” Lauren MacDonald from the campaign group Stop Rosebank told The Ferret.

She continued: "There are many reasons why this toxic field should be stopped - but this is simply indefensible.

“The UK Government is well aware of these risks, and has even been warned that it could breach its own obligations under international law if it allows the field to go ahead.

"If the UK and Scottish governments are serious about creating a better world, they will pull the plug on Rosebank for good and ensure no further profits flow from our North Sea to Delek.”

Ithaca has not publicly commented on Delek’s links to the West Bank but has pointed out that it is a London stock exchange listed company and claims to be “governed by the highest standards of corporate governance”.

“Ithaca is one of the biggest investors in the North Sea and Scotland, is a responsible employer and is a major contributor to both the UK Treasury through tax payments and the UK’s energy security,” it told us in response to a story last August.

The UK Government also failed to respond to a request for comment. It previously said in regard to Rosebank that it cannot comment on individual projects.

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

The Young Gods - Figure sans nom


“Figure sans nom” é uma faixa da banda suíça The Young Gods, lançada como single em novembro de 2018 e incluída no álbum Data Mirage Tangram de 2019. A música apresenta uma sonoridade característica do grupo, misturando elementos industriais e alternativos com uma atmosfera intensa e evocativa. A letra, poética e enigmática, descreve uma “figura sem nome” que dança e revela seu verdadeiro rosto, sugerindo a ideia de alguém emergindo do anonimato ou descobrindo a sua identidade. No contexto do álbum, que aborda temas como sobrecarga de informação, tecnologia e ilusões modernas, a faixa pode simbolizar o momento de despertar de uma pessoa ou entidade que se distingue das miragens de um mundo saturado de dados e aparências. Embora não exista uma interpretação oficial, a canção reflete o estilo maduro da banda nesta fase, combinando peso e complexidade sonora e mostrando que, mesmo décadas após a sua formação, os Young Gods continuam a reinventar sua identidade musical com coragem e originalidade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O que a Grokipedia diz sobre Sánchez ou Feijóo? As diferenças entre a nova enciclopédia de Elon Musk e a Wikipédia tradicional


"Diga a verdade, toda a verdade e nada além da verdade." Sob esse lema, o bilionário Elon Musk anunciou o lançamento da Grokipedia , uma nova enciclopédia online gratuita com a qual espera desafiar a Wikipédia, que ele criticou em diversas ocasiões por ser, em sua opinião, excessivamente tendenciosa em relação à ideologia woke e aos princípios progressistas . Lançada esta semana com mais de 800 mil artigos (ainda muito longe dos mais de 7 milhões que a Wikipédia possui em inglês), a intenção de Musk é expandir seu acervo usando seu modelo de Inteligência Artificial (Grok) e, aos poucos, conquistar a adesão dos usuários.

Por ora, as diferenças e nuances ideológicas já são mais do que evidentes em alguns artigos, a começar por aquele que se refere ao próprio Musk. Segundo a Wikipédia, ele "apoia figuras, causas e partidos políticos de extrema-direita em todo o mundo", enquanto para a Grokipedia, ele "influenciou debates mais amplos sobre progresso tecnológico, declínio demográfico e vieses institucionais (...) em meio a críticas da media tradicional, que apresenta uma cobertura consistentemente de esquerda".

Essas inconsistências também são observadas em artigos que fazem referência a Donald Trump, Joe Biden e outras figuras públicas, como George Floyd , cuja morte nas mãos da polícia desencadeou uma onda de protestos antirracistas nos EUA . Sobre Floyd, a Wikipédia inicia seu artigo afirmando que ele "era um homem afro-americano que foi morto por um policial branco em Minneapolis" após ser preso "depois que um funcionário de uma loja suspeitou que Floyd estivesse usando uma nota falsa de 20 dólares". A introdução da Grokipedia é bem diferente: "Ele era um americano com uma longa ficha criminal que incluía condenações por roubo à mão armada, posse de drogas e furto no Texas, de 1997 a 2007".

Existem também diferenças nas definições do movimento feminista Me Too ou simplesmente na palavra "gênero" em referência ao sexo biológico de uma pessoa. De acordo com a Wikipédia, "género é o conjunto de aspectos sociais, psicológicos, culturais e comportamentais de ser homem (ou masculino), mulher (ou feminina) ou um terceiro género", e enfatiza que "embora o género frequentemente corresponda ao sexo biológico, uma pessoa transgénero pode se identificar com um género diferente do sexo que lhe foi atribuído ao nascer". A Grokipedia, por outro lado, afirma que "género se refere à classificação binária dos seres humanos como masculino ou feminino de acordo com seu sexo biológico, definido pelo tipo de gâmetas produzidos e pela anatomia reprodutiva associada". Afirma ainda que "evidências empíricas apoiam o sexo biológico como um binário estrito em humanos, com distúrbios do desenvolvimento sexual (condições intersexuais) afetando aproximadamente 0,018% dos nascimentos e representando anomalias de desenvolvimento, e não terceiros sexos viáveis".

Mas as diferenças entre a Grokipedia e a Wikipédia também são evidentes em artigos que se referem à Espanha , a começar pelo que menciona o primeiro-ministro, Pedro Sánchez. Aqui estão alguns exemplos (comparando a versão em inglês da Wikipédia, já que a Grokipedia está disponível apenas em inglês):

Pedro Sánchez
O artigo da Grokipedia enfatiza, em seus parágrafos iniciais, que sob sua liderança, a Espanha experimentou um "crescimento do PIB superior à média da zona do euro nos últimos anos", mas também cita sua "relutância em cumprir as metas de gastos com defesa da OTAN , o que diferencia a Espanha de seus aliados em termos de compromissos de segurança". Menciona ainda "as recentes investigações de corrupção envolvendo sua esposa" e que ele aceitou uma lei de anistia "para permanecer no poder".

A Wikipédia, por outro lado, não menciona as investigações judiciais sobre o círculo de Sánchez até depois dos primeiros 20 parágrafos e salienta que as acusações contra a sua esposa foram feitas pelos Manos Limpias, "um sindicato de extrema-direita".

Alberto Núñez Feijóo
No caso de Alberto Núñez Feijóo, a Wikipédia menciona, em seus parágrafos iniciais, a infame foto dele com o narcotraficante Marcial Dorado , "amplificada por adversários políticos durante a campanha de 2023", e indica posteriormente que o líder do PP "negou qualquer irregularidade, afirmando que os contatos foram casuais e anteriores à sua presidência, e que não havia acusações legais contra ele". A Wikipédia, que dedica cinco parágrafos a essa fotografia em sua versão em espanhol, mal a menciona em inglês, afirmando apenas que "em 2013, membros da oposição pediram sua renúncia após a publicação de fotografias de meados da década de 1990 nas quais ele aparecia com Marcial Dorado, que mais tarde foi condenado por narcotráfico".
Santiago Abascal

A Wikipédia o define como "um político espanhol que é presidente do Vox, um partido político de extrema-direita, desde 2014", enquanto a Grokipedia não menciona o Vox e afirma que ele o fundou "para defender a unidade constitucional espanhola, o controle rigoroso da imigração ilegal, a defesa das estruturas familiares tradicionais e o liberalismo econômico", além de mencionar que ele recebeu "duras críticas da grande mídia e de instituições de esquerda".

Arnaldo Otegi
"Na sua juventude, foi membro da ETA, uma organização armada separatista, e foi condenado. Participou ativamente nas negociações de paz malsucedidas em Loyola e Genebra em 2006, bem como nas negociações subsequentes que culminaram no cessar-fogo definitivo da ETA em 2011 e no seu desarmamento completo em 2017", afirma a Wikipédia no seu primeiro parágrafo. No entanto, as ligações do líder do EH Bildu à ETA são detalhadas muito mais extensivamente na Wikipédia: "Ele é um político separatista basco e antigo membro da ETA , o grupo armado nacionalista basco responsável por mais de 800 mortes na sua campanha pela independência de Espanha. Juntou-se à ETA na adolescência, durante a transição espanhola para a democracia na década de 1970, participou nas suas operações de comando e fugiu para França em 1977 para evitar a prisão, antes de ser encarcerado pelo seu envolvimento num rapto."

Franco
Ambas as enciclopédias online definem Franco como um ditador, embora a Grokipedia afirme que sua liderança "pôs fim à instabilidade política e à violência revolucionária da Segunda República Espanhola , que testemunhou greves generalizadas, incêndios de igrejas e assassinatos cometidos por milícias de esquerda".

Ler mais: 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Faixa de Gaza. "O genocídio, ao que parece, é lucrativo", denuncia relatora da ONU"


"Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio" é o título do mais recente relatório que Francesca Albanese vai apresentar, esta semana, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. A relatora especial da ONU para a situação dos Direitos Humanos na Palestina conclui que o genocídio levado a cabo por Israel em Gaza está a ser "lucrativo" para muitas multinacionais de setores como tecnologia, bancos e armas. 

O documento menciona mais de 60 empresas, incluindo grandes fabricantes de armas e tecnologia (Microsoft, Alphabet Inc. e Amazon), pelo apoio que têm dado à instalação de colonatos judeus e às operações militares em Gaza. 

Estas ações são referidas como parte de uma "campanha genocida". 

Também são mencionadas Caterpillar Inc e HD Hyundai, cujos equipamentos contribuíram para a destruição de propriedades palestinianas. São alguns nomes referidos no mesmo documento em que a relatora pede que as empresas interrompam as relações comerciais com Israel e que os dirigentes e executivos das mesmas sejam responsabilizados por “violações do Direito Internacional”. 

“Enquanto líderes políticos e governos se esquivam das suas obrigações, muitas entidades corporativas lucraram com a economia israelita de ocupação ilegal, apartheid e, agora, genocídio”, denuncia o documento. 

Francesca Albanese sublinha a urgência em exigir responsabilidades porque “a autodeterminação e a própria existência de um povo estão em jogo”.“Este é um passo necessário para pôr fim ao genocídio e desmantelar o sistema global que o permitiu”, está escrito no documento de 27 páginas. 

O relatório que Francesca Albanese apresenta esta semana, em Genebra, foi partilhado pela própria na mensagem que partilhou na rede social X. “Isto não é o negócio de sempre. O meu novo relatório da ONU, Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio, foi publicado hoje. Ele revela como as corporações alimentaram e legitimaram a destruição da Palestina. O genocídio, ao que parece, é lucrativo. Isto não pode continuar, a responsabilização deve ser o resultado”. 

“A cumplicidade exposta pelo relatório é apenas a ponta do icebergue”, admite o relatório de Francesca Albanese. O relatório foi elaborado com base em mais de 200 contribuições de Estados, defensores de Direitos Humanos e académicos. Francesca Albanese, que está mandatada pelo Conselho dos Direitos Humanos da ONU, mas que não fala em nome da organização, é uma das vozes mais críticas da guerra de Israel em Gaza. 

Francesca Albanese foi também uma das primeiras vozes a classificar a guerra de Israel contra a população palestiniana como "genocídio". 

Ainda na terça-feira, os Estados Unidos pediram ao secretário-geral da ONU que expulse Francesca Albanese do cargo de relatora especial para a situação dos direitos humanos na Palestina, alegando "má conduta". Washington considerou ainda que as alegações de Albanese de que Israel está a cometer genocídio em Gaza e a envolver-se num sistema de 'apartheid' "são falsas e ofensivas".

Porque é que o genocídio palestiniano continua? Porque é lucrativo



The United Nations special rapporteur on the situation of human rights in the occupied Palestinian territory (oPt) has released a new report mapping the corporations aiding Israel in the displacement of Palestinians and its genocidal war on Gaza, in breach of international law.

Francesca Albanese’s latest report, which is scheduled to be presented at a news conference in Geneva on Thursday, names 48 corporate actors, including United States tech giants Microsoft, Alphabet Inc. – Google’s parent company – and Amazon. A database of more than 1000 corporate entities was also put together as part of the investigation.

“[Israel’s] forever-occupation has become the ideal testing ground for arms manufacturers and Big Tech – providing significant supply and demand, little oversight, and zero accountability – while investors and private and public institutions profit freely,” the report said.

“Companies are no longer merely implicated in occupation – they may be embedded in an economy of genocide,” it said, in a reference to Israel’s ongoing assault on the Gaza Strip. In an expert opinion last year, Albanese said there were “reasonable grounds” to believe Israel was committing genocide in the besieged Palestinian enclave.

The report stated that its findings illustrate “why Israel’s genocide continues”.

“Because it is lucrative for many,” it said.

Ontem, os meios de comunicação em Portugal, reproduziram notícias de agências internacionais, titulando: “EUA pedem expulsão de Francisca Albanese da ONU.” Nenhum concedeu acrescentar algo mais próximo da verdade como: “EUA pedem expulsão de relatora da ONU, por causa de documento comprometedor." Ou, pronto, vá, qualquer coisa como: “EUA pedem expulsão de Albanese: em causa relatório que compromete inúmeras multinacionais e Israel.”

Porque é disso que se trata. Na próxima quinta, a relatora especial para a situação dos direitos humanos na Palestina, vai apresentar um documento que conclui que o genocídio que está a ser levado a cabo por Israel é lucrativo para muitas multinacionais de setores como a tecnologia, bancos e armas. É contundente e avassalador. Discorre sobre as fundações da economia global e a relação com os acontecimentos em Gaza. Daí que, claro, os EUA, e não só, tentem agora, numa jogada de antecipação, desacreditá-la, falando em “má conduta” e, pondo em causa, inclusive, o seu carácter, as qualificações e outras coisas que tais, numa manobra recorrente nestes casos.

O relatório está aqui para quem quiser ler. Detalha a responsabilidade de dezenas de empresas, com nomes e apelidos. Todos sabemos dos condicionalismos das redes, mas se existe algo que podemos fazer neste momento, é disseminar este documento.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Amplifying misinformation is now part of radical right strategy


Far-right populists are significantly more likely to spread fake news on social media than politicians from mainstream or far-left parties, according to a study which argues that amplifying misinformation is now part and parcel of radical right strategy.

“Radical right populists are using misinformation as a tool to destabilise democracies and gain political advantage,” said Petter Törnberg of the University of Amsterdam, a co-author of the study with Juliana Chueri of the Dutch capital’s Free University.

“The findings underscore the urgent need for policymakers, researchers, and the public to understand and address the intertwined dynamics of misinformation and radical right populism,” Törnberg added.

The research draws on every tweet posted between 2017 and 2022 by every member of parliament with a Twitter (now X) account in 26 countries: 17 EU members including Austria, France, Germany, the Netherlands and Sweden, but also the UK, US and Australia.

It then compared that dataset – 32m tweets from 8,198 MPs – with international political science databases containing detailed information on the parties involved, such as their position on the left-right spectrum and their degree of populism.

Finally, the researchers scraped factchecking and fake news-tracking services to build a dataset of 646,058 URLs, each with an associated “factuality rating” based on the reliability of its source – and compared that data with the 18m URLs shared by the MPs.

By crunching all the different datasets together, the researchers were able to create what they described as an aggregate “factuality score” for each politician and each party, based on the links that MPs had shared on Twitter.

The data showed conclusively that far-right populism was “the strongest determinant for the propensity to spread misinformation”, they concluded, with MPs from centre-right, centre-left and far-left populist parties “not linked” to the practice.

Far-right populist parties such as Germany’s Alternative für Deutschland (AfD), the National Rally (RN) in France and the Dutch Freedom party (PVV) have made major gains across Europe in recent years and are in government in several countries.

The researchers noted that they would not be able to expand their dataset of MPs’ posts on X because the platform – now owned by the US billionaire Elon Musk, who has made no secret of his support for far-right parties – no longer offers data access.

Recent research suggests most people do not consume or share misinformation – defined as the unintentional and the deliberate sharing of false information – which instead was heavily concentrated in particular electoral groups, the study said.

The research suggested that rather than the anti-elitism of populists generally, it was “the exclusionary ideologies and hostility towards democratic institutions of radical right populism” that lay behind most misinformation campaigns, Törnberg said.

Misinformation was less useful to far-left populists, who focus more on economic grievances, but far-right populists’ emphasis on cultural grievances and opposition to democratic norms was “fertile ground” for misinformation, the authors said.

The study also highlighted the “symbiotic relationship” between far-right populists and “alternative” media. “Radical-right populists have been effective in creating and utilising alternative media ecosystems that amplify their viewpoints,” Törnberg said.

Those ecosystems were amplifying misinformation and shaping far-right populist movements, he said, strengthening their ideological messages, creating a sense of community among voters, and providing a counter-narrative to mainstream media.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Taxa recorde de aumento de CO2 atmosférico


Dados do satélite Copernicus: recorde de CO2 atmosférico a aumentar taxa recorde, salto de 2022. Sem resposta - portanto, a taxa de aumento recorde continuará até à catástrofe planetária.
Consultar IPCC

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

CSDDD Datahub reveals law covers fewer than 3,400 EU-based corporate groups


Like the European Commission, SOMO has identified approximately 7,000 companies that currently meet the threshold criteria of the EU Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD). However, many of these companies are part of a corporate group containing several subsidiaries or holding companies that operate under the same umbrella. Data analysis by SOMO – based on companies’ most recent reported revenues and employee figures – shows that in practice, the CSDDD will cover only 4,280 corporate groups, of which just under 3,400 are based in the EU. For example, within these 7,000 companies, there are several corporate groups, of which over ten subsidiary companies meet the threshold criteria individually (e.g. several car manufacturers and supermarkets).

This means that the actual number of corporations that will have to implement the CSDDD is substantially lower than the European Commission’s simple count of companies would suggest. While standardised statistics on the number of corporate groups in the EU do not appear to be available, previous SOMO research showed that the CSDDD would only cover less than 0.1 per cent of all companies in the EU.

SOMO’s analysis shows that the actual coverage of the CSDDD is, in practice, even smaller. It also shows that claims about the CSDDD having an enormous impact on the EU economy simply do not match the reality of the extremely small number of companies that will be within the scope of the law. In February 2025, the European Commission is set to publish an omnibus legislative proposal to amend three key pillars of the European Green Deal: the CSDDD, the Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), and the Taxonomy Regulation. It is crucial that the Commission refrain from reinforcing false narratives about the supposed burdensome impact of the CSDDD on the EU economy as a disguise for deregulatory policies that boost corporate profits at the expense of people and the planet

Ample preparation time for companies
The CSDDD will enter into force in three phases. 31 per cent of the corporate groups SOMO has identified will have to comply with the CSDDD in 2027, followed by 18 per cent in 2028. Over 50 per cent of the corporate groups will only meet the threshold criteria in 2029, leaving them with no less than 4.5 years to prepare for compliance with the law.

CSDDD coverage: key sectors
The companies covered by the CSDDD mainly operate in the manufacturing (24.6%), services (19.1%), and wholesale and retail (16.2%) sectors. Notably, one out of every five companies that will have to comply with the CSDDD is a provider of financial services, though the holding companies of many corporate groups are included in this category. The CSDDD largely exempts financial institutions such as banks and insurers from the obligation to conduct due diligence on adverse impacts associated with their investments and financial services, which makes the total number of corporate groups directly affected by the CSDDD’s obligations even smaller in practice.

Breaking down barriers: access to information and corporate accountability
In countries that already have corporate accountability legislation in place, not knowing which companies fall within the scope of the law has been a crippling obstacle for civil society and workers to effectively hold companies to account for their impacts on human rights, the environment, and the climate. The purpose of SOMO’s CSDDD Datahub is to break down this barrier and make it possible to identify whether companies, suppliers, or buyers can be held accountable under the CSDDD.

About SOMO’s CSDDD Datahub
SOMO has compiled the Datahub based on data from Moody’s Orbis, supplemented with data from the LSEG Workspace and Company.info databases, national business registries, and the annual accounts and websites of companies. The Orbis database was also used by the European Commission and Wageningen University & Research to map companies covered by the CSDDD. While SOMO has aimed to ensure the Datahub is as complete and accurate as possible, these data sources have their limitations. In particular with regard to non-EU companies, the list is incomplete. SOMO is planning to update the CSDDD Datahub on a regular basis.

SOMO also provides pro bono research to activists, communities, trade unions, journalists, and others on corporate structures and supply chains through The Counter.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Curta-metragem: Life after fire (Vida após incêndios)


Animated short of the article "What is the value of biotic seed dispersal in post-fire forest regeneration?", published in Conservation Letters.  
This research results from work developed with the "Life After Fire" project, which was created after the 2017 fires in Portugal with the aim of understanding the importance of seed dispersal in the recovery of forests after a fire.

domingo, 14 de julho de 2024

Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial


Recentemente em 2022, na sequência de um massacre numa escola dos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump discursou na convenção da poderosa Associação Nacional do Rifle (NRA), principal financiadora do lobby das armas no país, e afirmou que a melhor solução contra a violência é armar ainda mais a população.
De 2021 a 2023 houve mais de 600 tiroteios em massa nos EUA, quase dois por dia em média, segundo a organização americana GunViolence.
Devido ao porte de arma generalizado nos EUA, de 2021 a 2023 morreram quase 60.000  pessoas no país (excluindo suicídios com recurso a arma), o que dá a espantosa média de quase 20.000 mortes por ano nos três últimos anos.
Desses 60.000 cerca de 4800 eram crianças ou adolescentes, o que dá uma média de 1.600 mortes dentro dessas faixas etárias nos três últimos anos.
Já os suicídios com uso de arma de fogo rondam em média as mais de 26.000 mortes nos três últimos anos, ou seja, cerca de 78.000 pessoas suicidaram-se nos EUA nestes três últimos anos recorrendo a armas de fogo.
De 2021 a 2023, armas de fogo foram directamente responsáveis por quase 140.000 mortes nos EUA!
Para termos uma noção, morreram nas duas guerras do Iraque cerca de 9.000 soldados americanos. No Afeganistão morreram cerca de 2.400.
Cerca de 36.500 soldados americanos morreram durante a Guerra da Coreia. 
Aproximadamente 58.220 soldados americanos morreram na Guerra do Vietname.
116.516 soldados americanos morreram durante a Primeira Guerra Mundial.
Apenas na segunda guerra mundial morreram mais americanos do que nos EUA em tempo de paz de 2021 a 2023. Nesse conflito cerca de 405.000 soldados americanos morreram, estando nós a falar do conflito mais mortífero alguma vez ocorrido no planeta.
Se no entanto alargarmos esta estatística para os últimos dez anos, aproximadamente 400.000 americanos morreram devido a armas de fogo, considerando homicídios, suicídios e acidentes.
Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Alterações climáticas aceleram aparecimento de insetos na região alpina


Os investigadores do Centro de Ecossistemas de Água Doce da Universidade de La Trobe revelaram as consequências ocultas das alterações climáticas nos ecossistemas dos riachos alpinos, que poderão assistir a um aparecimento mais precoce de insetos.

O estudo, liderado pelo Professor Sénior de Ambiente e Genética, Michael Shackleton, centrou-se nos riachos em torno de Falls Creek e projetou alterações significativas nas temperaturas da água decorrentes do aquecimento climático e do seu impacto na vida aquática.

Verificou-se que a taxa de acumulação de temperatura ao longo dos anos irá aumentar, o que provavelmente influencia a forma como os organismos crescem e se desenvolvem.

“Estas alterações podem ter um impacto significativo nos organismos aquáticos, em especial nos que emergem dos cursos de água alpinos no outono e nas redes alimentares que servem”, afirmou Shackleton.

“No futuro, os organismos do final da estação poderão emergir dos sistemas fluviais para temperaturas do ar até 12 graus mais elevadas do que as que registam atualmente”, explicou.

“Como resultado, esperamos que os insetos, em particular, emerjam mais cedo no ano porque terão ganho energia térmica suficiente para se tornarem adultos mais cedo”, acrescentou.

Os investigadores utilizaram técnicas de modelação sofisticadas e analisaram dados anteriores sobre a temperatura da água para prever as futuras temperaturas da água dos cursos de água em cenários de alterações climáticas.

O estudo apela urgentemente a esforços de conservação proactivos para mitigar os impactos das alterações climáticas nos ecossistemas vulneráveis.

“Uma vez que os climas mais quentes influenciam o metabolismo dos insectos, a disponibilidade de recursos alimentares e de locais de postura de ovos, bem como o potencial reprodutivo, há profundas implicações para as estruturas e o funcionamento dos ecossistemas”, afirmou Shackleton.

“As espécies aquáticas que amadurecem e se deslocam para terra representam um importante fluxo de energia e nutrientes, mas as alterações do ciclo de vida dos diferentes animais podem separar as interações entre predadores e presas”, acrescentou.

“Este aparecimento precoce de insetos é apenas um exemplo de como as alterações climáticas estão a remodelar o nosso mundo natural”, concluiu.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Nature’s Warning: Early Signs in Marine Life Predicting the Next Mass Extinction


A study using foraminifera fossils suggests that shifts in marine community structures can predict future extinctions, highlighting the role of historical data in forecasting climate change impacts on biodiversity.

For hundreds of millions of years, single-celled organisms known as foraminifera, which are microscopic and hard-shelled, have thrived in the oceans. These tiny creatures form the foundation of the food chain. The fossils of these ancient organisms provide insights into potential shifts in global biodiversity linked to our warming climate.

Using a high-resolution global dataset of planktonic foraminifera fossils that are among the richest biological archives available to science, researchers have found that major environmental stress events leading to mass extinctions are reliably preceded by subtle changes in how a biological community is composed, acting as a pre-extinction early warning signal.

The results are in Nature, co-led by Anshuman Swain, a Junior Fellow in the Harvard Society of Fellows, a researcher in the Department of Organismic and Evolutionary Biology, and an affiliate of the Museum of Comparative Zoology. A physicist by training who applies networks to biological and paleontological data, Swain teamed with co-first author Adam Woodhouse at the University of Bristol to probe the global, community structure of ancient marine plankton that could serve as an early warning system for future extinction of ocean life.

“Can we leverage the past to understand what might happen in the future, in the context of global change?” said Swain, who previously co-authored a study about the formation of polar ice caps driving changes in marine plankton communities over the last 15 million years. “Our work offers new insight into how biodiversity responds spatially to global changes in climate, especially during intervals of global warmth, which are relevant to future warming projections.”

Leveraging Historical Data for Future Predictions
The researchers used the Triton database, developed by Woodhouse, to ascertain how the composition of foraminifera communities changed over millions of years – orders of magnitude longer time spans than are typically studied at this scale. They focused on the Early Eocene Climatic Optimum, the last major period of sustained high global temperatures since the dinosaurs, analogous to worst-case global warming scenarios.

They found that, before an extinction pulse of 34 million years ago, marine communities became highly specialized everywhere but southern high latitudes, implying that these micro-plankton migrated en masse to higher latitudes and away from the tropics. This finding indicates that community-scale changes like the ones seen in these migration patterns are evident in fossil records long before actual extinctions and losses in biodiversity occur.

The researchers thus think it’s important to place emphasis on monitoring the structure of biological communities to predict future extinctions.

According to Swain, the results from the foraminifera studies open avenues of inquiry into other organismal groups, including other marine life, sharks, and insects. Such studies may spark a revolution in an emerging field called paleoinformatics, or use large spatiotemporally resolved databases of fossil records to glean new insights into the future of Earth.

Reference: “Biogeographic response of marine plankton to Cenozoic environmental changes” by Anshuman Swain, Adam Woodhouse, William F. Fagan, Andrew J. Fraass and Christopher M. Lowery, 17 April 2024, Nature.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Computação quântica e criptografia


Um artigo altamente recomendado da Reuters, “ EUA e China correm para proteger os segredos dos computadores quânticos ” , explora a corrida entre a China e os Estados Unidos para poder começar a usar a computação quântica para quebrar sistemas de criptografia criptográfica, pelo poder de forma praticamente ilimitada e, inversamente, considerando como proteger os seus repositórios de informação estratégica de tecnologias capazes de decifrá-la.

O artigo e o infográfico que o acompanha são abertos e vão um pouco além da simplicidade com que muitos usam o argumento de que “assim que chegarem os computadores quânticos, a criptografia será inútil e todos poderemos acessar toda a informação”. na realidade, a chamada criptografia quântica não é tão simples nem tão imediata como alguns tentam propor, não se reduz simplesmente a um suposto ataque de força bruta com poder ilimitado, e claro, o avanço da tecnologia já propõe modelos de pós -computação quântica capaz de resistir a este tipo de desenvolvimentos (que, por outro lado, ainda estão longe de serem estáveis ​​ou de poderem ser utilizados de forma sistemática).

Estamos a falar de uma disciplina da qual o seu proponente mais representativo, Richard Feynman , chegou ao ponto de dizer "Acho que posso dizer com segurança que ninguém entende a mecânica quântica", uma afirmação que provavelmente ainda é verdadeira hoje, trinta e seis anos depois. após sua morte. . É claro que veremos avanços nesta área e tempos como o atual, em que as superpotências tentam acessar todo tipo de informação criptografada com a ideia, sobretudo, de poder armazená-la para descriptografá-la quando os computadores quânticos e as metodologias para isso estão suficientemente desenvolvidos. Alguns afirmam, de facto, que tudo o que circula nas redes é encriptado – uma percentagem crescente de todo o tráfego, dada a popularização do protocolo HTTPS com atores como Let’s Encrypt , que permitem que até o tráfego gerado por esta humilde página seja encriptado – pode em algum momento será decifrado, o que leva alguns a ficarem obcecados em capturar tudo para quando esse dia chegar. Será por causa do trânsito!

Porém, devemos propor uma visão dinâmica da tecnologia, e entender que assim que a criptografia quântica atingir uma certa maturidade, veremos a implementação, por tudo que a justifique, da criptografia pós-quântica. O chamado Dia Q é frequentemente referido como o dia do advento da quebra de código através da computação quântica e alguns, de facto, situam-no em algum momento entre o próximo ano e meados do século , mas o desenvolvimento de metodologias capazes é normalmente ignorado para resistir ao tipo de ataque imposto pela computação quântica , uma área em que já existem numerosos desenvolvimentos que não são implementados, simplesmente porque representam uma mudança complexa e ainda não são considerados necessários.

Já há alguns anos, sempre que menciono algo relacionado à criptografia, tenho que responder à pergunta sobre o que acontecerá quando a computação quântica atingir a maturidade, e minha resposta sempre foi a mesma: as tecnologias não amadurecem da noite para o dia muito menos – e, quando o fazem, por sua vez, permitem-nos confiar no seu desenvolvimento para fazer avançar todas as disciplinas relacionadas. A objeção, portanto, não é tão simples nem tão imediata. Ainda temos criptografia por um tempo.

Vingança e veneno: artistas contra IA generativa



Quando o Dall·E foi introduzido, e logo depois, outros algoritmos generativos de processamento de imagens, como Midjourney ou Stable Diffusion, seus problemas rapidamente se tornaram aparentes : as empresas que os criaram acumularam enormes coleções de imagens marcadas com descrições e as usaram. para treiná-los.

Onde eles conseguiram essas enormes coleções de imagens? Fundamentalmente, raspar páginas da web que os continham, especialmente repositórios de imagens. A reclamação do repositório Getty Images contra o Stable Diffusion reflete claramente o problema: a coleta de suas imagens era tão evidente que em muitos casos as imagens geradas continham versões distorcidas de sua marca d'água, porque o algoritmo a interpretava como outra parte da imagem.

O problema jurídico era óbvio: passamos anos dizendo que se algo for público na web pode estar sujeito a raspagem . Existem precedentes legais de todos os tipos que afirmam o direito de alguém acessar um site aberto ao público e utilizar todo o seu conteúdo para os fins que achar conveniente. Pela sua complexidade, o caso em questão pode levar anos e acabar no Supremo Tribunal Federal e, enquanto isso, os artistas cujas imagens foram utilizadas para treinar algoritmos veem como suas criações podem ser facilmente imitadas, ou como alguém pode simular seu estilo para faça novas imagens.

Diante da dificuldade da ação judicial, alguns artistas iniciaram outro tipo de vingança : criar imagens tratadas com software que introduz nelas alterações invisíveis para confundir os algoritmos , da mesma forma que é utilizada, por exemplo, para "anonimizar" fotografias e evitar seu uso por algoritmos de reconhecimento facial

Batizado de Nightshade em homenagem à Atropa belladonna , planta que causa alucinações, o algoritmo permite a publicação de fotografias alteradas que geram no algoritmo descrições diferentes do seu conteúdo real, o que faz com que o algoritmo fique confuso em seus resultados e ofereça imagens que não o fazem. existem. Eles são o que o usuário solicitou.

O resultado equivale a envenenar os repositórios com imagens que continuam a cumprir a sua função – o utilizador normal pode vê-las e escolhê-las para ilustrar o que quiser, respeitando as condições estabelecidas pelos artistas – mas que, se ingeridas por um algoritmo, dão dar origem a "alucinações" que distorcem o seu funcionamento. Quanto mais “envenenadas” as imagens, mais imprevisível se torna o algoritmo, obrigando as empresas a estabelecer mecanismos de monitorização dos conteúdos que utilizam para formação, aumentando consideravelmente os seus custos.

Na prática, um alerta para quem cria este tipo de ferramentas, que está por trás de muitos dos problemas que notamos na sua utilização: se você alimentar o seu algoritmo com lixo, ele vai gerar lixo. Em muitos casos, estamos a falar de uma indústria que está a tentar ir demasiado rápido, que precisa de oferecer resultados muito rapidamente para se justificar perante os seus investidores, e isso significa que estes acabam por utilizar informações inadequadas que nunca deveriam servir de base a qualquer treinamento, o que torna seus algoritmos potencialmente menos confiáveis. Basicamente, “entra lixo, sai lixo ” . Nessas coisas, como no ensino de uma criança, a pressa não é o melhor conselheiro.

Na prática, nada pode impedir um artista de tratar suas criações como bem entender, da mesma forma que até agora se acreditava que nada poderia impedir uma empresa de raspar todo o conteúdo de um repositório e utilizá-lo para treinar um algoritmo. Mas sobre estas questões há poucas verdades absolutas, e quando surge um novo uso, é comum que aqueles conceitos que assim pareciam sejam revistos, como comprovam as intenções de alguns artistas – e sobretudo, daqueles que gerem os seus direitos de autor –. a serem compensados ​​​​quando suas imagens forem usadas para treino de algoritmos.

Veremos como isto termina.

domingo, 15 de outubro de 2023

Estamos a viver sob o tecnofeudalismo?


Imagine um futuro próximo em que a Amazon comece a licitar contratos municipais de saneamento e esgoto. A empresa desenvolveu latas de lixo, camiões e tubulações com sensores, de modo que possa gerar dados valiosos a partir dos resíduos da sociedade. As localidades correm para adotar esses novos serviços públicos e as economias de custos associadas. Numa tal situação, poderíamos sentir-nos como meros vassalos do império Bezos , espalhando cada vez mais informações para seu eventual lucro.

Esta é a visão subjacente à tese do tecnofeudalismo, que sustenta que o capitalismo do século XXI foi substituído por um novo sistema económico supervisionado pela Big Tech. No centro do argumento está a ideia de que os capitalistas de hoje não estão, em geral, a reinvestir os seus lucros para desenvolver novas capacidades para expandir a produção ou aumentar a produtividade do trabalho. Em vez disso, uma parcela cada vez mais ridícula do crescimento surge na forma de plataformas de vigilância com relações tênues com os trabalhadores que produzem widgets com fins lucrativos.

O modelo tecnofeudalista envolve o estabelecimento de uma posição de monopólio e a utilização de extracção de dados sofisticada para assegurá-la. “Tendo-se tornado indispensáveis”, escreve o economista francês Cédric Durand no seu livro Technoféodalisme: Critique de l'Économie Numérique de 2020 , “as plataformas devem ser pensadas como infra-estruturas, na mesma categoria dos fornecedores de electricidade, dos caminhos-de-ferro ou das telecomunicações”. Durand encontrou um veículo em língua inglesa na venerável New Left Review , que voltou a sua atenção editorial para o debate sobre o tecnofeudalismo. Os contribuidores da NLR passaram 2022 indo e voltando na tese, com Evgeny Morozov assumindo a posição de que isto ainda é mero capitalismo contra Durand , assim como Jodi Dean e Timothy Erik Ström .

Os escritores proclamaram o fim do capitalismo desde que o sistema existiu, mas a tese actual encontrou apoio incomum entre pensadores sérios de esquerda. Será este realmente o fim do modo de produção capitalista?


Vejo a tese tecnofeudalista emergindo do improvável livro de sucesso de 2018 da professora Shoshana Zuboff da Harvard Business School, The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power , mesmo que ela não use o termo. Uma crítica oportuna à Big Tech, o livro recebeu aplausos de instituições tradicionais como o New York Times , o Financial Times e Barack Obama. O livro de Zuboff oferece um modelo de “excedente comportamental”, no qual os monopolistas tecnológicos cultivam utilizadores para obter dados, que refinam e utilizam para manter a sua posição. Seu principal exemplo é o Google, que se destacou como empresa não tanto por projetar um algoritmo de busca melhor, mas por personalizar seus anúncios. Depois que esse avanço foi alcançado, as informações sobre as pessoas tornaram-se valiosas por si mesmas, quer fossem usadas para vendas específicas ou não. Zuboff e os seus seguidores na corrente tecnofeudalista acreditam que estas empresas - principalmente Google , depois Facebook , Microsoft e Amazon - transformaram a ladeira escorregadia da vigilância digital numa roda de hamster, num novo sistema de exploração que se autoperpetua.

Para aqueles de nós que hoje passam as horas de vigília interagindo constantemente, seja ativa ou passivamente, com dispositivos eletrónicos que registam e transmitem informações diretamente para as empresas mais valiosas do mundo, há uma ressonância na crítica tecnofeudalista: tecnicamente, gastamos menos tempo trabalhando para os nossos chefes do que informando sobre nós mesmos às empresas de tecnologia. E não importa para quem trabalhamos — ou se estamos empregados — estamos gerando valor para Bezos e Zuck. O oligopólio tecnológico não só regista perfeitamente as nossas preferências, hábitos e escolhas, como também utiliza esses dados para orientar as nossas escolhas futuras, tornando-nos cada vez mais úteis para as empresas tecnológicas e inúteis para nós próprios. Durand invoca o mundo do filme distópico de ficção científica Alphaville, de Jean-Luc Godard, de 1965 , no qual um computador senciente e ditatorial governa a sociedade até as decisões mais pessoais.

Aqui está o há muito temido mundo do controlo cibernético, no qual os ciclos de feedback gerem automaticamente a população, sem necessidade de escolhas reais. “A reposição humana dos fracassos e triunfos da afirmação da previsibilidade e do exercício da vontade face à incerteza natural dá lugar ao vazio da conformidade perpétua”, escreveu Zuboff num artigo para o Journal of Information Technology em 2015, pressagiando a linha tecnofeudalista. “Em vez de permitir novas formas contratuais, estes acordos descrevem o surgimento de uma nova arquitetura universal existente nalgum lugar entre a natureza e Deus, que batizo de Grande Outro.”

Os leitores do psicanalista francês Jacques Lacan ou do seu intérprete mais vendido, o filósofo Slavoj Zizek, podem ficar surpreendidos ao lerem que Zuboff, um consultor de gestão, reivindica o crédito por este termo. No uso de Lacan, L'Autre pode se referir à mãe, ao superego, ao analista, à linguagem, a toda a ordem simbólica e muito mais - não é diferente da “arquitetura universal existente em algum lugar entre a natureza e Deus” de Zuboff. Mas nesta reformulação, Mark Zuckerberg ocupa o seu lugar ao lado da Mãe e de Deus no panteão das entidades que tudo vêem e que tudo sabem.

Não tenho dúvidas de que é assim que Zuckerberg gostaria de ser visto, mas se ele é realmente tão poderoso, por que o Facebook está se debatendo tentando conseguir usuários para seu chamado metaverso ? De acordo com os tecnofeudalistas, não deveríamos ter escolha e, no entanto, quase toda a humanidade não está a colocar monitores nas nossas caras para passear em Zucklandia. E, aliás, os monopólios dos serviços públicos normalmente não perdem 40% da sua capitalização de mercado ao longo de oito meses.

Os tecnofeudalistas têm o mau hábito de repetir o exagero autopromocional da indústria. Embora estejam a mudar o tom da ingenuidade arregalada para o cepticismo e até mesmo o horror, concordam com Silicon Valley que os computadores e a sua interligação em redes revolucionaram o modo de produção. É verdade que os investidores apostaram muito dinheiro em empresas classicamente improdutivas como o Facebook, mas os capitalistas ainda dominam. A redução de custos é um sector em crescimento, que aumenta ainda mais os lucros das empresas , mesmo quando a produção desacelera . O Facebook é muito menos do que os tecnofeudalistas dizem que é: é uma plataforma de publicidade que arranca centavos do tempo perdido dos usuários – atenção que de outra forma seria desperdiçada, pelo menos do ponto de vista capitalista. Por trás de todas as afirmações sobre mudar o mundo com a tecnologia está uma equipa de catadores de lixo digitais.

Como o seu foco muda semestralmente, você pode datar quase qualquer crítica tecnofeudalista feita pelas afirmações ofegantes da indústria que ela cita. O capitalismo de vigilância tem apenas alguns anos, por exemplo, mas a preocupação de Zuboff sobre os planos do Facebook de migrar para vídeos orgânicos – uma estratégia notoriamente fracassada , baseada nas mentiras da empresa sobre o envolvimento dos utilizadores – já era discutível no momento da publicação. Se tudo o que os aspirantes a soberanos de criptomoedas e desenvolvedores imobiliários do metaverso disseram fosse verdade, poderíamos muito bem ser governados por ciberbarões, então é bom que eles estejam todos cheios de merda. Os verdadeiros proprietários da Internet nem são as empresas de tecnologia, como observa o pesquisador Daniel Greene num novo artigo ; são os fundos de investimento imobiliário que possuem a grande maioria dos data centers e as ligações entre eles. Quando você vai aos bastidores e chega aos cabos, o Google e a Amazon são locatários.

O problema de fazer do Grande Outro a base para um novo modo de produção é que isso é uma fantasia. L'autre n'existe pas , os franceses dizem: Deus está morto, a sua mãe e seu analista são meros seres humanos, e a ordem simbólica é um monte de gente vestindo um grande sobretudo. Não existe uma arquitetura universal entre a natureza e Deus – e definitivamente não é isso que o Facebook é. O Facebook também não é um serviço público. O Facebook é uma empresa de entretenimento outrora omnipresente, financiada por publicidade, assim como o programa de televisão Friends . Num nível mais básico, o Facebook é composto por servidores cheios de códigos degradantes e um bando de trabalhadores que recebem gritos de seus chefes. Se Mark Zuckerberg é um mago, ele é do tipo de Oz, como ele nos lembra constantemente, tropeçando na cortina como um idiota .

Como solução para as lutas de classes que animam a sociedade americana, recuperar o controlo dos nossos dados através da regulamentação não é tão diferente de acumular jornais ou mijar em frascos para manter os nossos resíduos fora das garras dos algoritmos de recolha de lixo da Big Tech. Então o que? Eles podem comer restos de dados, mas nós não. E é assim que você sabe que isso ainda é capitalismo: amanhã, temos que encontrar trabalho.

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