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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

terça-feira, 10 de março de 2026

A Naifa - Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto


Poema original e o álbum aqui 

Poema escrito e cantado em 1992 [1] e infelizmente continua a ser assim
Este poema de António Lobo Antunes é uma das peças mais cortantes da literatura contemporânea portuguesa, servindo como uma autópsia da hipocrisia burguesa e da profunda desigualdade social. A narrativa centra-se num homem que se descreve como alguém extremamente sensível — "eu que me comovo por tudo e por nada" — mas que, na prática, revela uma frieza absoluta e uma capacidade de desumanização assustadora. Ao longo do texto, assistimos à descrição de um encontro sexual pago com uma adolescente, entre os quinze e os dezassete anos, cujo corpo é tratado como um objeto descartável: ele "usa", "paga", "esquece o nome" e "limpa-se com o lenço".

A crueza do relato é acentuada pelos detalhes da miséria da rapariga, que cheira a "mato", à "sopa dos pobres" e ao "suor" da carência, contrastando com a transação clínica de quinhentos escudos. O autor utiliza a metáfora da "coxa em semifusa" e do "rosto de aguarela" para sublinhar a fragilidade e a rapidez com que aquela vida é consumida e deixada para trás, "parada na berma da estrada", enquanto o narrador retoma a sua existência de classe média.

O clímax do poema reside no regresso a casa. O narrador veste a máscara da normalidade, mente à mulher e ao filho dizendo que "fez serão" (trabalhou até tarde), janta calmamente e deita-se. Contudo, a imagem da jovem não o larga. O final sugere que a sua suposta sensibilidade não é empatia, mas sim uma obsessão perturbadora ou um remorso estéril. Ele está na segurança do seu lar, mas o seu pensamento permanece naquele corpo explorado, reforçando a ideia de uma sociedade que se comove com abstrações ou sentimentalismos baratos, mas que é capaz de conviver com a exploração e a degradação humana mais abjeta sem perder o apetite ou o sono.

[1] Nota Linguística: o poema utiliza termos muito específicos do quotidiano português do século XX, como o "alcatrão" (asfalto), o "serão" (trabalho noturno) e os "escudos". É uma crítica social feroz à "boa sociedade" que, por trás das portas, explora a miséria mais profunda.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dulce Pontes - Na Língua Das Canções



Não te posso amar
Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento
O meu pensamento
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

Ao olhar pra ti
Sei que te escolhi
Porque foste rio
Dei as mãos aos abraços e a boca aos beijos que eu ousei sonhar
Sou irmã de tudo, amor
O meu canto é mudo, amor
Se eu não conseguir
Chorar e sorrir
Sempre que cantar

Mas eis que o coração
Se torna transparente
Eis que o coração
Abriga os temporais que nascem no mar
E tudo é ser capaz de traduzir na língua das canções
Na minha voz
Na tua voz
O som da água a passar

Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento, amor
O meu pensamento, amor
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

A música 'Na Língua das Canções' de Dulce Pontes é uma ode à conexão profunda entre o ser humano e a natureza, bem como à capacidade de expressar emoções através da música. A letra começa com a cantora questionando se a pessoa amada já foi um rio, simbolizando a fluidez e a transformação. Ela se identifica como irmã do vento, sugerindo uma ligação íntima com os elementos naturais e a liberdade que eles representam. A ideia de que o pensamento só se torna canção ao sentir-se irmão do que quer cantar reforça a necessidade de uma conexão genuína e profunda para a verdadeira expressão artística.

Ao longo da música, Dulce Pontes explora a escolha do amor e a reciprocidade emocional. Ela menciona que escolheu a pessoa amada porque esta já foi um rio, o que pode ser interpretado como uma escolha baseada na capacidade de transformação e adaptação. A cantora também fala sobre a importância de sentir e expressar emoções, afirmando que seu canto se torna mudo se ela não conseguir chorar e sorrir ao cantar. Isso destaca a autenticidade emocional como um componente essencial da arte e da vida.

A metáfora do coração que se torna transparente e abriga os temporais que nascem no mar sugere uma vulnerabilidade e uma abertura para as emoções intensas. A música conclui com a ideia de traduzir essas emoções na língua das canções, utilizando a voz como um meio de comunicação universal. A repetição de elementos naturais como o rio, o vento e o mar ao longo da letra reforça a ideia de que a natureza e as emoções humanas estão intrinsecamente ligadas, e que a música é uma forma poderosa de expressar essa conexão.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Teresa Torga - uma mulher na Revolução


Uma mulher decidiu despir-se e dançar no cruzamento das avenidas Miguel Bombarda e 5 de Outubro, em Lisboa. Eram quatro da tarde, corria o ano de 1975 e o país fervia na liberdade recém-conquistada. O gesto deu origem a uma crónica do jornalista Rogério Rodrigues no Diário de Lisboa e, mais tarde, a uma canção de José Afonso. 

Alan Romero 
"A letra fala da triste história de uma artista decadente que, numa atitude tresloucada, dançava nua em plena tarde numa avenida lisboeta. A cena inusitada atraiu a atenção de um repórter que, no entanto, não conseguiu fotografá-la devido aos protestos dos transeuntes, revoltados com o que consideraram uma exploração degradante. Entretanto a canção tornou-se um clássico da luta pelos direitos da mulher em Portugal. Só em 2006 o texto original foi dado a público, através do livro "Os loucos dias do PREC", de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. A notícia, publicada originalmente no Diário de Lisboa, confirmava o conteúdo da canção e dava mais pistas: ela tinha sido fadista, atriz de teatro de revista e vivido durante algum tempo no Brasil. Reportava também a sua condição de paciente de um conhecido hospício. Recentemente, o blog português "Rua dos dias que voam" localizou uma entrevista de Teresa Torga na extinta revista Plateia. 
Ela fala dos sete anos em que morou no Rio de Janeiro, tendo trabalhado com Maria Della Costa, Costinha e outros grandes nomes do teatro e da televisão. A musa de Zeca Afonso mostrava sua face: a matéria é ilustrada com duas fotos, as únicas conhecidas da artista. Mas o que mais despertou a minha curiosidade foi a referência a um disco que ela teria gravado com as canções "De degrau em degrau" e "Rua sem luz". 
Imediatamente mergulhei no Google em busca dessas gravações. Revirei a internet de ponta a ponta até que localizei essa raridade no acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga! Trata-se de uma edição do selo Chantecler, de 1962, talvez a única cópia existente, preservada graças a esta instituição. Teresa Torga aos poucos vai saindo da bruma do esquecimento. De suposta personagem ficcional passou a ter existência documentada. Depois viu-se-lhe o rosto. E agora ganha voz! A Associação José Afonso agradece à Discoteca Oneyda Alvarenga a oportunidade única concedida aos fãs do Zeca de poderem ouvir tão preciosos áudios.


No centro da Avenida 
No cruzamento da rua 
As quatro em ponto perdida 
Dançava uma mulher nua 

A gente que via a cena 
Correu para junto dela 
No intuito de vesti-la 
Mas surge António Capela 

Que aproveitando a barbuda 
Só pensa em fotografá-la 
Mulher na democracia 
Não é biombo de sala 

Dizem que se chama Teresa 
Seu nome e Teresa Torga 
Muda o pick-up em Benfica 
Atura a malta da borga 

Aluga quartos de casa 
Mas já foi primeira estrela 
Agora é modelo à força 
Que o diga António Capela 

T'resa Torga T'resa Torga 
Vencida numa fornalha 
Não há bandeira sem luta 
Não há luta sem batalha


domingo, 28 de julho de 2024

Mísia - Sem Saber


Relembrar Mísia. Uma voz e presença e sentido estético apuradíssimos. Carismática. Insubstituível.Que voz poderosa! Possuidora de um português límpido e musical. Também uma excelente actriz.
Mísia cantora de fado polivalente, inovando-o.

Sem Saber

sem saber / porque te amei assim, / porque chorei por mim, / sem saber / com que punhais tu feres, / magoas mais e
queres, / sem saber / onde é que estás, nem como, / o que te traz sem rumo, / sem saber / se tanto amor devora /
mais do que a dor que chora, / sem saber / se vais mudar, se então / podes voltar ou não, / sem saber / se em mim
mudou a vida, / se em ti ficou perdida, / sem saber / da solidão depois / no coração dos dois, / sem saber / quanto me
dóis na voz, / ou se há heróis em nós

Mísia, nome artístico de Susana Maria Alfonso de Aguiar, foi uma cantora portuguesa, considerada uma das mais importantes fadistas de Portugal. 
Nascimento: 18 de junho de 1955, Porto
Falecimento: 27 de julho de 2024, Lisboa

Leitura recomentada

Sites

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Música do BioTerra: Lina - O que temo e o que desejo (feat. Rodrigo Cuevas)


O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Que isso me dera da morte [2X]

De maneira me sucede
Nunca o que a vontade pede
Alma e vida a toda a sorte [2X]

Con ganas de darme muerte
El morirme es dulce suerte
Ojos que os detenéis [2X]

Muerto volvéis a mirarme
Acabad ya de matarme
Por que me resucitéis [2X]

Alma e vida a toda a sorte
Que isso me dera da morte
De maneira me sucede [2X]

O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Nunca o que a vontade pede [2X]

La llaga, cierto, es la mía
El morirme es alegría
Y así digo que acabéis [2X]

Ojos ya de matarme
Muerto volvéis a mirarme
Por que me resucitéis [5X]

10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas



“Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”.
Luiz Vaz de Camões

Saber mais sobre este dia aqui 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Música do BioTerra: António Variações - Povo que Lavas no Rio

Ao vivo, na RTP, 1984

Fado: 'Povo que lavas no rio'
Poema: Pedro Homem De Mello

[Refrão]
Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
Água pura, puro agreste,
Mas a tua vida não.

Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, Povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

[Refrão]

Em estúdio

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Patti Smith


Há norte-americanos fabulosos. Patti Smith é esse o exemplo. Tem poemas fabulosos e exploratórios. Apesar de Patti Smith nunca ter tido um disco certificado pela RIAA, apesar de ter lançado um único single que chegou ao Top 20, é reconhecida como uma das mais importantes e influentes artistas da história do rock. A revista Rolling Stone recentemente colocou-a no 47º lugar na sua lista dos cem maiores artistas de todos os tempos. 
Em 2012, Smith recebeu um doutorado honorário em belas artes do Pratt Institute.
Em 10 de Dezembro de 2016, Patti cantou "A Hard Rain's A-Gonna Fall" na cerimónia de entrega do Prémio Nobel a Bob Dylan (outro talentoso). 
Um novo festival em 2024 traz Patti Smith de volta a Portugal com Maria João e Camané e muitos outros ao CCB. Já está agendado.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Música do BioTerra: Amália Rodrigues - Sabe-se Lá


Lá porque ando embaixo agora
Não me neguem vossa estima
Que os alcatruzes da nora, quando chora
Não andam sempre por cima

Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
Pois se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina

Sabe-se lá, quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá, amanhã o que virá
Breve desfaz-se uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce, pra que nasce uma pessoa

O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Porque na verdade a sorte, como a morte
Chega sempre, tarde ou cedo

Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois, por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Capicua - Sereia Louca



Ela queria usar sapatos, dançar de salto alto
Beijar a boca de um homem, embranhar-se no mastro
Queria perder as escamas e rasgar as barbatanas
Até que pernas humanas lhe saissem da carne
Poder conhecer o doce o amargo e o ácido
Ali tudo era salgado azulado e aquático
Partir o aquário deixar de vez o Atlântico
E rogava por ajuda dos marinheiros com o seu cântico
Mas seu cântico era grito que não suportavam
E só Ulisses vivera depois de a ter escutado
O seu canto era um feitiço carpido como o fado
Que levava navios perdidos para outro lado

Eu tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido (4x)

Sua voz era livre como ela não era
Como sempre quisera que o seu corpo fosse
E por cantar o sonho e a sua quimera
Era para as almas como um cúmplice
Forte como um coice, como uma foice
Trespassava gelada o silêncio fundo da noite
Enquanto a sua melodia como a maresia
Envolvia em maravilha a lonjura da sua corte
Chega a maré vazia para lavar em água fria
A sua melancolia e o medo da morte
Não é que a lágrima é da mesma água salgada
Gritava entre o mar e a estrela da madrugada

Eu tenho um coração de esponja que cresce com a tristeza (4x)

Sereia louca que vai deixar tentar deixar o mar
Com a coragem de quem sai do seu habitat
Sereia louca que vai gritar, chorar
Bramir, esbracejar tentar até conseguir
Sereia louca que vai sentir a falta do mar
Sentir a falta do ar que há neste lugar
Sempre que digam que é louca
É melhor muda que rouca
Eu fico nua que é roupa que aperta o respirar
E grito ainda mais alto neste barco suspenso
Que pior que o meu canto há-de ser o meu silêncio
Pior que o meu canto há-de ser o meu silêncio

Eu tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido (4x)

Eu tenho um coração de esponja que cresce com a tristeza (4x)

Não é que a lágrima é da mesma água salgada
Gritava entre o mar e a estrela da madrugada
E grito ainda mais alto neste barco suspenso
Que pior que o meu canto há-de ser o meu silêncio!

Diário


Acabei de chegar a casa. Estive com um grande amigo meu, que não o via há uns anos. Vive em Serpa. É professor aposentado de Física e Química. Entre dois gin tónicos, conversamos de tudo: que ainda somos um País de Fátima, Futebol e Fado; demora o seu tempo o cumprimento da nova Lei da Concordata, separação do Estado e da Igreja Católica (2004); o censos dá 80% de católicos, mas isso porque os pais baptizam os filhos na Igreja. Há uma "pressão" social, familiar. Estranha-se ainda só registar os filhos no Cartório. Acreditamos que entre 60% a 70% não fizeram o crisma. Haverá uns 30% que realmente vão à missa. 
Desejaríamos que os padres católicos casassem. Que as freiras pudessem ter o mesmo papel dos padres: baptismos, casamentos, funerais. Que, como tudo neste País, também o agrupamento de paróquias não faz sentido. O António é agnóstico, mas lembrei-lhe que não pode dizer isso porque não fez ainda a apostasia. 
Depois saltamos para a filosofia. Walter Benjamim veio à baila. Conversamos que ele tinha razão num raro ensaio ecologista marxista, em que ele postula que o capitalismo atroz irá destruir a Natureza e esgotar os recursos. Foi talvez um dos pioneiros do ecologismo. E finalmente o que nos une, há muitos anos: os mesmos poetas, os mesmos autores, o naturismo, uma predileção pelos anarquistas e os mesmos gosto musicais. 
Somos como as borboletas. Parecemos fortes, mas vita brevis e os nosso actos devem ser suaves, preventivos e mais de acordo com os ritmos da Natureza . Até amanhã.

sábado, 20 de maio de 2023

Sobre o Estado da Arte da Música Portuguesa - as tardes de sábado e domingo nas televisões


Uma reflexão minha sobre o péssimo estado da arte da Música Portuguesa. Os canais televisivos aos sábados e domingos carregam-nos com artistas pimba ao fartote. Impressiona a quantidade de músicos pimba que existem Um absurdo. Lesam a minha inteligência e fico perplexo como a jumentude do séc. XXI (às vezes tenho a impressão que cantam por cantar- só querem o dinheiro ao fim do mês) se presta a esta mediocridade. São como cogumelos. Surgem todas as semanas mais e mais enteados de Tony Carreiras, Marcos Paulos e afins deste cantinho luso, que eu julgava que tinham desaparecido. Mas não, as televisões malham-nos em cima com pimba. Letras amorfas, sem riqueza de figuras de estilo, nada. NADA. Enfim...Todos horríveis. Saudades da Dona Rosa. Sabem onde ela anda? Tão doce e tão querida.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Música do BioTerra: Chico Buarque - Fado Tropical

Chico Buarque e Carlos do Carmo

Foi bonita a festa, pá! 25 de Abril! Sempre! Chico Buarque agradeceu a Bolsonaro por não ter entregue a ele o Prémio Camões, o maior prémio da literatura em língua portuguesa. “O ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando um espaço para a assinatura do nosso presidente Lula". Como disse o presidente Lula: "Hoje já é outro dia".


Discurso de Chico Buarque na entrega do Prémio Camões

Chico Buarque e Carlos Paredes

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Retrato de Portugal, por Guerra Junqueiro - tão actual



“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)”- Guerra Junqueiro, in Pátria (1896)

Texto completo aqui

Imagem da Capa: Caricatura de D. Carlos I, por Celso Hermínio. Originalmente publicada no n.º 6 do semanário humorístico O Berro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Música do BioTerra: Mísia- Garras dos Sentidos

No centenário de Agustina-Bessa Luís: Mísia canta um poema que a escritora escreveu para um fado.


Não quero cantar amores.
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto;
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos,
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Saber mais sobre Agustina-Bessa Luís:
Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira
Entrevista
Nasci Adulta e Morrerei Criança

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Amália Rodrigues- Sou Filha das Ervas


Sou Filha das Ervas

Trago alecrim, trago ser amado
Cheira mais jasmim o resto que trago
Trago umas mezinhas para o coração
Foi tantas ervinhas que apanhei no chão

Sou filha das ervas, nelas me criei
Comendo-as azedas todas que encontrei
Atrás das formigas horas que passei
Sou filha das ervas e pouco mais sei

Rosa desfolhada, quem te desfolhou?
Foi a madrugada que por mim passou
Foi a madrugada que passou vaidosa
Deixou desfolhada a bonita rosa

Ramos de salgueiro, terra abrindo em flor
Amor verdadeiro é o meu amor
Papoila que grita no trigo doirado
Menina bonita, rainha do prado

Sou filha das ervas, nelas me criei
Sou filha das ervas e pouco mais sei


Dia de Amália Rodrigues


Em 1 de Julho de 1920 nasceu em Lisboa, Amália Rodrigues, fadista, cantora e actriz portuguesa, considerada a Rainha do Fado. Cantou os grandes poetas da língua portuguesa (Camões, Bocage), além dos poetas que escreveram para ela (Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill. 

Conhece também Alain Oulman, que lhe compõe diversas canções. 

Amália dá brilhantismo ao fado ao cantar o repertório tradicional de uma forma diferente, sintetizando o que é rural e urbano. Considerada a nossa melhor embaixatriz, difundiu a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o fado. Ao longo da sua carreira recebeu inúmeras distinções. 

A 6 de Outubro de 1999, Amália Rodrigues morre em Lisboa, tendo o 1.º ministro decretado Luto Nacional por três dias. No seu funeral incorporaram-se centenas de milhares de lisboetas que assim lhe prestam uma última homenagem. Foi sepultada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Em 2001, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional, onde está sepultado ao lado de outros portugueses ilustres.

Até à sua morte, em outubro de 1999, 170 álbuns haviam sido editados com seu nome em 30 países, vendendo mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, número 3 vezes maior que a população de Portugal.

Alguns Prémios e condecorações:

1948 - Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz no filme "Fado, História de uma Cantadeira";

1958 - Grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada;
1959 - Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris;
1965 - Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz nos filmes "Fado Corrido" e "As Ilhas Encantadas";
1966 - Prémio Pozal Domingues para o EP "Fandangueiro";
1966 - Prémio Pozal Domingues para o EP "Vou dar de beber à dor";
1967 - Prémio M.I.D.E.M. 1965-1966 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1968 - Prémio M.I.D.E.M. 1966-1967 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1969 - Prémio M.I.D.E.M. 1967-1968 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1970 - Grau de Oficial da Ordem Militar da Ordem Militar de Santiago de Espada;
1980 - Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique;
1980 - Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (7 Julho), Teatro São Luis;
1985 - Grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras;
1986 - Medalha de Ouro da Cidade do Porto;
1990 - Grã Cruz da Ordem de Santiago de Espada;

Biografias e Sites

Documentário

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Certificação da Camisola Poveira



O dia 9 de setembro de 2022 passou a fazer parte da História do nosso concelho porque, a partir desta data, a Camisola Poveira é oficialmente um produto certificado e com Indicação Geográfica Protegida!

Esta conquista ganha ainda mais importância, uma vez que se trata do primeiro produto com origem na Póvoa de Varzim a receber este reconhecimento com validade nacional, europeia e internacional.

“Chegou finalmente o momento em que, e após investimento da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim em preservar uma arte que tem mais de 150 anos, podemos dizer que este processo de certificação da Camisola Poveira chegou ao fim. E chegou ao fim com sucesso!”, frisou a Vereadora da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Andrea Silva, que presidiu a Cerimónia de Certificação da Camisola Poveira realizada, ontem, no Largo do Passeio Alegre.

“Agora, aqui ou em qualquer parte do mundo, a Camisola Poveira está segura, o seu valor está preservado, a sua qualidade pode ser atestada e, mais importante ainda, a sua origem não pode ser contestada. É nossa!”

Foi uma noite histórica para a nossa comunidade, que se reuniu em massa junto ao Palco de Pedra para assistir à certificação da primeira Camisola Poveira. Esta peça foi simbolicamente oferecida ao Município da Póvoa de Varzim e, em breve, ficará em exposição no Centro Interpretativo e de Formação da Camisola Poveira.

Num dos momentos mais solenes da Cerimónia, Andrea Silva homenageou, em nome da autarquia, as primeiras quatro artesãs certificadas do concelho Ana Cândida Brito, Anabela (Aurora Luxury Handmade), Maria Fernanda Barbosa e Fernanda Costa.

A Vereadora da Câmara Municipal destacou, também, o papel desempenhado pelos elementos da Comissão de Acompanhamento, Teresa Costa, em representação do organismo de certificação (A.CERTIFICA), Fernando Gaspar, em representação do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património (CEARTE), Ricardo Silva, em representação da União de Freguesias Póvoa de Varzim, Beiriz e Argivai e Mário Linhares, em representação da equipa responsável pelo caderno de especificações.


Centenas de poveiros aproveitaram esta noite calorosa de verão para cantar ao som dos clássicos do Rancho Poveiro e se emocionar com o poema declamado pela poveira Teresa Marafona, que envergou em palco um traje antigo de trabalho típico do nosso concelho.

Houve, ainda, momento para juntar à tradição um rasgo de modernidade, até porque a Certificação da Camisola Poveira comporta dois novos tipos de etiquetas – uma do Modelo Tradicional (lã grossa, base branca e bordado vermelho e preto) e outra do Modelo de Inovação (que abre caminho a peças mais criativas e a uma reinvenção da arte, sem desvirtuar as regras de confeção históricas da Camisola Poveira).

À atuação da fadista Adriana Paquete juntou-se o corpo de baile da AM Dance Studio. Os jovens bailarinos, coreografados por Francisca Marques, vestiram Camisolas Poveiras confecionadas por formandas dos Cursos Ocupacionais de Tempos Livres, promovidos pelo Município da Póvoa de Varzim.