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sábado, 25 de outubro de 2025

Não precisamos de mais coveiros da Democracia

Yuri Klapouh (pintor Ucraniano, nascido em 1963)

Por Carla Castelo
Precisamos de mais cidadãos e cidadãs que intervenham na vida pública e política.
Precisamos de mais projetos comunitários que mostrem que só temos a ganhar com o reforço dos laços de vizinhança.
Precisamos de quem trabalhe com e para as pessoas.
Precisamos de quem não se deixe silenciar.
Precisamos de mais jornalistas que enfrentem a máquina trituradora em que se tornaram tantas redações.
A propósito de mais uma entrevista de AV, agora no papel de candidato a ditador
Há nas televisões jornalistas que são excelentes profissionais, que muito admiro e que continuam a ser uma referência, mas há também uma máquina que impõe cada vez mais a sua agenda de interesses que não são os da busca da verdade e de informar com rigor e isenção.
Isto não é de agora e já deu duas enormes vitórias ao partido que quer enterrar de vez a democracia.
O candidato AV tem sido levado ao colo com dezenas de entrevistas em que faz afirmações e proclamações cada vez mais graves. 
Já não tem pejo em dizer que acabaria com as instituições democráticas. Sim, chegámos ao ponto em que estamos à beira de um precipício.
Pelo tempo de antena desproporcionado e pela banalização da informação-espetáculo, os media têm a sua quota parte de responsabilidade se dermos o passo em frente.

"A maior catástrofe de fome desde a Grande Depressão". América prepara-se para cortar ajuda alimentar em novembro. 42 milhões de norte-americanos afectados!
At least 25 states plan to cut off food aid benefits in November



quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Origins and Evolution of the Palestine Problem


No início do século XX, existia ainda uma comunidade Judaica na Palestina, na sua maioria ortodoxa, que coexistia pacificamente com a população árabe . As revoltas árabes só surgiram quando ficou clara a intenção das autoridades judaicas de praticar uma política de apartheid e expulsão progressiva dos árabes dos territórios em que viviam. Estes factos estão bem documentados no livro branco da ONU intitulado "The origins and evolution of the Palestine problem"

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Governo israelita considera “vergonhosa” acusação de genocídio, Hamas diz que vergonha é inação internacional


Israel considerou hoje “vergonhoso” o relatório da Associação Internacional de Académicos do Genocídio acusando-o de “um genocídio” em Gaza, enquanto para o movimento islamita palestiniano Hamas uma “mancha de vergonha” é a inação da comunidade internacional.

“[O documento] assenta inteiramente na campanha de mentiras do Hamas e no branqueamento dessas mentiras por parte de terceiros”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) israelita na sua conta da rede social X.

Reagiu assim à declaração da Associação Internacional de Académicos do Genocídio (IAGS, na sigla em inglês), a maior associação de especialistas nesse crime contra a humanidade, que classificou as ações de Israel na Faixa de Gaza como “um genocídio” e instou o Governo israelita a cessar os ataques contra civis e a “deslocação forçada” da população.

“As políticas e ações de Israel em Gaza correspondem à definição legal de genocídio prevista no artigo II da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948”, sustentou a associação num comunicado, recordando que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) considerou plausível que Israel estivesse a cometer genocídio e instou o Estado a cumprir as ordens do tribunal.

O MNE israelita disse que o relatório dos especialistas é “vergonhoso” e que a IAGS não “verificou a informação”, a tarefa “mais elementar” numa investigação, conseguindo “até distorcer” o que foi dito pelo TIJ.

Mas, “acima de tudo”, acrescentou o MNE israelita na rede social X, a IAGS “criou um precedente histórico”: “Pela primeira vez, os ‘especialistas em genocídio’ acusam a própria vítima de genocídio”.

Isto apesar da “tentativa de genocídio do Hamas contra o povo judeu, assassinando 1.200 pessoas, violando mulheres, queimando vivas famílias e declarando o seu objetivo de matar todos os judeus”, acrescentou o MNE de Israel na mensagem.

O Exército israelita matou mais de 63 mil palestinianos desde o ataque do grupo islâmico Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023.

Por seu lado, o Hamas afirmou que o relatório da IAGS que classifica a guerra israelita na Faixa de Gaza como um genocídio representa uma nova prova legal sobre a situação no enclave, constituindo uma “mancha de vergonha” para a comunidade internacional.

A definição de genocídio estabelecida no artigo II da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio indica que “é cometido um genocídio quando um grupo nacional, étnico, racial ou religioso é sujeito a massacre, alvo de lesões graves à sua integridade física ou mental, intencionalmente submetido a condições destinadas a causar a sua destruição física ou transferência à força de crianças desse grupo para outro” – tudo isto feito com o intuito de exterminar, total ou parcialmente, essa comunidade.

Para o Hamas, a resolução do IAGS “constitui uma nova documentação legal que se soma aos relatórios e testemunhos internacionais que documentaram o genocídio” de que os palestinianos estão a “ser vítimas à vista de todo o mundo”.

O grupo palestiniano defendeu que “a inação” da comunidade internacional “é uma mancha de vergonha, uma falha injustificável na proteção da humanidade e uma ameaça direta à paz e à segurança internacionais”.

“Exigimos que a comunidade internacional, as Nações Unidas e todas as partes relevantes tomem medidas urgentes para pôr fim aos crimes de genocídio, deslocação e limpeza étnica que o Exército de ocupação está a cometer implacavelmente contra o nosso oprimido povo palestiniano”, sublinhou o movimento num comunicado.

O Hamas exigiu ainda que sejam punidos “os líderes fascistas e terroristas da ocupação pelos seus crimes, garantindo-se que não escaparão impunes”.

Várias organizações de defesa dos direitos humanos importantes, incluindo duas organizações israelitas, declararam também acreditar que Israel está a cometer genocídio.

A denúncia do maior grupo de peritos em genocídio junta-se às de dezenas de associações, organizações não-governamentais (ONG) e organizações internacionais, como a ONU, que têm classificado as ações de Israel na Faixa de Gaza como genocídio ou possível genocídio.

Ler mais:
Guerra em Gaza é boa para o negócio: venda israelita de armas vai de vento em popa.
Indústria de defesa de Israel aumentou exportações pelo quarto ano consecutivo. E Europa é o principal comprador. Ajuda um bom argumento de marketing: são armas testadas no campo de batalha.


domingo, 10 de agosto de 2025

Vergonha


Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 07/08/2025

Numa jogada de mau gosto, o Hamas decidiu publicar fotografias de dois reféns israelitas em seu poder, famélicos e abatidos, acompanhadas da legenda “eles comem o mesmo que nós”, numa referência à estratégia de fome adoptada pelo Governo de Israel em Gaza. Netanyahu, como era de esperar, saltou logo sobre a oportunidade, acusando o Hamas de barbárie e anunciando a total ocupação de Gaza: esperava, talvez, que a fome que ele inflige a três milhões de pessoas (proibindo-as inclusivamente de pescar no seu mar!) não afectasse a alimentação dos reféns israelitas. E, em Bruxelas, Kaja Kallas, a responsável pela política externa da UE e que jamais teve uma palavra a condenar o genocídio em Gaza, acompanhou Netanyahu na sua indignação e exigiu a imediata libertação dos reféns, sem pedir nada em troca da parte de Israel. Num momento em que finalmente se levantam vozes dentro de Israel a condenar a ofensiva em Gaza — vozes de antigos chefes militares e de segurança, de organizações humanitárias ou do escritor David Grossman, falando também em genocídio —, a UE, enquanto organização, continua a fingir que não estamos a assistir em Gaza à mais sinistra limpeza étnica levada a cabo por um Governo dito democrático. Mas, como disse Yuli Novak, da organização israelita B’Tselem, “isto não poderia acontecer sem o apoio do mundo ocidental”.

Dentro da UE e escudado na sua inércia, Portugal tem sido um caso notável de hipocrisia e cobardia. Eu chego a ter vontade de rir ao assistir aos contorcionismos explicativos do ministro Paulo Rangel para tentar não ter posição sobre o assunto, fingindo que a tem, numa patética estratégia de “agarrem-nos senão reconhecemos o Estado da Palestina”. Primeiro, confiante na inércia de toda a União, Rangel afirmava que o reconhecimento, a existir, deveria ser uma decisão conjunta dos 27. Os reconhecimentos unilaterais feitos por Espanha e Irlanda não o abalaram, mas ficou claramente sem chão quando Macron anunciou que a França ia reconhecer o Estado palestiniano e a Inglaterra fez o mesmo. Aí, Rangel fez uma inolvidável intervenção na ONU, em que garantiu à assembleia mundial que Portugal tinha detectado uma alteração histórica na posição palestiniana, a qual abria caminho a um possível reconhecimento. Em suma, enquanto o PM inglês colocava exigências a Israel sob a ameaça de reconhecer a Palestina independente, o nosso ministro partia do princípio oposto para sustentar, sem se desmanchar, que a Autoridade Palestiniana aceitara as exigências de Luís Montenegro para poder ser reconhecida por Portugal como Estado. Note-se: a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e não o Hamas em Gaza. Entre essas exigências de Montenegro, Rangel destacou a reforma das instituições palestinianas e a realização de eleições: patéticas demandas para quem acabava de regressar de uma cimeira da inútil CPLP realizada na Guiné-Bissau — um país cujo Presidente amordaçou a democracia no seu país e governa sem ir a eleições — e antes de a chefia da mesma CPLP ser transmitida à Guiné Equatorial — onde jamais houve eleições e persiste há décadas uma ditadura familiar, brutal e corrupta como nenhuma outra. Sim, Portugal é hoje um exemplo eloquente da podridão moral em que vegeta a União Europeia, governada por políticos sem respeito pelo passado e pelos valores europeus.

Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas.

Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja.

Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem.

terça-feira, 1 de julho de 2025

O Mundo de Edena


Antes de entrar na obra em si, cabe falar um pouco sobre o autor, Jean “Moebius” Giraud. Foi um artista francês que trabalhou com quadrinhos e também cinema. Começou a sua carreira desenhando um faroeste chamado Blueberry poduzido em parceria com Jean-Michel Charlier. Sua obra de maior reconhecimento, O Incal, foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky.

"O Mundo de Edena" (no original, Le Monde d'Edena) destaca-se pelo seu visual onírico, simbolismo filosófico e abordagem existencialista, sendo considerada uma das obras-primas do autor.

📘 Visão geral da série
Autor: Moebius (Jean Giraud)
Género: Ficção científica, espiritualidade, aventura, utopia/distopia
Publicação inicial: 1983 (como álbum completo em 1988 e uma republicação em 2022)

Volumes: 6 principais
📚 Livros da série
  1. Na Estrela (Sur l'Étoile) – Introdução ao universo de Edena
  2. Os Jardins de Edena (Les Jardins d’Edena) – Primeiras explorações do planeta
  3. A Deusa (La Déesse) – Transições psicológicas e metafísicas
  4. Estrela (Stel) – Mudanças interiores e busca de sentido
  5. Sra. (Sra) – Reflexões sobre identidade e género
  6. Os Consertadores (Les Réparateurs) – Última fase da jornada
🧑‍🚀 Enredo
A história segue Stel e Atan, dois viajantes espaciais que caem num planeta desconhecido. À medida que exploram Edena, são forçados a abandonar a tecnologia e confrontar a natureza, os seus corpos e a própria consciência. Ao longo da saga, Moebius aborda temas como:
  1. Regresso à natureza
  2. Sexualidade e identidade
  3. Autoridade e opressão
  4. Iluminação espiritual
🎨 Estilo artístico
Moebius usa um traço claro e detalhado, com cores suaves e paisagens surreais que evocam tanto o maravilhamento quanto a estranheza. A arte é simbólica e muitas vezes onírica, convidando o leitor a interpretações múltiplas.

💡 Curiosidades
A série foi inspirada por experiências pessoais de Moebius com meditação, dieta macrobiótica e busca espiritual.
Edena começou como uma história promocional para a Citroën (!), mas foi rapidamente expandida numa saga ambiciosa.
A personagem Stel representa o Eu espiritual e consciente; Atan representa o Eu condicionado e apegado à norma.

📚 Edições em português
A série foi publicada em português por diferentes editoras, como a ASA (Portugal) e outras no Brasil. Em anos recentes, algumas editoras lançaram edições integradas com todos os volumes.

Biografia completa aqui

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A explicação de Gaza, por Augusto Baptista


Gaza será "totalmente destruída", afirma ministro israelita [Fonte]

Sabes o que é uma bomba,
uma bomba dia e noite a explodir-te a cabeça,
uma bomba dia e noite a explodir-te o pai, a mãe,
a explodir-te os filhos, os avós, os irmãos,
uma bomba dia e noite a explodir-te os vizinhos,
os amigos, a casa, a rua, o quarteirão,
tu sem pão, sem água, sem luz,
enterrado na metralha, na dor, nos gritos, no medo,
nos escombros empapados de sangue,
tu sem poderes ir para lado nenhum
tu sem teres para onde fugir
nem para dentro de ti?
Sabes ?

Mortes em Gaza pela guerra passam de 55 mil, diz governo do Hamas
 [Fonte]
Sabes o que são cem bombas,
cem bombas dia e noite a explodir-te a cabeça.
Cem bombas dia e noite a explodir-te o pai, a mãe,
a explodir-te os filhos, os avós, os irmãos,
cem bombas dia e noite a explodir-te os vizinhos,
os amigos, a casa, a rua, o quarteirão,
tu sem pão, sem água, sem luz,
enterrados na metralha, na dor, nos gritos, no medo,
nos escombros empapados de sangue,
tu sem poderes ir para lado nenhum
tu sem teres para onde fugir
nem para dentro de ti?

Sabes?

Nesta Insânia estão cercados dois milhões
sem poderem ir para lado nenhum
sem terem para onde fugir
nem para dentro de si
são crianças,
são mulheres,
são homens
como tu!
Isto é Gaza
Poema escrito em 30.03.2024
Sobre o autor

sábado, 10 de maio de 2025

A vergonha absoluta


"Acho que nunca escrevi um artigo em estado de maior indignação. O que se passa em Gaza e no território da Autoridade Palestiniana convoca não só a política, a geopolítica, as relações de forças entre Estados, o mundo do “Ocidente” e do Oriente, todos os conflitos em curso, o “Sul global”, o papel das Nações Unidas, mesmo o direito internacional, convoca tudo o que quiserem, mas tudo está abaixo de um repto moral, de uma obrigação de falar, de um dever de protestar e actuar perante um massacre cruel, diante dos nossos olhos, de um povo, o palestiniano. Só conheço uma comparação para esta indiferença, vergonhosa e também, ao mesmo tempo, a mais certeira e, num certo sentido, a mais diabólica: o encolher de ombros de todos os que sabiam que o Holocausto estava em curso – e havia muitos altos responsáveis entre os inimigos dos alemães que sabiam – e nada fizeram.

E não me venham com a história do anti-semitismo, que é um argumento insultuoso para justificar os crimes de Israel, da mesma natureza que o canto “desde o rio até ao mar” serve para justificar o massacre do Hamas. Estão bem uns para os outros.

Já sabemos que tudo começou com um massacre perpetrado pelo Hamas e que devia ter uma resposta israelita dura, como teve. Mas o que se passa nos dias de hoje é outra coisa, é outro patamar político, racial, nacional, que nada tem a ver com uma resposta com qualquer racionalidade militar para combater o Hamas. É uma política de destruição em massa de um povo e do seu “lugar”, e conheceu mais um agravamento na semana passada, com o anúncio da anexação de mais uma parte do território de Gaza ao Estado de Israel. Trata-se, certamente, de preparar a “Riviera” que um Presidente demente diz querer fazer. Bastava esta declaração de Trump, com a aquiescência cínica e interesseira de Bibi, para nós percebermos o grau de loucura que está à frente da maior potência mundial.

Ah! Sim, muita gente diz-se preocupada todas as vezes que Trump abre a boca, ou move as mãos para fazer aquela assinatura infantil em mais uma ordem executiva à margem da Constituição e dos poderes do Congresso, mas isso não chega. Em particular, não chega para a hipocrisia moral de muitos países da União Europeia, como Portugal, que nem sequer o passo de reconhecer o Estado palestiniano são capazes de dar. É uma atitude quixotesca? Se for levada a sério, com a instalação de embaixadas no novo Estado, a assinatura de acordos económicos, políticos e militares, com um Estado soberano, então a coisa fia mais fino. Acresce que Israel, violando todas as regras do direito internacional, conduzindo um massacre quotidiano, não tem sanções.

No entretanto, todos os dias se mata gente inocente, crianças, mulheres, velhos, sem sequer qualquer racionalidade militar que não seja destruir, matar ou atirar para fora da sua terra milhões de pessoas, para depois terraplanar as ruínas e lá instalar colonos israelitas, os mesmos que andam também a matar palestinianos nas terras da Autoridade Palestiniana, a base eleitoral dos partidos da extrema-direita que estão no governo de Bibi. Quem acredita que o que Bibi quer é dar a Trump os hotéis de luxo e as praias da costa de Gaza para fazer vários Mar-a-Lago, e que alguma vez alguém vai lá por o seu rico dinheiro para fazer uma estância turística, rodeada, por terra, por três muros e um pequeno exército de segurança e, por mar, por patrulhas em lanchas, está tão demente como Trump. Não é o caso de Bibi que quer outras coisas, todas locais, todas no Médio Oriente, todas culminando num ataque ao Irão. Para isso, ele até é capaz de construir a tal Riviera vazia de gente, como as aldeias Potemkin em cartão, deslocadas de quarteirão em quarteirão, para a glória de Trump e depois, conseguindo o que quer, trazer o seu eleitorado de extrema-direita para tomar banho na sua Riviera.

E, já agora, não convinha perguntar, em plenas eleições, algo de verdadeiramente importante ao PS, ao PSD, ao CDS, ao Chega, por aí adiante, se, chegando ao Governo, estão dispostos a reconhecer o Estado palestiniano, estão dispostos a impor sanções a Israel e a usar todos os meios ao dispor de um Estado da União Europeia para punir os criminosos? E, para além disso, o que é que eles acham do que se está a passar com as crueldades de Israel em Gaza?

As respostas seriam até uma razão bem mais sólida e moral para decidir o voto."

P.S. Historiador que é, tem obrigação, todos temos, de saber que um 6 de outubro de 2023 existia, e que já nesse 6 de outubro a ocupação criminosa da Palestina conhecia novos picos de brutalidade. Que nunca deixou de conhecer desde 1948. Sem essa percepção, sem esse reconhecimento dos muitos crimes hediondos dos últimos 77 anos, nunca o povo palestiniano conhecerá justiça.

sábado, 12 de abril de 2025

Quadro de honra/Quadro da vergonha



«Há uma coisa em que nunca me enganei: quem é Donald Trump e ao que vinha. Embora nenhuma personagem-tipo da Commedia dell’Arte seja perfeita para caracterizar Trump, ele é um misto de Il Capitano, o mais célebre dos quais é Scaramuccia, com um dos Vecchi, Pantalone, e é neste sinistro Carnaval que estamos metidos.

Escrevi há algum tempo sobre as suas “vantagens” – hesitei e hesito em dizer qualidades –, mas isso não é muito relevante, e como elas revelam aspectos da erosão interior das democracias. Referi que tinha “carisma”, qualificação que só pode surpreender aqueles que estão habituados ao uso vulgar da palavra para designar pequeninos políticos nacionais com alguma fama mediática mais extravagante. “Carisma” é outra coisa e aplica-se inteiramente a Trump, e não é por estar todos os dias metade do tempo a fazer o seu show televisivo e três dias da semana a jogar golfe e, obviamente, a ganhar tudo. Ainda me lembro de quando se ironizava com Fidel Castro porque jogava com uma equipa de basquetebol constituída pelos seus seguranças e ganhava tudo.

Na verdade, Trump usou e usa em todo o seu esplendor as suas capacidades mediáticas, mostrando o que é, no limite, a completa subjugação do Logos e do Ethos ao Pathos característica do contínuo político-mediático actual. E ninguém como ele vai mais longe em tornar os tempos actuais “interessantes”, o que é, como se sabe, uma maldição. E caracterizei o que se estava a passar nos EUA sob a sua presidência como uma “revolução”, o que, de novo, só pode surpreender quem acha que a palavra só pode ser usada para casos como os da Rússia de 1917, ou da China, ou de Cuba.

Classifiquei-o de, com Putin, ser o par mais perigoso do nosso tempo, com todas as vantagens para Putin, que o domina pela exploração da sua motivação única, a vaidade. Disse que, em toda esta questão da guerra contra a Ucrânia, ele se está literalmente “marimbando para todos”, russos e ucranianos, e que quer apenas poder um dia, num tweet na sua rede social Truth Social, dizer que fez a “paz” pela sua força e pelo seu génio.

Acresce que eu penso mesmo que ele não é bom da cabeça, signifique isso o que significar, e que o seu narcisismo é patológico. Não é muito relevante esta minha convicção, a não ser para achar patética a tentativa de encontrar racionalidade no que ele faz, com as habituais justificações que a imaginação académica encontra, desde o “transaccionável”, à “art of the deal”, ao estertor do capitalismo americano. Uma coisa, no entanto, ele está a fazer: a transformar os EUA numa oligarquia autoritária, a caminho para um regime sem lei, de violência, perseguição, censura e exclusão, e isso basta-me para fazer, com os meus frágeis meios, resistência. Uma forma é esta: como o modo como se lida com ele, mesmo à distância portuguesa, é relevante, fica aqui uma dupla de dois quadros contrários para que se louve a coragem e a espinha direita, e se punam os covardes e os sicofantas que são a sua força. Será periodicamente renovado.


quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Blowback: How Israel Helped Create Hamas


That it’s sworn to destroy Israel? That it’s a terrorist group, proscribed both by the United States and the European Union? That it rules Gaza with an iron fist? That it’s killed hundreds of innocent Israelis with rocket, mortar, and suicide attacks?

But did you also know that Hamas — which is an Arabic acronym for “Islamic Resistance Movement” — would probably not exist today were it not for the Jewish state? That the Israelis helped turn a bunch of fringe Palestinian Islamists in the late 1970s into one of the world’s most notorious militant groups? That Hamas is blowback?

This isn’t a conspiracy theory. Listen to former Israeli officials such as Brig. Gen. Yitzhak Segev, who was the Israeli military governor in Gaza in the early 1980s. Segev later told a New York Times reporter that he had helped finance the Palestinian Islamist movement as a “counterweight” to the secularists and leftists of the Palestine Liberation Organization and the Fatah party, led by Yasser Arafat (who himself referred to Hamas as “a creature of Israel.”)

“The Israeli government gave me a budget,” the retired brigadier general confessed, “and the military government gives to the mosques.”

“Hamas, to my great regret, is Israel’s creation,” Avner Cohen, a former Israeli religious affairs official who worked in Gaza for more than two decades, told the Wall Street Journal in 2009. Back in the mid-1980s, Cohen even wrote an official report to his superiors warning them not to play divide-and-rule in the Occupied Territories, by backing Palestinian Islamists against Palestinian secularists. “I … suggest focusing our efforts on finding ways to break up this monster before this reality jumps in our face,” he wrote.

They didn’t listen to him. And Hamas, as I explain in the fifth installment of my short film series for The Intercept on blowback, was the result. To be clear: First, the Israelis helped build up a militant strain of Palestinian political Islam, in the form of Hamas and its Muslim Brotherhood precursors; then, the Israelis switched tack and tried to bomb, besiege, and blockade it out of existence.

In the past decade alone, Israel has gone to war with Hamas three times — in 2009, 2012, and 2014 — killing around 2,500 Palestinian civilians in Gaza in the process. Meanwhile, Hamas has killed far more Israeli civilians than any secular Palestinian militant group. This is the human cost of blowback.

“When I look back at the chain of events, I think we made a mistake,” David Hacham, a former Arab affairs expert in the Israeli military who was based in Gaza in the 1980s, later remarked. “But at the time, nobody thought about the possible results.”

They never do, do they?

domingo, 15 de novembro de 2020

Napoleão aconselha Biden

O mais grave é que Biden herda uma nação ainda mais dividida do que em 2008 ou 2016, uma sociedade partida ao meio, não só em termos político-ideológicos, mas de valores, com uma forte carga de trumpismo.
«Aconselhou Napoleão: “Nunca interrompas um inimigo que está a cometer um erro.” Joe Biden terá vantagem em seguir este princípio. Ao recusarem aceitar o resultado das eleições, continuando a denunciar a “fraude” eleitoral, Donald Trump e os republicanos caem na armadilha que eles próprios montaram. Na tentativa de deslegitimar o Presidente-eleito, não hesitam, por razões diferentes, em pôr em causa a democracia e enfraquecer o sistema político americano.
Quanto mais longe forem nesta paródia de “golpe”, que não têm força para consumar, mais ajudarão Biden a afirmar-se como garante da Constituição. Apesar das muitas feridas, a América não é uma “república das bananas”. Por ironia, as eleições de 3 de Novembro são qualificadas pelas autoridades eleitorais como “as mais seguras da História americana”. Trump perdeu, ponto final.
Que faz correr Trump? Ele não engana ninguém. Em 2016 esclareceu que só aceitaria o resultado eleitoral caso ganhasse. O seu comportamento está na linha dos seus hábitos, presentes e passados. Nas primárias republicanas de 2016 foi derrotado no caucus do Iowa pelo senador Ted Cruz. Reagiu assim: “Ted Cruz não ganhou o Iowa, roubou-o.” Cruz que, por oportunismo agora sustenta as teses conspirativas do Presidente derrotado, respondeu qualificando Trump de “sociopata” e “mentiroso patológico”.
O historiador Samuel Moyn, professor em Yale, desmente a imagem de “homem forte” que Trump procura representar. “Penso que acabaremos por o considerar como o mais fraco Presidente dos tempos recentes”, declarou ao New York Times. Não leva muito a sério a ameaça, que qualifica como “paródia de golpe” e demonstração dos limites da força de Trump.
Outro historiador, James Kloppenberg, de Harvard, afirma ao mesmo jornal que a recusa de Trump em reconhecer a derrota “não tem precedentes”, mas não é surpresa. “O modus operandi de Trump sempre foi, desde cedo, a violação das normas, por isso é irrealista esperar que se conforme com as normas democráticas.” Acrescenta: “Na falta de uma cultura que interiorize as normas de deliberação, pluralismo e, sobretudo, reciprocidade, não há razão para reconhecer como pior inimigo quem lhe ganha uma eleição, nem razão para reconhecer a legitimidade dos adversários.”
Na interpretação mais simples, alguns vêem a recusa de Trump como início da sua campanha eleitoral para 2024. Está já a angariar fundos, a pretexto da impugnação das eleições. Interessa-lhe potenciar a imagem de mártir de uma conspiração dos democratas, de forma a conservar a chave do voto republicano, pensando nas futuras primárias.
Há cenários mais delirantes. O historiador Sean Willenz sugere, com ironia, que “Trump possa tentar estabelecer um centro de poder distinto e antagónico ao governo eleito, […] um contragoverno administrado por tweets, […] uma espécie de governo no exílio, dirigido a partir Mar-a-Lago ou onde ele se instale para evitar a perseguição [judicial] pelo estado de Nova Iorque.”
Até lá, está a ajustar contas, despedindo os responsáveis de cuja lealdade duvida. Entre os mais destacados estão o secretário de Defesa, o apagado Mark Esper, provavelmente seguido pelos directores do FBI e da CIA.
Do lado dos republicanos
Convém ter em vista algumas datas. Os estados devem certificar as eleições antes de 14 de Dezembro, data da reunião do Colégio Eleitoral. Acontece que a segunda volta das eleições senatoriais na Geórgia é a 5 de Janeiro. Nelas está em jogo a maioria do Senado.
A mais imediata razão por que o Partido Republicano continua a denunciar a “fraude” tem a ver com a mobilização do eleitorado da Georgia. Até que ponto a data de 5 de Janeiro ameaça a certificação dos resultados e a reunião do colégio eleitoral? É que, até ao voto da Geórgia, a “guerra civil” não vai amainar.
Os dirigentes republicanos, como o líder do Senado, Mitch McConnell, ou o senador Ted Cruz, não duvidam do resultado eleitoral. Por que alimentam o mito da “fraude”? Neste momento, os seus eleitores são fiéis a Trump. Quem lhes ousará dizer que Trump perdeu numas “eleições limpas”? Pelo contrário, alimentam a ilusão. O secretário de Estado, Mike Pompeo, tem a desfaçatez de lhes garantir “uma transição suave entre as duas Administrações Trump”.
O Partido Republicano está já a pensar nas eleições midterm de 2022, que renovarão o Congresso. O endosso (endorsement) de Trump será provavelmente decisivo nas primárias republicanas. Trump não só transformou o partido como o mantém refém. Até quando?
São poucos os republicanos que contestam abertamente o mito da “fraude eleitoral”. Mas há outros sinais. O mais significativo é a “deserção” da Fox News, de Rupert Mudoch, fiel porta-voz de Trump mas que depressa reconheceu os resultados e passou a desligar as câmaras quando Trump e os seus porta-vozes mentem sobre as eleições.
Uma vitória precária
A vitória dos democratas é precária. A eleição de Biden significa a mudança de imagem da Casa Branca e dos Estados Unidos. Tem uma visível repercussão internacional. Mas Biden terá aquilo a que os americanos chamam um “governo dividido”, a presidência sem o apoio das duas câmaras do Congresso e um Supremo Tribunal hostil.
O mais grave é que herda uma nação ainda mais dividida do que em 2008 ou 2016, uma sociedade partida ao meio, não só em termos político-ideológicos, mas de valores, com uma forte carga de trumpismo. O lema “unir os americanos” parece uma longínqua miragem. As reformas institucionais do programa de Biden, tal como as relativas ao ambiente, não passarão. Resta ver o que acontecerá ao plano de combate à pandemia, ao estímulo económico, às políticas de saúde e de educação.
O futuro do Partido Republicano é uma grande incógnita. Para lá do poderoso oportunismo eleitoral, a lealdade ao trumpismo não é eterna. Com a retirada de Trump, acaba a fase “anti-sistema” e recomeça a da “política as usual”. Que margem de negociação haverá entre a Casa Branca de Biden e a bancada republicana de McConnell ? Com o controlo do Senado, os republicanos parecem tentados a neutralizar a Administração Biden desde o primeiro dia. A gravidade da situação norte-americana forçá-los-á a outra táctica? A nomeação do novo gabinete de Biden e das centenas de altos-funcionários que necessitam de confirmação no Senado será o primeiro grande teste.
Quanto ao resto, teremos de esperar pelo veredicto do tempo. Se a negação da vitória eleitoral de Biden é uma “paródia de golpe”, resta averiguar o que sucederá a Donald Trump uma vez fora da Casa Branca. Passará a ser o chefe da oposição, de um “governo no exílio” ou um messias populista? O velho Giulio Andreotti, especialista na matéria, deixou uma curiosa sentença: “O poder desgasta quem o não tem.”»


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O golpe chinês de Xi Jinping

Documentário realizado pela TV portuguesa RTP conta a história do ditador Xi Jinping e mostra as sórdidas estratégias de dominação mundial criadas e praticadas pelo partido comunista chinês ao longo dos anos.

domingo, 23 de outubro de 2011

Hajime Mizoguchi - Pride


"Pride" é uma composição instrumental profundamente melancólica do violoncelista e compositor japonês Hajime Mizoguchi. Ela é mundialmente reconhecida por fazer parte da trilha sonora do filme de animação de 1999, Jin-Roh: The Wolf Brigade (conhecido no Brasil como Jin-Roh: A Brigada Lobo).
Aqui está o que torna essa faixa tão especial:
Detalhes da Composição 
Artista: Hajime Mizoguchi
Álbum: Jin-Roh (Original Motion Picture Soundtrack)
Instrumento Principal: Violoncelo


Estilo: Clássico Moderno / Trilha Sonora / Minimalismo
Atmosfera e Significado: Em "Pride", Mizoguchi usa o violoncelo para evocar um sentimento de isolamento e tragédia. No contexto do filme Jin-Roh, a música reflete o conflito interno do protagonista e a natureza sombria daquela realidade alternativa.

Tom: é uma música densa, que começa de forma contida e cresce em intensidade emocional.
Impacto: É frequentemente citada por fãs como uma das peças mais tristes e bonitas da história das trilhas sonoras de anime.

Sobre o Autor: Hajime Mizoguchi

Mizoguchi é uma figura central na música neoclássica japonesa. Além de seu trabalho solo, ele é famoso por:
Parcerias: Colaborou frequentemente com Yoko Kanno (com quem foi casado), inclusive na trilha de The Vision of Escaflowne.
Versatilidade: Consegue transitar entre músicas relaxantes (estilo "healing music") e composições pesadas e dramáticas para suspenses políticos e ficção científica.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Carnaval - Entre o riso e o sagrado


Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!