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sábado, 17 de janeiro de 2026

Kumi Naidoo : For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels


Why is a global fossil fuel treaty needed and what should it look like?
For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels. We have been standing in a flooding room, mopping the floor instead of turning off the tap. Eighty-six per cent of climate change is caused by coal, oil and gas, yet the global system still allows – even subsidises – their expansion. A treaty will give us a clear, fair and binding plan to end fossil fuel expansion, phase out existing production and support a just transition for workers and communities.

An ambitious treaty would have three pillars: no new investments in coal, gas or oil projects, a phase-out of existing production, based on science and equity, and a fast, funded transition that supports communities, workers and global south countries. This is a roadmap to turn off the tap at the source, something the current global system has failed to do.

The First International Conference for the Just Transition Away from Fossil Fuels, co-hosted by Colombia and the Netherlands, will take place in Santa Marta, Colombia, on 28 and 29 April, bringing together governments, experts and communities to develop policies for a transition in line with the Paris Agreement.

How can a treaty succeed where the COP series of climate summits has failed?
The COP process requires consensus from almost 200 governments, including many captured by fossil fuel interests. This leads to deals that are full of loopholes and not very binding. In contrast, a treaty can be negotiated by a coalition of the ambitious, set binding rules to stop expansion and deliver a governed, financed just transition.

This approach works. Think of the Landmine Convention or the Ozone Treaties. They didn’t need every country to start, just enough courageous ones to lead. Almost every major treaty began with a small group of pioneers. Once they move, they can set new global norms, shift finance away from fossil fuels and create economic and moral pressure on those lagging behind. A treaty supported by even 20 or 30 determined states can reshape diplomacy and global markets.

And the courage is already emerging. It’s coming from those on the frontlines of climate impacts: Caribbean and Pacific Island states and even some fossil-fuel exporters such as Colombia, Pakistan and Timor-Leste.

Of course there are obstacles. Powerful fossil fuel corporations drive corruption and political capture. Governments fear losing revenue from fossil fuel extraction and old patterns of global inequality continue to shape the global response. But as has been said before, first they ignore you, then they laugh at you, then they fight you – and then you win.

What’s civil society bringing to the process?
Civil society is not just at the table – it’s the one that built the table. This treaty initiative grew directly out of the work of climate justice networks, communities, frontline organisers, Indigenous peoples and youth activists. Over 2,000 civil society organisations now support the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, alongside 101 Nobel laureates, 3,000 scientists and academics, the European Parliament and the World Health Organization. In 2023, Pacific civil society groups launched the Naiuli Declaration, the first endorsement of the treaty by an entire region’s civil society groups, demonstrating the power of grassroots leadership in this movement.

Civil society brings moral courage where governments hesitate, people power where institutions stagnate and art, culture and storytelling that reach the heart in ways data cannot. From the anti-apartheid movement in my youth to Greenpeace to Amnesty, I’ve seen that movements are the midwives of progress. There is vast space and an urgent need for civil society leadership.

Why should organisations and states join this initiative?
Because our children will one day ask us a simple question: when the moment of truth came, did you turn off the tap, or did you keep mopping until the flood swept us away?

Joining the treaty means choosing justice over delay, courage over convenience and solidarity over short-term profit. The treaty must directly improve people’s lives, reduce inequality and safeguard democratic space. It’s not about saving the planet, because the planet will survive us. It’s about saving ourselves, our human dignity and our shared future.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Já estamos em ebulição global


A partir desta quinta-feira, 27 de julho, o aquecimento global chegou oficialmente ao fim e começou uma nova era: “A ebulição global”. As palavras fortes são de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, numa conferência de imprensa em que revelou o que julho de 2023 pode muito bem tornar-se no mês mais quente de sempre na história registada.

“As alterações climáticas estão aqui. É assustador e isto é apenas o início”, disse Guterres. “Ainda é possível limitar o aumento da temperatura global para 1,5 graus e evitar o pior. Mas isto apenas funcionará com ações drásticas e imediatas.”

A informação dada pelo secretário-geral surge após cientistas terem confirmado também nesta quinta-feira que as últimas três semanas foram as mais quentes algumas vez registadas. Karsten Haustein, da Universidade de Leipzig, garante que o mundo está 1,5 graus mais quente este mês do que em qualquer outro julho antes da industrialização.

Em causa estão fatores como a poluição humana. “A humanidade está em risco. Para uma vasta parte da América do Norte, Ásia, África e Europa, está a ser um verão cruel. Para o resto do planeta, é um desastre. E para os cientistas, não há dúvidas: a culpa é das pessoas.”

Vários avisos já tinham sido dados pela comunidade científica ao longo dos últimos nos, por isso esta situação não é propriamente um choque. O que surpreende os especialistas é mesmo a forma acelerada como as temperaturas estão a mudar.

Guterres pediu ainda que os políticos não ficassem estáticos e que tomassem medidas rapidamente. “Este ar não é respirável, o calor não se aguenta, e o nível de inação é inaceitável. Líderes devem liderar. Chega de hesitação e desculpa. já não há tempo para isso”.

Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, também deixa um aviso: “A necessidade de reduzir o efeito estufa é mais urgente do que nunca. A ação climática não é um luxo, mas uma necessidade.”

Não esquecer que entre 65% e 80% do CO2 libertado no ar por acção do homem dissolve-se no oceano num período entre 20 a 200 anos. O restante é removido por processos mais lentos que levam centenas de milhares de anos, incluindo a meteorização química e formação de rochas. Isso significa que, uma vez na atmosfera, o dióxido de carbono pode continuar a afectar o clima por milhares de anos [artigo científico]

terça-feira, 27 de junho de 2023

Funchal no top 10 dos portos com maior poluição por navios de cruzeiro na Europa


Os portos de Lisboa e do Funchal estão no 'top 10' das infraestruturas portuárias da Europa com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro, segundo um estudo divulgado hoje pela associação ambientalista Zero.

"Em termos absolutos, Portugal mantém o 6.º lugar entre os países europeus com maiores níveis de poluição por óxido de enxofre (SOx) emitido pelos navios de cruzeiro, depois de Itália (1.º), Espanha (2.º), Grécia (3.º), Noruega (4.º) e França (5.º)", segundo um novo estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, da qual faz parte a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Esse estudo, que incide sobre os portos da Europa, apresenta os dados de 2022, com a evolução da poluição atmosférica e das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) provenientes dos navios de cruzeiro relativamente aos níveis pré-pandemia de 2019, verificando que houve "um agravamento das emissões de SOx em 9%, de óxidos de azoto (NOx) em 18 % e de partículas finas em 25%".

Estes poluentes são responsáveis por doenças cardiovasculares e respiratórias e contribuem para a acidificação e eutrofização do oceano, com consequências negativas para o equilíbrio dos ecossistemas, referiu a associação Zero, indicando que, "de um modo geral, o transporte marítimo é responsável por cerca de 3% das emissões globais de GEE e por cerca de 250 mil mortes prematuras e cerca de 6,4 milhões de casos de asma infantil por ano em todo o mundo".

Segundo o estudo, em 2022, os 218 navios de cruzeiro que navegaram na Europa emitiram mais óxidos de enxofre do que o equivalente a mil milhões de carros.

"Nos portos da Europa, o teor de enxofre do combustível é limitado a 0,1% (1000 ppm - partículas por milhão), mesmo assim 100 vezes mais que os limites impostos ao combustível dos automóveis (10 ppm)", explicou a associação ambientalista.

O 'top 10' dos portos europeus com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro é liderado pela cidade espanhola de Barcelona, seguindo-se Civitavecchia (Itália), Pireu (Grécia), Palma de Maiorca (Espanha), Lisboa (Portugal), Hamburgo (Alemanha), Southampton (Reino Unido), Mykonos (Grécia), Thira (Grécia) e Funchal (Portugal).

Ocupando a 5.ª posição deste 'ranking', o porto de Lisboa foi o que registou maior tráfego de navios de cruzeiro (108) na Europa em 2022, à semelhança do que se verificou no relatório anterior publicado em 2019, verificando-se um aumento das emissões de óxidos de enxofre.

"Em Lisboa, os navios de cruzeiro emitiram 2,44 vezes mais SOx do que os cerca de 374 mil veículos de passageiros registados na cidade (cerca de 11 toneladas comparativamente a 4,5 toneladas, respetivamente)", informou a Zero, acrescentando que os navios emitiram cerca de 278 toneladas de NOx, o que corresponde a 12% da emissão deste poluente por parte dos automóveis que circularam na capital portuguesa.

No 10.º lugar, o porto do Funchal registou 96 escalas de navios de cruzeiro em 2022, "um aumento acentuado relativamente a 2019, altura em que registou cerca de 75 escalas", o que contribuiu para elevar os níveis de poluição atmosférica, levando-o a integrar o 'top 10' dos portos mais expostos à poluição por SOx, quando antes ocupada na 15.ª posição.

Para a associação ambientalista Zero, "é urgente limitar a poluição oriunda de navios de cruzeiro" com a adoção de medidas mais rigorosas nos portos portugueses e europeus, seguindo o exemplo de Veneza, que em 2019 tinha o porto de cruzeiros mais poluído da Europa e "em 2022 caiu a pique para a 41.ª posição após ter banido a entrada de grandes navios".

Em comunicado, a Zero alertou que "falsas soluções como o gás fóssil aumentam o impacte ambiental e climático destes grandes monstros poluidores", acusando os operadores de cruzeiros de "campanhas de propaganda verde enganosas" e defendendo que as autoridades portuárias devem evitar quaisquer novos investimentos em infraestruturas de abastecimento de gás fóssil, canalizando esforços e investimento para o fornecimento de combustíveis renováveis de origem não biológica.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Frio extremo congela parcialmente as Cataratas do Niágara. Eis as imagens.

No entanto, a quantidade e movimentação enorme de água nunca permitirá que as cataratas congelem completamente.

O ‘ciclone-bomba’ que se abateu sobre os Estados Unidos congelou parcialmente as Cataratas do Niágara, situadas na fronteira entre o Canadá e o estado norte-americano de Nova Iorque, um dos mais afetados pela tempestade ‘Elliot’.

Este cenário de inverno captou a curiosidade dos turistas, que rumaram até ao local, apesar das temperaturas gélidas, tal como poderá verificar na galeria acima.

Contudo, ainda que parcialmente congeladas, a quantidade e movimentação enorme de água nunca permitirá que as cataratas congelem completamente, segundo a página do Niagara Falls USA Tourism.

De notar que, depois de a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, ter apelado à administração norte-americana para que declarasse o noroeste daquele estado como zona de catástrofe, devido à passagem da tempestade ‘Elliot’, que provocou 27 mortos no estado de Nova Iorque, 18 dos quais na cidade de Buffalo, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, prometeu à governadora "os recursos necessários" para superar a situação.

Causada por uma frente fria ártica, a tempestade tem assolado os Estados Unidos, desde a zona dos Grandes Lagos, na fronteira com o Canadá, até ao Rio Bravo, ou Rio Grande, na fronteira com o México, afetando cerca de 60% da população dos EUA.

As temperaturas muito abaixo do normal para a época que atingiram todos os estados norte-americanos deverão manter-se durante a semana, obrigando ao cancelamento de voos e deixando as estradas perigosas para circulação, além de terem levado a um corte de energia em quase 1,7 milhões de casas e empresas.

Em Buffalo e na fronteira com o Canadá, as condições meteorológicas foram as piores da História destas regiões, mantendo-se as cidades completamente cobertas de neve e os aeroportos fechados.

Em várias cidades da costa leste, e até no estado da Flórida, conhecido pela temperatura amena, os termómetros marcaram mínimas que não eram atingidas há várias décadas.

A cidade de Nova Iorque alcançou uma temperatura mínima de -10,5°C no dia de Natal, o que não acontecia desde 1872, enquanto Washington, a capital dos EUA, esteve com -10°C naquele que foi o Natal mais frio desde 1983 e Tampa, na Florida, chegou a marcar temperaturas abaixo de zero, o que não se verificava desde 1966.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Another global environmental conference is far more successful than UN Climate Conference

In Montreal, the 34th Meeting of Parties on the Montreal Protocol (MOP), dealing with ozone layer damage, just ended. This protocol is ratified by all countries in the world and is very successful. Shiming Yang, university lecturer and member of the Leiden University interdisciplinary programme Global Transformations and Government Challenges, explains why.

Hi Shiming, could you tell us a bit more about the MOP?
‘The Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, adopted in 1987, aims to protect the stratospheric ozone layer from chemicals that deplete it. Widely recognized as the most successful multilateral environmental agreement and the only one with universal ratification, it has phased out 98% of ozone-depleting substances (ODS) compared to 1990 levels. In 2016, the Montreal Protocol adopted its latest amendment, the Kigali Amendment, which aimed to phase-down hydrofluorocarbons (HFCs), a potent greenhouse gas (GHG), by more than 80 percent over the next 30 years. This will avoid more than 80 billion metric tons of carbon dioxide equivalent emissions by 2050 – avoiding up to 0.5° Celsius warming by the end of the century – while continuing to protect the ozone layer.’

The adoption of the Kigali Amendment motivated the Montreal Protocol to expand its scope from an ozone treaty to a climate one. Countries and non-state stakeholders are now going beyond “just” protecting the ozone layer to maximize climate benefits achievable under the ozone regime. For example, the MOP-34 passed a decision to incorporate energy efficiency considerations in replenishing the Multilateral Fund, a decision to enhance energy efficiency while facing down HFCs. There were discussions to bring nitrous oxide, a fast-growing ODS but also potent GHG, under the regulation of the Montreal Protocol. Also, the MOP now discusses climate intervention, the “last resort against global warming”, through methods like stratospheric aerosol injection (SAI). SAI aims to cool down the Earth by injecting aerosols into the upper air to reflect solar radiation that otherwise would add heat to the Earth. It is a highly controversial method because of its ethical implications and scientific uncertainty, hence has received little discussion at the UNFCCC.’

Why is the Montreal Protocol so successful?
‘The Montreal Protocol is among the first multilateral environmental agreements that base policy actions on scientific findings. Its Scientific Assessment Panel (SAP) and Technology and Economic Assessment Panel (TEAP) gather experts on atmospheric science and the ODS sector, who produce scientific and technical knowledge in response to parties’ requests and whose reports serve as foundations for relevant negotiations. This institutional design was adopted by the subsequent UNFCCC, but with limited success because it concerns much more sectors, which made it harder to forge consensus and build trust across sectors. Equally important was the North-South cooperation reflected in the Montreal Protocol institutions. It embodies the Common-but-Differentiated Responsibility Principle with the 10-year grace-period for developing countries’ compliance and the Multilateral Fund, replenished every three years by industrialized countries. Commitments are being fulfilled, which enhanced trust among the participants.’

What is the big difference between Montreal Protocol and the UNFCCC COP going on in Egypt right now?
‘I think the biggest focus of this COP is on climate finance, especially on climate adaption and loss and damage, which are the primary concern for an ever-growing number of developing countries, but its urgency is not shared by all industrialized countries. The US$100 billion promised by 2020 failed to deliver, and without credible commitment from the global North, the trust between industrialized and developing countries are unlikely to re-build. Recovering from the pandemic, no country is in great shape to pay for climate actions beyond their borders.’

How do you think that the negotiations on climate change should be approached?
‘I think a sectoral approach would be more efficient than trying to reach an overall agreement on climate change. Sectoral regimes, such as the Montreal Protocol, International Civil Aviation Organization, and the Minamata Convention on Mercury, are in great positions to reduce GHG emission of the corresponding sectors through direct or indirect measures. These regimes are industry-specific and attended by long-time state representatives and sectoral stakeholders. This setting induces trust-building and efficient communication for complex technical issues.’

domingo, 18 de setembro de 2022

Guiness Record - Van Gogh em Drones


A animação mais longa realizada por veículos aéreos não tripulados (UAVs) é de 26 min 19 seg e foi alcançada pelo EFYI Group (China) e apoiada pela Universidade de Tianjin (China) em Tianjin, China, em 18 de dezembro de 2020.
Eles retrataram a vida do artista holandês Vincent Van Gogh - Noite Estrelada .

O uso de fogos de artifício pode trazer além dos riscos à integridade física e a audição daquele que os utiliza, riscos ao meio ambiente (incêndios, libertação de poluentes, perigo e morte de animais selvagens). Em humanos, reações de stresse e crises podem ocorrer em pessoas que têm autismo. Geralmente, estas pessoas se sentem perturbadas com barulhos muito altos. Quanto aos danos na atmosfera, os fogos de artifício causam uma contaminação a curto prazo, levando ao aumento de partículas em suspensão no ar até 7,16%, sendo nocivo a quem respira e aumentando consideravelmente a emissão de partículas de metais, produtos químicos nocivos e outros componentes que podem causar problemas de saúde, incluindo na tiróide. (estudo aqui).

A revista Nature publicou um estudo que aponta a queima de fogos de artifício durante as festividades de Delhi, na Índia, como uma significativa fonte de emissão de ozono (poluente atmosférico secundário) para a atmosfera.

domingo, 4 de setembro de 2022

Os relatórios do IPCC são um farol da ciência climática. Então, por que esses cientistas dizem que precisam parar?


Em 1990, cientistas de todo o mundo publicaram um relatório que explicava que o clima estava mudando e que nós – seres humanos – éramos a causa.
Se continuássemos a poluir, com os negócios de sempre…
"As emissões de gases de efeito estufa resultarão em um provável aumento da temperatura média global de cerca de 1 grau Celsius acima do valor atual até 2025 e 3°C antes do final do próximo século. O aumento não será constante."
Atingimos 1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais em 2017, e 3ºC ainda está nos cartões para este século, dependendo de nossos caminhos de emissões.
Este foi o primeiro dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com a sexta série de relatórios saído este ano.
Mas enquanto o IPCC continua a fornecer os dados e previsões climáticas mais abrangentes, alguns cientistas estão se recusando a participar de avaliações futuras.

E eles estão chamando seus colegas para fazerem o mesmo. Por quê?

No final do ano passado, os cientistas australianos e neozelandeses Tim Smith, Iain White e Bruce Glavovic publicaram um artigo na revista Climate and Development (depois que vários outros jornais os rejeitaram), chamado "The Tragedy of Climate Change Science" .
Eles argumentaram que o IPCC havia feito o trabalho para o qual foi criado há 30 anos, mas que não era mais adequado para o propósito.
Em vez disso, eles apresentaram o caso para os cientistas adotarem uma abordagem mais radical para combater a "falta de ação governamental transformacional":
“A tragédia da ciência da mudança climática é que evidências convincentes são reunidas, novos alertas emitidos, novas instituições estabelecidas e novas metodologias desenvolvidas para corrigir os problemas. ano após ano…”
O "contrato ciência-sociedade foi quebrado", escreveram eles, acrescentando que continuar com a ciência como de costume não era mais sustentável.
Embora o jornal tenha sido bem-sucedido em iniciar um diálogo, quase nove meses depois, eles dizem que ainda há muito mais mudanças que precisam ser feitas.
“Precisamos tomar uma posição que realmente tire o fôlego de líderes políticos e governos sobre o que a comunidade científica da mudança climática está dizendo e está disposta a fazer”, diz o professor Bruce Glavovic, economista, cientista ambiental e planeador ambiental da Universidade Massey, na Nova Zelândia. 

Lições do apartheid

O professor Glavovic cresceu sob o apartheid da África do Sul – um regime brutal e racista que durou, sob o olhar do mundo, até a década de 1990.
O regime recrutou homens brancos para se defender contra o "comunismo e o nacionalismo africano " - uma luta que ele não considerava legítima.
"Eu iria carregar um rifle e potencialmente receber ordens para atirar em negros sul-africanos porque eles eram chamados de terroristas ou estavam envolvidos em desobediência civil?
"Para mim, isso foi abominável."
Como objetor de consciência, a experiência do professor Glavovic na África do Sul lhe ensinou lições importantes sobre a arquitetura do poder e como os sistemas podem ser distorcidos para proteger os poderosos.
“Eu podia ver os limites da lei – você poderia ter uma situação na África do Sul [onde] nós essencialmente tínhamos um estado de direito, mas sustentava um regime ilegítimo”.
Num mundo ideal, os cientistas forneceriam aos governos suas pesquisas e os governos agiriam. O buraco na camada de ozônio, os CFCs e o Protocolo de Montreal são um bom exemplo de onde isso aconteceu mais ou menos.
Mas hoje, novamente sob o olhar do mundo, o estado de direito está ajudando a sustentar as mesmas indústrias que estão causando as mudanças climáticas, diz o professor Glavovic.
Ele argumenta que continuar com os relatórios do IPCC em sua forma atual ajuda a manter uma fachada – criando a ilusão de que as coisas estão sendo feitas, enquanto as indústrias poluidoras e extrativistas continuam, mais ou menos com os negócios de sempre.
"Nossa arquitetura institucional é organizada em torno do lucro de curto prazo que privilegia os ricos e poderosos às custas do Sul Global e da maioria da população mundial", diz ele.
"Então, como você muda isso?"

Frustrações compartilhadas e respostas hostis

Os pesquisadores não pediram carta branca para um ataque contra o IPCC – cada autor tem suas próprias perspectivas sobre como a ciência deve proceder – mas, em geral, eles estão pedindo que a comunidade científica internacional dê um passo atrás e reavalie a melhor forma de fazer ciência do clima. no contexto desse "contrato quebrado".
As respostas ao seu papel foram misturadas.

Apesar de anos de divulgação científica, os pesquisadores dizem que todos os indicadores das mudanças climáticas continuam. ( Fornecido: Clima e Desenvolvimento )

O coautor do relatório, Tim Smith, geógrafo humano e professor de sustentabilidade na Universidade de Sunshine Coast, diz que eles foram contatados em particular por pesquisadores que compartilham suas frustrações e estão procurando um caminho melhor a seguir.
"Tivemos mais pessoas a bordo dizendo: 'compartilho essa frustração e é algo sobre o qual precisamos discutir'", diz o professor Smith.
Mas eles também tiveram seus críticos. Quando o artigo foi publicado pela primeira vez, explodiu no Twitter.
"Houve algumas respostas muito hostis e negativas. Muitas delas vieram da comunidade científica", diz o professor Smith.
"Mas, como eu disse, este [artigo] não foi um ataque à comunidade científica ou ao trabalho incrível que eles têm feito. Acho que, infelizmente, as pessoas ganham as manchetes."
Embora elogiando sua "coragem para desencadear essa discussão muito importante", outros cientistas responderam em um artigo de acompanhamento no mesmo jornal que mais pesquisas, não menos, eram necessárias para "abordar essas estruturas de poder".
Eles escreveram:
"Discordamos que o contrato ciência-sociedade esteja quebrado e que uma moratória na pesquisa sobre mudanças climáticas seja uma solução sustentável ou significativa".

Parar o IPCC seria uma 'perda significativa'

Mark Howden, diretor do Instituto de Soluções para Clima, Energia e Desastres da Universidade Nacional Australiana, é outro crítico do artigo.
O professor Howden está envolvido com o IPCC desde 1991.
"Estive envolvido no segundo, terceiro, quarto, quinto e agora sexto relatórios de avaliação [do IPCC]", diz ele.
"Acho que sou a única pessoa viva, ou a única pessoa em ponto final, que realmente fez tudo isso."

Mark Howden é "provavelmente a única pessoa viva" a ter trabalhado em cinco relatórios do IPCC

O professor Howden diz que ainda há uma ciência realmente crítica sendo feita, especialmente em torno dos impactos e adaptação do clima, redução de emissões, desenvolvimento sustentável e equitativo e criação de sistemas de energia robustos.
Se essa pesquisa parasse, seria uma "perda significativa", diz ele.
"A perspectiva de cientistas entrarem em greve porque não estão sendo ouvidos não é uma grande ideia.
"Acho que o argumento é bastante claro de que os ataques científicos anteriores foram amplamente ignorados pelo governo."
Mas ele também não está descartando as frustrações dos cientistas.
Em vez disso, ele diz que o caminho a seguir é que os cientistas se envolvam mais com os formuladores de políticas e que eles descubram como intervir de "formas construtivas".
"Ser cientista e comunicador hoje em dia é um papel muito complexo, principalmente se você também se envolver com a política", diz ele.
"Da mesma forma, um formulador de políticas de alto nível lidando com as mudanças climáticas... esse é um papel extraordinariamente complexo, principalmente quando você tem um ambiente político muito intervencionista.
"Então eu acho que compreensão e respeito são cruciais para ter um relacionamento mais produtivo."
— Que opções nos restam?
Mas o professor Smith diz que essa abordagem foi feita.
"As pessoas dizem 'bem, você precisa de melhores parcerias entre governos e sociedade', mas nós tentamos isso também. Então, que opções nos restam?"
O processo de relatório do IPCC se move em ciclos. Estamos no final do sexto ciclo, que provavelmente terminará no início de 2023.
O professor Smith diz que entende que a ideia de uma greve é ​​intragável e que adoraria que alguém tivesse uma ideia melhor, mas que não há tempo para esperar e ver o que acontece.
"Precisamos de um sétimo [ciclo de avaliação]? Vamos esperar mais sete anos para ouvir novamente como as coisas são terríveis?
"Nós simplesmente não temos tempo para isso. Precisamos de uma ação radical e transformadora agora.
"Precisamos apenas fazer uma pausa no que estamos fazendo. Não tentamos antes. Pode não funcionar, mas talvez funcione."
O professor Howden diz que não é contra os cientistas serem ativistas, desde que tenham certeza de que é isso que estão fazendo.
Mas ele acha que os cientistas climáticos e o IPCC já conseguiram grandes coisas e podem conseguir ainda mais continuando a fornecer dados de uma maneira "não prescritiva de políticas".
"Acho que há um grande papel para alguns cientistas se envolverem com o público e no processo político. Mas de uma forma de conselheiro confiável.
“Eu não acho que a comunidade científica deveria estar lá fazendo lobby, a menos que eles estejam deliberadamente se rotulando como lobistas”.
Mas o professor Glavovic diz que a ideia de que a ciência é um empreendimento completamente objetivo e sem valores é um mito.
"A ciência é um empreendimento onde as escolhas são feitas sobre as questões que exploramos, as metodologias que usamos", diz ele.
"Você pode ter ciência socialmente relevante e significativa conduzida com paixão e compromisso de uma maneira robusta, replicável e significativa... isso não reduz o mérito e o valor da ciência."
Os autores não pretendem encerrar completamente o IPCC. Em vez disso, eles dizem que seu artigo foi concebido como uma “provocação” – para iniciar a conversa a fim de reimaginar como o IPCC pode ter o maior impacto.
No sentido de iniciar uma conversa, quase um ano após a publicação de seu artigo, é justo dizer que eles conseguiram e que a conversa está em andamento.
Mas o professor Glavovic diz que serão necessárias ações radicais da comunidade científica para fazer as grandes mudanças necessárias para chegar aos formuladores de políticas.
"Não tenho ilusões - não serão necessários três homens brancos para fazer a diferença nisso - não somos tão imodestos e arrogantes a ponto de assumir que poderíamos ser uma voz para a comunidade científica global da mudança climática.
“Gostaria de ver mulheres e homens do Sul Global e diversos cenários liderando uma carga que realmente mobilize uma massa crítica da comunidade científica das mudanças climáticas”.
Quanto a controlar as mudanças climáticas, ele diz que exigirá uma ação radical de todos.
"Vai exigir mobilização e ação em várias frentes e haverá alguns momentos cruciais de destaque, que você só perceberá com o benefício da retrospectiva.
"É o Rosa Parks - recusando-se a descer de um assento num autocarro."

Fonte: ABC

Saber mais:

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Weabinar- Governing Climate Change and Marine Biodiversity Loss


Governing Climate Change and Marine Biodiversity Loss Can We Walk and Chew Gum at the Same Time featuring Professor Cymie R. Payne, Rutgers University School of Environmental and Biological Sciences and School of Law, as a guest speaker, with Prof. Victor Flatt and Aubin Nzaou-Kongo (University of Houston Law Center). Environment Energy and Natural Resources Center, University of Houston Law Center (Houston, Texas, U.S.) February 17, 2022. 
Curricula vitae de Cymie Payne

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

COP26: promessas de líderes não chegam a salas de negociação, queixam-se países mais pobres

O 1.º dia da segunda semana da cimeira do clima das Nações Unidas (COP26) tem como tema principal o financiamento para a adaptação dos países mais pobres. O ministro do Ambiente do Gana e o seu homólogo do Quénia fizeram um apelo para que se ponha "dinheiro na mesa" que garanta a adaptação e mitigação dos efeitos da mudança climática

                                    


Representantes de alguns dos países com menos dinheiro para enfrentar os efeitos das alterações climáticas queixaram-se esta segunda-feira de que os compromissos dos líderes mundiais não estão a ter efeito nas negociações concretas da cimeira do clima das Nações Unidas (COP26).

Num dia em que o financiamento para a adaptação dos países mais pobres é um dos temas principais em discussão, o ministro do Ambiente do Gana, Kwaku Afryie, alertou que "é muito desencorajador verificar que o objetivo global [do financiamento para adaptação às alterações climáticas] ainda não está operacional nas salas onde decorrem as negociações".

"Os negociadores africanos estão a ter muitas dificuldades em promover esta agenda. O que foi dito nas reuniões de alto nível, pelos países do G20 é muito diferente do que se está a passar nas negociações", declarou numa reunião ministerial sobre adaptação no âmbito da 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorre em Glasgow, na Escócia.

O seu homólogo do Quénia, Keriako Tobiko, encerrou o encontro de mais de duas horas no mesmo sentido, com um apelo concreto aos países mais ricos: "Ponham o dinheiro na mesa", referindo-se aos 100 mil milhões de dólares anuais que as nações mais desenvolvidas se comprometeram a contribuir anualmente para financiamento climático e que terá sido cumprida a cerca de 80 por cento.

Além da quantia prometida, reiterou o apelo que é defendido pelas Nações Unidas, para que metade do financiamento climático aos países menos desenvolvidos seja garantida para adaptação e outra metade para mitigação dos efeitos da mudança climática, em medidas que visam reduzir emissões.

"Já houve demasiadas 'workshops', demasiados retiros, demasiadas conferências. Diz-se sempre que é tempo de agir agora, que chegou a altura... mas na verdade, já não há tempo", declarou.

Keriako Tobiko citou diversas declarações feitas na cimeira de líderes mundiais na semana passada, incluída na COP26, prometendo ação concreta e compromissos de financiamento climático para adaptação, mas salientou que "infelizmente", o que se tem visto é uma prática diferente.

A tónica do discurso, várias vezes reiterada, é que os países que menos emitem são os que mais sofrem: emitem pouco porque são pequenos ou porque as suas economias não são tão desenvolvidas, sofrem mais porque os seus territórios são muito vulneráveis - especialmente no caso de pequenas nações insulares sujeitas à subida dos níveis dos oceanos - ou porque não têm dinheiro próprio para tornar o território e a população resistentes a esses efeitos.

O presidente do Banco de Desenvolvimento Africano, Akinwumi Adesina, anunciou que aquela instituição lançou um programa de aceleração da adaptação no continente, que recebe apenas "03% dos fundos para adaptação" disponíveis e que perde "sete a quinze mil milhões de dólares por ano, um valor que pode chegar a 50 mil milhões em 2040" com os "efeitos devastadores" das alterações climáticas, que incluem seca, inundações e pragas de insetos.

A instituição financeira disponibiliza 12,5 mil milhões a aplicar em áreas como o apoio à agricultura - "mil milhões irão para alimentar 200 milhões de pessoas" -, educação e habitação, mas Adesina pediu aos outros países que contribuam com outro tanto para tornar o programa uma realidade.

A secretária-geral adjunta das Nações Unidas, Amina Mohammed, apontou que há uma "lacuna considerável" entre as necessidades e a realidade no que toca às verbas para adaptação, com "pouco mais de 20 mil milhões de dólares disponíveis, uma fração dos 300 mil milhões que se espera serem necessários" globalmente em 2030.

A enviada especial das Maldivas à COP26, Sabra Nordeen, declarou que "quando o mundo consegue angariar biliões de dólares para responder à pandemia de covid-19 em 18 meses, é de questionar o ritmo e o compromisso real com o financiamento climático e a adaptação".

O seu país, referiu "é um exemplo dos mais vulneráveis", obrigado a viver num mundo em que o aumento da temperatura global já atinge mais de um grau em relação à era pré-industrial, o que ameaça a sobrevivência das Maldivas, um arquipélago conhecido pelas praias paradisíacas, mas que se vê ameaçado pela degradação dos recifes de corais que "durante séculos o protegeram"

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Protocolo de Montreal (ODS)




O Protocolo de Montreal é um acordo global que visa proteger a camada de ozono estratosférico através da eliminação progressiva dos químicos que a empobrecem. Esta eliminação progressiva abrange tanto a produção como o consumo de substâncias que enfraquecem a camada de ozono (ODS - ozone depleting substances).

Tendo em conta que as ODS são igualmente gases com efeito de estufa com elevado potencial de aquecimento, esta eliminação progressiva é também crítica para a atenuação das alterações climáticas. Além disso, não obstante o facto de os hidrofluorocarbonetos (HFC) não empobrecerem a camada de ozono, o protocolo visa reduzir progressivamente a sua produção e consumo para evitar que as ODS sejam substituídas pelos HFC, que contribuem significativamente para as alterações climáticas.

O Protocolo de Montreal foi acordado em 1987, entrou em vigor em 1989 e foi alterado diversas vezes. Na sua alteração mais recente, a emenda de Quigali apela à redução progressiva dos HFC.

As emissões de HFC estão abrangidas pelo Acordo de Paris, aprovado pela Decisão (UE) 2016/1841. Assim, o Protocolo de Montreal ajuda a cumprir o objetivo de manter o aumento da temperatura global bastante abaixo dos 2 ºC acima dos níveis pré-industriais e a prosseguir esforços para limitar ainda mais o aumento da temperatura a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais.

Saber mais:

HFC: substituto do CFC, gás também traz impactos


O HFC é um gás de efeito estufa, que tem contribuído para a intensificação do aquecimento global, trazendo problemas graves ao planeta

Os hidrofluorcarbonetos (HFCs) são gases do efeito estufa fluorados artificiais que rapidamente se acumulam na atmosfera. Eles começaram a ser usados como substitutos dos CFCs para aparelhos de ar condicionado, refrigeração, retardadores de chamas, aerossóis e solventes. Apesar de representarem uma pequena fração dos atuais gases estufa, o impacto é particularmente forte no aquecimento atmosférico e, se não forem controlados, esses poluentes climáticos de vida curta poderão ser responsáveis por quase 20% da poluição climática até 2050.

O efeito estufa é um processo que faz com que o planeta se mantenha aquecido e, dessa forma, possibilita a existência de vida e não apenas de geleiras na Terra. Mas o grande perigo está na aceleração desse processo, provocado pela atividade humana. Atividades como o desmatamento de florestas e a emissão de gases de efeito estufa têm sido determinantes no desequilíbrio do balanço de energia do sistema atmosférico da Terra, gerando maior retenção de energia e o aquecimento global. O HFC faz parte do grupo de gases estufa libertados pela ação antrópica que aceleram o aumento na temperatura, embora seja usado para amenizar o impacto do CFC sobre a camada de ozono.

Quando se trata de mudanças climáticas, o dióxido de carbono é o grande vilão da história. Mas a emissão de outros gases, como é o caso do clorofluorcaboneto (CFC), também é responsável por tal aceleramento, uma vez que contribui para a destruição da camada de ozônio. Por conta disso, em 16 de setembro de 1987, foi assinado o Protocolo de Montreal – onde ficou acordado o banimento gradativo do CFC e sua substituição por outros gases que não agredissem a camada de ozônio.

A partir desse novo cenário, o mercado teve de se adaptar à nova realidade e buscar alternativas. Passou-se a usar os clorofluorcarbonetos (HCFCs), que, assim como o CFC, são usados para refrigeração (freezers de supermercado, geladeiras, frigoríficos, etc.) e são bem menos nocivos à camada de ozônio, porém ainda causam danos. Posteriormente, os HCFCs foram substituídos pelos hidrofluorcarbonetos, os HFCs, que são livres de cloro e por isso não prejudicam a camada de ozonio.

Porém, o que parecia ser uma solução acabou, com o tempo, mostrando limitações. Os gases HFC interagem com os outros gases de efeito estufa, contribuindo para o desequilíbrio do aquecimento global.

Hidrofluorcarbonetos (HFC)

O lançamento dos hidrofluorcarbonetos na atmosfera ao longo da segunda metade do século XX foi um dos motivos do aumento desproporcional da temperatura da Terra (como atesta o vídeo ao fim da matéria). O potencial individual e coletivo dos HFCs para contribuir com mudanças climáticas na superfície terrestre pode ser conferido pela sua eficiência radioativa, força radioativa e/ou Potencial de Aquecimento Global (GWP, na sigla em inglês) – que é muito maior que o do dióxido de carbono.

Pesquisadores alertam que o aumento do uso do gás HFC pode complicar o problema em relação ao aquecimento global, gerando uma variedade de impactos potencialmente graves, como o derretimento de geleiras, elevação do nível dos mares e oceanos, prejuízo à agricultura, desertificação de áreas naturais, aumento de desastres naturais como furacões, tufões e ciclones, entre outros diversos entraves.

A expectativa é a de que, só nos Estados Unidos, o uso do HFC dobre até 2020 e triplique em 2030. Caso não haja mudanças na emissão desse gás, este será responsável por 20% das emissões globais de efeito estufa até a metade do século XXI. Isso significaria que a meta de limitar o aumento da temperatura na Terra 2°C acima dos índices do começo do século XX (como os cientistas recomendam) seria impossível de ser atingida.

Os gases HFC também podem influir na temperatura da estratosfera, atmosfera e troposfera, e são responsáveis por um aumento na temperatura da tropopausa tropical (camada intermediária entre estratosfera e a troposfera) de 0.4 Kelvin (K).

Se, por um lado, o buraco na camada de ozônio está diminuindo desde o Protocolo de Montreal, a temperatura do planeta tem aumentado descontroladamente nas últimas décadas por conta (entre outros fatores) da emissão dos chamados hidrocarbonetos halogenados (entre eles o CFC e o HFC).

Então, para erradicar este problema, foi fechado um acordo com quase 200 países em outubro de 2016, em Quigali, capital de Ruanda, que visa a eliminação progressiva dos hidrofluorocarbonos (HFC).

O calendário adotado prevê que um primeiro grupo de países, os chamados desenvolvidos, reduza sua produção e seu consumo de HFC em 10% antes do final de 2019 em relação aos níveis de 2011-2013, e 85% antes de 2036.

Um segundo grupo de países em vias de desenvolvimento, entre eles a China – o maior produtor mundial de HFC -, a África do Sul e o Brasil se comprometeram a iniciar sua transição em 2024. Deverão alcançar uma redução de 10% em relação aos níveis de 2020-2022 para 2029 e de 80% para 2045.

Um terceiro grupo de países em desenvolvimento, incluindo Índia, Paquistão, Irã e Iraque terá redução de 10% em relação ao período 2024-2026 em 2032 e de 85% em 2047.

Como os hidrofluorcarbonetos formam parte dos chamados poluentes climáticos de vida curta e permanecem na atmosfera por entre cinco e dez anos, especialistas acreditam que sua erradicação terá efeitos imediatos na redução do aquecimento global. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o acordo fechado em Quigali evitará um aumento global da temperatura até o final do século XXI de até 0,5°C.

Alternativas

Fica claro então que o gás HFC e outros gases que contribuem para o aquecimento global são motivo de preocupação, devendo-se equilibrar as necessidades humanas com a segurança ambiental.

Segundo Paula Tejón Carbajal, da ONG Greenpeace, o Acordo de Quigali só terá êxito se a comunidade internacional optar por soluções de mudança que preservem o meio ambiente.

Um dos resultados desse acordo foi uma confirmação de certos países participantes de financiarem um compromisso para essa transição. Além disso, diversas empresas europeias substituíram o uso de HFC por hidrocarbonetos de baixo potencial estufa, em especial o ciclopentano e o isobutano.

Video

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Fogo-de-artifício: A mais vistosa ameaça para o clima e a saúde

Para que todos os dias avancemos com um bom passo:
Nem tudo o que é belo é bom.
Talvez interiorizando que é nefasto, passemos a deixar de considerar belo.
Falo do fogo-de-artifício. Deslumbrante. Maléfico. O futuro de festividades já é hoje. Vamos reduzir ao mínimo o fogo de artifício...


Aqui está porquê (Fonte: DN, 2019):

De Norte a Sul do país, mais as ilhas, milhares de pessoas aguardam por aquela que é considerada a melhor diversão do ano. Na passagem de 2019 para 2020, no Terreiro do Paço, em Lisboa, estão prometidos 15 minutos de fogo-de-artifício. Cacilhas junta-se à grande festa do réveillon do Tejo com dez minutos de espetáculo. Na Avenida dos Aliados, Porto, estão anunciados 16 minutos, e na Praça do Forte, Figueira da Foz, outros 10 minutos; tantos quantos os esperados na Praia dos Pescadores, Albufeira. Já na Madeira, a festa de pirotecnia que celebra a chegada do novo ano terá a duração de oito minutos, a partir de 38 postos de lançamento de fogo em terra e no mar.

Muitos deliram com o momento, e há quem acredite até que a ausência de fogo será o prenúncio de um mau ano. Recorde-se, por exemplo, a contestação dos portuenses na passagem de 1999 para 2000 na Cidade Invicta, quando o fogo-de-artifício previsto para a Avenida dos Aliados teimou em não sair na sequência de um problema técnico. Um réveillon que ficou cunhado como um fiasco. Contudo, esta é uma festa que pode custar caro à nossa saúde.

Os fogos-de-artifício causam uma elevada poluição atmosférica num curto período de tempo, deixando partículas de metal, toxinas perigosas, produtos químicos nocivos e fumo a pairar no ar. Algumas destas toxinas nunca chegam a decompor-se completamente, permanecendo no ambiente e envenenando tudo o que contactam. As principais consequências para a saúde humana, decorrentes da proliferação destas partículas, principalmente as finas (com menos de 2,5 milionésimos de metro), são as doenças respiratórias e cardiovasculares, englobando principalmente ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVC), segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

Num curto período de tempo, os fogos-de-artifício espalham cerca de cinco mil toneladas de partículas finas, responsáveis por aproximadamente 400 mil mortes por ano na Europa, de acordo com estimativas atuais. Apenas na Alemanha, a poluição proveniente deste espetáculo equivale a cerca de um quinto das partículas finas emitidas nas ruas, principalmente pelos carros.

Esta situação pode ser tão perigosa que os médicos recomendam o uso de máscaras, para proteger da poluição. "Respirar partículas finas põe em perigo a saúde das pessoas, com repercussões que vão desde deficiências temporárias do sistema respiratório a uma maior necessidade de medicamentos para asmáticos com doenças respiratórias ou cardiovasculares graves", segundo a agência ambiental alemã.

Os fogos-de-artifício causam uma elevada poluição atmosférica num curto período de tempo, deixando partículas de metal, toxinas perigosas, produtos químicos nocivos e fumo a pairar no ar

Espetacular, mas tóxico
Existem exemplos bem documentados, como é o caso da Festa de São João, em Girona (Espanha), ou na Índia, aquando do festival das luzes (Diwali), que causa uma poluição atmosférica muito pior do que o registado em Pequim nos piores dias. E, claro, o que sobe tem de descer. O remanescente que cai no chão contém resíduos de propulsores e corantes não queimados, enquanto as partículas expelidas no ar acabam por se depositar nos solos ou são levadas pelas chuvas, em direção aos lagos e rios, onde as infiltrações já foram associadas a problemas de tiroide.

Francisco Ferreira, da associação Zero, corrobora este problema. Em declarações ao Diário de Notícias, enfatizou que o fogo-de-artifício tem efeitos particularmente nocivos na qualidade do ar, com repercussões dramáticas para a saúde. Os níveis de partículas finas na atmosfera chegam a triplicar em épocas festivas. "Há estudos que relacionam a exposição a estas partículas, mesmo que durante curtos períodos, como nos espetáculos de pirotecnia, a maiores índices de mortalidade e morbidade."

Importante ainda considerar as condições meteorológicas, acautela. "Se houver pouco vento, a dispersão das partículas será menor, logo, os valores de contaminação no ar serão mais elevados", enfatiza. De acordo com o ambientalista, os maiores riscos associados ao fogo-de-artifício são mesmo para a saúde pública. As partículas maiores permanecem nas vias respiratórias superiores, não sendo tão problemáticas. Já as finas, chegam aos pulmões, estando associadas a graves problemas de saúde, adverte.

Depois, há ainda a influência na camada do ozono e a poluição sonora, mas esta, segundo Francisco Ferreira, é quase negligenciável. Relativamente à última, destaca, o impacto do ruído não é considerável, uma vez que "as pessoas já estão à espera dele, e o nosso organismo reage de forma controlada, em tudo diferente quando acontece uma explosão não anunciada".

"Se houver pouco vento, a dispersão das partículas será menor, logo, os valores de contaminação no ar serão mais elevados", diz Francisco Ferreira, da Zero

História: Da pólvora ao advento da química moderna
O início do uso de pirotecnia não é fácil de precisar, mas pensa-se que tenha acontecido na Ásia, na Pré-História. Mas, seguramente, há provas de que a pólvora foi fabricada pela primeira vez na China há cerca de 2000 anos, quando um alquimista juntou acidentalmente salitre (nitrato de potássio) com enxofre e carvão; mistura que ficaria conhecida como pólvora ("fogo químico"). Já o fogo-de-artifício data de alguns milhares de anos a.C., numa época muito anterior à descoberta da pólvora. Terá surgido quando se descobriu que canas de bambu ainda verdes explodiam em contacto com o fogo. De início foi o susto, mas os chineses acostumaram-se e tomaram-lhe o gosto. Começaram a atirar caules verdes de bambu (pao chuck) para as fogueiras em épocas festivas. O objetivo? Afugentar os maus espíritos. Dois mil anos depois, observaram que ao rechear as canas de bambu com o já conhecido "fogo químico", o estrondo resultante era muito maior. Foram os primeiros fogos de artificio a serem fabricados como hoje os conhecemos.

O domínio da pirotecnia, circunscrito à China, e mais tarde alastrado à Índia, chegou à Europa através dos árabes e gregos. Posteriormente, os alquimistas islâmicos adicionaram sais oxidantes de potássio, e ainda magnésio e alumínio. Metais que conferiam um brilho nunca antes visto e um variado número de efeitos luminosos. Com o advento da química moderna e a descoberta das suas leis, muitos elementos foram estudados, assim como as suas reações. De lá para cá, diversos efeitos visuais foram acrescentados ao fogo de artifício através da mistura de diferentes substâncias, como:

Nitrato + carbonato ou sulfato de estrôncio = vermelho

Nitrato + clorato ou carbonato de bário = verde

Oxalato ou carbonato de sódio = amarelo

Carbonato ou sulfeto de cobre + cloreto mercuroso (calomenano) = azul

Apesar de existirem vários tipos de fogo, e os seus efeitos dependerem da composição ou estrutura da peça, todos são construídos com fundamento num mesmo princípio: armazenar o máximo de energia num mínimo espaço.

Queima de fogos de artifício: espetáculo não compensa danos



A queima de fogos de artifício é costume tradicional em muitos países. Apesar dessa prática ser apreciada por algumas pessoas (principalmente em épocas festivas) ela pode causar danos irreversíveis aos animais, ambiente e pessoas, podendo ser entendida como uma forma de poluição atmosférica e sonora (para saber mais sobre esse tema leia a matéria: "Poluição sonora: o que é e como evitá-la"). Muito se fala sobre os danos causados pelo barulho dos fogos de artifício. Mas o que nem todos imaginam é que, além da poluição sonora, a queima de fogos de artifício emite compostos poluentes para a atmosfera, o que também a caracteriza como uma forma de poluição do ar. Para saber mais sobre esse tema, dê uma olhada na matéria: "O que é poluição do ar? Conheça causas e tipos".

História
Segundo a Cartilha de Segurança do Consumidor de Fogos de Artifício, acredita-se que os fogos tiveram sua origem na China, há mais de 2 mil anos. Naquela época, o costume dos chineses era de utilizar o chamado “fogo químico” na ponta de seus bambus, com o intuito de afastar todos os espíritos malignos durante a passagem do ano.

Os fogos de artifício foram depois levados até a Europa pelos árabes, passando a ser utilizados na Itália, no final do século XIV, em festividades de caráter cívico e/ou religioso. Desde então, há relatos da sua utilização para diversas finalidades, principalmente em períodos de comemorações.

Brasil
No Brasil - o segundo maior produtor mundial de fogos de artifício - os fogos são classificados em quatro categorias (A, B, C e D), de acordo com a quantidade de pólvora, que reflete no nível do estampido (som forte). Somente o tipo A não produz estampido, e, provavelmente por isso, não é tão popular entre os consumidores.

A virada do ano, o Natal e outras festividades católicas de junho (principalmente na Bahia) são as épocas em que o uso de fogos de artifício é mais intenso. Nesses períodos, as entradas em hospitais ocasionadas por acidentes decorrentes da queima de fogos de artifício é mais frequente.

Animais
Os principais problemas causados a animais em decorrência do barulho de fogos de artifício são reações comportamentais como stress e ansiedade. Há casos que se resolvem apenas com o uso de sedativos ou podem culminar em danos físicos e até morte.

Entretanto, como na maioria das vezes são utilizados no período noturno, os efeitos causados aos animais (principalmente os silvestres) são difíceis de serem percebidos e quantificados, o que indica que os impactos nocivos dessa atividade nos animais são subnotificados.

O barulho, associado ao medo, desencadeia respostas fisiológicas de estresse, por meio da ativação do sistema neuroendócrino, que resulta em uma resposta de luta ou fuga, observada por meio do aumento da frequência cardíaca, vasoconstrição periférica, dilatação da pupila, piloereção e alterações no metabolismo da glicose.

O animal com medo procura se afastar do barulho tentando-se esconder dentro ou embaixo dos móveis ou espaços apertados; pode tentar fugir pela janela, cavar buracos, tornar-se agressivo; apresentar salivação excessiva, respiração ofegante, diarreia temporária; urinar ou defecar involuntariamente. As aves podem abandonar seu ninho em revoada. Durante a tentativa de fuga do barulho causado pelos fogos de artifício podem acontecer acidentes como atropelamentos, quedas, colisões, ataque epilético, desnorteamento, surdez, ataque cardíaco (principalmente em aves) ou o desaparecimento do animal, que pode percorrer longas distâncias em estado de pânico e não conseguir retornar ao seu local de origem.

Apesar da queima de fogos de artifício ser esporádica, a preocupação com os danos provocados nos animais é legítima, pois o medo ocasionado pelo barulho dos fogos de artifício pode desencadear medos generalizadas para outros ruídos de tipos semelhantes, como o som de um trovão.

Pessoas
Em humanos, a queima de fogos de artifícios pode causar o amputação de membros, stress nas crianças, incómodo nas pessoas em leitos de hospitais, morte, ataque epilético, desnorteamento, surdez e ataque cardíaco.
O barulho de fogos de artifício é nocivo principalmente para as pessoas com o Transtorno do Espectro do Autismo, que podem ficar extremamente incomodadas.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, mais de 7 mil pessoas sofreram lesões decorrentes do uso de fogos de artifício no período de 2007 a 2017; sendo 70% queimaduras; 20% lesões com lacerações e cortes; e 10% amputações de membros superiores, lesões de córnea, lesão auditiva e perda de visão e de audição. No mesmo período, foram registradas 96 mortes em todo o Brasil.

Atmosfera
Um estudo realizado na Índia analisou a poluição atmosférica causada pela queima de fogos de artifício. De acordo com o estudo, a atividade pode causar uma contaminação do ar intensa a curto prazo. No estudo, a concentração de contaminantes atmosféricos como SPM (partículas em suspensão) foi monitorada durante seis dias consecutivos em Salkia, uma zona densamente povoada, perto de Calcutá, na Índia. Os resultados mostraram que, após a finalização da queima dos fogos de artifício o nível de partículas foi de até 7,16% maior para determinado poluente. Segundo o estudo, esse e outros aumentos de outros tipos de poluentes emitidos pela queima de fogos de artifício tem significativo impacto sobre a saúde dos habitantes da região. Por meio de uma simulação, o índice de risco relativo de mortalidade e morbidade nos indivíduos expostos foi alto. E a conclusão mostrou que, para diminuir os riscos de prejuízo à saúde humana, é necessário haver controle sobre a prática da queima de fogos de artifício.

A revista Nature publicou um estudo que aponta a queima de fogos de artifício durante as festividades de Delhi, na Índia, como uma significativa fonte de emissão de ozónio (poluente atmosférico secundário) para a atmosfera.

Proibição e Regras
Para lançar foguetes é obrigatório uma licença especial de ruído, emitida pela câmara municipal e uma licença do comando da GNR.
Algumas cidades brasileiras proíbem o uso de fogos de artifício que produzem barulho. Outras, entretanto, apenas possuem projetos ainda não aprovados sobre a proibição de fogos de artifícios barulhentos.
Entretanto, vale a pena ressaltar que não é só o barulho de fogos de artifícios que provoca danos socioambientais de grande importância, a própria queima emite poluentes significativos. Esse fato chama atenção para a necessidade de uma discussão a respeito da proibição completa do uso recreacional dos fogos de artifício como um todo, não apenas dos que produzem barulho.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Lisboa é a sexta cidade europeia mais poluída pelos navios de cruzeiro

Fonte e notícia aqui


Lisboa foi a cidade europeia que mais navios de cruzeiro recebeu em 2017. No entanto, um indicador que pode ser bom para a economia da capital acaba por ter um retorno negativo para o ambiente. O alerta vem num estudo da Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E) que coloca a Lisboa em sexto lugar entre as cidades europeias mais expostas à poluição por navios de cruzeiro — depois de Barcelona, Palma de Maiorca, Veneza, Civitavecchia (Roma) e Southampton.

Esta foi uma das conclusões do estudo, agora divulgado pela associação ambientalista Zero, que avaliou as emissões de diferentes poluentes provenientes de 203 navios de cruzeiro de luxo de 50 portos europeus. Em 2017, passaram por Lisboa 115 navios de cruzeiro, fazendo do porto da capital o mais concorrido a nível europeu, seguindo-se Barcelona e Palma de Maiorca. Estes navios estiveram estacionados 7953 horas. O porto de Lisboa foi, assim, o terceiro maior porto europeu em termos de horas totais de estacionamento, depois de Barcelona e Veneza. 

De acordo com as contas apresentadas no estudo, os navios de cruzeiro que passaram pelo capital libertaram 3,5 vezes mais óxidos de enxofre — um gás que causa problemas respiratórios, dores de cabeça e indisposição — que os 375 mil automóveis que diariamente circulam em Lisboa. Quanto aos óxidos de azoto — que têm sobretudo origem na queima de combustíveis fósseis (na indústria ou transportes) e estão também na origem de outros poluentes, como as partículas finas e o ozono (ao nível do solo) —, os navios de cruzeiro emitiram quase o equivalente a um quinto dos carros que circulam na cidade.

“Os navios de cruzeiro de luxo são verdadeiras cidades flutuantes alimentadas por alguns dos combustíveis mais poluentes. As cidades estão a restringir a circulação dos veículos a gasóleo, mais poluentes, mas as autoridades locais estão a dar total liberdade às empresas de cruzeiros para continuarem a emitir gases e partículas tóxicas que causam danos imensuráveis na saúde, o que é inaceitável”, nota Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero e professor na área da qualidade do ar Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa. 

Atingir emissões zero

O estudo apresenta ainda resultados em termos nacionais, que colocam Portugal em sexto lugar entre os países europeus mais expostos à poluição por óxidos de enxofre dos navios de cruzeiro, depois de Espanha, Itália, Grécia, França e Noruega. Será fácil de perceber porque estão estes países mais expostos a esta fonte de poluição — são grandes destinos turísticos. Mas também porque, explica a Zero, “têm limites de enxofre nos combustíveis navais menos rigorosos, permitindo assim que os navios de cruzeiro queimem combustível mais sulfuroso (e mais poluente) ao longo dos seus litorais”. 

A associação ambientalista comparou ainda os dados do estudo da T&E com o inventário oficial de emissões de óxidos de enxofre da Agência Portuguesa do Ambiente, referentes a 2017, concluindo que as emissões dos navios de cruzeiro na costa portuguesa foram 86 vezes superiores às emissões dos automóveis que circulam em Portugal (5100 toneladas em relação a 59 toneladas, respectivamente). No total, este poluente libertado pelos navios representa mais de 10% do total das emissões nacionais de óxidos de enxofre (5100 toneladas em relação a 47500 toneladas), diz a Zero em comunicado.

Se olharmos para o contexto europeu, o cenário é semelhante: as emissões de óxidos de azoto dos navios de cruzeiro equivalem a cerca de 15% do total que a frota de automóveis emite num ano, refere o estudo.

“Precisamos de fazer a transição para combustíveis mais limpos de forma voluntária, e que os governos intervenham e imponham, desde já, limites restritivos de emissão nas suas zonas costeiras, e no médio prazo, limites zero nos portos nacionais”, nota Francisco Ferreira. Para a Zero, a Europa “deve implementar, o mais rapidamente possível, um regulamento, a aplicar em todos os portos europeus, com planos para se atingirem limites de emissão zero nos navios, o que pode ser conseguido através da electrificação associada ao armazenamento de energia proveniente de fontes renováveis”.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

COP21 – A Cimeira de Paris que quer reformular o Protocolo de Quioto



A 21ª Cimeira do Clima – COP21 realizou-se em dezembro de 2015, em Paris, e teve como principal objetivo estabelecer um novo acordo internacional sobre o clima, para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, o aquecimento global e em consequência limitar o aumento da temperatura global em 2º C até 2100.

A resposta política internacional às alterações climáticas começou na Cimeira da Terra no Rio em 1992, durante a qual se definiu o Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Esta convenção estabeleceu um quadro de ação destinado a estabilizar as concentrações atmosféricas de gases com efeito estufa (GEE) para evitar “uma interferência antropogénica perigosa com o sistema climático.” A UNFCCC, que entrou em vigor em 21 de março de 1994, tem agora uma adesão quase universal de 195 nações.

O principal objetivo da Conference of Parties (COP) consistiu em ​​rever a implementação da Convenção. A primeira COP teve lugar em Berlim em 1995 e desde então nos encontros significativos incluem-se a COP3, onde foi adotado o Protocolo de Quioto, COP11, onde foi produzido o Plano de Ação de Montreal, COP15 em Copenhaga, onde um acordo para o sucesso do Protocolo de Quioto não foi, infelizmente, realizado, e COP17 em Durban, onde o Fundo Climático Verde foi criado.

Em 2014, a COP20 realizada em Lima atraiu mais de 15 mil delegados oficiais, e os negociadores concluíram as negociações com o ‘Lima Call For Climate Action‘, um documento que estabelece as bases para um novo acordo climático global.

O que é a COP21 e qual o seu objetivo?
Em 2015, a COP21, também conhecida como a Cimeira do Clima de Paris, pela primeira vez em mais de 20 anos de negociações das Nações Unidas, alcançou um acordo juridicamente vinculativo e universal sobre o clima, com o objectivo de manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C. O limite da subida de temperatura média do planeta de 2 ºC prende-se com o facto de que, se ultrapassado, consequências perigosas e irreversíveis tornar-se-ão inevitáveis.

Contributo de Portugal para o Clima e para a Sustentabilidade
A Europa deve dar o exemplo e liderar nas políticas climáticas, como aconteceu com o Comércio Europeu de Licenças de Emissões (CELE), rumo a um acordo na Conferência do Clima de Paris, que substitua o protocolo de Quioto, afirmou Jorge Moreira da Silva, na altura Ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia.

Portugal tem já uma trajetória, rumo a Paris, bem definida. Em Abril de 2015, o Governo e 82 entidades públicas e privadas da sociedade civil assinaram o Compromisso para o Crescimento Verde, que estabelece 14 metas e 111 iniciativas até 2030. Este Compromisso, além de traçar o rumo para o crescimento e desenvolvimento sustentáveis, dota as políticas públicas de previsibilidade, estabilidade e ambição. Recorde-se que o Compromisso para o Crescimento Verde prevê a obtenção de uma meta de 40% de renováveis no consumo final de energia em 2030, quando na Europa é de apenas 27%, e a redução da emissão de gases com efeitos de estufa em 30% a 40% em 2030, face a 2005.

Participação das Empresas na COP21
Em paralelo com a COP21 decorreu o Sustainable Innovation Forum 2015, que tem como objetivo facilitar parcerias entre empresas, governos, as Nações Unidas e Organizações Não Governamentais, promovendo soluções para as alterações climáticas e fomentar a inovação na área das baixas emissões de carbono.

Saber mais: