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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Nó Cego da Habitação: A Ilusão da Poupança e a Cumplicidade Política em Portugal e na Europa

A narrativa moralista que aponta a falta de poupança dos jovens como causa da incapacidade de aceder a uma habitação própria ou arrendada desmorona-se perante o choque indiscutível dos factos. Em Portugal, onde o salário médio líquido mal permite cobrir as despesas básicas do dia a dia, exigir ao trabalhador jovem que "poupe" para comprar ou arrendar casa num mercado liberalizado é uma falácia que mascara um problema profundamente estrutural. O gráfico que coloca Lisboa no topo europeu da asfixia financeira - com impressionantes 72% do salário médio líquido canalizados unicamente para a renda de um T1 - é o sintoma mais agudo de um modelo económico desenhado não para garantir o direito à habitação, mas para rentabilizar o imobiliário como ativo financeiro e turístico.   

Esta realidade portuguesa é a expressão extrema de um fenómeno amplamente disseminado pela Europa. Após a crise financeira de 2008, impulsionados por anos de taxas de juro excecionalmente baixas e pela procura de rentabilidade rápida, grandes fundos de investimento e capitais internacionais varreram as metrópoles europeias. Cidades como Amesterdão, Milão ou Barcelona registam encargos com a renda que absorvem entre 65% e 68% do rendimento médio. 

A desregulamentação do Alojamento Local, a expansão de plataformas turísticas e a criação de regimes fiscais agressivos para atrair "capital estrangeiro" e nómadas digitais converteram os centros históricos de todo o Sul e Centro da Europa num parque temático para o turismo e numa bolsa de mercadorias para a especulação.   

No entanto, a razão pela qual Portugal lidera esta crise de acessibilidade prende-se com uma assimetria dramática: enquanto cidades do centro da Europa viram as suas rendas subir lado a lado com salários substancialmente mais elevados e parques habitacionais públicos consolidados (como acontece em Viena, onde a habitação pública mitiga a pressão do mercado e fixa o encargo nos 35%), Portugal permitiu que os preços do imobiliário convergissem com a média europeia mantendo os salários estagnados no patamar mais baixo do continente. 

Com uma taxa de habitação pública irrelevante - a rondar os 2%, em comparação com a média europeia de 9% -, o país entregou a totalidade do seu território à lei da oferta e da procura desregrada, isentando de impostos (como IRC e IMI) os fundos imobiliários e os proprietários em centros históricos e viabilizando o aumento vertiginoso dos preços através dos Vistos Dourados.   

É neste cenário que a acusação política interna ganha total legitimidade e urge ser apontada diretamente aos decisores políticos, designadamente ao PSD e ao Chega. Em vez de combaterem a causa da crise e imporem regras de controlo ou um choque de oferta pública, estas forças políticas persistem em defender uma agenda legislativa abertamente favorável aos grandes proprietários e aos interesses imobiliários. 

A recente concertação e aprovação parlamentar de medidas que facilitam os despejos, travam o controlo do preço das rendas e removem tetos de proteção aos inquilinos revela uma opção clara de classe: prefere-se garantir a rentabilidade dos senhorios e aprovar incentivos a empreendimentos com rendas e preços inalcançáveis para a larga maioria dos cidadãos do que proteger a população trabalhadora. 

A passividade e a cumplicidade ideológica do PSD e do Chega perante o negócio da especulação não só aprofundam a gentrificação e o esvaziamento das cidades, como legitimam uma gritante desigualdade de tratamento social - onde o direito ao lucro de uma minoria sobrepõe-se, impunemente, ao direito fundamental a uma casa decente para a maioria.


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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O erro mais caro da próxima década é tratar a IA como uma ferramenta estática


A inteligência artificial não é um software que se compra, instala e resolve. O erro estratégico mais caro dos próximos anos será tratar a IA como um produto acabado, e não como um sistema em constante mutação.

Prever com inteligência artificial já é o básico; a verdadeira vantagem competitiva reside agora em entender como essa capacidade será redesenhada por agentes autónomos e modelos multimodais que se otimizam a si mesmos em tempo real.

O futuro deixou de ser apenas objeto de análise para se tornar parte integrante da ferramenta que analisa.

O deslocamento na adoção corporativa
A adoção corporativa confirma esta mudança. Dados recentes indicam que 88% das organizações já utilizam IA em pelo menos uma função de negócio. Mais relevante do que o volume é a complexidade: 39% das empresas já experimentam agentes autónomos.

Isto sinaliza que a inteligência artificial saiu definitivamente dos laboratórios de inovação para se tornar infraestrutura de decisão. Está no orçamento, na engenharia, na análise de risco e, principalmente, na ordem do dia dos conselhos de administração. A transição é clara: saímos da análise retrospetiva ("o que aconteceu?") para a antecipação preditiva ("o que tende a ocorrer e sob que sinais de alerta?").

Na prática, essa força preditiva altera a gestão de ponta a ponta. No retalho, antecipa a procura com uma granularidade inédita, combatendo a rutura de stock. Na indústria, identifica desvios operacionais antes que se tornem perdas em série. Nas finanças, cruza padrões comportamentais para mitigar fraudes em milissegundos.

O valor aqui não está na sofisticação tecnológica por si só, mas na disciplina de transformar a previsão em ação. As empresas maduras criam rotinas para decidir antes que o atraso se transforme em custo. As imaturas limitam-se a colecionar painéis bonitos enquanto permanecem reféns do improviso.

O risco subtil da precisão
A precisão da máquina traz consigo um risco subtil: a erosão do pensamento crítico. Um estudo da Harvard Business Review com gestores mostrou que o uso de IA generativa para previsões financeiras aumentou o otimismo e a confiança dos utilizadores, mas resultou em previsões piores do que as feitas por equipas que debateram entre pares.

A fluência verbal da inteligência artificial pode anestesiar a dúvida. E, em estratégia, a dúvida é um ativo valioso. Delegar a estratégia inteiramente à máquina é trocar responsabilidade por conveniência. Uma empresa resiliente usa a IA para ampliar a visão, mas jamais para terceirizar a coragem de decidir.

Há também um limite confortável na previsão algorítmica: ela depende de padrões observáveis. Ruturas geopolíticas e crises sanitárias operam fora da média. Além disso, o European Systemic Risk Board alerta para a concentração de modelos. Se todo o mercado utiliza os mesmos fornecedores e lógicas, a diversidade decisória diminui.

A automação pode criar eficiência, mas também pode sincronizar erros em escala. A IA que prevê o futuro está em mutação interna. Estima-se que 40% das aplicações empresariais sejam baseadas em agentes específicos até ao fim de 2026. Para as lideranças C-Level, a janela para definir a estratégia de IA agêntica é de três a seis meses. No calendário corporativo, isso é um trimestre; na evolução da tecnologia, é uma era inteira.

A reconfiguração dos processos e do balanço
Os agentes mudam o desenho dos processos. O valor migra do uso individual para a arquitetura organizacional. A liderança deve agora responder a que processos aceitam autonomia parcial, questionar quais exigem validação humana obrigatória e definir que decisões devem permanecer sob responsabilidade direta dos líderes.

A disputa já chegou à última linha do balanço. Os setores expostos à IA viram o crescimento da receita por colaborador dar um salto para os 27%, contra 9% nos menos expostos. Os profissionais com competências em IA já exigem prémios salariais de até 56%. Para os executivos, o recado é direto: ela já está a impactar a remuneração de talentos e a capacidade de escalar receitas com a mesma base humana.

Talvez o ponto mais crítico seja o que o Google DeepMind chama de agentes evolutivos (como o AlphaEvolve). A IA começou a participar no aperfeiçoamento da sua própria infraestrutura, gerando ganhos de eficiência computacional que escalam globalmente.

Daí surge o paradoxo central: a empresa usa a IA para ver o futuro, mas precisa de vislumbrar o seu próprio futuro para sobreviver. Os comités que tratam a tecnologia como uma mera compra de licenças são anacronismos. A liderança moderna deve monitorizar modelos, governação e custos computacionais com a mesma seriedade que dedica aos juros e à regulação.

Conclusão: um sistema vivo
A conclusão é clara. Prever é poder, transformar-se é sobrevivência.

Para quem consome tecnologia, a omnipresença da IA em dispositivos e serviços financeiros trará conveniência, mas exigirá transparência. Inovação sem explicabilidade é apenas assimetria de poder.

A próxima vantagem competitiva não virá de quem "comprou" a melhor IA, mas de quem a trata como um sistema vivo. As organizações que procuram um produto acabado serão surpreendidas pela própria tecnologia que acreditavam dominar.

As vencedoras usarão a inteligência artificial para antecipar o mundo e, simultaneamente, vigiar a transformação da lente com que observam esse mundo. O futuro já fala através de máquinas. A liderança que apenas escuta, obedece. A que compreende, decide.

sábado, 21 de março de 2026

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Portugal está a ser vendido às peças em nome da “transição verde”

Vale do Lítio em Minas Gerais- Brasil


O discurso é clima e futuro; a realidade, no terreno, é corrupção suspeita, decisões opacas e destruição brutal de turismo, agricultura, comunidades e natureza.

Barroso e Montalegre: O que era paisagem intacta, ideal para caminhadas, gastronomia local e vida comunitária, arrisca tornar-se um cenário de explosões, pó e camiões. Ao mesmo tempo, concessões polémicas, negócios com baldios travados em tribunal e projectos ligados à Operação Influencer (Galamba/Escária PS- etc) alimentam a ideia de que o que manda não é o interesse público, mas redes de influência em torno do Estado.

No Alentejo, a mega-central solar Fernando Pessoa significa abater cerca de um milhão e meio de árvores e transformar centenas de hectares num campo industrial cercado. O montado, a paisagem aberta, o silêncio e o céu limpo – pilares do turismo, da agricultura de qualidade e da identidade da região – são sacrificados em troca de um “mega projecto” aprovado à pressa, já contestado. A energia e o dinheiro saem pela linha de alta tensão; quem fica herda a paisagem arruinada

Em Sines, a corrida ao hidrogénio “verde” e a novas infraestruturas industriais ameaça virar a costa alentejana – hoje motor de turismo balnear e de natureza – num corredor de tubos, tanques e betão. Um dos grandes projectos está também sob investigação na Operação Influencer, reforçando a percepção de que a transição energética é o novo campo de negócios para quem tem a chave dos gabinetes certos.

Quanto à Central Solar SOPHIA , na Beira Interior podemos dizer com certeza que a Central Solar Sophia é um projeto privado, promovido pela Lightsource bp, com apoio de empresa nacional para licenciamento (Coloursflow). Contudo:

1.Há receio de que o projeto assuma características de “mega-central”, implicando vastas áreas vedadas (1.734 hectares vedados, segundo dados públicos) e ocupação de solos que hoje têm funções agrícolas, florestais ou naturais.

2. A escala do projeto, o tipo de zoneamento de solo e a densidade de instalação levantaram enormes críticas de ambientalistas, populações locais e comunidades intermunicipais.
3.A contestação pública e institucional é significativa — há quem considere que a forma como o processo está a decorrer reflete desequilíbrios entre interesses privados e os valores ambientais, sociais e territoriais da região.

Por isso, para muitos, Sophia já não é apenas “energia solar”: é um exemplo do que se entende como “projetos energéticos feitos à pressa” — com promessas de “transição verde” que coincidiriam com lucro para privados, e riscos definitivos de prejuízo para território, biodiversidade e comunidades.

Conclusão
Estamos perante um caso de Green Corruption (Corrupção Verde)
O padrão é sempre o mesmo: destrói-se em baixo, lucra-se em cima. Territórios que vivem de turismo, agricultura e natureza perdem tudo o que os faz existir; grandes empresas e decisores políticos ganham projectos “estratégicos”, subsídios e poder. Se isto é a “transição verde”, o risco não é só matar serras, campos e mar – é matar a já quase nula confiança das pessoas e transformar o combate ao clima em mais um capítulo da história da corrupção em Portugal. E Portugal mais pobre em todos os aspectos. Todos estes projectos, a ser confirmados, inevitavelmente gerarão um considerável passivo ambiental para as gerações futuras.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Álvaro Santos Pereira - salário pornográfico


Álvaro Santos Pereira recebe mensalmente, como governador do Banco de Portugal, 19.496,39 €, o equivalente a 22 salários mínimos. Os restantes administradores, na foto, ganham “só” cerca de 17 mil. Qualquer um deles ganha mais do que o Presidente da Reserva Federal Americana. Um disparate crónico e revoltante que ninguém tem coragem de eliminar!

Sabia que estamos a deitar mais de metade do lixo no sítio errado? Não é o único comportamento que temos de mudar



Vai na rua e tem um resíduo em mãos. Deita-o para o chão porque não há contentores por perto, mas pode estar enganado se pensa que a culpa é de não existir um contentor “ali à mão”. A vice-presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável, Susana Fonseca, esclarece a situação: “O lixo é nosso, a responsabilidade é nossa e nós é que temos de encontrar uma solução.”

Separar o lixo e distribuí-lo pelos diferentes contentores coloridos é um dos primeiros hábitos a ganhar se queremos ajudar o ambiente. “É benéfico para todos nós, enquanto sociedade, porque quando separamos na origem conseguimos aproveitar muito mais daquelas matérias-primas”, garante Susana Fonseca, que admite “uma certa desresponsabilização e falta de proatividade” por parte da população no ato de reciclar.

Em concreto, qual será o problema de misturar todo o lixo num só caixote? A vice-presidente daquela associação explica à CNN Portugal que quando os resíduos são misturados “corre-se um maior risco de haver contaminações”. Contaminação esta que dificulta o tratamento dos resíduos, podendo mesmo comprometer a recuperação dos materiais recicláveis, de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). “A separação deve acontecer tão cedo quanto possível”, não só para melhorar as hipóteses de reciclar, mas também para minimizar o número de tratamentos pelos quais o resíduo passa antes de poder ser reciclado.

Do plástico recolhido em 2023, 77% foi encontrado no fluxo indiferenciado. O metal fica à frente com 81% a ser recolhido do lixo indiferenciado. Já o cartão e o papel destacam-se pela positiva, com 47% destes resíduos a serem retirados do lixo de recolha seletiva, mas mais de metade - 53% - ainda na recolha indiferenciada. Os dados são da APA, que alerta para a “quantidade muito significativa de resíduos com potencial de serem encaminhados para reciclagem que existe no fluxo indiferenciado”.

“É urgente inverter esta realidade”. O presidente da APA, José Pimenta Machado, refere-se à deposição em aterro dos resíduos dos portugueses que, com “pequenos gestos individuais”, pode ser diminuída. Os gestos em causa, “somados, têm um impacto considerável” e, não sendo possível evitar por completo a produção de resíduos, “é fundamental assegurar o seu encaminhamento para um destino adequado”, conta.

Portugal foi responsável pela produção de mais de cinco mil toneladas de resíduos urbanos, só em 2023, de acordo com os dados disponibilizados pela agência. “O país tem de acordar, estamos em estado de emergência.” O apelo é feito por José Pimenta Machado, que, em entrevista à CNN Portugal, revela que no ano passado 53% do nosso lixo foi parar aos aterros. Em 2023, esta percentagem era mais elevada - 59% -, mas a diferença continua a ser pouco expressiva. Deste total, 12% conheceram o seu destino na valorização energética - um processo de queima controlada que permite produzir energia a partir de todos os resíduos que não estão próprios para serem reciclados ou utilizados na compostagem. Para Susana Fonseca, “estarmos a incinerar os [resíduos] orgânicos também é uma má solução.”

A vice-presidente da associação ZERO critica o desperdício de “matéria orgânica” que é “fundamental para os nossos solos, particularmente em Portugal, que tem solos pobres nesta matéria”, refere. “Nós estamos a colocá-los em aterro e depois vamos comprar os fertilizantes para o solo”, acrescenta, sublinhando aquilo que acredita ser “uma má gestão de recursos”.

A boa notícia é que não somos obrigados a deitar fora estes biorresíduos (restos de comida, por exemplo). A compostagem doméstica pode ser uma solução e, de acordo com Susana Fonseca, é “uma das formas mais eficazes de reduzirmos a quantidade de resíduos orgânicos que saem das nossas casas.” Descrita pela vice-presidente da ZERO como “um processo relativamente simples”, a compostagem pode ser feita “no nosso quintal ou mesmo na nossa varanda”. O solo é quem mais beneficia desta prática, mas a população, especialmente as comunidades próximas de aterros, não fica nada atrás. “Estes resíduos são os que criam mais problemas, por causa dos cheiros, a atração de ratos e aves, por exemplo”, explica.

Apostar na prevenção
“Uma das formas mais eficazes de reduzirmos os resíduos que produzimos é começar a tentar reduzir o nosso consumo”. Além da reciclagem, reduzir o consumo próprio - e o desperdício - poderá ser uma maneira tão ou mais eficiente de minimizar o impacto ambiental do nosso lixo, indica Susana Fonseca.

Já se sentiu seduzido pelas promoções dos supermercados? Se sim, provavelmente não é o único. Fazer uma lista e pensar bem naquilo que é realmente preciso comprar, pode ajudá-lo. Pimenta Machado aconselha a população a ganhar o hábito de “planear antecipadamente as refeições de forma a comprar apenas as quantidades e os produtos necessários”. Susana Fonseca argumenta a favor “porque quando ficamos deslumbrados pelas promoções, muitas vezes o que compramos acaba por se estragar”.

Ser criterioso nas compras pode ajudar o ambiente, e podemos sê-lo a vários níveis. “Quando falamos em resíduos urbanos, os têxteis, os objetos que compramos para a casa e até o equipamento eletrónico fazem parte, portanto devemos pensar muito bem sobre a necessidade de comprar algo novo”, esclarece a vice-presidente da ZERO. No caso das roupas e dos móveis, podem ganhar uma segunda vida, se, como afirma, “o primeiro reflexo não for deitar fora”: “Estando em boas condições, podem ser doados ou vendidos em segunda mão”.

“As garrafas reutilizáveis” e os “nossos próprios sacos” devem substituir as embalagens descartáveis, diz Susana Fonseca, e mesmo as compras a granel - que devem ser “privilegiadas” - “funcionam bem se levarmos sacos”, caso contrário corremos o risco de estar a comprar uma pequena quantidade e a levá-la “dentro de um saco grande, que é pior do que se comprássemos um produto embalado”, refere. O presidente da APA reforça que “escolher produtos reutilizáveis é apostar na durabilidade”.

Se não pensa duas vezes antes de deitar um alimento fora, talvez o deva começar a fazer. “Nos produtos que são mais sensíveis precisamos de ter um cuidado a redobrar, mas muitos produtos vão para o lixo e ainda podem ser aproveitados”, afirma a vice-presidente da ZERO. Congelar ou pré-confecionar os alimentos que se podem vir a estragar evita “o desperdício para o ambiente e para os orçamentos familiares.” José Pimenta Machado adiciona mais um conselho à lista: “A aposta pode passar pelo reaproveitamento das sobras de refeições anteriores na confecção de novas receitas.”

As soluções que nos restam para além destas não são tão aliciantes. “Ou começamos a exportar resíduos ou regressamos às lixeiras”, alerta o presidente da APA. Isto num cenário em que, segundo os dados mais recentes de 2024, temos em média “14% de aterro disponível” e a maior parte dos nossos resíduos urbanos continua a ter os aterros como destino final.

O Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030), aprovado pelo Governo, dita que, em 2035, apenas 10% dos nossos resíduos urbanos podem ser encaminhados para os aterros.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso


Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
 
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.

Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."

Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso. 

Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000

Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Critics say Trump’s executive orders to reshape the NIH ‘will kill’ Americans



Academics and scientists who work with the National Institutes of Health (NIH) said the Trump administration’s orders have severely disrupted work – delaying projects and casting the future of research funding and jobs into doubt as chaos in the agency reigns.

An array of orders seeks to fundamentally reshape the NIH, the world’s largest public funder of biomedical and behavioral research, in the Trump administration’s image. The agency’s work is the wellspring of scientific advancement in the US, and helped make the country a dominant force in health and science.

“They will have drastic effects on all of us – this is not hyperbole, this is fact,” said Todd Wolfson, the president of the American Association of University Professors and an anthropologist at Rutgers University in New Jersey.

The orders “will kill”, Wolfson said, as advances in the treatment of diseases as diverse as cancer, Alzheimer’s and diabetes are delayed.

“Donald Trump and Elon Musk are taking a sledgehammer to the greatest biomedical infrastructure in the world to extend tax cuts,” Wolfson said.

NIH-funded basic or applied research has also contributed to 386 of the 387 drugs the Food and Drug Administration approved between 2000 and 2019, and more than 100 Nobel prizes have been awarded to scientists based on NIH-funded work. NIH grants often fund basic research conducted at universities and colleges across the country, touching every state and nearly every congressional district.

Since taking office, the Trump administration has issued a bevy of executive orders and administrative actions that seek to fundamentally alter American health and science agencies – from appointing the nation’s foremost vaccine critic to head the Department of Health and Human Services to scrubbing websites of information the administration finds objectionable.

Trump’s executive orders prohibit grant funding containing a long list of words associated with “diversity, equity and inclusion”; attempt to cut scientific research funding by $4bn; fired thousands of employees and stopped recruitment; imposed communications blackouts; and blocked committees from meeting to evaluate new scientific research, effectively freezing funds.

Together, those orders have sown a sense of chaos and fear throughout the agency and academia, even as many are tied up in court battles.

That has left the most severe proposal, a 15% cap on “indirect costs”, hanging like the sword of Damocles over scientific research – forcing institutions to impose sweeping spending freezes and casting the future of whole labs into doubt.

“I have to decide as a professor whether to take new students into my lab, and I don’t know if I can afford them,” said Rutgers University biochemist and professor Annika Barber.

Barber added that she was supposed to spend her Thursday afternoon reviewing grant proposals for the NIH at a legally mandated review committee. The meeting was canceled with less than 24 hours notice as the Trump administration has put a hold on submissions to the Federal Register, a legal requirement for upcoming meetings.

“As of today, there are no NIH study sections going forward, which means we are not funding the grants scored last fall and not funding the grants meant to be scored this spring,” she said. “That means there is a six-month funding gap … That is going to close small labs.”

domingo, 26 de janeiro de 2025

Transição verde: trajetória pautada na cooperação e na integridade da informação



A transição verde, ou transição ecológica, se mostra cada vez mais necessária e urgente, trazendo desafios e oportunidades para as empresas, o setor público e organismos da sociedade civil.

Tal movimento consiste em estratégia de transformação do modo de vida, visando reduzir o impacto no meio ambiente e promover o desenvolvimento sustentável. Suas bases foram estabelecidas no Acordo de Paris, firmado em 2015, o primeiro acordo global sobre mudanças climáticas, universal e juridicamente vinculativo, cujo objetivo principal era conseguir, através de diferentes fórmulas, que a temperatura do planeta nunca ficasse mais que 1,5 ºC acima do nível da era pré-industrial.

Para tanto, os países deveriam adotar diferentes medidas, dentre elas: promover a descarbonização e favorecer a energia verde em oposição aos combustíveis fósseis; investir no transporte ecológico; aumentar os investimentos em eficiência energética; apoiar a inovação nas empresas e na ciência; desenvolver planos de ação e estratégias para a economia circular e desenvolver e priorizar um plano político de ação climática. Essa nova ampla agenda trouxe riscos e oportunidades para os diferentes players da sociedade, fazendo com que os formuladores de políticas públicas tenham de administrar assimetria de informação, mudanças repentinas de cenários e interesses muitas vezes conflitantes entre os diferentes setores da economia e a sociedade como um todo.

Ao setor privado especificamente, cabe enfrentar os novos riscos e aproveitar as oportunidades, para garantir a perenidade das empresas e, alinhado à estratégia de seus negócios, comprometer-se com melhores práticas de sustentabilidade. Neste movimento, as empresas precisam de cautela, atuar com transparência e divulgar informações sólidas e rastreáveis, para evitar acusações de greenwashing, que rapidamente tomam os meios de comunicação e geram danos irreversíveis à reputação.

Assim, os investimentos em inovações para a transição verde, acompanhado por ganhos de produtividade, cruciais para a evolução do país, somente serão possíveis com políticas públicas de Estado, bem estruturadas, com coordenação multidisciplinar entre as diferentes agendas do governo e com as parcerias estratégicas entre os setores público e privado. Conforme bem colocado pelo relatório da OCDE Anti-Corruption and Integrity Outlook 2024, será muito desafiador para um governo, sozinho, atingir as metas climáticas, pois dependem do conhecimento, da experiência e inovação do setor privado, fatores expostos a um elevado risco de corrupção e de falta de integridade.

Com efeito, via de regra, se comparado com as autoridades governamentais, as empresas privadas possuem maior conhecimento das peculiaridades, desafios e oportunidades dos seus respectivos setores de atuação. Neste contexto de importante assimetria de informação, conforme prevê a teoria econômica, há espaço para comportamento oportunista, beneficiando e conferindo vantagens para os agentes com maior acesso às informações relevantes.

Mais precisamente, é possível que diferentes setores que mais necessitam adotar políticas sustentáveis, se valendo da assimetria de informação, serão os que menos teriam motivação para efetivamente avançar nesta direção – comportamento que pode ser denominado de seleção adversa. Há também a possibilidade de risco moral – ou seja, se valendo da assimetria de informação, a implementação das políticas necessárias e acordadas acabarem ocorrendo de forma incompleta e ineficiente. Com isso, os investimentos necessários serão subótimos e os resultados da política pública tendem a se distanciar do inicialmente desejado.

Esse possível resultado está em linha com riscos citados no relatório da OCDE e, para contornar os problemas que decorrem ou são reforçados pela assimetria de informação, a teoria econômica também prevê mecanismos de sinalização por parte das empresas e entidades privadas (como certificações, por exemplo) e diferentes ferramentas de monitoramento.

Enfrentamento de tais problemas decorrentes da assimetria de informação, que passam por possível lobby enganoso, além do tratamento dos conflitos de interesse com transparência, deve contar com apoio de especialistas de áreas diversas, interação entre setor público e privado primada pela transparência e formalidade, com pautas claras e agendas divulgadas, são algumas das medidas que podem mitigar os riscos apontados pela OCDE e apoiar o setor público na formulação de políticas eficientes para a transição verde.

Uma das diretrizes proposta pela própria OCDE é se valer de informações produzidas por agentes independentes, como consultorias, grupos de especialistas e organismos nacionais e estrangeiros que estudam as mudanças climáticas. Mesmo também estando expostas a algum grau de risco de conflito de interesses e assimetria de informação, tais entidades podem contribuir com recursos importantes, com conhecimentos e competências para o desenvolvimento e monitoramento das políticas.

Sob a ótica da governança interna das empresas, as áreas de compliance e riscos também têm papel fundamental na implementação de processos e controles para mitigar tais riscos, e devem trabalhar em sinergia com as áreas de Relações governamentais e sustentabilidade, para mapear os novos fatores de riscos e garantir esse diálogo transparente com as autoridades públicas e os setores da sociedade civil. Aderir aos padrões internacionais de combate à corrupção e estar em conformidade com as regulamentações nacionais e internacionais é crucial para navegar nesse cenário complexo.

Por fim, as empresas que lideram a agenda de sustentabilidade devem apoiar o fortalecimento das instituições e das regulamentações, com definição de diretrizes e padrões robustos e abrangentes. Deve haver em diálogo construtivo com órgãos reguladores, organizações ambientais e comunidades locais, com base em evidências empíricas independentes, favorecendo a transparência e integridade das informações. A cooperação se mostra decisiva.

O cenário é complexo e o campo de atuação, amplo. É crucial que as estratégias empresariais se coordenem internamente entre as diferentes áreas e, externamente, promovam cooperação com os agentes interessados e impactados, sem se limitar aos temas tradicionais. O planejamento estratégico das empresas deve ser apoiado para liderar a agenda da transição verde.

Estamos prontos para assumir essa direção?

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Green corruption: uma ameaça ao meio ambiente


Combater a corrupção verde é uma questão crítica para a sustentabilidade ambiental

Segundo a Interpol, entre 2006 e 2016, crimes ambientais cresceram entre 5% e 7% ao ano, uma taxa de crescimento duas a três vezes maior que o PIB global1, tornando-se a terceira atividade mais lucrativa para o crime organizado transnacional e gerando até US$ 280 biliões anualmente2. Esses crimes são atrativos para os criminosos pois apresentam atividades de risco relativamente baixo com alta recompensa, em grande parte devido à limitação dos esforços de fiscalização ambiental. A procura por produtos de vida selvagem traficada permanece alta e as penalidades criminais não são tão severas quanto para outras atividades ilícitas3. Assim, o combate à corrupção verde tem se tornado uma questão crítica para a sustentabilidade ambiental.

Cunhado pelo Basel Intitute on Governance, o termo "Green Corruption" (corrupção verde), refere-se à corrupção e crimes financeiros que causam danos ao meio ambiente e à biodiversidade 4. Esse tipo de corrupção está associado a atividades ilícitas relacionadas a recursos naturais, como tráfico de vida selvagem, exploração ilegal de madeira, pesca predatória, mineração e comércio de resíduos, todos impactando ecossistemas e comunidades locais.

Embora essa prática afete países de todas as regiões, seu impacto é particularmente grave em nações mais pobres, onde a regulamentação é mais fraca e a fiscalização limitada. Esses crimes frequentemente envolvem suborno, lavagem de dinheiro e outros delitos financeiros que facilitam atividades ilegais em larga escala. Além disso, causa danos significativos aos ecossistemas locais justamente em um momento em que o mundo está intensificando os esforços para combater as mudanças climáticas e as ameaças à biodiversidade5.

Dada a abrangência desses crimes, o combate à corrupção verde demanda uma abordagem multissetorial e coordenada, abrangendo desde o fortalecimento de agências de aplicação da lei até a colaboração com empresas e comunidades locais. Nesse contexto, as empresas de todos os setores têm um papel essencial, que vai além de suas práticas internas, estendendo-se a suas cadeias de fornecedores e parceiros comerciais. A integridade na cadeia de valor é fundamental para garantir que os recursos naturais utilizados não estejam ligados a atividades ilícitas, como exploração ilegal de madeira e pesca predatória6. Ao incorporar práticas de due diligence ambiental, monitoramento e transparência ao longo da cadeia de valor, as empresas podem evitar a entrada de produtos ou materiais obtidos de forma ilegal, reduzindo assim o impacto da corrupção verde nos ecossistemas e promovendo uma economia mais sustentável.

Estima-se que trilhões de dólares em fluxos ilícitos estejam envolvidos anualmente nessas atividades. O Banco Mundial, por exemplo, estima que as perdas econômicas anuais resultantes de atividades ilícitas relacionadas a crimes ambientais alcancem entre US$ 1 a 2 triliões7. Assim, além de ser um imperativo moral, enfrentar esses crimes é uma necessidade econômica.

Discussão do tema pela primeira vez no B20 Brasil
A pauta da corrupção verde foi tratada como prioridade pela primeira vez no B20, sediado e presidido pelo Brasil em 2024, impulsionada pela força-tarefa de Integridade e Compliance, que destacou sua importância tanto para o País quanto para a comunidade internacional8. Como um dos países com maior biodiversidade do mundo e com 60,1% da Amazônia9 dentro de suas fronteiras, o Brasil possui uma responsabilidade única na proteção de seus recursos naturais. No entanto, práticas corruptas como a exploração ilegal de madeira e mineração ilegal têm levado a perdas irreparáveis nos biomas brasileiros.

Como dispõe o Instituto Igarapé, o desmatamento é apenas a parte visível do crime ambiental. A extração de madeira ilegal é alimentada por redes criminosas transnacionais que utilizam licenças fraudulentas, empresas de fachada em paraísos fiscais e documentos falsificados para integrar recursos ilícitos ao sistema financeiro global. No Brasil, a Amazônia representou 61% do desmatamento nacional no ano de 2020, o que demonstra que o combate a esses crimes não só é uma questão ambiental, mas também de reputação e segurança econômica para o País10. A falta de rastreamento eficaz e a corrupção facilitam esse ciclo, tornando urgente uma ação coordenada para preservar a biodiversidade e garantir um futuro sustentável.

Assim, dado o cenário atual, a força-tarefa de Integridade e Compliance destacou que as práticas corruptas que promovem desvios como o desmatamento ilegal e a exploração predatória são desafios que precisam ser abordados tanto em nível nacional quanto internacional, com a colaboração de governos, empresas e sociedade civil.

O que o B20 demandou ao G20
Durante o B20 Brasil, a força-tarefa de Integridade e Compliance propôs ao G20 ações claras para combater a corrupção ambiental. As recomendações incluem: a convergência de frameworks de sustentabilidade para melhorar a interoperabilidade e garantir transparência nas divulgações, com uma atenção especial às pequenas e médias empresas (MSMEs); a promoção da Ação Coletiva, incentivando a colaboração entre os setores público, privado e sociedade civil para fortalecer a integridade nas cadeias de valor; além da proposta de transparência e accountability a fim de combater a corrupção relacionada à transição verde, crimes ambientais e violações de direitos humanos. Essas propostas visam fortalecer a transparência e a governança, incentivando que o G20 adote diretrizes para que as empresas e os governos se comprometam em combater práticas ambientais ilegais e sustentem os compromissos de desenvolvimento sustentável.

O Policy Paper completo pode ser lido aqui.

Desdobramentos no G20: compromisso ministerial com o combate a crimes ambientais
O combate à corrupção associada a crimes ambientais ganhou espaço na agenda internacional com a reafirmação de compromissos importantes pelo G20. Na Declaração Ministerial Anticorrupção11, os países membros destacaram a relevância da Resolução 8/12 da Conferência dos Estados Partes da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, que trata da "Prevenção e combate à corrupção relativas a crimes que impactam o meio ambiente".

Nesse contexto, o G20 reconheceu a gravidade dos impactos desses crimes e reforçou seu compromisso em fortalecer estruturas anticorrupção, promovendo práticas éticas, integridade e transparência. A declaração também sublinha a importância de prevenir conflitos de interesse que possam facilitar atividades ilícitas relacionadas ao meio ambiente, alinhando os esforços internacionais para proteger ecossistemas e combater redes criminosas transnacionais.

Ao reafirmar esses compromissos, os países-membros demonstram que a corrupção verde não é apenas uma ameaça ao meio ambiente, mas também um desafio significativo para a estabilidade econômica, a justiça social e os esforços globais contra as mudanças climáticas. Essa posição do G20 destaca a necessidade de coordenação entre governos, empresas e organizações da sociedade civil, promovendo uma abordagem coletiva para fortalecer a governança global e implementar soluções sustentáveis e inclusivas.

Embora as recomendações do B20 ao G20 sejam direcionadas aos governos, a comunidade empresarial também tem um papel essencial no combate à corrupção verde. Algumas ações práticas que podem ser adotadas incluem:
  1. Implementar due diligence ambiental: empresas podem adotar processos rigorosos de due diligence que identifiquem e monitorem riscos de corrupção ambiental em suas cadeias de fornecedores.
  2. Promover transparência e divulgação: adoção de padrões transparentes de divulgação ambiental e relatórios frequentes sobre impacto ambiental e conformidade com regulações ambientais, incluindo os padrões sugeridos pelo B20.
  3. Investir em programas de treinamento e conscientização: capacitar funcionários e fornecedores sobre os riscos e as consequências da green corruption pode ajudar a criar uma cultura de integridade dentro da organização e na cadeia produtiva.
O combate à corrupção verde é um tema de alta relevância e urgência, pois as consequências da exploração ambiental ilegal vão além dos danos ao ecossistema: elas ameaçam a estabilidade econômica, agravam a desigualdade social e intensificam a crise climática global. A adoção das recomendações do B20 pelo G20, mas também pela própria comunidade empresarial, representa uma oportunidade essencial para estabelecer padrões globais que incentivem práticas de negócios responsáveis e garantam a proteção dos recursos naturais para as futuras gerações. A colaboração entre empresas, governos e a sociedade civil é crucial para interromper as redes criminosas envolvidas em crimes ambientais e promover um desenvolvimento sustentável.

Fontes:

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

58º aniversário

"As gaivotas" por Sarah Jane Szikora

Nasci a 30 de Agosto de 1966. Cresci no campo. Vi a gratidão da Natureza, mas também as pragas que infestam as culturas e os prejuízos económicos disso, bem como de geadas, granizo e campos inundados. Aos 13 anos já sabia que queria ser: Biólogo. E a vida foi correndo, umas com muitas alegrias, outras muito trágicas: a perda do meu pai aos 11 anos; no auge da faculdade a perda da minha irmã mais velha, tinha eu 21 anos. Mais tarde, a perda do meu irmão mais velho; dois anos depois a morte da minha mãe e ainda não tinha feito 50 anos, a maior perda de todas: a minha mulher, Teresa, que se suicidou (era doente bipolar). Seis anos depois a morte do meu irmão mais novo. Entretanto também fui perdendo amigos por falecimento. 
Vivi em 10 casas: a primeira foi no Porto, até aos 4 anos. Depois passei a viver numa aldeia, do lado de Gaia, Lamaçães (Pedroso). Fiz a primária até ao 7º ano. Aos 14 mudei-me para Coimbrões e inscrevi-me no Liceu de Gaia. Havia partilhas e o ambiente em Pedroso não era bom. Vivi na casa da minha irmã mais velha, até aos 17 anos. Como compramos uma moradia, fomos viver para Lavadores, entre os 18 e os 23 anos. A moradia dava muito trabalho, a minha irmã mais velha vivia por cima de nós e como faleceu, eu e a minha mãe entrámos numa grande depressão e resolvemos comprar um T2 em Coimbrões. Lá vivi até aos 28 anos. Casei com 29 anos e fomos viver para Areosa, um T2, durante 5 anos. Encontramos um excelente apartamento em Matosinhos, um T4, perto do mar. Aí vivi entre os 34 e os 49 anos, ano 2016, em que ocorreu a trágica morte da minha mulher. Fomos procurar novos apartamentos e encontramos um T3 muito bom e bem localizado (perto do centro da Maia), arrendado, até aos meus 56 anos. Por motivos do casamento do filho do senhorio, tive que mudar para um T2 no Castêlo da Maia, onde vivo atualmente.

Agora estou com 58 anos. Vamos a ver o que a minha vida ditará.

domingo, 18 de junho de 2023

Peter Wohlleben- Se encararmos as florestas como meras plantações de árvores, no futuro teremos somente “desertos”


Quando se fala de alterações climáticas, as florestas são sobretudo vistas como reservatórios de carbono. Defende que elas são muito mais do que isto: têm um papel importante no clima, no arrefecimento, nas chuvas e ciclo da água. Isto tem sido ignorado?
Sem dúvida. Tudo o que vemos de momento é o debate sobre queimar madeira em centrais de carvão por causa das fortes acções de lobbying da indústria florestal naquilo que é tido como neutralidade carbónica. O principal efeito das florestas é a influência no clima local e isso já foi escrito em 1831. É sabido há muito tempo e toda a gente pode senti-lo nos jardins, nos parques das cidades, mas tem sido sempre desconsiderado.

Em Portugal há muita discussão sobre o eucalipto – que é a árvore mais comum no nosso território e também uma das que mais arderam nos últimos anos –, sobretudo pela relação com os incêndios florestais. Concorda? Deveria haver mais variedade de árvores, sobretudo autóctones?
Estas alterações contam muito. As florestas naturais, primitivas, consistem sobretudo de diferentes espécies de carvalho e outras, que não ardem tanto nos incêndios florestais. Por natureza, estes incêndios eram um fenómeno muito raro. As plantações de pinheiros, por exemplo, aumentam o perigo de incêndios florestais e o eucalipto ainda é pior. Vemos estas temperaturas elevadas em incêndios florestais em zonas de eucaliptos, que até derretem carros e blocos de alumínio. Não é nada como teríamos num incêndio florestal ‘natural’. Portanto, são inteiramente causados pelos humanos.



Em termos de gestão florestal, qual é a melhor maneira de prevenir incêndios florestais?
A melhor maneira de prevenir é ter mais florestas naturais. Nas florestas naturais temos mais biomassa – que é o principal factor na questão do arrefecimento e da chuva –, mais árvores velhas, com cascas mais grossas, muito mais madeira morta. E há quem pense que florestas com uma maior quantidade de madeira morta ardem mais facilmente, mas é ao contrário. Há arvores que estão completamente repletas de água, mesmo em alturas mais áridas de Verão, portanto funcionam como uma esponja. Esta madeira morta em florestas naturais dificilmente arde. Tudo junto: ter mais florestas naturais, mais florestas húmidas, ter mais chuva nestas florestas. Devíamos olhar para os efeitos das florestas no clima local e menos para a madeira.

Entrevista Público ao escritor e guarda-florestal Peter Wohlleben. 1 de Maio de 2022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Livro- Manual de Agricultura Biológica


Nos últimos anos, a procura por alimentos de origem biológica disparou e são muitos os que optam por cultivá-los, seja para consumo próprio em pequenos quintais ou mesmo nas varandas, seja mudando de vida e trocando o ritmo alucinante das cidades pelo campo e pela natureza. Mas para quem nunca mexeu na terra, por onde começar? O que devo cultivar? E como garantir uma horta 100% biológica, sem recorrer aos químicos prejudiciais para o nosso corpo e para o meio ambiente? Como assegurar uma produção sustentável de uma forma biológica, respeitando a natureza? Como eliminar as pragas sem recorrer a pesticidas de síntese química? E quem já cultiva, mas quer tornar a sua produção mais saudável e mais alinhada com os tempos que vivemos? Foi a pensar nestas perguntas que surgiu este "Manual de Agricultura Biológica — Crie uma Horta Saudável e Cultive os Seus Próprios Alimentos", da autoria de três destacados elementos da AGROBIO - Associação Portuguesa de Agricultura Biológica. Neste livro prático, repleto de quadros, ilustrações e esquemas elucidativos, e quer seja um iniciante ou já possua experiência, poderá aprender a melhor maneira de organizar e cuidar de uma horta biológica, para poder ter sempre hortícolas saudáveis e amigos do ambiente.