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domingo, 24 de maio de 2026

Homem, corço, prado: a mesma pele

Corço, fotografado em Groningen, Holanda
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.

Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.

Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.

Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.

Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.

Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.

Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ecologia Real: Por que a autonomia da natureza é a nossa própria essência


A imagem da pega-rabuda, empoleirada com altivez sobre o tronco rugoso e coberto de líquenes, funciona como um manifesto visual da ecologia profunda, desafiando a visão antropocêntrica que teima em colocar o ser humano no topo de uma hierarquia imaginária. Nesta perspectiva, a ave não existe para o nosso deleite ou utilidade; ela possui um valor intrínseco e o direito inalienável de florescer por si mesma. O contraste entre a sua plumagem alvinegra e o brilho iridescente das suas asas revela a sofisticação da vida selvagem, que opera sob as leis de uma liberdade universal muito mais antiga e vasta do que as convenções sociais humanas.

Ao integrarmos o conceito de liberdade universal na ecologia, compreendemos que a autonomia deste ser está indissociavelmente ligada à integridade do ecossistema que o acolhe. Não existe liberdade real num mundo fragmentado; a verdadeira emancipação ocorre quando reconhecemos que fazemos parte de uma teia interdependente, onde o destino da ave, da árvore e do homem é rigorosamente o mesmo. É, por isso, nosso dever ético transmitir às gerações seguintes o princípio de do no harm e o respeito absoluto pelos nichos ecológicos, garantindo que o legado da biodiversidade seja preservado. Este texto convida à reflexão de que proteger o espaço de existência desta criatura é um ato de preservação da nossa própria essência, celebrando uma existência onde cada ser vivo é um cidadão soberano da biosfera, livre para cumprir o seu papel evolutivo na complexa rede de interações e equilíbrios que sustenta a biosfera.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

segunda-feira, 16 de março de 2026

O Earthism e a Transição para uma Civilização Ecológica


A crise civilizacional que enfrentamos no século XXI — marcada pelas alterações climáticas, pela perda acelerada de biodiversidade e pela erosão dos tecidos sociais — não é apenas um problema técnico que se resolve com melhores painéis solares ou carros elétricos. Trata-se, fundamentalmente, de uma crise de identidade e de metafísica. No centro da resposta a este desafio surge o Earthism (ou Terrismo), uma filosofia e um movimento ético que propõe uma reorientação radical: a transição de uma visão antropocêntrica para uma visão ecocêntrica da existência.

A Génese do Terrismo: De Whitehead a Cobb Jr.
Para compreender o Earthism, é obrigatório passar pela figura de John B. Cobb Jr., filósofo e teólogo norte-americano que dedicou a sua vida a construir as bases de uma Civilização Ecológica. Cobb fundamentou o seu pensamento na Filosofia do Processo de Alfred North Whitehead. Segundo esta perspetiva, o universo não é uma coleção de objetos inertes e independentes, mas sim um fluxo contínuo de eventos e relações.

Nesta visão, a Terra não é um "armazém de recursos" à espera de ser explorado, mas um organismo vivo e dinâmico onde cada parte — do microrganismo ao ser humano — possui valor intrínseco. Ao contrário da visão mecânica da modernidade, o Earthism defende que a natureza é "experienciadora". Quando destruímos um ecossistema, não estamos apenas a perder matéria-prima; estamos a ferir a própria trama da vida da qual fazemos parte.

Earthism vs. Ecologia Profunda: Uma Distinção Necessária
É comum confundir o Terrismo com a Ecologia Profunda (Deep Ecology), popularizada por Arne Naess. Embora partilhem a crítica ao consumo desenfreado, as nuances são vitais. A Ecologia Profunda é, muitas vezes, uma filosofia secular e puramente biocêntrica que pode tender para uma visão misantrópica, vendo o ser humano como um intruso ou uma ameaça à "pureza" da natureza.

Já o Earthism de Cobb Jr. é profundamente humanista e integrador. Cobb não nega a singularidade humana; pelo contrário, ele afirma que, por sermos a parte da biosfera que atingiu a autoconsciência e a capacidade tecnológica, temos a responsabilidade ética de agir como "guardiões" da Terra. O Terrismo não pede o fim da civilização, mas a sua transformação total numa civilização que floresça em harmonia com os limites planetários.

A Economia como Subsidiária da Ecologia
Uma das maiores contribuições de Cobb para o movimento foi a sua colaboração com o economista Herman Daly. No seu livro seminal For the Common Good, ambos desmontaram o mito do crescimento económico infinito num planeta finito. Para um "Earthista", a economia atual é uma forma de loucura matemática: tratamos o capital natural (solo, água, ar) como se fosse inesgotável.

A proposta de Cobb e Daly é a substituição do PIB (Produto Interno Bruto) por indicadores que meçam o bem-estar real e a integridade ecológica. Defendem uma Economia para a Comunidade, onde a produção é local, circular e regenerativa. Aqui, o sucesso não é medido pela acumulação de riqueza abstrata, mas pela capacidade de uma comunidade sustentar a vida de forma digna e sustentável.

A Convergência com Outros Pensadores
O Earthism não é uma ilha intelectual. Ele converge com o pensamento de Thomas Berry, que nos instigou a realizar o "Grande Trabalho" de transição da era Cenozoica para uma era Ecozoica. Bebe também da Democracia da Terra de Vandana Shiva, que luta contra a privatização da vida e pela proteção das sementes e da biodiversidade no Sul Global.

Conclusão: O Regresso à Terra
Em última análise, ser um adepto do Earthism significa reconhecer que não somos "donos" de nada, mas sim "terrestres". É a compreensão de que a espiritualidade, a política e a economia devem estar ao serviço da comunidade da vida. Como John B. Cobb Jr. frequentemente afirmou, o nosso destino e o destino da Terra são um só. Se a Terra falhar, a humanidade falha; mas se aprendermos a viver como parte integrante deste superorganismo, poderemos finalmente construir uma civilização que seja digna desse nome.

Referências Bibliográficas
  1. Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Nova Iorque: Bell Tower.
  2. Cobb, J. B., Jr. (2010). Spiritual Bankruptcy: A Prophetic Call to Action. Nashville: Abingdon Press.
  3. Daly, H. E., & Cobb, J. B., Jr. (1994). For the Common Good: Redirecting the Economy toward Community, the Environment, and a Sustainable Future. Boston: Beacon Press.
  4. Naess, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  5. Shiva, V. (2005). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. Londres: Zed Books.
  6. Whitehead, A. N. (1929/1978). Process and Reality: An Essay in Cosmology. Nova Iorque: Free Press.

domingo, 15 de março de 2026

A filosofia de John Cobbe


O pensamento de John B. Cobb Jr. (nascido em 1925, Japão) representa uma das sínteses mais ambiciosas dos séculos XX e XXI entre a espiritualidade, a ciência e a economia. Como principal expoente da Teologia do Processo, Cobb baseou a sua visão de mundo na filosofia de Alfred North Whitehead (1861–1947), rejeitando a ideia de um universo estático composto por objetos isolados. Para ele, a realidade é um fluxo contínuo de eventos interconectados, onde cada ser é constituído pelas suas relações com os outros. Esta perspetiva alterou radicalmente a compreensão de Deus: em vez de um monarca onipotente e imóvel, o Deus de Cobb é uma presença sensível que sofre e se alegra com a criação, influenciando o mundo não pela coerção, mas pela persuasão em direção ao bem, à beleza e à vida.

Essa fundamentação filosófica levou Cobb a tornar-se um pioneiro da teologia ecológica. Ao compreender que o bem-estar humano é indissociável da saúde da biosfera, passou a criticar severamente o modelo de desenvolvimento industrial. A sua colaboração mais famosa neste campo ocorreu com o economista Herman Daly (1938–2022), com quem escreveu a obra seminal For the Common Good (1989). Juntos, desafiaram o uso do PIB como única métrica de progresso, argumentando que o crescimento económico cego ignora a degradação ambiental e a erosão das comunidades. Propuseram o Índice de Bem-Estar Económico Sustentável (ISEW), uma ferramenta prática para medir a economia sob uma ótica de preservação e justiça social.

Além de Daly, outros colaboradores foram fundamentais para a expansão deste sistema. Charles Hartshorne (1897–2000) forneceu o rigor lógico necessário para definir a natureza dipolar de Deus no processo, enquanto David Ray Griffin (1939–2022) trabalhou ao lado de Cobb na fundação do Center for Process Studies em 1973, consolidando a teologia do processo como uma alternativa viável à modernidade materialista. Cobb também se destacou no diálogo inter-religioso, especialmente com o Budismo, publicando Beyond Dialogue: Toward a Mutual Transformation of Christianity and Buddhism em 1982. Atualmente, o seu legado vive no movimento pela Civilização Ecológica, uma proposta de reorganização total da sociedade que busca garantir a sobrevivência e o florescimento de todas as formas de vida na Terra, conceito que ganhou forte tração em fóruns internacionais e políticas de sustentabilidade na China a partir de 2007.

E o que é a Civilização Ecológica?
Cobb foi um dos primeiros a usar o termo "Civilização Ecológica". Ele acreditava que o modelo atual de civilização industrial está em colapso e que o Terrismo é a base para a próxima fase da humanidade:
  1. Localismo: comunidades mais pequenas e autossuficientes.
  2. Respeito biocêntrico: leis que protegem o ecossistema acima do lucro corporativo.
  3. Educação integrada: ensinar as crianças que a sua identidade é, antes de mais, "terrestre".
"O destino da humanidade e o destino da Terra são um só." — Esta frase resume a dedicação de Cobb ao longo de décadas.

É fascinante notar como Cobb influenciou até políticas públicas na China, onde o conceito de "Civilização Ecológica" foi adotado oficialmente.[em março de 2018]

Biografia
Mais info aqui

Urze de Lume - Besta Soberana


Na linha de bandas como ROMErepresentando a melancolia das cinzas da Europa, os Urze de Lume são o fogo que ainda arde nas serras portuguesas. Falar da filosofia deste projeto nacional, liderado por Ricardo de Castro e Tiago de Castro, é mergulhar no que eles próprios chamam de "Música das Terras Ásperas", uma missão de resgate cultural que vai muito além da estética. O pilar central do seu pensamento é o atavismo, a recuperação de instintos ancestrais que a modernidade tentou apagar, focando num Portugal profundo, rural e pré-cristão. Esta música serve como uma ponte para um tempo em que o homem e a terra eram um só, manifestando um saudosismo espiritual e telúrico em vez de político.

A própria materialidade do som é uma declaração filosófica, rejeitando o sintético através do uso de instrumentos tradicionais como adufes, bandolins e gaitas-de-fole transmontanas, além de elementos orgânicos como ossos, pedras e o som do ofício manual de pastores e ferreiros. O nome "Urze de Lume" simboliza esta resiliência: a urze que cresce em solos pobres e o lume que purifica e aquece, sugerindo que a cultura portuguesa, embora pareça esquecida, pode sempre voltar a arder com a faísca certa. Diferente do Neofolk nórdico, a filosofia da banda foca no animismo ibérico e na sacralidade do solo, celebrando divindades pré-romanas como Endovélico e integrando sons reais das serras da Estrela ou do Gerês. Em resumo, os Urze de Lume propõem uma "Ecologia da Alma", um convite para olhar para as montanhas e para o silêncio dos campos, ecoando em cada batida de adufe o sentimento de que nascemos da terra e a ela voltaremos.

Site oficial
Urze de Lume

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Skin and Soil


Skin and Soil
To drop the cloth is to drop the wall,
To let the wind rewrite the skin,
No longer master of the hall,
But humble, quiet kin.

The river does not ask our name,
The cedar does not check our worth,
We strip away the modern shame
To melt back into Earth.

A leaf, a wolf, a human bone,
Each holds an equal, sacred right;
We sit upon the mossy stone,
Naked in the ancient light.

João Soares, 30.08.2024

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Holy Land Living Water - Short Film


During the first week of February 2020, UNITY EARTH, URI, EcoPeace, and other partners brought 94 spiritual leaders to the Middle East for a special event "Holy Land Living Water". The group travelled for 7 days to sacred sites in Jordan, Palestine and Israel. The journey was part of the U Day Festival series of events, building on Ethiopia 2008 and Thailand 2012.

Organizadores
To see more from the same film maker Ben Arend Reisman visit: TheDwarf In China

quarta-feira, 16 de maio de 2012

The Amish


O documentário The Amish (2012), produzido pela PBS para a prestigiada série American Experience, propõe uma viagem extraordinária e sem filtros ao quotidiano, à história e à mentalidade de uma das comunidades mais herméticas e incompreendidas dos Estados Unidos da América. Longe da visão idealizada e comercial alimentada pelo turismo de massas, a obra constrói um retrato profundo sobre a constante tensão entre a preservação de uma fé ancestral e as inevitáveis pressões da modernidade capitalista. Ao dar voz tanto a especialistas como a membros e ex-membros da própria comunidade, o filme humaniza este povo, revelando que o seu isolamento não resulta de uma ignorância ingénua, mas sim de uma escolha coletiva consciente, diária e, por vezes, profundamente dolorosa.

No âmago da identidade Amish reside o princípio teológico de estar no mundo, mas não ser do mundo. Encarando-se como peregrinos de passagem pela Terra, onde a existência terrena é apenas um sopro face à eternidade, estruturam toda a sua vida em torno da comunidade, da humildade e da submissão a Deus, rejeitando o individualismo e o consumismo que definem o Ocidente. Historicamente ligados à agricultura, que consideravam a forma mais pura de ligação ao Criador, os Amish enfrentam hoje uma grave crise de espaço devido ao custo astronómico dos terrenos, o que tem empurrado as novas gerações para o trabalho assalariado em fábricas modernas. Esta transição económica é vista com grande apreensão pelos líderes, pois obriga os jovens a conviver de perto com a sociedade secular e com ritmos de trabalho que ameaçam a coesão do grupo.

A vida comunitária é estritamente regulada pelo Ordnung, um código de conduta não escrito que dita desde as regras de vestuário até aos limites no uso da tecnologia. O documentário desmistifica a ideia de que os Amish consideram a tecnologia intrinsecamente pecaminosa; eles rejeitam-na, sim, quando esta ameaça os laços familiares. O automóvel é proibido porque permite uma dispersão geográfica excessiva, e o telefone é mantido fora de casa para que o mundo exterior não invada o espaço doméstico, priorizando-se o contacto face a face. Esta rejeição do progresso estende-se à educação: as crianças apenas frequentam a escola até à oitava classe, aprendendo o essencial da leitura e da aritmética, por se considerar que o ensino secundário promove a competitividade e ideias que afastam os jovens da fé. Esta postura chegou a desencadear uma forte perseguição legal na década de 1960, culminando num julgamento histórico no Supremo Tribunal que acabou por salvaguardar o direito dos pais Amish a retirarem os filhos do sistema de ensino oficial.

A transição para a vida adulta é marcada pelo Rumspringa, um período a partir dos dezasseis anos em que os jovens gozam de maior liberdade para explorar o mundo exterior antes de tomarem a decisão mais importante das suas vidas: o batismo. Sendo uma promessa eterna e voluntária de fidelidade à igreja, o batismo acarreta uma responsabilidade tremenda. O documentário expõe com coragem o reverso desta moeda através do conceito de Meidung (excomunhão ou isolamento). Aqueles que decidem quebrar os votos e abandonar a comunidade sofrem um corte radical nas relações familiares e sociais; os pais e irmãos ficam proibidos de partilhar a mesma mesa ou fazer negócios com o dissidente. Através de relatos comoventes de quem partiu, o filme ilustra a brutalidade psicológica deste afastamento, bem como a rigidez de uma estrutura patriarcal que, nalguns casos reportados, silenciou mulheres vítimas de violência doméstica em nome da submissão feminina.

Apesar destas sombras, o documentário alcança o seu auge emocional ao abordar a capacidade de transcendência espiritual deste povo, exemplificada no trágico tiroteio na escola de Nickel Mines, em 2006, onde um homem da região sequestrou e baleou dez meninas, matando cinco delas antes de se suicidar. A resposta da comunidade chocou e comoveu o mundo: poucas horas após o massacre, os Amish visitaram a família do homicida para expressar um perdão sincero e oferecer apoio financeiro à viúva. O filme explica que, para os Amish, o perdão não implica esquecer a dor, mas sim abdicar voluntariamente do direito à vingança e ao ressentimento, entregando o julgamento a Deus. Como toda a sua cultura assenta na autossupressão e no sacrifício do ego, o perdão - embora imensamente sofrido -surge como uma extensão natural da sua vivência religiosa.

Em suma, The Amish é uma análise brilhante e multifacetada que foge à romantização bacoca e ao julgamento fácil. Ao expor os paradoxos de uma sociedade que alcança uma paz e uma solidariedade comunitária admiráveis à custa da anulação da liberdade individual e da punição severa dos que divergem, o documentário deixa no espetador uma inquietação profunda. Confronta-nos com as escolhas extremas que a preservação de uma utopia espiritual exige e, simultaneamente, funciona como um espelho crítico que nos questiona sobre o que a sociedade moderna, na sua pressa e emancipação individual, poderá ter perdido pelo caminho.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Robert Smithson- Earth Work, Earth Art, Land Art


SPIRAL JETTY
Rozel Point, Great Salt Lake, Utah April 1970 mud, precipitated salt crystals, rocks, water coil 1500' long and 15' wide
Collection: DIA Center for the Arts ,New York
Robert Smithson (New Jersey, 1938 - New York, 1973) é um dos nomes mais relevantes da história da arte da segunda metade do século XX. Os seus projectos saíram para fora dos museus e das galerias de arte, propondo um outro modo de relacionar a arte com o espaço físico no contexto da chamada earth art.

Trabalhos relacionados
Desenhos:Spirals n.d. circa 1970
Filme: Spiral Jetty, 1970

Imensos recursos disponíveis na Página Oficial

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Breve análise astrológica do Bioterra


Conheci o blogue Postais da Novalis através de pesquisas que também faço na área de Espiritualidades e Educação Ambiental: Deepak Chopra; Osho, etc...
Fiquei encantado com o blogue, em si- seriedade, profundidade, rigor nas referências bibliográficas. Também fiquei impressionado pelo enorme esforço dessa equipa em produzir materiais em português nestas áreas.
Resolvi intervir, deixando um comentário de elogio e incentivo e ontem já fui notícia: BioTerra - Um blogue muito útil à comunidade do Anjo Dourado !
Nesse comentário tinha lançado ainda um desafio. António Rosa, principal autor do blogue e membro da equipa Anjo Dourado correspondeu prontamente ao meu desafio e passo a transcrever, na íntegra, a análise que elaborou.

"Em resposta a um post, o João Soares deixou este desafio no meu blogue: seria interessante avaliar no meu blogue BioTerra em termos da presença de características/traços de um virginiano. Como sou bem mandado, com todo o respeito e atenção que este blogue e o seu autor me merecem, cá estou a tentar demonstrar porque acho que este sítio é bem virginiano.

Virgem, regido pelo planeta Mercúrio, é um signo mutável do elemento Terra e apresenta estas características básicas: são diligentes, estudiosos, analíticos, exigentes, metódicos e muito humanos e com uma enorme capacidade de síntese.

O seu autor, entre muitos modelos (templates) escolheu um que tivesse fundo claro, bastante amplo para caberem textos mais extensos e com um cabeçalho em azul. Um signo mutável escolheria estas características. Precisa de ar para respirar. Significa igualmente que aqui não existe um dos lados negativos de Virgem: a mesquinhez. Isso não existe aqui. O oposto, sim. Generosidade, amplidão, cores claras.

O elemento Terra está bem presente, eu diria, omnipresente neste blogue. No título do blogue. Nas cores dos textos: preto, castanho, verde. São as cores predominantes do elemento. As fontes usadas são grossas, para permitirem boa leitura, portanto, pensando nos leitores, outra característica generosa do regente do signo.

A bibliografia que acompanha os posts é excelente. Completa, detalhada, minuciosa. Os temas tratados pertencem à natureza especializada do blogue e não é isso que o faz ser um blogue virginiano. É sim, na organização, no método de arrumação e sobretudo, na incrível quantidade de informação útil a nível de links. Imensos e variados. É quase um directório. Excelente para qualquer investigador. Nas imensas horas pacientemente consumidas a criar esta informação.

Destaques do Bioterra, Terra viva, Estrutura da terra, Terra cósmica, Terra microcósmica, Paleoterra, Terra urbana, Terra justa, etc., etc. Absolutamente deslumbrante em organização, metodologia, pormenorização, amplidão de informação. Isto é Virgem. Como pormenor gentil, possui um informador sobre temperatura ambiente para jardins e imensos, além de imensos links com logótipos, o que demonstra uma séria capacidade de intervenção cívica.

Sou do signo Gémeos, pelo que partilho o mesmo planeta regente. Além disso possuo Saturno em Virgem, o que me levou a apreciar muito este blogue, pelas razões acima expostas. Por isso, fiz um linque na minha secção Outros blogues.

Não devo alongar-me mais, para não ocupar espaço que os outros também necessitam."

Um abraço. Caro António Rosa, revejo-me completamente!! E estou profundamente agradecido. É na realização de Utopias que nos fazem seres mais completos.
Um abraço amigo

Novalis - Hinos A Noite | PDF no Scribd
Novalis: Os "Hinos para a Noite" (análise e texto) | Academia.edu

sábado, 21 de agosto de 2004

Kesang Marstrand: Carry On Crickets

Letra
Carry on crickets
Sing your song
The sun has set
And the day is gone

Sing to the night
Sing to the moon
And Ill listen too
From here in my room

Carry on
Carry on

Carry on breeze
Whisper and sigh
The night has come
And the moon is high

Whisper to the hills
Whisper to the trees
Whisper to the fields
Carry on breeze


Carry on
Carry on

Kesang Marstrand é uma cantora e compositora norte-americana, nascida em Woodstock, Nova Iorque, filha de mãe dinamarquesa e pai tibetano. A sua música é uma fusão delicada de folk indie, acústico e dream pop, caracterizada por arranjos minimalistas e pela sua voz etérea e cristalina.

A canção "Carry On Crickets" funciona como um abraço sonoro. É construída sobre uma melodia suave e repetitiva de guitarra que imita o canto constante e rítmico dos grilos à noite. A letra é um mantra de aceitação e presença, incitando o mundo natural a continuar a sua canção como forma de ancorar o ouvinte no "agora". Transforma a potencial solidão da noite numa experiência partilhada com o universo.

A experiência visual do vídeo intensifica isso com imagens suaves e nebulosas que remetem para um sonho em transição para a realidade. O texto flui pelo ecrã com uma graciosidade deliberada em câmara lenta, garantindo que cada palavra carrega o peso de um segredo sussurrado. Esta sinergia entre o "texto em movimento" e os sons orgânicos da natureza cria uma atmosfera meditativa que encoraja o espectador a respirar mais profundamente e a encontrar a quietude no meio do movimento do mundo.