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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Pitões das Júnias antes do presente


Carlos, gosto muito desta região, extensiva ao planalto Mirandês. Conheço inclusive Tourém. Gentes com algum sentido de comunidade e longe dos tempos modernos de wokismo e cancel culture, do crescimento preocupante da extrema-direita e dos apoiantes de menos Estado, piores que Salazar. Porém eram gentes doutrinadas à volta do Abade e da Professora Primária que coitada ia parar a esses locais. O médico também. Sim, algum bucolismo e soluções baseadas nos recursos locais, mas muita crendice em bruxarias, muita pobreza, colchões de palha (que rapidamente se enchiam de pulgas), muito trabalho braçal e também havia uma sociologia tão desigual como nas nossas cidades e nos dias de hoje. Havia e ainda existe a mesquinhez, a inveja, o quebra-canelas, a manha, o respeitinho pela linhagem genealógica. Ou seja, tirando os dialectos barronês e mirandês que estão a morrer com eles, Portugal não mudou muito. Reler Miguel Torga, Aquilino Ribeiro...

Texto de Carlos Aguiar
Os relatórios finais de curso do Instituto Superior de Agronomia são um extraordinário manancial de informação sobre os sistemas tradicionais de agricultura.
Li vários, mas há um que me emociona particularmente: "Uma Freguesia de Barroso", datado de 1964, da autoria do engº agr. Fernando Gusmão.
Tinha uma admiração imensa pela figura e pelo saber agronómico deste meu primo em segundo grau (por afinidade).
O texto, porém, vale por si mesmo. É um soberbo instantâneo de uma sociedade camponesa semi-fechada de montanha, imediatamente antes da mecanização agrícola, do uso de adubos de síntese, da emigração massiva e da aculturação pela escola formal e pela guerra colonial, quando o analfabetismo ultrapassava os 50% da população (acima dos 7 anos de idade) e mais de 70% das famílias do concelho de Montalegre ganhavam o seu sustento na agricultura.
Conheço bem Pitões das Júnias, a aldeia estudada por F. Gusmão. Recordo, com uma lagrimita a despontar no canto do olho, as minhas aventuras naquele imenso território nos primeiros anos da década de 1980 – as travessias a salto desde as Caldas do Gerês com o Ramiro, o João, o meu irmão e primos, os Carris e os cornos da Fonte Fria, os acampamentos no mosteiro, a água fresca da ribeira, o vento a roçar nas folhas do grande carvalho, as sacas de caveiras escondidas na pequena capela no cimo do monte, a venda da D. Maria e o cajado do sr. Preto Velho ...
Tinham passado 25 anos desde que o engº Gusmão tinha andado por alí, mas as ruas recentemente empedradas permaneciam empapadas de palha e estrume porque manter a fertilidade da terra era a tarefa maior do agricultor, e muita gente ainda preferia dormir na casa de colmo do que na recém-construída "maison" de emigrante. Vi a agricultura, a casa de pedra solta ou de perpianho, as famílias e a sociedade rurais descritas por Fernando Gusmão.
O relatório do engº Gusmão está escrito num português puro, com um vocabulário rico e invulgar (como o verbo morigerar). As interpretações da realidade social são as próprias da época, mas talvez com menos mordaças ideológicas do que as atuais.
Transcrevo três passagens:
“O número de mães solteiras é bastante grande recrutando-se estas, quase sempre, entre as famílias mais pobres. Este facto apresenta, na região, uma faceta característica: as mães solteiras não sofrem repúdio de qualquer espécie e são naturalmente aceites pela comunidade que se rege por uma moral social eivada do seu quê de naturalismo.”
“Com efeito, é no baldio [que ocupava 5/6 do termo] que se encontra grande parte do sustento dos efetivos pecuários existentes, como também é aí que se obtêm a totalidade dos matos e quase todas as lenhas. É este um aspecto que é de justiça ter em consideração ao pensar na desamortização em massa dos baldios. Se essa desamortização não se fizer preceder das necessárias alterações estruturais e alterações técnicas das explorações agrícolas dos povos a que os baldios estavam vinculados encaminhar-se-ão esses povos para a ruína.”
“Interessante é notar que, mesmo em completa liberdade [a pastar na montanha durante o verão], o gado [bovino] de cada proprietário raramente se separa e se durante o dia se dispersa um pouco mais, longo que cai a noite trata de reagrupar-se, levado por atávico instinto de defesa contra possível inimigo – neste caso o lobo.”
O relatório termina com uma análise da dieta das famílias camponesas. Diz o autor: “A alimentação, feita à base de reduzido número de produtos, é de uma monotonia extrema. O pão de centeio, as batatas, as couves e a carne de porco constituem o substracto do regime alimentar do pitonês.” Parece que estou a ver a minha avó montalegrense a cozinhar ...
Para que não se perca a memória, fica aqui um link do relatório de fim de curso do engº agr. Fernando Gusmão, amavelmente cedido pelo filho e meu primo, Nuno Gusmão.

Leituras recomendadas:

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Pensamento Político e Literário de Aquilino Ribeiro


Embora nem toda a obra de Aquilino Ribeiro se inscreva na vertente do regionalismo, o leitor mais fiel fica atento, à partida, à observação de quadros pictórico-descritivos sobretudo da Beira, província onde ele nasceu e de onde colheu quadros gentílicos, por um lado reveladores de grande sacrifício dos homens pela sobrevivência, por outro, lugares de recurso, para descanso de suas vidas agitadas e de esforços sobre-humanos, a fim de alcançarem vias de liberdade, igualdade e fraternidade que ecoavam de França, das instâncias livrescas de Voltaire, Zola, Hugo, Anatole France. Para o nosso mestre, uma Beira onde construiu o abrigo segundo a sua planta de viver: “mestre, tirante os de mão-de-obra, são raridade cá na terra E muito mais quando se trata de operários das letras, gente mal afiançada […] Mestres topam-se lá fora, em cada esquina, pois, nesses sítios, quase todo o frango, logo que toma crista, tem direito a senhorias […] No caso singular de Aquilino, porém, aconteceu que não houve quem hesitasse ou se julgasse lesado: mestre por unanimidade”(1)

Local onde nasceu Aquilino: o largo da aldeia do Carregal onde o "mestre" nasceu foi requalificado através dos seus escritos

O facto é que concentramos toda a nossa atenção em eventuais descrições paisagísticas, de cor, cheiros, sabores, passeios por montanhas e à beira de riachos, pulando quebradas e rochas, ao frio intenso ou ao calor infernal da terra. No falar do povo, como a resposta de João à pergunta que lhe haviam feito: “ – Vi sim, senhora; olhe, passou há nadinha Farrusca do tio Zé Narciso com uma grande trancanaz de pão nos dentes”(3) A Farrusca era a cadela. Nos comentários do próprio autor, “mofina e rabugenta, Rosa encomendava-o a todas as tranquibérnias do Mafarrico. Também [os mais abastados] haviam de morrer, também eram um saco de podridão como os pobres!” (4). E, ao falar da mulher, a beirã, “que ia encostando ao traço dos manguais as gabelas mergulhadas, cega de poalha, rolando e desenrolando-se, de gatinhas e às arrecuas, lembrava a ursa sábia no vaganau das festas” (5). E ao escrever sobre tantas coisas mais.

Joel Serrão realça, a propósito, que o suporte filosófico primacial do romance naturalista é o positivismo; que a percepção da arquitectura social concreta do País não tem sido instrumentalizada pelos nossos naturalistas; e que a realidade da sociedade portuguesa se definiria, a traços largos, bipartida: os poderosos e seus apaniguados (que formavam um grupo privilegiado) e o povo (que à Idade Média, ficaram a dever o nome de laboratores). Assim, à época, não muito distante da nossa, o caminho a seguir não é aquele que, a partir da obra, desemboca na realidade que a informou, que a vemos, cada vez melhor, nos dias de hoje, sem esperança alguma de desvanecer-se a caminho da igualdade de oportunidades. A Constituição e a balança da justiça obrigam a retirar peso aos primeiros e dar ao Povo o que lhe falta.

Num trilho que se inicia na alta burguesia em que se insere Eça de Queirós, até chegar a Aquilino Ribeiro, o autor vai-se aproximando deste, com a indicação e os comentários acerca de Os Famintos e, especialmente, Os Pobres e a Farsa, de Raul Brandão, Os Pobres, prefaciados por Guerra Junqueiro, havendo, no entanto, alguns outros antecedentes.
 
A revista Seara Nova, lançada em Lisboa, a 15 de Outubro de 1921, fora criada pelo “Grupo da Biblioteca Nacional”, com uma publicação a ter como foco principal a promoção de uma reforma da mentalidade dos Portugueses, através da crítica e análise da situação educacional, política, económica e social do País; da proposição de soluções para os casos que se levantaram com a crise da Nação e de uma tentativa de uma maior força reformadora bem actuante, de carácter pedagógico-doutrinário. Para nós era tudo por demais teórico e utópico, só que funcionaria também no sentido de chamar a atenção dos responsáveis pela degradação a que Portugal havia chegado, dada a desatenção continuada dos seus mandantes.

A iniciativa de criar essa publicação de Doutrina e Crítica surgiu como resultado de reuniões organizadas por alguns elementos dissidentes da sociedade, entre 1919 e 1927. De entre esses intelectuais, encontravam-se Jaime Cortesão, Raul Proença, Raul Brandão, Câmara Reis, Augusto Casimiro e Aquilino Ribeiro. Cientes da grave situação do País e intentando apresentar projectos de reestruturação nacional, esses homens preocuparam-se em fazer desse periódico um espaço para a discussão de temáticas que girassem em torno de doutrinas políticas e sociais; problemas morais e filosóficos; educação; crítica social; história; crítica literária, artística e teatral, de entre outros assuntos, havendo um espaço reservado também à publicação de textos literários em prosa e em verso, com “bonecos” legendados. Os seus principais objectivos centravam-se na apresentação do real propósito da publicação e que era a sua entrada no cenário português e no papel da elite intelectual no projecto que ali se delineava.

Como o sabemos, por estes tempos, encontram-se na forja os camponeses de Aquilino Ribeiro, com a explanação do significado dos mesmos, para além da sua autenticidade humana no contexto global da Literatura Portuguesa.

Aquilino sublinha o papel dessas mulheres e homens sacrificados, de famílias no limiar da pobreza que evocam ante nós estruturas sociais advindas de uma realidade que é colocada ante os nossos olhos, para os que lêem e que não vêem, para aqueles que o sabem mas não querem ver.
 
Todos temos consciência - e o autor também a tem – de que o sentido de tempo no campo é diferente do da cidade. Sempre assim foi, desde que temos a devida noção do que distingue a cidade do lugar, entre o meio urbano e o rural. As tentativas várias de pôr em prática novas medidas – a serem aceites -, corriam como uma seta pelas áleas e trilhos da aldeia ou da vila. E os lugarejos? Como chegar a eles? Como fazer com que o camponês, alheio à cultura, à literacia e avesso à novidade, entenda ou mesmo tome consciência de que alguém possa estar a lutar por ele?

Libório Barrelas é o primeiro a dizer, em A Vida Sinuosa, que, com grande consolo, depois de ver países tão raivosos de progresso, veio “topar a Lamego não só eivado da noção de tempo mas refractário de todo à febre moderna”(6). Libório foge para Lisboa e dos acontecimentos que se sucedem falam Lápides Partidas (7),já por nós tratadas num outro artigo (8). É vasta a grande novidade dos romances de Aquilino: a de uma sociedade rural que, sendo antiquíssima, é, no entanto, nossa contemporânea e existe, porque nos viu nascer a todos.

Na obra romanesca de Aquilino, “é patente a primazia das raízes nacionais da sua inspiração tanto no que respeita às fontes literárias como no que, directamente, se reporta a dada realidade humana e social, esteticamente criada. Daí lhe advêm, como se nos afigura, quer as suas grandezas quer as suas limitações. Limitações e grandezas estas que são, com efeito, as nossas e, das quais, se bem julgamos, o romance português posterior tomou conhecimento, em boa parte, por obra e graça dos livros de Aquilino” (9).

O Mestre da Estrada de Santiago (10) e das Terras do Demo (11), entre mais de uma centena de longos textos, relata observações objectivas, com críticas acérrimas, em periódicos nacionais e estrangeiros, seja vivendo em Portugal, ou, quando de França e de outros lados, nos envia informes e notícias.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Entrevista a Jorge Paiva: “Não há educação ambiental em Portugal”


Jorge Paiva diz-se “desiludido” com o comportamento das pessoas – mais ainda “com a hipocrisia dos decisores políticos nas questões ambientais”. Fala abertamente, dir-se-ia que praticamente sem filtros, como homem livre e cidadão crítico face às contradições que observa nos comportamentos e nas (in)decisões dos líderes governamentais, e não se refere apenas a Portugal.

Com a afabilidade que lhe é própria, o cientista cuja história de vida está intimamente ligada às plantas e aos seus segredos, embora avesso às exibições políticas e ao “show off” ambiental, recebe-nos no gabinete que ainda mantém no Departamento de Ciências da Vida, na Universidade de Coimbra.

Como taxonomista (que define os grupos de organismos biológicos com base nas suas características comuns), percorreu meio mundo em missões científicas: África, Austrália, América do Sul e, claro, Península Ibérica.

Distinguido com o estatuto de sócio de honra da Sociedade Portuguesa de Ecologia, a juntar às muitas provas de reconhecimento público e académico, é curioso o facto de, em 2020, a autarquia de Tomar ter aprovado, por unanimidade, atribuir o nome de Jorge Paiva ao carvalho-português centenário que se encontra no jardim da Biblioteca Municipal António Cartaxo da Fonseca. A ideia foi proposta pela Associação Sociocultural e Ambiental “30Por1Linha”, em parceria com a Escola Secundária de Santa Maria do Olival, que apresentou um requerimento ao município, aliando o botânico a esse exemplar da espécie classificada Quercus faginea.

Foram, então, marcantes as suas lições sobre a biodiversidade e, particularmente, o desafio que o botânico ali apresentou em relação aos sabores das comidas mais prováveis nos povos da antiga Lusitânia, coordenando um jantar que permitiu à comunidade escolar nabantina “saber como se alimentavam” esses caçadores e guerreiros lusitanos contemporâneos de Viriato: plantas como o dente-de-leão (para a salada), o saramago (para a sopa) e outros produtos selvagens que acompanhavam o javali e a lebre, com pão de bolota ou de castanha, a par de uma bebida alcoólica feita de frutos silvestres (a sidra, recordada pelo grego Estrabão), entre outros velhos pitéus.

Ao salientar a importância do património biológico para a sobrevivência humana, Jorge Paiva surpreende-se com o alheamento da sociedade consumista, que privilegia o património material. Quando este pedagogo costuma contar a história da floresta lusitana aos mais novos, o teixo (planta extremamente tóxica e letal até para o gado, entretanto desaparecida da serra da Lousã) parece que assume o papel de bruxa malvada, que ninguém quer ter próximo e que, por isso, corre o risco de se extinguir. Todavia, como nos apercebemos ao longo da entrevista, os maus na narrativa ambiental são outros.

sinalAberto (sA) – É uma preocupação mundial evitar os impactos do aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e respectivas trajectórias de emissão de gases de efeito estufa, como expressa o relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O que pensa disto?

Jorge Paiva (JP) – Eu não acredito em nenhuma das atitudes que os políticos têm tido, desde há mais de trinta anos, reunindo-se internacionalmente e resolvendo que vão actuar. Porém, na reunião seguinte, chegam à conclusão de que não fizeram nada. De maneira que andamos nisto, porque os políticos mundiais ainda não se consciencializaram, não têm consciência da realidade. É por isso que eu insisto na educação ambiental, sobretudo nas escolas. Mas, neste momento, estou desiludido porque, quando esses jovens chegam a adultos, a sociedade consumista já os tem manipulados. Até agora, praticamente, ainda não se fez nada de concreto. Ao menos, tomem uma atitude mais frontal, como o fez Donald Trump, declarando que não queria colaborar. Dizer que colaboram e, depois, não fazerem nada é uma farsa!

sA – A obra pedagógica Litoral – Um Espaço de Descoberta, de que é co-autor (com Cristina Fernandes e José Alho, entre outros), chama a atenção das novas gerações para um ambiente de transição que voga ao sabor das marés. Um quarto de século depois de ter sido escrito, o que foi feito na defesa da diversidade biológica? A lição que o livro transporta foi bem apreendida pelos jovens a que se destinava?

JP – Não, a lição não foi bem compreendida por esses jovens, porque as pessoas esquecem. Inclusivamente, a nossa comunicação social não actua de uma forma pedagógica, antes pelo contrário. Isto está tudo interligado. Nesta sociedade consumista, também interessa que os órgãos da comunicação social, particularmente as televisões e as rádios, entrem neste processo. Estes assuntos são pouco mostrados nas televisões. E, quando é mostrada qualquer coisa, acontece fora de horas!

Quanto à diversidade biológica, também pouco tem sido feito. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), neste momento, é uma entidade burocrática. Não tem capacidade para actuar, porque não tem pessoal suficiente para as respostas. Apenas dá respostas burocráticas!

Degradação das zonas litorais

sA – É sabido que o litoral constitui uma unidade paisagística de extrema complexidade e sensibilidade, pelo seu valor biológico e ambiental. No entanto, assistimos à destruição das dunas, à degradação das lagoas costeiras e a uma acentuada urbanização e industrialização, com aumentados índices de poluição. O que se espera que as pessoas façam, confrontadas com as suas comodidades e as grandes pressões turísticas?

JP – Há entidades turísticas e hotéis que gostam de construir em cima da duna, mas a culpa é das autarquias que autorizam. Aí, o responsável já não é o governo central. E há muitas construções feitas sobre o património marítimo. Na faixa litoral, há inclusivamente um hospital [neste caso, o Centro Clínico Champalimaud, que está localizado na zona ribeirinha de Belém, em Lisboa]. Eu nunca entraria nesse hospital construído num local expressamente proibido!

E as pessoas também gostam de fazer a casa o mais próximo possível da praia, esquecendo-se das consequências. Quando começaram a ver o avanço do mar, construíram paredões que seguravam de um lado, mas tiveram de fazer outros no outro lado… Assim, a anterior linha da nossa costa, vista do ar, parece um pente!

domingo, 24 de janeiro de 2021

Já podem ver online o documentário «Boa Sombra», episódio III da série documental «1001 Margaraças»



No terceiro episódio da Série Documental 1001 Margaraças, fomos até aos Baldios de Alvadia e Soutelinho, na Serra do Alvão. Por ali, como em tantas montanhas do país, os matos de giestas e de urzes ardem no Verão de forma severa e frequente. Como resultado, os montes estão despidos de árvores.

Quem por ali resiste luta para mostrar que tanto a pastorícia extensiva como o corte das urzes e giestas, para aquecimento das casas no Inverno e para fazer a cama do gado, podem dar uma ajuda preciosa no controlo de biomassa na serra e prevenção dos incêndios de Verão.

Também se investe na plantação de pequenos bosques nativos, na conservação da biodiversidade e na preparação da montanha para as alterações climáticas.

Ao longo deste episódio, queremos mostrar o trabalho de algumas destas pessoas e como a pastorícia extensiva com as raças autóctones locais, como a Vaca Maronesa, pode ter vários benefícios ambientais, da prevenção de incêndios severos à restauração dos antigos lameiros e da sua flora, passando pelo armazenamento de carbono no solo. Infelizmente, é trabalho pouco reconhecido e não valorizado pela sociedade.

Queremos com este documentário dar um pequeno contributo para a valorização do trabalho que ali é desenvolvido e que a sociedade tarda em reconhecer. 

Este episódio está agora disponível para visualização através da ligação acima ou aqui.

Fonte: 1001 MARGARAÇAS

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Vamos muito brevemente ser um Estado sem território


O alarme é dado por Gonçalo Ribeiro Telles, que considera trágico não existir uma política agrícola nacional baseada em matas, sebes e compartimentação do espaço.
«É urgente fazer o reordenamento do território "a sério," não para a floresta mas para as árvores em todas as suas funções», afirma. Tudo porque o nosso País «não é um País florestal».

«É um abuso inqualificável dizer que está a arder uma floresta em Portugal. Cientificamente, esta afirmação não tem qualquer validade».

Para o fundador do Movimento Partido da Terra, o que está a funcionar como um barril de pólvora são povoamentos mono específicos (de uma só espécie) desprovidos de qualquer variedade biológica. Não se trata de mata ou de floresta, mas sim de mato, que exige a permanente limpeza para a produção de madeira destinada à indústria.

Considerado o primeiro ecologista português, Ribeiro Telles acusa os Governos, os autarcas e as universidades de «ignorância atroz», por terem uma noção completamente errada do território e por defenderem «a floresta inexistente». «É uma anedota absurda», lamenta.

O que deve ser feito, então, urgentemente? O ordenamento do território implica o investimento na mata, que deve funcionar por «zonagem», ao preencher as zonas frágeis em termos de erosão, ou seja, nos grandes declives e nas barreiras. Ao mesmo tempo, é importante construir as sebes para a agricultura, com o objectivo de defender as culturas. «A sebe é o estádio final da mata para permitir a agricultura do homem», explica, e «nada disto está a ser feito».

A terceira aposta, deve ser a recuperação dos montados de sobro ou de azinho (cortiça) ou dos soutos (castanheiros). O montado é uma interface entre a agricultura e a pecuária, uma pastagem «que raramente arde e que regenera facilmente».

Outro aspecto fundamental no ordenamento do território é a ocupação do espaço e a recuperação da aldeia. Para o arquitecto paisagista é necessário valorizar o sistema aldeão, porque corremos o risco de ter o País despovoado e à mercê dos grandes empreendimentos, idêntico à exploração dos madeireiros da floresta Amazónica.

«Numa escala diferente, estamos também a expulsar os índios, como acontece quando vimos as populações a correr quando há os fogos».

Encara como «embuste», a forma recorrente de se responsabilizar os proprietários por «deixarem os terrenos ao abandono». Diz que os donos das terras vieram para a cidade e perderam a orientação dos marcos, que foram sendo retirados ao longo dos tempos. Hoje é impossível reproduzir o cadastro, porque não sabem quais são os limites da propriedade.

«DESASTRE» COM ORIGEM NOS ANOS 30
Gonçalo Ribeiro Telles enuncia três etapas que contribuíram para «a destruição do País». Os erros começaram no século XIX com plantação de pinhal bravo, que existia apenas nas areias do litoral. O País, que era um carvalhal compartimentado por culturas, passou a ter uma percentagem excessiva de pinheiro bravo. Mais tarde, por volta de 1930, assistiu-se à arborização de 400 mil hectares de baldios, no Gerês, com pseudo-tesugas, pinheiros, cedros, faias e carvalhos-americanos, que acabou por «expulsar» as comunidades de agropecuária do Norte.

Recorda que a política da época está retratada no livro «Quando os Lobos Uivam» de Aquilino Ribeiro.
A seguir, apareceram os eucaliptos, e novamente os pinheiros, para satisfazerem as indústrias de celulose e de madeiras para a construção civil. «Assim desapareceu a agricultura no fundo dos vales, a cabra que dava leite e cabrito, o leite que dava queijo, ou os matos que davam o mel e a aguardente de medronho. Um cenário muito diferente daquele que existe, onde se vê crescer o pau com destino para a celulose».

«Estas produções podiam não ter grande peso para o Produto Interno Bruto (PIB) mas contribuíam para a fixação de população no local», sublinha.

«Hoje somos um País sem população no interior - entregue às grandes extensões de povoamentos para a indústria - com taxas de emprego altíssimas no litoral. Portugal está transformado num deserto».

O ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida culpa ainda as autarquias por «não entregarem» as aldeias aos emigrantes que regressam à terra de origem e responsabiliza-as por disponibilizarem loteamentos, ao longo das estradas, sem um sistema de planeamento, equipamento e de concentração.
«Depois vê-se as pobres populações aflitas, metidas em casas no meio da chamada "floresta", quando os culpados são as autarquias que deviam ter incrementado o desenvolvimentos das aldeias».
«A política florestal tem sido desastrosa», e nenhum Governo, desde a década 30, conseguiu ter consciência das necessidades do País.

«É preciso iniciar imediatamente um verdadeiro ordenamento do território, o que demoraria menos de uma geração».

«A árvore está a ser perdida todos os dias. Se a árvore deixa de estar na mata, na sebe, nos pomares, no montado, na cidade, o que temos é uma cultura artificial que pode dar muito dinheiro durante um curto intervalo de tempo a alguns mas que pode acabar com o País», conclui, ao lamentar ainda a inexistência do Programa Nacional de Ordenamento do Território.

Entrevista que Gonçalo Ribeiro Telles concedeu ao semanário «O Diabo», de 17 de Agosto de 2005