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terça-feira, 12 de maio de 2026

Novo relatório revela que escravidão moderna no Reino Unido atingiu níveis recorde

A escravatura no Reino Unido atingiu níveis recorde e a expectativa é que se agrave na próxima década, alertou a comissária independente do governo para o combate à escravatura.

Esse número aumentou mais de 50% nos últimos cinco anos e está a acontecer com pessoas cada vez mais jovens

De acordo com o número de denúncias encaminhadas para o mecanismo nacional de encaminhamento, que avalia as potenciais vítimas de escravatura e lhes oferece apoio, os números quase duplicaram nos últimos cinco anos, passando de 12.691 denúncias em 2021 para 23.411 em 2025, o número mais elevado alguma vez registado.

No seu relatório, publicado na terça-feira, Eleanor Lyons afirmou que este aumento não se deve apenas à melhor detecção da escravatura, mas também ao agravamento das condições no Reino Unido e em todo o mundo.

“A pobreza, a instabilidade global, os conflitos, a deslocação global de pessoas e a rutura das rotas migratórias seguras estão a criar um fluxo crescente de vulnerabilidades que os traficantes exploram rapidamente”, lê-se no relatório, Antecipando a Exploração: Uma Análise Baseada em Projeções Futuras. O relatório reuniu pesquisas compiladas por mais de 50 especialistas de diferentes áreas, incluindo segurança pública, governo, sociedade civil e organizações sem fins lucrativos, e é a primeira análise abrangente e prospetiva sobre como a escravatura moderna e o tráfico humano provavelmente evoluirão no Reino Unido na próxima década.

Lyons afirmou que, a menos que o Reino Unido tome medidas, a situação poderá agravar-se ainda mais com a utilização da inteligência artificial para ampliar e profissionalizar a exploração; o aumento do uso de trabalho digital em esquemas fraudulentos – como atrair pessoas para fraudes de investimento e romance; e a integração de criptomoedas em modelos de tráfico.

O relatório também expressou preocupação com o crescimento contínuo das plataformas da economia gig, o trabalho coercivo em áreas como a agricultura, a construção civil e a mineração, e o aumento da escravatura reprodutiva, como a recolha forçada de óvulos e a gestação de substituição.

Lyons instou os ministros a aumentar o financiamento das unidades policiais especializadas para que possam combater a exploração, processar mais empresas que exploram ou escravizam trabalhadores e lançar uma campanha nacional para ajudar o público a reconhecer e denunciar a exploração. Pediu ainda ao governo que melhore o atendimento às vítimas.

O relatório alertou que, sem medidas urgentes, as redes criminosas tornar-se-ão mais astutas, menos visíveis e mais difíceis de desmantelar. “A escravatura e as formas mais terríveis de exploração estão a tornar-se mais disseminadas neste país e a evoluir mais rapidamente do que conseguimos reagir”, disse Lyons.

“À medida que a exploração se torna mais complexa e oculta, impulsionada pela tecnologia e pela instabilidade global, irá espalhar-se ainda mais e tornar-se mais difícil de travar, a menos que ajamos agora”.

Um relatório de avaliação separado, também publicado na terça-feira pelo influente grupo de peritos em tráfico de seres humanos do Conselho da Europa, o GRETA, destacou um aumento acentuado do número de potenciais vítimas de tráfico.

Embora os especialistas tenham elogiado uma série de medidas tomadas pelas autoridades do Reino Unido nos últimos anos para combater o tráfico de seres humanos, como a de não responsabilizar as vítimas por actos criminosos que foram forçadas a cometer pelos seus traficantes, instaram o Reino Unido a adoptar uma série de outras medidas para alinhar plenamente as leis, políticas e práticas de combate ao tráfico de pessoas do país com a Convenção sobre a Acção contra o Tráfico de Seres Humanos.

O relatório destacou a necessidade de mais recursos, maior priorização e melhor coordenação entre as forças policiais e outras agências, bem como o reforço das investigações financeiras.

Acrescentou ainda que são necessárias mais salvaguardas para prevenir o tráfico de pessoas para exploração laboral, bem como o tráfico de pessoas de grupos vulneráveis ​​– incluindo crianças, migrantes, requerentes de asilo e pessoas sem-abrigo.

Um porta-voz do Ministério do Interior afirmou: “A escravatura moderna é um flagelo global que abusa e explora pessoas para obter lucro. Estamos empenhados em rever o sistema de combate à escravatura moderna para reduzir as oportunidades de abuso do sistema, garantindo, ao mesmo tempo, que temos as proteções adequadas para quem delas necessita.

Estamos a trabalhar com sobreviventes corajosos para fundamentar o desenvolvimento de políticas e melhorar o processo de identificação de vítimas. Também tomámos medidas imediatas para reduzir o atraso nos processos, garantindo que as vítimas obtêm decisões rápidas e o apoio necessário para reconstruir as suas vidas.”

Se você suspeita de algum caso de tráfico humano, é vital denunciar.
Portugal: Ligue 808 257 257 (Linha de Apoio à Vítima), contacte a PJ/PSP local ou ainda a AIMA 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Dia Europeu das Vítimas de Crime



O Dia Europeu das Vítimas de Crime assinala‑se a 22 de fevereiro e constitui um momento fundamental para reconhecer todas as pessoas que sofrem ou sofreram crimes, dar visibilidade às suas experiências e reforçar a importância das políticas públicas destinadas ao seu apoio, proteção e garantia dos seus direitos, bem como à prevenção e combate à criminalidade, designadamente à violenta e à especialmente violenta.

Entre os crimes que mais atentam contra a dignidade humana destaca‑se o Tráfico de Seres Humanos (TSH), uma grave violação dos direitos humanos e um fenómeno marcado pela grande invisibilidade das suas vítimas.

Trata‑se de um crime potenciado pelo aumento da mobilidade, pela utilização da internet como meio de aliciamento e controlo e pelo facto de envolver, na generalidade, baixos riscos e elevados lucros para as redes criminosas.

A verdadeira dimensão do tráfico de seres humanos é difícil de determinar, ainda assim, a informação existente permite perceber que o sexo, o género das vítimas e a idade influenciam a probabilidade, as formas e os objetivos da exploração. A nível internacional a maioria das vítimas identificadas são mulheres e raparigas, embora o tráfico afete também homens e rapazes, bem como pessoas trans.

Apesar de em Portugal e em alguns outros países europeus predominarem as situações reportadas de tráfico para fins de exploração laboral (com vítimas masculinas) não podemos esquecer a realidade do tráfico para fins de exploração sexual e que esta realidade se encontra especialmente ocultada.

A exploração sexual continua a ser o principal fim do tráfico de mulheres e raparigas. Entre os fatores que contribuem para este fenómeno destacam‑se as situações de vulnerabilidade, frequentemente associadas a contextos de violência, discriminação e pobreza, bem como a persistente procura de serviços sexuais. Os traficantes exploram, muitas vezes, a condição económica precária de pessoas que procuram uma vida melhor, recorrendo ao tráfico de migrantes e ao uso da internet como instrumento central de aliciamento.

A União Europeia tem vindo a adotar instrumentos fundamentais para prevenir e combater o tráfico de seres humanos, alinhados com os padrões internacionais e assentes numa abordagem centrada na vítima, que reconhece a necessidade de apoio, proteção e acesso efetivo aos direitos, bem como a importância de integrar uma perspetiva de género nas políticas de prevenção.

Em Portugal, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2024, foram constituídos 43 arguidos por tráfico de seres humanos, mais 13 do que no ano anterior, e detidas 12 pessoas. O Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) registou a sinalização de 355 presumíveis vítimas, mantendo‑se Portugal sobretudo como país de destino. Na exploração sexual, as presumíveis vítimas são maioritariamente mulheres adultas, de nacionalidade estrangeira, com destaque para as nacionais de São Tomé e Príncipe.

O principal instrumento nacional de prevenção e combate ao TSH é o V Plano Nacional para o período 2025‑2027, que visa consolidar o conhecimento sobre o fenómeno, reforçar a informação e sensibilização, assegurar um melhor acesso das vítimas aos seus direitos e intensificar o combate às redes de criminalidade organizada.

Contudo, o Dia Europeu das Vítimas de Crime não se limita ao tráfico de seres humanos. Esta data relembra também todas as pessoas afetadas por outros crimes, como a violência doméstica, a violência sexual, os crimes de ódio, o abuso de menores, , a fraude ou o cibercrime. Independentemente do tipo de crime, todas as vítimas têm direito a ser reconhecidas, protegidas e apoiadas, sem discriminação.

Conforme divulgado, o Conselho de Ministros aprovou no passado dia 20 de fevereiro a versão final da Lei-Quadro de Política Criminal, que define os objetivos, as prioridades e as orientações da política criminal para o biénio de 2025-2027, e entre os crimes de prevenção e investigação prioritária constam, nomeadamente a violência doméstica, o tráfico de pessoas, os crimes sexuais, o cibercrime e os crimes de ódio.

A resposta às necessidades das vítimas exige um esforço contínuo, tanto a nível nacional como europeu, baseado na cooperação entre autoridades, no trabalho integrado e articulado entre as entidades intervenientes, na , partilha de boas práticas e na formação contínua de profissionais.

Assinalar este dia é, acima de tudo, reafirmar o compromisso coletivo com uma Europa mais justa, segura e solidária, onde os direitos das vítimas ocupam um lugar central.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Cinema da Noite : Eu sou David- filme realizado por Paul Feig (2003)

David, um rapaz de cerca de 12 anos, vive num campo de trabalhos forçados na Bulgária comunista. O único adulto de confiança que tem é Johannes (interpretado por Jim Caviezel), um prisioneiro gentil que lhe ensina línguas, valores humanos e formas de sobreviver emocionalmente. Johannes acaba por morrer (provavelmente executado), mas deixa em David uma profunda marca de esperança.

Um dia, um guarda misterioso dá a David a oportunidade de fugir, dizendo-lhe para seguir apenas para norte, transportando uma carta que deve entregar na Dinamarca. Apesar de desconfiar de tudo e todos — resultado de anos de trauma — David inicia a longa jornada a pé.

Ao escapar pela fronteira, David atravessa:

🇬🇷 Grécia

Onde é ajudado por marinheiros, mas foge por não confiar em ninguém.

🇮🇹 Itália

É acolhido por uma família, especialmente por uma criança que cria laços com ele. No entanto, temendo colocar todos em risco, parte novamente.

No caminho, David cresce emocionalmente ao contactar com pessoas que lhe mostram diferentes formas de humanidade: bondade, ingratidão, desconfiança e amor.

Ao chegar à Suíça, ele descobre parte da verdade sobre si:
A carta que carrega contém informações que revelam que a sua mãe está viva e vive agora na Dinamarca.

Com a ajuda de pessoas que encontra, David chega finalmente à casa dela.
A mãe, ao ver uma nota deixada por Johannes anos antes, percebe quem ele é.
David reencontra a mãe num final emotivo em que, depois de anos de sofrimento e fuga, encontra paz e pertencimento.


🎭 ANÁLISE DOS TEMAS PRINCIPAIS


1. Liberdade
O filme contrapõe dois mundos: o campo, onde David não pode decidir nada, e a Europa livre, onde cada pequena escolha se torna um ato enorme.
A jornada física é também uma libertação psicológica.

2. Identidade
David não sabe quem é, de onde veio nem quem foram os pais.
Descobrir a sua identidade é tão importante quanto alcançar a liberdade.

 3. Trauma e Cura
David tem medo de confiar — pegar comida, aceitar ajuda ou tocar em objetos que lhe ofereçam.
A cura ocorre gradualmente graças às pessoas bondosas que encontra.
 
4. Bondade vs. Crueldade
O filme mostra como um simples gesto (como o de Johannes ou de pessoas comuns) pode salvar uma vida marcada pela opressão.
 
5. Esperança
Mesmo nos momentos mais duros, a memória de Johannes funciona como bússola emocional de David. 📚 COMPARAÇÃO COM O LIVRO
ElementoLivroFilme
TomMais introspectivo, filosófico, centrado nos pensamentos de DavidMais sentimental, focado nas emoções e nas relações
Idade de David12 anosCerca de 12, mas com abordagem mais madura
Origem da fugaPlaneada por Johannes e outros prisioneirosNo filme, atribuída a um guarda que sente culpa
Revelação sobre a mãeMais gradual e menos romantizadaMais dramática e emocional
FinalSem grande dramatização, mas igualmente emocionalA reencontrar a mãe é mais cinematográfico
Temas políticosMais explícitos sobre totalitarismo communistaMais suavizados para público jovem

O filme segue fielmente a estrutura geral do livro, mas suaviza elementos mais duros e reforça aspetos emocionais.


🎬 FICHA TÉCNICA DO FILME

Título: I Am David
Título em português: Eu Sou David
Ano: 2003
Realização: Paul Feig
Baseado no livro: I Am David (1963), de Anne Holm
Género: Drama, Aventura
País: EUA / Reino Unido / Dinamarca / Itália
Principais atores:

  • Ben Tibber — David

  • Jim Caviezel — Johannes

  • Joan Plowright — Sophie

  • Hristo Shopov — O Guarda

  • Maria Bonnevie — Mãe de David

Duração: ~90 minutos
Classificação etária: Apropriado para adolescentes e adultos

domingo, 2 de março de 2025

Mikhail Gorbatchev



A marca avermelhada na testa acompanhou-o desde o nascimento até à morte e tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Para alguns, um acaso biológico; para outros, um sinal quase mítico. Mikhail Gorbatchev (1931 – 2022) nasceu numa aldeia perdida do Cáucaso do Norte, Privolnoye, e morreria como o homem que presidiu ao fim da União Soviética. Entre o nascimento e a morte, viveu uma existência improvável, moldada pela miséria, pela violência do Estado estalinista e por uma rara combinação de tenacidade e prudência.
Filho de camponeses pobres, Gorbatchev cresceu num país assolado pela fome, pelas purgas e pela guerra. Dois dos seus avós seriam presos durante o terror dos anos 30; um deles chegou a ser condenado à morte, escapando por uma reclassificação administrativa que lhe salvou a vida. A infância foi feita de carências extremas, trabalho precoce e imagens que nunca o abandonariam: animais abatidos para sobreviver, sementes comidas antes de serem lançadas à terra, aldeias dizimadas pela fome.
A Segunda Guerra Mundial acelerou-lhe a maturidade. Com os homens mobilizados para a frente, as crianças tornaram-se mão-de-obra e guardiãs das famílias. A ocupação alemã da região deixou-lhe memórias de cadáveres abandonados e da fragilidade absoluta da vida humana. Quando chegou a notícia da suposta morte do pai, seguida dias depois pela confirmação de que afinal sobrevivera, gravemente ferido, o jovem Mikhail aprendeu cedo a desconfiar tanto da tragédia definitiva como do alívio absoluto.
O regresso à escola foi um ponto de viragem. Sem livros nem cadernos, estudando nas margens de manuais técnicos, destacou-se pelo esforço e pela disciplina. O trabalho extenuante nas ceifeiras-debulhadoras ao lado do pai valeu-lhe, aos 17 anos, uma condecoração estatal rara para alguém da sua idade: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. Esse reconhecimento abriu-lhe as portas da Universidade Estatal de Moscovo, onde se formou em Direito e iniciou a ascensão política.
Em Moscovo encontrou também Raisa Titarenko, estudante de Filosofia, companheira inseparável e figura decisiva na sua formação cultural e intelectual. O casamento, pouco comum na elite soviética pela sua cumplicidade e visibilidade pública, tornou-se uma das marcas do futuro líder. Gorbatchev nunca escondeu a influência de Raisa, nem recuperou verdadeiramente da sua morte, em 1999.
A carreira no Partido Comunista foi constante e cautelosa. Proveniente da província, conhecedor da vida rural e das disfunções do sistema, Gorbatchov chegou ao topo em 1985, quando assumiu o cargo de secretário-geral do PCUS. O país que herdou estava exausto: economia estagnada, sociedade asfixiada, império sustentado mais pela inércia do que pela convicção. A resposta foi dupla e histórica: Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), conceitos que rapidamente ultrapassaram as fronteiras soviéticas.
Ao permitir maior liberdade de expressão e ao recusar o uso da força para manter o controlo sobre a Europa de Leste, Gorbatchov desencadeou um processo irreversível. O Muro de Berlim caiu, os regimes satélites ruíram e, em 1991, a própria União Soviética dissolveu-se. Para o Ocidente, tornou-se o estadista que evitou uma guerra nuclear e abriu caminho ao fim da Guerra Fria. Para muitos russos, ficou associado ao colapso de um império e à humilhação económica dos anos seguintes.
A sua vida posterior foi paradoxal: venerado internacionalmente, marginalizado no seu próprio país. Participou em campanhas publicitárias, criou fundações, foi homenageado em palcos internacionais como o Royal Albert Hall, mas nunca recuperou verdadeira influência política. Permaneceu, até ao fim, uma figura solitária, fiel à convicção de que a mudança pacífica era preferível à violência redentora.
Mais do que o líder que acelerou o fim da Guerra Fria, Gorbatchov foi o produto extremo do século soviético: um homem forjado na fome, educado na disciplina e disposto a aceitar que a história não se deixa comandar por decretos. O seu legado continua a dividir opiniões. Mas a trajetória que o levou de uma aldeia sem livros aos salões do poder mundial permanece como uma das mais improváveis e humanas do nosso tempo.


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

The Cobalt Rush: the Future of Going Green


Cobalt Rush: O Futuro da Sustentabilidade
Realização: Arnaud Zajtman, Quentin Noirfalisse
Produção: Les Films du Tambour de Soie, Dancing Dog Productions, Esprit Libre Production, RTBF, France 24
Vendas internacionais: Terranoa
País: Bélgica

A electrificação é apresentada por políticos ansiosos por aderir à onda ambientalista em todo o mundo como uma solução fundamental para atingir as metas globais de neutralidade carbónica nos próximos anos.

Os carros elétricos e outros veículos prometem viagens tranquilas, sem poluição e sem culpa, que também manterão as indústrias automóveis nacionais em funcionamento.

A União Europeia aderiu a um futuro que promete ser «verde e digital», com benefícios para todos os seus quase 500 milhões de cidadãos nos 27 Estados-Membros.

Mas e se combater as alterações climáticas não fosse assim tão simples? E se não houvesse uma resposta fácil para viver em harmonia com o mundo natural enquanto tentamos baixar a temperatura da era do Antropoceno?

Os realizadores e produtores franceses Quentin Noirfalisse e Arnaud Zajtman abordam esta questão no seu envolvente documentário Cobalt Rush – The Future of Going Green.

Uma nova corrida ao ouro
Em francês, o título, «Cobalt, L’envers due Rêve Electrique’, traduz-se por – Cobalt, L’envers due Rêve Electrique – que, na verdade, seria um título internacional mais adequado. Talvez os produtores quisessem injetar alguma ideia de uma nova corrida ao ouro e do impacto mais abrangente do termo "sustentabilidade"? Deixando isso de lado, este documentário fascinante condensa muita informação nos seus 85 minutos.

O cobalto é um mineral raro, um ingrediente essencial nas baterias, na sua maioria à base de níquel, que serão o principal componente energético de todos os automóveis novos vendidos na Europa a partir de 2030. Garantir um fornecimento fiável – e verificar as condições ambientais e de trabalho em que é produzido – será uma parte fundamental das estratégias políticas e ambientais nos próximos anos. A procura de políticas industriais que apoiem o crescimento económico e combatam as alterações climáticas está agora entre as principais prioridades da agenda política na Europa e em muitas outras partes do mundo. Tudo parece óptimo, mas há um problema: 70% do cobalto mundial é extraído na República Democrática do Congo em condições que estão longe de ser democráticas.

Os chineses são grandes investidores em enormes minas a céu aberto na República Democrática do Congo, que têm sido responsabilizadas pela poluição ambiental maciça, envenenamento de rios e terras agrícolas e quase certamente associadas a um aumento drástico de defeitos congénitos entre as pessoas que trabalham ou vivem perto das minas.

A escassa observância das leis ambientais e laborais – e a presença de um sector mineiro privado dito “artesanal” muito grande, que emprega até dois milhões de pessoas a trabalhar em poços profundos e extremamente perigosos para extrair o precioso mineral – complicam as leis de due diligence impostas aos compradores ocidentais de cobalto.

Noirfalisse traz para o projeto a sua vasta experiência como jornalista de importantes jornais belgas, garantindo que o filme explora o tema de forma profunda e abrangente. Combinada com a experiência de Zajtman como produtor de documentários, a obra sobre o cobalto oferece uma visão completa dos desafios da transição para uma indústria automóvel mais sustentável. Muitos documentários sobre o tema centram-se exclusivamente nas questões da extracção em regiões remotas da África Central. Noirfalisse e Zajtman alargam a perspectiva para incluir entrevistas com fabricantes de automóveis europeus, empresas mineiras na Finlândia, onde existem depósitos europeus de cobalto, e a nova geração de fabricantes de baterias para automóveis eléctricos que está a emergir.

Maroš Šefčovič, Comissário Europeu para as Interinstitutional Relations and Foresight – um título tão fácil de pronunciar como um automóvel eléctrico – entusiasma-se com o sonho da electricidade que ajudará a combater as alterações climáticas e a manter os empregos na Europa. Mas os activistas na República Democrática do Congo e a nível internacional apontam os perigos da extracção de cobalto e a poluição provocada pelas minas.

Nenhum detalhe é deixado de lado
Os mineiros que trabalham nas minas artesanais queixam-se de quanto pouco os compradores chineses pagam pelo minério e de como mal conseguem ganhar o suficiente para pôr o pão na mesa. Na Finlândia, onde o governo concede licenças a minas consideradas economicamente viáveis ​​mesmo com minério contendo apenas um por cento de cobalto, estão a surgir grupos ambientalistas com preocupações semelhantes às levantadas na República Democrática do Congo, embora num contexto de protecção ambiental substancialmente melhor.

Nenhuma destas preocupações parece incomodar o representante de lábia fácil.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Da escravidão à independência com o cacau no Sul da Bahia


O assentamento Dois Riachões, no Sul da Bahia (Brasil), é o tema do documentário realizado pelo fotógrafo Fellipe Abreu e pela jornalista Patrícia Moll.

«Meu avô nunca comeu chocolate, nunca, quem comia era o coronel. Ele morreu sem saber o que era chocolate», diz o agricultor Edivaldo dos Santos na curta-metragem.

«Eu quebrei muito cacau e eu não tinha direito de chupar um caroço de cacau, porque o cabo de turma estava do nosso lado, vigiando tudo», afirma, por seu lado, Luiza Batista.

Edivaldo, Luiza e outros 150 agricultores que vivem no assentamento Dois Riachões, em Ibirapitanga, romperam com o ciclo tradicional de produção praticado pelos herdeiros dos coronéis das fazendas da Bahia, apostando numa produção agroecológica que tem sido referência para outras comunidades que lutam pela reforma agrária no Brasil, indica o Brasil de Fato.

Ligados à Coordenação Estadual de Trabalhadores Assentados e Acampados (Ceta), os agricultores ocuparam o local em 2007, mas só em 2018 se verificou a regularização da terra. Além do cacau, no assentamento produzem frutas, hortaliças e grãos.

Teresa Santiago, agricultora em Dois Riachões, explica que a agroecologia é a base de todo o processo, e que a comercialização é um dos tripés da sua luta. Os agricultores conseguem escoar a produção nas feiras, com vendas directas ao consumidor e através de programas federais como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.

No entender da agricultora, a liberdade foi construída a partir da luta pela terra, quando passaram a ser donos do lote e da produção.

«Você deixa de ser oprimido, deixa de ter ali alguém que vai mandar dizer o que você vai fazer para outra maneira de viver e construir colectivamente a luta pela terra. No documentário, quando a gente fala da soberania, é a soberania em todas as suas vertentes, seja social, alimentar, na questão ambiental, produtiva e económica», afirma.
Melhoria de condições de vida, trabalho colectivo e defesa do ambiente

Fellipe Abreu, um dos realizadores, explica que, durante as gravações do documentário, eles puderam acompanhar as mudanças na comercialização, como as amêndoas de cacau passaram a ter mais valor e como os agricultores construíram uma fábrica de chocolate no assentamento, tendo inclusive lançado a marca «Dois Riachões».

Patrícia Moll diz que a ideia do documentário surgiu por não ser uma história conhecida e pelo facto de o chocolate ser algo universal que interessa a diversas culturas. Do que viu, destacou a organização e o trabalho colectivo das famílias.

«Eles fazem tudo juntos, passam o dia na roça do seu Fulano, depois vão para a roça do seu Beltrano, sempre se divertindo e cantando enquanto fazem a quebragem. Também é lindo ver eles terem conseguido conquistar essa soberania alimentar e hoje cozinharem e produzirem os próprios alimentos e finalmente poderem comer o próprio chocolate», afirmou a realizadora.
O cacau faz parte da história do Brasil e no Sul da Bahia é um dos principais produtos agrícolas. A produção de cacau cabruca de Dois Riachões é tida como exemplo de aliada da conservação ambiental, na medida em que tem em conta não só a produção do alimento livre de tóxicos, como a preservação de espécies florestais nativas, a manutenção dos recursos hídricos e da fauna local.

«O sistema cabruca de produção de cacau não derruba a mata nativa, ele coexiste junto com ela. Se você olhar para uma lavoura de cacau cabruca, você vê a Mata Atlântica por cima e o cacau por baixo», comenta Fellipe Abreu.

O documentário, co-produzido de forma independente, é a primeira curta de Patrícia Moll e Fellipe Abreu juntos. A ideia, segundo refere o Brasil de Fato, é que a obra, já premiada em vários festivais, ajude a viabilizar outros projectos semelhantes com o olhar voltado para o mundo rural, a agricultura familiar e a cultura alimentar do Brasil.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Dia Internacional dos Direitos das Crianças



O Dia Internacional dos Direitos das Crianças é comemorados todos os anos a 20 de novembro.

Origem da Data
A origem do Dia Internacional dos Direitos da Criança é bastante clara e significativa: foi a 20 de novembro de 1959 que se proclamou mundialmente a Declaração dos Direitos das Crianças e a 20 de novembro de 1989 que se adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança. O objetivo da data é salientar e divulgar os direitos das crianças de todo o mundo.

Em Portugal realizam-se atividades solidárias como é o exemplo do Dia Nacional do Pijama, onde as crianças vão de pijama para a escola, relembrando o direito de todas as crianças a terem um lar, uma família e a proteção da sociedade.

Declaração Universal dos Direitos das Crianças
A Declaração dos Direitos da Criança foi adaptada da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tendo a seguinte redação:
  • Todas as crianças têm o direito à vida e à liberdade.
  • Todas as crianças devem ser protegidas da violência doméstica, do tráfico humano e do trabalho infantil.
  • Todas as crianças são iguais e têm os mesmos direitos, não importando a sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade.
  • Todas as crianças devem ser protegidas pela família e pela sociedade.
  • Todas as crianças têm direito a um nome e a uma nacionalidade.
  • Todas as crianças têm direito a alimentação, habitação, recreação e atendimento médico.
  • As crianças portadoras de deficiências, físicas ou mentais, têm o direito à educação e aos cuidados especiais.
  • Todas as crianças têm direito ao amor, à segurança e à compreensão dos pais e da sociedade.
  • Todas as crianças têm direito à educação.
  • Todas as crianças tem direito de não serem violadas verbalmente ou serem agredidas por pais, avós, parentes, ou mesmo a sociedade.
Documentos
Joint Statement by the European Comission and the High Reresentative DESCARREGAR

Resolução 1386 (XIV) da Assembleia Geral da ONU sobre a Declaração dos Direitos da Criança | Organização das Nações Unidas DESCARREGAR

Resolução 44/25 da Assembleia Geral da ONU sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança | Organização das Nações Unidas DESCARREGAR
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Dia Universal da Criança: Declaração Comum da Comissão e do Alto Representante da UE [parte en]
DESCARREGAR

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Documentário- O Lado Negro do Chocolate (Shady Chocolate)



O chocolate que consumimos é produzido com o uso de trabalho infantil e tráfico de crianças?

O premiado jornalista dinamarquês, Miki Mistrati, decide investigar os boatos. Sua busca atrás de respostas o leva até Mali, na África Ocidental, onde câmaras ocultas revelam o tráfico de crianças para as plantações de cacau da vizinha Costa do Marfim. A Costa do Marfim é o maior produtor de cacau, respondendo por cerca de 40% da produção mundial. Empresas como a Nestlé, Barry Callebaut e Mars assinaram em 2001 o Protocolo do Cacau, comprometendo-se a erradicar totalmente o trabalho infantil no sector até 2008. Será que o seu chocolate tem um gosto amargo? Acompanhe Miki até a África para expor "O Lado Negro do Chocolate".

As 7 marcas de chocolate que utilizam cacau proveniente de trabalho escravo infantil são:

Hershey
Mars
Nestlé
ADM Cocoa
Godiva
Fowler’s Chocolate
Kraft

sábado, 21 de janeiro de 2012

Documentário: O lado Negro do Chocolate ( The Dark Side Of Chocolate) - 2010


O documentário 2010 The Dark Side of Chocolate alega que as compras da Nestlé grãos de cacau de plantações da Costa do Marfim que usam trabalho escravo infantil. As crianças são geralmente de 12 a 15 anos de idade, e alguns são traficadas de países vizinhos. As primeiras alegações de que a escravidão infantil é utilizado na produção de cacau apareceu em 1998. No final de 2000, um documentário da BBC relataram o uso de crianças escravas na produção de cacau na África Ocidental. Outros meios de comunicação seguiram, relatando generalização de crianças escravas e tráfico de crianças na produção de cacau. Em setembro de 2001, Alford Bradley, presidente e CEO da Nestlé e EUA, assinaram o Protocolo Harkin-Engel (comumente chamado de Protocolo do Cacau), um acordo internacional que visa a erradicação do trabalho infantil na produção de cacau. Em 2005, após a indústria do cacau não tinha conhecido o Harkin-Engel prazo protocolo para certificação das piores formas de trabalho infantil (de acordo com a Organização Internacional do Trabalho da Convenção 182) havia sido eliminado da produção de cacau, a Organização Internacional do Trabalho Fundo de Direitos apresentou uma ação judicial em 2005, sob a Alien Tort Claims Act contra a Nestlé e outras em nome dos três filhos do Mali. A ação alegou às crianças que foram traficadas para a Costa do Marfim, forçadas à escravidão e experiências de espancamentos frequentes em uma plantação de cacau. Em setembro de 2010, o EUA Tribunal do Distrito Central da Califórnia, determinou que a corporação não pode ser considerada responsável por violações do direito internacional e encerrou o processo. O caso foi objecto de recurso para o Tribunal de Apelação dos EUA. A 2009 operação policial conjunta realizada pela Interpol e agentes de aplicação da lei de Costa do Marfim resultou no resgate de 54 crianças e a prisão de oito pessoas envolvidas no recrutamento ilegal de crianças.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil



O Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil celebra-se a 12 de junho.

Quem criou esta celebração foi a Organização Internacional do Trabalho. Esta agência das Nações Unidas instituiu a data do Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil em 2002.

Esta data, celebrada no mesmo mês do Dia Mundial da Criança, visa alertar a população para o facto de muitas crianças serem obrigadas a trabalhar diariamente quando deveriam estar na escola a aprender e a construir um futuro melhor para si e para as suas famílias. 

O Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil deseja assim promover o direito de todas as crianças serem protegidas da exploração infantil e doutras violações dos seus direitos humanos fundamentais, assim como a combater todos os tipos de trabalho infantil. Algumas celebridades juntam-se à causa, para aumentar a divulgação da data.

A UNICEF estima que existam 168 milhões de crianças vítimas de trabalho infantil, trabalhando muitas delas (85 milhões) em condições de exploração infantil, com perigos graves à saúde e sendo envolvidas em conflitos armados. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, mais de 20 em cada 100 crianças entram no mercado de trabalho por volta dos 15 anos de idade nos países pobres.