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quinta-feira, 17 de julho de 2025

Desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025



A desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025, com o Chega a manter-se como um dos principais partidos desinformadores (81,3%), segundo um estudo.

O estudo “Desinformação nas Legislativas 2025: atividade dos partidos nas redes sociais”, da Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) e a Universidade da Beira Interior, concluiu que nas últimas eleições houve “um aumento percentual significativo das ocorrências em contexto eleitoral no país”.

Este aumento resultou num crescimento de 160% no número de casos de desinformação, em relação ao registado nas eleições europeias de 2024.

Das 4.514 publicações identificadas nas redes sociais entre 07 de abril e 19 de maio, o Instagram (30,0%) e o Facebook (28,9%) agregaram a maior parte do conteúdo gerado durante este período, seguidos pelo X (22,8%), TikTok (9,8%) e YouTube (8,5%).

Entre estas publicações verificaram-se 16 casos de desinformação nas páginas dos partidos, tendo sido abertos nove processos de averiguação junto da ERC.

Segundo o estudo, o Chega é o partido que mais divulgou conteúdos desinformativos nas redes sociais, sendo responsável por 81,3% dos casos, enquanto o PS, PSD e CDS tiveram uma ocorrência cada um, representando 18,7% das publicações.

“Os vídeos lideram no formato da desinformação (56,3%) seja com montagens, cortes ou edições de peças, à frente de um conjunto vasto de imagens estáticas (43,8%), especialmente utilizadas para divulgar resultados de inquéritos ou sondagens de intenção de voto”, lê-se no documento.

As sondagens falsas ou desenvolvidas por empresas não registadas na ERC foram o tipo de desinformação mais frequente, com 31,1% dos casos detetados, em segundo lugar surge a divulgação de textos produzidos por órgãos de comunicação social não registados na entidade reguladora (25,0%).

Dois tipos de desinformação surgem com a mesma percentagem no terceiro lugar, os vídeos informativos manipulados a diversos níveis e as publicações que descredibilizam a comunicação social ou o trabalho jornalístico (18,8%), enquanto as notícias alteradas para promover uma perceção enganosa dos factos surgem em último lugar (6,3%).

Além disso, a maioria dos casos detetados apresenta “um baixo nível potencial desinformativo (43,8%)”, tratando-se de conteúdos elaborados de forma amadora, facilmente verificáveis através de uma pesquisa na internet.

Já as publicações com potencial médio representam 37,5% da amostra em causa, estando associadas à descontextualização de factos ou à manipulação de dados, por isso mais difícil de verificar.

Apenas uma pequena parcela dos casos identificados pode ser classificada como de alto potencial desinformativo (18,8%), tratando-se de conteúdos sem qualquer relação com a realidade, podendo ter sido criados muitas vezes com recurso a Inteligência Artificial (IA).

As 16 publicações geraram um total de 197.471 interações da audiência, recebendo 20.633 comentários e 12.368 partilhas. “Estima-se que nove vídeos tenham sido vistos mais de 3,5 milhões de vezes, com especial destaque para o Instagram e o TikTok”, segundo o estudo.

“Os níveis de enviesamento tornam-se mais preocupantes quando se considera a dimensão do público alcançado. Estima-se que mais de seis milhões de utilizadores das redes sociais tenham sido expostos a conteúdos desinformativos difundidos pelos partidos portugueses (…) com especial destaque para o Chega”, lê-se no documento.

João Canavilhas, autor do estudo, concluiu refletindo sobre o problema das redes sociais fechadas, como os grupos no WhatsApp, onde "é impossível de controlar a desinformação [porque] são injetadas pílulas informativas falsas que surtem efeitos".

Este estudo foi realizado no seguimento do protocolo de cooperação celebrado entre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e o LabCom – Unidade de Investigação em Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior, que procurou analisar a presença e os processos de desinformação no contexto das últimas eleições legislativas.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Pela Retirada Imediata do Anúncio Antiaborto dos Canais de Televisão Portugueses



Exmo. Conselho de Administração da Media Capital / TVI,

Nós, cidadãs e cidadãos preocupados com os direitos fundamentais das mulheres e o cumprimento da legalidade em Portugal, vimos por este meio manifestar o nosso profundo repúdio pela transmissão do anúncio intitulado “Obrigado, Mãe”, financiado por Miguel Milhão, fundador da Prozis, e exibido na TVI e outros canais generalistas.

Este conteúdo, que apresenta uma visão distorcida e estigmatizante da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), não só desrespeita a dignidade das mulheres como viola a Lei n.º 27/2007 – Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedido, ao veicular propaganda política disfarçada de publicidade comercial.

A Associação Escolha, dedicada ao apoio à mulher e à pessoa gestante durante a IVG, já denunciou que o vídeo promove uma narrativa falsa sobre o procedimento médico legalizado em Portugal desde 2007, [Lei n.º27/2007 – Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedidos] atacando a liberdade individual e o direito à autodeterminação das mulheres.

Além disso, a difusão deste anúncio em horários de grande audiência, incluindo durante eventos desportivos de relevo, expõe crianças e jovens a mensagens ideológicas extremistas, contrariando o dever de responsabilidade social que se exige aos meios de comunicação social.

Exigimos:
  1. A retirada imediata do anúncio “Obrigado, Mãe” de todas as grelhas de programação da TVI e demais canais sob a vossa gestão.
  2. A cessação de quaisquer contratos publicitários com o promotor deste conteúdo.
  3. Um pedido público de desculpas às mulheres e pessoas gestantes que se sentiram atacadas ou desrespeitadas por esta campanha.
  4. O compromisso de reforçar os mecanismos de controlo editorial para impedir a difusão de conteúdos que atentem contra os direitos humanos e a legalidade vigente.
  5. A liberdade de expressão não pode ser usada como escudo para disseminar desinformação e discursos que promovem o retrocesso civilizacional.
Apelamos à vossa consciência institucional para que se posicionem do lado da ética, da verdade e dos direitos das mulheres.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

O estado de Israel usa a lavagem rosa para demonizar a Palestina. Mas há quem o denuncie


A propaganda de Israel usa o pinkwashing para minimizar a homofobia no país e maximizá-la na Palestina. Quer criar uma oposição binária que, quando justaposta, demonstra a sua suposta superioridade civilizacional para ganhar apoio para levar a cabo o extermínio do povo palestiniano.

Multiplicam-se os crimes de guerra hediondos cometidos pelo Estado de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Já se cumpriram mais de 100 dias desde o início da fase mais recente e mortífera deste outrora chamado “conflito”, cuja dimensão genocida e colonialista se tornou difícil de ocultar aos olhos do mundo.

Entretanto, aguarda-se, da parte do Tribunal Internacional de Justiça, a decisão sobre a acusação de genocídio do povo palestiniano defendida pela África do Sul e apoiada por várias nações do Sul global. O desenlace será decisivo: ora dará carta branca a outras potências imperialistas para aniquilar populações a seu livre desígnio, ora criará mais uma condenação que Israel não tem incentivo para respeitar, erodindo ainda mais a autoridade dos órgãos internacionais.

Para largos setores da sociedade civil, é incompreensível que um genocídio possa ser levado a cabo com o conhecimento do mundo e o apoio tácito dos dirigentes políticos do Norte global, incluindo dos de Portugal. Para aqueles já próximos da causa palestiniana - que se distingue de outras lutas pela libertação precisamente pela sua relativa visibilidade há largas décadas -, esta incompreensão, mais do que frustrante, deve ser encarada como potente. A indizibilidade do terror a que assistimos força-nos a novos balanços que expliquem como aqui chegámos.

Como pode a “única democracia do Médio Oriente” revelar-se, afinal, o agente terrorista por excelência com o apoio das outras “democracias” que garantem o cumprir do direito e da ordem internacional?

Décadas de pinkwashing israelita
Será talvez surpreendente que no seio de alguns ativismos queer e LGBTQIA+ se tenha encontrado, em especial mas não exclusivamente nas últimas duas décadas, uma das resistências mais consistentes e combativas à propaganda imperialista. Pessoas e coletivos à margem da cisheteronormatividade denunciam, um pouco por todo o mundo, o pinkwashing (“lavagem a rosa”) do Estado de Israel tanto no seu próprio território como nas suas atividades no estrangeiro. Mas o que têm, concretamente, as questões de sexualidade e de género a ver com a ocupação israelita dos Territórios Palestinianos Ocupados (TPO)? Afinal, não é Tel Aviv um oásis de liberdade?

Recuemos no tempo. Israel partilha, na verdade, uma cronologia muito semelhante à de Portugal. O sexo entre adultos do mesmo género foi despenalizado em Portugal em 1982, enquanto em Israel aconteceu seis anos depois, em 1988. Em ambos os casos tratou-se de um ajuste nominal a leis que já não eram exercidas, mas abriu caminho para que os esforços de um novo movimento associativo dessem frutos.

Este ativismo, capaz de dialogar com as instituições e com a sociedade civil, despontou na década de 1990 e celebrou uma série de feitos: interditou a discriminação com base na orientação (1992), promoveu a total participação de soldados homossexuais nas forças armadas (1998), defendeu a adoção por casais homoparentais (2008) e a mudança de género legal sem requerimento de cirurgia de redesignação sexual (2015). Ambos os países superaram a sua imagem retrógrada e desajustada - no caso de Israel, particularmente veiculada ao fundamentalismo religioso - para serem vistas como inquestionavelmente integradas no Norte global, ícones do cosmopolitismo e da tolerância, destinos turísticos com o carimbo LGBT-friendly.

A Marcha do Orgulho de Jerusalém, que tem lugar desde 1997, foi palco de dois esfaqueamentos pela mão do mesmo atacante ultra-ortodoxo, dos quais resultaram vários feridos e a morte de uma adolescente. Em 2019 foram detidos outros 49 possíveis atacantes.

Estas vitórias são-no em ambos os casos porque não foram dadas de mão beijada. No caso israelita, a sua cooptação ofusca as tendências sociais mais reacionárias, bem como as suas próprias contradições enquanto Estado teocrático por definição.

Estas contradições não são menores, mas fundamentais à génese do projeto de Estado desde o seu início, entre forças democráticas e ultra-nacionalistas cuja influência é minimizada mas cujo domínio sobre a legislatura e a sociedade civil são reais. As tensões estão presentes mesmo nos momentos mais simbólicos da tolerância LGBTQIA+. A Marcha do Orgulho de Jerusalém, que tem lugar desde 1997, foi palco de dois esfaqueamentos (em 2005 e em 2015) pela mão do mesmo atacante ultra-ortodoxo, dos quais resultaram vários feridos e a morte de uma adolescente. E, na Marcha de 2019, foram detidos outros 49 possíveis atacantes.

Não nos esqueçamos da celebração do festival WorldPride em Jerusalém, também em 2005, que foi forçosamente adiado para o ano seguinte por causa da acérrima oposição de representantes das três religiões monoteístas e do próprio parlamento israelita. E, em 2009, duas pessoas foram mortas num ataque armado ao centro LGBT de Tel Aviv. São certamente exemplos extremos, mas ilustram um terreno mais complexo do que o de uma meca harmoniosa e isolada contraposta tanto ao fundamentalismo religioso como à violência do “restante” Médio Oriente.

A questão do casamento entre pessoas do mesmo género também é ilustrativa. A 11 de dezembro de 2023, a conta X (antigo Twitter) oficial do Estado de Israel publicou a foto de um casal de dois homens, um pedindo o outro, um soldado em uniforme, em casamento. O tweet congratulou “o lindo casal”, entre um emoji de coração, a bandeira arco-íris e a bandeira israelita. O post omitiu convenientemente que o casamento não poderá ser celebrado no país. É que projetos-lei foram rejeitados no Knesset (assembleia legislativa) cinco vezes e o desafio cultural, bem como o legislativo, que o casamento representa revela o tipo de complexidade que o pinkwashing nos tenta esconder: não existe simplesmente casamento civil num país que não separa a religião do Estado.

O pinkwashing é isto: uma lavagem a cor-de-rosa das realidades complexas em ambos os lados da ocupação. Em Queer Palestine and the Empire of Critique, o antropólogo Sa’ed Atshan sistematiza da seguinte forma os pilares desta retórica: minimizar a homofobia em Israel e maximizar a homofobia na Palestina, para dessa forma criar uma oposição binária que, quando justaposta, demonstra a superioridade civilizacional da primeira face à segunda para ganhar apoio para levar a cabo o seu extermínio. Ou, como o próprio primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o colocou: “o povo da luz contra o povo das trevas”, o “mal” contra a “liberdade e o progresso”.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Mariana Mortágua diz-se perseguida "por um membro destacado do Chega" por ser "uma mulher lésbica"


Mariana Mortágua afirmou esta segunda-feira no início do programa "Linhas Vermelhas", da SIC Notícias, que é perseguida "por um membro destacado do Chega" por ser lésbica.

A deputada e candidata à liderança do Bloco de Esquerda disse que, apenas no último ano, foi alvo de três ações judiciais levadas a cabo por duas pessoas: uma por Marco Galinha, dono do grupo Global Media, por ter identificado "o seu sogro como um oligarca russo" e outras duas "por um membro destacado do Chega".

"Estes processos têm um intuito muito claro, que é o desgaste público e político, quanto mais não seja porque, no decorrer destes processos, a comunicação social vai dando nota de que eles acontecem, mesmo que o seu desfecho seja o arquivamento. E eu sei que este tipo de pressão e perseguição política vai continuar e até subir de nível, seja porque sou mulher, seja porque sou de Esquerda, seja porque sou uma mulher lésbica, seja porque sou filha de um resistente antifascista com um passado e uma importante história, seja porque, aparentemente, tenho o dom de incomodar algumas pessoas com muito poder", afirmou Mariana Mortágua, acrescentando que, "infelizmente, nos dias que correm, para algumas pessoas vale tudo na política".

A deputada garantiu que está "preparada para tudo" e que vai continuar a fazer o seu trabalho como até aqui e que neste momento está centrado na comissão de inquérito à TAP.

No dia 21 de abril, o Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) decidiu arquivar o processo contra Mariana Mortágua, no qual a deputada do BE era acusada de violar o regime de exclusividade por fazer comentário político na SIC Notícias.

“Decide-se julgar totalmente improcedentes os requerimentos apresentados pelos assistentes e, consequentemente: não pronunciar a arguida pela prática de um crime de peculato (…) e pela prática de um crime de recebimento indevido de vantagem”, lê-se na decisão instrutória, assinada pela juíza Gabriela Assunção.

Em comunicado, o BE referiu entretanto que, “pela segunda vez, a Justiça decidiu que a queixa movida contra Mariana Mortágua não tem fundamento”, considerando que se confirma que “os queixosos e respetivos advogados (um candidato do Chega e outro quatro vezes condenado por burla) não conseguiram associar a Justiça a uma perseguição política”.

“Para Mariana Mortágua ou qualquer outro dirigente do Bloco de Esquerda, estas tentativas de retaliação servem de encorajamento à denúncia, que continuaremos a fazer, das redes e negócios da oligarquia russa e da extrema-direita”, assegura.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Insetos podem sentir dor, dizem evidências crescentes – eis o que isso significa para as leis de bem-estar animal



Pelo menos um trilião de insetos são mortos anualmente para alimentação e ração animal. Os métodos rotineiros de abate incluem calor e frio extremos , muitas vezes precedidos de fome. Em comparação, “apenas” cerca de 79 biliões de mamíferos e aves são abatidos a cada ano.

Os estudiosos há muito reconhecem que o valor da dor para a sobrevivência significa que muitos animais a experimentam, supostamente com exceção dos insetos . Mas pesquisamos mais de 300 estudos científicos e encontramos evidências de que pelo menos alguns insetos sentem dor. Outros insetos, entretanto, ainda não foram estudados com detalhes suficientes.

Também realizamos nosso próprio estudo sobre a resposta dos zangões a estímulos potencialmente nocivos. A maneira como eles reagiram aos estímulos foi semelhante às respostas de dor em humanos e outros animais que aceitamos sentir dor.

Os pesticidas matam triliões de insetos selvagens a cada ano. A verdadeira causa da morte costuma ser paralisia, asfixia ou dissolução dos órgãos internos, às vezes durante vários dias.

Se os insetos sentem dor, a criação de insetos e o controle de pragas causariam sofrimento em massa. No entanto, os debates e as leis de bem-estar animal ignoram quase universalmente os insetos . Uma razão é que, historicamente, os insetos eram frequentemente vistos como muito simples, com uma vida útil muito curta . Mas as evidências de que os insetos sentem dor estão se acumulando.

A questão de saber se os insetos sentem dor é difícil de responder. A dor é uma experiência inerentemente privada. A dificuldade de diagnosticar a dor quando o ser em questão não fala é ilustrada pelo tratamento relativamente recente de bebés durante a cirurgia.

Ainda na década de 1980, muitos cirurgiões acreditavam que os bebés não sentiam dor e raramente usavam anestésicos porque pensavam que as respostas óbvias dos bebés, como gritar e se contorcer, eram “apenas reflexos” . Embora ainda não tenhamos provas de que os bebés sentem dor, a maioria agora aceita isso com quase certeza.

Para qualquer ser que não pode comunicar diretamente o seu sofrimento, precisamos confiar no bom senso e na probabilidade. Quanto mais indicadores de dor encontrados, maior a probabilidade. É importante usar critérios consistentes entre os animais e procurar os mesmos indicadores comportamentais de dor em insetos que se usaria em uma vaca ou cão de estimação.

Dor no cérebro

A maioria dos animais exibe “nocicepção” – o processamento de estímulos nocivos que podem resultar em respostas semelhantes a reflexos. Os cientistas sabem há muito tempo que os insetos exibem nocicepção . No entanto, se um animal detecta estímulos potencialmente prejudiciais, não é necessariamente um indicador de dor “semelhante a” que em humanos é gerada no cérebro. Tanto a nocicepção quanto a dor podem acontecer, até certo ponto, independentemente uma da outra.

Num estudo recente, descobrimos que as respostas das abelhas ao calor dependem de outras motivações. Demos aos zangões quatro alimentadores: dois aquecidos e dois não aquecidos. Cada alimentador distribuía água com açúcar, que os zangões adoram.

Quando todos os comedouros tinham a mesma concentração de água com açúcar, as abelhas evitavam os dois comedouros aquecidos. Mas quando os comedouros aquecidos forneciam água com açúcar mais doce do que os comedouros não aquecidos, os zangões geralmente escolhiam os comedouros aquecidos. Seu amor pelo açúcar superava seu ódio pelo calor. Isso sugere que as abelhas sentem dor, porque (como os humanos) suas respostas são mais do que apenas reflexos.

As abelhas também se lembravam dos alimentadores aquecidos e não aquecidos e usavam essa memória para decidir de qual alimentar-se. Então, o trade-off aconteceu no cérebro.

Os cérebros dos insetos mudam as suas respostas comportamentais ao dano de outras maneiras. Por exemplo, moscas famintas são menos propensas a pular para longe do calor extremo do que moscas saciadas. Moscas decapitadas ainda podem pular, mas não apresentam essa diferença, demonstrando o envolvimento de seu cérebro na prevenção do calor. A comunicação entre o cérebro e a parte responsiva do corpo também é consistente com a dor.

Outros indicadores de dor

A estrutura que usamos para avaliar evidências de dor em diferentes insetos foi a que recentemente levou o governo do Reino Unido a reconhecer a dor em dois outros grandes grupos de invertebrados , crustáceos decápodes (incluindo caranguejos, lagostas e camarões) e cefalópodes (incluindo polvos e lulas). , incluindo-os na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022. A estrutura possui oito critérios, que avaliam se o sistema nervoso de um animal pode suportar a dor (como a comunicação cérebro-corpo) e se seu comportamento indica dor (como troca motivacional). desligados).

Moscas e baratas satisfazem seis dos critérios. De acordo com a estrutura, isso equivale a “forte evidência” para a dor. Apesar das evidências mais fracas em outros insetos, muitos ainda mostram “evidências substanciais” de dor. Abelhas, vespas e formigas preenchem quatro critérios, enquanto as  borboletas, mariposas, grilos e gafanhotos preenchem três.

Os escaravelhos, o maior grupo de insetos, satisfazem apenas dois critérios. Mas, assim como outros insetos que receberam notas baixas, há pouquíssimos estudos sobre escaravelhos nesse contexto. Não encontramos nenhuma evidência de nenhum inseto falhando em todos os critérios.

Nossas descobertas são importantes porque a evidência de dor em insetos é aproximadamente equivalente à evidência de dor em outros animais que já estão protegidos pela lei do Reino Unido. Os polvos, por exemplo, apresentam evidências muito fortes de dor (sete critérios).

Em resposta, o governo do Reino Unido incluiu polvos e caranguejos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, reconhecendo legalmente sua capacidade de dor.

O governo do Reino Unido estabeleceu um precedente: fortes evidências de dor garantem proteção legal. Pelo menos alguns insetos atendem a esse padrão, então é hora de protegê-los. Para começar, recomendamos a inclusão de insetos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, que reconheceria legalmente sua capacidade de sentir dor. Mas esta lei exige apenas que o governo considere o seu bem-estar ao redigir legislação futura.

Se quisermos regular práticas como agricultura e pesquisa científica, o governo precisa estender as leis existentes. Por exemplo, a Lei de Bem-Estar Animal de 2006, que torna crime causar “sofrimento desnecessário” aos animais abrangidos pela lei. Isso pode levar a fazendas de insetos, como fazendas convencionais, minimizando o sofrimento animal e usando métodos de abate humanitários.

A Lei de Animais (Procedimentos Científicos) de 1986 regula o uso de animais protegidos em qualquer procedimento experimental ou outro procedimento científico que possa causar dor, sofrimento, angústia ou danos permanentes ao animal. Proteger os insetos sob esta lei, como os polvos já são, regularia a pesquisa de insetos, reduzindo o número de insetos testados e garantindo que os experimentos tenham uma forte fundamentação científica.

Finalmente, os pesticidas são uma grande preocupação para o bem-estar dos insetos selvagens. Recomendamos o desenvolvimento de pesticidas mais humanos, que matam os insetos mais rapidamente e minimizam o seu sofrimento.

domingo, 13 de março de 2022

Grafeno verde. Elvira Fortunato continua a revolucionar a eletrónica com materiais sustentáveis

A investigadora portuguesa dá um novo contributo para reduzir o problema ambiental do lixo eletrónico. Projeto valeu-lhe uma terceira bolsa do Conselho Europeu de Investigação.


Acumulando mais de 250 milhões de toneladas por ano, o lixo eletrónico é o fluxo de resíduos com maior crescimento em todo o mundo e constitui aquele que é, provavelmente, o próximo grande problema ambiental numa sociedade em transformação digital. Pioneira no domínio da chamada eletrónica de papel, a cientista portuguesa Elvira Fortunato tem vindo a destacar-se entre os protagonistas de uma nova revolução tecnológica mais "verde", à base de materiais ecossustentáveis que permitam uma eletrónica amiga do ambiente. Um trabalho que voltou a ser reconhecido recentemente a nível europeu com aquela que é já a sua terceira bolsa do Conselho Europeu de Investigação (ERC), desta vez a premiar um projeto que pretende utilizar o grafeno verde como forma de reduzir o desperdício eletrónico.

Denominado "e-GREEN. Da floresta à eletrónica: grafeno verde", o projeto liderado pela investigadora e diretora do CENIMAT|i3N, laboratório associado da Universidade Nova de Lisboa, propõe "uma nova abordagem sustentável, tanto em termos de materiais quanto de processos" para a produção das placas de circuito impresso - as placas eletrónicas que estão em diversos equipamentos, desde telemóveis a eletrodomésticos.

"O que se pretende com este projeto é substituir as placas convencionais, que são aquelas placas verdes com várias camadas de polímeros. Queremos substituir esses materiais feitos com tecnologias poluentes, e que têm origem fóssil, por materiais à base de papel, celulose. Além disso, evitamos a utilização de cobres e metais como materiais condutores, porque temos uma tecnologia laser que carboniza a superfície destes materiais celulósicos, transformando-a em grafeno. E o grafeno é um material muito condutor, tem propriedades muito boas do ponto de vista elétrico", descreve a cientista, em conversa com o DN.

Com isso, Elvira Fortunato consegue providenciar ao mercado uma solução ao mesmo tempo sustentável e de menor custo. "Um problema que temos com as placas de circuito impresso é a sua reciclabilidade. Temos elevados volumes de milhões de toneladas de lixo eletrónico acumulados por ano. E é um problema que o hemisfério Norte não está a resolver: os países mais desenvolvidos estão a exportar estes resíduos para países na África ou na Ásia, onde se está a utilizar mão de obra muito barata para, através de raspagens e outras técnicas, aproveitar ainda parte desses metais", diz a cientista que ganhou o Prémio Pessoa em 2020.

Urge, portanto, criar alternativas e este projeto é mais uma contribuição de Elvira Fortunato nesse sentido. "Não podemos estar continuamente a usar materiais, neste caso metais, à taxa que utilizamos agora. São materiais caros e são finitos na natureza, vão acabar um dia. Neste projeto, a solução é utilizar materiais de origem renovável. E, por outro lado, a tecnologia também é não poluente. Temos circuitos elétricos feitos à base de celulose em que os condutores são à base de grafeno e são biodegradáveis. Podem ser completamente reciclados e fazer mais pasta de papel e novos produtos à base de celulose. Há desperdício zero."

De resto, "a sustentabilidade tem sido sempre um elemento crítico" no trabalho da cientista. Agora, a ideia do "grafeno verde" convenceu o Conselho Europeu de Investigação a atribuir-lhe uma bolsa Prova de Conceito, no valor de 150 mil euros, para testar a viabilidade comercial no mercado. Uma bolsa que vem na sequência de uma outra maior anterior, uma ERC Advanced Grant que Elvira Fortunato conquistou pela segunda vez em 2019, no valor de 3,5 milhões de euros, a premiar o projeto Digismart, cujo objetivo é revolucionar a forma como os circuitos integrados e componentes eletrónicos são produzidos. Foi através desse projeto que a equipa liderada pela diretora do Cenimat|I3N obteve uma grande variedade de materiais à base de grafeno, materiais de origem renovável - como celulose, nanocelulose e cortiça - utilizando um novo processo baseado em grafeno induzido por laser, que agora mereceu esta nova bolsa."

Elvira Fortunato compara esta tecnologia com as tecnologias laser de remoção de tatuagens. "Nós temos um laser que vai escrever um determinado padrão na superfície do papel. Ou seja, vai carbonizar esse papel. E esse material queimado, que é o produto resultante desta conversão protoquímica (reação química induzida pela ação do laser), é o grafeno. Assim, ficamos com pistas condutoras à base de grafeno", diz.

Este é um grafeno verde, porque "é convertido através das árvores, da celulose extraída das árvores. E é verde também porque a tecnologia é feita à temperatura ambiente, sem quaisquer reagentes, ao passo que o grafeno convencional é produzido a altas temperaturas, na casa dos 1000 graus centígrados, com equipamentos muito caros e com muita complexidade", salienta a investigadora. "Aqui conseguimos ter material mais sustentável e de mais baixo custo. Daí o interesse por parte das indústrias e da própria Comissão Europeia", refere a cientista que revolucionou o papel, reinventando-o como um "material eletrónico".

Especialista em Microeletrónica e Optoelectrónica, a "mãe" do transístor de papel tem na celulose a matéria prima por excelência dos seus projetos, mas não a única, naturalmente. A ecossustentabilidade, contudo, estende-se a todas as escolhas. É por isso que Elvira Fortunato privilegia também alternativas ao silício como semicondutor. "Para fazer um transístor, que é a unidade de base de um circuito integrado, tenho de ter sempre um conjunto de três materiais: isolantes, condutores e semicondutores. O papel é um dos componentes, é um material isolante que pode ainda ser convertido num material condutor, o grafeno, mas depois precisamos ainda de materiais semicondutores, e aí também trabalhamos com outra classe de materiais sustentáveis. Não trabalhamos com silício, mas sim com materiais à base de óxidos metálicos, como por exemplo o óxido de zinco, que é um dos componentes dos cremes cicatrizantes, como o Halibut, os cremes da Mustela ou os protetores solares", explica.

A cientista portuguesa, que já viu o seu nome associado a um possível Nobel da Física, acredita que é viável caminharmos para uma eletrónica 100% sustentável. "Estou convencida que sim. Aliás, não temos alternativa. Isto não é uma opção, é uma obrigação. A população está a aumentar, cada vez mais pessoas vão tendo acesso a equipamentos como computadores, telemóveis, eletrodomésticos, temos o 5G e o 6G, e hoje em dia nada se repara, tudo se muda... Isto não é sustentável. Temos de arranjar soluções", aponta.

Ler mais:
Elvira Fortunato entre as 27 inspiradoras da Europa selecionadas pela UE para o Dia da Mulher

Biografia

terça-feira, 8 de junho de 2021

No reino dos comentadores televisivos o trono pertence à direita



Em outubro de 2019 as eleições legislativas aumentaram o pluralismo partidário em Portugal, com novas correntes políticas representadas na Assembleia da República. Pelo que faz, então, sentido questionar se: este novo quadro parlamentar teve consequências no debate político que se faz na televisão nacional; se os partidos que elegeram pela primeira vez um deputado também acederam aos espaços de comentário político televisivo, ou se já tinham protagonismo na televisão; ou, ainda, o que nos diz a presença dos partidos na televisão sobre a qualidade do debate político nacional.

Recordemos, que o fim dos debates quinzenais no parlamento foi aprovado, por PSD e PS, segundo o argumento de que estes debates não contribuíam para a credibilidade do parlamento, servindo apenas para “condicionar os noticiários” (Rui Rio)1) e “produzir sound bites para telejornais” (António Costa)2). A justificação invocada remete-nos para a (re)produção do discurso político de origem partidária que ocorre na televisão e, igualmente, para a sua importância na interpretação que os cidadãos fazem da situação política nacional.

A este propósito é interessante constatar que, segundo o Digital News Report Portugal 2020, elaborado pelo OberCom, a maioria dos cidadãos portugueses (60,7%) concorda que os políticos e os partidos devem poder passar as suas ideias através da televisão, sendo este um meio considerado mais adequado que o Facebook, Google e Twitter (apenas 41,5% concorda com o uso destas plataformas). No entanto, apesar de a maioria dos portugueses considerarem a televisão um meio mais adequado para partidos e políticos transmitirem as suas ideias, isso raramente significa que assistamos à sua reprodução em discurso direto. Pois, por um lado, aquilo que encontramos no contexto dos noticiários televisivos é uma intermediação jornalística das ideias políticas, que são transmitidas de acordo com opções editoriais, sendo-lhes dado um determinado enquadramento, produto de técnicas de corte e edição e submetidas a critérios de interesse jornalístico. Por outro lado, quando surge a análise política (que pode ocorrer dentro ou fora dos noticiários ou espaços noticiosos televisivos), surge a figura do comentador político, o qual, apesar das possíveis ligações partidárias, surge nesses espaços de comentário como um “analista independente”.

É em particular sobre o fenómeno do comentário político em televisão que o MediaLAB do ISCTE-IUL se debruça nesta análise que se centra sobre os espaços de comentário político de comentadores “residentes”, onde se faz análise política com uma regularidade “fixa” semanal. Entre os dias 1 e 31 de outubro de 2020 analisámos 18 programas televisivos, que continham no total 60 destes espaços semanais “fixos”3) de comentário político. Antes de avançarmos, aproveitamos para salientar que, à semelhança do que foi feito nas análises dos anos anteriores, o apuramento da orientação política e militância partidária dos comentadores televisivos procurou ser o mais exaustivo possível, sendo efetuado a partir de informação acessível no domínio público na Internet – portanto, igualmente acessível a quem vê esses programas e procura saber mais sobre as opções políticas desses intervenientes.

No reino dos comentadores televisivos o trono pertence à direita

A independência política dos comentadores televisivos com espaço “fixo” semanal é muitas vezes questionada, sendo a militância o primeiro fator apontado para um possível enviesamento da opinião. A este respeito, cerca de dois em cada cinco comentadores (42%) possui uma filiação partidária pública. Contudo, tal não significa necessariamente, que estes comentadores sigam o discurso ou a “cartilha” da direção de um dado partido, até porque, por vezes, se tornam porta-vozes da insatisfação com a linha oficial dos partidos, e protagonizam – através do seu comentário – novos eventos políticos que são alavancados pela sua elevada visibilidade mediática.

Um fator que surge, de uma forma geral, mais decisivo na leitura que os comentadores fazem da realidade é a sua orientação política, e não tanto a sua filiação partidária. Aqui identificamos, entre aqueles que apresentam uma tendência definida, um quase empate entre os que se posicionam mais à direita (51%) e os que se posicionam mais à esquerda (49%). Em comparação com 2019, onde a percentagem de comentadores à direita era superior (55%), verificamos em 2020 um maior equilíbrio entre esquerda e direita no comentário televisivo semanal.

Em sentido contrário, as diferenças tendem a manter-se se considerarmos o género. Tal como verificámos na análise efetuada de 2019 – os espaços de comentário “fixo” são predominantemente masculinos. Em 2020, 80% destes espaços são ocupados por homens. Neste particular, se selecionarmos apenas os homens, a direita ganha vantagem, sendo essa a tendência de 60% dos comentadores masculinos. Por outro lado, as mulheres, que representam apenas 20% dos comentadores “residentes”, são, claramente, mais de esquerda. Entre as mulheres comentadoras 89% posicionam-se mais à esquerda.

domingo, 9 de maio de 2021

Presidente da República promulga Carta de Direitos Humanos na Era Digital




O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou no sábado a Carta de Direitos Humanos na Era Digital, aprovada em abril na Assembleia da República, segundo uma nota divulgada no ‘site’ da Presidência.

A lei, aprovada em 08 de abril passado, prevê direitos, liberdades e garantias dos cidadãos no ciberespaço, mas também uma tarifa social de acesso à Internet.

A nova legislação foi aprovada em votação final global, com os votos do PS, PSD, BE, CDS, PAN, das deputadas não inscritas Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues e a abstenção do PCP, PEV, Chega a Iniciativa Liberal, e resulta de dois projetos, do PS e do PAN, que apresentaram um texto comum, discutidos em plenário em outubro de 2020.

O diploma tem 21 artigos e garante direitos como o “direito ao esquecimento”, o direito à proteção contra geolocalização abusiva ou ainda o direito de reunião, manifestação, associação e participação em ambiente digital.

A lei determina que “o Estado deve promover” a “criação de uma tarifa social de acesso à Internet” para clientes economicamente vulneráveis, a existência de “pontos de acesso gratuitos” em espaços públicos como bibliotecas, jardins e serviços públicos ou ainda a continuidade do domínio “.pt”.

Ao Estado é também pedido que garanta “em todo o território nacional conectividade de qualidade, em banda larga e a preço acessível”.

São igualmente conferidas garantias de liberdade de expressão da utilização do ciberespaço e também é “proibida a interrupção intencional de acesso à Internet seja parcial ou total”.

No plano do combate às “fake news”, a lei determina que o Estado “assegura o cumprimento em Portugal do Plano Europeu de Ação contra a Desinformação” para “proteger a sociedade contra pessoas singulares ou coletiva, ‘de jure’ ou de facto, que produzam, reproduzam e difundam narrativas” desse tipo.

Está previsto que qualquer cidadão tem o direito a apresentar queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) em casos de desinformação.

O diploma determina o “direito ao esquecimento”, ou seja, “o direito ao apagamento de dados pessoais que lhe digam respeito”, nos termos da lei europeia e nacional, ação em que pode pedir o apoio do Estado.