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terça-feira, 26 de julho de 2011

Pedagogia dos caracóis- por Rubem Alves


Escola- Balanço de Avaliações: "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! 

Colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!

Os caracóis são moluscos lerdos. Andam muito, muito devagar. Ninguém tomaria os caracóis como exemplos. Embora suas conchas sejam belas e construídas com precisão matemática, o que chama a atenção de quem os observa é sua pachorra. Caracóis não têm pressa. Falta-lhes dinamismo, virtude essencial àqueles que vivem no mundo moderno. Quem anda devagar fica para trás. Quem iria imaginar que um educador, ao observar um caracol, tivesse uma inspiração pedagógica? Pois foi o que encontrei numa revista italiana, Cem Mondialità. A fotografia que ilustra o referido artigo é a de um menino, rosto apoiado na carteira, a observar tranqüilamente um caracol que se arrasta sobre a tampa da carteira. E o título do artigo é A pedagogia do caracol.
Caracol tem pedagogia a ensinar? O autor conta o sucedido com uma menininha que, ao voltar para a casa, queixou-se: "Mamãe, os professores dizem 'É preciso andar rápido, nada de vagareza, para frente, para frente. Mamãe, onde é a frente?". E aí ele passa a falar sobre a virtude pedagógica da
vagareza. Pode ser que "chegar na frente" não seja tão importante assim! Quem sabe o "estar indo" seja mais educativo que chegar! No "estar indo" aprende-se um jeito de ser. Nietzsche se ria dos turistas que subiam as montanhas como animais, estúpidos e suados. Não haviam aprendido que há vistas maravilhosas no caminho que sobe... Riobaldo acrescentaria: "O real não está nem na saída e nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". O adágio da Sonata ao Luar tocado "presto" seria um horror. As notas seriam as mesmas. Mas a beleza não se encontra no presto; ela está é na vagareza do "adágio". Ele aconselha os professores a estarem com seus alunos no ritmo "adágio". Sem pressa.
A lentidão é virtude a ser aprendida num mundo em que a vida corre ao ritmo das máquinas. Gastar tempo conversando com os alunos. Saber sobre as suas vidas, os seus sonhos. Que importa que o programa fique atrasado? A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a vida se apressa é porque algo não vai bem.
Adrenalina no sangue, o coração disparado em fibrilação, diarréia. Observar as nuvens. Conversar sobre as suas formas. A observação das nuvens faz os pensamentos ficarem tranqüilos. As notícias dos jornais são escritas depressa. Por isso têm curta duração. Mas a poesia se escreve devagar. Por isso ela não envelhece. Inventaram essa monstruosidade chamada leitura dinâmica. Ela pressupõe que um texto é feito com poucas idéias centrais, tudo o mais sendo encheção de lingüiça. A técnica da leitura dinâmica é ir direto às idéias centrais, desprezando o resto como lixo.
Já imaginaram sexo dinâmico, que dispensa os "entretantos" e vai direto ao "finalmente"? Essa é uma maneira canina de fazer amor. Mas não é isso a que os jovens são obrigados quando, ao se preparar para o vestibular, se põem a ler "resumos" de obras literárias? Um resumo é o resultado escrito de uma leitura dinâmica. É preciso ler tendo a lesma como modelo... Devagar. Por causa do prazer. O prazer anda devagar. Você leu esse artigo dinamicamente ou lesmicamente?

fonte: Revista Educação, edição 100

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Escola- Balanço de Avaliações: "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! Colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!

 "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! E colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!




Ontem a minha escola convidou o Professor Doutor Joaquim Azevedo para nos falar sobre a  Escola para o séc. XXI e a autonomia das Escolas. E dessa palestra resultou algumas ideias que eu sublinharei nesta minha crónica.
Numa sociedade cada vez mais acelerada e informatizada e tele-comunicativa....o que observamos? Escolas a telecomando/telecontrolo central. Decreta-se isto, há prazos de entrega para ontem, despachos e decretos de lei via email aos sábados....

Voltando ao "interesse" da sociedade pelos trabalhos dos nossos alunos, ao mundo, à tele-informática, à questão dos tele-pais e à "realidade" do tele-mundo e tele-centrão no real das nossas vidas, e na Escola. Quando vi o video vencedor da ESAG no youtube ia apenas no meros 420 ontem de manhã. Coloquei no meu blogue http://bioterra.blogspot.com/2011/07/para-ser-grande-se-inteiro-trabalho-dos.html e subiu mais uns 42 visualizações. Mas que bom! É por aí! E porquê isto?

Porque a escola precisa deste TEMPO:)  Referiu o Professor Joaquim Azevedo, que ela é por natureza lenta, tranquila e de pequenos percursos... Acrescento eu até que alunos e professores atingem os patamares seguintes, após a transmissão do passado cultural, científico e artístico aos nossos jovens como estudantes e como agentes de mudança e de crescimento social e não como assistimos cada vez mais a Escola treinada para exames/testes. As Novas Oportunidades são a alavancagem de promoção social de muitos trabalhadores/reformados e  uma vida mais gratificante. Assim o desejamos todos. Contudo, como aconteceu com a formação de adultos para empresas, rapidamente os objectivos finais perdem-se em burocracias e rituais que desdignificam o acto ensino-aprendizagem-saídas profissionais (lembremo-nos que em Portugal continuamos a ter mão de obra muito mais qualificada que o próprio patronato e por vias legais a sub-contratação acaba por beneficiar quem tem menos habilitações). E depois temos um sub-mundo da economia paralela e de uma "familiarização" pela fuga ao fisco transversal a muito sectores da sociedade. Bem, creio que posso estar a fugir da focagem...Voltemos ao Poema Grande
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

                  Ricardo Reis
O Professor acusou ainda que a sociedade fixou-se no interesse pelos exames. É uma falsa questão. Se a sociedade quer mais exames, muitos serão resultados FABRICADOS. Queremos uma Escola- Empresa? Com as imensas injustiças já evidentes?

A escola é um local de trabalho, de sonho, onde é difícil deve medir o "invisível" que é o salto intelectual e o crescimento da PESSOA, tanto do mestre como do aprendiz.
Há várias Educações: a Educação Escolar, a Educação Familiar, a Educação Ambiental, a Educação Empresarial, etc...

O Professor Joaquim Azevedo frisou e repetiu imensas vezes que é urgente distinguir a Educação Escolar da Educação Familiar. São universos completamente distintos.
E já todos os portugueses se questionaram que a Escola é de FACTO uma das organizações sociais que mais gente bem qualificada agrega?

E concluiu a sua intervenção com uma pergunta provocadora: Não estaremos, nós a Escola e a sociedade, suficientemente confiantes em avançar com a verdadeira Autonomia das Escolas?

Mas acredito que noutros sectores, como no Ambiente. Justiça e saúde- precisamos todos de recuperar o TEMPO para nós próprios e para a focagem. Chega de mudanças e este mundo esgotado e disperso e "vazio" e cheio de mini-sociedades e vasos pouco comunicantes. Enquanto isso, vemos avenidas financeiras tremendamente eficazes e controladoras (para o bem e para o mal). Temos que trabalhar as fronteiras e permeabilizar os processos. É nos processos que a Humanidade cresce, fica mais justa e feliz. Não em econometrias e regulações "decretadas" e no cinismo das empresas de notação e mesmo nas posições sonsas dos peritos em "mercados". Primeiro conquistam-nos e depois desejam o mundo. 

As pessoas não são mercadorias nem comerciáveis.

Finalmente uma última provocação:
As organizações económicas até parecem que são as únicas com a pretensão social da "realidade" mas elas como vemos estão a espetar-nos para o abismo: o que dizem outras organizações sociais? Com gente muito mais graduada até que as sociedades banqueiras e os "cuscas" das dívidas soberanas dos povos? Não seremos capazes de tomar as rédeas e CONSTRUIR avenidas de sustentabilidade?!

sábado, 22 de maio de 2004

É preciso politizar a educação



A propósito de algumas intervenções minhas de carácter mais político, tentando esclarecer certos conceitos como genocídio, ecocídio e as relações iniciativa privada/interesses colectivos, Comércio/Ambiente e Fiscalidade/Ecologia, mais uma vez a aposta do BioTerra está na Educação. Juntos para um futuro menos frágil, fui buscar então aos meus arquivos este texto de Prof. Manuel Sérgio, que esclarece a filosofia de educação de Paulo Freire - ver nos meus links a sua Fundação- e que julgo de leitura obrigatória e vai de encontro ao feed-back já positivo que tenho encontrado por parte dos meus leitores.

(...) conheci, pessoalmente, pela primeira vez, o notável pedagogo Paulo Freire, em Agosto de 1987. Isso me bastou para em encontros casuais (um deles, na Avenida Paulista, lembro-me bem) ter admirado, nele, a paciência para aceitar a minha pimpante impertinência de pretenso filósofo da educação e ainda a clareza e a elegância expositiva, ao explicar-me as suas principais ideias que desnudavam a metodologia obsoleta de uma educação vista unicamente como transmissão de ideias prontas e acabadas, ou seja, de uma “educação bancária e domesticadora”, onde valem mais o conteúdo e o produto do que o processo de construção do conhecimento. “Por isso (dizia o Mestre) a educação, hoje, é muito mais interessante fora da Escola, a qual prossegue, teimosamente, na reprodução de modelos antiquados e gastos”. Sobre o mais, pareceu-me uma pessoa fundamentalmente boa, um S. Francisco de Assis dos nossos tempos. Mas o que eu pretendo realçar, neste momento, é que Paulo Freire alimentava a forte convicção que a prática educacional enfermava dos seguintes defeitos: compartimentação do conhecimento, através de disciplinas que recusam a interdisciplinaridade; comportamentos pré-estabelecidos, que ensinam a não questionar, a não exprimir os próprios pensamentos, levando à passividade e à reprodução; ênfase concedida à racionalidade, onde se estimula bem pouco a criatividade, a comunicação, a educação motora; obsoleta metodologia, onde o professor é o proprietário exclusivo do saber; ausência de educação política, que não se confunde com partidarização, já que tem em vista a formação de cidadãos livres, críticos, capazes de levantar o pendão da sua ideologia, responsavelmente assumida e com a necessária tolerância por todas as ideologias democráticas. De facto, a ausência de educação política é uma das grandes lacunas do sistema educativo, não aprendendo o educando que ter ideias implica agir por elas e com elas. Poderia citar-se, a propósito, a Carta sobre o Humanismo, de Heidegger: “Pensar a verdade do ser significa, ao mesmo tempo, pensar a humanitas do homo humanus”.
A Escola não pode ser apolítica (as aulas não devem ser apolíticas), por esta simples razão: o homem culto, isto é, que se cultiva, é essencialmente um homem político, alguém que se sabe o criador do seu destino histórico, que teoriza o real, porque o sente e o vive e o quer transformar. Hanna Arendt não hesita, ao afirmar que reside no bios politikós e não no bios theôretikós o radical fundante do verdadeiro pensamento. Hoje, porém, não há democracia, sem laicidade (todo o fundamentalismo religioso é de uma infeliz apologética, ao mesmo tempo que rejeita a democracia e a tolerância); hoje, também, torna-se perniciosa a economia de mercado, se dela não emerge a solidariedade e se não procede do reconhecimento da realidade lamentável dos miseráveis e do ecocídio (o neo-liberalismo mundial é explorador do Homem e depredador da Natureza); hoje, ainda, o Direito à Educação significa, acima do mais, que o educando é sujeito e não objecto da Educação e que portanto ele tem o direito a aprender a ser livre, diferente e melhor; por fim, sabe-se, hoje, que a pedagogia do Direito à Educação deve ser assente no diálogo, na comunicação “fundamentalmente ético-comunicacional e não principalmente científico-didáctica”, como o assinala Manuel Reis, no seu oportuníssimo livro, onde se associam o valor intelectual e a emoção humana do seu autor, Ética Profissional para Professores e Educadores (p.99). Ora, tudo isto deve circular, como seiva, em todas as aulas e em tudo isto transluz uma irrefutável formação política, anunciadora do Homem Novo, semente do Mundo Novo que é preciso construir. É na Escola que o aluno deve aprender a apreender-se, transfigurando a realidade em sonho para que o sonho possa ainda ser realidade. Ora, tudo isto deve circular, como seiva, em todas as aulas e em tudo isto transluz uma irrefutável formação política, anunciadora do Homem Novo, semente do Mundo Novo que é preciso construir. E neste labor as aulas de Educação Física (onde se trabalha e estimula a motricidade humana) são também chamadas a assumir o papel de contra-poder ao poder de algumas taras que vão persistindo, tais como o de fazer da educação um espaço de férrea domesticação e manipulação, ou inquinar o currículo escolar de um pragmatismo desprovido de princípios e valores.
Poderíamos evocar, aqui e agora, a Teologia da Libertação, para sugerirmos a construção de uma Escola da Libertação, onde o Desporto não se esgota num naturalismo bio-médico, ou na sobrevivência da lei do mais forte e do mais apto, nem as demais disciplinas num intelectualismo platónico, porque, numa escola democrática e laica, tudo deve ser responsavelmente (sem arbitrariedade, portanto) livre e solidariamente (empenhado, por isso) libertador, na formação ou edificação de uma Cultura que se estabeleça, em diálogo igualitário e permanente com os explorados e marginalizados. E que esta Cultura (e só esta) se transforme, na nossa segunda natureza.