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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Turismo, migração e linguagem: o que acontece ao cérebro quando cruzamos fronteiras


O fim das férias  traz consigo o ruído inconfundível das malas de viagem a arrastarem-se pelo asfalto e a nostalgia difusa de quem regressa. Contudo, ao fazer a digestão dos dias fora, há uma reflexão mais profunda que se impõe: o ato de viajar de poder cruzar fronteiras por mera escolha, desacelerar e habitar temporariamente o quotidiano de outro país - é um dos maiores privilégios financeiros e sociais do mundo contemporâneo.

Nos aeroportos e nas estações de comboio do final de verão, este privilégio cruza-se com realidades humanas profundamente distintas. Na mesma sala de embarque, o olhar do turista, que viaja para consumir paisagens e acumular memórias leves, cruza-se com o do emigrante, que regressa à pátria apenas no verão para matar a sede da sua língua materna, e com o do imigrante, para quem a travessia de fronteiras não foi uma pausa da rotina, mas um ato de sobrevivência que exigiu o desmantelamento da sua própria identidade para tentar recomeçar.

É nesse encontro de geografias e disponibilidades que nos confrontamos com a linguagem. Durante uns dias, ao tentar decifrar um menu, entender um sinal de trânsito ou arriscar meia dúzia de palavras num idioma estrangeiro, sentimos na pele a fragilidade de não ser compreendido. Percebemos que as línguas não são meras ferramentas neutras de comunicação, mas paredes, pontes e mapas mentais que revelam quem somos, de onde vimos e até onde a nossa vida nos permitiu ir.

O ensaio que se segue nasce precisamente dessa digestão de fim de férias: o reconhecimento de que aprender a ouvir o mundo e a aceitar a complexidade do outro é a forma mais humana de retribuir o privilégio de ter a liberdade de o percorrer.


A imagem representa a teia neural e cultural da linguagem - uma rede conceptual onde diferentes idiomas do mundo (Deutsch, Português, Mandarim, Árabe, Húngaro, Guugu Yimithirr, Tukano, Aymara, entre outros) aparecem como nós interligados.

O mapa da mente humana: uma viagem pelas geografias da fala 
O fenómeno do idioma real
Nas conversas habituais de regresso de férias surge frequentemente o desabafo: "Ai, o alemão é muito difícil". Contudo, até os próprios alemães utilizam recursos orais/escritos gramaticalmente mais acessíveis. Esta adaptação que os próprios nativos fazem para simplificar o idioma é um fenómeno fascinante e muito presente na cultura germânica. Quando a gramática padrão, o chamado Hochdeutsch, se torna pesada ou distante demais da realidade prática, a própria sociedade alemã recorre a estratégias que vão desde hábitos do quotidiano até linguagens adaptadas por lei para garantir que a mensagem seja compreendida sem rodeios.

No dia a dia, a linguagem coloquial, conhecida como Umgangssprache, é o principal refúgio dos nativos. É nela que o complexo caso genitivo é quase inteiramente abandonado e substituído pelo dativo com a preposição von, trocando estruturas sofisticadas por formas muito mais diretas. Além disso, os alemães cortam sistematicamente o passado simples na oralidade, preferindo o passado composto, e simplificam a pronúncia encurtando verbos e fundindo artigos. Trata-se de uma busca natural por economia verbal para tornar o fluxo da conversa mais leve.

Para além da informalidade, existem iniciativas formais para democratizar a informação. A Einfache Sprache, ou linguagem simples, é amplamente adotada por jornais, empresas e órgãos governamentais para comunicar ideias complexas ao público geral sem o peso da burocracia gramatical, priorizando frases curtas na ordem direta e evitando termos arcaicos ou a voz passiva. Já a Leichte Sprache, um formato ainda mais acessível e regulamentado por leis de acessibilidade, chega ao ponto de dividir as famosas e gigantescas palavras compostas alemãs com hífenes para facilitar a leitura de pessoas com deficiência intelectual ou imigrantes.

Perceber que os próprios alemães precisam destas estruturas e atalhos para tornar a comunicação viável é libertador. Mostra que o objetivo principal do idioma é conectar pessoas, e que não precisa de se exigir um domínio académico perfeito para conseguir expressar-se e ser compreendido no mundo real.

A relatividade da dificuldade e o panorama global
Não existe uma única língua considerada universalmente a mais difícil do mundo, pois a complexidade de um idioma é sempre relativa à língua materna de quem o aprende. Para um falante nativo de português, por exemplo, o espanhol ou o italiano são bastante acessíveis devido às suas origens românicas comuns, enquanto idiomas com lógicas totalmente distintas exigem uma reestruturação completa da forma de pensar.

Ainda assim, quando se analisa o tempo médio necessário para atingir a fluência e o nível de complexidade gramatical ou gráfica, o Mandarim surge quase sempre no topo da lista. O grande obstáculo não reside na sua gramática — que é até bastante simples e carece de conjugações verbais —, mas sim no seu sistema de escrita não alfabético, composto por milhares de carateres individuais que precisam de ser memorizados um a um, e no facto de ser uma língua tonal, onde a intonação de uma única sílaba muda completamente o significado de uma palavra.

Logo ao lado do Mandarim, o Árabe impõe grandes desafios devido ao seu alfabeto próprio escrito da direita para a esquerda, à omissão de vogais na escrita quotidiana e à enorme discrepância entre o árabe padrão formal e os dialetos falados em cada região. Da mesma forma, o Japonês exige o domínio de três sistemas de escrita em simultâneo - dois silabários e os carateres de origem chinesa - para além de uma gramática profundamente enraizada em níveis de cortesia e hierarquia social.

Por fim, idiomas como o Coreano, com a sua estrutura gramatical baseada no encaixe sucessivo de sufixos verbais, e o Basco, uma língua isolada na Europa sem qualquer parentesco com os restantes idiomas conhecidos, demonstram que a dificuldade pode surgir tanto da falta de referências conhecidas como do nível de detalhe gramatical. Em última análise, a língua mais difícil será sempre aquela que mais se afasta da estrutura lógica e cultural a que o seu cérebro já está habituado.

A ciência da distância linguística
A perceção de complexidade ao aprender uma nova língua não é uma questão de capacidade individual nem de características culturais, mas sim um reflexo direto da distância linguística — a medida científica de quão afastadas estão as estruturas de dois idiomas na sua árvore genealógica e sintática. Quando a mente humana é exposta a uma língua de uma família distante, a dificuldade surge do esforço cognitivo necessário para desaprender padrões automatizados e construir novos modelos mentais.

Para falantes de línguas românicas (como o português, o espanhol ou o italiano), idiomas germânicos como o alemão exigem a habituação a casos gramaticais e a uma ordem de frase rígida onde o verbo migra para o final. Por sua vez, para falantes de línguas semíticas (como o árabe), o desafio ao aprender idiomas europeus é bidirecional: exige a transição de um sistema de escrita abjad (focado em raízes consonânticas e lido da direita para a esquerda) para o alfabeto latino, além de reajustar uma sintaxe habituada a colocar o verbo no início da oração.

De forma análoga, para os falantes das centenas de línguas da família Níger-Congo em África (como o zulu, o yoruba ou o lingala), a aprendizagem de línguas europeias impõe o abandono de sistemas de classes nominais complexos e de elementos tonais em favor de declinações ou conjugações verbais abstratas. O mesmo acontece no sentido inverso: um falante europeu enfrenta uma barreira cognitiva equivalente ao tentar assimilar a lógica de tons ou a aglutinação destas línguas.

A linguística cognitiva e a sociolinguística demonstram, assim, que nenhuma língua é intrinsecamente superior, mais lógica ou mais difícil do que outra. O cérebro humano está biologicamente equipado para aprender qualquer idioma com a mesma facilidade durante a infância; na idade adulta, a "dificuldade" é simplesmente o mapa da distância entre onde a nossa mente habita e o novo território que tenta desbravar.

A reestruturação do raciocínio
As dificuldades de um português nas línguas germânicas, no húngaro e no turco manifestam-se através de arquiteturas gramaticais que desafiam a lógica sequencial a que o cérebro lusófono está habituado. Em vez de construir frases através de sequências de palavras curtas e independentes ligadas por preposições, estas línguas exigem que a informação seja empacotada, combinada sonoramente ou posicionada com precisão quase matemática.

No Turco e no Húngaro, o cérebro precisa de adotar a lógica da aglutinação, que funciona como um encaixe de peças de Lego. Em vez de usar várias palavras para expressar uma ideia complexa, como "nas nossas casas", estes idiomas tomam uma única raiz e vão-lhe anexando múltiplos sufixos de posse, plural ou localização, fundindo uma frase inteira numa única palavra. Para tornar esse processo fluido, ambas as línguas aplicam o princípio da harmonia vocálica: o falante categoriza mentalmente as vogais em grupos segundo o ponto de articulação na boca e altera automaticamente os sufixos para que todas as vogais da palavra ecoem a mesma sonoridade. No caso do húngaro, a complexidade aumenta com a existência de mais de 18 casos gramaticais, o que obriga a mente a mapear com precisão cirúrgica a relação espacial e funcional de cada substantivo na frase.

Por outro lado, nas Línguas Germânicas como o alemão e o holandês, a mudança mental é sobretudo estrutural e sintática. A célebre regra V2 (Verbo na Segunda Posição) exige uma disciplina rígida: o verbo principal tem de ocupar obrigatoriamente o segundo elemento da frase, forçando a inversão do sujeito sempre que a frase começa com um advérbio ou indicação de tempo. Mais desafiante ainda é a estrutura das orações subordinadas, onde o verbo conjugado é atirado para o final absoluto da frase. Esta arquitetura obriga o ouvinte a manter toda a informação em suspenso na memória de trabalho até ao último segundo, altura em que o verbo final finalmente revela e fecha o sentido de tudo o que foi dito.

A reestruturação completa da forma de pensar acontece quando um idioma nos obriga a processar o mundo através de categorias que simplesmente não existem no português.

Na língua indígena australiana Guugu Yimithirr, por exemplo, a orientação espacial abandona a referência egocêntrica do próprio corpo - como "esquerda" ou "direita" - em favor de uma navegação absoluta baseada nos pontos cardeais. Para pedir a alguém que passe a salada, o falante indica a direção geográfica exata, dizendo algo como "passa a salada para sudoeste". Esta exigência gramatical faz com que os seus falantes desenvolvam uma bússola interna permanente, mantendo a noção precisa do Norte mesmo no interior de uma sala sem janelas.

A origem da informação também pode ser um requisito gramatical estrito, como acontece nas línguas Tukano da Amazónia. Através da evidencialidade obrigatória, é impossível emitir uma afirmação vaga como "o cão comeu o bolo" sem alterar a conjugação do verbo para especificar como se obteve esse conhecimento: se o evento foi visto diretamente, se apenas se ouviu o barulho, se foi deduzido por vestígios, se foi contado por terceiros ou se se trata de uma mera suposição.

No Japonês, a reestruturação foca-se na percepção das relações interpessoais através do sistema Keigo. Em vez de apenas ajustar o tom de voz para soar educado, a posição social, a idade e a hierarquia entre os interlocutores alteram drasticamente todo o vocabulário e a flexão dos verbos. O cérebro é forçado a calcular instantaneamente a matriz de poder e respeito social antes de formular qualquer frase simples.

A própria percepção do tempo pode ser invertida, como demonstra o Aymara do Altiplano andino. Ao contrário do português, onde o futuro está "à frente" e o passado "atrás", para os Aymara o passado posiciona-se à frente (nayra), porque já é conhecido e pode ser "visto" pela mente, enquanto o futuro se localiza atrás (qhipa), por ser desconhecido e invisível. Essa lógica reflete-se até na linguagem gestual, com os falantes a gesticularem para a frente quando abordam acontecimentos passados.

Por fim, a língua Basca desafia a categorização da própria ação através da sua lógica ergativa. Enquanto as línguas românicas usam a mesma forma para o sujeito de uma frase intransitiva ("o João dormiu") e transitiva ("o João comeu a maçã"), o Basco distingue gramaticalmente o agente que provoca uma alteração no mundo daquele que apenas experimenta um estado. A mente do falante precisa de categorizar a natureza do impacto da ação antes de decidir como declinar o próprio nome do indivíduo.

As disciplinas que estudam a linguagem
Esta teia fascinante entre estrutura gramatical, cérebro e cultura é o objeto de estudo de várias áreas do saber científico:
  1. Linguística geral e aplicada: examina as regras, estruturas, evolução e os processos de aprendizagem dos idiomas.
  2. Sociolinguística: estuda a relação entre a língua e o contexto social, analisando fenómenos como a Umgangssprache, os dialetos urbanos e o uso de linguagens simplificadas para inclusão social.
  3. Psicolinguística e neurociência da linguagem: investigam como o cérebro processa, armazena e produz a fala, como a gestão da memória de trabalho na regra V2 do alemão ou os processos cognitivos da aglutinação.
  4. Antropologia linguística (e etnolinguística): explora a forma como a língua reflete e molda a visão do mundo, os rituais e as percepções culturais (como a orientação espacial dos Guugu Yimithirr ou a perceção temporal dos Aymara).
  5. Pragmática: analisa a linguagem em ação no contexto real, focando-se na intenção do falante e nas dinâmicas interpessoais (como o sistema Keigo no japonês).
Conclusão
Em última análise, compreender a diversidade linguística é aceitar que a realidade não é um dado absoluto, mas uma construção cultural. Cada idioma oferece-nos um novo mapa mental - com os seus próprios pontos cardeais, percepções do tempo e nuances emocionais.

Esta viagem ganha o seu sentido mais visceral na figura de quem cruza fronteiras. Seja na pele do turista que busca o encanto da comunicação imediata, na do emigrante que precisa de reestruturar a sua própria mente para habitar uma nova realidade, ou na do imigrante que procura no novo país um lugar de pertença, a língua revela-se no seu estado mais puro. Ver que os próprios nativos simplificam o seu idioma para acolher e comunicar é o maior gesto de empatia cultural.

Aprender uma língua não é acumular regras num livro nem exigir um domínio académico perfeito; é construir uma ponte. Ao desarmarmo-nos perante a complexidade do outro, descobrimos que, por mais distantes que sejam as nossas gramáticas, a necessidade humana de nos conectarmos e pertencermos é exatamente a mesma.

Sugestões de Aprofundamento
Para quem desejar continuar a explorar a forma como a linguagem molda o pensamento e a sociedade, sugerem-se os seguintes eixos de leitura e reflexão:
  • Relativismo linguístico (a versão moderada da Hipótese de Sapir-Whorf): investigar até que ponto a estrutura de uma língua limita ou determina a forma como os seus falantes pensam e percepcionam o mundo.
  • Design universal e acessibilidade linguística: analisar o impacto da Leichte Sprache e da Einfache Sprache nas políticas públicas de inclusão de imigrantes e pessoas com neurodivergências na Europa.
  • Neuroplasticidade e bilinguismo no adulto: explorar como o cérebro adulto reorganiza as suas redes neurais ao aprender idiomas com lógicas não-românicas (como línguas aglutinantes ou tonais).

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas: primeira celebração em Portugal acontece no Algarve no dia 1 de agosto


No próximo sábado, dia 1 de agosto, assinala-se mais um Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas, e Portugal junta-se à celebração pela primeira vez.

Criada em 2021 por organizações da África do Sul, desde então transformou-se num movimento global, apoiado pela Década do Oceano das Nações Unidas. O grande objetivo é sensibilizar para a importância das áreas marinhas protegidas na conservação dos oceanos, no desenvolvimento sustentável e no bem-estar das comunidades humanas.

Em Portugal, as celebrações serão realizadas de forma descentralizada em Albufeira, Lagoa e Silves, os três municípios abrangidos pelo Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado, a primeira área marinha protegida a ser criada em Portugal no século XXI e também a primeira de interesse comunitário. Abrangendo cerca de 156 quilómetros quadrados, protege um dos mais importantes recifes rochosos costeiros do Algarve, reconhecido pela sua elevada biodiversidade e pela relevância ecológica, social e económica que representa para a região.

O Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado foi criado em 2024

A organização regional fica a cargo da AIMM – Associação para a Investigação do Meio Marinho, com o apoio da Fundação Oceano Azul. Entre os parceiros contam-se também o CCMAR – Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, a Associação de Pescadores de Armação de Pêra, os municípios de Albufeira, Lagoa e Silves e a Marina de Albufeira. Em comunicado, a AIMM diz que a iniciativa conta ainda com a adesão de várias empresas marítimo-turísticas da região.

“A celebração assume especial relevância a nível nacional e internacional por assinalar a primeira participação de Portugal nesta iniciativa internacional dedicada à valorização e divulgação das áreas marinhas protegidas”, diz a organização coordenadora.

Ao longo do dia 1 de agosto, serão promovidas várias ações destinadas a divulgar o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado, a sua biodiversidade e a importância da sua conservação.

Em Albufeira, a AIMM, juntamente com outros parceiros, estará presente na inauguração da exposição “Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado”, marcada para as 11h00, no Espaço Expositivo P5, na baixa de Albufeira. A inauguração contará com uma breve apresentação da AIMM sobre o Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas e a importância desta área.

Das 1294 espécies de fauna e flora reportadas na costa algarvia, 889 foram identificadas na Pedra do Valado. 703 são invertebrados, 75 são espécies de algas, e 111 são peixes, incluindo espécies com estatuto de conservação, como os cavalos-marinhos e os meros. 

Em Silves, a AIMM, em colaboração com o CCMAR e a Associação de Pescadores de Armação de Pêra, irá promover, na Praia dos Pescadores, em Armação de Pêra, um peddy-paper com jogos e dinâmicas relacionados com o Parque. Está também prevista uma demonstração, por parte dos pescadores locais, das artes de pesca tradicionalmente utilizadas na região. As atividades decorrerão entre as 9h30 e as 11h00.

Por fim, em Lagoa, a AIMM estará presente na Praia de Benagil, onde investigadores da organização irão colaborar, ao longo do dia, nos briefings dirigidos aos visitantes das grutas de Benagil que realizem a visita de caiaque.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Could nature itself hold the solution to climate change?


In 2019, my scientific research was nearly brought to an early end when my team and I published the bombastic statement that natural forest restoration was the “best climate change solution” available in a paper for the peer-reviewed journal Science.

I remember a colleague from the World Wildlife Fund advising me that this message represented career suicide. He argued that people would be furious because reducing greenhouse gas emissions was the most urgent priority. The revival of nature might help with 30% of our carbon drawdown needs, but you cannot stop rising temperatures without cutting emissions.

I agreed both then and now. However, I explained that when we referred to the “best” solution, we didn’t simply mean the one with the largest impact in terms of CO2; we meant the best option for improving the livelihoods and wellbeing of people, too. And that, as we shall see, plays a crucial role in magnifying the beneficial effect.

Many people believe the scale of the climate challenge calls for immense technological innovation, geoengineering, or the transformation of our economy. But with these solutions there are often painful trade-offs. Almost every technological or geoengineering fix you can imagine comes at the expense of something else.

Stratospheric aerosol injection is one example. Creating clouds of reflective particles could block the sun and cool the land below. But alterations in sunlight and rainfall patterns could disrupt the growth of the crops we depend on for food. Similarly, direct air carbon capture has incredible potential to remove C02, but the huge financial and energy costs currently stand in the way of deploying it at the scale we need.

There is one set of solutions, however, that present no trade-off at all when they are done right. The restoration of natural habitats like forests is an exception in our climate toolkit because it draws on the same network of connections that allowed life to flourish in the first place.

The resilience of the natural world comes from ancient, underappreciated forces known as feedback loops. A positive feedback loop occurs when the outcome of a process has an effect that amplifies the process itself. You can see these patterns all the time in different aspects of life: for example whenever your anxiety about sleeping makes it harder to drift off.

Around 3.8bn to 4.2bn years ago, feedback loops allowed life to spread on an otherwise toxic and uninhabitable planet: Earth. As life gained a foothold, it began to transform the environment, making it hospitable to more life. Species emerged that generated opportunities for even more species. This self-reinforcing process created the Eden that allowed our own species to thrive, as well as providing every ounce of food, oxygen, timber, medicine and fuel we have ever needed.

But as we are all aware, the success of our species has initiated new feedback loops. The exploitation of natural resources by human beings has allowed population growth that has driven even more exploitation, which has warmed the planet, causing carbon to be released from the soil, driving more warming. As forests dry out, they are able to store less moisture, which causes more drying. Many loops such as this are now in motion, threatening to tip our planet into an entirely new state.

If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum

But just as feedback loops can cause damage, they can be harnessed as a pathway to recovery. They are not objectively good or bad: they are simply agents of change. If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum.

In Argentina’s Iberá national park, you can see a stunning example of runaway revival. After decades of degradation, the reintroduction of jaguars has reduced bloated herds of grazing herbivores, allowing wetland plants to recover. The plants’ roots trap moisture in the soil, and their branches provide a habitat for species that make this one of the most spectacular wetlands – and carbon sinks – on the planet. After just a few years, caimans now bask on the banks, macaws flash scarlet across the sky and giant otters patrol the waterways.

Of course, nature-based solutions are not always so successful. Companies have created vast carbon farms via monocultural tree planting, destroying native species in the process. The drying of peatlands to reduce methane production leads to the release of huge amounts of CO2. Nature’s power lies in its complexity, so attempting to simplify or reengineer the system often backfires.

The risks and trade-offs tend to disappear, though, when you get one vital part of the equation right. Time and again, when the revival of local biodiversity improves the livelihoods and wellbeing of local people, change becomes truly sustainable. Whenever people are intrinsically motivated to protect the environment around them, they become an integrated part of a natural feedback loop that can quickly gather momentum.

In the Iberá wetlands example, ecotourism became the engine of a new “restoration economy” employing rangers, chefs, hosts, wildlife trackers and guides. There are hundreds of such examples around the world: in Saseri, northern India, strategic soil management and tree restoration is trapping water to improve the yields of more than 1,200 farmers. A thousand kilometres to the south-west, in Gujarat, Indigenous women are restoring mangroves to protect 12 coastal villages from erosion while simultaneously improving the productivity of fisheries, crops and livestock.

What these and countless other projects illustrate is that we do not need remarkable innovation or great sacrifice to move things forward. We just need to allow a tiny fraction of our collective attention and wealth (perhaps less than 1% of global GDP) to flow towards these rural land stewards, supporting their ongoing efforts. Cumulatively, they result in hundreds of millions of tons of C02 captured – but that is only the beginning of their potential impact.

The more degraded nature becomes, the more desperately we need it. When nature starts to bounce back, it doesn’t only provide livelihoods, food security and carbon storage; it revives the hope, joy and inspiration that our species so desperately needs at this critical moment in time. Though they might seem beside the point, these emotional reactions are the lifeblood of nature restoration, with the potential to generate their own feedback loops, far into the future.

Prof Thomas Crowther is an ecologist and author of Nature’s Echo (Torva). He is Founder of Restor.eco, a non-profit platform for nature restoration sites

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Data center builders thought farmers would willingly sell land, learn otherwise


It seems that tech giants eyeing rural zones for data center development have underestimated how attached American farmers have grown to their lands in the decades they’ve been nurturing them.

Across the country, several farmers have firmly rejected eye-popping offers—sometimes in the tens of millions. These offers dwarf the value of their properties, but farmers have refused to put a price on the lands that they love most.

In a report on Monday, The Guardian highlighted a handful of cases nationwide where farmers’ refusals have frustrated plans to build data centers in areas long deemed rural.

It’s unclear how many farmers have received such offers, but rural lands have been increasingly targeted as demand for data centers to power AI has grown—most recently projected to increase by 165 percent by 2030. Globally, 40,000 acres are needed to support data center growth over the next five years, Hines Research estimated.

For “Silicon Valley executives,” rural areas are likely attractive due to “weak zoning protections, cheap power, and abundant water,” The Guardian reported.

It likely doesn’t help to sell the farmers these deals when they tend to come out of nowhere, following a knock on the door from a middleman who doesn’t make it clear who wants to buy the land or how the land would be used.

One 82-year-old Kentucky woman, Ida Huddleston, turned away a “Fortune 500 company” offering $33 million for 650 acres. NBC News reported that several of her neighbors received similar offers. Huddleston joined at least five other residents in the county who refused to move forward after learning they’d have to sign a non-disclosure agreement just to find out who they would be dealing with. Ultimately, Huddleston had to search public records to figure out that a data center was even being planned in the area, The Guardian reported. The lack of transparency is a problem, farmers have said, because what buyers want to do with the land matters.

“You don’t have enough to buy me out,” Huddleston told the company representatives when rejecting the deal. “I’m not for sale. Leave me alone, I’m satisfied.”

Notably, one resident in Huddleston’s county who received an offer, 75-year-old Timothy Grosser, even declined a proposal to “name your price” when a tech company sought to buy his 250-acre farm, The Guardian reported.

“There is none,” Grosser said.

The farm is where he “lives, hunts, and raises cattle” and where his grandson hunts a turkey every Christmas for the family feast.

“The money’s not worth giving up your lifestyle,” Grosser said.

Another farmer in Wisconsin, Anthony Barta, reportedly fretted about what would happen to his neighbors if he took a deal he was offered—showing the deep bonds of people whose farms have bordered each other for years. In his community, another farmer was offered between $70 million and $80 million for 6,000 acres.

“Me and my family, we own the farm and run close to 1,000 animals,” Barta said. “What would that do if that’s next to it? Can they even be there? You know, that’s our livelihood—the farm. We’re just concerned what, if it would go through, what would happen to us and our neighbors and farms and our community? What would happen to that?”

Some tech companies are apparently not taking “no” for an answer. At least one farmer who spent 51 years milking cows in Pennsylvania prior to the AI boom described tech companies as “relentless.”

Eighty-six-year-old Mervin Raudabaugh, Jr., found a creative solution to end the pressure to sell two contiguous farms. He reportedly staved off developers by turning to “a farmland preservation program dedicating taxpayer dollars toward protecting agricultural resources.”

By working with the program, Raudabaugh will only receive about one-eighth of what the developers were offering. But he said it’s worth it to know his land would be preserved for farming purposes and out of reach of persistent tech companies.

“These people have hounded the living daylights out of me,” Raudabaugh said.

Data center deals come amid fragile farm economy
For people in rural communities, data center fights go beyond concerns about water and electricity consumption—although those are concerns, too. Communities are defending the character of the land, which they don’t want to see suddenly disrupted by extensive construction, data center noise pollution, or untold environmental impacts from massive operations.

There are also public health concerns, as an attorney with environmental nonprofit Earthjustice, Jonathan Kalmuss-Katz, told The Guardian that the pollution new data centers will emit could possibly proliferate “forever chemicals” known as polyfluoroalkyl substances (PFAS).

“We know there are PFAS in these centers, and all of that has to go somewhere,” Kalmuss-Katz said. “This issue has been dangerously understudied as we have been building out data centers, and there’s not adequate information on what the long term impacts will be.”

Some rural communities are fighting to block rezoning requests that would allow developers to build data centers in areas previously zoned only for agricultural lands. But those fights are seemingly hard-won. At least one Michigan community sought to settle after a developer firm working for an unnamed tech company reportedly sued to push through a construction project on farmland.

For farmers, the data center deals come at a particularly difficult time financially. On Friday, the National Farmers Union issued a statement after the Supreme Court blocked the majority of Trump’s tariffs. In it, NFU President Rob Larew confirmed that “many family farmers and ranchers have already felt the consequences” of Trump’s tariffs, which have raised costs, disrupted sales, and triggered retaliations impacting US agricultural goods.

“In an already fragile farm economy, uncertainty has hit family operations hardest,” Larew said.

The deals also arrived at a time when the number of US farms is shrinking, continuing “a long-lasting trend of declining farm numbers,” Farm Journal reported this month. In total, the US lost about 15,000 farms in 2025, with no state reporting an increase in farms.

So far, not much farmland has been ceded to data centers, the report seemed to indicate, perhaps due to farmers who dig their heels in when developer representatives come knocking.

Perhaps particularly in this dire climate—where farms are shrinking and existing farms are cash-strapped from unpredictable tariffs—it seems notable that farmers are not being swayed by developers’ offers of what the Guardian described as “unimaginable riches.”

But Huddleston made it sound easy to turn down $33 million, because her ties to the land run deep. She told The Guardian that “four generations of the Huddleston family have watched the world change from the same fields,” while raising cattle and living off the land.

“My whole entire life is nothing but the land,” Huddleston said. “It’s provided me with anything and everything that I’ve needed for 82 years.”

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Por uma Economia da Felicidade e dizer não ao regresso do Fascismo



Podemos ser o país da Europa como o Butão e apostar na Felicidade Interna Bruta. As semelhanças connosco estão na difícil orografia do País, mas Butão é um País muito interior, sem oceano. E nós temos a vantagem de uma ZEE por explorar. O País, incluindo Madeira e Açores tem 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km². O que se pensa sobre isso: segurança nacional apenas ou investimento na Economia Azul? Vemos o mar sempre de costas voltadas, quando bem gerido, é uma nova "indústria", salvaguardando o património pesqueiro. 

A minha intenção  da foto do Ventura vestido com fardamento militar era expor o rei "Vai Nú". Ventura na cabeça dele e de Nuno Melo sonham/deliram que se refaça o Golpe de 28 de Maio de 1926. O que aconteceu: militares liderados por Gomes da Costa derrubaram a Primeira República, iniciando a Ditadura Militar que evoluiu para o Estado Novo sob Salazar. O movimento partiu de Braga e espalhou-se pelo país, com adesão em massa das guarnições. 
A Ditadura Nacional e o Estado Novo totalizaram 48 anos de fascismo penosos, de graves atrasos científicos e de escolaridade. Um regime da bufaria e muito sangrento com a Guerra Colonial.                Durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974), cerca de 10 mil militares portugueses morreram nas frentes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, com números oficiais revistos para cima de estimativas anteriores de 8 mil. 
Civis africanos sofreram perdas muito maiores, estimadas em mais de 100 mil, incluindo massacres como o da Baixa do Cassange (200-300 mortos) e Wiriyamu (385-450).
Repressão colonial e contra-ofensivas provocaram dezenas de milhares de civis africanos mortos. Marcelo Caetano, como muitos à primeira impressão pensam, não foi um ditador fofinho. Nos últimos anos do Salazarismo foi indecente e Marcelo perpetrou mais opressão sobre os países escravizados : 247 em Angola (1970), 128 em Moçambique (1971) e 123 na Guiné (1973).  
​Estimativas totais superam 100 mil, incluindo fuzilamentos, bombardeios e fome induzida.
O nosso País é muito seguro. Portugal manteve o 7º lugar no Global Peace Index (GPI) 2025 graças a um desempenho forte em baixa militarização e elevada segurança social. Indicadores positivos chave incluíram despesa militar mínima em percentagem do PIB, baixa participação em missões de paz da ONU e elevada sensação de segurança ao caminhar sozinho à noite.
A maior criminalidade apenas é de pequeno tráfico de droga, pequenos furtos e a violência doméstica. Não quero um País com estereótipos de machão. Quero um País que proteja e une. Um País que acolhe e integra. Um País para a frente, mais pragmático e com melhores salários. Há e é possível a criação de bons empregos em várias áreas, que não seja apenas o turismo e o beija-mão às Cimenteiras, às monoculturas, Navigator e o Grupo Amorim. Que faça urgentemente um TGV Porto-Vigo e outro entre Évora e Madrid. Um novo aeroporto em Lisboa. Um País com maior coesão territorial, sem recorrer apenas a auto-estradas. Isso não é "progresso". É uma medida de maior fuga do Interior para o Litoral. Há que respeitar e fortalecer as comunidades raianas e do interior. Têm direito a viver nesses locais. 
Os think tanks mais influentes e procurados a nível internacional em Portugal incluem o Institute of Public Policy (IPP), o Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS),  destacando-se pela produção de análise académica e debate público sobre políticas europeias e globais.
Avaliações dos think tank baseiam-se em citações académicas (Scimago), impacto mediático e eventos internacionais, onde Portugal tem presença modesta comparado a Bruegel ou Chatham House.
O IPP não figura em métricas científicas como Scopus/Web of Science, dada a natureza não peer-reviewed das publicações.
O IPRI publica em revistas académicas de RI (ex.: Janus), com alguma visibilidade em redes como TEPSA, mas o impacto científico é modesto comparado a universidades, sem posições destacadas em rankings bibliométricos.
Quanto à FFMS tem destaque em dados públicos (Pordata) e estudos sociais, com influência doméstica alta, mas publicações não científicas excluem-na de rankings como Scimago ou InCites, focados em artigos indexados.
A dinâmica migratória portuguesa mudou de forma significativa na última década e, pela primeira vez em várias décadas, há mais jovens portugueses a regressar do que a emigrar. A conclusão é de Manuel Caldeira Cabral, professor da Universidade do Minho e ex-ministro da Economia e Socialista que assinou um artigo no Expresso, em 3 de Dezembro do ano passado onde defende que Portugal entrou “numa nova realidade migratória”.  Segundo o economista, a emigração deixou de ser uma viagem sem regresso e passou a ser, para muitos jovens, uma experiência temporária. “Há sempre amigos que já viveram e trabalharam no estrangeiro e decidiram regressar”, observa.
Mas o fenómeno que destaca o ex-ministro da Economia é outro: Portugal tornou-se também um destino para jovens qualificados vindos de países ricos, como Alemanha, França, Itália, EUA ou Reino Unido. Desde 2019, afirma Caldeira Cabral, o número destes jovens que vêm trabalhar para Portugal supera o número de portugueses que emigram para os mesmos países.
Dados recentes mostram que entram anualmente no país cerca de 45 mil estrangeiros oriundos de economias com salários superiores aos portugueses, dos quais 33 mil são cidadãos da União Europeia. Só no último ano, cinco mil norte-americanos, seis mil italianos, quase quatro mil alemães e número semelhante de franceses pediram residência permanente em Portugal — a maioria com menos de 45 anos.
A ideia de que Portugal vive uma fuga de talentos não resiste aos números, argumenta Caldeira Cabral. O professor da UMinho sublinha que, embora tenham aumentado as qualificações dos jovens que emigraram, cresceram ainda mais as qualificações dos jovens que permaneceram no país.
Citando o Boletim Económico do Banco de Portugal, o autor explica que, entre os jovens que emigraram, 30% têm ensino superior, mas entre os que ficaram essa proporção chega aos 38,5%. “A propensão a emigrar é menor entre os mais qualificados, exatamente o contrário da fuga de cérebros”, afirma.
O saldo global também joga a favor de Portugal: nos últimos quatro anos, o emprego de licenciados cresceu 320 mil, enquanto o sistema de ensino superior formou apenas 230 mil. “A diferença — cerca de 90 mil — só pode ser explicada pela imigração qualificada”, sustenta. No mesmo período, terão saído entre 40 e 50 mil licenciados, mas entraram entre 150 e 160 mil.
Para Caldeira Cabral, estes dados demonstram que Portugal deixou de encaixar no modelo clássico de migração “Norte-Sul”, em que trabalhadores se deslocam apenas dos países mais pobres para os mais ricos. O país aproxima-se agora do padrão “Norte-Norte”, típico das migrações dentro da UE: fluxos nos dois sentidos, com saída e entrada de trabalhadores qualificados.
O professor afirma que esta mudança obriga a repensar o debate sobre a emigração jovem. “Se os jovens saem apenas porque os salários são maiores lá fora, como explicar que tantos estejam a voltar?”, questiona. E acrescenta: “Se Portugal não tivesse oportunidades interessantes, porque estaria a atrair jovens da Alemanha, França, Itália ou EUA?”
Entre 2020 e 2023, regressaram ao país mais portugueses do que aqueles que partiram. Só no último ano, 31 mil cidadãos nascidos em Portugal voltaram, a maioria jovens trabalhadores. Para o ex-ministro, esta tendência deve ser encarada como uma oportunidade: “Temos de olhar para os nossos jovens emigrantes não como uma perda, mas como uma força estratégica”, defende, sugerindo que o país os mobilize como “embaixadores” e valorize a experiência internacional que trazem.
Caldeira Cabral recorda ainda que países como Luxemburgo, Irlanda ou Suíça têm taxas de emigração jovem superiores à média europeia — e isso não significa decadência, mas abertura ao mundo. O mesmo, afirma, deve aplicar-se a Portugal.
Com o aumento do número de regressos e a capacidade de atrair talento estrangeiro, o autor defende que Portugal deve abandonar a visão fatalista sobre emigração. “Não devemos ficar a chorar o leite derramado dos que escolhem sair, porque muitos vão mais tarde escolher voltar”, escreve.
A prioridade, conclui, deve ser manter incentivos e criar condições para que regressar a Portugal se torne vantajoso — para os jovens e para o país.              
Há que fazer um esforço político e das instituições e autarquias para terminar em Portugal o que é designado por crony capitalism. Sistemas onde o sucesso empresarial depende mais de relações pessoais, familiares ou redes de proximidade (familiaridade) do que de mérito ou concorrência aberta, favorecendo "sempre os mesmos" grupos conectados por laços de confiança ou lobby. 
Implicações Económicas e Sociais
Esse modelo reduz a concorrência, eleva custos para consumidores e fomenta corrupção, contrastando com mercados meritocráticos.
As oportunidades de trabalho e transparência para atrair os jovens estão aí, sobretudo na área ambiental, numa boa transição verde, o País que exporte novas dinâmicas culturais, que aposte  num plano biocentrado nos oceanos do que apenas preocupado em segurança policial e controle, uma nova urbanidade (e há tanto a fazer e temos tão bons especialistas, idealizando a economia circular, a mobilidade suave, em cidades de 15 minutos, restauro dos serviços de saúde e continuar a investir na literacia digital e científica dos idosos) e na preservação da biodiversidade. 
O património biológico é fundamental neste séc XXI. As políticas globais e capitalistas infelizmente elevam o carbofascismo e exploração das terras raras. É um desafio gigante pois, a Saudi Aramco, empresa de petróleo e gás natural, é a empresa mais rentável do mundo, tendo facturado 105,37 mil milhões de dólares no último ano fiscal.
Contudo a preservação da nossa biodiversidade gera vantagens económicas directas e indiretas, sustentando ecossistemas essenciais para atividades humanas rentáveis. Há que renaturalizar Portugal.
Valores Directos
Recursos como madeira, peixes, plantas medicinais e produtos agrícolas derivados da biodiversidade geram PIB e emprego, com mercados globais de biotecnologia e farmacêuticos a valerem biliões de dólares anualmente. E um turismo diferente. Um turismo imersivo, já ouviram falar?

O Butão cobra uma taxa turística sustentável (Sustainable Development Fee, SDF) de 100 dólares americanos por dia para visitantes internacionais a partir de 2024, reduzida de valores anteriores mais altos como 200-250 USD. Essa taxa aplica-se por noite de estadia e inclui serviços como visto, tarifa mínima de hotel de categoria superior, refeições principais, guia licenciado, transporte interno e oxigénio de emergência quando necessário.
Valor Atual
Crianças de 2 a 11 anos pagam metade (50 USD/dia), menores de 2 anos estão isentos, e cidadãos de nações vizinhas como Índia e Bangladesh têm taxas simbólicas ou diferentes regras. Indianos, por exemplo, pagam cerca de 1.200 NPR (rupees nepaleses) por dia. A taxa financia 100% projetos de desenvolvimento sustentável e é obrigatória para todos os turistas, exceto residentes.
Vantagens para o Butão
A taxa preserva a felicidade nacional bruta (Gross National Happiness), limitando o overturismo e protegendo o meio ambiente frágil dos Himalaias. Gera receitas que financiam saúde, educação gratuita, conservação de 72% do território como floresta e infraestrutura rural, mantendo a cultura budista intacta. Isso equilibra economia (cerca de 45% do PIB turístico pré-pandemia) com bem-estar local, evitando massificação vista em vizinhos como Nepal.
Portugal devia fazer o mesmo. 
Valores Indirectos
Serviços ecossistémicos como polinização, regulação climática, proteção de solos e purificação de água e rios livres poupam custos em agricultura, seguros contra desastres e tratamento de água, estimados em 125-145 biliões de dólares por ano globalmente. A perda de biodiversidade aumenta riscos económicos, como colapsos de colheitas ou inundações mais frequentes.
A União Europeia definiu 5 objetivos estratégicos para o período 2021-2027, que serão as prioridades do Portugal 2030. Nesse sentido, temos que aproveitar eficientemente os fundos europeus destinados ao País, com transparência, sem capitalismo de cunhas ou clientelismo económico. São eles: 
1. Portugal + Inteligente, investindo na investigação e inovação, na digitalização, na competitividade e internacionalização das empresas, nas competências para a especialização inteligente, a transição industrial e o empreendedorismo.
2. Portugal + Verde, orientado para a transição verde, acompanhando a emergência climática e incorporando as metas da descarbonização, da eficiência energética e reforço das energias renováveis, e apoiando a inovação, a economia circular e a mobilidade sustentável.
3. Portugal + Conectado, com redes de transportes estratégicas, baseada numa forte aposta na ferrovia, potenciando a mobilidade de pessoas e bens, bem como a qualificação dos territórios, garantindo a sua atratividade, competitividade e inserção nos mercados nacional e internacional.
4. Portugal + Social, apoiando a melhoria das qualificações da população, a igualdade de acesso aos cuidados de saúde, promovendo o emprego de qualidade, a inclusão social, seguindo as prioridades estabelecidas no Pilar Europeu dos Direitos Sociais.
5. Portugal + Próximo dos cidadãos, apoiando estratégias de desenvolvimento a nível local, promotoras de coesão social e territorial, e apoiando o desenvolvimento urbano sustentável, baseado no conceito de interligação de redes, centrada nas necessidades das pessoas.
6. Portugal + Transição justa, para assegurar que a transição para uma economia sustentável e neutra em carbono se processo de forma justa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Dia 3 de Novembro - Dia Mundial das Reservas da Biosfera


A Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo (RBPB) é uma Reserva da 1ª Geração, classificada desde 1981 pela Unesco, tendo sido a nível nacional a primeira área portuguesa a ser integrada na Rede Mundial de Reservas da Biosfera. 
A Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo constitui o maior ecossistema de água doce do país. Localizada no distrito de Santarém, a RNPB distribui-se entre dois concelhos, Golegã e Torres Novas, a que correspondem duas regiões, O Alentejo e o Centro, bem como duas sub-regiões, a Lezíria do Tejo e o Médio Tejo. Ocupando os concelhos de Torres Novas e Golegã, a RBPB desenvolve-se sobre uma área de 5 896 ha integrando as localidades de Golegã, Riachos, Azinhaga, Pombalinho e Boquilobo, abrangendo uma população total de 8 450 habitantes traduzidos em 3.919 famílias. Da população abrangida pela RBPB 10% está empregada no sector primário, 20% no sector secundário e 70% no terciário. 
Em 1996, a Reserva de Paúl do Boquilobo foi considerada uma Zona Húmida de Importância Internacional ao abrigo da Convenção de Ramsar. Dada a sua importância para a avifauna, está também classificada, desde 1999, como uma Zona de Proteção Especial, de acordo com a Diretiva n.º 2009/147/CE. 
A agricultura e a pecuária são as principais atividades económicas da região e atraem visitantes em busca de um turismo rural que valorize os espaços da ruralidade e da natureza. Existem marcas da presença humana no território da Reserva da Biosfera desde o paleolítico, sendo possível encontrar vestígios dessa presença em grutas como a Buraca da Moura ou a Lapa da Bugalheira.

domingo, 21 de setembro de 2025

Turismo Imersivo: Da Massificação à Experiência com Significado


Hoje, viajar tornou-se uma prática tão comum que se arrisca a uma certa banalização. Em 2023, os residentes da União Europeia com mais de 15 anos realizaram mais de 1,1 mil milhões de viagens turísticas com pelo menos uma noite de estadia. Isso equivale a uma média de 2,4 viagens por pessoa por ano (Eurostat, 2023). No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a maioria das famílias realiza uma média de três viagens por ano.

Apesar da dimensão impressionante destes números, esta massificação e repetição de itinerários semelhantes — praias, monumentos, capitais turísticas — faz com que muitas dessas viagens deixem de ser experiências marcantes ou transformadoras.

É neste contexto que surge com força uma tendência internacional: o turismo imersivo (immersive tourism), também referido como experiential travel ou curated travel. A sua proposta é clara: substituir a quantidade pela qualidade, levando o viajante a viver experiências autênticas e a criar ligações genuínas com as comunidades locais.

O que distingue o turismo imersivo?
Ao contrário do turismo de massas, o turismo imersivo privilegia pequenos grupos e experiências de proximidade, onde os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem participantes ativos:

Aprendendo diretamente com artesãos locais em workshops práticos.
  1. Descobrindo saberes tradicionais, como a cestaria com plantas autóctones ou a produção de queijo de cabra numa pequena unidade artesanal
  2. Partilhando refeições com gastronomia regional preparada com produtos locais.
  3. Integrando-se em festividades comunitárias e tradições vivas.
  4. Explorando a natureza através de passeios guiados que revelam paisagens, histórias e biodiversidade.
Um estudo recente de Zhou & Wang (2024) sublinha que a qualidade destas experiências depende de dois fatores: o experiencescape físico (o ambiente, a temática, e as infraestruturas que envolvem a experiência) e o experiencescape interpessoal (proporcionado pela interação entre anfitriões e visitantes). Ambos os elementos, segundo os autores, potenciam emoções positivas, que aumentam a probabilidade de os viajantes recomendarem o destino ou regressarem no futuro.

Uma prática de Turismo Responsável
As viagens imersivas não são apenas gratificantes para os viajantes – representam também um avanço no movimento global pelo Turismo Responsável. Ao escolher este tipo de experiência:
  1. As economias locais beneficiam diretamente: artesãos, produtores, guias e pequenos negócios veem o seu trabalho valorizado e justamente compensado.
  2. O património cultural é preservado: os ofícios e práticas tradicionais ganham visibilidade e continuam a florescer.
  3. As comunidades são fortalecidas: receber viajantes aumenta o orgulho na identidade local e abre novas oportunidades.
  4. O ambiente é respeitado: o formato de pequenos grupos e as atividades de contacto com a natureza promovem práticas de baixo impacto.
Desta forma, o turismo imersivo gera benefícios mútuos. Os visitantes têm experiências autênticas – não encenadas - que se tornam o ponto alto da viagem: as histórias das pessoas que conheceram, os ofícios que experimentaram com as próprias mãos, as receitas que provaram e as tradições em que participaram. E, ao fazê-lo, cada viagem contribui para uma economia local mais forte e para a preservação do que torna cada lugar único.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Dia Nacional da Sustentabilidade


A 25 de setembro celebrou-se o Dia Nacional da Sustentabilidade, uma data simbólica já que coincide com o dia que marca também a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pela ONU (25 de setembro de 2015).

Este dia de celebração nacional foi instituído pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2023, de 9 de junho. A ação local é essencial, e o compromisso de Portugal com a causa da Sustentabilidade está no centro da criação deste dia.

A sustentabilidade enfrenta desafios globais que exigem um crescimento económico sustentável , capaz de garantir as necessidades do presente sem comprometer o futuro, como já descrito em 1987 no Relatório Brundtland.

O Dia Nacional da Sustentabilidade visou divulgar informação, promover o conhecimento e capacitar todos os setores da sociedade para a adoção de comportamentos transformadores.

A Agenda 2030 da ONU, em vigor desde 1 de janeiro de 2016, define 17 ODS e 169 metas para guiar o desenvolvimento sustentável até 2030, com o apoio unânime de 193 países, incluindo Portugal.

A sustentabilidade ganhou relevância nas estratégias das empresas, com impacto na governança, nos compromissos assumidos pelas administrações e nos produtos, que viram os seus processos alterados.

Este ano, foram várias as iniciativas para promover a sustentabilidade em Portugal, entre elas:
  1. Metropolitano de Lisboa: até 22 de outubro, nas estações da Baixa-Chiado e da Alameda, está patente uma exposição sobre os projetos de responsabilidade social e ambiental do Metropolitano de Lisboa;
  2. Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) e Comité Nacional para a Década do Oceano: jornada “Ciência para Alcançar o Desenvolvimento Sustentável”;
  3. INA: WebINAr “Sustentabilidade em Ação: Capacitação e Gestão Sustentável na Administração Pública”, com o objetivo de promover a compreensão da importância estratégica da sustentabilidade na gestão pública, discutir abordagens inovadoras e sustentáveis para enfrentar desafios contemporâneos e apresentar exemplos concretos e bem-sucedidos de integração da sustentabilidade em diversos setores da Administração Pública;
  4. PT Sustentável: promoveu diversas atividades descentralizadas, envolvendo diferentes setores e níveis de governação. O objetivo é divulgar informações e capacitar todos os atores sociais para mudanças conscientes de comportamento rumo a um futuro sustentável;
  5. Visões do Futuro: reuniu diversos parceiros, como Pisca Pisca, Cepsa, LIDL, Auchan, Sogrape, Sociedade Ponto Verde, entre outros. Houve mesas redondas, workshops focados na sustentabilidade, rastreios de saúde e um teatro infantil sobre o tema.

Estas iniciativas refletem o compromisso de Portugal com a sustentabilidade e a promoção de práticas que contribuem para um futuro mais verde e inclusivo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pedro Abrunhosa- retrato real do País


Primeiro ignorei. Mas a coisa foi-se agigantando de tal forma, à boa maneira da tão Tuga cultura da Inveja, que se tornou boa demais para a guardar só para mim.
Vamos aos factos: em Outubro de 2022 fiz uma curta, mas muito eficaz digressão internacional, como faço ciclicamente, tendo convidado o Grupo Etnográfico Cantadores de Pias, liderados por Paulo Ribeiro, para me acompanharem desta vez. Lotámos as salas mais emblemáticas de Londres, Paris, Bruxelas e Luxemburgo. A magnificiência, a beleza pura do Cante Alentejano, pela voz destes 27 incríveis cantores, conquistava o coração da Europa. Sucesso total. Milhares de pessoas puderam entender a razão pela qual o Cante foi tão justamente elevado a Património da Humanidade pela UNESCO.
Como é meu hábito, e porque me cumpre, como a todos nós, defender e dignificar o meu país seja a que preço for, levei a cabo esta operação integralmente custeada pelo meu bolso. É minha obrigação sustentar os meus devaneios artísticos e sempre obtive para mim, e para Portugal, o melhor proveito possível. Muitas vezes, como foi este o caso, o prejuízo financeiro é compensado pela satisfação e, porque não dizê-lo, pelo prestígio de concretizar algo Profundo. Fazer dialogar as minhas canções com modas tradicionais alentejanas pareceu-me uma oportunidade imperdível para sustentar a tese de que a Música é a linguagem dos homens que mais fronteiras derruba. Mais: tendo eu convidado ao longo dos anos para pisar o palco comigo os melhores músicos de Jazz e Funk norte-americanos, como o caso de Maceo Parker, de Country, Lucinda Williams, da música Brasileira, Maria Bethania, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, do Flamenco Andaluz, El Duquende, da música francesa, Carla Bruni, entre muitos outros, achei que o Património da Humanidade do meu país não ficaria mal representado se o convidasse para o meu palco.
Regressados a Portugal com os ecos do impacto que tivéramos na Europa, achei que poderíamos, e deveríamos, levar mais longe a nossa ousadia. Buenos Aires, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Sao Paulo, Tóquio, Estocolmo, Oslo, Berlim, Amsterdão, num total de vinte cidades, afiguram-se destinos óbvios para tão feliz e bem sucedida ligação. Porque sozinho já não poderei custear tal operação, dado que, para além dos 27 cantadores de Pias, teria que levar 1 músico e 5 técnicos, num total de 33 pessoas, atrevi-me a pedir à Direcção de Turismo do Alentejo que me ajudasse a fazer o levantamento de eventuais entidades, privadas ou públicas, que quisessem colaborar da maneira que entendessem em levar adiante tal empreitada.


Para tal, tive uma reunião prévia de 40 minutos, apenas consultiva, com o Turismo do Alentejo, em Beja. A única conclusão desse encontro foi que era necessário desenvolver um documento claro, exaustivo e transparente, para apresentar a instituições múltiplas. E a coisa ficou por aqui. Ou ficaria.
É preciso relembrar que Portugal aguentou, e muitas vezes colaborou, com um sistema de nacional-chibismo que permitiu à Inquisição queimar centenas de vítimas e à PIDE ter um esbirro em cada associação. De repente, sabe-se lá indigitado por quem, eu já era ‘Embaixador do Cante Alentejano’ e, provavelmente, deveria estar a receber por debaixo da mesa milhões de euros que gastaria em passeios no meu opulento veleiro fundeado no cais de Beja. Eu, ímpio estrangeiro, como me podia permitir tocar no sacrossanto Cante?
Essa Arte sublime, o maravilhoso Cante Alentejano, é afinal, para alguns iluminados, uma posse, uma coisa parada, uma cena de vitrine, adereço de enfeite prisioneiro das fronteiras da mesquinhez. Para estes novos-inquisidores do reino dos parolos, o merecidíssimo título de Património da Humanidade é, afinal, um estorvo. Com este tipo de ‘defensores’ o Cante não precisa de inimigos..
Um gajo do Porto ri-se disto. E provavelmente o Alentejo e os meus queridos companheiros Alentejanos, rir-se-ão também. Uma das razões pelas quais este país tem perdido oportunidades soberanas de sair do provincianismo é esta: os que vivem sentados, encostados ao ‘opinismo’ de teclado, incapazes de se mexerem para concretizar algo que seja pelo seu país, afastam aqueles que concretizam, os que tem sangue na guelra e não se contentam com o medíocre quando podem criar o excelente.
Não sei em que é que isto vai ficar. Se desista de levar o encantamento secular do Cante Alentejano ao público que, pelo mundo, tem acompanhado generosamente as minhas aventuras artísticas ao longo de três décadas. A ver vamos.
Uma palavra final: ao Alentejo e aos Alentejanos, o meu sentido, comovido agradecimento pela Luz que tem transmitido a todo o país através da vossa incrível Música.
Que melhor maneira há para explicar, a quem não conhece, de que é feito o Chão de Portugal? Viva o Alentejo!
Pedro Abrunhosa
Porto, 14,Janeiro, 2023

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Guy Finds A Stray Kitten, Bikes Around The World With Her For Two Years


Um ciclista encontra um gatinho abandonado à beira da estrada. Decide levar o gatinho na sua viagem à volta do mundo, e os dois rapidamente criam um laço. O ciclista partilha as suas experiências de viajar com um gato, incluindo os desafios e as alegrias desta aventura singular.

The "guy" in the video is Dean Nicholson, a Scottish traveler who became famous for his journey cycling around the world with a stray cat he rescued named Nala.

Here are some key details about him and his story from the video:

  • The Rescue: Dean was cycling through Bosnia when he heard a kitten meowing behind him. He couldn't find her a home nearby and didn't want to leave her alone, so he cleared space on his bike and took her with him [00:00]. He got her a passport, and a microchip.

  • The Bond: He originally intended to cycle across the world quickly, but his perspective changed after finding Nala. He now prioritizes her comfort and enjoyment over the speed of his journey.  [02:10].

  • Traveling Together: Nala often rides on Dean's shoulder while he cycles [00:36]. Together, they have traveled through numerous countries, including Montenegro, Germany, Belgium, and France [03:10].

  • Going Home: The video captures a touching moment when Dean returns home to Scotland to introduce Nala to his family [03:58].

Dean Nicholson tem 33 anos. Saiu de casa em Dunbar, na Escócia, em setembro de 2018 para viajar pelo mundo em bicicleta. No início de 2019 publicou um vídeo no Instagram do momento em que encontrou Nala, a gata que resgatou na Bósnia. O vídeo chamou a atenção dos meios de comunicação de todo o mundo e já tem mais de 130 milhões de visualizações. O seu canal no YouTube teve mais de cinco milhões de visualizações.
Dean e Nala continuam a viajar juntos pelo mundo e partilham as suas aventuras na conta Instagram 1bike 1world, que tem mais de 750 mil seguidores.