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sábado, 26 de setembro de 2026

Ana Catarina: A crónica viral sobre a ONU, a América e a Praça dos que Podiam Fazer Alguma Coisa

A narrativa tem como pano de fundo a 79.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova Iorque no final de setembro de 2024. A autora constrói uma viagem ficcionada e surrealista a partir de Lisboa, onde se infiltra na comitiva diplomática portuguesa para observar de perto os bastidores do poder.

A razão pela qual a crónica volta a ser partilhada e ganha nova tração prende-se com o facto de o calendário político global se repetir com uma precisão quase mecânica. Ao regressar a época da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, com as mesmas figuras centrais da diplomacia nacional e internacional a ocupar os mesmos palcos, a análise satírica de Ana Catarina recupera de imediato toda a sua frescura e pertinência. O texto funciona como um espelho de um ciclo diplomático que parece estagnado no tempo, onde os intervenientes e os discursos se mantêm inalterados enquanto os problemas reais nas ruas de Manhattan e no resto do mundo continuam por resolver, transformando esta peça de reflexão num retrato tão atual hoje como no momento em que foi escrita.

"Sabem onde é que estive estes dias?

Na América.

Um rapaz disse-me para ir com ele ver os aviões. Ou estava a cantar a música dos Azeitonas e eu levei aquilo a sério. Pronto, não interessa. Fui.

Parou a viatura naquele sítio ao lado do Prior Velho onde se veem os aviões e lá ficámos.

Até me faz impressão existir uma terra chamada Prior Velho. Toda a gente sabe que um prior já nasce velho.

Lá estava eu a observar aquele fenómeno social que ainda nenhum livro de psicologia de massas conseguiu explicar quando vejo o Rangel a entrar num avião.

Aí não me contive. Abri uma abertura na rede e fui atrás.

Isto já foi naquela parte da música em que o Miguel Araújo canta que um dia há de levar alguém à América. E não foi difícil entrar no avião porque o Rangel paga bilhete inteiro mas só utiliza meio. Meio dele, meio meu, ninguém deu por nada.

Por sorte ando sempre com um caderno na mala e fui anotando.

Chegados à América, eu sempre colada ao Rangel, começámos a ver pessoas. Muitas pessoas. Vimos também políticos, mas isso já não vos posso garantir que fossem pessoas.



O Rangel nem parece um rapaz da cidade. Em cada esquina dava um grito:

— Aponta, Catarina! Aponta isto!

E eu apontava. Uma loja de filigrana.

— Aponta!

Uma livraria com livros do Tio Patinhas.

— Aponta! — disse que lhe fazia lembrar o outro tio, o Marcelo.

Um café com pastéis de nata.

— APONTA!

Uma garrafa de vinho do Esporão.

— CATARINA, ESTÁS A VER ISTO?

Estava. Ao fim de duas horas já tinha apontado três restaurantes portugueses, dois galos de Barcelos, uma camisola do Cristiano Ronaldo e um homem chamado Manuel que era de Newark mas tinha uma tia em Viseu. Tudo lhe dava orgulho em Portugal.

A mim dão-me orgulho coisas mais consistentes. Sei lá. Salários a subir. Rendas a descer. Pessoas a conseguirem marcar uma consulta antes de morrerem. Cada um com as suas taras.

Entre a Quinta Avenida e a Sétima, que, se não estou em erro, é a Sexta, demos de caras com o Castelo Branco. O Castelo Branco não é uma pastelaria. Não confundam. É um senhor. O Rangel conhecia-o, embora não tenha conseguido apurar de onde.

Foram lanchar os dois e eu fiquei ali a observar a cidade que nunca dorme.



Também não percebo a admiração. Há milhares de pessoas em Nova Iorque que não dormem porque nem sequer têm uma cama.

Vi um homem sair de um edifício onde um apartamento custa mais do que uma aldeia no Alentejo e passar por cima de outro homem que dormia num cartão.

Vi limusines paradas em semáforos ao lado de pessoas a pedir dinheiro para comer.

Vi lojas onde uma carteira custa o salário anual de quem limpa a montra.

Peguei imediatamente no caderno:
“Quando chegar a Portugal escrever à Mariana Leitão.”

A Mariana provavelmente não sabe disto. É o que dá conhecer os países pela Netflix. Uma pessoa vê aquelas coberturas em Manhattan, mulheres com copos de vinho junto às janelas e homens a correr no Central Park e deduz que os americanos estão todos muito bem.

Depois do almoço infiltrei-me na comitiva portuguesa e entrei nas Nações Unidas.

Ah pois é...

Vocês têm uma amiga que ouviu o António Guterres despedir-se do mundo. Salvo seja.

Ele agora vai voltar para o Fundão, que no Fundão é que ele faz falta, e o homem também já precisa de descansar. Dez anos a tentar que a humanidade se comporte deve cansar mais do que apanhar cereja.

O Luís também lá estava. O Luís, já sabem, esteja onde estiver tem sempre aquela cara de quem está a pensar nas vindimas.

Por isso não consegui perceber se estava preocupado com Gaza, com a Ucrânia, com o clima ou se lhe tinham dito que este ano a Touriga Nacional vinha com pouco grau.

Também não vi muita gente a conversar com ele.

O Rangel, por exemplo, tinha coisas para fazer. Foi lanchar com o Zé, encontrar portugueses e cumprimentar um senhor chinês que, segundo percebi, cumprimenta os colegas aos beijos.

A diplomacia internacional avançou imenso. Antigamente invadiam-se países. Agora dá-se dois beijinhos e marca-se uma reunião.

Entretanto começaram os discursos.

Um dizia que era preciso acabar com as guerras. Outro concordava.

Outro dizia que era preciso combater a fome. Toda a gente concordava.

Outro dizia que era preciso respeitar o direito internacional. Concordaram todos outra vez.

Olhei para o planeta. Não se notava nada.

Anotei no caderno:
“ONU: grupo de whatsapp da humanidade. Toda a gente lê. Ninguém responde.”

Depois falou o Lula.

Aí fechei o caderno. Não apontei nada. Ouvi.

Era o que todos deviam fazer de vez em quando. Ouvir o Lula.

Quando saímos já era noite.

Não fiquei para o dia seguinte. Era o dia em que o Netanyahu ia explicar que o Irão está a 15 dias de ter uma bomba nuclear. Diz isto desde 1992 e eu tinha coisas para fazer.

Despedi-me do Rangel porque ele ainda queria procurar uma mercearia em Queens onde lhe tinham garantido que havia tremoços portugueses e eu tinha um avião para apanhar.

Vim embora da cidade onde dizem que as ruas não têm nome.

É mentira.

A cidade onde as ruas não têm nome é Espinho.

Em Nova Iorque as ruas têm nomes. Eu é que lhes chamaria outras coisas.

Rua da Miséria.

Avenida da Desigualdade.

Travessa dos que Dormem no Chão.

Largo dos que Passam por Cima.

Avenida dos que Têm Demais.

Rua dos que Não Têm Nada.

E, lá ao fundo, enorme, iluminada e cheia de bandeiras de países que passaram o dia inteiro a dizer que queremos salvar o mundo:

Praça dos que Podiam Fazer Alguma Coisa."

Vista da escultura “Não-Violência” ou “Arma com Nó”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, na Praça de Visitantes da ONU , na sede da ONU

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Política da Performance: O que é o Ritualismo Político e Como Ele Molda a Opinião Pública



A política não se exerce apenas através da promulgação de leis, da gestão orçamental ou do monopólio da força legítima; opera, em larga medida, no plano do simbólico. O poder necessita de ser visto, sentido e interiorizado para ser reconhecido. É neste cruzamento entre a sociologia, a antropologia e a ciência política que surge o conceito de ritualismo político (ou rituais do poder): o conjunto de práticas formalizadas, codificadas e repetitivas que utilizam símbolos, mitos e desempenhos cénicos para legitimar a autoridade, construir a identidade coletiva e manter  - ou alterar - a ordem social.

1. Origem do Termo, Obras Fundamentais e Autores-Chave
A concetualização teórica do ritualismo político resulta de uma evolução transdisciplinar com contributos fundacionais bem definidos:

O Conceito e o Livro de Referência: a obra mais influente sobre o tema é Ritual, Politics, and Power (1988), do antropólogo e político norte-americano David I. Kertzer. Kertzer formalizou a análise de como os rituais são indispensáveis para a política em todas as sociedades - desde as tribais às democracias industriais e regimes totalitários. O autor demonstra que a política depende do consenso simbólico e que os rituais moldam a percepção da realidade.


Pioneiros Clássicos:
  • Émile Durkheim: em As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), demonstrou como os rituais criam a "efervescência coletiva" e reforçam a coesão social. A sociologia política adaptou este conceito para demonstrar que o Estado moderno sacralizou certas práticas laicas.
  • Max Weber: identificou como a dominação carismática depende intrinsecamente do espetáculo e da encenação para manter a sua legitimidade.
Outros Autores Fundamentais:
Clifford Geertz: em Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali (1980), introduziu o conceito de "Estado-Teatro", defendendo que o poder não usava o ritual apenas como meio para governar, mas que o próprio ritual era a razão de ser do Estado.
Eric Hobsbawm e Terence Ranger: em A Invenção das Tradições (1983), revelaram como muitos rituais políticos aparentemente "imemoriais" (como cerimónias reais ou símbolos nacionais) foram deliberadamente criados em períodos recentes para gerar um sentimento de continuidade.
Murray Edelman: com The Symbolic Uses of Politics (1964), alertou para a dimensão do espetáculo político, onde os atos simbólicos servem frequentemente para apaziguar o público sem alterar a distribuição real do poder.

2. O Ritual do Estado vs. O Ritual dos Partidos Políticos
Para compreender o ritualismo no quotidiano, é vital distinguir a arena onde ele opera:
  1. O Ritual do Estado (A Sagração da Continuidade): é institucional, neutro e suprapartidário. A sua função é legitimar a própria ordem constitucional. Manifesta-se nas tomadas de posse presidenciais, nas aberturas do parlamento ou no 10 de Junho. Visa transmitir a ideia de que "os governos passam, mas as instituições e a Nação permanecem".
  2. O Ritual dos Partidos (A Identidade de Tribo): é militante, competitivo e vocacionado para a mobilização. Ocorre nos congressos, comícios e fecho de campanhas. A entrada do líder, o mar de bandeiras da mesma cor, os hinos partidários e os gestos icónicos servem para criar coesão interna e arregimentar eleitores contra os adversários políticos.
3. Exemplos Nacionais e Internacionais
Os rituais do poder variam entre a solenidade democrática e a hipertrofia autoritária:

Internacionais:

  • Reino Unido: a Abertura do Parlamento e as coroações reais constituem a expressão máxima do "Estado-Teatro" ocidental, simbolizando a continuidade histórica através da pompa.
  • EUA: o Inauguration Day e o Discurso do Estado da União utilizam o Capitólio e o juramento sobre a Bíblia para ritualizar a transição pacífica de poder.
  • Regimes Autoritários: os desfiles militares na Praça Vermelha (Moscovo) ou na Praça Tiananmen (Pequim) servem para projetar força externa e incutir disciplina interna.
Nacionais (Portugal):
  • Comemorações do 10 de Junho: o ritual cívico central do Estado português que reafirma a identidade e a coesão territorial.
  • Tomada de Posse do Presidente da República: inclui a atribuição da Grande-Cadeia da Ordem da Torre e Espada e as salvas de canhão, sacralizando o papel do guardião da Constituição.
  • O Estado Novo (1933–1974): o regime salazarista fez uso intensivo da ritualização através da Exposição do Mundo Português (1940), da Mocidade Portuguesa e da iconografia dos "Três F" (Fado, Fátima e Futebol).

4. Os Efeitos na Opinião Pública
O ritual político produz efeitos profundos na sociedade, oscilando entre a coesão e a manipulação:
  • Legitimação e Estabilidade: transforma a força bruta ou a mera vitória eleitoral numa autoridade moralmente aceite pela cidadania.
  • Coesão Social: cria um sentimento de pertença a uma comunidade coletiva, especialmente em momentos de celebração ou luto nacional.
  • Opacidade e Distração: como alertou Edelman, a profusão de espetáculos e manobras de marketing político pode servir para desviar a atenção do público de reformas estruturais impopulares, escândalos ou falhas graves de governação.
  • Esvaziamento Democrático: o excesso de encenação pode reduzir a política a um jogo de aparências, onde o discurso espetacular substitui o debate ideológico substancial.
Referências Bibliográficas
Durkheim, É. (1912). Les Formes élémentaires de la vie religieuse. Félix Alcan.
Edelman, M. (1964). The Symbolic Uses of Politics. University of Illinois Press.
Geertz, C. (1980). Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali. Princeton University Press.
Hobsbawm, E., & Ranger, T. (Eds.). (1983). The Invention of Tradition. Cambridge University Press.
Kertzer, D. I. (1988). Ritual, Politics, and Power. Yale University Press.
Weber, M. (1922). Wirtschaft und Gesellschaft. J.C.B. Mohr.