Mostrar mensagens com a etiqueta Peter Sloterdijk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Peter Sloterdijk. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Economia e política ao serviço da vida



Quando se olha para a presente situação do mundo, não é difícil constatar que o que está decisivamente em crise é a razão moderna com o seu imperialismo devastador. Ao contrário do que pensam os seus profetas mais ardentes, após a crise/implosão do chamado "socialismo real", o capitalismo desenfreado, neoliberal, não constituiu de modo nenhum a solução do futuro nem é a palavra mágica, decisiva e definitiva da História. A prova está em que pretender que toda a humanidade viva segundo os padrões do mundo mais desenvolvido, tecnocrático, seria pôr fim à própria possibilidade de continuação da História. O modelo dos países do hemisfério norte, sendo necessário sublinhar que ele se implantou já noutras paragens, não pode estender-se ao mundo inteiro, isto é, não é universalizável, sob pena de pura e simplesmente não haver futuro para o planeta. E, não sendo universalizável, não é ético.

A crise ecológica, de que os pobres acabam por ser as principais vítimas e também, na luta pela sobrevivência, uma das grandes causas, coloca-nos perante a crise da nossa civilização, que pretendeu organizar a casa comum da humanidade com base na ideologia do progresso ilimitado. Urge, pois, mudar de rumo, o que implica pôr termo a um antropocentrismo exacerbado e reconhecer e respeitar o valor da natureza e de todos os seres do ecossistema, a começar pelo homem e pela mulher pobres e explorados. Impõe-se uma conversão socio-ecológica, no sentido da transformação do modelo de desenvolvimento em que assentou a modernidade. Se é o presente modelo de desenvolvimento que gera simultaneamente a crise ecológica e a injustiça estrutural no mundo, então a construção da casa comum da humanidade exige uma nova consciência ética - veja-se a ligação entre ethos, que também significa habitação, toca do animal, e donde provém ética, e oikos, que significa casa, interconectando ética, economia (lei, governo da casa) e ecologia (tratado da casa, que hoje percebemos melhor ser a casa comum de todos) -, aliada a uma nova proposta político-cultural global, para uma nova ordem económico-ecológica global, no quadro de um autêntico eco-humanismo, proposto pelo Papa Francisco - diga-se entre parêntesis que, se não fosse por muitas outras magnas razões, Francisco ficaria na História por causa da sua encíclica Laudato Sí, onde aparece o conceito de "ecologia integral", que mostra que a degradação do meio ambiente e a degradação do mundo social caminham juntas.

Pretender que toda a humanidade viva segundo os padrões do mundo mais desenvolvido, tecnocrático, seria pôr fim à própria possibilidade de continuação da História.

Hoje, tomamos consciência de que tudo e todos estamos interligados e somos interdependentes. Isto, pelo menos, nos deveria ter ensinado a pandemia: infectamo-nos uns aos outros e, por isso, ou nos salvamos juntos ou nos perdemos todos. Só posso estar de acordo com o filósofo Peter Sloterdijk, quando, com outros, propugna uma "Declaração de Dependência" universal, assinada por todos. Assim, dadas as relações realmente existentes entre todos e o vínculo indissolúvel com a catástrofe ecológica, damo-nos pela primeira vez conta de que, perante a ameaça comum de que somos objecto todos, se impõe que a humanidade, se quiser ter futuro, se tem de tornar sujeito comum da responsabilidade pela vida. Ou a humanidade como um todo se torna sujeito do seu futuro e da responsabilidade pela vida em geral ou pura e simplesmente não haverá futuro para ninguém. Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários uns com os outros por razões de ética e humanidade, sejamo-lo, ao menos, por razões de egoísmo esclarecido.

A globalização arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões, que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Mais uma vez, o teólogo Hans Küng procurou contribuir para esse debate, que assenta, segundo ele, em quatro teses: a globalização é : 1. "inevitável"; 2. "ambivalente (com ganhadores e perdedores); 3. "incalculável" (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é para mim o mais importante - "dirigível". Isto significa que precisamente a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.

Quem é que responsavelmente pode aceitar que a moral no domínio económico se identifica com o incremento insaciável do lucro? Tornou-se claro que a mão invisível do mercado que funcionaria a favor de todos os cidadãos não passa de "um mito refutado pela realidade", exactamente como a ideia de que o socialismo conduz todos os homens ao "paraíso do bem-estar", escreveu Hans Küng. Por isso, à economia de mercado tout court é preciso contrapor a economia social e ecológica de mercado.

O sentido da economia e da política só pode ser o serviço da vida. Trata-se de uma política para a vida (Vitalpolitik, segundo Alexander Rüstow), que sabe que, ao contrário de uma política da concorrência, orientada só para a eficiência, tem em consideração muitos outros factores, já que, em ordem ao bem-estar, a uma sociedade boa, a uma vida feliz, para os seres humanos, incluindo os capitalistas, não basta a economia. O homo sapiens não se identifica pura e simplesmente com o homo oeconomicus.

Anselmo Borges- Padre e professor de Filosofia.

domingo, 11 de abril de 2021

A vida actual não convida a pensar - Entrevista com Peter Sloterdijk


Peter Sloterdijk (Karlsruhe, Alemanha, 1947) é um dos grandes nomes do mundo do pensamento. Professor de Estética e Filosofia na Escola Superior de Design de sua cidade natal, há anos agita o mundo da filosofia – e o mundo como um todo – com suas obras, seu novos conceitos e termos, e suas opiniões. Autor de livros cruciais do pensar de nossa época como Crítica da Razão Cínica, Ira e Tempo e principalmente sua monumental trilogia Esferas (Bolhas, Globos e Espuma), em que desenvolve uma assombrosa teoria do espaço íntimo, Sloterdijk une sua profundidade intelectual a uma face midiática incomum em seu campo e uma cordialidade, um humor e uma ironia que o afastam do paradigma do filósofo alemão usual (Karl Popper, para citar um mal-humorado).

O pensador visitou Barcelona onde se reuniu com várias centenas de pessoas em uma conversa no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB). Apesar de sua afabilidade e sua aparente tranquilidade, entrevistar Sloterdijk, cujas páginas um ser humano comum frequentemente precisa ler várias vezes para conseguir entendê-las, é um desafio. Com as passagens de Esferas ainda flutuando na cabeça – “a esfera íntima, consubjetiva, não pode possuir em absoluto uma estrutura eucíclica e parmenídea: o globo psíquico não tem, com o filosófico bem arredondado, um único centro que irradia e engloba tudo, e sim dois epicentros que se interpelam mutuamente por ressonância” –, se entrevista Sloterdijk como se estivesse diante de Plotino. Um Plotino, de fato, um pouco desarrumado e sem meias.

A entrevista é de Jacinto Antón, publicada por El País, 05-05-2019.
Eis a entrevista.

Não lhe parece que o pensar, o pensar de verdade, se tornou uma excentricidade? Ao ler seus livros, tão intensos, percebemos que o pensamento sério, o que exige esforço e concentração, não é numeroso. Nós nos desacostumamos.
Sim. Certamente. Isso me lembra uma cerimônia zen em que o mestre pega uma chaleira, como eu estou fazendo agora, e despeja chá até encher a taça, e então continua despejando e o líquido derrama. Você não pode entender nada se a taça não está cheia.

Perdemos a capacidade de pensar?
Não é capacidade como tal. Mas não ocorrem as circunstâncias vitais que nos permitem afastar e ganhar distância. Para Husserl e sua fenomenologia era preciso sair do tempo impetuoso da vida, o dispositivo mais elementar era sempre dar um passo atrás. Essa ação permite que você se transforme em observador. Sem uma certa distância, sem uma certa desconexão a atitude teórica é impossível. A vida atual não convida a pensar.

Hoje a superficialidade se impõe à profundidade.
A Filosofia moderna abandonou mais ou menos a metáfora da profundidade. Preferimos dizer que tudo está na superfície, e se existe profundidade é preciso fazer com que ela suba à superfície como se fosse superficial. Caso contrário, você se transforma em um mistagogo, um iniciador em mistérios sagrados.

Também é verdade que pensar de verdade é difícil e tem algo de doloroso e angustiante quando se chega perto dos limites do eu e da autoconsciência.
Não estou convencido disso. A filosofia original na antiguidade era algo ambivalente. Temos os dois topos: Heráclito, que chorava, e Demócrito, que ria constantemente. Esse traço comentado de ambos pelas fontes aparece até mesmo em suas estátuas. Para Platão, de uma tradição diferente, pensar é o prazer mais elevado. Isso por uma razão: a essência do pensamento é lembrar e o que devemos lembrar é o fato de que estivemos muito próximos da essência divina e a única coisa que deve ser feita para eliminar os obstáculos que não te permitem alcançá-la é lembrar claramente. Basicamente, deveria se tratar de felicidade. Mas não funciona assim porque, certamente, na antiguidade os pensadores eram conhecidos por ter sempre um rosto triste. Eram mais respeitados por isso, seus compatriotas esperavam que tivessem aspecto melancólico e o cenho franzido (ri). Era um truque muito bom, porque ninguém sentia inveja de alguém triste. É melhor esconder sua boa sorte. O que me lembra uma frase de Walter Serner, o dadaísta, autor de Manual para Enganadores, que dizia que sempre que você se mudar a uma nova cidade deixe que o rumor de que você tem câncer o preceda, isso reduz a inveja. Seus competidores já não te levarão tão a sério.

terça-feira, 21 de março de 2017

'Bolhas', de Peter Sloterdijk, é filosofia descontraída



"Fartamente ilustrado, o volume oferece ao leitor, em reproduções não muito boas, obras religiosas e obras profanas, todas relacionadas ao tema tratado por Sloterdijk, mas elas não são comentadas (com uma ou outra exceção), cabendo ao leitor fazer a ligação entre texto e imagem e tirar as suas conclusões", escreve Sergio Medeiros, poeta, ensaísta, tradutor, professor na UFSC e autor de 'A Idolatria Poética ou A Febre de Imagens' e 'As Emas do General Stroessner', ambas da Editora Iluminuras, em artigo publicado por Estado de S. Paulo, 19-03-2017.

Eis o artigo.

A obra Bolhas é o primeiro volume da trilogia Esferas, do filósofo alemão Peter Sloterdijk. O segundo volume, ainda não traduzido para o português, intitula-se Globos, e o terceiro, Espumas. O leitor curioso não terá dificuldades para percorrer as 2.500 páginas da trilogia, que lerá com prazer, da primeira à última página, pois se trata de uma obra acessível e fascinante.

Não apenas porque o autor reflete com originalidade e agudeza sobre a lei das esferas ou da globalização, mas também porque a sua escrita colabora enormemente para que o leitor se sinta à vontade em meio à impressionante massa de dados de diferentes fontes do passado e do presente sobre a “existência esférica”; esses dados lhe são entregues generosamente, às vezes em pequenos resumos, às vezes extensamente, sempre acompanhados de comentários argutos do autor.

Sloterdijk apresenta o mundo redondo intimamente compartilhado e propõe uma análise das bolhas bipolares, situando sua reflexão no universo das microesferas ou das esferas íntimas; traz assim à tona vários exemplos do que ele denomina de relações de intimidade, as quais descreve como a coexistência “de algo com algo no interior de algo” (o feto que recebe no útero as boas-vindas da mãe). Sloterdijk contesta a visão dogmática de uma solidão primária do ser humano, a qual, segundo ele, apresenta-se de maneira mais triunfal do que nunca na modernidade. Para o autor, a relação com o outro é que é fundadora e imemorial. Ele pede que o leitor se liberte do espírito anticristão dos últimos séculos e reavalie sem preconceitos a possibilidade de acessibilidade ao outro, essa experiência fundamental da esferologia antiga (o cristianismo dos primeiros tempos): “Quem quiser reconstituir hoje experiências fundamentais de comunhão e de comunidade precisa estar livre de reflexos antirreligiosos”.

Fartamente ilustrado, o volume oferece ao leitor, em reproduções não muito boas, obras religiosas e obras profanas, todas relacionadas ao tema tratado por Sloterdijk, mas elas não são comentadas (com uma ou outra exceção), cabendo ao leitor fazer a ligação entre texto e imagem e tirar as suas conclusões. O leitor talvez tenha a impressão de ter acesso a uma transcrição daquelas apresentações acadêmicas contemporâneas em que o autor lê no computador um ensaio erudito enquanto atrás dele, num telão, vão passando imagens mais ou menos casuais que “ilustram” aspectos de sua fala. Esse caráter descontraído e meio improvisado, entre imagem e texto, confere vivacidade ao livro de Sloterdijk e contribui para criar uma “relação de intimidade” com o leitor. “O que aparece como novo só pode ser, nestes assuntos”, afirma o pensador alemão, “a clareza crepitante, talvez demoníaca, da apresentação”.

Ao defender uma lógica universal de estar-no-espaço-partilhado, Sloterdijk propõe equações saborosas, como a que une teologia com surrealismo (o leitor deparará com locuções como “interpessoalidade surreal”), ou arte de vanguarda com criações mitológicas arcaicas. Heidegger e Andy Warhol estão perfeitamente integrados nesta esferologia contemporânea (um modelo de união), assim como Santo Agostinho e o astro pop, entre numerosas outras personalidades que nem sempre o leitor espera ver juntas num livro de filosofia. A menção à música pop não é uma mera concessão ao contemporâneo e à cultura de massa; um dos capítulos mais impressionantes de Bolhas é o que se chama O Estágio das Sereias: sobre a Primeira Aliança Sonosférica, em que a pesquisa dos pares e a teoria do espaço dual desemboca no conceito de canto e desenvolve o conceito de ouvinte contra o de consumidor de imagens. “Quando os padres não estão por perto, fica evidente que os homens não querem se tornar Deus, mas um hit musical”, conclui Sloterdijk, que passa então a analisar a cena musical pós-moderna: “Mas a histeria dos tenores e a agitação pop não seriam tão atraentes se não estivessem sempre oferecendo projeções mais impressionantes desses poderes arcaicos que efetuam as formações do EU através do ouvido”. Os humanos não querem se parecer a algo, mas soar como algo, e seu autor denuncia: “Foi preciso o desencadeamento da moderna maquinaria de imagens que, desde o Barroco, imprime seus clichês na população para ocultar essa relação fundamental e submeter as massas ao encantamento do individualismo visual, com seus instantâneos, seus espelhos e suas revistas de moda”.

A isso Sloterdijk denomina teoria da comunicação emotiva nas grandes sociedades (homens são animais que se ouvem uns aos outros), e ao fazer o elogio do ouvido, refuta a tese da solidão primária do ser humano e afirma o fundamento da receptividade dos indivíduos às mensagens de seus semelhantes. Sua conclusão não é surpreendente: “Só com base no grande desenvolvimento emotivo da audição foi possível à existência humana tornar-se estadia em uma estufa sonosférica”.

Saber mais: