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segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

Melhor som aqui

Letra
Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

sábado, 27 de junho de 2026

PJ Harvey - Voyager

Letra
Long years, far place
Dark nights, dark days
Frozen, silent
Bearing Earth-songs
Earth-songs

Force fields, high winds
Cold moons, bright rings
Hear my signal
Will you follow?

Look back at us
As a speck of dust
Darkness our home
Bear it through love

Last note, last sign
Neptune, Triton
Fading signal
Choose light, choose love

Voyager, look back
At a pale blue dot
All we don't know
A flake of snow

Dust in a sunbeam, blue dot
So far, so cold
Kindness, kindness
Care for
Our shelter, tender, tender


PJ Harvey lançou esta quarta-feira (24 de junho) um tema novo, ‘Voyager’.
O tema é inspirado pelo Programa Voyager, da NASA, iniciado em 1977. Foi composto durante as sessões de gravação para o próximo álbum de PJ Harvey, ainda sem data de lançamento definida.
Em comunicado à imprensa, a artista britânica disse-se “entusiasmada com o desafio de compor uma canção com a ‘voz’ da Voyager 2”, sonda lançada em agosto de 1977 e que se encontra, atualmente, fora do Sistema Solar. “Perguntei-me: que nos diria ela se pudesse?”. ‘Voyager’ conta, ainda, com uma citação do já falecido astrónomo Carl Sagan.

"Voyager", o single de PJ Harvey lançado em junho de 2026 a convite do físico Brian Cox para a sua digressão mundial Emergence, afasta-se do rock visceral de guitarras do início da sua carreira para abraçar uma sonoridade espacial, flutuante e de gravidade zero. A faixa insere-se no panorama do ambient e do art pop eletrónico, sendo construída sobre pulsações eletrónicas lentas e minimalistas e sintetizadores modulares, onde se destacam o Prophet-5 tocado por Harvey e o baixo de sintetizador Juno tocado pelo próprio Brian Cox. Há uma utilização intencional de efeitos que simulam distorções de fita e pequenas falhas de áudio, como se a música fosse um sinal de rádio enfraquecido a viajar pelo espaço, uma atmosfera que ganha uma imensa sensação de amplitude e grandiosidade cinematográfica graças aos arranjos de cordas criados por Dario Marianelli e executados pela Orquestra de Miraval. Sobre esta massa instrumental, a voz de PJ Harvey surge de forma etérea, fantasmagórica e descorporificada, acentuando uma profunda sensação de solidão cósmica.

O conceito central da canção é uma das propostas mais fascinantes da carreira da artista, uma vez que a letra é escrita e cantada sob a perspetiva da própria sonda espacial Voyager 2, lançada pela NASA em 1977 e que hoje navega pelo espaço interestelar, a milhares de milhões de quilómetros da Terra. Harvey revelou ter-se inspirado na questão de saber o que a espaçonave nos diria se pudesse falar, mimetizando os relatórios da sonda ao cruzar os limites do nosso sistema solar através de versos que mencionam forças de campo, ventos fortes, luas frias e anéis brilhantes. O significado da canção desdobra-se em camadas emocionais e filosóficas, prestando uma homenagem direta ao astrónomo Carl Sagan, que idealizou o Disco de Ouro da Voyager e poeticamente batizou o nosso planeta de "Ponto Azul Claro", uma ideia que a artista recupera ao usar metáforas que nos reduzem a um floco de neve ou a um grão de poeira na imensidão do cosmos. Ao olhar para a Terra através dos olhos da máquina distante, a música funciona como uma meditação sobre a nossa extrema pequenez e fragilidade, sugerindo que, diante do vazio absoluto do universo, os conflitos e as fronteiras humanas perdem totalmente o sentido. Apesar de mergulhada num ambiente frio e mecanizado, a mensagem final que PJ Harvey extrai dessa vastidão é profundamente humanitária e otimista, culminando num apelo urgente à sobrevivência e à união para a humanidade que ficou para trás, sintetizado no verso que nos incita a escolher a luz e a escolher o amor.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Radiohead - Nude

Melhor som aqui
Nude
Don't get any
Big ideas
They're not
Gonna happen

You paint yourself white
And fill up with noise
But there'll be
Something missing

Now that you've found it
It's gone
Now that you feel it
You don't
You've gone off the rails

So don't get any
Big ideas
They're not
Gonna happen

You'll go to hell
For what your dirty mind is thinking

O significado da canção
O significado de "Nude" gira em torno de falsas ilusões, da desilusão existencial e da vulnerabilidade humana, daí o título "Nude", ou "Nua", em termos de exposição emocional. A letra aborda o perigo de criar expectativas grandiosas e o choque com a realidade, o que se torna evidente ao analisar as linhas principais. O verso central "Don't get big ideas, they're not gonna happen" (Não tenhas grandes ideias, elas não vão acontecer) funciona como um balde de água fria no otimismo ingénuo. A música sugere que, ao nos despirmos das nossas futilidades e do nosso ego, ou seja, ao ficarmos "nus", percebemos que o universo não gira à nossa volta e que muitos dos nossos desejos de grandeza são apenas distrações. Há também uma forte crítica à superficialidade e aos pensamentos impuros ou egoístas na linha "You'll go to hell for what your dirty mind is thinking" (Vais para o inferno pelo que a tua mente suja está a pensar). No fundo, a canção é uma reflexão sobre aceitar a própria pequenez e a crueza da realidade, tudo isto embalado por uma melodia que soa ao mesmo tempo triste e estranhamente reconfortante.

Como foi o processo de criação de Nude do Radiohead e por que demorou mais de 10 anos para ser lançada?
A história por trás de "Nude" é um dos casos mais fascinantes de perfecionismo e evolução criativa no rock alternativo, tendo levado onze anos entre os seus primeiros rascunhos e o lançamento oficial no álbum In Rainbows, em 2007. A canção tornou-se uma espécie de lenda urbana entre os fãs, que souberam da sua existência apenas por atuações ao vivo antigas e gravações piratas de baixa qualidade. A música começou a ser escrita por Thom Yorke no final de 1996 e foi gravada como demo durante as sessões do aclamado álbum OK Computer, de 1997, época em que era conhecida pelos títulos de trabalho "Big Ideas" ou "Nude (Don't Get Big Ideas)". A primeira vez que o público ouviu a canção foi na digressão mundial de 1998, tendo sido imortalizada no documentário Meeting People Is Easy, de 1999, que mostrava a banda exausta a tentar arranjar a música em testes de som com uma sonoridade muito mais sombria, arrastada e guiada por um órgão de igreja e guitarras pesadas.

Entre 2000 e 2003, os Radiohead tentaram gravar a canção para praticamente todos os álbuns subsequentes, como Kid A, Amnesiac e Hail to the Thief, mas o arranjo original de rock de arena colidia com a nova fase eletrónica e experimental que a banda abraçou nos anos 2000, fazendo com que eles simplesmente não conseguissem fazer a faixa soar bem. A grande reviravolta aconteceu entre 2005 e 2007, quando a banda se reuniu com o produtor de longa data Nigel Godrich para o álbum In Rainbows e decidiu despir a música de todos os excessos, deitando fora o peso antigo e reconstruindo a faixa do zero com foco no espaço, no silêncio e no groove.

Esta demora de mais de uma década deveu-se a várias barreiras criativas. Primeiramente, a banda tinha aversão ao cliché e ao sucesso fácil, pois a primeira versão de "Nude" tinha uma progressão de acordes grandiosa que lembrava hinos do rock clássico e Thom Yorke tinha pavor de soar genérico ou de criar uma nova "Creep". O ponto de viragem definitivo aconteceu quando o baixista Colin Greenwood criou uma nova linha de baixo baseada no dub e no soul, ditando o ritmo de forma circular e sensual em vez de apenas acompanhar os acordes. Além disso, a intervenção do produtor Nigel Godrich foi fundamental para exigir o minimalismo da faixa, convencendo Jonny Greenwood a criar um arranjo de cordas delicado e sugerindo o uso de um efeito de reprodução invertida nos vocais de apoio. Por fim, Thom Yorke precisou de atingir uma maturidade vocal para entregar uma interpretação contida, sussurrada e perfeitamente afinada em falsete. Quando finalmente foi lançada em 2007, a receção foi tão avassaladora que a música se tornou o single de maior sucesso comercial da banda nos Estados Unidos desde "Creep", provando que o hiato de onze anos serviu para lapidar o que viria a ser uma verdadeira obra-prima.


sábado, 16 de maio de 2026

Kalandra - Everything In Its Right Place


Alt eg ser (4X)

Flyt medstraums (4X)

Her i går, eg kava - sta imot ein storm
Her i går, eg kava - sta imot ein storm
Eg stod imot stride straumar utan form
Eg, eg kava sta imot ein storm

Alt eg er (3X)

Flyt motstraums (4X)

Alt eg ser er berre svart og kvitt (2X)
Men kva, kva freistar eg å nå?
Det, det er vonlaust å få sjå

Å få sjå (4X)

Kalandra é uma banda norueguesa-sueca que se define por um estilo folk-rock nórdico cinematográfico, misturando melodias etéreas com instrumentação grandiosa e expansiva. Na sua interpretação de "Everything In Its Right Place", o grupo transforma o clássico eletrónico dos Radiohead numa peça orgânica e mística, caracterizada pelas texturas atmosféricas e pelos poderosos vocais de Katrine Stenbekk, que evocam uma sensação de natureza selvagem e isolamento ancestral.
O significado da música, originalmente escrita por Thom Yorke, centra-se na dissociação mental e na tentativa desesperada de encontrar ordem dentro do caos. A letra minimalista e a famosa metáfora de "acordar a chupar um limão" sugerem um estado de amargura ou um colapso sensorial, onde repetir que tudo está no seu devido lugar funciona como um mantra para manter a sanidade mental. Enquanto a versão original parece claustrofóbica e tecnológica, Kalandra dá à faixa um tom de melancolia ancestral, transformando a sensação de alienação urbana numa aceitação profunda e sombria do destino.


Kalandra | Nerver Live session

sábado, 11 de abril de 2026

Owsey - And Then I Woke Up


Letra
Now that you are here (6X)

Now that you are here
Now that you are here
There were days where I was almost dead
And the days where I was almost dead
And the days where I was almost dead

"There was a moment, when I was under in the darkness
Feeling...
I could feel.. I knew… So clear..
I could feel her.. I could feel it..
It was like I was part of everything that I'd ever loved, and we were all, just fading out. And all I had to do was let go. And I did
I said: ‘Darkness, yeah…’ and I disappeared
But I could still feel her love there. Even more than before. Nothing. Nothing but that love. And then I woke up."

Now that you are here
Now that you are here
Now that you are here
Now that you are here
I'm always here

Melhor som aqui

Owsey, o pseudónimo de Owen Ferguson, é um dos nomes mais respeitados da música ambiente e eletrónica atmosférica da Irlanda do Norte. Ficou conhecido pela sua capacidade de criar paisagens sonoras que parecem "sonhos acordados", misturando batidas de future garage com arranjos de piano e violino profundamente emocionantes.

A sua música é frequentemente descrita como a banda sonora perfeita para o isolamento, a nostalgia ou para observar a natureza. Mesmo após mais de uma década de carreira, ele mantém uma base de fãs fiel e uma postura independente, preferindo a ligação direta com os ouvintes através do seu site e redes sociais, onde continua a partilhar peças musicais que exploram temas como a perda, a esperança e a beleza do efémero.

sábado, 4 de abril de 2026

Jesse Madigan - Time Falls


In front of the ocean
You were holding on his hands
Mountains of hands
And it took you so high

Wherever you were going
Once again
You could see the sky
You can see the sky

Time falls
And you can see
You can see the sky

A canção "Time Falls", de Jesse Madigan, é a 10ª canção do renomeado álbum Soft Room for Movement (2022). É uma meditação sonora sobre a transitoriedade da vida e a forma como nos situamos perante a imensidão do mundo. Através de uma sonoridade minimalista e carregada de reverberação, a letra evoca imagens de elementos naturais grandiosos, como o oceano e as montanhas, que servem de pano de fundo para uma memória de ligação humana. Ao mencionar o ato de segurar as mãos de alguém, Madigan sugere uma tentativa de ancoragem num momento que, inevitavelmente, se dissolve.

O conceito central de "o tempo cai" funciona como uma metáfora para a fluidez da existência; o tempo não é algo que controlamos, mas sim algo que nos atravessa e nos rodeia, tal como a água de uma cascata. Existe um sentimento de desapego e de clareza que surge à medida que a canção avança: a repetição da frase sobre "poder ver o céu" indica que, ao aceitarmos a passagem do tempo e a perda do que é efémero, ganhamos uma nova perspetiva, mais ampla e pacífica. No fundo, a canção é um convite à contemplação e à aceitação da nostalgia, transformando a melancolia de um momento que passou numa sensação de liberdade e de quietude espiritual.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

U2 - Easter Parade


A canção apresentada no vídeo é uma versão de "Easter Parade", um tema original da banda escocesa The Blue Nile, interpretado aqui pelos U2. No que toca ao estilo musical, esta peça afasta-se do rock de estádio mais convencional da banda irlandesa para mergulhar no Sophisti-pop e no Art Pop.

Trata-se de uma composição minimalista e atmosférica, onde impera uma sonoridade polida e elegante, muito característica da produção de finais dos anos 80 e início dos 90. A faixa assenta numa estrutura de Ambient Pop, privilegiando texturas suaves de piano e sintetizadores que criam uma envolvência etérea e quase hipnótica.

Do ponto de vista interpretativo, a música funciona como uma balada contemplativa. A voz de Bono assume um tom mais contido e vulnerável, focando-se na carga emocional e espiritual da letra. A presença de elementos litúrgicos, como a repetição da expressão grega "Kyrie Eleison" (Senhor, tende piedade) na secção final, reforça o carácter solene e devocional da obra, transformando-a numa espécie de hino moderno de cariz espiritual.

sábado, 21 de março de 2026

Trentemøller: Miss You


"Miss You" é talvez a faixa mais emblemática do dinamarquês Trentemøller. É uma peça consegue ser incrivelmente emocional usando muito poucos elementos.

"A tune I’m still very proud of. Written and recored in two hours! That was it. I didn’t change a single note afterwards because I was so happy with the result. I captured that longing vibe I had late that night and it still is a song I love to play live in different versions." - Anders Trentemøller

Anders Trentemøller é dinamarquês. Nasceu em Vordingborg, na Dinamarca, e a sua base criativa é em Copenhaga.

Embora Trentemøller tenha começado muito ligado à música de dança (Techno e Minimal House), "Miss You" afasta-se das pistas de dança e mergulha noutros géneros:
  1. Ambient / Electronica: a faixa é construída sobre uma melodia de glockenspiel (ou sons de sinos sintetizados) que flutua num espaço sonoro vazio, sem batida de percussão (o que é raro no trabalho dele).
  2. Minimalismo: a música foca-se na repetição e na variação subtil de uma única melodia melancólica.
  3. Indie Electronic: pelo tom introspectivo e pela estética "faça-você-mesmo" refinada.
  4. Folktronica (subtil): Devido à textura quase orgânica e delicada dos sons utilizados, que parecem caixas de música antigas.
Uma curiosidade sobre a faixa
"Miss You" faz parte do álbum de estreia de 2006, The Last Resort. Este disco foi um marco porque provou que um produtor de música eletrónica podia criar um álbum narrativo, quase cinematográfico, que funciona tão bem numa sala de estar como num filme.

Conselho de audição: se gostas do lado mais melancólico desta faixa, recomendo que ouças o álbum inteiro. Ele começa calmo e vai-se tornando mais denso e "negro", quase como uma transição do dia para a noite.

Para saber mais sobre o álbum aqui

domingo, 8 de março de 2026

You'll Never Get To Heaven - Caught In Time, So Far Away


Letra
This dream goes on forever
Keeps on and on
Can't reconcile the apathy
Its hold too strong
Automated, my senses are
Numb, broke and bleak
When it gets worse, I'll ask for you to believe
In me

Caught in time, so far away
Dreams linger on
Can't recreate naivety
The feeling's gone
Heavy hearts hung out to dry
It's plain to see
When it gets worse I'll ask for you to believe
In me

Automated, my senses are
Numb, broke and bleak
When it gets worse, I'll ask for you to believe
In me
To believe
In me

Footages fom the film "Dolls" de Takeshi Kitano 

Os You’ll Never Get to Heaven são um duo canadiano, originário de London, Ontário, composto por Alice Hansen e Chuck Blazevic. A sua sonoridade é uma das mais fiéis representações do que hoje entendemos por pop etérea, fundindo texturas de ambient, dream pop e uma nostalgia quase fantasmagórica que os críticos frequentemente associam ao conceito de hauntology. É uma música que não se impõe pela força, mas sim pela envolvência, assemelhando-se a uma neblina sonora onde a voz de Hansen flutua, processada e distante, como se fosse um eco de outra época.

A canção "Caught in Time, So Far Away" funciona como uma meditação profunda sobre a suspensão e o isolamento. O título sugere imediatamente alguém que ficou retido num momento específico do passado, incapaz de acompanhar o fluxo do presente. Em termos de significado, a letra não procura narrar um evento concreto, mas sim capturar o estado emocional de quem observa a própria vida através de uma lente baça. Existe uma melancolia inerente à ideia de estarmos "tão longe" (so far away), não necessariamente em termos de distância física, mas de desconexão emocional.

Ouvir este tema é como folhear um álbum de fotografias antigas onde as figuras começam a desaparecer. A música evoca a beleza triste da impermanência e a sensação de que certas memórias são tão vívidas que acabam por se tornar mais reais do que a própria realidade imediata. É, em última análise, um convite à introspeção, onde o ouvinte é transportado para um espaço liminal, algures entre o sonho e a vigília, onde o tempo parece ter parado por completo.

Sites
Bandcamp
Blogue
Spotify
Youtube

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rival Consoles - Untravel


O artista Rival Consoles (nome artístico de Ryan Lee West) é de nacionalidade britânica. Ele nasceu em 10 de novembro de 1985 Leicester e reside atualmente em Londres, na Inglaterra.
Misha Shyukin nascido na Letónia e actualmente vive na Alemanha  é um artista visual e diretor que trabalha principalmente nas áreas de animação 3D e motion graphics.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Música do BioTerra: Cassandra Jenkins - Hard Drive


Há sempre novos talentos. Incrível. A letra é talvez uma das mais intensas que ouvi hoje.

[Intro]
So these are real things that happened
Where you can apply these, these, um, important concepts
And understand that
When we lose our connection to nature
We lose our spirit, our humanity, our sense of self

[Verse 1]
A security guard
Stopped me to offer an overview on phenomenal nature
She said, "Sculpture is not just formed from penetration
You see, men have lost touch with the feminine"
And with her pink lipstick
And her Queens accent
She went on for a while about our president

[Verse 2]
I asked the bookkeeper
At the Inn of the Seventh Ray
To tell me what he knew about Saint Germain
And he told me about chakras and karma and the purple flame
The birth of the cosmos
The ascended masters and the astral plane

[Chorus]
He said, "You know the mind
The mind is just a hard drive
In this life
The mind is just a hard drive"
See upcoming rock shows
Get tickets for your favorite artists

[Verse 3]
Darryl's been teaching me how to drive
I finally got my license when I was 35
Speeding up the west side
Changing lanes
He reminds me to leave room for grace
He said, "Have you been seeing your therapist?
You seem a little on edge
Are you always this nervous?"

[Chorus]
I said, "Yeah, and this is a hard drive
Yeah, this is just a hard drive
Yeah, a hard drive, mmhmm"

[Verse 4]
I ran into Perry at Lowell's place
Her gemstone eyes caught my gaze
She said, "Oh, dear, I can see you've had a rough few months
But this year, it's gonna be a good one
I'll count to three and tap your shoulder
We're gonna put your heart back together
So all those little pieces they took from you
They're coming back now
They'll miss 'em too
So close your eyes
I'll count to three
Take a deep breath
Count with me"

[Chorus]
She said, "One, two, three
Alright
One, two, three
One, two, three
Just breathe
One, two, three
Count with me
One, two, three
All those little pieces
One, two, three
We're gonna put 'em back together now
Are you ready?"

[Outro]
One, two, three
One, two, three
One, two, three
She said, "One, two, three"

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Clem Leek — Bless Those Tired Eyes


Características Marcantes:
Intimismo:-a música soa como se estivesse sendo tocada em um quarto ao seu lado; é muito pessoal e "crua".

Melancolia e Esperança - as suas faixas costumam transitar entre a tristeza profunda e uma aceitação serena.

Inspiração na Natureza - muitos de seus álbuns, como Holly Lane ou Land, Air & Sea, são reflexos diretos de paisagens geográficas e mudanças de ambiente.

sábado, 12 de novembro de 2022

Música do BioTerra : 2 interpretações do Avé Maria de "Giulio Caccini"

Infelizmente é um erro atribuir esta ária a  Giulio Caccini. Na verdade, foi composta por  Vladimir Vavilov (1925-1973). Em 1970 Vavilov gravou e publicou esta canção no álbum “Lute Music of the XVI-XVII centuries", editado pela Russian Melodia , com a atribuição de “Anonymous”.

Não sou fatimista nem considero muito o culto mariano. No entanto, em termos estéticos e éticos, realmente o sofrimento de uma mãe vendo seu filho barbaramente assassinado pelos Romanos, deve ser indescritível. Tem que se ter Fé e acreditar que Cristo sofreu por nós, pecadores e que ressuscitou. 

Seleccionei 2 bonitas interpretações. Acho tão bonita cantada por mezzo-sopranos ou contra-tenores.


1. Nina Solodovnikova 


2. DiMaio


terça-feira, 29 de março de 2022

Dia Mundial do Piano

Nascido em 2015 pela mão de Nils Frahm, o Piano Day, celebração de um instrumento inesgotável, internacionalizou-se.



O Piano Day celebra-se ao 88º dia do ano, em homenagem ao instrumento que tem essas mesmas teclas. Em Portugal, assinala-se a data em Lisboa e em Coimbra hoje e amanhã.

A iniciativa de caráter mundial foi iniciada pelo músico e compositor alemão Nils Fhram e tem continuado a acontecer todos os anos desde então. Nos últimos dois, apenas de uma forma virtual devido às restrições impostas pela pandemia.

O objetivo deste dia é a celebração do piano como instrumento mas, também, de todos aqueles que o tocam, fabricam, afinam e até de quem move pianos de um lado para outro.




"Says" é provavelmente a composição mais icónica de Nils Frahm (do álbum Spaces, 2013). É o exemplo perfeito do seu estilo:
A progressão: começa com um sintetizador em loop que utiliza um efeito de delay (eco) para criar uma pulsação hipnótica. Frahm integra sintetizadores analógicos e máquinas de eco (como o Roland Juno-60) nas suas performances.
O crescendo: a música constrói-se lentamente, camada sobre camada, até atingir um clímax emocional onde o piano e os sintetizadores se fundem.
A atmosfera: é descrita frequentemente como "música visual", parecendo a banda sonora de um filme que ainda não foi filmado.

sábado, 21 de novembro de 2015

Música do Bioterra: Otto A. Totland - Âust


Video: Iceland, March, 2014 (Gulfoss, mainly)
Uma característica marcante das gravações de Totland em "Âust" é a inclusão dos sons mecânicos do próprio piano — o ranger do banco, o movimento dos pedais e o respirar das teclas. Estes ruídos de fundo são parte integrante da experiência estética, conferindo à música uma sensação de proximidade física e vulnerabilidade.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Encontros Improváveis: Fernando Pessoa e Clem Leek- "Snow Tale" #2



Vivo uma Vida que não Quero nem Amo
Súbdito inútil de astros dominantes,
Passageiros como eu, vivo uma vida
Que não quero nem amo,
Minha porque sou ela,

No ergástulo de ser quem sou, contudo,
De em mim pensar me livro, olhando no alto
Os astros que dominam
Submissos de os ver brilhar.

Vastidão vã que finge de infinito
(Como se o infinito se pudesse ver!) —
Dá-me ela a liberdade?
Como, se ela a não tem?

Ricardo Reis, in "Odes"
[Heterónimo de Fernando Pessoa]

Mais textos e crónicas sobre Fernando Pessoa no Bioterra.

O poema expressa um profundo sentimento de desalinhamento interior, como se o eu lírico estivesse separado da própria vida que vive. Há uma sensação de cansaço existencial: ele sente que cumpre rotinas e deveres que não escolheu, permanecendo preso a uma realidade que não corresponde aos seus desejos mais íntimos. O sujeito está consciente de que vive mecanicamente, por hábito e não por vontade, e isso o leva a um estado de tristeza silenciosa, quase resignada. O poema revela a inquietação típica de Pessoa: a impossibilidade de ser quem realmente se é, a distância entre o que se sente e o que se faz, entre o mundo interior e o exterior. Não há revolta aberta, mas uma lucidez amarga — a de quem percebe que a vida decorre fora de si, enquanto dentro permanece o vazio. É uma reflexão sobre a alienação, a falta de sentido e a dor de existir sem pertencimento, temas centrais da obra pessoana.